sábado, outubro 25, 2008
A NOSSA FALA - CXV - TENTEAR
quinta-feira, outubro 23, 2008
VENDIMA DO CHANGOTO
Foi maiómenos assim:
2 vindimadores armados de tesoura de podar
3 armados de navalha Palaçoulo (1 das quais motcha)
4 armados de navalhas outras (2 motchas)
1 vindimador armado só de mãos
3 só para esmagar (apresentavam os palmípedes lavados mas unhas demasiado compridas pelo que se optou por máquina separadora de engaços)
28 à hora de comPROVAR o cardápio (e a hora foi a partir das 10)
Produtividade [consumo final/produção final) inferior a 0 [zero] (para os pixotes em economia, isto significa que se consumiu mais do que se produziu)
VINDIMA 2008 QUINTA DO CHANGOTO
ORDEM DE TRABALHOS :
CARDÁPIO
(ALTERNATIVA: BRANQUINHO MADURO DO ANO PASSADO)
(A VER SE QUEM O COME O SABE CORTAR)
MAINADA
segunda-feira, setembro 29, 2008
A NOSSA FALA - CXIV - PAVIOLA
Os seus dois braços dianteiros e traseiros com aquele patamar no meio possibilitavam uma distribuição equilibrada da carga e arrumação fácil.
Outros exemplos podem ser vistos em PEDIVES por pevides, CARAPINTEIRO por carpinteiro, CRAVÃO e CRAVOEIRO por carvão e carvoeiro, pomates por tomates,... . Ao fim e ao cabo as alterações fonéticas de pouco interessavam ao povo que por não saber francês não deixou de emigrar.
Não vai asssim tão longe o tempo em que galinhas, burros e porcos conviviam com pessoas, senão dentro de casa, logo ao lado, em furdas ou furdões, currais, apriscos, redis, pocilgas ou palheiros ou pardieiros. O Chico Miguel, a Tonha Costa, o velho Valente, o Rela, o Júlio Casqueiro, O Pirolas do Zé Nicas, o Fatela, a Manta Rota, e tantos outros, todos tinham os porcos, paredes meias com a casa e as galinhas tinham o poleiro por baixo das escadas que davam acesso pelo exterior ao primeiro andar das casas. Alguns desses poleiros serviam para outras funções quando a porta e o escadéu que lhes dava acesso o permitiam. Há quem diga que a Rancheira se serviu de muitos. Outros tempos, outras modas, outras vidas e outras histórias.
Tal como a PAVIOLA, foram desaparecendo. Agora só há andores, mas esses são para santos e santas.
Os irmãos Manetas eram três - Chquim, Manel e Zéi -, tão depressa andavam bem, como, num Domingo qualquer, se zangavam e, por isso, ficaram conhecidos como os Guerrilhas. Eram todos sapateiros. Faziam mangação, cada um do trabalho dos outros e sapato, bota ou sandália feita por Zéi e que passasse pelas mãos de Chquim: "mal empregado material nas mãos deste cerdo" e o mesmo se passava com os outros.
Chquim tinha a oficina por detrás da fábrica dos Leitões, quase em frente do cruzeiro do Cavacal e a pipa do vinho estava ali mesmo à mão, que, na casa onde morava, não havia espaço e Fatinha não queria lá ver pipos nem borracheiras sem vergonha a toda a hora, para além da burrinha que comia refastelada na manjedoura e, de Inverno, servia de ar condicionado, que o estrume que ia fazendo sempre libertava algum calor.
A mulher ficava por cima e lá ia ocupando o tempo com tarefas mais domésticas.
