A nossa vida, embora ininterrupta na sua sequência: - um dia segue-se ao outro, até que um dia a nossa cadeira fica vazia para sempre - a nossa vida, esse intervalo de tempo em que passamos no mesmo tempo e espaço com outros -é efémera. As efémeras, já agora, são uns insectos que no espaço de duas horas, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem...Reparai só: duas horas... Não têm tempo para discutir heranças; nunca se zangam. Para quê? Passado pouco tempo, morrem... de nada vale invocar direitos...Só os humanos não aprendem que são efémeros e que tudo passa.. e gabam-se de ser inteligentes...! o paradoxo é evidente.
Quando me ponho a pensar nesta estultícia humana as ideias atafegam-se-me e fico comprimido e limitado na minha soltura pensante. Vamos a saber: a morte nunca é um problema. Não tem solução, logo não é questionável. A vida, essa sim. Essa tem problemas e então o que há a fazer é tentar, até ao limite, vivê-la bem. Se a vivermos bem, a morte, venha ela quando vier, cai na sequência. Curiosa era a posição de Epicuro, pensador da chamada época helenística: enquanto eu for vivo a morte não tem que me afligir porque a vida vence a morte e ela, portanto, não é, e quando morrer ela também já não mete medo porque nessa altura já não sou e, em consequência, ela também já não me aflige... Já antes Platão em o Fédon dizia que "a vida é um treino para a morte". O que há a fazer, então, é tão só sabermos viver e aprender a morrer. Tão simples! E isto pensava-se há já 2.500 anos. Isto já não me atafega o juízo, de tão claro e correcto que é. Se o meu amigo Zé Lameiras ainda por cá andasse, era espingarda para dizer: "os gregos tinham lá porras". E digo eu:" se tinham!" A morte é inelutável. Não há que atafegar o tino com ela. Mainada!
O velho Garcia era pastor lá para os lados da Arrancada, ali quando se vira para a carreira de tiro de Penamacor, na estrada do Meimão, perto da ribeira da Ceife. A Rouca, companheira fiel, tratava da horta e era, com ele, ordenhadora das ovelhas, quando, já Sol posto, Garcia chegava com o rebanho ao aprisco. Aí eram os dois a dar ao dedo e ordenhar as ovelhas depressa para os baldes que a janta apetecia e a cama estava aberta para os corpos lassos. Mas... só depois da espremedela do leite coalhado com a flor do cardo. A Rouca tratava dos cardos como se fossem bebés: estrume da burrica, bem fermentado, ao toro, monda manual de corriol ou língua de passarinho, bolsa de pastor, veredo ou outra erva maligna. Ali só havia lugar para o cardo. E para as empas, claro: cada um deles, e eram aí obra duns 15, tinha uma estaca que impedia que o vento os vergasse. Tinha um escadote em madeira que Garcia lhe fizera - era habilidoso o Garcia, até acendia as barbas do milho que lhe serviam de tabaco, amortalhadas em papel de cartuxo, com a fricção da cabeça de um prego sobre o fundo de um vidro de garrafa de pirolito e, uma vez, até o vi deitar um foguete utilizando a mesma técnica- «tinha lá porras» o Garcia.
Por esta altura do ano, era vê-la, à Rouca, montada no escadéu e com a tesoura numa das mãos e uma malga na outra, a cortar a flor do cardeiro, com todo o cuidado, mais que Malagueta, Maroco, Patanisca ou Pombo tinham acortar o cabelo aos velhos, cada Sábado. Por cima do arcaz tinha umas folhas de jornal onde o punha a secar e, à medida que ia secando, guardava-o numa bolsa de pano aos quadrados que ela própria cosera com esmero.Depois da ordenha, leite coado por paninho alvo para uma bilha inox, todos os dias areada até parecer um espelho e colocada estrategicamente perto do lume para se manter quentinha, comiam o caldo . Rouca ajeitava a francela e os achinchos, Garcia batia com cacheira de torga, que ele próprio aprimorara, num almofariz de bronze, que mais parecia um sino, a flor cardeira com umas areias de sal grosso, até ficar bem moída. Levava sempre à inspecção superior de Rouca que aprovava ou pedia mais miúda ainda. Quando achasse que já estava, juntava-lhe um copinho de água morna, esperava que o suco se desfizesse, fazia uma espécie de balão dum paninho impecavelmente branco, Garcia deitava o conteúdo da malga com cuidado e Rouca atafegava com toda a força para dentro da bilha com o leite já amornado. O último aperto, ou atafega, era dado sempre por Garcia que até gemia de tanta força aplicar. Enquanto o leite coalhava, roíam um pouco de pão e conduto, Garcia arrefinfava-lhe um esmalte de tinto, Rouca ia ao asado. O leite coalhou...
Sentava-se num tropesso, punha uma touca e Garcia ia deitando o coalho aos poucos com um coucho para dentro do achincho. Rouca ia espremendo o soro, apertava com as mãos, ajustava o achincho, e, ao fim, espalhava sal grosso para fazer aqueles queijos únicos que ainda agora me sabem... Outros tempos, sem ASAE, mas com uma garantia de qualidade que hoje só raramente se encontra.
Todos comiam e se algum morreu de brucela nunca se soube nem se deixou de comer aquele divino leite coalhado espremido.
Vamos lá então viver a vida comédado que esta sabemos que existe e a outra nunca ninguém deu dela testemunho. Mainada!
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAADDDDDEEEEE
CHANGOTO
sexta-feira, maio 14, 2010
domingo, abril 25, 2010
quinta-feira, abril 22, 2010
A NOSSA FALADURA - CLII - CRUITO
Donde a origem deste termo, não sei. Admito, no entanto que tenha a ver com cocuruto, significante por demais complicado para ser adoptado pela lei do menor esforço, tipicamente popular. Assim, deve ter ficado coruto, evitando a haplologia e, logo depois porque o o é abafado por ser ante- tónico, sofre a natural elisão, ficando cruto e daí à simples ditongação é um passo e cá temos o nosso CRUITO. O cruito é a parte mais elevada de qualquer objecto: o cruito do monte, do eucalipto, da cabeça,etc..
A propósito do famoso vulcão da Islândia, cujo nome ninguém se atreve a pronunciar, a não ser é claro, os islandeses, dei comigo a pensar na desmesurada ganância humana e nessa agressividade que tão característica nos é, a ponto de, se necessário, passarmos por cima de toda a folha, só para sermos os primeiros a chegar ao cruito.
Leia-se aqui cruito como o alvo dos nossos desejos ou projectos, aquilo que mais queremos num momento e que, portanto, fica mesmo por cima de tudo o mais, logo, no cruito das nossas preocupações.
Ao longo dos tempos, sempre o homem foi melhorando o seu nível de vida, preocupando-se sempre em criar objectos que lhe permitissem maior independência. O paradoxo, ao fim, é que esses mesmos objectos que o homem cria para ter mais tempo para si, acabam por o dominar e sujeitar.
Expliquemo-nos: a locomoção humana estava a cargo dos pés e pernas, é claro, mas aos poucos , com a domesticação dos animais e a invenção da roda, aliadas à técnica da tracção, o macaco pelado começou, ou a montar ou a servir-se de veículos para se deslocar a si e às bagagens.
Permita-se-me alguma erudição: os romanos chamavam à bagagem IMPEDIMENTA, ou seja aquilo que impedia o pé de andar mais depressa. As bagagens são sempre um empecilho porque impedem ou dificultam o andamento. Naquele tempo, era atraso, principalmente para o exército e era complicado quando não conseguia passar a vau e tinham mesmo de construir pontes, essas grandiosas obras de engenharia romana, ainda hoje visíveis por toda a Europa.
Progressivamente se foi evoluindo até ao automóvel, ao combóio... Isto em terra, porque o homem, desde muito cedo aproveitou o elemento líquido e os grandes rios tornaram-se grandes auto estradas comunicacionais, e o mar, logo depois, em vez de separar, a breve trecho ,começou a unir sem ser necessário construir pontes. Não contente ainda, virou-se para o Ar e, construiu desde a passarola do Padre Gusmão, tão excelentemente evocada por Saramago em O Memorial do Convento, até aos foguetões que já foram à lua e esquadrinham as longínquas parcelas do universo conhecido. Nem mesmo o fundo do mar escapa a este sagaz predador. Tudo perscruta a ver se encontra algo ainda maior para saciar a sua por demais insaciável avidez.
O curioso e paradoxal é que, com tanto domínio e com cada vez mais conhecimentos, basta que a Geia decida mostrar um pouco da sua vitalidade interior para ficar tudo e todos condicionados à mãe Natura.
Todos com tanta pressa e tiveram que arranjar tempo para esperar. Mainada.
O mesmo se passa com qualquer outro instrumento - que mais não é que um prolongamento de nós - decida avariar ou não obedecer de imediato aos nossos comandos: se a máquina de lavar avaria, como havemos de lavar a roupa?, se o frigorífico não cumpre a função, como conservamos em boas condições, os alimentos?
Reparemos que, há um sec. ou pouco mais, nada disto existia e as pessoas viviam. Andavam devagar e tinham tempo para tudo. Agora andamos depressa e não temos tempo para nada.
Mari Varónica conheceu mais homens que a Rosa Maria da cantiga da srª da Saúde e mudava de parceiro, mais que de combinação. Não era preciso ser cão para a farejar.
Aquele que com ela mais tempo coabitou foi o Mnel Césaro, coveiro, grande sofredor de asma e que por estas alturas se via aflito com os olhos sempre vermelhos por causa dos pólens.
Tinham casa na aldeia, ali para os lados da rua das Aranhas, próximo do velho Flor e com eles vivia tmbém o burro, não sendo raro vê-la a carregar as angarelas com o esterco do dito e mais o dela e dele: um primor de asseio e uma convivência que desafiava qualquer biodiversidade. Nenhum morreu por mor disso e consta que a ASAE nunca lá foi a conferir do cumprimento das normas de higiene. Outros tempos.
Tinham também um casebre, lá para os lados dos Pinheiros e quando lhe dava para bradar - o que não era raro - ouvia-se às oliveiras de Melão.
Perto do casebre cresceu um carvalhoto. Diz Varónica para o Césaro: " Oh mnel, sobe ali ao cruito do carvalhoto e ata lá este baraço bem atado". O Mnel era de poucas falas e obedece: ata uma ponta do baraço a uma bota e foi trepando até onde pôde. Atou o baraço e desceu. Varónica: "ata agora a outra ponta ali à parnada grossa daquela oliveira". Lá foi Mnel... «Estica, estica!» bradava Varónica. De tanto puxar o baraço que tinha atado no cruito do carvalhoto desprendeu-se, Mnel, cai num bate-cu doloroso e Varónica:« Num vales um corno e tens dois».
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGRRRRAAAAAAAADDDDDDDDDDDEEEEEEE
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sábado, abril 17, 2010
FALADURA ISLANDESA
Gaia espirrou, levemente, através de um buraquinho na ilha branca do atlântico norte.
Os gafanhotos espalharam-se pela Europa.
Em nenhum dos noticiários (h)orais na tilfonia ou na tilvisão eu ouvi o locutor dizer o nome do vulcão do buraquinho. Ficam-se todos por "vulcão islandês". Estou desconfiado que sei porquê: Eyjafjallajökull. À primeira parece difícil, mas à quarta, a fala dura islandesa já não é tanto.
Além do Eyjafjallajökull, há lá mais glaciares e vulcões a que os islandeses chamam de Vatnajökull, Langjökull, Hoffsjökull, Mýrdalsjökull, Drangajökull, ou Snæfellsjökull,
Os gafanhotos espalharam-se pela Europa.
Em nenhum dos noticiários (h)orais na tilfonia ou na tilvisão eu ouvi o locutor dizer o nome do vulcão do buraquinho. Ficam-se todos por "vulcão islandês". Estou desconfiado que sei porquê: Eyjafjallajökull. À primeira parece difícil, mas à quarta, a fala dura islandesa já não é tanto.
Além do Eyjafjallajökull, há lá mais glaciares e vulcões a que os islandeses chamam de Vatnajökull, Langjökull, Hoffsjökull, Mýrdalsjökull, Drangajökull, ou Snæfellsjökull,
segunda-feira, abril 05, 2010
5
PENTE QUINQUE FÜNF FIVE CINQ PIAT FEM پنج
CINCI ПЕТ PÄŤ TANO PUMP חמש VYF
خمسة CINC BEŞ ファイブ CINQUE ĦAMES FIMM
Foi cincantontem que o Baságueda começou a discorrer.
CINCI ПЕТ PÄŤ TANO PUMP חמש VYF
خمسة CINC BEŞ ファイブ CINQUE ĦAMES FIMM
Foi cincantontem que o Baságueda começou a discorrer.
terça-feira, março 30, 2010
A NOSSA FALADURA - CLI - GUINHA
Mais uma vez voltamos à lei do menor esforço: guinha, mais não é que as duas sílabas finais do significante BORREGUINHA. Só que borreguinha tinha muita exigência linguística e o povo, na sua eficácia mais que tradicional, depressa deu a volta por cima e reduziu para GUINHA. Tão simples quanto isto.
Estamos quase na Páscoa e serão muitos os anhos a ser imolados e comidos, cozinhados das mais diversas formas.
Comecemos então pela confecção da guinha para esta Páscoa:
- Em tempo prepare-se um bom pau de loureiro capaz de suportar a rês no ar e resistir ao calor do forno a lenha
-Amanhe-se um borrego de boa casta (merino, malato,...) aí com obra de 8 kg, limpo. Apare-se o sangue para uma malga onde previamente se deitou sal e vinagre. Coza-se e reserve-se no frio.
-Cuidado ao abrir: apenas na zona da gola um corte e outro com cerca de um palmo no ventre por onde sairão as tripas. (qualquer bom matador sabe fazer isto e também que a mão que mexe em lã nunca pode tocar na carne).
-Bom é que seja morto com dois dias de antecedência e fique a secar pelo menos 12h
- Extraia-se o célebre bodum das duas massas, abra-se o queixal, retire-se o maxilar inferior e a língua e machadem-se os dentes do superior com um machado cortante procurando não esfacelar.
-Com o fígado, os rins, coração e as glândulas (tudo finamente partido) faça-se um guisote com cebola puxada quase ao mel, temperada com pimentada caseira, bastante alho, picante para quem gosta, salsa migada e sem tomate. Não pode cozer muito , junte-se um bom arroz (basmati, estufado, uncle bens, ou outro rijo) e encale-se, de modo a que nem fique aguado nem seco (água crrespondente a uma vez e meia).
-Entretanto, faça-se uma pasta com uma boa cabeça de alho, (os dentes sem grelo), batida em almofariz com sal grosso, duas colheres de sopa de banha de porco, azeite, três colheres de margarina vegetal, pimentada caseira (atenção ao sal), duas folhas de louro.
- Com navalha ou faca bem afiada façam-se uns golpes de dentro para fora, mas sem perfurar a carcaça, ao longo de todo o borrego, introduza-se o guisote no interior do borrego e cosam-se os dois rasgos com fio de brabante ou outro resistente. De seguida barre-se o exterior com a pasta, de forma homogénea, atravesse-se com o pau de loureiro por forma a que caiba no forno onde vai ser assado e amarre-se bem o borrego com arame resistente mas flexível, de forma a que não rode no eixo. Existem no mercado uma espécie de grampos que evitam que rode.. (Haja o cuidado de no extremo interior do forno colocar um tijolo de 15cm para servir de apoio a uma das extremidades do pau de loureiro -está bem de ver que terá de ser a mais grossa. Deixe-se repousar no mínimo 24 horas.
- Aqueça-se o forno lentamente com lenha rija seca, como quem avinha (torga, azinho, cepa de oliveira, medronho, moca de esteva,...) nada de muita ala, vá-se espalhando o calor de forma uniforme por todo o lar e abóbada.
