quinta-feira, setembro 01, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXX - ARRONDEAR



Aqui no Baságueda temos a balda de recorrermos à Filosofia, à Sociologia, à Física, sei lá, até a Astronomia e a Culinária já cá foram convocadas, para enquadrar as histórias que se contam à pála da nossa faladura. Ficamos bem, digo eu, no daguerreotipo, quando fazemos a pose de intelectuais, ainda que os raciocínios sejam apertados com algum arrotcho. Creio que ainda não tinhamos lançado a linha à Antropologia. Calha hoje.

Guardo duas imagens da Ti Eugénia Barrocas, ambas com couves: ela com um enorme braçado de couves equilibrado na molídia e um caldeirinho de lata numa das mãos; ela a empurrar um carro de mão carregadinho de couves. Ambas no mesmo cenário: a subir os 300 metros de estrada entre o aidro e a sua casa.  Mas a faceta mais marcante que dela igualmente guardo tem a ver com o ritual algo original que ela realizava com uma simples nota de vinte escudos – uma espécie de KULA à moda xêndrica como adiante se explicitará.

Ainda as 8 não tinham batido na torre saía ela de casa com uma nota de vinte escudos cuidadosamente dobrada e acondicionada num lenço de mão lavado, e ia descendo a estrada no intervalo das muitas paragens para dar ao lambarão, a melhor forma de actualização informativa naquele tempo. Uma hora depois já estava a entrar na primeira loja, do Senhor João Robalo:

- Eh! Senhor João, faça-me lá um favorzinho, destroque-me lá esta nota de vinte mil réis, ande qu’ê qando vier pra xima já lhe trago umas couvinhas.

No interior já estavam algumas donas de casa a ver se o pouco dinheiro chegava para o meio quilo de açucar amarelo e para o pacote do arroz, com quem a Ti Eugénia prosseguia a quotidiana troca de informação sobre a vida da aldeia.
Do mesmo lado da rua, duas casas abaixo, visitava de seguida a loja da Rosa do Cunha (exacto, essa mesma):

- Eh! Rosa, atão tu precisas de trocos? Ê trago-te aqui vinte mil réis destrocadinhos para ficares mai arrondeada.


Claro que os trocos davam sempre jeito, sobretudo para quem aparecia a comprar 2 escudos de fermento, 5 tostões de brochos, um envelope de quarenta centavos e pedia à Ti Rosa que telefonasse para a filha em Lisboa, e lhe perguntasse se sempre vinha ao Senhor S. Bartlameu. Ti Eugénia ia destrocando e trocando informação.
Com a nova nota na mão, descia mais um pouco à loja do Tó Robalinho:

- Eh! Senhor Antónho, faça-me lá um favorzinho, destroque-me lá esta nota de vinte mil réis, ande qu’ê qando vier pra xima já lhe trago umas couvinhas.

A partilha de informação estabelecia-se agora com quem andava a precisar de fazenda para fazer uma saia ou linhas para coser as meias rotas.
A paragem seguinte era na taberna do Xico Miguel:

- Eh! Senhor Xico M’guel, atão vomecêi precisa de trocos? Ê trago-lhe aqui vinte mil réis destrocadinhos para ficar mai arrondeado.

Ao contrário dos anteriores, o espaço era agora dominado por homens, mas a informação continuava a circular e era complementada no mesmo registo na paragem que se seguia, outra taberna, a do Fatela:

- Eh! Compadre, faça-me lá um favorzinho, destroque-me lá esta nota de vinte mil réis, ande qu’ê qando vier pra xima já lhe trago umas couvinhas.

Regressava às interlocutoras fémeas na loja do Joaquim Argentino, dedicada também às fazendas e ao alimentar:

- Eh! Senhor Joquim, atão vomecêi precisa de trocos? Ê trago-lhe aqui vinte mil réis destrocadinhos para ficar mai arrondeado.

Por volta das 11 da manhã já só lhe faltava trocar e destrocar a nota de vinte mil réis  - bem como o bloco informativo - nas tabernas do Zé Rolo, do Zé Julho, do Zé Cavalheiro e na drogaria do Xquim Fástino.
Noutro dia, haveria de oferecer os trocos onde antes os tinha pedido.

