quarta-feira, dezembro 11, 2013

A NOSSA FALADURA - CCVI - PAFONSO /PALONSO

Joãozinho Palufo era assim uma espécie de unto sem sal: não empurrava nem fazia força, não estava nem fazia míngua, não pinava nem saía de cima. Para os que não saibam o unto sem sal resumia-se a enxúdia de galinha velha, liberta de película, batida em tábua com martelo também ele de madeira, até fazer uma papa, que depois se embrulhava num papel de cartucho, daqueles onde antigamente se pesava o açúcar, o arroz, a massa e demais mercearia a retalho, e tinha utilidades várias. A mim, duma vez que espetei um carapeto de silva no calcanhar do pé esquerdo, que infectou, a minha avó aplicou-me o unto sem sal, fez um atilho com um trapo velho, mas limpo em volta do tornozelo e calcanhar e o facto é que o unto "puxou" o carapeto, sugou o pus da inflamação e deixou-me o pé com pele de bebé. Mainada!  Sem dor e absolutamente inócuo.
Palufo era um palonso: andar ligeirinho, passinho curto, meneava o corpo esguio, mãos sempre entrelaçadas, salvo se transportasse alguma coisa. Era o moço de recados da casa Bargão. Aviava tudo e dava bem conta do recado: mercearia, bacalhau, chita, carros de linha, media vinho e azeite a quem queria comprar na casa da Lameira, ia aos correios, registava cartas, escrevia cartas a muita gente que não sabia escrever e cantava como muito tenor com disco gravado nunca seria capaz. A sua voz era límpida e sonora, suave e bem timbrada, sempre afinado e obedecendo com rigor ao ritmo e aos momentos de entrada. Era mesmo um regalo ouvi-lo e agora que o Natal se aproxima, era por ele que a maioria seguia, já que Rosa Rei ia sempre adiantada e Albertina Molhana ia sempre atrasada. Não só cantava limpidamente, como falava de forma irrepreensível. 
As más línguas difamavam Palufo, mas nunca se vislumbrou a mínima situação  que pudesse dar azo a que pudessem ser confirmados comportamentos de que era suspeito...
Nada pior que cair na bocas do mundo.O povo tem sempre gente que espalha qualquer evento de uma forma mais rápida do que labareda em pasto de panojo no fim do Verão. Palufo sabia tudo o que se passava  na aldeia. Era sempre dos primeiros a noticiar qualquer acontecimento e quer Tecla quer Irene Paca ou Chicorrela, quais arautos régios, perdiam quase sempre para ele.
Ainda assim Palufo não difamava. Contava o que ouvia, mas não emitia opinião. Não era o que se poderia chamar de malino, como as linguareiras referenciadas.
Não sei se uma vez vos falei já do chamado mal radical. A doutrina é do "chinês de Konisgberg", como Nietzsche lhe chamou, o eminente Kant, e resume-se à tese de que, de sua natureza, o homem é velhaco. Por isso se impõe uma lei moral que o trave na sua natural tendência para o mal. Como se vê é doutrina no antípoda do velho Sócrates, que pregava que só ignorante do Bem fazia o Mal. Aqueles que soubessem o que era o Bem, nunca praticariam o mal. O problema do Mal é assunto mais que polémico e não é nestas pobres crónicas do Basa que ele pode ser escalpelado. Adianta-se ainda uma outra perspectiva. Foi uma querela dos Universais, bizantinices com que os medievais se entretinham  e também os modernos posteriormente, até que chegou à actualidade e foi reavivado, e de que maneira, por essa grande pensadora que foi Hannah Arendt, a aluna dilecta do filósofo da Floresta Negra, Martin Heidegger. Na verdade era um problema sério porque chocava com a crença dogmática de que Deus tudo tinha criado. Mas só por absurdo é que se poderia admitir que Deus tivesse criado o Mal. Seria absolutamente contra natura que tal possibilidade fosse admissível. Como apareceu então o Mal e se impôs que fossem necessários os Mandamentos e as leis morais? Só podia existir uma causa: o homem , ele mesmo. Defendia-se que Deus só podia criar a Perfeição, de acordo aliás, com a sua própria essência: de uma causa perfeita não podia sair o que quer que fosse imperfeito. Mas não se podia negar a existência do Mal e isto chocava com a defesa de que Deus tudo tinha criado. Argumentou-se então que Deus agiu na Perfeição: criou o homem livre, o que muito mais perfeito do que se o tivesse criado condicionado como aos outros seres da natureza que não têm possibilidade de optar por decidir responsavelmente entre várias opções. Estão condicionados ao que a natureza lhes confere e ponto final. O homem, esse, é incondicionadamente livre e absolutamente responsável pelas suas acções. Ele pode decidir  praticar o Mal em detrimento do Bem, apesar de o conhecer. Foi infinitamente mais perfeito que Deus tivesse criado o homem livre do que condicionado, possibilitando-lhe mesmo que o pudesse ofender, que pudesse defender apostasias e cometer sacrilégios. Assim, Deus deixava de ser o criador do mal e a responsabilidade da sua prática recaía totalmente sobre o homem. Só existe o Mal porque existe o homem.
Palufo nunca emitiu parecer sobre esta temática.
Bom Natal.!
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quarta-feira, novembro 27, 2013

A NOSSA FALADURA - CCV - CASCOREL

Já por várias vezes aqui falamos da lei do menor esforço. O povo não se incomoda muito com o perfeccionismo da pronúncia de algumas palavras. Com facilidade altera os fonemas e refaz uma palavra. É   o que se passa aqui: a palavra correcta é coscorão, mas, como facilmente se depreende esta palavra não beneficia de um som atraente. Não admira que, a breve trecho, o coscorão passasse a cascorel. Da mesma forma, por exemplo que apologista passa a ser apugilista e barbecue aparece como borrocu e por aí fora.
Einstein dizia que era mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um preconceito. Similarmente, George Washington não se coibiu de dizer que mais que uma segunda natureza, o hábito vale dez vezes a natureza. Se o hábito resulta da repetição da mesma acção conferindo a quem o adquire uma certa semiconsciência do que está a fazer, num automatismo negligente que, por vezes nos arrelia. Como estamos habituados a ir sempre pelo mesmo caminho para casa ou para o trabalho, esquecemos muitas vezes de cumprir uma outra tarefa que apenas implicaria um ligeiro desvio.
O preconceito, por sua vez, é um juízo valorativo de sentido negativo, neutro ou positivo a propósito de uma situação, objecto, espaço ou pessoa, normalmente muito mal fundamentado e aceite de ânimo leve, muito difícil de anular, ou simplesmente, alterar.Ficamos convencidos de que as coisas são assim e não podem ser de outra maneira diferente. Insistimos na opinião mal fundamentada e até nos batemos por ela. Se alguém nos contraria, limitamo-nos a dizer: fica com a tua que eu fico com a minha. Facto é que, transformamos uma mera opinião em certeza dogmática.
Tal como o povo adapta e se adapta a pronunciação defeituosa, também nós nos acomodamos às nossas convicções e persistimos nelas teimosamente. É outro mal dos tempos correntes: a opinionite.
Pirolas era assim. Agarrado às suas crenças, ficava impenetrável a quem quer que, mesmo que lhe demonstrasse o erro em que incorria à evidência, tentasse contrariá-lo. Por causa deste seu feitio já poucos lhe davam trela e se lha davam, era mais porque Pirolas tinha a pipa ali à mão e, como que a conquistar um aliado para a sua maneira de ver, levava-o a beber um copito, enquanto ia defendendo muitas vezes o indefensável. Teimava a bom teimar que os americanos nunca por nunca tinham pousado na lua. Aquilo que apareceu na televisão era uma pantomina como a dos bonecos animados e faziam de conta que era verdade. Aquilo era tudo uma aldrabice pegada, mas a ele, não passavam eles a perna. Vai lá vai. A base da sua tese era tão simples quanto isto: se eles lá poisassem caíam cá para baixo. Mais teimosos que ele só mesmo os aristotélicos a quem Galileu mostrou que a lua era acidentada, que Vénus tinha fases, que Júpiter tinha satélites. Eles viam, confrontavam-se com a evidência, mas como o mestre tinha dito que os céus eram incorruptíveis, nada havia que pudesse beliscar essa incorruptibilidade.
Mas, volvamos aos nossos coscorões, digo, cascoréis.
Como já há muito tempo que não vos deixo uma receita, aí vai: preparai todos os ingredientes: obra de meio quilo de farinha, quatro ovos, meia caneca de azeite, um cálice de aguardente, raspa e sumo de uma laranja,mais ou menos dez pacotinhos de açúcar e um  chirrichichi de sal. Bate-se tudo junto com uma vareta: os quatro ovos, o azeite, o meio kg da farinha, a aguardente, o sumo e a raspa da laranja e o acúcar, até ficar uma massa relativamente consistente. Se for preciso pode deitar-se um pouco de água. Depois de tudo bem amassado, deixa-se repousar durante umas duas horas após o que numa mesa polvilhada com farinha se amassa bem a massa de modo a se desprender completamente dos dedos. Em caso de necessidade polvilha-se com farinha. Estende-se com o rolo da massa, até à espessura de 2mm e com uma faca ou um carrinho rendilhado, fazem-se rectângulos de tamanho a gosto e cortam-se no espaço interior com duas feridas. Leva-se a fritar em óleo bem quente dos dois lados e polvilha-se, ainda quente, com uma mistura de açúcar com canela. Arrefinfa-se com café de borra.
O Natal está a chegar e nada como ensaiar.
Pode ser que ainda vos visite antes da missa do galo.
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domingo, novembro 17, 2013