Um dia vinha eu a passar com o inefável carrinho quadrado das bilhas do gás quando :" Ó catano, eras mesmo tu que me fazias falta! Ajuda-me ali a levar esta paviola até ao chão do Branco por mor de à tarde lá semear o alfobre da couve que já é tempo". Arrumei o carrinho e lá vou com Chquim e a paviola do esterco por uma vereda mesmo à tangente. "Bem hajas tu, cachopo... A minha já num podia com este peso e eu ao caldeiro nunca mais fazia o serviço, bem hajas! Mas agora vamos ali a boer um copinho do meu." Fomos. Ajoelhou-se em frente da pipa rodou a torneira, aparou o tinto, deu-me o copo e continuou de joelhos com o dedo a tapar o orifício da torneira. «Alevante-se...Para que está aí de joelhos» - "Cala-te, dianho, tu num vês que a bicharada rala?" Fiquei meio taranta, bebi o copo, ele o dele, depois outro, Queres Mai? que não, disse eu, rodou a torneira sempre para a frente por mor do calo e lá se levantou. Ia eu a perguntar e a resposta já saía:" tu num vês que a torneira chia e aquele fardo - era a ti Celeste - dá conta; quando vou pró caldo ao meio dia logo me assobia à orelhas que já lá fui tantas vezes... Assim só ouve uma e o bicho já num rala»
Mais uma, digo eu. Há que aproveitar e meter na paviola ou padiola. Ficai-vos com a que quiserdes, na certeza que qualquer delas já pouco funciona...
Eu servi-me dela, a maior parte das vezes para transportar calhau ou estrume. Não me importava de a voltar a usar para arredar para bem longe muito do que por aí anda- e alguns a comandar-nos. Havia de ser bonito se os agarrasse na minha PAVIOLA ...
XXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Logo volto.
segunda-feira, setembro 15, 2008
A NOSSA FALA - CXIII - PUCHEIRO
Havia também o vinho da balsa que resultava da inclinação da dorna e cuja claridade era aferida através de um rasto ou um bico velho de charrua, que se atirava para o líquido, às vezes ainda fervente: se o rasto fosse ao fundo, já estava claro, e não criava engulhos na garganta pelo que já se podia beber. O sabor a mosto era dominante mas, como não havia melhor, aquele era excelente. Fiz o meu tirocínio com o velho Comandante que, aí ao quinto dia já lhe arreava assim comédado.
Vem isto tudo a propósito das vindimas que agora estão no apogeu.
De caminho queria aproveitar para vos apresentar uma figura de xendro inigualável: de tudo sabia, de tudo dava conta e novidade que lhe caísse na orelha, passado pouco tempo estava mais torcida que uma cepa: a Chicorrela. Sempre ali pelo chafariz do batoco, tudo mirava, com todos se metia e até ia ao tribunal - banco só de homens onde a maledicência imperava e a linguagem era do mais verrinoso e viperino que imaginar se possa -. Chicorrela ou Relochica como eu lhe chamava, nada temia e desafiava qualquer um para dizer mal de quem quer que fosse. Seguia aquele velho aforisma: temos que dizer mal dos outros porque eles também dizem mal de nós .
A casa de Relochica ficava pertinho da velha casa do Barata, velho tugúrio onde se criaram nove filhos e cujo espaço seria aí duns 18 metros quadrados: subia a cama descia a mesa, subia esta
descia a primeira, a canalha dormia a monte, raparigas dum lado e garotos do outro.
Apesar do curto espaço ainda cabia, logo à entrada, um tonel de 400 l ,onde Barata guardava o vinho. Por cima estava, sempre de borco, um pucheirinho, copo único, de asa partida, que tinha que ser bebido de uma só vez, sob pena de não mais o provar.
Na perpendicular entre a casa do Barata e a de Relochica, em frente da velha Libra, morou a mãe de uma das ilustres personagens, José Antunes Ribeiro, de alcunha o Pucheiro, nunca soube porquê, e que foi alto magistrado. Chicorrela não tinha pucheiros. Ao lume estava a panelinha de ferro e havia umas gafeteiras, sempre de luto, por dentro e por fora, onde, de quando em vez, se fazia uma chicória, de borra assente com tição ardente, que servia de café. O açúcar era água de figos secos, guardada religiosamente em escoureiro bem tapado e vidrado.Nunca ninguém soube bem o que Relochica comia porque passava o dia no trequelareque do batoco a dar troco ao Chico Pedro, Manel Freitas, Augusto Estanqueiro, Zé Luís, e companhia...
Notícia que lhe caísse na língua, depressa fermentava e o que seria uma inocente lagartixa logo se tornava tiranossauro rex. Se os ilustres lorpas que gerem os nossos bancos e as empresas do PSI fossem comparados a esta nossa Relochica, pouco passariam de pigmeus face a Gulliver. E a preços muito mais módicos.