- Tape-se a carcaça com papel alumínio de forma a que esta não encoste à carne- podem utilizar-se pequenas forcas de pau de loureiro, espetadas na carne, e, assim, criem intervalo entre a folha e a carne.
- Quando o forno estiver bem quente, limpe-se, coloque-se um tabuleiro com vinho branco, azeite e batatas partidas à padeiro ou, então, novas, redondas e pequenas, duas cebolas picadas e que ficará por debaixo do borrego.
-Introduza-se o borrego com o dorso para cima, apoie-se a extremidade no tijolo, tendo tido o cuidado de precaver outro suporte para a entrada do forno e deixe-se tostar por 15 a 20 min. com o forno bem fechado.
-Retire-se o alumínio , mexam-se as batatas que entretanto começaram a ser regadas com o molho que foi caindo do borrego. Verifique-se o líquido e, se necessário, acrescentar água a ferver para não encruarem e deixe-se por mais 30min.
-Vire-se agora o borrego, repita-se a observância do líquido nas batatas, confira-se o tempero e volte-se a tapar o forno, por mais uma hora.
-Vire-se de novo, voltando à posição original e deixe-se cozer por mais 45min.
-Sirva-se a acabar de sair do forno e pode ser ainda acompanhado por uns grelos de couve salteados. Bom proveito.
Quem ofereceu o borrego foi o Amílcar faiçal que o cravou ao pai João Estica, regedor que foi por muitos anos, depois de reformado da G.N.R. em Medelim, e sapateiro remendão que cortava as meias solas, em corpon, à canha e a mim me fazia espécie. ..
Nosso Zéi foi o matador e seguiu as instruçóes que lhe e vos dei:" agora com esta é que tu me chapaste, a abrir um borrego assim; bem, sempre quero ver a obra que daí sai!"
Minha tia Isabel do Tonho labouxa emprestou o forno e a loja para a comezaina e a equipa era do mais fino que se podia arranjar: coiote pete, toco jabão, abraço de basuca, nosso sargento, o grande, joão antónio, o geba, que ofereceu o vinho, filho do chico mainovo que levou o pão, contramestre que levou um queijo, João Pinga que roubou dois chouriços à mãe, zé isidorico que se apresentou com um uísque dos valentes, e o pedro safara que nos presenteou com azeitona britada, do alentejo como ele e, está claro, eu, o grande artífice da confecção e o ofertante faiçal mais nosso zéi, que ali era o dux veteranorum.
Só vos digo que sobraram os ossos e o que valeu, para além do já referido, foi uma sopinha de grão, cabeça de nabo, muita abóbora e agrião com quatro ovos cozidos e picados, aromatizada com hortelã, que entretanto fui fazendo na panelinha de ferro da tia Isabel. Lamberam-se.
Pedro Safara, naquele timbre alentejano genuíno de Barrancos, dobrou o prato da sopa e ao fim, enquanto se limpava à cota da mão: "belo caldo, si senhor e : Oh, rapa a unha, do que é que fizeste o caldo?" Lá lhe disse e ele: «nós lá em Barrancos damos a abóbora aos porcos» e eu: "nós aqui também".
Boa Páscoa! Vemo-nos na Sra do Bom Sucesso, que a do Incenso não a passo cá.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGRRRRRRRRRAAAAAAAAANNNNNNNNNNNNNNNNDE
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Estamos quase na Páscoa e serão muitos os anhos a ser imolados e comidos, cozinhados das mais diversas formas.
Comecemos então pela confecção da guinha para esta Páscoa:
- Em tempo prepare-se um bom pau de loureiro capaz de suportar a rês no ar e resistir ao calor do forno a lenha
-Amanhe-se um borrego de boa casta (merino, malato,...) aí com obra de 8 kg, limpo. Apare-se o sangue para uma malga onde previamente se deitou sal e vinagre. Coza-se e reserve-se no frio.
-Cuidado ao abrir: apenas na zona da gola um corte e outro com cerca de um palmo no ventre por onde sairão as tripas. (qualquer bom matador sabe fazer isto e também que a mão que mexe em lã nunca pode tocar na carne).
-Bom é que seja morto com dois dias de antecedência e fique a secar pelo menos 12h
- Extraia-se o célebre bodum das duas massas, abra-se o queixal, retire-se o maxilar inferior e a língua e machadem-se os dentes do superior com um machado cortante procurando não esfacelar.
-Com o fígado, os rins, coração e as glândulas (tudo finamente partido) faça-se um guisote com cebola puxada quase ao mel, temperada com pimentada caseira, bastante alho, picante para quem gosta, salsa migada e sem tomate. Não pode cozer muito , junte-se um bom arroz (basmati, estufado, uncle bens, ou outro rijo) e encale-se, de modo a que nem fique aguado nem seco (água crrespondente a uma vez e meia).
-Entretanto, faça-se uma pasta com uma boa cabeça de alho, (os dentes sem grelo), batida em almofariz com sal grosso, duas colheres de sopa de banha de porco, azeite, três colheres de margarina vegetal, pimentada caseira (atenção ao sal), duas folhas de louro.
- Com navalha ou faca bem afiada façam-se uns golpes de dentro para fora, mas sem perfurar a carcaça, ao longo de todo o borrego, introduza-se o guisote no interior do borrego e cosam-se os dois rasgos com fio de brabante ou outro resistente. De seguida barre-se o exterior com a pasta, de forma homogénea, atravesse-se com o pau de loureiro por forma a que caiba no forno onde vai ser assado e amarre-se bem o borrego com arame resistente mas flexível, de forma a que não rode no eixo. Existem no mercado uma espécie de grampos que evitam que rode.. (Haja o cuidado de no extremo interior do forno colocar um tijolo de 15cm para servir de apoio a uma das extremidades do pau de loureiro -está bem de ver que terá de ser a mais grossa. Deixe-se repousar no mínimo 24 horas.
- Aqueça-se o forno lentamente com lenha rija seca, como quem avinha (torga, azinho, cepa de oliveira, medronho, moca de esteva,...) nada de muita ala, vá-se espalhando o calor de forma uniforme por todo o lar e abóbada.
- Tape-se a carcaça com papel alumínio de forma a que esta não encoste à carne- podem utilizar-se pequenas forcas de pau de loureiro, espetadas na carne, e, assim, criem intervalo entre a folha e a carne.
- Quando o forno estiver bem quente, limpe-se, coloque-se um tabuleiro com vinho branco, azeite e batatas partidas à padeiro ou, então, novas, redondas e pequenas, duas cebolas picadas e que ficará por debaixo do borrego.
-Introduza-se o borrego com o dorso para cima, apoie-se a extremidade no tijolo, tendo tido o cuidado de precaver outro suporte para a entrada do forno e deixe-se tostar por 15 a 20 min. com o forno bem fechado.
-Retire-se o alumínio , mexam-se as batatas que entretanto começaram a ser regadas com o molho que foi caindo do borrego. Verifique-se o líquido e, se necessário, acrescentar água a ferver para não encruarem e deixe-se por mais 30min.
-Vire-se agora o borrego, repita-se a observância do líquido nas batatas, confira-se o tempero e volte-se a tapar o forno, por mais uma hora.
-Vire-se de novo, voltando à posição original e deixe-se cozer por mais 45min.
-Sirva-se a acabar de sair do forno e pode ser ainda acompanhado por uns grelos de couve salteados. Bom proveito.
Quem ofereceu o borrego foi o Amílcar faiçal que o cravou ao pai João Estica, regedor que foi por muitos anos, depois de reformado da G.N.R. em Medelim, e sapateiro remendão que cortava as meias solas, em corpon, à canha e a mim me fazia espécie. ..
Nosso Zéi foi o matador e seguiu as instruçóes que lhe e vos dei:" agora com esta é que tu me chapaste, a abrir um borrego assim; bem, sempre quero ver a obra que daí sai!"
Minha tia Isabel do Tonho labouxa emprestou o forno e a loja para a comezaina e a equipa era do mais fino que se podia arranjar: coiote pete, toco jabão, abraço de basuca, nosso sargento, o grande, joão antónio, o geba, que ofereceu o vinho, filho do chico mainovo que levou o pão, contramestre que levou um queijo, João Pinga que roubou dois chouriços à mãe, zé isidorico que se apresentou com um uísque dos valentes, e o pedro safara que nos presenteou com azeitona britada, do alentejo como ele e, está claro, eu, o grande artífice da confecção e o ofertante faiçal mais nosso zéi, que ali era o dux veteranorum.
Só vos digo que sobraram os ossos e o que valeu, para além do já referido, foi uma sopinha de grão, cabeça de nabo, muita abóbora e agrião com quatro ovos cozidos e picados, aromatizada com hortelã, que entretanto fui fazendo na panelinha de ferro da tia Isabel. Lamberam-se.
Pedro Safara, naquele timbre alentejano genuíno de Barrancos, dobrou o prato da sopa e ao fim, enquanto se limpava à cota da mão: "belo caldo, si senhor e : Oh, rapa a unha, do que é que fizeste o caldo?" Lá lhe disse e ele: «nós lá em Barrancos damos a abóbora aos porcos» e eu: "nós aqui também".
Boa Páscoa! Vemo-nos na Sra do Bom Sucesso, que a do Incenso não a passo cá.
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sábado, março 06, 2010
A NOSSA FALADURA - CL - MITRÁCULAS ou BITRÁCULAS
Comecemos por uma lição de fonética: as letras consoantes têm identificação alfabética, conhecidas na ordem do abcedário, mas também se conhecem pela sua pronunciação.Na verdade as vogais são pronunciadas sem nenhum obstáculo vocálico na passagem do ar pela cavidade bucal, mas já não se passa o mesmo com as consoantes. Não reparamos neste pormenor mas ele é real. Adiante... No caso vertente interessam-nos as consoantes LABIAIS e se vos derdes ao trabalho de ir a um espelho e dissserdes as palavras bola, mola, pola, por ex. haveis de reparar que não notais diferença. Mesmo os surdos mudos e os mais experimentados leitores da fala labial revelam dificuldades sem fim numa situação destas. Não asseveram com segurança o que estão a ler, tal a proximidade dos sons e do trejeito labial. Experimentai...., vá lá.
Não admira que o termo que hoje aqui vos trago alterne com a maior das facilidades entre Bitráculas e Mitráculas. De facto em termos de pronunciação, elas acabam por ser indistintas. Ide ao espelho, ide.
Negra Vida era pintor... Já há muito que o não vejo. Suponho, e creio não me enganar, que ainda por cá anda. Contratei-o num Domingo à tarde no adro e até, inevitavelmente, fomos ao café da Rosa. Acertámos tudo e na Segunda lá estava eu ao cimo da Cardosa à espera do Negra Vida... Ao fim de meia hora de espera meti o carro a caminho da ribeira da Ceife, direitinho à casa do Aleixo. Negra Vida ainda dormia. O pai quando me viu: «qu'é que fazes aqui a esta hora?» "venho pelo seu Luís que prometeu para mim hoje". Nem foi preciso mais, arranca escadas acima e só ouço duas espapadas nas bitráculas e um palavreado indizível e não tardaram 5 minutos, Negra Vida aparece-me meio acordado meio a dormir com vontade de me pedir desculpa e não ir, mas as ameaças paternas levaram-no a entrar no carro e "Vamos embora senão dá cabo de mim". Bem vistas as coisas e as mitráculas bem encarnadas de Negra Vida, concordei e arranquei.
Deixei acalmar as ondas, parámos na pia de um poço :«Vai arreganhar essas fuças, mergulha as bitráculas no líquido, vê se acordas que já falamos, mexe-te". Negra Vida nem pensava, limitava-se a obedecer. Lá foi, sentou-se, voltou a limpar a remela, vaporizou para a água, esfregou-se, espreguiçou-se, praguejou, abanou a cabeça (quase caía),«eu num posso ir assim, stou atordoado, a cabeça parece um sino a zumbir, já me espojo por aí e amanhã vou.»
Chamei-o à realidade, veio, comeu bem, voltou a lavar as mitráculas, encara os pincéis e os baldes, papou dois Alka -Seltzer e, ao fim de meia hora, Negra Vida praguejava e pintava. E que belo serviço ele fez!..Desfazia-se em agradecimentos: «quando precisar, eu largo tudo e venho pra si, quero que os outros se chapem...»Mainada!
No mundo em que vivemos, o mundo descartável, de consumismo desenfreado, em que nada é já seguro, fazendo lembrar aquele texto soberbo de Vieira em que a culpa da efemeridade das coisas era a guerra, chegando ao cúmulo, para ele, é claro, de afirmar que:"nem já o frade tem segura a sua cela". Já nada era seguro naquele tempo e agora ainda menos.
Já não é estável o trabalho, já emprego não é garantido, já as leis são convenções passageiras, já a família é um valor do passado, já os pais e os idosos são uns chatos que só dão trabalho, já palavra de honra é uma veleidade, já os amigos são de ocasião, já os deuses são materiais.
A Fé é um negócio, crê-se por negócio, por troca, cumprem-se promessas em troca de benesses, já nada é como era.
Bem! diga-se desde já: nem tinha que ser! Ainda bem que não é, senão não havia novidades. Mas há valores que deviam manter-se firmes e inabaláveis.
Olhai só os novos deuses que agora avassalam o mundo: o poder, esse imperador que tudo sorve e absorve. Todos o querem, por ele matam, mentem, traem, vingam, mentem, e a ele se subjugam, se escravizam, se enfeudam, se entregam num frenesim irracional, em que as emoções desenraízam o ser humano para campos nada condizentes com um ser que se arvora em rei do universo. Babanca, é o que o homem é.
Depois, um segundo deus, o sexo. Não já o Eros puro, aquele encanto da carícia, da mão dada, do namoro como prefácio, do olhar terno, da empatia entre um par que por tanto se amar o que mais deseja, mas de forma natural, é meter-se no corpo do outro. Nada disso: é negócio, podridão, abuso, violação, provocação, efemeridade. Depois o dinheiro, a riqueza, a fama, o mundo do ter em vez do ser, com os bancos e as bolsas a servirem de templos e gestores e corretores e executivos e banqueiros a serem os novos sacerdotes. A nova religião é gananciosa, pede mas não dá. Diga-se, em abono da verdade, que a religião tradicinal também diz que é preciso dar, mas nunca dá o exemplo. É ver o fausto... O mundo da rede, essa global invasora das nossas casas, franqueando-lhe nós próprios a entrada. O poder da comunicação com a televisão à cabeça e logo toda a telemática.
Do que nós precisávamos era de uma espapada como o velho Aleixo espetou ao Negra Vida naquela manhã em que o fui buscar para me pintar a cozinha e a sala.
Se gostais: Ficai-vos com Deus. Mas o vosso, não os de agora.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGRRRRRRRRAAANNNNDDDDDDDEEEEEEEE
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
A NOSSA FALADURA - CXLIX - CAMPANITO
As marcas da antropogénese, ou seja, as progressivas mudanças que o pitecantropo sofreu, desde o aumento do perímetro cefálico, à oponência do polegar, passando pela famosa dialéctica de LEROI GOURHAN, que explicava a evolução a partir do momento em que o homem primitivo passou o peso do corpo para os pés e, consequentemente, a locomoção, que possibilitou a libertação da mão e a consequente feitura de instrumentos, o que depressa se manifestou numa maior e melhor capacidade de pensar e logo uma acção sobre a natureza mais conseguida, originando assim a cultura que ao longo dos tempos também foi evoluindo.
