quinta-feira, outubro 15, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLIII - CARRI(T)CHO

Como diria o meu amigo Zé Lameiras - que descanse - " A língua tem lá porras". E digo eu à maneira dos parodiantes: lá isso tem".
Isto não dá emprego a ninguém como no reclame invocado, mas dá gozo, e isso ninguém nos tira.
Para quem não está habituado a este linguajar, estranhará a quase impossibilidade fonética aqui ocorrida. Para quem convive com a xendrada e outros que tais, a explicação é facílima.
Linearmente, é assim: carricho vem de pequerrucho. Nem mais. É por demais vulgar que as sílabas tónicas, acentuadas graficamente ou não, sejam elementos absorventes e, a bem dizer, as sílabas circunvizinhas acabem por ficar mudas. Não falam e, como não falam, não se ouvem.
O grande linguista português, Professor Doutor Luís Filipe Lindley Cintra experimentou, com um conjunto largo de alunos seus, na Faculdade de Letras de Lisboa, gravar entrevistas a pessoas de diferente nível cultural e de diferentes regiões do país. As gravações recolhidas eram depois tratadas em laboratório e uma máquina, altamente sensível às variações sonoras, construída para o efeito, passava a escrito a faladura dos entrevistados. O resultado foi de tal modo inconclusivo que Lindley Cintra desistiu da sua pretensão e dizia que a língua portuguesa, ao contrário da italiana, por exemplo, é muito fechada e os sons não são audíveis.
Como tal a máquina, ao transpor para escrito o falado, deixava um texto de tal modo ininteligível que nem o próprio entrevistador era capaz de aí ler o original.
É mesmo. Nós falamos em nevoeiro, os italianos, esse falam ao sol. Por isso, é mesmo a língua do belo canto...
Quem alguma vez passou, ainda que ligeiramente por alguns pormenores fonéticos entende perfeitamente esta lei do menor esforço, tão frequente ela é em português.
As influências do grego são mais fortes do que se pensa e o famoso Y (que muitos aprenderam, e bem, a chamar de i grego), embora só há poucos anos tenha tido entrada oficial no alfabeto português, na verdade, há já muito que a sua influência e até utilização, eram frequentes e sentidas. Mais ainda como resultado da emigração já que a França, pode dizer-se, é uma espécie de segundo portugal na Europa e os franceses ao traduzirem-no por u, condicionam o som de pronunciação e obrigam a que se pronuncie, como se quase se assobiasse, para o distinguirem do som u, que resulta da ditongação (portuguesa, é claro) de ou. Exemplifiquemos: o som do u no fonema tu é diferente do som em ouvres.
Em português, e para abreviarmos, dizemos que o U e o I são vogais médias e que é frequente a alternância entre uma e outra.
Vamos agora ao nosso carri(t)cho: é fácil de ver que a primeira sílaba foi absorvida : o PE desapareceu porque o E é mudo e foi progressivamente absorvido pelo som forte da tónica RU. Está bem de ver que QUERRUCHO é mais difícil de dizer do que carrucho e, como o U alterna com o I, aí temos como, de repente, em vez de pequerrucho, acabamos em CARRICHO.
Tinha razão o amigo Lameiras de boa memória:"o português tem lá porras". Aí está a lei do menor esforço.
Talvez os mais famosos carrichos da xendrice, tivessem sido O Zé pequeno e o João planeta. Já nenhum deles está entre nós.
Qualquer deles era verguio e eram o exemplo vivo de que os homens não se medem aos palmos...
Vão já longe os tempos do escutismo entre os xendros. ~~
Tonho Brigadeiro conseguiu uma dinâmica muito interessante com este saudável movimento mobilizador da juventude para actividade de respeito pelo ambiente e valores sãos que nunca morrem. Zé pequeno era vizinho de brigadeiro quase ao alto da lagariça e, embora não pudesse participar nas actividades por requisições familiares, sempre que podia assistia às sessões de preparação.
Brigadeiro era um chefe exemplar e queria a rapaziada afinada:« Um escoteiro, dizia, nunca recua.» Zé pequeno tem das maiores saídas que eu algum dia ouvi: " Pois não, dá meia volta e continua sempre em frente!"
Eu tive que vir para a rua a rir e Brigadeiro, sempre sério, quis manter a malta "firme e hirta", mas a saída de Zé pequeno ecoava nos ouvidos de todos e foi obrigado a dar por concluída a sessão até ao dia seguinte, Domingo, antes de missa.

XI Grande.

6 comentários:

milhafre disse...

Havia cada artista por essas terras que eu vou-te contar!!! Mas ainda bem que não cairam no esquecimento! Em relação à informação linguística que nos deste e à qual já nos habituaste, nada há a apontar!Já reparámos que tens conhecimentos muito variados e sempre bem fundamentados! Parabéns!

Zé Morgas disse...

Tal como o "Café Central", que em quase todas as localidades existia um, rara era também a freguesia que não tinha um "João Grande" e um "Zé Pequeno".
Lembro-me de tantas vezes ter ouvido a minha avózinha dizer:
"Homem carritcho, ou velhaco ou dançarino, e sempre de saída afiada na ponta da língua"
Nunca mais esquecerei, uma célebre e grandiosa saída de Zé Pequeno, este, gravatinhas, a propósito de alguém o ter aconselhado a beber leite, depois de um dia a fazer umas queimadas e sentir algumas dores de cabeça:
- Um Hôme que é Hôme, num bebe lete, come a vaca.
Mainada.

AC disse...

Faz-me lembrar uma do T’João do Veneno, casado com uma mulherona com o dobro do seu tamanho. Conta-se que uma noite, estando eles aos beijinhos na cama, a mulher sentiu que o T’João parecia desistir e afastar-se. Indignada, perguntou:
– Atão, home, vástimbora?!
– Não m’lher, agora vou lá pra baixo!
Era mesmo «carricho» este salvadorense!

António Serrano disse...

Que bela "açorda"! Com uma sobremesa "de comer e chorar por mais". Aqui fico, cheio de apetite, talvez até dia 14...
Parabéns. Obrigado!!!

João Luis disse...

Sempre a aprender

Anónimo disse...

É sempre um prazer ler os seus novos "post's" e reler os antigos;
desde a introdução à "estória" propriamente dita!
Um espectáculo!

Um Abraço

A. Leitão