Vamos lá ver agora como derivou a palavra PUCHEIRO, nesta forma de entrada na língua que leva o nome de LEI DO MENOR ESFORÇO. Diga-se a talho de foice que, ao menos as palavras entravam e eram assimiladas; agora é uma algaraviada de siglas e de palavras emprestadas que arrepia: já ningúem diz AMA, mas baby-siter, ninguém merenda, todos lancham, ele é teen-ager, o open, o coffee break,... que sei eu!? quando se devia dizer tão só adolescente/jovem, abertura ou intervalo para café... Olhai os espanhóis: não basket, mas baloncesto, nem andebol, mas balonmano, não corner, mas saque de esquina, ...
Agora é que é: a palavra deriva do ESPICHO, já acima explicado; ora esta mesma palavra já é derivada por sufixação de PICHO (o ES vem do latim EX que significa movimento de dentro para fora, como em Ex-pulsar, por exemplo); como sabemos uma das funções do picho é essa mesmo de expulsar por jacto o líquido que está no ventre; daí a PICHORRO/A é um passo como vaso para aparar o líquido do espicho; a linguagem que diga respeito aos genitais é sempre castrada e isso parece pertencer a um inconsciente colectivo, que, um dia destes, logo vos trarei aqui, pelo que não admira que se alivie a conotação da forma mais simples - lei do menor esforço - de Pichorro derivou foneticamente por ditongação o nosso PUCHEIRO. Simples não é? Como o povo, e todos os que são competentes.
Como estamos também no início do ano lectivo, aqui vos deixo a questão: já vistes algum BOM PROFESSOR complicar o simples? Aposto que não, mas aqueles tarefeiros do ensino, que não preparam aulas nem se esforçam pelo seu brio e dos seus alunos, esses complicam... E então já nada é simples.
Para concluir e verdes que não há só cultura popular aqui vos deixo registadas as medidas internacionais e respectivos nomes para garrafas de vinho em vidro:
Nabucodonosor - 15 litros
Baltasar - 12 litros
Salmanazar - 9 litros
Galão - 7,5 litros
Matusalém - 6 litros
Garrafão - 5 litros
Jeroboão - 3 litros
Magnum- 1,5 litros
Garrafa - 0,75 litro
Púcaro - 0,5 litro
Meia garrafa -0,375 litro
Quarto de garrafa - 0,180 litro
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.
terça-feira, agosto 26, 2008
A NOSSA FALA - CXII - MISSEGRA, MISSAGRA, MISSÁGORA
segunda-feira, agosto 04, 2008
A NOSSA FALA - CXI - COSSENÃO
Chamei-lhe o REINO DO COSSENÃO
Nunca estamos sós cossenão não tínhamos para quem escrever e assim era tempo baldado este que aqui agora despendo. Um homem casa-se para não ficar sozinho e ter quem lhe coce as costas cossenão tinha que alisar as esquinas das paredes. É neste reino do cóssenão que vive o Calado que diz tudo cossenão "arrebentava" e um Calado se "arrebenta" fala. Foi por isso que um dia me disse o Calado: Dizem que disse ou tenho dito é o que se diz quando já se disse o que se tinha para dizer; ora como eu ainda não disse o que tinha para dizer não posso dizer que já disse; por isso digo e torno a dizer que tenho que dizer o que tenho para dizer cossenão este reino do cossenão não diz o que tem para dizer e deve ser dito e isso não fica bem ao Calado que tudo diz. Há outros que eu conheço que pertencem a um outro reino que é o dos Cus Aqui Estão que falam com o dito e por isso valia mais que estivessem Calados mesmo não se chamando Calados como eu que calado tenho que falar. A mim nada me acontece quando digo o que tenho para dizer porque sou Calado e assim posso dizer que disse quando já tiver dito o que tinha para dizer. Portanto aqui fica dito que disse o que era para ser dito; portanto disse ou tenho dito que é como quem diz que já disse o que disse. Disse.