CCIV - A NOSSA FALADURA - ABRE-NÓ

General Mola era o apelido de um cabo da G.N.R. reformado. Homem alto, espadaúdo, não dava passos mas chancas.Calçava para aí um 46, tanto que nunca encontrou sapatos à medida do seu pé. Zé Guerrilhas era o sapateiro que lhe fazia o calçado e por mais de uma vez lhe ouvi dizer que o general podia dormir empinado. Sua companheira dilecta era Leca, uma cadela já quase sem dentes, que o acompanhava nas suas deambulações de caçador. Quase nada caçava, mas fartava-se de espalhar chumbo. Chamavam-no de Abre-Nó  devido a esta azelhice. Coiote Pete, bardina e malino como era, apanhou uma lebre com malina, trouxe-a viva para casa e combinou com Chquim Parricho e João Petrol convidarem o General Mola para ir com eles à caça. O velho desconfiou da oferta  mas perante os argumentos de Coiote lá se decidiu ir com eles. Parricho tinha ido para a frente e prendeu a lebre ao toro de uma videira com um arame. A lebre, adoentada, não se tinha de pé e até parecia que estava na cama. Depois de umas voltas e de já terem morto um coelho que ofereceram ao General para, garboso, o trazer pendurado à cintura, lá o foram levando até à lebre e Coiote: «Oh Sr. Flor, olhe além uma lebre na cama!» Onde? perguntou o General. Com calma e de voz baixa sempre a fazer a parte, lá lhe foram dando as indicações até que Mola vê a lebre. "Atire-lhe um foguete à cabeça, força!". Mola deu uns passos em frente e nem deu conta que Coiote e os outros se piravam. Atirou e a lebre ainda mandou um escrito e caiu inerte. Mola chama Leca e lá vão até à lebre Quando se baixa para a apanhar e a começa a puxar é que se deu conta da marotice de Coiote. Solta uns indizíveis impropérios e, creio que se os visse lhes atirava. Eles, longe, riam a bom rir e claro, vieram para os xendros a contar a peripécia. Do mal o menos, General ainda matou um coelho naquele dia e atravessou a aldeia com os dois à cintura. Não perdeu tudo.
Todos nos rimos das misérias dos outros e muito poucas vezes cumprimos a chamada regra de oiro da moral: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti", ou, muito simplesmente: "põe-te no lugar do  outro".
Podemos dizer que a grande disputa entre as teses mais difundidas da moral - a deontológica e a utilitarista - diferem logo no ponto de partida. A primeira é  apriorista, o seja é anterior e independente da experiência ao mesmo tempo que lhe garante a universalidade, formalista na sua essência e o dever impõe-se pela representação de uma lei que deriva de uma máxima. O princípio subjectivo do querer  a máxima - transforma-se numa lei e portanto abandona a subjectividade para se tornar objectiva. Como qualquer lei. Não se preocupa com as consequências e o valor da acção está na simples formulação: age de tal modo que a máxima da tua vontade se possa transformar em qualquer circunstância em lei universal". É, portanto, uma moral pura e ninguém pode ser culpado se a intenção da sua acção puder ser por cada um vista como a única alternativa: aquilo que eu faço é aquilo que qualquer outro faria na minha situação. A outra, a utilitarista, é consequencialista, portanto "a posteriori" e o valor da acção depende do bem estar da maioria, da felicidade da maior parte. É, por isso uma moral eminentemente subjectiva, interesseira e facciosa .
No caso do nosso General Mola e da partida que lhe fez Coiote Pete está bem de ver que se situa nesta segunda. Somos mesmo tentados a dizer que nesta corrente da moralidade se invertem os pólos: o que deve ser feito é aquilo que se não deve fazer. Não se infira daqui que a moral deontológica está livre de críticas justas também elas, mas que não vem ao caso aqui aprofundar.
Mas, já que andamos neste âmbito da acção humana é preciso não esquecer que há muitas outras morais: hedonista, cínica, estóica, ambiental, da responsabilidade, até dos direitos dos animais...Queria no entanto deixar aqui a necessidade de todos convergirmos para uma ética mínima, seja em que circunstância for, até mesmo na forma como tratamos o nosso corpo: será dever moral, por exemplo, tatuarmos parte ou a sua totalidade? roer as unhas? agredi-lo sob diversas formas, por exemplo no boxe? e por aí fora.
E ficamos por aqui. Em breve voltaremos.
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quinta-feira, outubro 24, 2013

A NOSSA FALADURA - CCIII - TANGANHO

Menina Aguércia era a única filha de três irmãos. Chquim Pardalinho, magro, fumador inveterado de Provisórios, casou em Espanha com D. Rema, na altura beleza excelsa, vencedora de concurso de beleza em Cáceres, que lhe deu três filhos e que ainda hoje por cá gravita. Pardalinho, explicador de matemática, mais que famoso na década de 70 do seculo passado, voz grossa e tonitroante, de pedagogia à bordoada, mas, o que era facto, era que nunca lhe faltavam clientes. Os pais gostavam de gente rija que obrigasse a rapaziada a aprender, custasse o que custasse, e a bordoada era de borla.
Tinha sempre sala cheia e os resultados iam provando a eficácia da sua metodologia.
As más línguas diziam que só tinha um testículo, mas isso não o impedia de demonstrar a sua testosterona.
O terceiro membro da família era o dr João António Landeiro, conhecido em todo o concelho por ser o médico do cura ou mata. Tendo uma casa bem no centro da aldeia, ele e Aguércia, passavam a maior parte do tempo para os lados do Ferrador, numa quinta abastada, bem perto das oliveiras de Melão.
O Dr Landeiro era conhecido pelo seu Peugeot 404, verde: quando ele apitava ao cimo de aldeia mesmo junto à casa do professor José Tanganho, (vedeta que um dia destes aqui vos trarei ), e depois a dar vistas para a casa do Sarapião, toda a gente gritava: ARREDA;ARREDA, que vem aí o maluco do Landeiro. E era verdade.
Apenas duas pessoas afastavam o povo xêndrico da estrada: o dr. Landeiro com o seu Peugeot 404 e o entretanto falecido e homenageado Padre Zé Pedro, no seu fabuloso Ânglia cinzento. Os outros tinham que esperar que o povo se decidisse a ir para os largos. Vai lá vai!...
Foi com Aguércia que ouvi falar pela primeira vez de arroz de manjericão. Ela tinha ido a Portalegre e comeu arroz de manjericão com cação frito. Trouxe umas polas da dita erva e tratava-as divinamente. Por mais de uma vez me convidou a provar aquela delícia.
As mamas caíam-lhe até abaixo do umbigo - que ela não usava soutien - e, não raro, quando se baixava para medir azeite ou tirar azeitonas da talha para vender,as mamas saíam-lhe pelo decote, fenómeno que a arreliava a ponto de displicentemente as aventar para trás das costas a praguejar.
Pareciam dois melões flácidos...
Só vinha à aldeia aos Domingos para assistir à missa: tinha cadeira privativa à esquerda de quem entrava na Igreja, sempre reluzente, com almofada no genuflectório e no apoio dos braços e assento dobrável, também almofadado. Um privilégio que poucos tinham.
Quando ela levantava a voz, tudo ficava em sentido, que a estridência do esganiçado assustava quem quer que fosse.
O mesmo se passava com Pardalinho que não sabia falar, mas apenas ralhar.
Aguércia saía da quinta do Ferrador por volta das 10, não gostava de bengala ou bordão, mas apoiava-se sempre num tanganho que, dizia, sempre lhe dava para matar alguma cobra que se lhe atravessasse ao caminho ou até para dar alguma bordoada nalgum garoto mais atrevido que lhe reclamasse uma amostra das mamas avultadas que sobressaíam volumosas da blusa. Aí afinava, esganiçava a voz e os garotos desapareciam não fosse a mãe aparecer e terem o merecido castigo.
Era ecologista a menina Aguércia: tratava de tudo na quinta sem qualquer fertilizante e tinha um jardim de ervas digno de qualquer ervanária. Sabia o nome e os efeitos de cada uma:  fel da terra, néveda, manjericão, mantrastes, manjerico, pimpinela, segurelha, sarpão, louro, manjerona, alecrim, alfazema, orégãos, poejos, bolsa do pastor, que sei eu...
À entrada da casa tinha sempre dois vasos de vergamota com que se perfumava por debaixo dos sovacos, aspergindo-se com uns raminhos da dita. Ainda, por mais de uma vez me explicou as virtudes de cada uma. Já as perdi... E é pena que este saber, vai-se.
Isto tudo faz-me lembrar aqueles que defendem que o senso comum é para desprezar! Qual quê?! O saber de senso comum, se bem que seja superficial, empírico, mal fundamentado, tradicional, conservador, subjectivo e muito mais, é a base de todo o saber. Afinal, todos os outros assentam  neste saber de experiência feito, que permite a um bosquímane sobreviver no deserto, enquanto um biólogo morre de sede se não for provido de água. O senso comum é primário mas, por isso mesmo, é a raíz de todos os outros saberes. Podemos viver sem conhecer leis científicas, doutrinas filosóficas, estilos estéticos e por aí fora, mas nunca sem senso comum.
E mais: o seu primo bom senso também dá muito jeito.
Por causa deste bom senso é que entendo que já vos massacrei com tanta palavra balofa e por isso me despeço...
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terça-feira, outubro 08, 2013

