quarta-feira, dezembro 14, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXXIII - EMBISGA/EMBISGAR

Foram, que eu saiba, duas, as mulheres a quem se atribuiam poderes de bruxaria nas terras xêndricas: a velha Batorelhas e a velha Casaca. Batorelhas morava mesma à esquerda da igreja, primeira casa, com acesso por uma escadaria granítica a meio da qual havia um bureco do qual dependia, de manhã e à tarde, uma tábua com travessas, por onde duas pitas e um galo desciam e subiam, já que era ali a capoeira. Todos os dias Batorelhas tomava o cu para ver se tinham ovo e, a confirmar-se, subia a um baturel, metia a mão num caco colocado à entrada e tirava o ovo; a velha Casaca morava numa casa ao início da rua das aranhas, paredes meias com a velha tasca do estanqueiro, tinha uma loja que nunca vi aberta e ascendia-se ao primeiro andar, também por uma escadaria de pedra, só que, em vez de ser frontal como a de Batorelhas acompanhava a parede da casa e acabava num pequeno alpendre que tinha um telheiro suspenso por colunas de madeira. Diziam as más línguas que a casa não tinha sobrado e que Casaca, mesmo de noite, se passeava pelas traves e caibros e que, de vez em quando se ouvia um zunido que resultava da vassoura de giesta que ela montava. Não havia mobília a não ser uma pedra de lar onde, dependurada das cadeias , baloiçava uma panela de ferro, serventia constante da magra culinária. Como ninguém a via ir à lenha, diziam que, de noite, montada na amestrada vassoura, ia à serra da Carochinha, ordenava aos gravetos que se formassem em molho, metia a vassoura por baixo e aí vinham, ela e a lenha até casa. Chispava uma pinha com  um embisgar do olho direito e o lume acendia-se não sendo preciso meter lenha, já que bastava ela mostrar vontade e o gravato saltava para a fogueira. Famoso era o seu escarro. Puxava lá do fundo da garganta o muco, enrolava-o na cavidade bucal e expelia-o com trejeitos de arte a uma distância considerável. Com um tremoço no meio, pareceria um ovo estrelado. Saía pouco, sempre de preto e a olhar de lado, desconfiada. Garoto que a vislumbrasse ou adulto que por ela passasse punham as mão atrás das costas ou dentro do bolso e faziam figas com as mãos ambas e praguejavam: vade retro Satanas".
Batorelhas não era tão misteriosa: desde que o tempo o permitisse sentava-se na escada, chamava as pitas e o galo, esfarelava-lhes pão molhado ou restos de uma batata cozida e estimulava-os- pnina,pnina,pnina, gatcha,gatcha,gatcha...,tomava-lhes o cu e, toda escanchada, deixava ao léu tudo, sem qualquer pudor, e se lhe apetecia verter águas, abria as pernas por debaixo do bureco das pitas e ali mesmo se aliviava, limpando-se à combinação de flanela, cuspindo, também ela um valente escarro, mas não com a arte de Casaca. Sempre descalça, a sola dos pés podiam pisar um alacrário ou carapetos de silva, até mesmo um brocho que os cascos aguentavam, qual muralha inexpugnável às arremetidas dos picos. Uma vez a vi eu a esfregar ouriços para lhe sacar a castanha. Aquilo sim, era calçado!
Era raro ver-se Casaca na rua;  já Batorelhas corria as ruas sem qualquer problema, mas não se livrava que a canalha  a apupasse com o " olha a bruxa, olha a bruxa...! " Acompanhava-a sempre um pau, que lhe servia de bengala e com ele ameaçava qualquer garoto que dela se aproximasse. Já sabia que se o atirasse a algum nunca mais o via. A figura era de uma mulher esguia, de pescoço alto, seca de carnes, nariz um tanto adunco e um olhar mortal. Quando zangada, ora embisgava um olho, ora o outro e, ao ralhar, mostrava uma gengiva com três dentes apenas e fazia um esgar que a tornava numa figura cuja aparência não se afastava muito daqueles desenhos clássicos das fadas más das fabulosas histórias de então.
Curiosamente não era a elas que o povoléu recorria quando queria mezinhas, unguentos ou qualquer artifício para enfeitiçar alguém. Todos lhes tinham medo. Outras eram as benzilhoas que quebravam os quebrantos, deitavam a agulha ou tinham preparados para as maleitas, chás para as dores e sei lá que mais : Figo Seca, Espeta Figos, Rosa Manata, Julha do Toco, Olho de Lata, e outras.
Que conste nos anais xêndricos, nada aconteceu de mal que estas mulheres - repare-se que são sempre mulheres- alguma vez tivessem causado, fosse pelo embisgar dos olhos, fosse pelas curandices.
Outros que vós bem conheceis, de fato e gravata, bem montados e sempre acompanhados por acólitos de igual vestimenta e montada, loirinhos e de olhos azuis como os meninos bons das minhas histórias da minha meninice, esses sim, parecendo que não partem um prato, escavacam a cantareira toda.
É com esses que vos deveis pôr a pau porque sendo coelhos não comem couves, nem cenouras, mas subsídios de Natal e de férias.
Bom Natal para todos!
XXXXXXIIIIIIIIGGGGRRRRRRRRRRAAAAANNNNNDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEE

domingo, novembro 27, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXXII - ESCANCHADO, ESCARRAPACHADO, ESCARRANCHADO

Artista a cavalgar uma burra era Teixeirinha: malino como era, metia por debaixo da albarda da alimária uma silva seca, cheia de carapetos e o pobre do animal, picado e ferido de dor com os picos da silva troteava a passo veloz, enquanto Teixeirinha, à laia de cowboy da Flecha Quebrada, guinchava gritos de prazer... Era de facto um artista escarrapachado na albarda da burra do seu avô, velho Freitas, que em matéria de aldras, só teve comparsa no seu próprio filho Manel, acolitado, e bem, por Zé Luís Barata.
Figura não menos famosa era Zé Labouxa, o homem que descobriu o ninho à moucha, como ele próprio se definia, e que negociava em tudo, "mediante uma pequena comissãozinha", desde burros, mulas, vacas, milho, alhos e até, gabava-se, mulheres.
Numa tarde de Domingo, Labouxa jogava ao fito na rua do Desembargador, precisamente com Freitas e Barata. Conversa puxa conversa e Barata assevera a Labouxa que o melhor negócio que havia na Terra Fria, era a venda de cascas de alho. Era corrente que as almofadas cheias com as cascas do alho evitavam o reumatismo, enxaquecas e demais maleitas, próprias de quem  ia entrando na velhice. Freitas corrobora  o reclame de Barata e Labouxa, depois de beber o copo da rodada do fito, esgueirou-se a casa e, munido de sacas de sarapilheira, agarra na sua burranca, vai direitinho à aldeia dos cucos e percorre as ruas escarranchado na burranca, apregoando a compra de casca de alho. Como não havia referência de preço para o artigo, Labouxa tabelou cinco escudos o quilo. As velhotas espantam-se com a novidade do negócio e nem inquerem para que serve tal produto, antes vão aos forros ver se arranjavam cascas bastantes para fazerem cinco mil réis que bom jeito dariam para compra de avental novo na loja do Mnel Lúcio.
Não tardou, Labouxa tinha as sacas cheias, teve que desmontar e encher as angarelas com o material, esperou pela noite e regressa a casa todo contente. Surripia umas almofadas à ti Lucinda enche-as com as cascas e mal esperou pelo caldo de couves põe-se a caminho do Sabugal com ideia de vender as almofadas a pelo menos cem mil réis, cada. Claro está que ninguém lhe comprou a mezinha e teve direito a choradela de entrudo levada a efeito pelo Teixeirinha montado na burra a quem só faltava saber ler, só que a culpa não era dela mas do facto de ser proibido que os burros entrassem na escola, porque senão passaria a perna  a muita gente. Labouxa queria matá-lo...
O quadro não ficou gravado senão na memória daqueles que a ele assistiram, mas o trejeito de Teixeirinha escanchado na burrica do avô, com um cabo de alhos a servir de gravata e duas sacas de cascas, fazendo-se arauto das benesses de tal produto para as mais diferentes maleitas. Barata e Freitas pareciam dois pavões de leque alçado.
São muitas as patranhas destes dois amigos, que entretanto já partiram, e não resisto a contar-vos uma outra em que Barata convenceu a velha Nacha de que o António Sala a queria a cantar e a tocar adufe no programa da manhã da Rádio Renascença. Ainda ouvi a Nacha a ensaiar e arranca para Lisboa e se não fosse o seu filho João, o Salazar, a avisar o  irmão Chico que era bombeiro, Nacha haveria de ter ficado perto de desmaiar no número 7 da Rua Ivens.
Extrapolando, verdade sem sofisma é que o povo também embarca facilmente em patacoadas de uns quantos malinos que com arte e manha convencem os incautos de que ainda há milagres. Quando depois acorda o povo lamenta-se, mas a breve trecho esquece e volta a cair na mesma esparrela.
Einstein, na simplicidade que o caracterizava disse: "é mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um boato". Os preconceitos e estereótipos enraízam com tal força na mente da populaça, que ninguém, mesmo com a força da evidência das experiências passadas e até vivenciadas, ninguém é capaz de os persuadir a alterar a sua forma de pensar. Na verdade persuadir não é convencer. O convencimento reforça a crença, a persuasão altera, mediante argumentação consistente, a forma de pensar, levando o outro a concordar com o orador.
Barata e Freitas eram destes. Persuadiam: um reforçava o outro e nem era necessário ensaiarem.
Vede o que se passa à vossa volta e reparai se não vos põem a comprar almofadas com cascas de alho para cura das vossa maleitas. Depois não vos queixeis.
XXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAANDE

terça-feira, novembro 08, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXXI - TOLDO, PANAL, FATO






Olival do Baldio, 5 de Novembro de 2011.