1- Escrever a preto em papel branco
2- Contar contos sem os contar
3- Dizer coisas sérias a rir
4- Ser do contra quando se está a favor, só se fazer cada vez melhor
5- Ser lógico até no absurdo
6- Ter sempre à mão o que está ao pé
7-Ter sempre ao pé o que está à mão
8-Cortar no cortado
9-Bufar sem cheirar
10- Falar calado
11- Ouvir o barulho do silêncio
12- Fazer festas à bruta
13- Ser pai e filho
14- Comer sem abrir a boca
15- Fechar os olhos para ver melhor
16- Dar um passo atrás antes de avançar
17- Confessar os segredos
18- Ver o belo no horrível
19- Sentir a vida na morte
20- Ter a certeza da dúvida
Tendes que cumprir esta regras cossenão nunca entrareis neste reino do cossenão.
Pela vossa paciência vos ofereço uma poesia em prosa:
É parados que viajamos
é empinados que nos sentamos
é sem pensar que julgamos
é sem pesar que avaliamos
é a dormir que acordamos
é sem falar que escutamos
é sem ralhar que vingamos
é sem andar que vamos
é sem querer que amamos
é sem luz que apalpamos
é calçados que nos descalçamos
é a sós que nos damos
é por nada que nos entregamos
é por pouco que lutamos
é pelos outros que nos preocupamos
é pela diferença que nos igualamos
é pelo desafio que paramos
é pelo descanso que trabalhamos
é por cair que nos levantamos
é por saber que erramos
é a brincar que poetamos
Deixo-vos um Xi. Hoje não houve xendros. Logo voltam.
sábado, agosto 02, 2008
POR MOR DOS ANOS DA MINHA
Acontece que a minha Patroa nasceu no mesmo dia que um desses génios. Por mor disso, aqui vos fica o ZECA .
(é só escolher e ficar a ouvir)
sexta-feira, julho 25, 2008
A NOSSA FALA - CX - NHONHAS
Domingos governava-se com pouco. Criava na horta a maioria da alimentação e o que lhe faltava era adquirido na aldeia com parcimónia que a vida não estava - e agora ainda menos - para desmandos.
Não valia a pena contratá-lo para tarefas de campo que fossem exigentes. Apenas se podia contar com ele para a apanha da azeitona grossa -bical, cordovil e real - para conserva e para as vindimas, podas e enxertias. Tudo o mais que fosse trabalho de campo- ceifa, mondas, sachas, sementeiras, malhas, e até na construção serviço de serventia,.. - isso não valia a pena. Não pagava um copo a quem quer que fosse nem tão pouco bebia se lhe pagassem.
Dos poucos que se podem gabar de ter bebido uns copitos com ele devo ter sido eu. À sombra do pinho lá apareceram o garrafão, um tanoco de pão e uma malga com umas azeitonas divinais.
Colhia vinho para todo o ano e só quando via que a vinha já não se estragava é que vendia a quem ele muito bem entendia uns garrafões do seu néctar. Posso dizer-vos que era vinho de eleição. Os belos rufetes e arintos davam uma têmpera e um paladar típico do melhor vinho de aldeia.
Era famoso na enxertia, mas passava o dia a queixar-se das costas e se o cobridor - sabeis vós o que é um cobridor? - que normalmente era quem o contratava, não o fosse acelerando ele era o que se podia chamar um verdadeiro NHONHAS. Era artista no queixume. A ideia, está bem de ver, era fazer render o serviço. A enxertia é trabalho leve, mais de habilidade, jeito e sorte, e convinha a Domingos ir-se fazendo de nhonhas porque assim sempre enchia o fato - e se ele comia, meu deus! - e sempre facturava mais uma jorna. A verdade é que eram poucos os enxertos que lhe falhavam e rivalizava com Zé Lopes. Dizia que tinha aprendido com o velho CUCHARRA mas nunca lhe chegou aos calcanhares. Como o Cucharra ainda está para nascer quem... vai lá vai...
Vamos agora, à moda de Camilo, interromper a narrativa para nos determos numas meditações profundas sobre a flexisegurança, a mobilidade ...
O velho Comandante - aposto que já o tínheis esquecido -, o velho comandante, dizia que « um homem tanto é canho como direito - ou seja, se quem vem trabalha à direita eu abro o corte e ala, vou sempre na frente para ele ver que o facto de eu ser canho não me impede de competir com ele, seja em que serviço for. E era. O velho comandante que era canho era igualmente desenvolto à direita. Assim também eu: onde acabo começo e não há diferença no rego, gaiva, ou corte. Um artista é o que eu sou. Andai para cá.