A NOSSA FALADURA - CCII - REDOLHA /RODOLHA

Ritinha Penedo era mesmo o que se podia chamar de redolha: pequenina mas bem feita com tudo no sítio, proporcional ao tamanho. Podia dizer-se mesmo que era bastante jeitosa e que não era pela estatura que não despertava atenção. A única coisa que tinha desmesurada era a língua. Esfarrapava em tudo e em todos e ai de quem lhe caísse na análise. Virava tudo de pantanas e, por isso, poucos eram  os que privavam com ela. Não admira que tenha ficado para tia. Eu, como tinha que periodicamente ir abastecer a casa de gás, tinha que tirar parte da manhã para ouvir umas lavagens de roupa suja a propósito de situações e pessoas da aldeia xêndrica. Era a vida !
Tal como um presidente da República conhecido, nunca tinha dúvidas e sabia sempre tudo. Mais ainda: conhecia todas as causas. Não afirmava nada sem fundamentar numa causa. Nem que fosse a mais estapafúrdia, a convicção com asseverava era tal que fazia parecer verdade o inverosímil. Quando não havia causas na Terra, subia ao céu e invocava divindades em seu auxílio. Era em vão que alguém a desdissesse.A consequência era que caía nas suas más graças e não tardava que a espezinhasse com a sua língua viperina. Da mesma forma tecia os mais alto louvores para os que lhe diziam AMEN e anuíam a tudo o que dissesse. A forma que eu tinha de me libertar daqueles massacres era estar sempre de acordo. Não valia a pena discutir com espíritos herméticos.
Para rodolha não estava nada mal: agigantava-se .
Lembrei-me desta personagem para vos convidar a uma pequena ruminação mental sobre o conceito de causa.
Por exemplo: para os clássicos da antiguidade os céus eram incorruptíveis porque eram perfeitos e o que está perfeito não pode alterar-se. Para os medievos o decisivo era martirizar o corpo nesta vida terrena por causa de merecermos a salvação; para os modernos a causa obrigava a que o efeito se seguisse sempre da mesma maneira desde que se mantivessem as circunstâncias. O método experimental, base de todo o pensar positivista defendia mesmo que só tinha direito de alforria em ciência aquilo que pudesse ser demonstrado nos factos. Ora como se sabe as demonstrações não têm argumentação ou seja, não se discutem. As coisas são assim porque são e não podem ser de outra maneira, porque é assim  que se verifica na experimentação factual. O problema começa a complicar-se quando o alcance do mundo científico se estende para lá dos confins dos laboratórios experimentais. Aí, a experimentação e a verificação factual não são possíveis, mas a ciência, no seu afã de mais descobrir, não pode parar no que já domina e arrisca para campos ignotos. Aí os factos e as coisas já não são as nossas coisas. Podemos dizer mesmo que são coisas não-coisas. Isto é, há muitos objectos de ciência que já não cabem na concepção tradicional de objecto. Habituamo-nos a aceitar que tudo o que existe tem que existir num tempo e ocupar um espaço. Mas não é bem assim: no mundo do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande (no microcosmos ou no macrocosmos) o que alimenta a ciência já não são as causas, porque os objectos que são alvo de estudo já não se enquadram nas velhas concepões. O determinismo e a segurança cedem lugar ao indeterminismo e à incerteza. A realidade escapa-se-nos e a tridimensionalidade é insuficiente para configurar estes novos objectos. Por isso, há quem lhes chame sobre-objectos. Os fenómenos deixam de poder ser entendidos nos quadros de uma ciência normal e temos que buscar uma ciência extraordinária. Vemo-nos na contingência de ter que mudar de paradigma explicativo embora isso nos custe. Era isto que a nossa redolha nunca fazia: só havia uma bitola- a dela -.
Voltemos ainda às nossas deambulações: as tais coisas não coisas são objectos de uma técnica aperfeiçoadíssima. Justifica-se então que lhes deixemos de chamar fenómenos mas os apelidemos de fenomenotécnicos. Exemplifiquemos: ao olharmos para uma gota de sangue que vemos? que é líquida durante pouco tempo, já que depois solidifica, que é vermelha e que é quente.Se, porém, submetermos essa gota a uma máquina que a analise, então a nossa gota aparece com um sem número de componentes que nela estavam escondidos ao nosso olho mas que a análise desvendou e nos trouxe à luz. Da mesma forma, quando vamos a um médico e ele nos pede para fazermos uma série de exames, ele fá-lo, primeiro, porque à primeira vista e apenas baseado nos sintomas que nós lhe dizemos e  noutros que ele pode descortinar, quer ter mais fundamento, para depois poder actuar e, segundo, porque o importante para ele irão ser os resultados desses exames e não propriamente a pessoa que está à sua frente. Quando lhe levamos os exames, ele já não olha para nós mas para os resultados que os aparelhos técnicos lhe fornecem. A sua decisão acerca do que irá prescrever não está tanto em função da pessoa mas daquilo que a tecnologia lhe mostrou... Ora aqui está: o que é decisivo nos tempos que correm é que substituamos a palavra causa e o seu conceito pela palavra função com tudo o que isso implica. Entramos no mundo das probabilidades e como bem disse Popper" a maior das improbabilidades ainda é uma probabilidade". 
As coisas já não podem ser explicadas por uma causa única, mas justificadas em função de uma multiplicidade de variáveis que podem ser lidas de diferentes formas por diferentes especialistas. Reparai apenas como os números das contas correntes do Estado são lidas pelos do Governo e seus apoiantes em confronto com os da oposição.Os números são os mesmos mas as consequências são todas outras...Tudo por causa da função, acrescento eu.
Para não parecer um pavão como a nossa redolha, hoje fico-me por aqui. Mas hei-de cá voltar.
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terça-feira, outubro 01, 2013

QUINTA DO LÍRIO – VINDIMA MMXIII                                                          
 2013-09-27

ORDEM DE TRABALHOS


1.       SAUDAR OS CONFRADES

2.       ARMAR-SE DA FERRAMENTA

3.       CUMPRIR AS RECOMENDAÇÕES: VINDIMAR É SELECCIONAR  GA(T(CHOS E NÃO APENAS COLHER

4.       ESCOLHA E RESERVA DE UVAS PARA COMER PARA QUEM QUER

5.       COMPRIMIDO PARA O SOL

6.       INÍCIO DA FUNÇÃO

7.       DEGUSTAÇÃO
®     VEGETAL ROXO EM FORMA DE TESTICULAR DE  BOVINO, ALBARDADO EM POLMA LEVE
®     PRESUNTO OLIVÍCOLA SIMPLES OU TEMPERADO AO ALHINHO OREGONADO
®     GUITARRA PORCINA EM LASCA FINA
®     ENTRIPADOS FATIADOS
®     CALDO RICO EM LEGUMINOSAS CASEIRAS ESVERDEADO COM VERDURA DE GOVERNANTE NACIONAL
®     FIEL AMIGO GRATINADO À CONDE DA GUARDA COM ADAPTAÇÕES DO GRANDE MESTRE CULINÁRIO
®     AMARELO BICUDO PUXADO E ENRIQUECIDO COM MÃO DE CORNUDO ENGANADO
®     ACESSÓRIOS VÁRIOS
®     LÍQUIDO LÍMPIDO DA FERMENTAÇÃO UVEIRA DO ANO TRANSACTO BRANCO E TINTO
®     DESTILADOS MAIS QUE MUITOS
®     ARÁBICO AROMA
®     ET ALIA

8 - DESPEDIDA


PS:  POSSIBILIDADE DE FRESCA LOIRA


Grão-Mestre de todas as cerimónias: CHANGOTO



intigas:







domingo, setembro 15, 2013

A NOSSA FALADURA - CCI - MO(U)(T)CHO -

 O moutcho é a  ave da sabedoria. O saber só se adquire bem tarde. Desde logo porque é preciso distinguir entre saber e conhecer. Não me vou alongar hoje nesta distinção, mas creio que basta dizer-vos que eu sei que Nova Iorque existe mas não conheço patavina dessa cidade. Adiante, pois. 
Não foi sem razão que o grande Hegel (concorde-se ou não com ele na vastidão filosófica) disse que " a ave de Minerva só levanta voo ao entardecer". Metaforicamente deixa claro que só tarde, já na velhice, o saber verdadeiro acontece. O povo, no seu saber de veterania mais que muita faz a pergunta e dá a resposta: "porque é que o diabo sabe muito?" - Porque é velho!"
Não sendo ainda um maduro que possa considerar um motcho no saber, detive-me  - os velhotes já vão tendo tempo para tudo - detive-me, dizia, a pensar num pormenor que passará longínquo àqueles, que num afã sem sentido, têm pressa para tudo e nunca têm tempo para eles. Resolvi, pois, ter tempo para mim e, depois, contar-vos o resultado desta ruminação intelectual.
Fala-se muito em consciência, mas a grande maioria de nós solta a palavra da boca como se a tivesse aprendido como o papagaio. Reproduz, imitando, sons, mas não sabe o que diz. Muito simples: não tem consciência do que diz. Por isso, às vezes, diz o que não sabe e outras vezes, nem sabe o que diz.
Decomponhamos a palavra, para a lermos na sua essência: cum+ scientia, donde derivou para o português com + ciência e, posteriormente consciência. A preposição CUM indica companhia, parceria, mas também independência. Ou seja: a minha companhia não sou eu. É outro. Logo, aquilo que eu penso é outro de mim, portanto, diferente de mim, ou como queria Fichte, é um Não-Eu em mim. Entende-se assim que aquilo de que estou consciente não esgota a minha consciência, cabe nela, mora lá mas não a preenche. Significa então que o que está na minha consciência, não é a minha consciência. Tenho consciência de que estou consciente do que tenho na minha consciência, mas confundo o que lá tenho com aquilo que ela própria é. Vamos lá simplificar: a minha consciência é o continente e o que eu tenho nela é o conteúdo. É o mesmo que dizer que o que eu penso não é o mesmo que o meu pensamento. Não há conteúdo maior que o continente e, assim, quer a minha consciência quer o meu pensamento são sempre maiores do que aquilo de que sou consciente, ou do que aquilo que penso. É simples, não é?
Na verdade, CONHECER ( a scientia de que falamos acima) implica domínio, capacidade de explicação, previsão, controle,...Ora, o que se passa é que aquilo que habita a minha consciência nem sempre está nos meus domínios. Por exemplo, estou consciente da minha ignorância relativamente a muitos assuntos - basta que falemos do universo e de tudo o que dele é desconhecido - logo, eu não sei nada acerca do há para conhecer do universo, mas sei exactamente isso: que não conheço o universo. Ou seja, na trajectória do que nos trouxe até aqui, NÃO CONHEÇO, MAS SEI. Ou melhor: sei que não conheço. Talvez fosse então melhor que vivemos numa comsapiência e não com uma consciência. 
Vem-me à mente aquela famosa questão do que convencionou chamar-se METEMPSICOSE - a crença na transmigração das almas e, consequentemente a inevitabilidade da existência de outro mundo para além deste, que lhe seria anterior e se prolongará ad aeternum para além dele. Burnet diz muito bem, a meu ver, que não devemos falar de metempsicose mas de METENSOMATOSE, pela simples razão de que é a alma que migra de corpo para corpo e, em grego, corpo diz-se SÔMA e alma é que se traduz por PSYQUE.
Fica, assim, claro que nem sempre dizemos o que sabemos e muito menos aquilo que conhecemos. Volvamos à sabedoria popular: « o calado diz tudo». 
É um facto que os "velhos" sabem ouvir. Falam quando lhes pedem opinião. E que bom seria se os ouvíssemos num mundo como este que sofre de uma doença incurável : a opinionite. Todos falam sobre o que quer que seja, julgam-se autoridades em todos os assuntos, mas nem conhecem nada e muito menos sabem o que quer que seja. Vivem na ilusão do saber. Não têm consciência da sua ignorância, o mesmo é dizer que não conhecem quanto deviam estar calados. É por isso que o silêncio também é música e o saber ouvir é uma virtude.
Tal qual o moutcho que vira e revira a cabeça para todos os lados para não lhe ficarem dúvidas donde vem o som da presa que quer apanhar. E fá-lo sempre quando já não há barulhos perturbadores: ao anoitecer.
Não querendo ser um sábio sempre vos digo que tenho ciência dos meus limites. Por isso me fico por aqui.

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quarta-feira, agosto 21, 2013

A NOSSA FALADURA - CC - ÀS ABAS

Terá sido a partir de meados da década de 60, postulo eu, que as festas de Verão, nas aldeias e vilas deste país ganharam a dinâmica e o figurino que actualmente as caracteriza. Esse novo figurino cresceu  e instalou-se às abas da chamada “modernização” do mundo rural, por via da sedimentação de padrões de vida importados do modo de vida urbano que vêm operar mudanças significativas nas práticas colectivas e nas referências simbólico-culturais das comunidades localizadas no dito "mundo rural". Os (e)migrantes terão assumido protagonismo decisivo no processo.