Tópicos: oliveiras sujas, galega, cordevil, vermelhal, carrasquenha, toldo, panal, fato, garrancho, vibradora, feijoada, tinto, branco, jeropiga, picles, beringela, queijo, chouriço, morcela, farinheira, presunto... água.
Soundbyte: "dormir com uma mulher emprestada".


Espécie de reportagem AQUI

domingo, novembro 06, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXX - BANDOLEIRA

A bandoleira volta de novo a poder dar jeito. Nela cabem a bucha para um dia inteiro, a botelha do tinto, e ainda podia sobrar espaço para transporte a tiracolo de algum borrego nascido tarde e incapaz de acompanhar o rebanho e até algum caçapo apanhado na lura, quando não uma lebre que tropeçasse no junco, bem lançado por pastor bem treinado.

 Ainda fiz algumas. Aquilo era, pode dizer-se, uma autêntica alcofa. Feita em cabedal  genuíno, ensebada como convinha para não se ensopar com a água da chuva, resistia a todos os maus tratos. Era tão resistente à torreira do Sol, como à maior das intempéries.

O genro da Velha Raposa, mais conhecida por Bandeira de Guerra, pastoreava rebanho misto lá para os lados da Mata da Rainha. Vinha aos xendros ver a mulher e as duas filhas de quinze em quinze dias , e a bandoleira vinha sempre com ele. Nunca vinha vazia. A filha da Bandeira de Guerra cortava-lhe a vasa e troco para os gastos domingueiros nunca havia. Papei muito coelho e lebre fora de época, porque antes de ir para casa, passava por onde ele muito bem sabia e levava logo o dinheirinho do pagamento da peça. Os coelhos ou as lebres, duma vez até um texugo porco, nunca vinham esmazelados e era um asseio  papar um bichinho daqueles em tempo fora de época. Outros tempos! Nunca ninguém sabia daquela jogada, a não ser eu e pouco mais.

Os tempos que correm são também eles tempos de bandoleira. Nada como ter a bucha garantida. Comer fora nem pensar, de modo que a alternativa eficaz é, volta a ser, garantir a paparoca, levando-a de casa.

Repete-se a história?.

Mais que académica, a questão já foi bem debatida  e se para um marxista justificar que a história é previsível e que nela, como no mais, há leis, já para outras correntes de pensamento aceitar o «18 do Brumário de Luís Bonaparte», é estultícia que nem sequer vale a pena debater. Popper está entre esses que defendem que não há repetição histórica e que previsão não passa, se se verificar, de mera coincidência. Do que não há dúvida é que é comum a tendência para fazermos efemérides e de andarmos sempre a fazer comparações entre o presente e o passado. Até parece que tudo volta ciclicamente. Não é por acaso que o mais antigo mito de que há memória é o mito do eterno retorno.

Vem tudo isto a propósito dos nossos tempos. Não que lá em casa uma sardinha desse para três, mas conheci algumas onde isso se verificava. Até parece que começamos a ter saudades desse tempo. Tudo era aproveitado ao limite: a azeitona curtida era rapadinha e raspadinha até ao caroço com navalhinha bem afiada, o conduto era sempre explorado até ao chupar dos dedos, os restos eram aproveitados para  a vianda, os dentes (quem os lavava) não eram escovados com a torneira sempre a correr, as águas residuais regavam as plantas, o dinheiro era bem contado, as despesas bem medidas, tudo, mesmo tudo era bem aproveitado. Em vez de se ter aprendido parece que se desaprendeu. Nem mesmo agora muitos já se convenceram de que não faria mal se imitassem os mais velhotes. Já nada é como era e nada se perdia se o velho mito do eterno retorno, retornasse, de facto.

Famosa na terra dos xendros por tão POUPEDA ser, era mesmo a velha Poupeda, mulher de velho Grilo, que não largava a sua bandoleira por nada. Não deixava de ser curiosa a composição das suas saias que mais eram uma manta de retalhos, já que resultavam do ajustamento, ad hoc , de tecidos, os mais variados, independentemente da textura, cor, formato, tamanho...Cozia as batatas que em princípio seriam para os porcos, numa panela de ferro que mantinha perto do lume  e ia descascando à medida que eram precisas. Azeite nem vê-lo. Apenas três azeitonas e um naco de pão já bem assente para surdir mais. Um chicharro era dividido em três: uma parte era assada, o rabo frito e a cabeça cozida. Dava para ela e para o Grilo para três vezes. Sempre descalça, rivalizava com a velha Lorpa, com a Pieres e a velha Nacha, vedetas que um dia destes aqui vos aportarei. O velho Grilo até dizia, para de algum modo disfarçar este aforro que era capaz de beber cinco litros só a lamber um caroço de uma azeitona galega e bebia uma pipa com uma cordovil. Fácil de consolar como se vê. Durante uma semana inteira só se lhe conhecia uma camisa... E assim viveram até tarde.

Foi gente como esta que não importa que permitiu que este país superasse a crise do pós-guerra.

O melhor que fazemos é também recuperar a bandoleira e andarmos sempre com a bucha às costas. Pode ser que ajude!

XIIIIIIIIIIIII GGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNNNNDDDDDDDDDDE
changoto

segunda-feira, setembro 26, 2011

SYMPOSIUM ET CONVIVIA MMXI



Idos septembrini MMXI

MATINAS / PRIMA

v    Passas de quem passou por ninguém ter passado coadjuvadas por imo de duplo encascamento
v    Abafado misto rememorante do ano transacto

LAUDES
 
v    Lascas de entripado porcino seco em fumo de azinho
v    Abanos tapadores de olhos para não poder ver a porca da sua mãe, em salsa coentrina, acetizados, miscegenizados com bolbo choroso e dentado
v    Misto de leguminosa de cara verde garantia de aerofagia com lombo de bonito levemente picante e bem regado com sumo de oliva de baixa acidez
v    Frisante gelado arrotante e descomplexado
v    Amostras de transmontana iguaria em várias modalidades

NOAS
 
v    Caldo entulhado de leguminosa amarela com verdura quanto baste, sampaio, tubérculos vários, mantraste manso, bem adubado com naco traseiro bem curtido
v    Nacos de glândula de função glicogénica ao braseiro e sertã sempre bem alhado
v    Oriental cereal, levemente aguado e tostado em abóbada embranquecida e intestinado com chicha marrecal, criação da quinta do lírio como se impunha
v    Acompanhantes diversos em várias cores
v    Báquicos odores e sabores
v    Casqueiro genuíno
v    Bifes de caroço à moda antiga
v    Coalho fermentado de diferentes proveniências
v    Pentix agronómico à moda do manteigas
v    Negro fumegante e aromático
v    Destilados simples e triplos

VÉSPERAS

v    Continuação de báquicos, destilados e fermentada de cevada em recipiente orvalhado
changoto dixit

 

Alambasação de MMVIII
Embandulhamento de MMIX
Entulhamento de MMX



quinta-feira, setembro 01, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXX - ARRONDEAR



Aqui no Baságueda temos a balda de recorrermos à Filosofia, à Sociologia, à Física, sei lá, até a Astronomia e a Culinária já cá foram convocadas, para enquadrar as histórias que se contam à pála da nossa faladura. Ficamos bem, digo eu, no daguerreotipo, quando fazemos a pose de intelectuais, ainda que os raciocínios sejam apertados com algum arrotcho. Creio que ainda não tinhamos lançado a linha à Antropologia. Calha hoje.

Guardo duas imagens da Ti Eugénia Barrocas, ambas com couves: ela com um enorme braçado de couves equilibrado na molídia e um caldeirinho de lata numa das mãos; ela a empurrar um carro de mão carregadinho de couves. Ambas no mesmo cenário: a subir os 300 metros de estrada entre o aidro e a sua casa.  Mas a faceta mais marcante que dela igualmente guardo tem a ver com o ritual algo original que ela realizava com uma simples nota de vinte escudos – uma espécie de KULA à moda xêndrica como adiante se explicitará.