O que eu queria saber é se o nosso Socratezinho, agora Robin dos Bosques que quer tirar aos ricos para dar ao pobres - pobre diabo - se não fosse político se safava como engenheiro. Aí é que eu gostava de ver se a mobilidade e a flexisegurança pegavam... Não tardava nada estava nos supranumerários e ia para a mobilidade à força. Era limpinho! Quem é NHONHAS é sempre NHONHAS. Tal qual Domingos Lucho. O Socratezinho é de LUXO! É um NHONHAS de Luxo. Olá se é. Ides ver como ele vai dar a volta por cima à rapaziada. E sempre vos digo que se ele limpa isto com maioria então é que tendes vós que vos deixar de nhonhas, que ele é artista, junto com o Frei tuck do Mário Lino e o JOE Pequeno do Teixeira dos Santos, mais aquela figurinha nemátoda do Pinho, ELE(S) É (SÃO) ARTISTA(S) PARA VOS FAZEREM A FOLHA. Não vos ponhais a pau que, tal como Domingos Lucho ele vai saber arrecadar e vós a pagar sem nhonhas.
sexta-feira, julho 11, 2008
A NOSSA FALA - CIX - PÔR A PITA FORA
Quer a estrutura do raciocínio quer a do linguajar popular se hão-de poder arrumar, desconfio, segundo uma matriz de categorias. Os quadros teóricos da lógica filosófica, da psicologia cognitiva e da linguística, entre outras disciplinas, haviam de ajudar a compreender a estrutura das operações lógicas mentais e discursivas que informam o raciocínio de uma pessoa cujo universo só reconhece as leis newtonianas, e nem todas, mas sobretudo, privilegia o lado prático e pragmático das coisas. Deixemos esse trabalho para outros trabalhos e fiquemo-nos pelo trabalho de campo, porque, como bem se percebe, simplicidade de raciocínio e de discurso não parece ser o forte deste linguarejar. Reconhece-se que há muito a aprender com o Ti Ambrósio e com a Ti Perpétua, como a seguir se verá.
Ti Ambrósio Patanisca e Ti Perpétua Pardala formavam um casal peculiar, um par ímpar. Físicamente, ele era alto e seco e metia os pés para dentro, ela baixa e rechonchuda e caminhava com os pés a marcar as 10 e 10. No temperamento, ele era discreto e ponderado, senhor de pensamentos lineares mas cautelosos, ela era palradora e espontânea, adepta do juízo fácil que, bastas vezes, resultavam em boato. Ti Ambrósio caía para o lado do cepticismo e da dúvida metódica, achava desnecessário tirar o chapéu quando tocava a avé-marias, bem como não via utilidade em contar a sua vida nos buracos do confessionário. Ti Perpétua tinha uma quase doentia veia religiosa, na qual misturava indistintamente a fé na Santa Igreja Apostólica Católica Romana com a fé na crendice popular mesmo na mais primária. Ti Ambrósio deu-se conta deste traço da personalidade da mulher logo na noite do casamento. Como ela se recusava a apagar a luz, ele deduziu, logicamente, que lhe estava a dar um sinal claro sobre a sua vontade em continuar com as brincadeiras que dois jovens recém casados é suposto terem na cama. Viria a descobrir, desconsolado, que afinal, ela só não se atrevia a tomar a iniciativa de apagar a luz porque, acreditava piamente, aquele que o fizesse, morreria primeiro.
Ti Ambrósio apreciava o final das tardes de Verão no jardim do Batoco onde a vida da aldeia transitava em julgado mas, por vezes, se abordavam também temas mais profundos e complexos. Naquela tarde, enquanto à mesma hora se continuavam as celebrações do solstício do Verão em Stonehenge, o Batoco discutia o derivado popular do confronto paradigmático do geocentrismo versus heliocentrismo.
Partidário do primeiro, Ti Mnel Talha Burricos agarrava-se inabalavelmente ao argumento empírico:
- Essa agora! Atão o sol no s’alevanta do lado da Espanha e no vai andando, andando, andando, até se deitar do lado do Fundão?