Convém assinalar que a cultura é algo de substantivo, ao contrário da civilização que é acessória e, portanto, adjectiva. Em rigor deve dizer-se que uma pessoa é culta e não que ela tem cultura. Já a civilização, essa é dispensável. Na verdade, não se pondo em causa a sua utilidade e simplicidade em termos tecnológicos e não só, a civilização não é necessária para a sobrevivência humana. Esta conclusão encontra eco na circunstância de que o importante é saber adaptar-se ao meio que o rodeia que permite ao homem ter resistido até hoje e não o facto de ter televisão e telemóvel...
O que é natural é naturalmente bom e o que é transformado pode ou não ser .
Todos sabemos que sempre se comeu queijo e chouriço e azeitonas e presunto e tantas outras iguarias, que nunca precisaram de condições exigentes que, hoje, técnicos, em regra insuficientemente preparados e esquecidos das suas origens, avaliam, exigem e impõem.
Todos os estudos, mesmo os encomendados pelas entidade superiores, apontam o caminho a seguir pelos portugueses: ater-se à sua originalidade produtiva tradicional e não submeter-se aos ditames europeus que uniformizam gostos e assim condicionam paladares.
Ainda podemos saborear a bela sardinha e o chicharro ao natural, mas, se calhar por pouco tempo e temos que passar a deglutir uns insípidos enlatados, em conservantes uniformes e universais, em vez de podermos conviver ao sabor do que a natureza nos proporciona, como aliás os nossos antanhos faziam e não foi por aí que morreram.
Lembro-me bem de dois caminhantes incansáveis que todas as quintas feiras iam da Aldeia dos xendros até á cidade da Covilhã com um macho carregado de ovos que compravam durante a semana e que para eles se reduzia de Sábado a Quarta: Joaquim Catrino e José Planeta. Catrino era longilíneo, chapéu clássico, sapato reluzente, amigo do tinto, andar elegante, corneta sonora e angarelas em ferro feitas pelo ti David, ferreiro que era no beco da Ribeira, angarelas em vime entançado... já Planeta era mais atarracado, chapéu redondo a imitar o de coco, jaqueta à meia haste e colete sempre com relógio cortebert, preso por corrente de prata com presilha dupla, à cautela, para não lhe cair, angarelas em pau e cesto de castanho. Não usava aparelho sonoro como Catrino para se anunciar, antes bradava com a sua voz, mais conhecida que os sustos do Tonho de Aldeia: Quem vende ovos? Quem vende ovos? Lá desciam as escadas aquelas que dos ovos faziam o pouco dinheiro com que geriam o governo da casa, já que a jorna dos respectivos, nem sempre lhes vinha parar à mão...
Encontrei o filho de Catrino não há muito num casamento a que ambos fomos em Alcobaça. Estava novo o Domingos Catrino, meio irmão do meu tio e pai do noivo Manuel Joaquim Catrino, já aposentado da P.S. P.. Há quanto tempo os não via...
Foi aí que recordámos, eu e o Domingos, aquelas aventuras de garotos quando os dois, por detrás do cemitério apanhávamos campanitos e com navalha afiada os limpávamos e construíamos bardos e cancelas, fazíamos cravelhas e tirós para carros de bois em miniatura, hastes para bandeiras que pregávamos com carapetos de silva e e até casebres rústicos e choças de pastor, tudo para embelezarmos o presépio de Natal, que ele, como sacristão e eu como acólito, todos os anos fazíamos, do lado da Epístola, na Igreja Matriz. Pedia meças aquele presépio com os nossos artefactos de campanito e mais uma gruta em cortiça e mantas de musgo que mais ninguém era capaz de tirar como nós da Serra da D. Maria ali para os lados do canchal, por detrás do depósito da àgua, ao alto de Aldeia...
Bons tempos, outros valores, outras tradições, outras culturas, outros entreténs. Era assim a vida de catraio novo. Se queria brincar tinha que fazer o brinquedo: não havia padrinho que oferecesse ou avô que cedesse ao pedido, menos ainda pais que pudessem satisfazer tais pedidos. Como eram valiosos aqueles brinquedos ! não os estragávamos, não! eram religiosamente guardados e para o outro ano aumentava-se a variedade. Orgulhosos, tal como Apeles, escutávamos vaidosos e embevecidos os pareceres dos que apreciavam o nosso presépio. Mais que as imagens de anjos e Reis magos, pastores, ovelhas, montes e lagos de papel de prata de chocolate, mais que tudo, o importante era que vissem os nossos bardos e pequenas estruturas de campanito que estrategicamente colocávamos no presépio, que era de todos, mas muito mais nosso...
Mais uma vez a habilidade manual desafiava a critividade da imaginação criadora e o pensamento divergente proporcionava novas soluções cada ano nunca se repetindo as imagens na totalidade. Sempre produzíamos coisas novas. Leroi Gourhan tinha razão.
É caso para dizer: ah CATRINO!
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segunda-feira, janeiro 11, 2010
A NOSSA FALADURA - CXLVIII - LIMBINO/LEMBINO/LAMBINO
A água, a par da saúde e do trabalho com justa remuneração são, porventura, os valores maiores da sociedade contemporânea. Ao contrário do que habitualmente se defende os gostos e os valores são para serem discutidos e a prova é que nem todos gostam do mesmo nem todos hierarquizam da mesma forma os valores. por isso se discutem. Ainda assim ouso deixar estes que aqui vos apresentei como estando no topo da minha hierarquia.
A História ensina-nos que os grandes aglomerados populacionais começaram a aparecer junto aos grandes rios e/ou lagos, com terras férteis envolventes, no cimo de montes por mor da defesa natural e também, sobretudo depois dos grandes movimentos comunais com o aparecimento da nova classe laica - os burgueses - , nas encruzilhadas das grandes vias.
No caso vertente interessam-nos os rios e a sua importância decisiva para as comunidades humanas. A água é indispensável à vida e quanto mais perto e em maior abundância ela for , tanto melhor. É também fácil de ver que as terras mais férteis são as de aluvião, com aragem fácil, clima mais ameno, mais planas, enfim mais ricas em tudo.
A aldeia dos xendros pode servir de exemplo: embora mal nascida - devia ter nascido a partir do dr Ângelo para cima - faz o aproveitamento pleno do vale da ribeira com hortas pequenas de cultivo intensíssimo e é um regalo ver tudo bem tratado desde a Saramaga até quase às Águas quando confronta com a Casa Megre. Grande parte da alimentação da Aldeia é colhida nessas terras das duas margens da ribeira. A grande razão é porque há água e os poços nem são muito fundos e quase pegam uns com os outros. Todos regam e chega para todos.
Já não é tanto assim quando subimos e observamos os terrenos da serra. Bons tempos outros em que eu, velho Jonja e às vezes outros malinoos íamos caminho da serra, às endireituras da tapada do Pirolas e do Elias, do Alguitarra, do Barata e da Garriça, a armar costis às felosas e taralhões, piscos e rabitas, melros e cotovias e o que mais caísse. Crime, mas era assim.
A Garriça tinha uma língua que nem um braço e se mordesse, o veneno da mordidela deixaria muito mal o vitimado... Sempre atenta, baixinha, olho vivo e sagaz, ouvidos com antenas parabólicas, nunca deixava cair uma conversa e topava tudo. Não sei mesmo se dormia... Apesar de viver afastada do casario, numa casa granítica, mesmo ao lado de um eucaliptal basto e perto dos terrenos onde cultivava tudo temporão, andava sempre bem informada e espalhava novas ao vento. Rivalizava com Zagaia e Galfarra a apresentar os primeiros cebolos e as primeiras couves e tinha alface todo o ano, coisa rara ao tempo e que lhe rendia bom dinheiro porque a vendia a bom preço para os casamentos caseiros.
Segurava azeite nas mãos e até o pobre marido, o Caetano, andava sempre nas lonas... Era muito limbina.
A extrema da sua propriedade pegava com Barata e tinham um poço de meias. Aos Domingos não era de ninguém e Garriça tirava água às Segundas, Quartas e Sextas e Barata às Terças, Quintas e Sábados. Na semana seguinte trocavam os dias.
Quando o Verão apertava Garriça, pela calada da noite, punha o burrico à carroça onde já tinha dois bidões e rapava a água ao Barata. Era muito lambina.
A horta da Garriça verdejava e a de Barata, sempre estrumada, pouco dava, que a água era à ração.
Um dia Barata tinha-se ficado pela aldeia e quando ia caminho da tapada ouve o chiar da carroça. A lua ia alta e alumiava bem, escondeu-se e viu o serviço da Garriça, toda lembina. Deixou-a encher os bidons, esperou que viesse para casa, aparelhou a junta e vem com o seu carro carregado com um tanque de cimianto que lhe tinha trazido o filho João, que era bombeiro, com duas bombas de borracha, e dois baldes grandes. Faz vácuo com as borrachas e saca a água toda à Garriça dos bidons para o tanque. Como se não fosse nada com ele, regressa a casa. Cedo, tirava a água do pocinho de meias e vê chegar a Garriça com o seu burranco e carroça.
Quando esta, de repente, se dá conta que não tem água nos bidons começa a praguejar furibunda, numa linguagem intraduzível.
Barata, malandro quanto baste e feito mula: "Karraio de conversa é essa? uma mulher com esse palavreado?!" e a Garriça:" rouberam-me a auga que traguia aqui nos bidons e que tinha apanhado no poço de baixo...; E o Barata:« está baixo, está, o ladrão do poço! Há gente sem vergonha nenhuma...» e sai-se com esta para a Garriça: « Eh ti Maria, deixe-se disso, amanhã já aqui tem mais água» "Cabrões tireram-me a água aqui dos bidões....!»...
O Barata malino:« Vá lá que não lhe roubaram os bidões... sempre lhe deixaram o vasilhão... foram bons rapazes...!»
E remata: « Sabe como é que se apanha uma cabra mocha por um corno»?
A Garriça lampeira: " a cabra mocha num tem cornos, mê basbaque!"
E o Barata:« atão alimpe-se como me alimpou a água a noite passada: uma cabra mocha pega-se por um corno, mandando lá um».
A Garriça andou uma semana a pão trigo e água, a treinar-se para ir a pé à sra de Fátima a pedir água para os bidons. O Barata ouvia-se na Bemposta a rir.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIII GGRRRRRAAAANNNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEE
A História ensina-nos que os grandes aglomerados populacionais começaram a aparecer junto aos grandes rios e/ou lagos, com terras férteis envolventes, no cimo de montes por mor da defesa natural e também, sobretudo depois dos grandes movimentos comunais com o aparecimento da nova classe laica - os burgueses - , nas encruzilhadas das grandes vias.
No caso vertente interessam-nos os rios e a sua importância decisiva para as comunidades humanas. A água é indispensável à vida e quanto mais perto e em maior abundância ela for , tanto melhor. É também fácil de ver que as terras mais férteis são as de aluvião, com aragem fácil, clima mais ameno, mais planas, enfim mais ricas em tudo.
A aldeia dos xendros pode servir de exemplo: embora mal nascida - devia ter nascido a partir do dr Ângelo para cima - faz o aproveitamento pleno do vale da ribeira com hortas pequenas de cultivo intensíssimo e é um regalo ver tudo bem tratado desde a Saramaga até quase às Águas quando confronta com a Casa Megre. Grande parte da alimentação da Aldeia é colhida nessas terras das duas margens da ribeira. A grande razão é porque há água e os poços nem são muito fundos e quase pegam uns com os outros. Todos regam e chega para todos.
Já não é tanto assim quando subimos e observamos os terrenos da serra. Bons tempos outros em que eu, velho Jonja e às vezes outros malinoos íamos caminho da serra, às endireituras da tapada do Pirolas e do Elias, do Alguitarra, do Barata e da Garriça, a armar costis às felosas e taralhões, piscos e rabitas, melros e cotovias e o que mais caísse. Crime, mas era assim.
A Garriça tinha uma língua que nem um braço e se mordesse, o veneno da mordidela deixaria muito mal o vitimado... Sempre atenta, baixinha, olho vivo e sagaz, ouvidos com antenas parabólicas, nunca deixava cair uma conversa e topava tudo. Não sei mesmo se dormia... Apesar de viver afastada do casario, numa casa granítica, mesmo ao lado de um eucaliptal basto e perto dos terrenos onde cultivava tudo temporão, andava sempre bem informada e espalhava novas ao vento. Rivalizava com Zagaia e Galfarra a apresentar os primeiros cebolos e as primeiras couves e tinha alface todo o ano, coisa rara ao tempo e que lhe rendia bom dinheiro porque a vendia a bom preço para os casamentos caseiros.
Segurava azeite nas mãos e até o pobre marido, o Caetano, andava sempre nas lonas... Era muito limbina.
A extrema da sua propriedade pegava com Barata e tinham um poço de meias. Aos Domingos não era de ninguém e Garriça tirava água às Segundas, Quartas e Sextas e Barata às Terças, Quintas e Sábados. Na semana seguinte trocavam os dias.
Quando o Verão apertava Garriça, pela calada da noite, punha o burrico à carroça onde já tinha dois bidões e rapava a água ao Barata. Era muito lambina.
A horta da Garriça verdejava e a de Barata, sempre estrumada, pouco dava, que a água era à ração.
Um dia Barata tinha-se ficado pela aldeia e quando ia caminho da tapada ouve o chiar da carroça. A lua ia alta e alumiava bem, escondeu-se e viu o serviço da Garriça, toda lembina. Deixou-a encher os bidons, esperou que viesse para casa, aparelhou a junta e vem com o seu carro carregado com um tanque de cimianto que lhe tinha trazido o filho João, que era bombeiro, com duas bombas de borracha, e dois baldes grandes. Faz vácuo com as borrachas e saca a água toda à Garriça dos bidons para o tanque. Como se não fosse nada com ele, regressa a casa. Cedo, tirava a água do pocinho de meias e vê chegar a Garriça com o seu burranco e carroça.
Quando esta, de repente, se dá conta que não tem água nos bidons começa a praguejar furibunda, numa linguagem intraduzível.
Barata, malandro quanto baste e feito mula: "Karraio de conversa é essa? uma mulher com esse palavreado?!" e a Garriça:" rouberam-me a auga que traguia aqui nos bidons e que tinha apanhado no poço de baixo...; E o Barata:« está baixo, está, o ladrão do poço! Há gente sem vergonha nenhuma...» e sai-se com esta para a Garriça: « Eh ti Maria, deixe-se disso, amanhã já aqui tem mais água» "Cabrões tireram-me a água aqui dos bidões....!»...
O Barata malino:« Vá lá que não lhe roubaram os bidões... sempre lhe deixaram o vasilhão... foram bons rapazes...!»
E remata: « Sabe como é que se apanha uma cabra mocha por um corno»?
A Garriça lampeira: " a cabra mocha num tem cornos, mê basbaque!"
E o Barata:« atão alimpe-se como me alimpou a água a noite passada: uma cabra mocha pega-se por um corno, mandando lá um».
A Garriça andou uma semana a pão trigo e água, a treinar-se para ir a pé à sra de Fátima a pedir água para os bidons. O Barata ouvia-se na Bemposta a rir.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIII GGRRRRRAAAANNNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEE
terça-feira, dezembro 22, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLVII - ESCARAMOUÇO
O natural é o caos e não a ordem. Só há bem pouco tempo esta asserção começou a fazer sentido. Na verdade, na sua incontida ânsia de tudo prever e controlar, o ser humano esforçou-se por ter um conhecimento semelhante ao divino. O próprio Galileu disse que "quando temos dos fenómenos da natureza um conhecimento matemático, o nosso conhecimento desse fenómeno iguala o conhecimento divino". Estabeleceu no entanto diferença marcante: por muitos fenómenos que se conheçam, todos eles não passam de uma insignificância, face ao que há para conhecer e que Deus conhece desde todo o sempre e sem precisar de fazer cálculos.