Invariavelmente, todas as festas nas comunidades rurais têm na sua origem o fervor religioso e o pretexto da celebração do dia do santo padroeiro ou de outra qualquer figura do panteão de santos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Constata-se, todavia, que a festa tem vindo progressivamente a dessacralizar-se. Uma das principais características da nova festa de Verão é o seu carácter eminentemente profano, independentemente de ser realizada sob a auréola do santo padroeiro. Mesmo que não declarado, é notório o esvaízamento dos tradicionais motivos simbólicos que lhes deram origem, estejam eles ligados a celebrações religiosas ou aos ciclos agrícolas. Pese embora o motivo religioso (o padroeiro), a verdade é que, exceptuando a missa e a procissão, tudo o resto é profano.

A nova festa rege-se por novos valores que muito ficam a dever àqueles padrões de vida importados do espaço urbano, influência essa que se inscreve, aliás, no processo mais vasto de transformação das comunidades rurais, observável em praticamente todas as dimensões da vida social local. É a cultura dominante, a chamada de massas a engolir irreversivelmente as culturas locais.

Caricaturalmente, a festa tipo realiza-se num recinto quase exclusivamente reservado para o efeito. No topo do recinto, jaz um palco coberto, onde actuam os artistas músicos que animam a festa, preferencialmente da área da designada música pimba cujo espectáculo decorre à maneira do “concerto” musical citadino, cheio de cor e movimento, habitualmente a cargo de 2 ou 3 bailarinas que se apresentam provocadoramente vestidas (ou será despidas?). A maioria da plateia assiste quase impávida, uma minoria cede ao impulso de dançar nas cantigas mais populares, cuja estrutura musical é simples, pontuadas por refrões fáceis de letras brejeiras. Estrategicamente posicionado  funciona um bar corrido, permanente e maioritariamente ocupado por homens, às abas  do qual existe uma secção com um conjunto de mesas e bancos para fruição gastronómica. A principal bebida consumida é a cerveja, servida gelada em copos de plástico, com pouca espuma. Nas comidas, o frango assado é rei, complementado com bifanas, moelas e pipis. Tudo conjugado e preparado para alimentar uma atitude eminentemente passiva e consumista.

Na organização está uma “comissão”, nascida às abas da dinâmica e da vontade de um grupo de voluntários, motivados, uns pelo fervor religioso, outros por puro bairrismo, outros prosseguindo uma estratégia de afirmação identitária, na medida em que a festa permite a apropriação social de determinados momentos e acções a que atribuem elevado valor simbólico no quadro sócio-cultural da comunidade de origem.

Dia S. Bartolomeu, 24 de Agosto de 1973. É dia de semana, dia de trabalho em todo o mundo, excepto na aldeia dos xendros que saem à rua exibindo as suas mais vistosas indumentárias. A batalha trava-se entre as que insistem no corte tradicional – inspiradas ainda na matriz cultural que iria em breve ser mortalmente ferida na madrugada que Sophia esperava, o tal dia inicial inteiro e limpo – e outras mais arrojadas, viajadas directamente da fresca e desinibida Gália. A matriz regista a maior afluência do ano, logo aproveitada pelo pregador convidado para se alongar no sermão. O povo feminino abana-se freneticamente com coloridos leques timbrados com motivos tauromáquicos.

Manda a tradição que imediatamente a seguir à eucaristia se leve a estátua de Natanael com a faca na mão direita e o diabo preso na mão esquerda, a dar um passeio pela aldeia em procissão para ser depositado durante algum tempo na capela do Espírito Santo. O ambiente cénico, para além do numeroso povo que preenche completamente a rua, inclui o pálio que cobre o clero com a sua sombra, os andores, os estandartes e, inevitável, a banda de Aldeia de João Pires, complementado por um ambiente sonoro onde pontificam os rebentamentos secos dos foguetes lançados pelo igualmente seco Miguelito e, indispensável e marcante, o sincopado dlim dlim dlão, dlim dlim dlão, dos sinos da torre da Igreja.

Naquele tempo, havia forte disputa entre a garotada pelo direito de dar ao badalo – do sino - durante toda a procissão. Chegava a ser combinada uma escala para permitir que todos tivessem tamanha honra, dispostos a aguentar o zumbido que havia de ficar nos ouvidos durante um par de horas por efeito da prolongada exposição ao desaconselhado volume de decibéis que era atingido naquela exígua câmara. Naquele ano, o sacristão tinha autorizado João Feijão, Tonho Mamanaburra, Domingos Albardinhas e, excepcionalmente, o Jorge Braga - porque este vivia em Lisboa e só lá estava de férias - a revezarem-se na produção da banda sonora. Iniciada a corrida pela estreita escadaria que conduzia ao cimo da torre, na ânsia de ganhar o direito a ser o primeiro a agarrar os ditos badalos, o Braga levou inadvertidamente o pé esquerdo a embater numa espécie de pedregulho que jazia às abas do complexo sistema do certeiro relógio que marcava o ritmo de vida de toda a aldeia, cuja queda foi bem audível em toda a nave. Não tardou muito que Xquim Camião aparecesse esbaforido, na sua qualidade de guardião e afinador do relógio, e se desse conta da tragédia: por entre o ruido ininterrupto do dlim dlim dlão, dlim dlim dlão e os sons guturais que caracterizam a sua difícil fala, os garotos conseguiram perceber, ainda assim, que o dito “pedregulho” era uma peça importantíssima para os equilíbrios da complexa obra de arte da relojoaria concebida e montada por esse génio e mestre autodidacta que se chamara Manel Ferreiro. Inconscientes e ignorantes sobre a calamidade que tinham provocado no relógio, a preocupação dos gaiatos resultava apenas da ameaça deixada pelo Camião de que iria fazer queixa ao senhor prior e ao regedor, gesticulando muito e apontando em especial para o Braga. A antevisão da sova que o esperava notou-se bem no fraco vigor e no ritmo menos rigoroso com que ele abanou os badalos na sua vez. O receio era bem fundado, considerando o respeito temeroso que toda a gente naquele tempo votava à figura do regedor e o padrão de actuação dos pais em qualquer caso de comportamento desviante dos filhos.

A tarde foi de expectativa. Nem os pirolitos na festa estavam a saber como habitualmente. O Braga havia de ficar mais aliviado quando o amigo João Barbosa, filho do Presidente da Junta, chegou ao recinto e contou que o Camião tinha ido lá a casa a acusá-lo de ter feito o estrago no relógio. Ora, era impossível que o Barbosa tivesse praticado tal crime, porquanto ele ia na procissão vestido de anjinho. O Camião, que ia a contar ficar bem visto e com o copinho do famoso morangueiro produzido na casa, saiu com a garganta mais seca, levou um valente responso da senhora mãe do Barbosa e a ameaça de queixa por falsos testemunhos. A confusão do camião tinha uma explicação: eram evidentes algumas parecenças físicas entre os dois amigos Jorge e João.

Safou-se de boa o Jorge Braga. Às abas disso, foram ambos saborear calmamente um pirolito. Alguns dias mais tarde soube-se que o Camião tinha concertado competentemente o relógio da torre.


Ainda hoje ouvi bater o meio dia e me lembrou que eram horas de almoço.


Notas:
1. A história tem uma pontinha de verdade e devo-a ao meu bom e antigo amigo Jorge Manteigas que às abas disso tem direito a figurar como personagem principal. Um abraço para ele.
2. Com este texto, atingiu-se o post nº 200 da rubrica "A nossa faladura". Eu seja ceguinho se contava chegar tão longe...

quarta-feira, agosto 07, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIX- BO(U)NICRA ou BENICRA