- E à hora da comida está sempre ali em cima de Aldeia de João Pires, no falha – junta-se Ti Fcisco Furdas.
O Senhor António, que ganhara o direito a tratamento deferente por via da sua condição social de descendente de família mais abastada e por ter dedicado mais tempo à caneta do que à enxada, não perdeu a oportunidade de afirmação que a ocasião e o tema lhe proporcionava. Pedagogicamente, tratou de abrir a mente dos companheiros de vara para as certezas científicas da astronomia e da física, conjugando com a denúncia dos falsos juízos induzidos pelo recurso apenas aos sentidos, rematando:
- O facto de se ver o sol a andar no céu ao longo do dia, não quer dizer que ele anda à volta da terra. Isso era o que os antigos pensavam porque era essa a sua percepção, era isso que eles viam.
Ti Ambrósio ouvira com atenção. E, sem nunca ter lido ou sequer ouvido falar de Wittgenstein, surpreendeu o improvisado professor:
- Ó Senhor Antonho, atão se os antigos diziam que o sol é que andava à volta da terra porque era isso que eles viam, atão o que é que nós vemos agora, se afinal é a terra que anda à volta do sol?
À mesma hora, no batorel da casa da Ti Perpétua, a que se juntara uma dúzia de vizinhas da rua da Lagariça, o tema era mais terreno, partilhando todas o esforço de consolar a dor da Ti Amélia Refa, que tinha enterrado o homem trêsantontem. Cada uma à sua maneira, emprestavam à prostrada viúva a sua solidariedade incondicional. Ti Perpétua, na sua vez, exibiu a sua faceta mais positiva quando colocou a sua mão sobre a da outra e lhe disse, com voz chorosa:
- Deixa lá Amélia, isto é só desgraças. Olha, a ti morreu-te o homem, a mim, foi-me a pita a pôr fora.
sábado, junho 28, 2008
A NOSSA FALA - CVIII - CHARRONCO/A
sexta-feira, maio 09, 2008
A NOSSA FALA - CVII - ESCADABULHAR
sábado, abril 05, 2008
A NOSSA FALA CVI - RANCOLHO
O mundo, ou melhor, a economia mundial anda rancolha desde que o Jorge, sobrinho do Tio Sam, se atirou a bombardear o património histórico da Mesopotâmia, só para fazer disparar o preço do barril de crude e nos desequilibrar o orçamento caseiro; o país anda rancolho até na oposição; o tempo anda bera e faz com que as batatas do cedo fiquem rancolhas e não medrem, que as barrocas não corram e não se possa ceifar uma saladinha maruja.
Para ajugar à festa, o Karraio e o Changoto andam rancolhos de ideias (eles defendem-se com a falta de tempo, os gajos…). Rais parta tanta rancolhisse.
Isto, só para lembrar que o Baságueda faz hoje 3 anitos.
quinta-feira, março 06, 2008
A NOSSA FALA - CV - BÔ(T)CHA / 0
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
A NOSSA FALA CIV - CHORADELA DE ENTRUDO
Uma, remete para a era AC, durante a qual, fosse entre os Celtas, os Celtiberos, os Gregos ou os Romanos, as festividades representariam a celebração do (re)início da vida, o fim do Inverno e a “ressureição” da Mãe Natureza. Em termos simples, o anúncio de que a Primavera estaria próxima. Uma antecipação às andorinhas e ao “dácáocú” do cuco, pois.
A outra “entrada” foi aberta pelos sábios teólogos apostólicos romanos – na era DC, evidentemente - na sequência dos ditos e feitos do Cristo, os quais determinaram que o Entrudo passasse a marcar o início (a entrada) de outra coisa. Chamaram-lhe os sábios teólogos, Quaresma, um período abstinencial que culminaria não já na “ressureição” da Mãe Natureza mas do próprio JC.