À medida que a tecnologia foi avançando, as certezas de antanho foram sendo abaladas, caíu-se num indeterminismo ou incerteza em que a ciência gravita hoje refugiando-se num probabilismo que tudo justifica, mesmo os erros. Finalmente o erro ganhou importância e o seu aparecimento frequente não esmorece a investigação, antes a espevita e incendeia. O probável é o crível e o crível não é certo. A certeza é inimiga da verdade como o óptimo é inimigo do bom.
Foi o contributo dos novos pensadores das ciências sociais que chamou a atenção para este fenómeno e, claro, como quem faz ciência é o homem e este continua a ser"ESSE DESCONHECIDO", como bem disse Alexis Carrell, então, fácil é deduzir que se ele nem a si se conhece não lhe será possível conhecer o resto do Universo. Refugia-se então na probabilidade, não porque goste, mas devido ao reconhecimento das suas incompetências mentais e intelectuais, tecnológicas,... . Volvamos a Galileu: «o que para o homem é de dificílima inteligibilidade é para a natureza de facílima execução.»
Esta aceitação do indeterminismo não é pacífica porque a ciência, ela mesma, para progredir, tem que partir do princípio de que aquilo que sabe e em que assenta o seu saber, é seguro e lhe permite projectar para o futuro. Nós, vítimas desse saber, vamos usufruindo o que nos vão pondo à disposição. Facto é que, aos poucos a tal ordem científica com o seu método de rigor põe ao nosso serviço um sem número de benesses que nos são muito úteis se as soubermos usar bem. Sirva de exemplo o telemóvel, ou o automóvel ou um simples frigorífico...,vacinas, que sei eu!?
É nesta crença de que as coisas acontecerão como se previa que o progresso vai acontecendo e, seja de erro em erro, ou de verdade em verdade, do que não restam dúvidas é que a humanidade vai cada vez tendo mais comodidades e não vem aqui ao caso discutir se isso é vantajoso ou se é prejudicial.
Estamos prépreparados para a ordem, o método, o seguidismo. Basta experimentar dizer o alfabeto em sentido inverso e logo vemos quão vantajoso é termos connosco a ordem clássica das letras.
Vem isto tudo ao caso por causa do nosso termo de hoje: escaramouço.
A malta do meu tempo vivia na angústia permanente de ir à tropa e ser destacado para uma qualquer das ex-províncias. Se havia alguns ofícios que na tropa eram um luxo: padeiros, por ex, outros havia que eram uma convivência com o perigo e esses eram a grande maioria.
Tira Linhas foi como enfermeiro para Moçambique. Passava a maior parte do tempo no Hospital militar já que o seu trabalho era conceituado, apreciado e respeitado.
Um dia, porém, contou-me ele numa daquelas faenas gastronómicas, desta vez no quintal do Isidorico (já lá está...), em que eu fazia jus à fama de artista na culinária, foi convocado para ir num helicóptero socorrer alguns camaradas que tinham sido alvo de um emboscada.
Tira Linhas equipa-se e depressa estava no ar e passado pouco tempo já estava no local do acidente. O médico que o acompanhava logo ia decidindo o que fazer com cada um daqueles pobres soldados ali amontoados num recanto, enquanto muitos tiros se ouviam, resultado da perseguição entretanto movida aos "turras". O Helicóptero não parava, num vai vem contínuo a levar feridos para o hospital de campanha... Tira-Linhas e o médico continuavam a volta , enquanto uma máquina abria uma vala para enterrar os mortos sem nome num escaramouço de cadáveres em vala comum.
Decidiram confirmar os mortos para os enterrarem e não ficarem vestígios.
Vários outros soldados e um unimog seguiam-nos a ele e ao médico e conforme o médico dizia: "este está morto", logo dois ou três soldados o atiravam sem qualquer zelo para cima do unimog e assim se iam amontoando num escaramouço entrópico. Como calhasse é que ficavam... Numa das decisões do médico, porém, o "este está morto" teve resposta: «não tá siô, só tá muito ferido". Logo um dos soldados:´«oh preto dum cabrão sabes mai có médico? ( perdoe-se-me a violência da linguagem, mas foi assim mesmo) se ele diz que tás morto, tás morto e mainada» e já ia a pegar-lhe para o atirar para cima dos outros. Aí Tira Linhas, intervém: "que é lá isso?" Ajoelhou-se junto do ferido constatou da gravidade dos ferimentos e foi então que mostrou todas as suas competências, deixando todos de boca aberta. Era assim Tira Linhas.
Ementa daquela noite: Polvo à Algarvia que Tira Linhas tinha trazido de Lisboa
1- Coza-se o polvo - quanto maior e rosa claro for, tanto melhor -sem sal e apenas com uma cebola grande em tacho com pouca água - o polvo solta quase a água para a sua cozedura -; Demora cerca de 40 a 50 min de fervura viva.
2-Tire-se para um crivo e deixe-se arrefecer; reserve-se a água da cozedura
3- Miguem-se às rodelas umas boas 4 cebolas para um tacho largo com o azeite considerado necessário: puxem-se bem até alourarem tendo o cuidado de não deixar queimar,
4- Juntem-se tomate sem pele e uma camada de batatas também às rodelas largas, uma primeira camada de polvo e um bom ramo de salsa espalhado por cima a toda a largura do tacho
5- Acamem-se alternadamente tomate batatas e polvo, de forma a que acabe com batatas.
5.1 - Se houver, junte-se miolo de camarão
6- Reduza-s o lume e deixe-se apurar
7- Quando as batatas estiverem quase cozidas (engroladas) cortem-se dois pimentos às rodelas , rectifiquem-se temperos: sal, picante ... deite-se um copo de vinho branco e abafe-se.
8- Deixe-se acabar de apurar
9- Pique-se um ramo de coentros que se atirará por cima quando estiver a ser servido
10 - Come-se com prazer e com algumas bocas à mistura.
BOAS FESTAS: O MELHOR DOS NATAIS PARA TODOS OS BASAGUEDEIROS!
xxxiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiGGGGGGGGGGGGGRAAAAAANNNNDDDEEEEE!
À medida que a tecnologia foi avançando, as certezas de antanho foram sendo abaladas, caíu-se num indeterminismo ou incerteza em que a ciência gravita hoje refugiando-se num probabilismo que tudo justifica, mesmo os erros. Finalmente o erro ganhou importância e o seu aparecimento frequente não esmorece a investigação, antes a espevita e incendeia. O probável é o crível e o crível não é certo. A certeza é inimiga da verdade como o óptimo é inimigo do bom.
Foi o contributo dos novos pensadores das ciências sociais que chamou a atenção para este fenómeno e, claro, como quem faz ciência é o homem e este continua a ser"ESSE DESCONHECIDO", como bem disse Alexis Carrell, então, fácil é deduzir que se ele nem a si se conhece não lhe será possível conhecer o resto do Universo. Refugia-se então na probabilidade, não porque goste, mas devido ao reconhecimento das suas incompetências mentais e intelectuais, tecnológicas,... . Volvamos a Galileu: «o que para o homem é de dificílima inteligibilidade é para a natureza de facílima execução.»
Esta aceitação do indeterminismo não é pacífica porque a ciência, ela mesma, para progredir, tem que partir do princípio de que aquilo que sabe e em que assenta o seu saber, é seguro e lhe permite projectar para o futuro. Nós, vítimas desse saber, vamos usufruindo o que nos vão pondo à disposição. Facto é que, aos poucos a tal ordem científica com o seu método de rigor põe ao nosso serviço um sem número de benesses que nos são muito úteis se as soubermos usar bem. Sirva de exemplo o telemóvel, ou o automóvel ou um simples frigorífico...,vacinas, que sei eu!?
É nesta crença de que as coisas acontecerão como se previa que o progresso vai acontecendo e, seja de erro em erro, ou de verdade em verdade, do que não restam dúvidas é que a humanidade vai cada vez tendo mais comodidades e não vem aqui ao caso discutir se isso é vantajoso ou se é prejudicial.
Estamos prépreparados para a ordem, o método, o seguidismo. Basta experimentar dizer o alfabeto em sentido inverso e logo vemos quão vantajoso é termos connosco a ordem clássica das letras.
Vem isto tudo ao caso por causa do nosso termo de hoje: escaramouço.
A malta do meu tempo vivia na angústia permanente de ir à tropa e ser destacado para uma qualquer das ex-províncias. Se havia alguns ofícios que na tropa eram um luxo: padeiros, por ex, outros havia que eram uma convivência com o perigo e esses eram a grande maioria.
Tira Linhas foi como enfermeiro para Moçambique. Passava a maior parte do tempo no Hospital militar já que o seu trabalho era conceituado, apreciado e respeitado.
Um dia, porém, contou-me ele numa daquelas faenas gastronómicas, desta vez no quintal do Isidorico (já lá está...), em que eu fazia jus à fama de artista na culinária, foi convocado para ir num helicóptero socorrer alguns camaradas que tinham sido alvo de um emboscada.
Tira Linhas equipa-se e depressa estava no ar e passado pouco tempo já estava no local do acidente. O médico que o acompanhava logo ia decidindo o que fazer com cada um daqueles pobres soldados ali amontoados num recanto, enquanto muitos tiros se ouviam, resultado da perseguição entretanto movida aos "turras". O Helicóptero não parava, num vai vem contínuo a levar feridos para o hospital de campanha... Tira-Linhas e o médico continuavam a volta , enquanto uma máquina abria uma vala para enterrar os mortos sem nome num escaramouço de cadáveres em vala comum.
Decidiram confirmar os mortos para os enterrarem e não ficarem vestígios.
Vários outros soldados e um unimog seguiam-nos a ele e ao médico e conforme o médico dizia: "este está morto", logo dois ou três soldados o atiravam sem qualquer zelo para cima do unimog e assim se iam amontoando num escaramouço entrópico. Como calhasse é que ficavam... Numa das decisões do médico, porém, o "este está morto" teve resposta: «não tá siô, só tá muito ferido". Logo um dos soldados:´«oh preto dum cabrão sabes mai có médico? ( perdoe-se-me a violência da linguagem, mas foi assim mesmo) se ele diz que tás morto, tás morto e mainada» e já ia a pegar-lhe para o atirar para cima dos outros. Aí Tira Linhas, intervém: "que é lá isso?" Ajoelhou-se junto do ferido constatou da gravidade dos ferimentos e foi então que mostrou todas as suas competências, deixando todos de boca aberta. Era assim Tira Linhas.
Ementa daquela noite: Polvo à Algarvia que Tira Linhas tinha trazido de Lisboa
1- Coza-se o polvo - quanto maior e rosa claro for, tanto melhor -sem sal e apenas com uma cebola grande em tacho com pouca água - o polvo solta quase a água para a sua cozedura -; Demora cerca de 40 a 50 min de fervura viva.
2-Tire-se para um crivo e deixe-se arrefecer; reserve-se a água da cozedura
3- Miguem-se às rodelas umas boas 4 cebolas para um tacho largo com o azeite considerado necessário: puxem-se bem até alourarem tendo o cuidado de não deixar queimar,
4- Juntem-se tomate sem pele e uma camada de batatas também às rodelas largas, uma primeira camada de polvo e um bom ramo de salsa espalhado por cima a toda a largura do tacho
5- Acamem-se alternadamente tomate batatas e polvo, de forma a que acabe com batatas.
5.1 - Se houver, junte-se miolo de camarão
6- Reduza-s o lume e deixe-se apurar
7- Quando as batatas estiverem quase cozidas (engroladas) cortem-se dois pimentos às rodelas , rectifiquem-se temperos: sal, picante ... deite-se um copo de vinho branco e abafe-se.
8- Deixe-se acabar de apurar
9- Pique-se um ramo de coentros que se atirará por cima quando estiver a ser servido
10 - Come-se com prazer e com algumas bocas à mistura.
BOAS FESTAS: O MELHOR DOS NATAIS PARA TODOS OS BASAGUEDEIROS!
xxxiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiGGGGGGGGGGGGGRAAAAAANNNNDDDEEEEE!
quarta-feira, dezembro 09, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLVI - ABOQUILHA ou Abequilha
O velho Talha Burricos era fino como um alho... Eu que o diga. Nunca queria o gás depois das seis. Ia sempre pelo lado de trás a bater à porta, deixava a bilha e depois ia à frente e bradava: "Eh! cachopo, fica-te ali a garrafa do gás, amanhein de manhein leva-me uma." Já sabíamos o que era de manhein. E o pior era que me calhava sempre a mim.... Era a vida.
Quem fornecia quer o vinho para a missa quer o pão ázimo para a hóstia consagrada era a Casa Campos. que, não sendo por aí além, nenhum potentado, tinha a vantagem da ser governada por três irmãs, qual delas a mais religiosa e a mais poupada. Assim se manteve até que a velha da gadanha as foi ceifando e pronto: acabou-se o vinho branco arinto exclusivo para o sr prior e o pão lascado para o corpo de deus. Posso dizer-vos que quer um quer outro eram deliciosos. .. Por altura da desobriga, até porque na aldeia, naquele tempo, ainda havia xendro com fartura, era necessário fazer muita hóstia... Por ali vinham o padre Lobo das Águas, o padre Robalo das Aranhas, o padre Tarcísio do Pedrógão, o padre Manel de Penamacor, o padre Fatela da Meimoa, o padre Baptista da Benquerença, o padre Agostinho, já sem paróquia, o padre Carreto, também já jubilado,..., era mesmo uma confraria, e todos confessavam a rapaziada de aldeia que se perfilava a cada um dos confessionários. De vez em quando os padres faziam intervalo, por via das regras e da bucha que nisso, primeiro o padre Zé Pedro e depois o padre Pinto não se poupavam: era à tripa forra.
Sempre vos digo que os petiscos eram de lamber ou não fosse eu quem compartilhava essas aras de bem comer e até, às vezes, a confecção com a ti Mari Rainha. Outros tempos. Mais ainda: nenhum de vós alguma vez comeu pão ázimo com fiambre e vinho branco de missa... é o cúmulo. Se um dia vos calhar essa oportunidade, provai e depois contai-me. A pena é que já não há fiambre como antigamente e menos ainda vinho branco arinto. Vai lá vai...
Bom, a Casa Campos não faliu, mas os tempos mudaram e o padre Pinto - de boa memória - encomendou o vinho ao Talha Burricos, esse mesmo que queria o gás logo às seis da matina.
A casa dela não era longe e nem precisava de levar o mais que famoso carro quadrado. Ajudava-me à bilha do gás, punha-a ao ombro e ALA!, batia ao portão, Talha Burricos aparecia prestes, entrava pelo quintalinho, sempre pejado de mato por mor dos agueiros não atolarem, subia quatro degraus e entrava na cozinha. Já a panelinha de ferro cozia o feijão pequeno das Taliscas e o ambiente estava amornado pela lenha de carvalho arrecadada em tempo e agora a dar um jeitão. Lá ajustava eu a bilha ao redutor, experimentava a ver se tudo estava nos conformes e: "pronto, já está, bom dia e até logo". Logo O Talha burricos atalhava: «onde vais com tanta pressa...? espera aí um pouco» e para a ti Strudes (Gertrudes): « Eh mocita, arranja aí um aboquilho e leva-nos à loja.» Não tardava lá vinha o belo casqueiro embrulhado em bragal de primeira em cesto de vime e uma bandeja com uma tora de presunto, uma malga de azeitona retalhada, um queijo cabreiro num prato de esmalte e, uma vez até me calhou que havia castanhas assadas, já descascadas.