Ainda as 8 não tinham batido na torre saía ela de casa com uma nota de vinte escudos cuidadosamente dobrada e acondicionada num lenço de mão lavado, e ia descendo a estrada no intervalo das muitas paragens para dar ao lambarão, a melhor forma de actualização informativa naquele tempo. Uma hora depois já estava a entrar na primeira loja, do Senhor João Robalo:

- Eh! Senhor João, faça-me lá um favorzinho, destroque-me lá esta nota de vinte mil réis, ande qu’ê qando vier pra xima já lhe trago umas couvinhas.

No interior já estavam algumas donas de casa a ver se o pouco dinheiro chegava para o meio quilo de açucar amarelo e para o pacote do arroz, com quem a Ti Eugénia prosseguia a quotidiana troca de informação sobre a vida da aldeia.
Do mesmo lado da rua, duas casas abaixo, visitava de seguida a loja da Rosa do Cunha (exacto, essa mesma):

- Eh! Rosa, atão tu precisas de trocos? Ê trago-te aqui vinte mil réis destrocadinhos para ficares mai arrondeada.


Claro que os trocos davam sempre jeito, sobretudo para quem aparecia a comprar 2 escudos de fermento, 5 tostões de brochos, um envelope de quarenta centavos e pedia à Ti Rosa que telefonasse para a filha em Lisboa, e lhe perguntasse se sempre vinha ao Senhor S. Bartlameu. Ti Eugénia ia destrocando e trocando informação.
Com a nova nota na mão, descia mais um pouco à loja do Tó Robalinho:

- Eh! Senhor Antónho, faça-me lá um favorzinho, destroque-me lá esta nota de vinte mil réis, ande qu’ê qando vier pra xima já lhe trago umas couvinhas.

A partilha de informação estabelecia-se agora com quem andava a precisar de fazenda para fazer uma saia ou linhas para coser as meias rotas.
A paragem seguinte era na taberna do Xico Miguel:

- Eh! Senhor Xico M’guel, atão vomecêi precisa de trocos? Ê trago-lhe aqui vinte mil réis destrocadinhos para ficar mai arrondeado.

Ao contrário dos anteriores, o espaço era agora dominado por homens, mas a informação continuava a circular e era complementada no mesmo registo na paragem que se seguia, outra taberna, a do Fatela:

- Eh! Compadre, faça-me lá um favorzinho, destroque-me lá esta nota de vinte mil réis, ande qu’ê qando vier pra xima já lhe trago umas couvinhas.

Regressava às interlocutoras fémeas na loja do Joaquim Argentino, dedicada também às fazendas e ao alimentar:

- Eh! Senhor Joquim, atão vomecêi precisa de trocos? Ê trago-lhe aqui vinte mil réis destrocadinhos para ficar mai arrondeado.

Por volta das 11 da manhã já só lhe faltava trocar e destrocar a nota de vinte mil réis  - bem como o bloco informativo - nas tabernas do Zé Rolo, do Zé Julho, do Zé Cavalheiro e na drogaria do Xquim Fástino.
Noutro dia, haveria de oferecer os trocos onde antes os tinha pedido.

Mais ou menos sem querer reencontrei há dias um antigo trabalho feito no âmbito de uma das cadeiras que mais me agradaram nos tempos em que era estudante profissional, Antropologia (introdução à, claro), baseado num livro policopiado de um dos pais da Antropologia Social, Bronislaw Malinowski, intitulado “Los Argonautas del Pacífico Occidental” assim mesmo em espanhol porque não havia em português, no qual o autor descreve o trabalho de campo que realizou no início do século passado no seio da tribo Kiriwina, nas longínquas ilhas Trobriand, Polinésia, perto das nossas antípodas. Na obra, o autor dá-nos conta do extraordinário fenómeno que ele aí encontrou e acompanhou, designado KULA, um sistema de trocas simbólicas praticado pelos nativos trobriandeses. O livro é riquíssimo em variados aspectos, mesmo para a própria ciência antropológica, mas o que interessa realçar aqui são aqueles que nos ajudam a compreender o ritual da Ti Eugénia.

Muito telegraficamente, o KULA configura uma troca de objectos entre as comunidades, cujo valor era simbólico, essencialmente de utilidade estética; era efectuado num circuito determinado pelas dezenas de ilhas que compõem o arquipélago, em que os colares de concha vermelha circulavam no sentido dos ponteiros do relógio e as braceletes de conchas brancas no sentido inverso; o momento culminante acontecia quando se trocavam, cerimonialmente, colares por braceletes, prosseguindo-se para a próxima destroca de braceletes por colares. No ritual não havia qualquer noção de posse permanente dos objectos, logo, estava expurgado todo e qualquer resquício de intenção de obter lucro – uma “coisa” inventada pelo capitalismo no mundo ocidental – mas tão só a oportunidade para se estabelecerem relações sociais, fortalecerem alianças e mesmo conquistar prestígio social, conseguindo assim garantir a protecção mútua e a proscrição de conflitos entre as comunidades.

No KULA da Ti Eugénia Barrocas estava lá o valor simbólico da nota, o circuito, os colares e as braceletes, ela não visava o lucro, “apenas” pretendia alimentar as relações sociais e a sua integração na comunidade. As couves aparecem como elemento estranho, para arrondear, só compreensível no quadro do incentivo capitalista para o lucro associado ao “favor”, ainda assim, manifestamente insuficiente para justificar a intromissão de uma qualquer agência de rating ou de uma qualquer troika.

domingo, agosto 07, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXIX - AGA(T)CHAR

Vai longe o tempo em que a ironia fina - não fora o lápis azul uma realidade! - se expressava nos jornais, revistas, rádio e televisão, quando não mesmo em obras de alto coturno, como o teatro dramático ou de revista... Lembro-me por exemplo de "Os Ridículos" cujo director era o José Viana. O Editorial era assinado por um tal C`HPYÃO. Este nome metia-me espécie e andei anos para desvendar o segredo. Vem aqui a confirmação do mito do famoso aforismo: «quem encontra sem procurar é porque já muito procurou sem encontrar». Foi mesmo assim: num dia em que viajava catapum, catapum, rio abaixo como dizia o velho Olho de Lata, esse mesmo que quando foi ao IPO encheu "três garrafos", de repente sai-me desvendado o mistério: afinal o C`HPYÃO mais não queria dizer do que caga pião : a letra H (agá) com o acento grave atrás (`H) alterava a tónica e em vez de se ler AGÀ, devia ler-se ÀGA. Dei um murro na parede do combóio que o meu comparsa da frente, que ia a rosnar, ficou a pensar que teria sido para o acordar do remanso!
Foi aí que li uma das mais inteligentes ironias (transcrevo de memóra) :" Diz um surdo-mudo para outro surdo-mudo : - 'oh pá! desculpa lá estar a gaguejar, mas tenho reumatismo no braço direito'.
Não queria ser repetitivo, mas não sei se já disse aqui no basa que nos tempos de há 40 anos atrás, segundo o velho Arnaldo das Finanças, tinha mais licenciados a aldeia dos xendros do que todo o concelho de Penamacor!

Vem isto a propósito da figura que hoje vos quero aqui trazer e que nunca se aga(t)chou, ou , como escreveria o editorialista de «Os Ridículos»: nunca se Hchou! : o senhor Professor Marcelo. Esta vedeta, casado com D. Alice, morava mesmo ao lado da Igreja. Mas nunca lá pôs os pés. Nem mesmo morto.
Anticlerical convicto rebatia quem invocasse o nome de Deus à sua frente. Comunista militante, com residência fixa, zurzia com toda a gana em ideias e práticas capitalistas, mais comedidamente no nosso meio, em tudo o que de algum modo pudesse conduzir ao endeusamento de Salazar, seu inimigo ideológico predilecto. Não eram muitos os que acompanhavam o seu raciocínio, nem eram muitos aqueles a quem ele dava alguns minutos de conversa. Isolado, mesmo quando passeava a estrada, ou vinha com D. Alice e todos sabiam da conversa, porque ela era surda quem nem uma bota da tropa, ou percorria sozinho, às vezes com Mné Chquim Carreiras, já aqui referenciado, ou o velho professor Landeiro, cuja próstata o traía e deixava visível o descontrole do esfincter.

Muitas peripécias do professor Marcelo podia aqui trazer-vos, que eu era uma das poucas pessoas com quem ele dizia que se podia "entabelar uma conversa de jeito". Trago-vos apenas uma:
No seu deambular do magistério, antes de ser dado como comunista confesso e de lhe ter sido aplicada a pena de residência fixa com apresentação semanal à G.N.R. de Penamacor, trabalhou um ano em Braga.
Não sendo, como já atrás se esclareceu, crente, isso não o impedia de visitar, por motivos puramente estéticos, os monumentos, museus e demais pontos de interesse das localidades e regiões por onde passava. Devo mesmo dizer que a sua cultura geral era, para a época, elevadíssima!
Bem, estando em Braga, não podia deixar de subir e visitar o BOM JESUS. E visitou. Ora aconteceu que no dia em que se decidiu, mais a sua Alice, a visitar o templo ex libris da Braccara Augusta, uma freira, vá-se lá saber porquê..., descia as escadas aos rebolões, devido a uma escorregadela, poucas escadas acima daquela onde Marcelo e esposa subiam. Tudo aos gritos, AGARRA; AGARRA...mas a freira passa por eles que nem se mexeram. Todos se viraram para ele com olhar acusador e inquisidor!
Sai-se então o professor Marcelo: " Eu pensava que era promessa que tivesse feito"!
Ficaram todos desarmados.
"Um homem nunca se agatcha, dizia, senão mostra os entrefolhos!"