Assunto que nunca foi muito do meu agrado, em matéria de língua portuguesa foi o da classificação das palavras em homónimas, homógrafas e homófonas. A razão é que todas as homónimas são homógrafas e homófonas e todas as homógrafas são homónimas e homófonas mas já não é verdade que todas as homófonas sejam homógrafas. Só por aqui já se vê que não é à primeira que se pode classificar a palavra da faladura de hoje. Deixo, pois, ao vosso critério.
Já lá vão uns anos valentes... começava a debater-se o acordo ortográfico que acabou (vergonhosamente) por entrar em vigor quando e, numa reunião ocorrida numa Instituição de Ensino Superior, propus a um dos elementos da equipa que discutia o tal acordo numa intervenção que era mais ou menos assim:« Se vão mexer na língua, mexam de uma vez ou não lhe toquem... mas se mexerem então crie-se um grafema para cada fonema, ou seja, que cada letra tenha sempre o mesmo som e não haja nem dois ss ou cedilha, que o x tenha um único valor fonético e não como agora que se lê como x(xisto), z (exame) cs (sexo) s (expulsar)..., acabem-se os diacríticos como o til e a nasalação seja sempre biliteral,... Enfim, dei uma série de sugestões, não sem alguma ironia que fez sorrir muitos dos circunstantes...Talvez assim se evitasse a minha dificuldade...
Hoje estou com vontade de escrever...  Algumas das palavras que vos vou deixar não fui eu quem primeiro as escreveu, mas não me importava de ter sido. Vou, portanto fazer citações. A primeira é retirada  do Diáro de notícias  de Quinta -Feira, dia  25 de Julho, nº 52698, pp 55 e pertence a Manuel Maria Carrilho, sob o título "ESQUEÇA AS PALAVRAS - E APROVEITE PARA CONVERSAR. " As notícias tornaram-se tão tóxicas para a mente como o açúcar se revelou para o corpo... As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas...Se calhar o melhor remédio é seguir o conselho de Rolf Dobelli que propõe dez pontos em que vale a pena reflectir... Esses dez pontos são: 1- as notícias enganam, 2- são irrelevantes, 3- não explicam, 4- são tóxicas para o organismo, 5- aumentam os erros cognitivos, 6- impedem de pensar, 7- funcionam como uma droga, 8- fazem perder tempo, 9- tornam-nos passivos, 10- matam a criatividade ... Um bom desafio para o mês de Agosto é seguir o conselho de Theodore Zeldin que escreveu um fantástico Elogio da Conversa. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento e a criatividade, desintoxicar a mente e explicar as ressonâncias com o mundo". Conclui-se que mais vale conversarmos e sermos activos num diálogo do que ficarmos de olho escancarado nas notícias que nos entram porta adentro. Que saudades dos belos serões de antanho! Aí sim, debatiam-se os verdadeiros problemas da casa e passava-se alta cultura de geração para geração. Nada disso, agora. Vamos então conversar neste verão em vez de nos determos perante ecrãs, sejam eles quais forem.
 A outra citação vem num livro de Afonso Cruz (que aconselho vivamente), sob o título JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA  (Alfaguara), pp.223 :- " Eu por vezes sinto-me vazio, a minha ciência é desprezada. O conhecimento não interessa para nada. Os conhecimentos é que são importantes. Isto é um país de amigos onde, curiosamente, todos são meus inimigos. Ninguém se digna a perder tempo a ler o que ponho no mundo, com toda esta sabedoria que me caracteriza. A sociedade é feita de dinheiro. A carne dela são cotações, cheques, cartões de crédito. Vende-se o que dá dinheiro. O que importa não importa. É o fim dos tempos, o homem volta a ser um macaco. Volta a olhar o porco, cara a cara, e a sentir que se olha ao espelho. É isso o homem. Uma espécie de suíno que, momentaneamente, esqueceu a sua condição orwelliana. Somos todos uns porcos que chafurdam na banca e na economia. A vida não passa de um gráfico de barras, umas estatísticas, probabilidades, projecções. E neste mundo somos todos escravos de notas de todas as línguas.
- Deus deveria dar-lhe fama.
- Não me fales em Deus, Rosa. Deus tem um jardim, que é onde vive. Nós temos um inferno. Foi o que Ele nos deu. Ele é um dos patrões que mais andam por aí. Um pai, se o filho passa fome, é o primeiro a privar-se de comida, para que os seus filhos possam comer. Deus devia andar a passar fome e a sofrer todas as dores. Aquela cruz não dá para nada. Olha à tua volta: um dirigente quando quer sacrificar, fá-lo sacrificando o povo, mas que pai faria isso aos seus filhos? Qualquer pai estaria disposto a sacrificar-se a si antes de sacrificar os filhos e é isso que faz um líder e é isso que faria o verdadeiro Deus, se existisse. Se queres encontrá-Lo, procura-O no maior indigente, no maior sofrimento. Essa é a sua única hipótese de existência. Os líderes que vemos a governar os nossos países, são apenas criminosos iguais ao Deus católico. Quando se portarem como um pai a tomar conta dos seus filhos, serão verdadeiros estadistas. Deus não está no céu, está na barriga dos esfomeados. É um punho fechado, peludo, a gritar de agonia, dentro do estômago.
- Mesmo assim o professor devia ser famoso.
- A fama é o modo como as pessoas célebres se dão a conhecer. Já dei à fama um protagonismo maior. Para os Romanos, era um monstro cheio de olhos e bocas, com asas. Andava sempre acompanhada pelo Boato e pela Crudelidade. Diz a verdade com umas bocas, enquanto com outras mente. Um monstro."
Não tínheis em que pensar e motivo de conversa? Ora aqui tendes um bom.
Rosa Rei e Albertina Milhana eram o oposto uma da outra: se fossem palavras eram antónimas. Rosa morava no beco da ribeira e Milhana no arrabalde da Lagariça. Rosa tinha voz de homem, Albertina se puxasse pela voz escavacava vidros, tal a estridência, Rei andava sempre na onda da frente, começa quando os outros só estavam a acabar a ladainha anterior, Albertina acabava quando já toda a gente ia na oração seguinte, Rosa estava completamente desdentada, Albertina cortava um travisco à dentada, Rosa teve um filho, Albertina uma filha, Rosa tinha um burro, Albertina uma burra, Rosa Rei puxava-o sempre pela rédea, Milhana ia sempre atrás, às vezes com um baraço preso à rabiça da albarda para acompanhar a besta.
Como se vê eram mesmo paralelas: nunca se encontrariam por muito que as prolongássemos.
Em comum, pois tudo tem uma excepção, era a sua presença continuada em todos os actos eclesiais, mas enquanto Rosa ficava logo no banco colado à coxia e chegava com meia hora de antecedência, Milhana ficava quase sempre no último banco, próximo do espaço já reservado aos homens, já que vinha sempre esbaforida em cima da hora, ainda a ajeitar o lenço. Rosa morava perto da Igreja, Albertina num extremo longínquo.
Não se falavam e Rosa dizia que Albertina ia atrás da burra que "era por mor de apanhar com as bunicras nas ventas", enquanto Albertina se defendia a dizer que ela puxava o burro pela rédea" Para ver o seu próprio retrato, quando olhava para trás".
Facto era que a burra de Albertina já era entradota na idade e quando ia carregada com as angarelas cheias de esterco para a sorte da Ribeira, a subir o cabeço do Feijão tinha tendência para se abrir de forma altamente sonora, mandando fedorentas bonicras que cheiravam a 50 metros. Se calhar queimava misto e a subir ligava também o gás para ajudar à palha... Já o burro de Rei, inteiro como era, de vez em quando à passagem por uma burra excitava-se, arreganhava o beiço, mostrava os dentes e por isso Rosa ia sempre à frente com a rédea curta, para evitar que ele se pusesse atrás das burras e aventasse com os aparelhos ao ar.
Pronto. Já sei que vai longo... Se não quiserdes conversar, olhai que rir também é saudável.
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quinta-feira, julho 11, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCVIII - LAMBUGUEIRICE

Os movimentos migratórios em Portugal são imemoriais. O surto que agora se vive apenas tem de diferente o facto de que aqueles que se vão embora são do melhor que temos: gente bem formada que não encontra espaço para se realizar em Portugal e é muito apreciada noutros países.
No dealbar do século passado, os dois destinos mais frequentes eram a Argentina e o Brasil. São ainda hoje visíveis no Norte as marcas desses brasileiros que fizeram fortuna por terras de Santa Cruz. Nos meados do mesmo século, sobretudo nos anos sessenta, a corrida foi predominantemente para França e Luxemburgo menos Alemanha , Suiça e outros países europeus. A diáspora actualmente é global.
Se nos tempos idos se procurava o apoio de conhecidos ou familiares, hoje em dia, muitos são os que partem sozinhos para destinos improváveis.
Talvez não fosse alheio ao facto de os destinos no princípio do século passado serem a América do Sul, a proximidade linguística, pormenor, hoje, irrelevante.
O mais famoso desses Argentinos foi, sem dúvida, Domingos Argentino, pois claro. A sua casa era onde hoje está a casa de Fernanda e Branquinho. Era uma casa térrea com uma entrada fresquíssima, onde se chegava por debaixo de um dossel de uvas ferrais que garantia uma sombra fechada e uma fresquidão rara nas quenturas estiais. O pequeno quintal tinha um pocito que dava água bastante para uma horta que a mulher tratava com esmero. As paredes eram todas de um azul celeste com algumas gravuras, as janelas eram amplas e tinham uns portados em ripa de madeira que em mais nenhuma casa se via.
Domingos  levantava-se tarde e invariavelmente vinha sentar-se, enquanto a sombra da manhã o permitisse, no baturel da ti Antónia Costa, paredes meias com a casa onde nasceu este escriba e era aí que esperava pelo companheiro de cigarradas, o velho Corlha, também ele Domingos, sobrevivente da batalha de La Lys, que comparecia coxeando da perna direita, consequência de uma fractura por terras gaulesas e mal sarada.
Puxavam da mortalha do papel Toro e da onça Duque, e, num cerimonial digno de filme, faziam o cigarro que saía das mãos para o adesivo salivar numa forma perfeita de cilindro, tabaco bem compactado, batiam as pontas contra a caixa de fósforos de madeira,"que os de cera não valiam um corno e não se podia escarafunchar os dentes com eles",  acendiam com mestria, mesmo em dias de vento, cada um o seu cigarro com o mesmo fósforo, e davam as primeiras baforadas.
Nem um nem outro mexiam uma palha que fosse. De manhã ficavam por ali a comentar o acaso, como as mulheres que iam e vinham ao chafariz da lameira com o cântaro à cabeça, excepto a ti Esperança do Área, que arranjou um carrinho de mão, ao qual forrou a roda com pneu e cujo bocal onde punha o cântaro estava bem almofadado para não correr o risco de se partir com algum solavanco maior.
Não havia xendro que mais usufruísse da lambugueirice do que estes dois comparsas do cigarrinho matinal.
Ao bater do meio-dia cada um dirigia-se a sua casa para o almoço, com o qual nunca se preocupavam, de Verão ferravam uma sesta e voltavam a reunir-se, cumprindo o mesmo ritual cigarreiro, debaixo do dossel da uva ferral na casa de Argentino. Jogavam ao pinoco (pequeno toro de lenha, bem redondo) que empinavam a distância variável, sendo que aquele que perdesse aos trinta pontos, podia, na forra, escolher ele a distância do local de arremesso da lasca até ao pinoco. O que perdesse pagava um copinho, mas não se pense que vinham à taberna. Corlha levava uma garrafa do dele para, no caso de perder, pagar o copo ao Argentino; já este levava o comparsa à adega e lá bebiam.
Assim passavam o tempo, dia após dia, e, se fossem crentes (que não eram) estou em crer que lá no assento etéreo onde subissem, haveriam também de arranjar alguma sombra onde pudessem continuar na sua tão apreciada lambugueirice.
Passai bem e até uma próxima que, prometo, será menos demorada.
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quinta-feira, junho 06, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCVII - GANAPO