Sai-se o Talha:« Toma tento no que digo! se o queres tornar a provar tens que manter o bico fechado...» eu fiquei a olhar e ele: « vamos a provar o vinho de missa , mas no te esqueças, bico calado». O pipo não tinha torneira, deitou aguardente para desinfectar a borracha, como lhe chamava, sorveu para um pucheiro e vasou para uns copos de alumínio que até reluziam de tão areados. « Vá, bebe!» meti uma azeitona, tirei o caroço e vou-me ao néctar. Aquilo ainda não estava consagrado mas já era sacro. Que pinga de estalo! «Anda lá corta aí uma fatia de pão e um naco de abequilho que hás-de beber um copo assim comédado!» A hora era boa, a fome melhor, o branco convidava e o aboquilho era de ginjas: ataquei... Mais um alumínio e um estalo: " oh ti Tonho, este inda é melhor do que o da Casa Campos! " « É pra que vejas que eu num faço batota... isto é o sumo da uva puro, nem uma gota de água. É assim que querem é assim que têm.» Lá lhe expliquei a razão de ser daquela exigência e bebemos ainda mais uma cartolinha.
Passado não muito tempo voltei à loja e já o pipo tinha torneira. Havia mais gente que sabia que o vinho de missa lhe tinha sido encomendado e desafiaram o Talha Burricos: 'Ó ti Tonho. dê-nos lá a provar o vinho do padre!' «Eh cachopos, eu até vos dava um provo, mas o vinho é tão bom qinté coalhou com'ó azeite: experimenta a ver se já corre alguma coisa...» Lá ia um mais lampeiro a ver se tinha sorte, mas nada. « Vês!? coalhou!» Eu caladinho como um rato, saí com eles mas depressa voltei: "como é essa do vinho coalhar"? « Aprende que eu não duro sempre: o vinho já está ali em barricas, tirei-o todo por cima e meti a torneira a fazer ver. Se não fosse assim, só com os provos já se me tinha ido. » Vai lá vai! porque é que o diabo sabe muito? porque é velho, respondem os entendidos.
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terça-feira, dezembro 01, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLV - MORRINHA
Água de cuco só molha quem está enxuto, já dizia o velho comandante, que, mesmo com morrinha não deixava de colher azeitona. Era velho dum raio: nada o vergava, nem frio nem calor, nem fome, nem sede, nem doença, nem pão rijo, nem morcela já rançosa. O queijo, seu conduto preferido, deixava-o embrulhado em folha de botelha, no meio do arcaz da semente e, como não lhe punha indicativo, sempre que precisava dum, praguejava por céu e terra, a ponto da velha Pássara (era a parteira oficial de toda a aldeia - foi ela que me foi buscar ao Fundão) vir ao balcão da casa contígua a barafustar: "num viesse um raio que queimasse a língua, comandante do inferno! Já lá tens o lugar guardado" « Vá pra quem a lambeu, velha dum corno» O azedume era notório, mas mal ela precisasse dum chirrichichi de azeite, ou uma brasinha pra atear o lume de manhã, ou um golo de aguardente para matar a bicheza e desinfectar um dente que escarafunchava com um pau de travisco aguçado e lhe doía,..., logo a Pássara batia à porta do velho Comandante.
Não longe morava a velha Nazaréi, mãe de Zé Lopes, enxertador de nomeada, lagareiro afamado e angariador de povo para excursões a tudo quanto fosse visitável: Srª de Fátima, santa de Alenquer, capela dos ossos, Viana do Castelo, Gerês, Nazaré ... e mais caseirinho, a Srª do Incenso, do Bom Sucesso, do Almortão e da Póvoa, que sei eu, Santa Luzia do Castelejo, Serra da Estrela, barragem Castelo do Bode,..., nada lhe escapava.
Aos Domingos, depois de missa, lá andava ele de tasca em tasca, da Rosa ao Zé Rolo, do Chico ao Fatela, deste ao Cavalheiro, vinha ao adro, especava-se na estrada, sempre de livreta na mão, pronto a assentar o nome e a indicar o lugar na camioneta. A meio da tarde já não dizia coisa com coisa e não se cansava de apregoar as suas competências, que não havia na área enxertador como ele e que se às vezes lhe falhava uma enxertia, a culpa era do cobridor que não tinha cuidado e lhe desandava a pua que ele ajustara com a sua própria saliva depois de aguçada com um só corte da sua navalha enxertadeira, de tachas em freixo que ele próprio fizera, e que até fazia a barba aos pêlos das pernas de uma cachopa.
Já que se fala em enxertadores, é dever de xendro nomear o velho Cucharra, homem pesado, que já mal conheci, mas que a partir de meados de Fevereiro não descansava um dia a espalhar arintos, rufetes, rabos de ovelha, baldrões, ferrais, dedo de dama, uva formosa, moscatel e outras castas. Uma bomba, este Cucharra. Era capaz de andar, um dia a cavalo noutro, sem nunca se endireitar, sempre curvado a fazer finco nas cruzes, sem se queixar. Comia uma quarta de feijão frade com cebola e muito azeite, e um galo dos grandes, daqueles das bodas, não lhe fazia papo. Valente Cucharra: o nome advinha-lhe do facto de ter a mão encurranchada por mor de uma cortadela feita pela enxertadeira. Ia até aos Três Povos a sua fama, para Norte, e Alcafozes e Idanha-a-Velha ainda hoje têm vinha de enxerto do velho Cucharra.
Voltemos ao Zé Lopes e às suas excursões...
Duma vez tem uma ideia genial: queria comprar mais uma tapada limítrofe da sua na fonte salgueira e o dinheiro era curto.
Vai daí, andou dois meses a guardar garrafões de plástico vazios- inda eu lhe levei muitos -.
A excursão era à Nazaré. Encheu o fundo da camioneta com os garrafões e, a meio da viagem, começa a cair uma morrinha chata, miudinha, basta quanto bastasse.
Zé Lopes tinha-a fisgada e desde cedo começa a dizer que ninguém podia ir ao mar porque a água estava a ser analisada porque era do melhor que havia para o reumatismo. Ele tinha acautelado o caso e tinha escrito um postal ao Presidente da Junta da Nazaré que o autorizou a encher 100 garrafões de água do mar , mas cada um custaria 5$00.
Quem sofresse de reumatismo tinha que largar os tais 5$00, mas só ele é que podia ir encher os garrafões.
Assim foi. Os garrafões tiveram venda garantida e Zé Lopes lá angariou mais 500$00 de lucro, às abas da água salgada do Atlântico, que eram uma boa ajuda para a compra da Tapada.
E o caso ficou ainda mais sério e a veracidade do diagnóstico reumatismal foi exponenciado quando Manta-Rota, seu sucessor nestas andanças excursionistas, que entretanto tinha espetado uma sorna, devido aos etílicos, lança os olhos ao mar e exclama:« A água há-de ser mesmo boa para o reumatismo... Olhar além... inda há bocadinho a água chegava ao cimo do paredão e agora já vai ao fundo. Os gajos têm-se fartado de vender água» Todos olharam e confirmaram.
Zé Lopes asseverou: "Só lá apanha água quem tiver ordem, mainada". A morrinha recomeçou e até à aldeia ninguém falava doutra coisa senão do jeito do Zé Lopes para aquelas lides.
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quarta-feira, novembro 11, 2009
UMA ESCRITA QUE DÁ GOSTO
Aqui no Baságueda gostamos de uma boa história embrulhada numa boa escrita.
A que se segue foi importada, mas preenche os requisitos.
Carta dirigida pelo Dr Frederico de Moura, Médico e Historiador de Vagos, ao Dr Nogueira Lemos, Médico Cirurgião de Aveiro
Meu caro Lemos
É coisa axiomática que o pénis não obedece a freio; e é coisa de esperar que a natureza o tenha dado a animal que lhe não obedece. Mas como a esta estuporada profissão que exercemos só aparecem anormalidades, aberrações e coisas em desacordo com a natureza, surgiu-me hoje no consultório esse rapazinho que lhe envio, com um freio de tal dureza e de tal conformação que o insubmisso pénis tradicionalmente indomável, não teve outro remédio senão ceder. Calcule os mistérios e os paradoxos desta ladina natureza! Esse moço, na casa dos vinte anos com uns corpos cavernosos que devem estar isentos de qualquer obstrução, e concerteza dispondo de uma libido afinada capaz de lhe fazer sair, erecto, o próprio umbigo, resolve ir para o casamento com os seus (dele) três vinténs e confirma, então a suspeita que já tinha, de que no auge da metálica erecção, o pénis fica em crossa como o báculo de um bispo, por incapacidade de vencer a brevidade e a dureza do freio que lho verga para a terra. Calculará o meu prezado Lemos, as acrobacias de alcova que este desgraçado terá de realizar para conseguir a penetração de um membro viril, quase tão torto como uma ferradura, na vagina suplicante da consorte.
De modo que o rapazinho veio pedir-me socorro, e eu condoído peço-lhe a sua colaboração em favor da harmonia conjugal, com a certeza de que por isso ninguém nos irá acoimar de chegadores. Condoa-se a cirurgia de braço dado com a medicina que, por intermédio deste fraco servidor que eu sou, já se condoeu e endireitemos o pénis torto (e nada de confusões, que não é mole pelo que me afirma o proprietário). Lembremo-nos, sobretudo, ao praticarmos esta obra, que vem aí um tempo em que um pénis destes, mesmo em arco ou em forma de saca-rolhas, nos fariam um jeitão, e ajudemos o pobre rapaz que se compromete comigo a fazer bom uso dele, emprenhando a mulher da primeira vez que o usar, depois da operação ortomórfica que o meu amigo lhe vai fazer sem sombra de dúvida.
Desculpe mandar-lhe desta vez uma tarefa fálica! Ouvi uma mulher um dia dizer que um Phallus é um excelente amuleto e que dá sorte verdadeira. Se quiser tirar a prova não tem mais que endireitá-lo… e jogar a seguir na lotaria. Desculpe, pois, a remessa de bicho tão metediço que eu por mim prometo, logo que possa, e em compensação, mandar-lhe uma vulva virgem inacarada como uma concha de madrepérola.
Um abraço do seu amigo certo
Frederico de Moura
PS: Como a minha letra é muito má segundo a sua opinião, e como o assunto desta carta é muito importante para duas pessoas, uma das quais do sexo fraco, entendi do meu dever dactilografá-la. Assim, não haverá nenhuma razão para o meu amigo dizer que não entendeu o que eu queria e, por partida, deixar o aparelho na mesma ou pior, ao rapaz.
Quero ainda dizer-lhe que para sua compensação, tenciono depois do êxito que o seu ferro cirúrgico vai alcançar comunicar o seu nome à mulher beneficiada que, por certo, lhe ficará eternamente grata, ficando sempre com a sua pessoa presente na memória nos momentos – e oxalá que sejam muitos! – em que se sentir penetrada por um pénis que só o meu amigo conseguiu endireitar. E nem sei se o Estado virá louvar a sua acção, se lhe for dado conhecimento que os filhos que saírem daquele casal são devidos em grande parte não ao seu pénis mas, sem dúvida, à sua mão.
E filhos com a mão nem toda a gente se poderá gabar de os fazer!
Creia-me seu afeiçoado, Frederico
27/03/1958
A que se segue foi importada, mas preenche os requisitos.
Carta dirigida pelo Dr Frederico de Moura, Médico e Historiador de Vagos, ao Dr Nogueira Lemos, Médico Cirurgião de Aveiro
Meu caro Lemos
É coisa axiomática que o pénis não obedece a freio; e é coisa de esperar que a natureza o tenha dado a animal que lhe não obedece. Mas como a esta estuporada profissão que exercemos só aparecem anormalidades, aberrações e coisas em desacordo com a natureza, surgiu-me hoje no consultório esse rapazinho que lhe envio, com um freio de tal dureza e de tal conformação que o insubmisso pénis tradicionalmente indomável, não teve outro remédio senão ceder. Calcule os mistérios e os paradoxos desta ladina natureza! Esse moço, na casa dos vinte anos com uns corpos cavernosos que devem estar isentos de qualquer obstrução, e concerteza dispondo de uma libido afinada capaz de lhe fazer sair, erecto, o próprio umbigo, resolve ir para o casamento com os seus (dele) três vinténs e confirma, então a suspeita que já tinha, de que no auge da metálica erecção, o pénis fica em crossa como o báculo de um bispo, por incapacidade de vencer a brevidade e a dureza do freio que lho verga para a terra. Calculará o meu prezado Lemos, as acrobacias de alcova que este desgraçado terá de realizar para conseguir a penetração de um membro viril, quase tão torto como uma ferradura, na vagina suplicante da consorte.
De modo que o rapazinho veio pedir-me socorro, e eu condoído peço-lhe a sua colaboração em favor da harmonia conjugal, com a certeza de que por isso ninguém nos irá acoimar de chegadores. Condoa-se a cirurgia de braço dado com a medicina que, por intermédio deste fraco servidor que eu sou, já se condoeu e endireitemos o pénis torto (e nada de confusões, que não é mole pelo que me afirma o proprietário). Lembremo-nos, sobretudo, ao praticarmos esta obra, que vem aí um tempo em que um pénis destes, mesmo em arco ou em forma de saca-rolhas, nos fariam um jeitão, e ajudemos o pobre rapaz que se compromete comigo a fazer bom uso dele, emprenhando a mulher da primeira vez que o usar, depois da operação ortomórfica que o meu amigo lhe vai fazer sem sombra de dúvida.
Desculpe mandar-lhe desta vez uma tarefa fálica! Ouvi uma mulher um dia dizer que um Phallus é um excelente amuleto e que dá sorte verdadeira. Se quiser tirar a prova não tem mais que endireitá-lo… e jogar a seguir na lotaria. Desculpe, pois, a remessa de bicho tão metediço que eu por mim prometo, logo que possa, e em compensação, mandar-lhe uma vulva virgem inacarada como uma concha de madrepérola.
Um abraço do seu amigo certo
Frederico de Moura
PS: Como a minha letra é muito má segundo a sua opinião, e como o assunto desta carta é muito importante para duas pessoas, uma das quais do sexo fraco, entendi do meu dever dactilografá-la. Assim, não haverá nenhuma razão para o meu amigo dizer que não entendeu o que eu queria e, por partida, deixar o aparelho na mesma ou pior, ao rapaz.
Quero ainda dizer-lhe que para sua compensação, tenciono depois do êxito que o seu ferro cirúrgico vai alcançar comunicar o seu nome à mulher beneficiada que, por certo, lhe ficará eternamente grata, ficando sempre com a sua pessoa presente na memória nos momentos – e oxalá que sejam muitos! – em que se sentir penetrada por um pénis que só o meu amigo conseguiu endireitar. E nem sei se o Estado virá louvar a sua acção, se lhe for dado conhecimento que os filhos que saírem daquele casal são devidos em grande parte não ao seu pénis mas, sem dúvida, à sua mão.
E filhos com a mão nem toda a gente se poderá gabar de os fazer!
Creia-me seu afeiçoado, Frederico
27/03/1958
quinta-feira, outubro 29, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLIV - DESANDADOR
Quando ouvi pela primeira vez A CARTA, com letra do João Monge, cantada pelos Resistência, lembrei-me de quantas vezes, também eu, ao fundo das escadas, sob as quais meu pai fizera uma tarimba para eu dormir, escrevi, aos Domingos, depois de missa e almoço, cartas muito semelhantes àquela.
O analfabetismo era um facto indesmentível, em elevada percentagem, o telefone era caro e lento e a carta era mais barata e os correios nem por isso eram muito demorados.
Poucos mais, na aldeia, cumpriam graciosamente com este mister de mandar e pedir novas dos entes queridos. Mais ainda dos famosos aerogramas que a guerra do ex ultramar também levou muitos xendros; até para Índia com o brigadeiro Leitão e Timor.