Em qualquer dos casos, aceitava-se que a “entrada” devia estar associada a liberdade e ser comemorada em festa, e que a festa devia ser de arromba, sendo socialmente tolerado o abuso. O povo aproveitava a trégua para satirizar o clero e a nobreza, para troçar dos costumes e da moral vigente, para dar largas a pulsões primárias. À cautela, fazia tudo isso sem mostrar a cara, escondida por uma máscara, não fossem os poderosos ficar melindrados com a mordacidade da crítica e mostrarem ao povo que continuavam poderosos no dia seguinte. A ideia evoluiu para variados formatos e alvos: os poderosos foram substituídos pelos pares da comunidade, o que, convenhamos, era muito menos perigoso e reconhecidamente mais cómico. Também era mais purificador por via da purga que conseguia operar através da denúncia e exposição pública de certas situações que ocorreram ao longo do ano e respectivos protagonistas.
Um desses formatos, antigamente utilizado na terra dos Xendros adoptou a designação de Choradela de Entrudo, e funcionava como catarse da própria comunidade. Por estes dias, João Frêtas, Miguelito e companhia, percorriam as ruas da Aldeia a exibir ostensivamente exemplares da revista Gina e acabavam no Adro ou na Lameira a dramatizar as situações caricatas e a satirizar os protagonistas, para gáudio dos conterrâneos, excepto, claro, dos visados.
Muitas das histórias contadas aqui no Baságueda são dignas de choradelas de Entrudo, como as que se relataram aqui e aqui . Acrescentam-se mais duas ao rol, para eventual encenação:
1. O ano era de seca e Ti Fcisco Cocharra viu esgotar-se a água do poço, ainda os tomates e os pimentos estavam verdes. Ele bem procurou gerir o precioso líquido, regando quase de noite, e adoptando a técnica localizada com o regador em vez do encaminhamento nos regos. Determinado a fazer horta farta como nos demais anos, decidiu-se por recorrer à água da rede, mesmo que tivesse de a transportar desde a sua casa no povo. Davam as 4 no relógio da torre da Igreja, ajeitou o cabresto e a rédea no burro, assentou-lhe o bornil e a canga e colocou-o entre os varais da carroça. Atou bem os dois bidões de latão aos fogueiros, encheu-os com água a partir da torneira, e iniciou a primeira de muitas viagens entre a aldeia e a sua horta. Pouco se importou que os vizinhos, estremunhados, tivessem vindo à janela a recriminá-lo por causa do barulho que as rodas de ferro faziam a rolar na calçada.
Ao fim do dia, já ele tinha meio metro de água no poço.
2. O jeito para o negócio estava no sangue ao Ti Zé Labouxa. Negociava em tudo, desde porcos a batatas, de ferro-velho a cortiça. Sempre atento às oportunidades, fazia questão de não perder uma. Estava ele a beber o alboroque da venda de uma mula quando se sentiu atraído pela conversa que, ao lado, mantinham Zé Luís Barata e Mnel Frêtas, dois exímios da aldrabice, uma arte que haviam de apurar com o tempo. Confidenciava o primeiro ao segundo que um espanhol lhe tinha oferecido 5 contos por cada quilo de cascas de alho que lhe arranjasse. Parece que o espanhol as queria para remédios, mas tinha de ser depressa e ele, rais parta a sorte, não podia alinhar no negócio porque tinha de ir a Lisboa a casar um sobrinho. 5 contos era dinheiro, naqueles anos 60, e o Labouxa não hesitou em ficar com o negócio do outro. Consta que andou dias a arrebanhar forros onde havia alhos armazenados, chegou até a comprá-los só para lhes tirar a casca.
Bons entrudos.
terça-feira, janeiro 15, 2008
A NOSSA FALA CIII - MO(T)CHA
domingo, janeiro 13, 2008
MATANÇA
ACTA
Almoço farto, com meloreja, osso da suã, caldo com muito entulho, azeitonas retalhadas, queijo fresco e curado, inté pudim.
Ouviram-se as falas do costume na circunstância: banca, carchanolas, chambaril, faceira, morcela da banca, passarinha, seventre, sovina de esteva, xica...
quinta-feira, janeiro 03, 2008
Fumar ou não fumar
Eis o tempo em que fumar afecta a virilidade masculina.
É um masculino fumador (embora pouco) que vo-lo lembra.