Os latinos práticos como eram, detinham-se pouco com palavras e, tanto assim, que uma das suas máximas era a famosa "Res non verba", que à moda portuguesa pode ser ser traduzido como a oposta do "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz".
Se repararmos, todavia, as palavras também pode ser consideradas como acções e reacções. Se eu disser, por exemplo, Gosto muito de ti a alguém, fica claro que fiz uma frase gramatical a que posso chamar locução, e ao fazê-lo, já fiz uma acção - a da fala - e espero de quem me ouve um tipo de reacção favorável ao sentimento que eu lhe expressei, nem que seja um simples sorriso, mas, seja como seja, a minha declaração activou  o sentir do outro e se houver testemunhas, como por exemplo no simples SIM de um casamento, também esses ficam reactivos.
A publicidade parte muito deste credo.
Não sendo eu, nem de longe nem de perto, minimamente especializado em marketing, sei, podemos dizer, por intuição, que ' farejo ' um bom jargão ou um spot publicitário, antevendo-lhe bons augúrios ou tempo perdido.
Uma das circunstâncias que me deixaram marcas memoriais, tem a ver com o Mundial de Futebol em Espanha, em 1982, na sua 12ª edição.
Muito atempadamente e com uma qualidade digna de monta, ainda por cima, tendo mais a ver com os valores ocidentais do que outras aventuras em desenhos animados ( por exemplo Heidi, Marco, dos Apeninos aos Andes,etc.), os espanhóis lançaram umas quantas figuras lendárias do seu futebol que tinham sido raptadas e que um grupo de corajosos jovens procuravam encontrar. A trama estava muito bem concebida e a popularidade dos ícones correu mundo, aproveitando Espanha para fazer vingar os seus produtos. Assim uma das figuras era Citrónio, em figura do limão, Naranjita como representante da laranja, Tomatito para o tomate e outros. Ressalto desses outros, fazendo lembrar a diáspora espanhola, ao mesmo tempo que fazia apelo à multiculturalidade e combatia preconceitos rácicos e xenófobos, ressalto, dizia, o Chico Escuro, figura de negro, altamente resistente e corredor de fundo.
Sabido como é que nas aldeias as pessoas são mais conhecidas pelos apelidos do que pelos nomes próprios, à medida que os anos passam as alcunhas vão desaparecendo com os seus titulares e vão sendo substituídas por outras novas, mais adequadas ao tempo e às características do novo portador dessa alcunha. Foi assim que o Zé, da família Aspirante, passou a ser o Chico Escuro. Moreno como era, sempre solícito a aviar recados, disponível para grande variedade de serviços, não sabia andar senão a correr e imitava motos ou carros de diferentes marcas, adaptando o veículo imagético ao percurso que tinha que fazer para aviar o recado. Ia e vinha no esfregar de um olho e esta sua rapidez e competência valia-lhe ser contemplado com uma moedita ou até com uma guloseima, coisas que em casa nunca contariam da sua ementa. Os olhos redondos muito vivos de córnea branca sobressaíam naquela carita de tez mais que morena, as pernas eram fibra pura e, para a idade, demonstrava um força invulgar. Curioso, queria saber como se fazia tudo e arriscava experimentando. Duma vez ia cortando o indicador da mão esquerda porque se lhe meteu em cabeça cortar um tanoco de pão centeio em cima dum tronco de figueira que, dizia, "era como os cozinheiros faziam na televisão". Agarrou-se ao dedo, não chorou, mas vendo que o sangue não estancava, viu-se obrigado a mostrar o corte à madrinha Circuncisão. A mulher ia caindo para o lado e mandou um grito lancinante:« rais ta partissem ganapo dum raio...Carraio andaste tu a fazer?...»Eu, que vinha chegando com o inefável carrinho quadrado, apercebi-me da gravidade da situação, corri a casa, trouxe água oxigenada e um trapo lavadinho, apertei bem o dedo do Chico escuro e enrolei-lhe o sanapismo com força de garrote. Qual Lilliputiano a amarrar Gulliver, também eu dei voltas com linha branca de coser e ajustei o trapo. Facto é que o sangue estancou e Chico Escuro sentou-se no batorel ouvindo ralhos de todos os lados mas sem nunca aqueles olhos ladinos verterem uma lágrima que fosse.
O acidente foi motivo de conversa pela tarde dentro.
Já noite dentro, chegaram Nazaré e Júlio, pais de Chico Escuro e a mãe quis logo ver o talho, mas lá a conseguimos sossegar e no outro dia , então, é que verificamos o estado da ferida. Voltamos a desinfectar, regamos com mercúrio =mercurocromo e dois dias depois a carne já tinha sarado.
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terça-feira, abril 30, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCVI - MATRAFUSCA

Disse ou tenho dito, diz-se quando já se disse o que se tinha para dizer... Ora, como eu ainda não vos disse o que pretendo dizer-vos não posso dizer que já disse ou tenho dito... A verdade porém é que já o disse mas não deveria tê-lo dito... Antes devia dizer-vos o que tenho para vos dizer, mas como também ainda não disse o que direi, digo que aquilo que vou dizer é o que deve ser dito para dizer o que trago para vos dizer. Vou então dizer o que direi, mas muito do que vos vou dizer já foi dito por outros que me disseram o que agora vos vou poder dizer. Dir-vos-ei, então, o que ouvi dizer e, no final, já poderei dizer, como se diz quando já se disse o que se tinha para dizer, ou seja, já poderei dizer, disse ou tenho dito, tal como deve ser dito.
Zé Aranhiço foi, sem dúvida, o maior contrabandista dos xendros. Homem seco, de estatura meã, sempre de cara arroxeada, ficando por saber se tal cor era devida ao frio que apanhou, em jovem, na trasfega dos carregos, se causada pela quantidade de vinho que ingeria. Nunca o vi beber outra bebida. À pergunta se não bebia água, invariavelmente respondia que era suficiente a que a mulher punha na sopa, que, aliás, poucas vezes comia. Era mais adepto de comida de seco e de petiscos que de qualquer tipo de caldo. Voz de cana rachada, mesmo não fumando, dentes cerrados, rijos como poucos, já que o vi várias vezes tirar as caricas das garrafas com uma facilidade espantosa. Rijo como poucos, tirando na estatura, fazia lembrar o grande Aníbal Barca, general Cartaginês, que, no retrato de Tito Lívio, nos surge como um homem austero, resistente de igual modo ao frio e ao calor, capaz de passar noites e dias seguidos sem comer, beber ou mesmo dormir. E isso aconteceu-lhe várias vezes, chegando ao extremo de passar uma noite invernosa agarrado a um salgueiro, quase imerso na corrente da ribeira da Baságueda, o carrego posto a seco num galho, depois de uma fuga às balas da Guarda Fiscal que o queria prender. Utilizava com os seus homens um dialecto ininteligível a quem escutava, mesmo aos intrusos pagos pelo Chico Sarapião, regedor, e pasme-se, irmão do próprio Zé Aranhiço. Combinava na tasca do Chico, do Fatela, do Zé Júlio, do Zé Rolo, ou do Zé Cavalheiro. Só eles entendiam o que deviam fazer e era tarefa vã tentar descobrir aquela enigmática linguagem. Depois dos recados dados pagava uma rodada e desandava, deixando quem não pertencia aos seus de cara à banda. Quando o conheci usava gorra espanhola de marca Canizares, mas, depois, habituou-se ao uso de chapéu. Famosa ficou aquela vez em que ele, fugindo a carabineros e guarda fiscal deixou cair o chapéu que posteriormente a Guarda Fiscal encontrou e apanhou. No domingo seguinte, depois de missa, Chico Grande, cabo da Guarda Fiscal, dirige-se a Zé Aranhiço: «oh tZéi, quando quiser, passe lá pela esquadra que está lá o seu chapéu. » Aranhiço percebeu logo a matrafusca e responde:« O meu chapéu está aqui na cabeça... Eu não perdi nenhum chapéu. Posteriormente dizia: «o que eles queriam era que eu lá fosse e assim ficavam a saber que era eu e engavetavam-me...»
Das artimanhas que Aranhiço utilizava nem vos conto, mas o facto é que tinha freguesia bastante para ocupar quase permanentemente sete homens no vai-vem entre as duas fronteiras. Vendia de tudo: alpergatas, meias, pana, rebuçados, gorras, chocolates, ceregumil, bolachas, até mesmo guilhos, rastos, bicos de charrua, serrotes e foições. Nunca o apanharam e isso era a sua coroa de glória.
Conhecia todos os caminhos e veredas da raia, todos os lavradores e pastores e até os cães para que não o denunciassem à passagem e assim a guarda fiscal o pudesse localizar. Tinha um sem número de esconderijos e era interessante quando despachava alguma mercadoria pelos meios de transporte públicos. Metia tudo em cestos mas tapava-os com hortaliça e assim disfarçava o produto. Lembro-me de uma vez um cão alçar a perna para se aliviar num desses cestos e Aranhiço:« marcha daí, cabrão, num vês que me estragas a hortaliça»
Agora sim: já posso dizer que disse ou tenho dito porque ja disse o que tinha para vos dizer. Disse.

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quarta-feira, abril 03, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCV - PLAGATO/FLAGATO

Já por mais de uma vez aqui falamos da proximidade fonética de algumas consoantes. É o caso do F e do P, sendo difícil, sem dúvida saber ao certo qual a dominante. Tanto se ouve uma como a outra.
Chquim Ventaneira, Domingos Poças e Tonho Bondito eram um trio de peso.Ventaneira e Poças já entradotes e Bondito, muito mais novo, associava-se para dar o compasso com a sua tarola, ao pífaro de Chquim e ao harmónio (armonho) de Domingos.
Poças era sapateiro, Ventaneira vivia da jorna e tratava de uma pequena horta onde criava umas ovelhas e uma cabras que permitiam à mulher fazer os queijos para consumo doméstico. Bondito sofreu um acidente que lhe cegou uma vista e vive da pensão paga pelo seguro.
Nunca ensaiavam e as saídas eram, a bem dizer, espontâneas: um deles pegava no instrumento, ia rua acima ou abaixo, os outros ouviam e pronto: estava o fado armado.
Os pífaros de Ventaneira era ele próprio quem os fazia e trocava-os conforme as músicas. Para mim, leigo em matéria de instrumentos musicais e com ouvido rombo quanto baste pouco se me dava qual fosse o pífaro que ele tocava, mas se atentasse em lá reparava que havia sonoridades diferentes; o armonho de Domingos tinha sempre o mesmo som e os acordes eram sempre os mesmos variando de acordo com o ritmo que Bondito imprimia à baguete. Nenhum cantava, mas quando desciam ao povo logo aparecia quem afinasse a gola numa desgarrada ao desafio a ver quem pagava o copo. É claro que para os três tocadores havia sempre uma rodada que alguém pagava. Quem pagasse tinha direito a escolher a moda.
A gente das aldeias é praticante do aforismo: deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, mas nas noites de farra, o relógio não é visto nem achado e enquanto houver povo que acompanhe e vá pagando rodadas os tocadores não paravam o concerto. À medida que os copos se iam somando as desafinações eram mais frequentes, mas Bondito voltava a meter  tudo ao rêgo e a música chegava sempre ao fim.
O regresso a casa era sempre estrada acima e viravam para o cavacal  em frente da estrada nova. No cruzamento para o ribeiro cimeiro tocavam a última  e despediam-se. Bondito morava logo ali e bastava-lhe subir umas escadas de pedra, dar a volta à chave, pegar na candeia que a mãe lhe deixava à porta com o registo baixo e, mais direito ou mais torto lá chegava à cama, apagava a candeia e logo pegava ao sono. Ventaneira agarrava nos pífaros e ia para casa a caminho do ribeiro cimeiro e não precisava de subir escadas já que a casa era térrea. Tinha sempre a mulher à espera, sentada ao lume a dormir um sono assado e invariavelmente perguntava: "que horas são ?", ao que Ventaneira, naquele dia mais alegre que o costume respondeu: «são dez». Ela resmungou: "só ouvi uma pancada no sino..." e Chquim: «atão querias que também batesse o zero?» Ela levantou-se a rosnar e deixou-o a arrumar os pífaros. Poças, ao contrário, descia em direcção à cruz do Cavacal e tinha que subir uns quantos degraus sem qualquer corrimão. A subida começava num rochedo e os copos associados ao desnível contribuíram para que Poças apanhasse um valente plagato e o armonho rolou pedra abaixo e quando o vem apanhar tropeça e lá vai mais um flagato. Acabou por se decidir a subir as escadas de gatas, premiu o trinco da porta, bebeu um copo de água do asado e lá se foi. Que se saiba não voltou a cair senão na cama para um sono retemperador.
Com tanta água que tem caído, cuidai-vos não apanheis nenhum plagato.
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quinta-feira, março 21, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIV - CAMBALHÃO