Um desses era o ti Emídio, cuja caligrafia , quando não estava borrachinho de todo, era um regalo; a outra era a ti Ermelinda, ali em frente da Lameira, mulher seca e espevitada, mexida que nem bicho da madeira, rija até mais não e de um asseio mais que sacro. O seu tinteiro de tinta, de cerâmica, branquinho, completo como só em museu voltei a ver, brilhava quase às escuras, tal a alvura com que sempre o mantinha. O aparo da caneta era lavadinho ao fim de cada desempenho e o pau que o sustinha era envolto num paninho, também ele branco de neve e repousavam todos, até próxima chamada, numa mesinha rectangular pintada de castanho e com uma toalha bordada, onde também, quando lhe calhava a vez, ficava o tríptico da Sagrada Família com a impecável lamparina de azeite sobre água, em gamela de vidro trabalhado, e sobre o qual flutuavam uma latinha triangular com as pontas espetadas em bóias de cortiça e a flor geminada, sempre acesa.
A casinha onde morava tinha uma loja que durante o Verão era bastante usada, primeiro porque vinham os cunhados de Lisboa e depois porque era muito mais fresca. Durante todo o ano, pelo menos uma vez por semana, lhe fazia uma barrela geral. Não raro, quando lhe ia a levar gás cheirava a lixívia purificante.
Foi numa dessas vezes em que lhe levei gás que ouvi pela primeira vez dois termos : estampilha (referindo-se a um selo de carta e não a uma bofetada que era o significado que eu lhe atribuía) e DESANDADOR.
Depois de ter retirado a bilha vazia e de ter submetido ao famoso click das garrafas Mobil, notei que cheirava a gás. Perguntei-lhe se não tinha já cheirado a gás, respondeu que sim, tirei o redutor e percorri o tubo: estava gretado e havia uma fuga. Comecei a tentar desenroscar a abraçadeira com uma faca, ela viu:"ESPERA AÍ QUE JÁ VOU POR UM DESANDADOR QUE É MELHOR DO QUE A FACA, NÃO TE CORTES!" E foi e veio com o desandador: uma chave de fendas. Ora aí está. A palavra não é onomatopaica, a função é: aquilo serve mesmo para fazer desandar. Registei e aqui vos fica.
Por esta altura do ano, sozinha ia colher a azeitona para a talha e, quando a colheita era muita vendia alguma. Ainda lhe comprei. Foi numa dessas vezes que eu, a brincar apostei com ela como num cesto eu era capaz de identificar dez azeitonas da mesma oliveira. Ela olhou para mim, e riu: és mai engraçado có teu pai". E eu:´« é verdade, pode acreditar» "pesa lá mas é a azeitona que eu não tenho vida para ouvir tontarias".
Acontece que eu, ao mudar a azeitona do cesto onde as tinha para uma caixa de plástico, vi um ramo de azeitonas para aí com umas dez...
«O Ti Ermelinda, vomecê não acredita que eu sou capaz de saber que dez azeitonas desta caixa são de certezinha da mesma oliveira, mas eu provo-lhe que é verdade» . Aí ela especou: "atão mostra lá" . Meti a mão agarrei o raminho e mostrei: «são ou não são da mesma oliveira?» " um raio ta palira, cachopo!" Meteu a mão ao bolso e: "Toma lá pela lição" Vinte e cinco tostões: uma fortuna. Fui direitinho ao Cavalheiro e papei um chocolate da Regina com uma Laranjina C.
Outros tempos, outras vivências, outros termos, outras marcas, outras histórias.
E a vós sempre vos digo que aquelas azeitonas só estavam seguras de um lado....
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGRRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDEE
O analfabetismo era um facto indesmentível, em elevada percentagem, o telefone era caro e lento e a carta era mais barata e os correios nem por isso eram muito demorados.
Poucos mais, na aldeia, cumpriam graciosamente com este mister de mandar e pedir novas dos entes queridos. Mais ainda dos famosos aerogramas que a guerra do ex ultramar também levou muitos xendros; até para Índia com o brigadeiro Leitão e Timor.
Um desses era o ti Emídio, cuja caligrafia , quando não estava borrachinho de todo, era um regalo; a outra era a ti Ermelinda, ali em frente da Lameira, mulher seca e espevitada, mexida que nem bicho da madeira, rija até mais não e de um asseio mais que sacro. O seu tinteiro de tinta, de cerâmica, branquinho, completo como só em museu voltei a ver, brilhava quase às escuras, tal a alvura com que sempre o mantinha. O aparo da caneta era lavadinho ao fim de cada desempenho e o pau que o sustinha era envolto num paninho, também ele branco de neve e repousavam todos, até próxima chamada, numa mesinha rectangular pintada de castanho e com uma toalha bordada, onde também, quando lhe calhava a vez, ficava o tríptico da Sagrada Família com a impecável lamparina de azeite sobre água, em gamela de vidro trabalhado, e sobre o qual flutuavam uma latinha triangular com as pontas espetadas em bóias de cortiça e a flor geminada, sempre acesa.
A casinha onde morava tinha uma loja que durante o Verão era bastante usada, primeiro porque vinham os cunhados de Lisboa e depois porque era muito mais fresca. Durante todo o ano, pelo menos uma vez por semana, lhe fazia uma barrela geral. Não raro, quando lhe ia a levar gás cheirava a lixívia purificante.
Foi numa dessas vezes em que lhe levei gás que ouvi pela primeira vez dois termos : estampilha (referindo-se a um selo de carta e não a uma bofetada que era o significado que eu lhe atribuía) e DESANDADOR.
Depois de ter retirado a bilha vazia e de ter submetido ao famoso click das garrafas Mobil, notei que cheirava a gás. Perguntei-lhe se não tinha já cheirado a gás, respondeu que sim, tirei o redutor e percorri o tubo: estava gretado e havia uma fuga. Comecei a tentar desenroscar a abraçadeira com uma faca, ela viu:"ESPERA AÍ QUE JÁ VOU POR UM DESANDADOR QUE É MELHOR DO QUE A FACA, NÃO TE CORTES!" E foi e veio com o desandador: uma chave de fendas. Ora aí está. A palavra não é onomatopaica, a função é: aquilo serve mesmo para fazer desandar. Registei e aqui vos fica.
Por esta altura do ano, sozinha ia colher a azeitona para a talha e, quando a colheita era muita vendia alguma. Ainda lhe comprei. Foi numa dessas vezes que eu, a brincar apostei com ela como num cesto eu era capaz de identificar dez azeitonas da mesma oliveira. Ela olhou para mim, e riu: és mai engraçado có teu pai". E eu:´« é verdade, pode acreditar» "pesa lá mas é a azeitona que eu não tenho vida para ouvir tontarias".
Acontece que eu, ao mudar a azeitona do cesto onde as tinha para uma caixa de plástico, vi um ramo de azeitonas para aí com umas dez...
«O Ti Ermelinda, vomecê não acredita que eu sou capaz de saber que dez azeitonas desta caixa são de certezinha da mesma oliveira, mas eu provo-lhe que é verdade» . Aí ela especou: "atão mostra lá" . Meti a mão agarrei o raminho e mostrei: «são ou não são da mesma oliveira?» " um raio ta palira, cachopo!" Meteu a mão ao bolso e: "Toma lá pela lição" Vinte e cinco tostões: uma fortuna. Fui direitinho ao Cavalheiro e papei um chocolate da Regina com uma Laranjina C.
Outros tempos, outras vivências, outros termos, outras marcas, outras histórias.
E a vós sempre vos digo que aquelas azeitonas só estavam seguras de um lado....
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGRRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDEE
quinta-feira, outubro 15, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLIII - CARRI(T)CHO
Como diria o meu amigo Zé Lameiras - que descanse - " A língua tem lá porras". E digo eu à maneira dos parodiantes: lá isso tem".
Isto não dá emprego a ninguém como no reclame invocado, mas dá gozo, e isso ninguém nos tira.
Para quem não está habituado a este linguajar, estranhará a quase impossibilidade fonética aqui ocorrida. Para quem convive com a xendrada e outros que tais, a explicação é facílima.
Linearmente, é assim: carricho vem de pequerrucho. Nem mais. É por demais vulgar que as sílabas tónicas, acentuadas graficamente ou não, sejam elementos absorventes e, a bem dizer, as sílabas circunvizinhas acabem por ficar mudas. Não falam e, como não falam, não se ouvem.
O grande linguista português, Professor Doutor Luís Filipe Lindley Cintra experimentou, com um conjunto largo de alunos seus, na Faculdade de Letras de Lisboa, gravar entrevistas a pessoas de diferente nível cultural e de diferentes regiões do país. As gravações recolhidas eram depois tratadas em laboratório e uma máquina, altamente sensível às variações sonoras, construída para o efeito, passava a escrito a faladura dos entrevistados. O resultado foi de tal modo inconclusivo que Lindley Cintra desistiu da sua pretensão e dizia que a língua portuguesa, ao contrário da italiana, por exemplo, é muito fechada e os sons não são audíveis.
Como tal a máquina, ao transpor para escrito o falado, deixava um texto de tal modo ininteligível que nem o próprio entrevistador era capaz de aí ler o original.
É mesmo. Nós falamos em nevoeiro, os italianos, esse falam ao sol. Por isso, é mesmo a língua do belo canto...
Quem alguma vez passou, ainda que ligeiramente por alguns pormenores fonéticos entende perfeitamente esta lei do menor esforço, tão frequente ela é em português.
As influências do grego são mais fortes do que se pensa e o famoso Y (que muitos aprenderam, e bem, a chamar de i grego), embora só há poucos anos tenha tido entrada oficial no alfabeto português, na verdade, há já muito que a sua influência e até utilização, eram frequentes e sentidas. Mais ainda como resultado da emigração já que a França, pode dizer-se, é uma espécie de segundo portugal na Europa e os franceses ao traduzirem-no por u, condicionam o som de pronunciação e obrigam a que se pronuncie, como se quase se assobiasse, para o distinguirem do som u, que resulta da ditongação (portuguesa, é claro) de ou. Exemplifiquemos: o som do u no fonema tu é diferente do som em ouvres.
Em português, e para abreviarmos, dizemos que o U e o I são vogais médias e que é frequente a alternância entre uma e outra.
Vamos agora ao nosso carri(t)cho: é fácil de ver que a primeira sílaba foi absorvida : o PE desapareceu porque o E é mudo e foi progressivamente absorvido pelo som forte da tónica RU. Está bem de ver que QUERRUCHO é mais difícil de dizer do que carrucho e, como o U alterna com o I, aí temos como, de repente, em vez de pequerrucho, acabamos em CARRICHO.
Tinha razão o amigo Lameiras de boa memória:"o português tem lá porras". Aí está a lei do menor esforço.
Talvez os mais famosos carrichos da xendrice, tivessem sido O Zé pequeno e o João planeta. Já nenhum deles está entre nós.
Qualquer deles era verguio e eram o exemplo vivo de que os homens não se medem aos palmos...
Vão já longe os tempos do escutismo entre os xendros. ~~
Tonho Brigadeiro conseguiu uma dinâmica muito interessante com este saudável movimento mobilizador da juventude para actividade de respeito pelo ambiente e valores sãos que nunca morrem. Zé pequeno era vizinho de brigadeiro quase ao alto da lagariça e, embora não pudesse participar nas actividades por requisições familiares, sempre que podia assistia às sessões de preparação.
Brigadeiro era um chefe exemplar e queria a rapaziada afinada:« Um escoteiro, dizia, nunca recua.» Zé pequeno tem das maiores saídas que eu algum dia ouvi: " Pois não, dá meia volta e continua sempre em frente!"
Eu tive que vir para a rua a rir e Brigadeiro, sempre sério, quis manter a malta "firme e hirta", mas a saída de Zé pequeno ecoava nos ouvidos de todos e foi obrigado a dar por concluída a sessão até ao dia seguinte, Domingo, antes de missa.
XI Grande.
sexta-feira, outubro 09, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLII - FOGUEIRO
São muitas as teses acerca da linguagem e da linguística, bem como das funções da linguagem e mais ainda da sua utilização e finalidade. Não cabe, obviamente, no contexto deste encantador passatempo, o exercício de deambulações retóricas comparando, ou mesmo contrapondo teses a propósito desta variedade de leituras das funções da linguagem.
A verdade é que nem sempre aquilo que dizemos é entendido como gostaríamos que tivesse sido e não podemos levar a mal que o OUTRO, sempre O GRANDE OUTRO, não nos entenda com a clareza que nós pensamos ter-nos expresso. Esta presunção da clareza quase cartesiana de que partimos ao dizer que "É EVIDENTE" é, de si, uma petição de princípio, já que jamais posso pressupor que algo que eu diga seja, prima facie, evidente. A evidência é algo que o outro decide e não o que eu pressuponho. Defender que há indubitabilidades iniciais é querermos reduzir os outros a nós e impedi-los de pensar. Ora isso é o que aqui não vai acontecer. O que mais se aprecia é quem nos lê, pense por si e , se entender, disso nos dê eco, mesmo que, e ainda bem, não concorde connosco.
Sirva de exemplo a palavra que hoje aqui trazemos. O normal - o evidente - parece ser que tem a ver com fogo e até mais rigorosamente tem a ver com uma profissão - a daquele homem que alimentava a caldeira do comboio a vapor como se vê ainda nalguns filmes ou nos que ainda hoje, já não a carvão, mas, na maioria dos casos a nafta, ou outro combustível mantêm altos fornos sempre na temperatura ideal.
Nada de mais distante: no vocabulário xêndrico o fogueiro é o FUEIRO. Isso mesmo: aquele varapau, em regra de eucalipto, mimosa ou carvalho que ladeava, encalhado em buracos quadrados nas laterais dos carros de bois e que tanto serviam para amparar molho de erva ou palha, como até os taipais provisórios a fim de a mercadoria não ser apanhada pelas rodas e mesmo cair (estrume, por ex.). Quando se tratava de grandes transportes, como com os moios do cereal, aí ,os fogueiros mudavam de nome e chamavam-se estadulhos.
Montar sessenta molhos de semente em cima do estrado dum carro de vacas, era tarefa que nem todos eram capazes de levar a cabo. Se a carga caísse naqueles córregos dos caminhos velhos era certo e sabido que dava direito a choradela de entrudo e a vergonhas contínuas nas tardes maledicentes dos domingos, depois de missa enquanto se jogava o fito. Isso era limpinho.
Os Tiagos moravam num arrendamento ali para os lados do Frade a dar cômoro com as taliscas. Trabalhavam como moiros e as terras andavam sempre rodadas, semeando e alternando as colheitas para a terra não se cansar. A fona era de sol a sol e desde cedo, como aliás era costume,os garotos começavam a aprender, a bem ou a mal, o que custava a vida... O mais velho dos Tiagos estava a dar os molhos do pão ao pai com uma forca, quando, de repente, sente umas dores agudas, começa a vomitar e aos berros: " Ca raio tens, que bicho te mordeu, rais ta parta, olha agora". O velho Tiago desce do cimo do carro ainda a praguejar, mas quando viu o filho naquele estertor viu que o caso não era mangação e arrancou à pressa na burrica para a vila a ver do dr. Landeiro. O cachopo berrava que nem um capado mas lá chegou, o dr. landeiro viu logo o que passava e ala : internado imediatamente para ser operado à apêndice... Bons tempos aqueles em que se operava em Penamacor no velho hospital de st António...
Já se sabe que o asseio do homem campesino não era famoso e o tarro de suor e até de fezes agarrava-se tanto ao corpo como às ceroulas... Como a operação era mesmo premente lá foi o Tiago para a barrela. Vestem-lhe uma espécie de bata e vai para a sala a arrastar-se. Está bem de ver que a operação é inimiga de pêlos púbicos e que a enfermeira de serviço tinha que proceder à raspagem dos ditos. Ora para evitar cortes desnecessários e escusados era preciso arredar o pistolo como lhe chamava o Tiago. Diligente, a enfermeira agarrou no falo do tiago para o manter em posição que permitisse o barbeamento. Só que o tiago nunca tinha tido uma mulher que lhe tivesse mexido no ponteiro e sai-se como esta:" Já o pode deixar que ele não cai". A enfermeira riu-se e o Tiago gabava-se do tamanho que o fogueiro tinha atingido.