Imagem rapinada do Jumento
sábado, dezembro 22, 2007
PRENDA PARA O MENINO JESUS
Agora, é o Pai Natal, velhote moderno, endinheirado e mãos largas que fez uma reengenharia no sistema de entregas de prendas - e também no armazém, substituindo o stock de meias e chocolates por telemóveis, gameboy's ou PSP's - e que, apesar de continuar a descer pela chaminé, passou a deixar as prendinhas devidamente embrulhadas em papel colorido e fitinha a condizer, junto a um piscante(!) pinheiro artificial com uma estrela no cruito.
Apesar das sessões de esclarecimento que o Karraiozito tem vindo, provocadoramente, a fazer junto da Karraiazinha, ela mantém-se inabalável na sua crença no velhinho das barbas brancas e fato vermelho. De tal modo que até manifestou uma sincera vontade de lhe oferecer uma prenda, por achar injusto que ele venha de tão longe encher os sapatinhos de todos os meninos e que nenhum menino lhe retribua a simpatia.
Nunca me tinha lembrado desta!
Comprometi-me a tratar do assunto e, como o que conta é a intenção, escolhi oferecer-lhe uma música. De Natal, claro, seguramente, uma das mais bonitas músicas de Natal que já se escreveram:
domingo, dezembro 09, 2007
A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
quarta-feira, novembro 28, 2007
A NOSSA FALA - CI - CANALHA

Em recente visita ao vizinho distrito da Guarda, o nosso PR manifestou-se preocupado com o despovoamento do interior tendo proferido autênticas pérolas de senso comum misturado com politicamente correcto. Eis algumas que retirei dos jornais:
(Eu acho que devemos orgulhar-nos deste brilhantismo dedutivo do nosso Presidente)
"(…)muito preocupado por Portugal ser um dos países da Europa onde cada mulher tem menos filhos".
(Andam a falhar as mulheres portuguesas…)
“Por que é que nascem tão poucas crianças?
(Bolas! A essa não sei responder)
O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?”
(Só perguntas difíceis, hoje. Hesito entre espreitar e copiar…Lá vou ter de admitir que sei menos do que um miúdo de 10 anos…)
"Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo".
(Pelos outros portugueses não posso falar, cada um que se manifeste. Para que conste, declaro solenemente que eu, português, mantenho o meu entusiasmo).
"É preciso alterar esta situação (…) não é apenas uma responsabilidade do Governo, da Assembleia da República, é de todos".
(O Senhor Presidente, por acaso, não está a sugerir aquilo que eu estou a pensar, pois não?, É que essa do todos, sinceramente, acho um bocado debochada…)
Agora (um pouquinho mais) a sério:
Fica bem ao Senhor Presidente manifestar-se ralado com a falta de canalha nas nossas aldeias ou, como ele lhe chama, com o despovoamento do interior. Eu entendo que ele devia até manifestar-se mais vezes incomodado com esse problema. Aliás, eu até acho que ele se deveria ter preocupado com a questão, e muito a sério, na década que foi de
É claro que o mesmo é válido para os que lhe antecederam como PM e os que se lhe seguiram, porque esses também entram no rol dos responsáveis. Não foi agora que os homens e as mulheres do interior começaram a padecer de uma disfunção sexual colectiva. (A propósito, ou talvez não tenha nada a ver, o Mário Zambujal, em "À noite logo se vê" já glosava com o tema: "No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu nenhuma criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral". Estou capaz de o reler.) A raiz do problema está funda, nas sucessivas políticas concebidas em Lisboa e tomando como referência apenas Lisboa, para onde se reservaram sempre os melhores investimentos públicos. Foi à conta deles que sucessivas vagas da melhor mão de obra e da melhor força reprodutora do interior se transferiu do interior para a capital da Nação. Ainda está por fazer o estudo que calcule quanto é que Lisboa deve ao resto do país, sobretudo ao interior.
O grave da situação é que aquilo que parece ser sinónimo de progresso tem um reverso, do ponto de vista económico, e também social e ambiental. Pense-se nos efeitos do crescimento desmesurado e caótico da capital e nos efeitos que isso acarretou, e continuará, em termos de qualidade de vida (trânsito, insegurança, poluição, etc.) Mas a elite governante insiste. Provavelmente porque é na capital que estão os interesses maiores.
Ah! e os eleitores. Também é lá que se concentram os eleitores.
A canalha, essa vai escasseando nas aldeias. E que belas eram as aldeias coloridas com o riso autêntico da canalha...