Mais ou menos sem querer reencontrei há dias um antigo trabalho feito no âmbito de uma das cadeiras que mais me agradaram nos tempos em que era estudante profissional, Antropologia (introdução à, claro), baseado num livro policopiado de um dos pais da Antropologia Social, Bronislaw Malinowski, intitulado “Los Argonautas del Pacífico Occidental” assim mesmo em espanhol porque não havia em português, no qual o autor descreve o trabalho de campo que realizou no início do século passado no seio da tribo Kiriwina, nas longínquas ilhas Trobriand, Polinésia, perto das nossas antípodas. Na obra, o autor dá-nos conta do extraordinário fenómeno que ele aí encontrou e acompanhou, designado KULA, um sistema de trocas simbólicas praticado pelos nativos trobriandeses. O livro é riquíssimo em variados aspectos, mesmo para a própria ciência antropológica, mas o que interessa realçar aqui são aqueles que nos ajudam a compreender o ritual da Ti Eugénia.

Muito telegraficamente, o KULA configura uma troca de objectos entre as comunidades, cujo valor era simbólico, essencialmente de utilidade estética; era efectuado num circuito determinado pelas dezenas de ilhas que compõem o arquipélago, em que os colares de concha vermelha circulavam no sentido dos ponteiros do relógio e as braceletes de conchas brancas no sentido inverso; o momento culminante acontecia quando se trocavam, cerimonialmente, colares por braceletes, prosseguindo-se para a próxima destroca de braceletes por colares. No ritual não havia qualquer noção de posse permanente dos objectos, logo, estava expurgado todo e qualquer resquício de intenção de obter lucro – uma “coisa” inventada pelo capitalismo no mundo ocidental – mas tão só a oportunidade para se estabelecerem relações sociais, fortalecerem alianças e mesmo conquistar prestígio social, conseguindo assim garantir a protecção mútua e a proscrição de conflitos entre as comunidades.

No KULA da Ti Eugénia Barrocas estava lá o valor simbólico da nota, o circuito, os colares e as braceletes, ela não visava o lucro, “apenas” pretendia alimentar as relações sociais e a sua integração na comunidade. As couves aparecem como elemento estranho, para arrondear, só compreensível no quadro do incentivo capitalista para o lucro associado ao “favor”, ainda assim, manifestamente insuficiente para justificar a intromissão de uma qualquer agência de rating ou de uma qualquer troika.

4 comentários:

ALMADODIABO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ALMADODIABO disse...

Para além do interesse antropológico da KULA, gostei especialmente da (re)visita guiada pelo Shopping Center da Aldeia, desde a "velha Central" do Ti Cunha e da Ti Rosa, passando pelos 2 "tascos", dos quais por acaso um, era um talho, do Zé Rolo e acabando na zona de chá, café e laranjada com salão de baile, do Zé Cavalheiro...efectivamente ...só para quem conheceu...Abraço

Idanhense sonhadora disse...

Ora ainda bem que por aí é uma balda no acesso às ciências auxiliares ..Assim podemos escuiter as suas estoiras !!!Estou a veri que jái todos estã a regresser ó travalho ....Eu , vinda há dous dias das nossas terras berãs é que continuo ma mandriona .Prá semana prometo novidedes no mê blogue.
Muntas vegitas
Quina

pratitamem disse...

Gostei! Gostei muito e interrogo-me? Questiono esse "...mais ou menos sem querer reencontrei..." depois essa conversa de "...estudante profissional"..., como se não tivesses já muito suor e trabalho, até que resolvesses sustentar os teus próprios estudos. O Post é esse novo Anselmo ao nível do melhor de sempre, com um empenho intelectual e de inspiração, própria, de quem tem um pouco mais, nessa superioridade, de que só quem aspira pode desdenhar, o saber e esse saber, que sabe bem e onde eu gosto de beber e saborear! vejo ai um reencontro com essa sabedoria, a teoria pela teoria, sendo ela o teor da mania de querer saber. Gostava muito que me acompanhasses nesta minha aventura do Mestrado e tenho a certeza, por tantas e boas razões que não poderia encontrar melhor companheiro. Fico à espera... aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaabraço grande Amigo, Karraio!