Xi Grande
A verdade é que nem sempre aquilo que dizemos é entendido como gostaríamos que tivesse sido e não podemos levar a mal que o OUTRO, sempre O GRANDE OUTRO, não nos entenda com a clareza que nós pensamos ter-nos expresso. Esta presunção da clareza quase cartesiana de que partimos ao dizer que "É EVIDENTE" é, de si, uma petição de princípio, já que jamais posso pressupor que algo que eu diga seja, prima facie, evidente. A evidência é algo que o outro decide e não o que eu pressuponho. Defender que há indubitabilidades iniciais é querermos reduzir os outros a nós e impedi-los de pensar. Ora isso é o que aqui não vai acontecer. O que mais se aprecia é quem nos lê, pense por si e , se entender, disso nos dê eco, mesmo que, e ainda bem, não concorde connosco.
Sirva de exemplo a palavra que hoje aqui trazemos. O normal - o evidente - parece ser que tem a ver com fogo e até mais rigorosamente tem a ver com uma profissão - a daquele homem que alimentava a caldeira do comboio a vapor como se vê ainda nalguns filmes ou nos que ainda hoje, já não a carvão, mas, na maioria dos casos a nafta, ou outro combustível mantêm altos fornos sempre na temperatura ideal.
Nada de mais distante: no vocabulário xêndrico o fogueiro é o FUEIRO. Isso mesmo: aquele varapau, em regra de eucalipto, mimosa ou carvalho que ladeava, encalhado em buracos quadrados nas laterais dos carros de bois e que tanto serviam para amparar molho de erva ou palha, como até os taipais provisórios a fim de a mercadoria não ser apanhada pelas rodas e mesmo cair (estrume, por ex.). Quando se tratava de grandes transportes, como com os moios do cereal, aí ,os fogueiros mudavam de nome e chamavam-se estadulhos.
Montar sessenta molhos de semente em cima do estrado dum carro de vacas, era tarefa que nem todos eram capazes de levar a cabo. Se a carga caísse naqueles córregos dos caminhos velhos era certo e sabido que dava direito a choradela de entrudo e a vergonhas contínuas nas tardes maledicentes dos domingos, depois de missa enquanto se jogava o fito. Isso era limpinho.
Os Tiagos moravam num arrendamento ali para os lados do Frade a dar cômoro com as taliscas. Trabalhavam como moiros e as terras andavam sempre rodadas, semeando e alternando as colheitas para a terra não se cansar. A fona era de sol a sol e desde cedo, como aliás era costume,os garotos começavam a aprender, a bem ou a mal, o que custava a vida... O mais velho dos Tiagos estava a dar os molhos do pão ao pai com uma forca, quando, de repente, sente umas dores agudas, começa a vomitar e aos berros: " Ca raio tens, que bicho te mordeu, rais ta parta, olha agora". O velho Tiago desce do cimo do carro ainda a praguejar, mas quando viu o filho naquele estertor viu que o caso não era mangação e arrancou à pressa na burrica para a vila a ver do dr. Landeiro. O cachopo berrava que nem um capado mas lá chegou, o dr. landeiro viu logo o que passava e ala : internado imediatamente para ser operado à apêndice... Bons tempos aqueles em que se operava em Penamacor no velho hospital de st António...
Já se sabe que o asseio do homem campesino não era famoso e o tarro de suor e até de fezes agarrava-se tanto ao corpo como às ceroulas... Como a operação era mesmo premente lá foi o Tiago para a barrela. Vestem-lhe uma espécie de bata e vai para a sala a arrastar-se. Está bem de ver que a operação é inimiga de pêlos púbicos e que a enfermeira de serviço tinha que proceder à raspagem dos ditos. Ora para evitar cortes desnecessários e escusados era preciso arredar o pistolo como lhe chamava o Tiago. Diligente, a enfermeira agarrou no falo do tiago para o manter em posição que permitisse o barbeamento. Só que o tiago nunca tinha tido uma mulher que lhe tivesse mexido no ponteiro e sai-se como esta:" Já o pode deixar que ele não cai". A enfermeira riu-se e o Tiago gabava-se do tamanho que o fogueiro tinha atingido.
Xi Grande
quinta-feira, outubro 01, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLI - BO(U)RNAL
A sinonímia sempre acarretou problemas à comunicação. Na verdade, as palavras são como as pessoas: todas têm uma história. Não é por acaso que cada uma delas existe. Mesmo entre os grandes teóricos da linguagem e da comunicação não há unanimidade interpretativa. Desde logo porque a disciplina que faz a crítica da linguagem, podemos dizer que uma espécie de epistemologia da linguagem, tal como há uma epsitemologia científica, refiro-me, está bem de ver, à HERMENÊUTICA, traz consigo o deus dos ladrões e dos comerciantes. Hermes, esse veloz deus helénico, de asas nos pés, mensageiro dos mais hierárquicos, e que os romanos traduziram por Mercúrio, acumulava esta dupla protecção: ladrões e comerciantes... Sem nos determos muito neste acopulamento (comerciantes e ladrões), que, seja como seja, não deixa de ser interessante, avancemos para outro pormenor da linguagem/fala/comunicação.
É claro que não se pode meter tudo no mesmo saco e não é aqui que isso vai acontecer. O Baságueda pode brincar mas não ofende: tem humor mas não ironiza, brinca mas não faz mangação, ousa mas não violenta, serve mas não se escraviza, MAINADA!
Interseccionemos esta cangalhada toda a ver se chegamos ao bornal:
Sirva de exemplo o histórico facto de a língua latina ser o meio de difusão privilegiado inter centífico no mundo ocidental. Foi já tardio o aparecimento das primeiras universidades laicas, que a maioria dos locais de ensinança eram os mosteiros e as suas escolas monacais. Os burgueses aos poucos foram-se intrometendo entre os nobres e o clero, que o povo, esse, limitava-se a ser servo de gleba e, vá lá, às vezes, vilão franco, o povo, quanto menos soubesse, melhor - assim não recalcitrava... -. Dizia eu que os burgueses lá se foram, aos poucos, libertando das peias eclesiais e, ao mesmo tempo que fundavam cidades nas encruzilhadas das grandes vias, também construiram escolas para os seus filhos. Com a colaboração dos goliardos, cárpatos e outros proscritos pela santa madre igreja católica apostólica romana, conseguiram escolas de tão grande renome quanto as herméticas oficinas do saber bibliotecárias, manuscritas e dogmáticas escolas monacais. A abertura a novas formas de pensar incipientes e a natural rebeldia de quem, com o sangue na guelra, eivado da novidade e garantido e avalizado por um novo riquismo que competia com o clero e os nobres suseranos latifundiários, ousava PROVOCAR o stablishment, aos poucos, foi conseguindo romper com a afogo e o sufoco que o severo dogmatismo impunha. O latim deixou de ser a exclusiva língua e algum do saber já se difundia na língua original, tanto mais que, após Guttenberg, nada ficou como era: a bíblia, claro, sempre como ex libris, mas também romances e novelas de cavalaria que deram azo a demandas do graal e a códigos da vinci e por aí fora. O latim, inacessível como era e ainda é, agora mais ainda que já há muito pouca gente que o domine, o latim era um obstáculo comunicacional... Não admira que os detentores do saber, conhecedores como eram desse fenómeno, comunicassem com a populaça, através de símbolos: lá vem a cruz, a bandeira, a sigla, a marca, o distintivo, a patente, tudo o que servisse para indicar ao maior universo possível, a mensagem que se pretendia transmitir, o jargão, a oração comunitária, as rezas,... Ainda havia aquilo a que nós chamamos slogan e o famoso AMÈN que indicava um ASSIM SEJA subserviente.
O bornal do povo era repleto com dogmas, mandamentos, imperativos negativos, virtudes, obras de misericórdia, normas de conduta, que sei eu,...
As festas populares tinham os seus tempos: o povo não podia fazer festas a seu bel-prazer: tinha que festejar quando as autoridades eclesiásticas o autorizassem - nem sequer era senhor de gerir a sua, já de si, parca ementa: os ricos que tinham dinheiro para bulas papais enchiam o fato a bel-prazer, o galego, sem dinheiro sequer para uns tamancos, esse, tinha que roer botelha a ver se se sustentava: isto sim foi o que o Cristo pregou... Adiante...
O bornal propriamente dito não era aquele alforge de Júpiter que nos pôs às costas uma bolsinha com os nossos defeitos e à frente uma enorme com os defeitos dos outros... O próprio Cristo se fez eco desta fábula de Esopo, depois transcrita por Fedro e mais tarde actualizada por La Fontaine: vês o algueiro no olho do outro e não tropeças na tranca que tens nos teus olhos.
Antes, era uma espécie de saca , regra geral em pele macia, tipo odre, mas com boca de ajuste com ataca do mesmo material e uma tomba para fecho definitivo e servia para levar merenda para festa, ou para monda, vindima, sacha de milho, quintos na ceifa, enfim, alturas em que se juntava a família e era preciso muito entulho ou se ficavam dias sem reabastecimento. Não raro ia nas angarelas, bem acomodado, que as iguarias não se podiam estragar nem sequer amelancar: bacalhau de horta e pataniscas do mesmo, algum coelho macho já substituído, um galo assim comédado, ovos verdes, chouriço de azeite, orelha de porco e tromba do mesmo animal de salgadeira, algum naco de de presunto, tora de toucinho, cunca de queijo, corno de azeitonas, casqueiro roda de moinho, grande quanto bastasse, e o mais que houvesse e desse jeito para botar na manta estendida:o bornal levava todo o farnel.
Bornal era ainda aquela pessoa que tudo atamancava e misturava os pés pelas mão: "és mesmo um bornal" ou aquele outro que arcava com tudo e de tanta serventia aos outros era chamado de bornal.
As casas meãs não tinham terrenos nem gado para feitor ou maioral, mas, em regra, sustentavam uma espécie de criado que tirava esterco a porco, guardava e ordenhava cabras e/ou ovelhas, fazia a horta, recolhia o feno, tomava conta da alguitarra no tempo da aguardente, ia à agua para as necessidade domésticas, apanhava vides, queimava lenha de limpeza de árvores, e o mais que aparecesse. Era um bornal: no outro cabia tudo a este cabia-lhe tudo. Dois Bo(u)rnais.
Era assim a vida...
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGRRRRAAANNNNNDDDDDEEEEEE!
segunda-feira, setembro 21, 2009
VINDIMA OUTONAL 2009
Há mais ou menos 13 luas atrás foi ASSIM
Este ano...
Este ano...
CARDÁPIO/PÓCIO
α Fruto seco, moído, amassado, fermentado, fatiado e cozido em forno abobadal
β Ameixas martinicanas abertas a vapor alhínico, aromatizadas com erva coentral e suco cítrico
γ Traseiro curado de nalgudo beloteiro
δ Bife de caroço
ε Marisco de pantera negra
ζ Interstício moedor de bípede galináceo em molho xêndrico à moda antiga, levemente carilado e especiaria excitante
η Assadura em braseiro vivo de frutos pingentes encarnados e verdes, pelados e temperados
θ Berlindes tomatinos com cristais evaporados ao sol de água ondular
ι Pequenas leguminosas cozidas ao poejal combinado com nadador marítimo conserveiro e bolbo choroso, essência galinácea, acetizado e olivificado
κ Alimento de pobre conservado demolhado cozido e gratinado em barro com imo de poedeira
λ Palavreado roto de Manuel Hipólito
μ Carolada de milho adoçado e comido à mão
ν Achinchada curtida de alimento de mamífero
ξ Fruto de uva a duas cores vinificado
ο Destilado de balsa uveira em aroma de roble seco
π H2O fervente passado por grânulo torrado de grão torrefacto e importado
β Ameixas martinicanas abertas a vapor alhínico, aromatizadas com erva coentral e suco cítrico
γ Traseiro curado de nalgudo beloteiro
δ Bife de caroço
ε Marisco de pantera negra
ζ Interstício moedor de bípede galináceo em molho xêndrico à moda antiga, levemente carilado e especiaria excitante
η Assadura em braseiro vivo de frutos pingentes encarnados e verdes, pelados e temperados
θ Berlindes tomatinos com cristais evaporados ao sol de água ondular
ι Pequenas leguminosas cozidas ao poejal combinado com nadador marítimo conserveiro e bolbo choroso, essência galinácea, acetizado e olivificado
κ Alimento de pobre conservado demolhado cozido e gratinado em barro com imo de poedeira
λ Palavreado roto de Manuel Hipólito
μ Carolada de milho adoçado e comido à mão
ν Achinchada curtida de alimento de mamífero
ξ Fruto de uva a duas cores vinificado
ο Destilado de balsa uveira em aroma de roble seco
π H2O fervente passado por grânulo torrado de grão torrefacto e importado
sexta-feira, setembro 04, 2009
A NOSSA FALADURA - CXL - BANDOLEIRA
O natural é o caos. Já assim era com Hesíodo. Só quando Cronos toma conta do Caos é que a ordem surge: tinha aparecido o tempo e o tempo tem ritmo, ordem, sucessão. Por isso Cartesius lhe chama a ordem das sucessões. Mais ou menos como aprendíamos quando éramos crianças: a história (esse estudo científico que indaga o passado para bem compreender o presente e até prever o futuro), a história é a sucessão sucessiva de sucessos que se sucedem sem cessar...
Por isso se pode falar da eternidade de Deus: como não havia tempo antes de ele ter criado a sua obra, então é eterno. De facto só pode falar de ANTES e DEPOIS quando a obra aparece. E ao primeiro dia Deus disse : faça-se noite e fez-se noite e fez-se dia. Na mitologia grega foi o Érebo que gerou a noite que gerou o dia e por aí fora. Só há tempo e, portanto, ordem, quando algo aparece. Que somos nós senão uma efemeridade temporal? Só contamos no ínfimo intervalo de tempo, enquanto vivemos. O tempo começa para nós quando nascemos -lá está no B.I. - e termina quando nos apagamos - e lá está na certidão de óbito - mas essa data já não a lemos, porque já não estamos no tempo. Durante um ligeiro instante passamos pelo "laser" do tempo e vemos e somos vistos. Antes não éramos e depois já não somos. É sempre assim: quem nasce traz consigo o embrião da morte.
O primeiro vestígio, que eu saiba, deixado pelo homem, em que claramente se pode ver uma tentativa de contar o tempo é uma espécie de cobra de madeira onde constam 28 ranhuras. Exactamente o período de uma órbita lunar. Essa constância levou o homem a registá-la. Daí veio o mês, mas o ano não tinha doze, tinha dez: daí que Setembro fosse o sétimo mês e Dezembro o décimo e não o 12º. A culpa foi dos césares: Caio JÚLIO César e Octávio César AUGUSTO, que se auto imortalizaram incluindo os meses de JULHO e de AGOSTO, o que fez com que nem OUTUbro fosse o oitavo, nem NOVEmbro o nono.
Seria fastidioso que eu agora vos tentasse explicar aqui como o meu avô, o velho Comandante, me ensinou a ler as horas à noite. Mas o erro não é grande e nunca perdia o combóio se me regulasse por esse relógio empírico. Adiante.
Raro teria sido o garoto xendro do meu tempo que não tivesse guardado uns borregotes. A mim também me calhou. Já aqui vos contei que ainda me apalparam as fúcias porque eu não sabia que o borrego acarrava e cheguei a casa antes do tempo - cá está outra vez o tempo -.