XXXXXXIIIIIIIIIIIII GGGRRRRRRRRAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEEEEEE


(texto do changoto, publicado pelo karraio por razões de ordem técnica)

segunda-feira, agosto 01, 2011

É bem capaz

Férias 2011: à vista da baía de Sines, vira-se a Madi:
- olha pai! foi aqui em Sines que o pai do Nemo encontrou o Nemo, não foi?
Não tive coragem para desfazer a ilusão emprestada pela paronomia entre Sines e Sidney:
- é bem capaz...

sexta-feira, julho 22, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVIII - LAVARINTO

A vida, às vezes, é mesmo um lavarinto. Chegamos a um ponto que nem sabemos para onde nos virar. É mesmo um lavarinto.O velho Cartesius dizia que se nos perdêssemos numa floresta e não soubéssemos para onde nos dirigir para chegarmos a um local habitado, o melhor era decidirmo-nos por um rumo e, sem vacilar, seguir sempre em frente. Partia do princípio, paradigmático à época, de que o caminho mais curto entre dois pontos era a recta. De facto a geometria em vigor era a euclidiana e portanto tudo se passava no plano. E como tudo ocupa um lugar no espaço então para ir de um lugar a outro o melhor era sempre em frente e em linha recta. Se nos puséssemos às voltas mais ainda aumentávamos o lavarinto e não saíamos da floresta. Nem sempre assim é e, às vezes, melhor é contornarmos, darmos uma volta e, parecendo que é mais longe, ganhamos tempo e o longe torna-se perto...
Deixemos então o lavarinto das coordenadas cartesianas e os eixos da ordenadas e das abcissas e detenhamo-nos, sentadinhos num batorel, à sombra da nogueira do Chquim Pardalim, ali mesmo onde o velho Prim e o Marrafa engenheiravam forma de fanar uns tomatitos, à pála, ao velho Fatela, que, embora sempre de olho neles, acabava sempre por ver parte do lucro da venda da caixa ir-se embora nos bolsos do Marrafa e do Prim. Eram uns artistas. O Marrafa ainda ia, às temporadas, até à Panasqueira, às minas, mas quando o tempo cá fora já era melhor, desandava e juntava-se ao velho Prim em tudo quanto fosse de malandrice e pilhagem. O Prim, esse, dizia que não precisava de trabalhar para se governar...às vezes andava num lavarinto porque a Guarda ia a casa dele frequentemente e dava com vestígios... Lá ia para a prisão e de alto e bom som lá bradava:"agora até me servem o prato e põem roupa lavada na cama!" E assim vivia.
Voltemos então ao batorel do Fatela à sombra da nogueira dos Landeiros, paredes meias com o chão do Geadas.
Convido-vos a outro lavarinto mental. Hoje deu-me para aqui...
Já reparastes que o homem não pode viver sem símbolos? Mesmo os sons que profere, acaba por os desenhar sob forma gráfica - as letras - que depois associa e constrói palavras e logo frase e depois texto e discurso e obra literária. E quando fala quer simbolizar qualquer coisa no sentido em que se refere sempre a outra coisa que é diferente do que diz. É aquilo que a palavra simboliza que faz com que a realidade se torne clara à nossa consciência. Dito de chofre: é no símbolo que o real nos aparece. Sendo assim, o símbolo não é a realidade, mas a sua revelação, a sua manifestação. Estais-me a acompanhar neste lavarinto? Continuemos então.
Se as palavras disserem apenas aquilo que cada um de nós quer dizer e não deixarem espaço para o que outro que nos ouve ou nos lê quer também dizer, a partir do momento em que deixam de ser símbolos e passam a ser simplesmente signos, então degeneram como palavras. São meros veículos de transmissão: uns MEDIUM que se esvaem na efemeridade do momento. Sejamos objectivos e directos: quando uma frase designa apenas aquilo que uma pessoa quer dizer e exclui a participação de outra na construção do significado, nessa altura, torna-se estéril. Fecha-se sobre quem a profere e exclui quem a escuta ou lê, em vez de permitir um fluxo - dis-curso - de comunicação entre ambas as partes. Ora a palavra é ou deve ser o antípoda desta tese, ela é, por natureza, diálogo, logo movimento, nunca estagnação. Clarifiquemos o lavarinto em que vos estou a meter: Se as palavras não tiverem vida, se não mexerem, se não agitarem, se não provocarem, estão mortas. Endoutrinam, dogmatizam, cegam em vez de desafiarem e educarem. Disse ! Aqui é que vai um lavarinto!
O Marrafa nos túneis da Panasqueira orientava-se melhor, até mesmo sem o gasómetro na testa...
Ah!, mas não penseis que já vos larguei. Vós é que podeis largar-me. Mas aposto que quereis saber o fim deste lavarinto! ou engano-me?
Cada um de nós é uma pessoa... Para as finanças e para o Estado somos, cada um, um indivíduo com um número. Nunca uma pessoa com um nome. Critérios...
De si, o termo PESSOA é um nó numa rede de relações (com outros nós) .
Verdade insofismável é que todos podemos usar o pronome Eu, mas ninguém o pode usar por cada um de nós quando nos referimos à nossa própria pessoa. Eu só sou eu para mim. Para vós sou um tu e vós para mim sois também um tu. Assim todo o Eu implica um tu e todo o tu é proferido por um eu. E esta relação implica ainda um ELE/A e mais ainda uma relação mais complexa como é a da dimensão Nós/Tu, que inclui o ELES, de modo que o ELE/ELA se inclui no EU/TU. E pior é que cada pessoa não admite nenhum plural. Cada um de nós é só ele e mais ninguém. Que Grande lavarinto!
Acomodemo-nos no batorel para encontrarmos a saída do lavarinto. Afinal cinco pessoas não são cinco pessoas, mas dez. São cinco tu e cinco eu. Se um sair e for observador então ele é um ele/a e continuam a ser na mesma dez porque ele continua a ser um eu e um tu e cada um dos outros são também eles/as e eus e tus...

Já estava com saudades de vós. Podeis crer. Nada melhor que um exerciciozinho para aquecer.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAA
AAAAAAADDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

(publicado por karraio, texto do changoto)

segunda-feira, julho 11, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVII - (E)INCOURO

No final dos anos 60 os "campos de férias" de Verão em espaço rural permitiam a aprendizagem e desenvolvimento de um conjunto de competências de indiscutível utilidade para o futuro de crianças e adolescentes. Sobretudo porque não existia didáctica imposta pela figura do tutor / orientador / animador.

Uma das mais perseguidas era a arte de manter todo o corpo a boiar. Já não me lembro muito bem mas acho que aprendi a nadar numa charca da ribeira das Taliscas que naquele tempo se aguentava com água quase até ao S. Bartlameu, em harmoniosa partilha com umas cobritas d’água, rãs e até um casal de cágados. Ou terá sido no enorme tanque do Dr Amândio, alimentado por uma mina de água fria mas limpinha, ladeado por um freixo e uma figueira cujas pernadas se utilizavam cuidadosamente como prancha de saltos? Se calhar foi no poço do bezerrinho, 5 metros de fundo, poucos eram capazes de lá ir buscar uma mão cheia de lodo para exibir triunfalmente aos outros! Ou então terá sido na “barragem” da brigadeira? ou na de medelim? Que importa? A esta distância, só consigo concluir que eram locais perigosos, absolutamente desaconselhados.

O método de aprendizagem era cientificamente básico, resumido à repetição exaustiva, por tentativa e erro, por imitação, raramente por orientação, a verdade é que lá conquistei o truque de contrariar a gravidade dentro de água.

Mas estes "campos de férias" numa aldeia do rural profundo eram igualmente importantes para a aquisição de muitas outras competências, utilíssimas para o quotidiano de uma época em que a informação tinha de ser buscada na realidade e não no google. Vejamos por exemplo algumas das que podiam ser apreendidas por mor da irrestível atracção que os garotos tinham pela água.