O domingo imediatamente seguinte à lua cheia imediatamente seguinte ao equinócio da primavera - o de Páscoa - estava já próximo. Naquele ano dos finais de 60 os dias andavam primaveris e era tempo de caiar a casa. Ti Arminda Malagota desceu ao palheiro onde dormia a burra andorinha, e depois de atirar com um braçado de feno para a manjedoura, para acalmar a burranca que resfolgava excitada, desviou cuidadosamente uma pedra da parede, deixando ver um buraquinho com a abertura suficiente para ela lá introduzir a sua mão. De lá retirou uma bolsinha da qual escolheu 3 moedas de 5 escudos que enrolou no lenço das mãos e voltou a colocar a pedra no sítio que se encaixou na perfeição. Nunca ninguém iria conseguir perceber que ela escondia ali uma bolsinha de linho com notas e moedas que somavam mais de 50 contos de réis. E foi-se a caminho do povo, à loja da Ti Rosa do Cunha a comprar 2 quilos de cal branca que havia de desfazer em água num velho caldeiro de lata mexendo cuidadosamente com um changoto limpo, numa proporção de 1 de cal para 3 de água como a sua mãe lhe tinha ensinado, até obter uma solução cor de leite que deixaria em repouso até ao dia seguinte.

Logo à entrada, do lado esquerdo, a sua casa tinha uma pedra rectangular –a pedra dos cântaros - com 1 metro por 40 de fundo, encrustrada na parede à altura da boca do corpo, sobre a qual estavam sempre dois cântaros de barro – os asados  -  que no Verão forneciam uma água mai fresquinha que eu sei lá! e nos espaços à volta deles, ela ajeitava a sua colecção de antiguidades: um candeeiro de lata que lhe deu o primo Pantelhão, um lampião antigo que herdara do pai que tinha herdado do pai, três molídias, quatro cabaças envernizadas e uma colecção de outras peças em madeira que o seu homem, Manel Malagoto, se entretinha a fazer nas noites chuvosas de Inverno: cangas, chambaris, arados, tropessos, carros de bois. Juntou tudo no batorel do lado de fora e meteu-se a esfregar vigorosamente as paredes com escova de arame e lixívia.

Havia de fazer o mesmo na lareira. Esfregou a panela de ferro, as trempes, o pucheiro e o caldeiro da vianda com palha de aço, varreu cuidadosamente a cinza da pieira, aquela para onde as filhas, quando eram garotitas, deitavam os dentes que lhes caíam e recitavam “pilhêrinha, pilhêrão, toma lá este dente podre e dá cá um são”,  sempre a cantarolar uma cantiga que tinha ouvido, em garota, ao Ti Mné Ceguinho, e que falava de um tuberculoso que queria bem a uma rapariga fina, filha do regedor, um amor não correspondido que acabava em tragédia com o rapaz a suicidar-se depois de matar a autoridade local e a filha fina. A cinza, guardou-a num caldeiro de lata farrusco, com ideia de a botar na leira dos alhos.

Já o astro caía atrás da Gardunha quando lhe aparece João Tramoço que vinha pelo pagamento da cava da vinha. Nesta altura do ano, o Tramoço ganhava uns tostões cavando vinhas ao cambalhão, técnica antiga adequada nos vinhedos em que as videiras estavam dispostas de forma irregular. Algumas semanas mais tarde, seria preciso arrasar os cambalhões por forma a que o terreno ficasse novamente direito. Desta forma, a terra arejava e eliminavam-se as ervas.

O Tramoço ajustava o preço consoante a área e o tipo de terra e, entre duas borracheiras, aos poucos ia deixando as vinhas pejadas de pequenos montes de terra. Depois de ter suado durante a manhã daquele sábado a cavar a vinha do Mnel Malagoto apresentava-se para receber o combinado, que havia de ser trocado por vinho nas tabernas do Cavalheiro, do Zé Rolo, do Fatela e do Xico Miguel, durante o domingo.
O Malagoto que se dedicava a mudar a cama da andorinha assoma à porta do palheiro: 
- Eu pago-te mas só quando fores a desfazer os queijos que lá deixaste. Atão aquilo é trabalho que se faça?
Durante a tarde ele tinha passado na vinha e não aprovara o trabalho do Tramoço que, para despachar a empreitada e receber a paga, saltara os espaços onde não havia erva.
- Mintira!, defendeu-se o Tramoço.
A discussão foi azedando até que o Tramoço decretou:
- Ai no me quer pagar? Atão vai a ver, vou lá e desfaço os cambalhões todos.

sexta-feira, março 08, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIII - CALACEIRO / CALACEIRÃO

Domingos Lucho vivia como um eremita. A casa onde morava tinha uma única divisão, era construída em granito e o telhado era a telha vã. Ao canto direito acendia o lume. Umas cadeias caíam de um barrote e pendurada no gancho estava sempre uma panela de ferro que lhe servia para todas as confecções culinárias. Encostada à parede, à direita da porta tinha a cama de ferro que nunca fazia « porque não era preciso». Na outra metade da casa guardava batatas, sempre cobertas com folhas de eucalipto e com vagens de piripiri espalhadas por toda a superfície, «por mor da borboleta», cebolas, alhos, feijão, grão e o mais que a terra dava e pudesse ser conservado, para além, é claro, do pipo do vinho e de um pequeno pote com azeite. A água era de uma mina e retinha-a numa charca donde regava tudo a pé. Lá tinha sempre o garrafão do vinho «porque no inverno a água é quente e no verão é fresquinha» Tinha também um escoreiro com azeitonas curtidas e uma pequena salgadeira onde conservava toucinho branco alto, base fundamental da sua alimentação carnívora, pelo menos até aí os seus 60 anos, altura em que morreram uns poucos da sua idade com "trombosas" e ele decidiu cozer o toucinho para o Farrusco, cão e companheiro, para além de caçador de algum coelhinho de vez em quando. Ele próprio era atilado para a descoberta de luras e camas de lebre e brandia o junco com destreza razoável. Da dieta faziam também parte, quando os descobria, alguns texugos porco e ouriços machos, «que as fêmeas quando andam com a rabeca podem matar um homem, as putas». No Verão, a ementa era um pouco mais variada com alface, tomate, pepino, pimento; de inverno, invariavelmente couve, depois grelos, feijão e grão. À sucapa, agarrava uns passarinhos, mas tinha que camuflar bem os costis e visitá-los amiúde « por mor dos gatos e dos milhanos». Vivia com o sol: de inverno até lhe doíam «as cruzes» de tanto ficar deitado para não gastar lenha, mas, de verão, dormia menos de noite « para poder fazer a horta pela fresca» e, na hora do calor, ferrava-lhe uma sesta à espanhola.
Tinha duas artes em que era exímio: vedor e enxertador. Era consultado por todos os que queriam abrir um poço e a sua fama estendia-se a aldeias vizinhas. Cobrava 50 mil réis por consulta. Tanto lhe dava testar a veia da água com uma vareta de arame zincado como com uma vergôntea de zambujo, oliveira ou até marmeleiro e mimosa. Fosse o que fosse que usasse a verga retorcia-se com força diferente o que indicava o caudal provável do nascente e a sua orientação. «Os melhores nascentes são os que vêm do lado do sol posto», garantia, e corria todo o espaço, fazia riscos e, onde cruzavam, marcava o sítio exacto para abrir o poço.
Quanto às sua habilidades como enxertador, ele próprio se encarregava de as reclamar, enumerando as vinhas, os pomares, as oliveiras, cerejeiras e até castanheiros a pegarem em carvalho e pereiras a pegar em marmeleiro o que dava «a pera marmela, que se se puser no arcaz da sementes e conserva quase o ano todo».
Eram poucas as jornas que fazia e não eram para todos, só quando lhe apetecia ou então precisava de comprar alguma roupa ou calçado. De resto, lá ficava na sua ermida.
A enxada só a usava para ele na sua hortita. Escusavam de o convidar para sementeiras, ceifas, malhas, acarrejos...,nada disso. Para os outros - só alguns -, para além das enxertias e das prospecções aquíferas, apenas alguns dias na colheita da azeitona, e era preciso que o tempo andasse bom, vindimas e podas. Trabalho para o Domingos era apenas o de navalha , tesoura e garrancho. Tudo o que tocasse a enxada, foice, mangoal, pá e picareta, ou outras tarefas mais pesadas, isso não, «que a espinha no deixava».
O próprio irmão, o Zé S. Marcos, pastor de vacas lá para os lados de Peraboa, quando vinha à aldeia só lhe chamava o calaceiro e calaceirão.: " Num quer mecha, o nosso Domingos... Opoi anda-me ali a comer só batatas cozidas com zêtonas, o lambão... Atão no podia dar uns dias mai e tinha dinheiro pra comprar uma pouca de carne ou um chicharro e umas sardinhas? É mesmo um calaceiro».
Uma vez, com os copos, o que era vulgar, começou a atentar o Domingos e este não foi de medidas: arruma-lhe um soco nas ventas e« é melhor num me tornares a aparecer na frente».
Não sei se a casa ainda está de pé, lá para os lados da quinta do Ramalhão... Devo ter sido das poucas pessoas que lá entrou. Ainda fez uns dias para mim à azeitona : não almoçava. Dizia que tinha comido um barranhão de feijão frade com uma tora de toucinho logo de manhã e só voltava a comer à noite. Levava sempre a sua cabaça com vinho do dele, que outro não bebia. Provei-o várias vezes e garanto-vos que era do melhor que se fazia entre os xendros. Era ele que fazia tudo sozinho.
No fim de contas não fazia mal a ninguém e vivia sossegado no seu mundo de eremita.
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quinta-feira, fevereiro 14, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCII - RABUGE(M)