Havia na aldeia e nas circunvizinhas rebanhos valentes, tanto de ovelhas como cabradas. Sabia-se o dono pela música dos chocalhos: da casa Megre, da casa Campos, da Casa Franco Frazão, do velho Barroso, do Labouxa, do Stronca Brochas, do Puta Maluca, do Tonho Pedro, do ti Domingos Landeiro, dos Abades, dos Compõe, ..., Conhecia-se ao longe o som o reboleiro e o rebanho estava identificado e localizado. Técnicas de outros tempos em que não havia chips nem GPS. Era outra a ordem da vida como era outra a ordem do tempo. O tempo tinha outro ritmo: nada era virtual. Tudo se limitava ao local e ao presente próximo. Não dava tempo para outras cavalgadas ou ritmos.
Em regra, as grandes casas tinham pastores, ganhões, quinteiros, juntas, vacadas, cavalos,... e um capataz quando das colheitas agrícolas: ceifas, azeitona, malhas, sementeiras,... e um Maioral, o pastor dos pastores.
Era vê-los, Domingo, depois de missa, fato de sarrabeco (=surrobeco), jaqueta ao ombro ,colete justo, camisa bordada, relógio de bolso suspenso de casa de botão por corrente de prata reluzente, sempre polido e certinho, bota cardada, espora brilhante em tacão alto, chapéu de aba larga, castanho de mel, patarras descidas, ....; nem a jogar ao fito ou à raioula tiravam a indumentária. À tardinha lá iam a cavalo ou de macho "ver do vivo que não tem Domingos"
Os maiorais e os capatazes não tinham bandoleira. Os pastores , esses todos tinham. E mais: a bandoleira não tinha compartimentos. Aquilo era uma sala grande onde cabia tudo de tudo: era um caos... Mas tinha uma ordem: a ordem acidental que opastor lhe dava quando metia tudo outra vez na bandoleira. Cabia tudo ... Fosse como fosse.... A ordem variava. Como nós...
O maioral e o capataz comiam no rancho, ali onde ficavam as furdas, os bardos, as cavalariças, as eiras a horta da casa, a adega, as lojas e os celeiros, tudo o que era governo de ano inteiro para a casa, eles não precisavam de bandoleira. Já não era assim com os pastores que andavam por lá, dormiam em choças, bebiam água das fontes com o gado e, por isso andavam sempre limpas, e só vinham às vezes ao fim de semana reabastecer de tabaco, conduto e uma cabaça de vinho. A bandoleira era toda em cabedal, incluindo a cinta que a prendia a tiracolo por detrás das costas. O princípio era sempre o mesmo: a capa e a merenda nunca ficam na fazenda. Era na bandoleira que ia a merenda: pão, e conduto: toucinho, queijo, alguma chouriça, um naco de presunto, e no princípio a perna de algum galo ou ovelha badana cozida no panelão de ferro. Era tudo bom, nunca havia azia e as horas de comer era quando calhava que era preciso guardar bem o gado, mais agora no tempo das vindimas, assistir a partos, tosquiar, ordenhar, mudar o bardo,.... Era a vida.
Não hvia pastor que não fosse hábil a atirar o cajado e nem sempre era para tornar a ovelha tresmalhada ao rebanho: conheciam de cor luras, camas de lebre, ninhos de perdiz, pirolis, codorniz e cotovia, cova de texugo, tudo.
Comi muito coelho que alguns vendiam e traziam invariavelmente na bandoleira, para poder comprar uma onça de tabaco HOLANDEZ e dois livros de mortalha TORO para acigarrarem nas horas mais calmas de solidão.
E pronto. Hoje não vos trago herói. Trago-vos uma caterva deles.
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
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domingo, agosto 23, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXIX - BASQUEIRO
À hora a que começo a escrever esta missiva aproximamo-nos a passos largos da data da festa do orago dos xendros: o Sr. São Bartolomeu (ou como lá se diz S. Bartlameu), festa dos frangos e de valentes fogaças, que o eram noutros tempos, e também de muita crendice: dando por adquirido (mas barato) que S. Bartolomeu cantava o te deum laudamus enquanto era esfolado vivo e frito numa enorme caldeira, lá por terras da Índia (seria?), ele, como facilmente é constatável na imagem que sai no andor, tem o mafarrico preso por uma corrente... Só que, no dia da sua festa, quer conviver com os seus protegidos e deixa o diabo à solta... Por isso, nada de assomar a poços, que satã pode empurrar-nos, nada de aventuras tontas como subir a árvores, que se pode esgarnar a parnada , e sobretudo evitar andar sozinhos que belzebú se pode tornar, de repente, no nosso companheiro de viagem e para além de nos trapacear, pode ficar dentro de nós e a sua esconjura por exorcismo, para além de difícil é rara, e apenas praticada por agentes eclesiásticos autorizados...
Enfim, cuidado convosco e também com a criançada : que não vão sozinhas para as varandas que o rei dos infernos os pode atirar dela para baixo. Se virdes um abobrinho espetai-lhe um pau, que no seu olho está o cornudo, rabudo, de forquilha na mão.
São Bartolomeu vos livre de todas as mazelas, Amén.
A marca matricial, ou, um A PRIORI evolutivo, como quer Popper, já que não é aprendido, portanto não é adquirido, mas também não se pode considerar inato porque bastava que fosse nato (= natural), ou teleológico e teleonómico como defende Dawkins, a marca matricial, dizia, da necessidade de hierarquia, ordem, estabilidade, ... ,típica da mentalidade ocidental, oriunda já dos apotegmas dos sete sábios, das prescrições de Sólon e das imposições espartanas de Licurgo, passadas a escrito e defendidas, com recurso a mitos alegóricos pelo Ombros largos - Platão - e ainda pelo estagirita com o seu cânon, e depois por Plotino, Agostinho de Hipona, Eckart, e sobretudo Renatus Cartesius, que até escreve o Discurso do Método (para bem conduzir o raciocínio), esta necessidade de ordem, no tempo e no espaço, acompanha-nos.
Haja quem tente, de algum modo, profanar este status quo, Morin e Bourdieu, por exemplo, Heinsenberg e Bohr, que logo se advoga que Deus não andou a jogar aos dados (Einstein) e que, portanto, a incompetência é nossa porque já o velho sábio Galileu defendera que "o que para nós é de difícil inteligibilidade é para a natureza de facílima execução".
O Universo não pode ser um BASQUEIRO! ponto final. É assim e mainada.
Está tudo escrito no livro do destino e tanto adianta correr como saltar que AS MOIRAS já assinaram a nossa destinação e como diz Séneca: Juppiter non adest singulis (Júpiter não se preocupa com o singular) - era só o que faltava-: teria de ser injusto, porque para atender a uns desfavoreceria os outros... Que ao menos na divindade não haja jobs for the boys!
Se questionamos estes defensores da ordem e da estabilidade com a distribuição aleatória das pedras , por exemplo no penhasco de Monsanto, e invocamos a entropia, ou se os confrontamos com a falácia do seu ilusório argumento, que é cego a outros pontos de vista, viram-nos as costas e"fica-te com a tua que eu fico-me com a minha". É a pirronice levada ao extremo e já sabemos que os extremos se tocam e assim os cépticos se transformam em dogmáticos.
É a quadratura do cículo.
Já lá vão uns lustres ou carros de anos, como preferia mestre Aquilino - vide Malhadinhas - numa noite clara, depois de termos papado uma galinha roubada (eu era sempre e só o cozinheiro) e, quando era a minha vez de arranjar a galinha, simplesmente, pedia-a a minha mãe, que nunca ma recusou, calhamos a olhar para o céu, ali mesmo à saída da mina de toco Jabão, eu, abraço de basooka, Jorge alguitarra, varinha de arado, coiote pete e tonho modas e pusemo-nos a identificar as constelações...
"Ali está a Cassiopeia imortalizando a amada de Hércules que a mãe ursa e sua filhota mataram e estavam a devorar quando Hércules chegou... Arreliado espetou a sua amada no firmamento para que todos vissem as curvas dela e atirou com as Ursas (a Maior e a Menor) para a servirem no céu..." Isto disse eu, armado em sábio e, logo basooka, : o vinho fez-te mal ó rapa a unha. O Orion todos conheceram e o sete estrelo e, pelo caminho do ribeiro cimeiro lá ia argumentando como podia, dizendo que aqueles conjuntos de estrelas nada tinham a ver umas com as outras mas que éramos nós que, na nossa necessidade de segurança lhes atribuíamos uma forma conhecida segundo uma certa configuração como o trapézio do Orião. "Vai mas é lamber sabão" atirou alguitarra e Coiote mordeu:« a tua cabeça é um basqueiro de ideias... andas a ler muito. Organiza-te lá que no estamos para aturar as tuas patacoadas".
De nada valia contra argumentar e lá fomos para casa de toco jabão ouvir la belle musique française: Sheila- a preferida-, Mireille, Françoise, Sylvie, France Gall e de homens Halliday, (Jésu Christ est un hippie), Cristophe, invariavelmente ALINE, e Michel Sardou com Rivière.
No quarto de Jabão havia de tudo: fios eléctricos, maçãs, cama sempre por fazer, uma garrafa de jeropiga, corta unhas, alicates e chaves, multímetro, ... e discos com fartura mas só os franceses e os Rolling Stones é que tinham sítio certo e, depois, Proudy Mary por Tina Turner, que eu lhe ofereci e que mereceu: Ah música dum filho de puta!
Àquilo é que se podia chamar um basqueiro.
E por aqui me fico. Boas festas de S. Bartolomeu . XIIIIIII GGGGGGGRRRRRRANDEEEE
segunda-feira, agosto 10, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXVIII - (T)CHAVASCAL
Já uma vez, creio, aflorei aqui a temática do barulho.
De Darwin para cá, muitas foram as leituras a que estávamos profundamente arreigados, que sofreram alterações significativas, quando não, mesmo, subversões e até inversões. Simples: muito daquilo que aceitávamos como verdade dogmática, certeza inabalável, quase com o valor da (incrível) infalibilidade papal , veja-se que foi já este Bento, dito XVI, finalmente, acabou com a existência (e consequente crença) do Limbo. O Limbo era aquele local etéreo, para onde iam os recém nascidos que não tivessem sido baptizados antes de morrer. E não acaba com o Purgatório pela simples razão de que, se acabasse com ele, não valia a pena continuarmos a rezar pela salvação eterna das almas dos nossos entes queridos: se fossem para o Inferno, de nada valeria a oração, e, se tivessem ido para Céu, dispensar-se-ia a prática, já que era desnecessária. Assim, com o Purgatório a meio da viagem, sempre vale a pena porque podem lá estar.
Foi assim que nos catequizaram e, claro, registamos impressivamente esta crença, que nunca pusemos em causa. Se alguém a contradiz, agarramo-nos a ela e até a tentamos justificar com os argumentos mais balofos.
Na minha vida profissional têm-se-me deparado situações muito semelhantes: sirva de exemplo a resposta à questão simples de ' quantos sentidos temos?' Invariavelmente a resposta é que são cinco: visão, audição, olfacto, gosto e tacto. Se insisto: então e se te escaldas? e se sentes fome, ou sono, ou sede, ou dor de barriga, ou uma picadela de uma abelha,... onde raio metes estas sensações? Pasmam boquiabertos, asseveram que foi que o seu professor da primária lhe ensinara e pronto...
O mesmo se passa com o barulho (ainda cá hei-de voltar): basta um pouco de sono ou um problema pessoal, ainda que pequeno, para eu já não ouvir quem se me dirige. A fome, o sono, a dor, e outros problemas tão silenciosos que não contamos a ninguém, são, afinal, barulhos ensurdecedores ...
O professor desempenhava o papel da autoridade máxima em matéria de garante do saber. Bom era que esta deferência para com os professores, nos tempos que correm, ainda se verificasse, não já com o mesmo peso, está bem de ver, mas que também não fosse tão desautorizado como é, ... Bem, adiante, que isto tem pouco a ver com o nosso (t)chavascal.
De facto, já quase nada é sagrado.Tudo, ou quase, passou ao campo do profano.
Lembro-me bem de ter lido um livro extraordinário de um autor francês (Georges Gusdorf) chamado Mythe et Métaphisique (Mito e Metafísica): «o profano submete-se ao sagrado, ao mesmo tempo que foge dele para não ser completamente dominado».
Hoje, os campos estão a inverter-se, pelo menos no que às crenças tradicionais do mundo ocidental diz respeito. Veja-se só a quantidade de religiões que a cada instante vão aparecendo, explorando até ao tutano a figura de Cristo. Se ele por aí aparecesse hoje, havíamos de assistir a muitas expulsões de vendilhões do Templo (católicos incluídos, que não são melhores que os outros).
Vamos lá à xendrice:
Verdade insofismável é que o clima antigamente- e nós não somos ainda nenhuns velhos caquéticos - o clima, dizia, era menos flutuante do que agora. Não precisávamos de boletim meteorológico, porque se verificava um ciclicismo quase invariável e a aprendizagem resultava de acumulações de saber, transmitidas de geração em geração e cá nos íamos safando. Já não é assim agora. Também aqui nada é sagrado.
A questão é que se ia da marvana até ao caminho das Águas e da serra às portelas, da lameira da pinta à saramaga, e tudo andava cultivado. Não havia baldios e os matos eram segados, que os fornos e os lares bem os catavam. Agora há codeços, giestas, estevas, tojo, rosmanos, pinhais cheios de caruma, mato e panojo por todo o lado... Tudo mudou.
Qual o garoto que não tinha uma vintena de costis e não os armava ao taralhão, ao pisco, à felosa, até ao rouxinol, ao melro, ao tordo e ao gaio ao papa-figo e à rola. Apanhava-se de tudo e em abundância e não se notava a falta nos campos. Coelhos, perdizes, pirolises, lebres, texugos, de tudo se matava e caçava,todos os dias, de Outubro a Janeiro e sempre havia para todos.
Proibido era como hoje, mas não se notava a falta... Outros tempos...
Certa noite - entre centenas delas em que o mesmo aconteceu - saí eu, nosso sargento, quinzinho das Águas, Celestino grande, Domingos perdido, ronquinha, riconho, nosso Mário e mais não sei já quem... Íamos aos pardais para a serra a dar vistas para o canchal da nora, ali atrás da Carochinha, tudo em fila, luzes apagadas para poupar pilhas que eram caras, e Perdido, já no meio do calipal (eucaliptal) pisa um graveto seco e ouve-se uma revoada. Riconho ordena imperioso: «'Chiu, pouco tchavascal, aqui há caça grossa». E havia: eram pombos bravos. Centenas deles. E baixos, fáceis de tombar.
A lua já se tinha posto e separámo-nos em grupos o mais silenciosamente que podíamos, sempre às escuras. Ao assobio combinado acendem-se as lanternas aponta-se para os calípios (eucaliptos) e " ena pá, o que pr'aqui vai!" Foi matar até gastar as pilhas. Nunca tinha visto tanto pombo bravo morto em tão pouco tempo. Repartiu-se a carga e «toca a andar num venha por i a venatória.» Subimos até ao alto e sai-se riconho:" ena cum filha da puta, já chegamos a castelo branco!" E logo ronquinha" cale-se, sua besta, num vê qué Penamacor" «mamerda é qué Penamacor... num vês ali a avenida marechal carmona? " acode Perdido: num sejas basbaque, atão num tás a ver ali as luzes do asil?»(Lar D. Bárbara Tavares da Silva) e vou eu: «ó Tonho põe um lenço nos olhos que levo-te pela mão e quando chegares ali às pias do Barata já vês que estamos na serra. No metas é mais chavascal» A custo, lá veio sempre a praguejar e só acreditou quando chegámos à figueiras da velha Garriça e começámos a colher uns figos... Ouve-se mais barulho e, apesar das pilhas fracas ainda caíram mais uns pássaros dos pequenos. Um fartote.
Tudo crime, tudo mau, tudo escusado. Era assim.
XIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGGGGGGRANDDDDDDDDDEEE
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