- Competências para lidar com a autoridade materna: nenhuma mãe sabia por onde andavam aqueles garotos durante toda a tarde, se calhar por isso é que quase todos eram recebidos com uma pequena sova de chinelo (correctivo que se revelava manifestamente insuficiente para impedir a repetição do ritual vezes sem conta ao longo do Verão);
- Competências para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos: nas viagens eram utilizadas pasteleiras que chegavam a aguentar 4 garotos, sentados no volante, no quadro, no assento e no suporte atrás;
- Competências para a inovação: em corajosa antecipação às praias de nudistas, a moda ditava nadar incouro (era raro o que usava calções de banho,logo estigmatizado como betinho, banidas as toalhas, chinelos, protector solar, barrinhas de cereais para o lanche, pacotinhos de sumo);
- Competências para a improvisação na adversidade - havia sempre a marouva da época numa figueira, pereira ou “maçãzeira” para assaltar na viagem de regresso a casa;
- Competências para a criatividade e adaptabilidade: a sede podia facilmente ser saciada em qualquer poço que apresentasse água clara (não confundir com transparente) a atirar para o esbranquiçado, água de sabão mesmo, e que passasse no teste do cuspo: bebível se a saliva se dispersava, não potável em caso contrário.

À excepção da charca das Taliscas pode ainda listar-se uma outra competência absolutamente decisiva neste contexto:
- Competência para responder com rapidez e eficiência a situações inesperadas: era preciso botar a fugir quando o dono aparecia a vociferar imprecações e impropérios contra a canalha, invasora da sua propriedade privada. Vista de cima, a debandada aparentemente caótica de meia dúzia de garotos a correr encouros no meio do restolho, era cena para marcar o filme tuga que se fizesse sobre o “Verão de 69”. É que às vezes não havia tempo de agarrar todas as peças…

Foi o que aconteceu ao ZéChquim espanta mulas. No caminho para o Ferrador, foi assaltado por uma repentina cólica que não lhe deu o tempo necessário para se baixar e aviar a vida comédado junto do eucalipto jovem que escolhera para dele usar as cheirosas folhas. Chegado ao poço, apressou-se a fazer chegar o balde de esmalte na ponta da picota / burra / cegonha e a passar por água as suas cuecas novas que a mãe tinha comprado no último mercado como prenda por ter passado para a 4ª classe, estendendo-as de seguida cuidadosamente ao sol numa das bordas da pia de pedra. Quando o ti Bezerrinho se aproximou sorrateiro e brandiu o seu cajado, furioso, o espanta mulas apenas conseguiu agarrar os ténis rotos e a camisa.

Já à sombra da grande figueira pchichota na horta do Ti Guilherme chornico, o espanta mulas reparou que as cuecas do João parretcho eram iguais às que ele tinha deixado na pia a secar: branquinhas e com abertura à frente. Com a autoridade que lhe inspirava o dobro do tamanho, decretou:
- Ó parretcho, dá cá as tuas cuecas.
- Isso é qu’era doce! – atreveu-se o outro.
- Se não m’as dás levas já aqui uma malha.
Apercebendo-se da determinação do espanta mulas, o pequeno João tentou escapar mas rapidamente foi agarrado, e a sua resistência foi inútil perante a força bruta do matulão que o desnudou por completo para lhe arrancar as cobiçadas cuecas. Cego de raiva pela humilhação, o parretcho agarrava em tudo a que deitava mão para atirar ao espanta mulas que se pôs a cabanir e nem pensou no que estava a fazer quando, à falta de mais pedras e torrões, arrancou 2 figos de palma da figueira do inferno que havia junto ao barroco do chornico e os lançou na direcção do gatuno. Os outros garotos assistiam divertidos na plateia da sombra pchichota. Foram eles que valeram aos protagonistas principais, ajudando-os pacientemente a arrancar os dolorosos carapetos, da palma da mão do parretcho, da nalga esquerda do espanta mulas.


Seria interessante reunir Watson e Skinner com Vigotsky, Piaget e Bandura e ouvir as suas palestras neste campo de observação, relativamente aos processos de aprendizagem daquelas variadíssimas competências técnicas e emocionais.

quinta-feira, maio 26, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVI - TOUCEIRA

Que a raça humana no seu todo, com honrosas excepções, se tornou na mais velhaquinha espécie viva à superfície terrestre, não é difícil de provar. Basta ver que, sendo a paz muito mais barata do que a guerra, este descendente do pitecantropo prefere esta àquela.
Não deixa de ser curioso, e dispenso-me de ir buscar estatísticas, constatar que cada vez há mais divórcios. O caso é tão mais grave, quanto também é facto indesmentível que se casa cada vez mais tarde, o que, só por si, devia justificar exactamente o contrário, já que casando mais maduros, tiveram tempo de pensar bem antes de decidir. Mas: nunca há só um teimoso, tem sempre que haver dois. E como nenhum deles cede ao outro, engalfinham-se a tal ponto que cada um vai para seu lado.
A agravar isto tudo, o mais natural é que a disputa final resulte de uma ninharia insignificante, quando não ridícula. O mal está em que vem sempre a touceira cheia de raízes e inventariam-se casos já mortos e enterrados, ressuscitando-os com uma força tal, que até parece que se estão a reviver naquele instante.
Permiti que vos traga à boca de cena um caso famoso, que, ao que consta aconteceu com um xendro lá para os lados do Norte.
Estava o xendro cheio de fome e chega a uma pensão (as antigas casas de Pasto) e pergunta o que há para comer. Neste momento só ovos cozidos - diz o patrão. Venha de lá o prato dos ovos e vá abrindo cervejas. Comeu duas dúzias de ovos cozidos e emborcou uma grade de cervejas. Aliviado da fome ainda questiona: E fruta, que tem por aí? Só bananas! é a resposta. Venha uma, pede. Pouco tardou, corre para a casa de banho e vomita cerveja, ovos e banana. Sai-se com esta: para que raio comi eu a banana?!
Assim somos nós: por coisa pouca deitamos uma vida a perder. Agarrado à pequenez vem um corgo de raízes, como nas touceiras, às quais estão coladas, como argamassa, recordações de situações antigas que agora, regadas pelo ódio e descontroladas pela ira, rejuvenescem e arrasam toda uma relação.
Somos mesmo muito bonitos!
Partimos do princípio crónico de que, quando os outros não estão, podemos dizer mal deles, porque eles, quando nós não estamos, também dizem mal de nós e evangelicamente vemos algueiros nos olhos deles esquecendo as trancas que nos tapam a visão e que trazemos nos nossos olhos. O prazer, mais que mórbido, que sentimos quando temos a oportunidade de arranjar um defeitosinho no outro, empolando-o, aumentando-o e até espalhando-o aos sete ventos! Não vemos, porque não queremos ver, os Hitleres, os Átilas, que há dentro de nós e nos fazem ver tudo pelo lado mau...
Não somos parcos em críticas e apresentamos logo uma touceira de argumentos a favor da nossa tese.
XXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNDE

sábado, março 26, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXV - CODECIDO

Todos conhecemos a irrequietude das crianças. Com razão dizemos que, quando não as sentimos buliçosas, ou estão doentes ou a dormir, ou, então, estão a fazer asneiras.

Todos sabemos também que entre os dois anos, mais ou menos, e os cinco, elas vivem a chamada idade da graça, como superlativamente lhe chamou Hamilton. Metem "bojardas" descabidas, mas como nos rimos face ao absurdo, elas pensam que estiveram muito bem e, claro, sentem-se contentes, porque no seu egocentrismo, este vedetismo encaixa de forma perfeita.

Todos reparamos que mal começam a construir frases a pergunta fundamental é "Porquê"?, a propósito seja do que for.

Em regra dizemos que são curiosas, mas não é essa a motivação que as impele continuamente a querer conhecer e saber de tudo o que as envolve. A questão é muito mais complexa e, sem sombra de dúvidas, é a necessidade de segurança que as força a querer saber. É também por isso que elas exigem colo quando, por exemplo, estamos com elas num local onde o horizonte delas é muito limitado. Quase trepam por nós acima porque querem estar à nossa altura e ter horizonte de visibilidade idêntico e, se puderem deitar a mão, é certo que não desperdiçam o ensejo.

A personalidade é dinâmica e vai-se construindo aos poucos e, se de algum modo, como queria Freud, o aforismo "os adultos que somos depende da criança que fomos", não se verifica em todas as circunstâncias. Se tal fosse verdade, então a dinâmica do homem seria um condicionamento retaliado e a astrologia poderia merecer algum crédito. Ora nem o homem pode ser sujeito a padrões estilizados e padronizados nem a astrologia é merecedora de qualquer ponta de crédito tantas as enormidades das candongas em que faz incorrer os incautos.

Por isso é que, se a mania de fazer perguntas é comum a todas as crianças, depois, já jovens e adultos, nem todos mantêm esse espírito indagador e investigador, limitando-se a fazer parte do anonimato, no "Maria vai com as outras", sem qualquer laivo de espírito aventureiro e criativo.

Convém, ainda, tal como as crianças, ir arriscando, ousar fazer coisas novas, sem sermos estouvados a ponto de querermos dar o passo mais do que permite a perna. É que 'podemos ir por lã e voltar tosquiados.'