Consta que o General  norte-americano, George WASHINGTON, ao ouvir alguém dizer: “o hábito é uma segunda natureza”, teria comentado de imediato:« ele vale dez vezes a natureza». Fácil nos é reconhecer que somos animais de hábitos, ou se quisermos, de rotinas. Somos mais autómatos do que conscientes e muitas vezes só nos damos conta das nossas asneiras quando algo as perturba. Doutra forma, mantemos aquele ram ram onde nos sentimos cómodos, recusando-nos, sem o notarmos, a pensar que pensamos pelas nossas cabeças, alinhando num carneirismo semi-automático.
Sirva de exemplo a famosa frase feita, repetida por todos os aficionados da bola : “a bola saiu das quatro linhas”. Todos sabem, porque isso se aprende bem cedo no percurso escolar, que o rectângulo é uma linha fechada, com os lados paralelos dois a dois e formando entre si ângulos rectos. Então se sabemos que é uma linha, porque raio dizemos que a bola saiu das quatro? Simplesmente porque não pensamos. Vamos com os outros e repetimos tal qual um psítaco.
Aceitamos de bom grado que o homem é dual, composto de corpo e alma, ou, se preferirmos, de matéria e espírito. Não sei se a analogia é tirada da observação de uma qualquer bebida gasosa que, quando o gás desaparece, dizemos que está morta, que não tem espírito. A alma será assim gás, bafo, ar, vento. Não é por acaso que na pia baptismal o oficiante, depois das renúncias a Satanás (o espírito mau) , sopra sobre o neófito e ordena: “sai deste corpo espírito maligno e dá lugar ao Espírito Santo vivificador”. O Espírito é um sopro, é vento, gás. Não é verdade que chamamos PNEUS às rodas dos carros? Porquê? Pela simples razão de que os enchemos de ar, vento. É pela mesma razão que enchemos de ar os nossos pulmões e que eles são afectados por doença grave, dizemos que se trata de uma Pneumonia. Sem pretender erudição descabida , sempre vos digo que em grego o sinal da cruz se diz (vou transcrever) : EN ONOMA TU PATRÓS, KAI TU UIÓS, KAI TU PNEUMATOS AGUÍU.
Aceitamos pacificamente, porque a matriz ocidental marcadamente judaico-cristã assim no-lo deu a mamar, numa cultura de inconsciente colectivo, que a alma é imortal e que o corpo é mortal. Da verdade do corpo morrer não se admitem objecções porque o que é evidente dispensa demonstração, mas já quanto à imortalidade da alma, a evidência não existe. Aí, damos lugar à crença, ou, mais correctamente, à Fé. Acreditamos ou não, e pronto. Verdades de Fé não admitem discussão. «Crer é morrer » gritava já Fernando Pessoa.
O mesmo se passa com a Trindade: ao ouvirmos este termo, logo pensamos na Santíssima Trindade, marcados que estamos pela matriz cristã/católica. Não é contudo, líquido que sempre nos queiramos referir a esse mistério. Já ouvi chamar trindade aos triunviratos romanos, por exemplo, e na brincadeira todos falamos nos três da vida airada- cocó, ranheta e facada - , mas onde queremos chegar é a uma outra trindade: aquela que, ao fim , motivou este deambulatório discursivo - a trindade cosmoteândrica -, ou se gostarmos mais teantropocósmica. Afinal o nosso pequeno universo acaba por ficar enquadrado nesta trindade - deus, o mundo e o homem. O que nos rodeia tem a presença destas três forças. Mesmo os ateus crêem e, ao crerem, são também crentes, embora não nas crenças mais comumente aceites. Há sempre algo que escapa ao desejo incontido do homem tudo querer saber e conhecer, para depois prever e controlar... Por comodidade consideraremos essas forças ignotas como divinas, ou, no mínimo, transcendentes, já que escapam à nossa imanência.
Sempre, na aldeia xêndrica, houve quem bebesse acima da média e muito mais acima do aconselhável. É difícil inventariar todos e, mais difícil, eleger um. 
Hoje trago o Chquim Modas. Na adega não usava copos. Preferia umas latas de conserva de litro a que mandava por umas asas num dos latoeiros da aldeia. O mais requisitado era o Tonho Aranhiço, que também lhe arreava assim comédado. Quando andava uns dias mais tocado, chegava a casa e pedia à mulher que lhe cozesse uns nabos com cabeça e folha de mistura com umas batatas e uma cebola aos cubos. Escovava a água , temperava com azeite cru e comia tudo à colher "por mor da rabuge". Dizia-me ele, quando lá ia levar uma bilha de gás no mais que famoso carrinho quadrado: « se um dia acordares com a boca seca arrefinfa-lhe esta espécie de caldo e vais a ver que a rabuge vai-se logo e depois já lhe podes voltar a chegar».
Fica aqui a mezinha. Não sejais incrédulos logo à partida. O velho Kant insistia: "Ousa pensar por ti próprio". Eu parafraseio: ousai experimentar! Nos vos ficai apenas pelos lugares comuns.
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domingo, fevereiro 10, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCI - (E)INTRUDO


Declaração de interesses: não aprecio, nunca apreciei o Entrudo, ou como agora é mais conhecido, o Carnaval; discordo em absoluto com a decisão de não se conceder feriado neste dia. E expando: deveriam ser concedidas pontes sempre que o calendário metesse um dia entre feriado e fim de semana. Permito-me um vanguardismo: sempre que um feriado calhasse num fim de semana deveria ser atrasado ou adiantado dois dias e conceder a respectiva ponte (uma ideia tão vanguardista, afinal, como a de passar a celebração de um feriado para o fim de semana.

A supressão do feriado do intrudo (que não era, mas era sempre por ser autorizado), e de mais 4 (que o eram sem precisarem de autorização), enquadra-se, disse um tal Álvaro, “nos esforços de Portugal e dos portugueses para superar a crise económica e financeira que o país atravessa” e que “a ideia é trabalharmos mais e melhor para termos um país cada vez mais a produzir riqueza, um país cada vez mais a criar emprego e certamente um país mais competitivo”. Pareceu-me ver um leve sorriso na cara do Álvaro quando ele lançou estas atoardas a gritar sem falar: é a economia, estúpido!

Agora a sério: sou homem para pagar uma rodada se pudéssemos saltar, num passe de mágica, para daqui a 5 anos e conferir se, ceteris paribus, a supressão dos feriados resolveu a crise, produziu mais riqueza, criou mais emprego e transformou Portugal num país mais competitivo. Perante a infirmação, teríamos, estou certo, ao menos a oportunidade de ouvir as explicações do Álvaro, fazendo jus à definição caricatural do economista: é aquele indivíduo que melhor sabe explicar hoje porque é que se enganou ontem. Como não é possível, nem o salto no tempo, nem o ceteris paribus, desconfio que aquilo que é afirmado como uma verdade científica não passa de charlatanice: não é possível estabelecer uma correlação positiva tão linear entre aquela decisão e o resultado esperado. Ou, se se aceitar como plausível tal hipótese, então esta não o é menos: a concessão de pontes sistematicamente em todos os feriados contribui para a superação da crise, por via dos benefícios económicos, sociais e culturais daí resultantes. Creio que posso até olhar de frente o Álvaro e gritar-lhe sem falar: é a socioculturaeconomia, estúpido!

Como habitualmente, naquele ano, a aldeia animou-se com a visita de dezenas de patrícios migrados que aproveitaram a ponte do entrudo para darem um salto à terrinha. E trouxeram a prole. Alguns, até convidaram amigos que haviam de partir satisfeitos e mais ricos à conta da história apreendida nas pedras de Penamacor, Monsanto, Penha Garcia e Egitânia a Velha. Vieram, como alguns gostam de dizer, recarregar as baterias, saborear a pacatez da vida numa pequena comunidade rural, reviver o acto de dar a salvação a todas as pessoas, relembrar o espírito familiar à volta da lareira, redescobrir o sabor de uns grelos de nabo acabadinhos de apanhar e cozidos em panela de ferro com um naco de presunto, lavar os olhos pelos campos verdejantes na caminhada matinal pelos arredores da aldeia, sentir de novo a curiosidade de saber quem morreu porque o sino tocou a dobrar, não resistir a saltar a parede para roubar meia dúzia de tangerinas daquelas pequeninas e com a casca muito fina mas doces como o mel, rever amigos de infância…

Por estes dias, os mini-mercados registaram movimento inusitado, os cafés ficaram mais barulhentos, os tractoristas aceitaram pagamento adiantado para lavrarem olivais e prados, os empreiteiros da construção civil comprometerem-se a pequenas obras até ao verão, os especialistas da poda adjudicaram vinhas e olivais, até o senhor prior foi chamado a anotar maior número de missas na sua agenda.

Na tarde do dia de entrudo houve oportunidade para assistir no adro, à choradela de entrudo teatralizada por João Cara Velha,  Xico Feijão, Zé Tramoço e Manel Salazar. A situação gozada reconstituía a sua versão da trapalhada que tinha sido o casamento do Xquim Perna Arcada e da Isabelinha Remelica. Parece que o Xquim tinha apanhado uma tal carraspana na noite anterior que por várias vezes foi apanhado a ressonar durante a missa e há quem tenha assegurado que ele terá mesmo soltado algumas flatulências ruidosas. Consta ainda que, dizem os que se deram ao trabalho de se postarem junto à janela do quarto onde, por assim dizer, o matrimónio seria consumado, a noite foi muito animada, mas porque a esposa, despeitada pelas cenas durante a eucaristia, terá resistido a corresponder às expectativas do Perna Arcada, tendo cedido apenas por volta das cinco da manhã.

A história era contada em verso, e os quatro artistas assumiam o papel de padre, sacristão, e, claro, dos noivos. Alguns dos adereços utilizados ultrapassavam a linha do humor dos mais conservadores: o padre apresentava-se com paramentos em sarapilheira em muito mau estado, o sacristão transportava a água benta numa lata ferrugenta com um piaçaba de giesta. Teatro de rua por autênticos amadores.

O Álvaro não estava lá, não se pôde aperceber da importância destas épocas nesta pequena comunidade rural, para o reforço dos laços identitários, na afirmação e redescoberta da cultura e história locais. E na economia local, claro que sim. O coitado, cuida que o problema se resolve com uma injecção de vários milhões para “valorizar” o interior. Claro que ajuda, mas não consegue comprar a identidade que se perde com a redução das visitas dos migrados aos seus espaços sociais de origem, provocada pela supressão dos feriados e pontes.

Votos de feliz intrudo.