Vem tudo isto- pasme-se - a propósito da primeira vez que espetei uma faca num porco para o matar. Saí-me bem na picadela, mas já não tanto na abertura do animal, parte em que tive que puxar por alguma inventividade, para não ficar a ser alvo de alguma choradela de entrudo. Remediei tudo na confecção da meloreja que saíu na perfeição e, antes ainda, na separação das tripas, arte em que imparo com as mulheres. O espanto foi tal que a ti Gulhermina se sai com esta: «o rai do cachopo é mesmo codecido».

Fiquei assim para o aparvalhado já que nunca tal significante ouvira e portanto também não lhe conhecia o significado. Não fora o contexto e ficava, como tinha acontecido quando abri o porco. Tinha que me desenrascar. Se me meti nelas é para ir até ao limite do razoável.

Passado tanto tempo - já lá irão alguns 20 anos ou mais - lembrei-me hoje do codecido. Não consta nos dicionários e portanto - lá está a veia da descoberta a espicaçar o engenho - pus-me a tentar descortinar qual o conceito erudito, parelho deste popular...

Alguns dos que me lêem ainda se lembram dum famoso comentador de futebol que dava pelo nome de Alves dos Santos. Quando um avançado sabia estar no lugar certo à espera do endosso da bola e aproveitava a oportunidade para rematar à baliza e, quiçá, marcar golo, invariavelmente Alves dos Santos enobrecia a codícia desse jogador. Tanto quanto me é dado saber o mais usado nem é o substantivo - CODÍCIA - mas o adjectivo -CODICIOSO - e, mais grave ainda, este adjectivo aplica-se na linguagem tauromáquica e refere-se ao touro que busca tenazmente atingir o cavaleiro ou o matador durante a lide.

A semântica deve ter feito o resto e o significado foi-se adulterando a ponto de chegar a este de fura pastos curioso e atrevido que não vira a cara a nada nem desiste, tal como o touro - que por acaso também é o meu signo - para brincarmos à astrologia.

Se algum de vós fizer melhor leitura do termo, deixe notícia.

As matanças constituem, também elas, um ritual de convivência, com características muito sui generis a ponto de haver a parte que compete aos homens e a que compete às mulheres. Um dia contaremos estas secções.

No tempo morto que medeia entre a parte final da abertura do porco e a confecção da indispensável meloreja há sempre histórias que se contam: umas conhecidas, outras nem tanto. Nem tudo é igual para todos.

Foi assim que na matança do Tonho Labouxa o Guilherme Chornico se sai com esta, para alguns mais que batida:

Dois amigos comprometeram-se a beber sempre dois copos, sendo um sempre à saúde do outro e o taberneiros já sabiam que serviam sempre dois copos. Mas um dia um deles diz ao taberneiro:"bota só um" e o taberneiro: os meus sentimentos! e ele: de quê? Então seu amigo não morreu? - Não! Eu é que já não bebo.

Também é uma resposta codecida. Saíu-se bem.

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domingo, março 06, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXIV - ESPERNICA OU ESPARNICA

A rivalidade entre pessoas, grupos, países, marcas, que sei eu, pode ser saudável e até contribuir para o desenvolvimento mais acelerado de muitos dos bens que diariamente usamos. Nós, os chamados consumidores finais, até podemos beneficiar com a rivalidade, ou, se preferirmos, com a competitividade. Muitas vezes, a questão resume-se à simples terminologia: é diferente se consideramos o outro como adversário, concorrente, inimigo... O nível a que colocarmos o outro, só por si, predispõe-nos para um tipo de relacionamento que vai do confronto, à discussão, quando não ao ralho e até ao corte de relações e a um incontido desejo de vingança. Não esqueçamos que a nossa matriz genética é reptiliana e, mesmo quando desculpamos ou perdoamos e compreendemos, facto indubitável é que não esquecemos...e na primeira oportunidade que tivermos de ser bons a esse rival, lá emerge o cérebro primitivo a ditar a sua lei.
Apesar da matriz judaico-cristã que nos determina modos de comportamento e de valoração, apesar de uma moral da compreensão, do perdão setenta vezes sete, do ama o outro como a ti próprio, nada nos detém e o nosso auto conceito sentir-se-ia ferido se pudéssemos ficar por cima e perdêssemos essa oportunidade. É compulsivo.
O sagrado e o profano coexistem. Mais ainda, agora, no Entrudo, conjunto de dias de folia e desregramento em que, claramente, o sagrado perde. O espaço do profano é sempre maior que o do sagrado. De facto o sagrado , por assim dizer, estabelece barreiras de acesso, impõe obstáculos e, se aos poucos vai tirando alguns, indesmentível é que o sacro dos sacros só será acessível aos ungidos. O profano teme o sagrado, tanto mais que este é misterioso, ameaçador, e até absurdo, tantas são as incoerências lógicas em que cai e a que se arreiga, estabelecendo como dogma de fé, essa convicção de que tudo é possível por parte da divindade. A fé não pensa. Pessoa, superlativamente, resume: «crer é morrer, pensar é duvidar».
Outro ponto, que não deixará de ser interessante para uma tese de formando em Sociologia, será, sem dúvida, um estudo sistemático e relativamente abrangente sobre as causas, motivos, razões, explicações, justificações por que cada um de nós, mais ou menos fanaticamente, nos apegamos a um clube desportivo em detrimento de outro. Lembro-me bem que, na altura da minha vivência no espaço xêndrico os sportinguistas serem em muito maior número que os benfiquistas. Incomensuravelmente mais. São ainda frescas as lenga lengas lagárticas que me vêm à memória: " A bandeira do sporting é de oiro e de prata e a do benfica é de casca de batata" ou " o benfica come merda que até espernica". Que não me levem a mal os meus caros benfiquistas por este relato ... Não agucem já as garras de águia e venham a roer o fígado deste pobre Prometeu...
Que será então espernicar, perguntais já desacorçoados. Se reapararmos, a distância entre espernear e espernicar não é assim tanta: num agitam-se as pernas, noutro abana-se o bico!
Havemos de convir que transformar a águia imperial do benfica em galinha de capoeira a espernicar bosta de vaca é uma violência exagerada. Consequências da maioria... Se calhar como agora na política...
Volvamos então à xendrice e aos seus costumes sacro-profanos:
A garagem do Cavalheiro era o local por excelência dos bailes públicos, sim, porque também os havia particulares, mas isso é para outra história.
Muitos dos namoros e consequentes casamentos foi ali que se iniciaram. As mães das meninas, com o xaile e lenço, sentadinhas à volta e as filhas a rodopiar no cimento, sempre com o aconselhamento materno de não se afastarem para sítio onde elas naõ enxergassem, não fosse o diabo tecê-las e depois andassem nas bocas do povo...
Ea frequente aparecerem uns forasteiros que, a troco de pagarem umas cervejolas, lá se socializavam com os xendros e arriscavam ir tirar uma donzela.Foi assim que o cuco Penca, irmão de chquim mouraria, casado com filha de padre zé, se dirigiu, galante, a solicitar uma dança com a café triste: «Dá-me a honra desta dança?» perguntou penca,sempre galante e bem educado, não fosse filho de ti Eduardo que sabia mais de bíblia que qualquer padre em toda a redondeza, e a café triste:« só danço com os da terra!» e Penca:« E eu sou da Lua, é»? Ouviu-se um estalo e se eu não tenho acudido o Penca levava uma malha das valentes.
Ficai-vos com esta neste Entrudo! Cuidado com os bailes do bote-me cá licença e afins que vos acontecer ficardes mascarados sem ser preciso comprar o enfeite. Para a próxima continuamos.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAADDDDEEEE

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXIII - POSTELA

Definitivamente a verdade é algo que sempre se almeja mas nunca se possui. Não fora assim e não haveria progresso. É por se constatar que a verdade que temos é insuficiente, que continuamos em busca dela. Quer isto dizer que vamos sempre eliminando erros e que dessa eliminação resulta uma aproximação maior à verdade, mas nunca nos possibilita a sua posse. Podemos então cair em contrasenso: a verdade é que a verdade é um desejo e não a sua posse. Significa então que afinal há algo de verdade: que a verdade não é uma aquisição mas uma procura. Quase parece que imitamos o galo Cartesius que estrategicamente se supunha ignorante para depois emergir cantante com a pujança do PENSO!
Olhemos em volta e confiramos: aquela que podia e devia ser uma actividade nobre, interessante e participada por todos - a Política - vive de camuflagens, de sucessivas (in)correcções, de promessas mais que muitas, que ficam na sacola do esquecimento, de mandingas, trapaças, compadrios e o mais que todos sabemos, cada um pregando a sua verdade, que, afinal, é a sua mentira. Saem sempre incólumes e nem uma postela fica para recordar a cicatriz da aldrabice que ontem espetaram ao povo, que, néscio, continua a crer que desta é que é e este é que vai ser.
Dispenso-me de enumerar exemplos, tantos são eles. Até acho piada quando em vez de chamarem aldrabice ou mentira a uma afirmação, dizem que é uma inverdade, neologismo sem sentido e perfeitamente inútil, subterfúgio airoso para tapar o sol com a peneira.
Se nos virarmos para o mundo da ciência e da tecnologia, a evidência de que a verdade não é uma posse, transparece: aquilo que hoje é topo de gama, perfeição máxima conseguida, maravilha insuperável, amanhã, é pré-histórico, obsoleto, ultrapassado, ridículo. Olhai só para vertigem que todos os dias nos apresentam as empresas de telemóveis. Lembro-me de ser um luxo, uma raridade, alguém trazer um telemóvel no carro! Era um mastodonte, era preciso ir para o cimo de um monte, orientar a viatura, eu sei lá!...Hoje sabemos da comodidade! E podíamos citar muitos outros exemplos.
Não posso, todavia, deixar de evocar aqui o crime que estão a cometer contra a língua portuguesa. Não que eu seja avesso às novidades e que não alinhe, em muitos casos pela doutrina do útil e simplificado: afinal os portugueses primeiro começam a ligar os aparelhos e depois, se não funciona, vão ler o livro de instruções.
Se tivéssemos que nos levantar do sofá para mudar os canais de televisão, deixávamo-la ficar onde estava. Assim, com o comando na mão, farejamos tudo quanto há... bem, mas adiante que a história espera e não era isto que vos tinha anunciado.
Vamos lá ao crime: como estamos num tempo em que já nem há tempo para ter tempo, tal a efemeridade de tudo: situações,objectos, vivências, e, mais que tudo, pessoas - tudo é descartável. Atentemos só no que acontece aos nossos velhinhos: o que se espera é que não dêem chatices e que morram antes de se acabar o dinheiro que têm, a ver se sobra alguma coisa para nós. Afinal, eles são uma postela que, mal se possa tirar , lançamos ao vento... Foi o mesmo que fizeram com a nossa língua: agora deixa de ser uma língua novilatina e passa a ser uma novimultiforme. Sangraram de tal forma o seu mais típico , a sua vernaculidade e a matriz que, daqui a poucos anos, ninguém vai perceber que a sua mãe foi o latim.
Perdoe-se-me a delação mas eu tenho para mim que os intelectuais que elaboraram este acordo ortográfico, também são adeptos do rápido e pronto: tiraram letras às palavras para não terem que as escrever completamente e assim ganharem tempo. O tal tempo para o qual já não temos tempo!
Consideraram a língua como uma postela. Não a respeitaram. O Baságueda continuará a respeitá-la. Mainada!
Faz-me lembrar a história que o Tonho Labouxa - acho que anda por terras da Suiça - protagonizou:
Dizia o professor Tanganho que às vezes os examinadores, no antigo exame da quarta classe, não perguntavam só o que vinha nos livros. Perguntavam também coisas que desafiavam a criatividade e imaginação criadora dos alunos e que, por isso, era preciso saber pensar e não nos deixarmos encavacar por perguntas que não fossem as habituais. Por exemplo, dizia o Tanganho: Qual é a coisa mais velha do mundo? E nós ficamos todos calados. E o Tanganho: a coisa mais velha do mundo é o tempo! É por isso que Deus não tem tempo. O tempo só começou a contar depois do primeiro dia da criação. Até aí não havia tempo. Deus precisou de sete dias para criar o mundo e foi aí que começou o antes e o depois. Antes não havia tempo. É por isso que Deus é eterno, porque não nasceu com o tempo. Já existia antes do tempo. O Labouxa que não era muito virado para lucubrações filosóficas arranca: OH! Senhor professor, isso num há-de ser bem assim, cossenão eu também sou parecido com Deus, porque a mnha mãe diz a toda a gente que eu nasci antes do tempo e num me lembro de ter criado nada. Uma tanganhada zuniu os ares e raspou a orelha do Labouxa: " oh! minha besta quadrada ponha-se já de joelhos! És como o teu pai que só sabe dizer: aqui está o Zé Labouxa que descobriu o ninho à moucha. Eu não estou a falar desse tempo. É dum tempo muito antes do teu teu tempo e do tempo do teu pai e do teu avô. Ouviste?" O Labouxa disse que sim com a mão nas orelhas, mas continuou a não perceber. Nós também não, mas como ficamos calados não nos caíu a tanganhada nas orelhas. Felizes , foi o que nós fomos. Como Santo Agostinho: Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que o tempo é, mas se alguém me pergunta o que é, já não sei o que o tempo é.
Bem, é tempo de ficar por aqui, senão também me considerais uma postela e, mal possais deitais-me ao vento e desapareço no tempo.
XXIIIGGGGRAAAAAAAAAAAANNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEE!

sábado, janeiro 01, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXII - ESGRAVUNA

Uma das características daquele que por muitos é considerado o pai do existencialismo, um filósofo dinamarquês, cujo nome é difícil de escrever e de dizer, contrapondo-se assim a um irracionalismo, que desembocou no niilismo, no sentido em que era necessário uma metamorfose do homem, alijando para longe todos os valores de um ser espezinhado por uma cultura judaico cristã escravizante e falsa, promissora de benesses sem fim no mundo do além é, o individualismo.
A vida de cada um é única. Não pode ser enclausurada em nenhum sistema, pela simples razão de que, a cada passo, cada um de nós está sujeito às maiores imprevisibilidades e a submissão ou obediência a esquemas pré-escritos ou determinados, imitando as moiras dos clássicos gregos, é descabida, desajustada e ineficaz. Os nossos problenas são os nossos problemas e temos que ser nós a resolvê-los. Não se invalida a cooperação, mas se não for eu a jogar nunca me sai o prémio. Basta ler o Desespero Humano para aí se ver a razão do que se disse.
Não há linha contínua para o ser humano. Ele é bicho enguia, deslizador, polvo hábil que passa por onde se pensa que é impossível, sagaz leopardo, sempre novo na emboscada que trama.
Alguns, mormente os americanos, esses bebés ainda de leite em termos de nação, quiseram levar ao extremo o aforismo de que de pequenino é que se torce o pepino. Vai daí, criaram a doutrina que pegou fogo no Ocidente e, tal como a matriz judaico cristã e os fundamentalismos islamitas apenas têm uma leitura do que nos envolve, pondo talas limitadoras de horizontes nos olhos dos seus seguidores. Partiram do pressuposto que o homem reagiria sempre da mesma maneira face à mesma circunstância. Se é verdade que isso pode ser admissível, por exemplo, no comportamento de soldados obedecendo, todos da mesma maneira e ao mesmo tempo às ordens dos comandantes, já não é verificável em todas as situações privadas, em que cada um usa da sua autonomia para agir como bem entende, sem regra fixa e muito menos universal.
Em suma o ser humano é como um pião esgravuna. Nunca se sabe para que lado vai na roda, depois de ser lançado da baraça.
Muitos dos que me lêem ainda jogaram ao pião. O mais vulgar dos jogos de pião consistia numa roda de maior ou menor diâmetro, mas no mínimo teria 3 metros, quase a largura do centro da estrada, tendo concêntrico outro círculo, ao centro, onde se punham os piões que morressem, isto é, aqueles que, uma vez lançados à roda, não saíssem do perímetro da circunferência representada no chão do alcatrão e desenhada por uma cunca de telha.
O jogo sendo colectivo, porque tinham acesso à roda 6 ou 7 jogadores, quando não mais, tinha, mista, a característica de ser individual: cada um tinha o seu pião e era com ele que jogava e por ele se sujeitava a todas as ocorrências que fossem acontecendo. Não havia tempo limite e podiam entrar uns e sair outros. Um pião atirado para a roda tinha que sair dela pelos seus próprios meios. Podia ser ajudado por outro jogador enquanto dançasse. Depois de cair, se ficasse dentro do círculo, ia para a poça (o tal círculo ao meio) e esperava que os outros o salvassem através de pontaria afinada, atirando o pião para próximo dele até sair da roda. Às vezes, a ajuda dava em castigo, porque o colaborador sujeitava-se a ficar também ele no interior do círculo. Faziam-se acordos, quando não negócios e até apostas sem grande mal para o mundo. Afinal o pião era um jogo tal como a vida também é um jogo e se estão sempre a fazer acordos.
Alguns de nós faziam os próprios piões e até as baraças eram tecidas em carros de linhas, na coroa dos quais se espetavam quatro pregos e se entrelaçavam, à laia de uma trança, os diferentes fios de algodão, roubados do açafate de costura da mãe.
A maioria, porém, apesar de ninguém ser rico, sempre arranjava as cinco coroas para um pião de pinho, ou os cinco mil réis para um de azinho, o Ferrari dos piões. A compra obedecia a exame prévio e conselho de amigos e companheiros, avaliando o equilíbrio, a robustez, a longitudinalidade, a latitude, a lisura da coroa, o aguço do ferrão, a lisura do corpo, o peso do todo, em comparação com outros, enfim, um exame cirúrgico, de minúcia, mais que microscópica. A questão mor era se seria esgravuna ou dormente. O ideal era um pião que nem dormisse na posição onde caísse porque podia , apesar de "agarrar" bem quando se deitava nas últimas voltas, nem tão esgravuna que fosse impossível prever para onde se dirigiria uma vez atirado para a roda. Havia sempre o perigo de esgravunar para dentro e, pronto, lá ficava sujeito às nicas dos outros.
Assim somos nós... São poucas as vezes em que somos previsíveis. O pior é que, muitas vezes devíamos mesmo desobedecer às sondagens que andam sempre a querer determinar o nosso comportamento e fintá-las para ver se não domesticam tanto o pião.
Vêm aí eleições: a ver se somos esgravunas e saímos da roda.
Boas festas e porrada no madeiro que ainda está inteiro.
XXXXIIIIIII GRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEE

quarta-feira, dezembro 29, 2010

REQUIEM 2010

O Changoto já elaborou a partitura para a última noite de 2010.
Sois todos convidados.
Ei-la:

ADÁGIO
Enfornatus toscanini
Mirus viniculatus
Presunto oliveiresco retalhado e adoçado com água pluvial
Pendurados fumadeiros braseados

ALLEGRO
Canja de Boda

ALLEGRO MA NON TROPO
Carteiro voador arrozado
Canalhada de chibeto

LARGO
Corredora lepurina em leguminosa acouvada

PRESTO
Fermentada de leite coalhado
Trix manteigada

VIVACE
Negro da Guiné
Trifermentado celta
Alquitarrada xendra



Se não puderdes vir cantar connosco, ficai descansados que brindaremos na mesma e gritaremos bem alto votos de bom 2011 para todos

quarta-feira, dezembro 01, 2010

A NOSSA FALADURA - CLXI - ALAGOSTO OU ALAGOADO

O tempo é inexorável. Não se pode chamar o detrás. O que passou é irrepetível. É por isso que o tempo, sendo, nunca é. A mobilidade é a sua característica maior. Mas, hélas! em tudo o que se move, algo permanece estático e em tudo o que repousa algo se altera. Na verdade, o passado já não é, e o futuro ainda não está, logo, um já não existe, e o outro ainda não faz parte. A efemeridade do presente conduz inevitavelmente ao ponto - aquela dimensão que não tem extensão mas sem o qual não seria possível a recta, depois a superfície e a seguir o volume. A tridimensionalidade, afinal, aparece da inextensibilidade.
A polémica entre a realidade experiencial, material, empírica, mensurável, configurada, representável em figuras num plano, embatia numa outra: a realidade ideal. Esta era perfeita, modelar, única, sem dimensionalidade, conceptual, eidética, original e sem defeito já que imperfectível, eterna, paradigmática, enfim, hiperurânia.
A dicotomia e, depois, a harmonia dos contrários perpassaram a história do pensamento humano: bem/mal, direito/esquerdo, vida/morte, sono/vigília, .../..., céu/inferno, deus/diabo, dia/noite/,... e ainda hoje permanece.
Se hoje fossem vivos, esses grandes vultos do pensamento humano, cujas referências ainda hoje se invocam, se hoje fossem vivos, dizia, ficariam pasmados: afinal a realidade nem é real nem ideal, é virtual. O que é e o que parece, finalmente, fundiram-se: a nova metafísica reduz-se ao electrão. O tempo e o espaço quase se colam: acontece no Japão, eu vejo em casa, tenho falta de dinheiro? em dois minutos sou milionário,...
Em tempos que já lá vão, ouvi explicar que tinha havido um milagre grego, no sentido em que a qualidade e quantidade da obra produzida na Atenas de então eram de tal monta, que não tinham explicação possível.... Deu-se-lhe o nome de milagre grego (a eles que o que mais que queriam era acabar com os milagres na criação!) ! A incongruência reside no facto de que o que os gregos pretendiam era exactamente varrer as entidades divinas da criação do mundo e por isso elencaram uma série de causas a que chamaram ARCHÊ(s), princípios primeiros, causas encausadas, origem de tudo quanto existe e por isso há pinhos e eucaliptos, macieiras e sobreiros, corvinas e chernes,... É a unidade no seio da multiplicidade, ou se preferirmos, a multiplicidade derivada de uma origem comum: fosse a água de Tales, o indeterminado de Anaximandro, o ar de Anaximenes, o fogo de Heraclito, o Amor e o Ódio de Anaxágoras, o número de Pitágoras, os quatro elementos de Empédocles, (...) a verdade é que o elemento criador era um dos elementos da natureza. O natural originava o natural e o sobrenatural era de outra dimensão, portanto, não metia no mundo e suas variações, nem prego nem estopa.
Perguntareis vós a que raio de propósito vem esta lenga-lenga, mas as ideias, como as cerejas e as palavras num discurso colam-se umas às outras. Às vezes saem em catadupa, amontoam-se à saída e é difícil contê-las originando profusão de informação, o que conduz à perda de nexo e, logo, à liquidação do objectivo. Há, pois que conter a verborreia!
Para esse efeito temos por aí quanto baste, desde Sócrates, Socretinos e afins, até outra mão cheia de pregadores sem púlpito, mas que nos entram em casa se lhes franquearmos a porta. Basta um click!.
É princípio de decência em todos os domínios da acção humana que não se pode ser mais papista que o papa. Não se pode ser alagoado, lampeiro. O velho Comandante - há quanto tempo não trazia aqui o meu velho avô, mestre inexcedível em matéria de saber empírico - tinha uma expressão impagável: "quem não sabe tocar corneta que não se meta."
Olhando em redor o que vemos é uma plêiade de incompetentes a mexer onde não sabem e, claro, a ditarem ordens quando o que deviam fazer era "estar quêdos!".
Constatamos que aquilo que mexe connosco está nas horas da amargura e os tais iluminados que nada têm a ver com os gregos de que acima vos trouxe memória, insistem que é a única alternativa. Porquê? porque são alagostos. Não sabem tocar corneta e arranham em tudo: ele já foi ministro da cultura, da educação, dos assuntos parlamentares, ajunto do primeiro ministro, porta voz do governo, ministro da defesa, bolas! que mais?. Isto não é um homem, é uma invenção! Como dizia um velho amigo transmontano ::SACODE!
Nada de estranhar neste rectângulo, porque quem nos representa raramente tem dúvidas e nunca se engana. Assim vamos indo, cantando e rindo, levados, levados sim,...
Ninguém entre os xendros de então se comparava a Velho Jonja, cachopo canho, ligeirinho no andar campeão na fisga, imbatível no jogo do pinoco, defesa esquerdo na bola, artista maior na arte de engudiar e armar costil, poço sem fundo em matéria de conhecimento da valdevinagem de então. Lia a Flama, o Zíngaro, a Crónica Feminina, Caprichos, Zaida, Século Ilustrado (...)e era impenitente devorador de tudo quanto fosse programa de futilidade. Sabia tudo de todos com uma profusão de pormenores que, quem quisesse saber personagem de novela, artista de nomeada, filiação ou paternidade de vedeta televisiva, horas e locais de espectáculos, honorários e prémios, concursos , filmes de cowboys, que sei eu, todos os intérpretes da música francesa de então com os títulos das canções e até algum traiteio, quando o título não fosse bastante, ... Sempre bem penteadinho, aprumado no porte, sapato de atacador sempre bem apertado, casaquinho ou colete justos, e o seu constante: « Tão!, tão!, viste ontem o filme do flecha quebrada?, tão!,tão! viste o Laredo!, tão!tão, viste o bonanza,...tão!, tão!.?
Até parece que ainda agora o oiço a imitar a música do Bonanza! era ele e o Chquim Jolim da pata branca. .. Outros tempos!
Quando eu estava para elas, aos Domingos à tarde, no adro, a assistir a três dôques e chquim cachiço a jogar à cavaca, metia-lhe veneno:" Oh Jonja, um dos cinco violinos era o Matateu, não era?" « Você é uma besta! Matateu era do Belenenses e os cinco violinos eram do Sporting!» Vasques, Travassos, Peyroteo,...» "Pronto,! " Mas o Joe Pequeno era dos Robin dos Bosques! « Não no era, era o irmão mai novo dos Bonanza com o Adam e o Hoss!" Era uma tarde de cultura era o que era!
Duma vez decidi-me mesmo a provocá-lo a sério:" Olha lá, ó Jonja; Quando é que uma rolha de cortiça flutua no vinho?" O Jonja ficou apanhado porque isso não vinha na crónica nem na flama, nem... E o Jonja:« e que me importa a mim isso? Sabes quantas cantigas vão ao festival, sabes? Calma, aprende lá esta : a rolha de cortiça flutua no vinho quando lá a pões!" Isto é para não seres tão alagosto!"
Abalou com umas trombas que nem um barraco!
XI GGGRRAAANNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!