sábado, dezembro 22, 2007

PRENDA PARA O MENINO JESUS

Antigamente era o Menino Jesus que trazia as prendas. A canalha deixava o sapatinho estrategicamente junto da lareira na esperança que para além do habitual par de meias embrulhado numa folha da lista telefónica, ele lá deixasse também um chocolate. Raramente tal acontecia, naquele tempo. O Menino Jesus, se calhar, era a Eterna Criança Pessoana: um pobretanas como todos os outros meninos da aldeia, que limpava o nariz com o braço, que atirava pedras aos burros e que até gostava de ir à marouva.

Agora, é o Pai Natal, velhote moderno, endinheirado e mãos largas que fez uma reengenharia no sistema de entregas de prendas - e também no armazém, substituindo o stock de meias e chocolates por telemóveis, gameboy's ou PSP's - e que, apesar de continuar a descer pela chaminé, passou a deixar as prendinhas devidamente embrulhadas em papel colorido e fitinha a condizer, junto a um piscante(!) pinheiro artificial com uma estrela no cruito.

Apesar das sessões de esclarecimento que o Karraiozito tem vindo, provocadoramente, a fazer junto da Karraiazinha, ela mantém-se inabalável na sua crença no velhinho das barbas brancas e fato vermelho. De tal modo que até manifestou uma sincera vontade de lhe oferecer uma prenda, por achar injusto que ele venha de tão longe encher os sapatinhos de todos os meninos e que nenhum menino lhe retribua a simpatia.
Nunca me tinha lembrado desta!
Comprometi-me a tratar do assunto e, como o que conta é a intenção, escolhi oferecer-lhe uma música. De Natal, claro, seguramente, uma das mais bonitas músicas de Natal que já se escreveram:

domingo, dezembro 09, 2007

A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA

A mobília das tradicionais casas de aldeia resumia-se a pouco: três ou quatro tropessos de cortiça, umas trempes, umas cadeias suspensas do tecto, na qual se pendurava, tanto o caldeiro para a vianda do porco, como a indispensável panela de ferro, quando o lume com ala a fazia ferver mais depressa, já que lhe apanhava o fundo do bojo na totalidade e que ,depois de estar a ferver, era posta dum dos lados do lume na pedra do lar para manter a fervura; do outro lado, estava sempre outra panela- esta podia já não ser de ferro - onde havia sempre água quente que tanto dava para botar no caldo se estivesse basto, como no caldeiro da vianda, como no alguidar para lavar o barranhão e o talher usado ; ainda uma mesinha baixa, com uma gavetinha, onde se guardava o conduto para o pão, geralmente pendurado numa bolsa de pano cru dum prego da tabique (taipas) de ripa, forrado a papel de jornal, colado com massa de farinha ou farelo e, claro, o cântaro de barro - o asado - com a sua tampinha e o copo de alumínio, de borco na pia da tampa; algumas casas tinham um fogão a petróleo e muito poucas apresentavam um fogão eléctrico ou a gás de dois bicos sem forno. Raríssimas as que tinham fogão a lenha, em ferro fundido, e ainda menos as que dispunham de fogão alto de quatro bocas e forno. Na parede lateral à pedra do lar, num suporte de madeira com uma "étagère", uma candeia a petróleo- poucas vi já a azeite - com um registo que deixava sempre a torcida rente ao bocal e, claro, o canto da lenha -a PIORNEIRA - e a pieira para deitar a cinza e os dentes de leite dos garotos quando caíam, que, para além de manter ambiente quente, depois do lume apagado, era fertilizante indispensável nas leiras dos alhos e das favas. Era também da cozinha que, não raro, começavam as escadas que davam acesso ao forro onde se conservavam as batatas, as restes das cebolas, os cabos dos alhos, alguma bolsa com feijão grande e pequeno e mais uns alguidares de barro ou esmalte só usados em dia de matança e pouco mais. Era por baixo destas escadas que estava a cantareira com os pratos de alumínio ou esmalte e alguns tachos e panelas, pouco usados, uns e outras, já que o prato era colectivo - o barranhão.
O quarto tinha uma camita, quase sempre estreita para dois, com uma enxerga de palha de colmo ou milho. Lençóis eram pouco usados: antes se usavam uns cobertores finos que, depois eram completados por cobertores de papa e encimados por manta de ourelos ou de trapos ou de fita como também eram chamadas. No inverno, cama que se prezasse, havia de ter para aí uns cinco Kilos de roupa nas frias invernadas em que o vento perpassava a telha vã e encarquilhava as orelhas a descoberto fora das mantas.
A sala, quando existia, limitava-se a uma mesa e seis cadeiras a condizer, um aparador com cristaleira, onde estava a loiça dos dias de festa, chegando-se a passar anos sem ser usada. Nas paredes, uns quadros do Sagrado Coração de Jesus e/ou de Maria, a última ceia e o orago ou outro santo ou santa, trazido de alguma excursão. E assim se vivia. Lá se nascia e morria.
No pós guerra civil de Espanha -1936/39- o contrabando teve um incremento incrível e havia quem vivesse dessa economia paralela. Não era raro que os contrabandistas de aldeia fossem convidados a ir a Espanha à festa do S. Brás, padroeiro de Valverde del Fresno, e que os compradores e vendedores espanhóis, de alpergatas, meias grossas, gorras, pana, isqueiros, colchas e camillas,..., viessem também à aldeia quer pelas matanças, nesta altura do ano, quer no sr. S. Bartlameu , a 24 de Agosto...
Ora aconteceu que um espanhol veio para uma matança no Zé Aranhiço, ali ao cimo da lagariça e chegou no dia anterior, que a matança é cedo e a meloreja é coisa que não se pode perder. Dormiria na loja numa tarimba arranjada ad hoc mas já jantou com a família à roda da lareira a comer do barranhão como se impunha. Calhou a ficar do lado da lenha que era também o lado do cântaro da água - o asado -. Na casa do Aranhiço já havia petromax - luxo raro - mas a noite estava fria e o lume precisava de lenha para atear o toco que estava de cabeceira e servia de encosto aos paus mais pequenos que aqueciam o ambiente com a labareda: "mete lenha, espanhol dum corno", dizia o Aranhiço, "mete lenha, corno negro, tu num vês o lume a apagar-se"?... o espanhol tardou a entender que era a ele, que estava mais perto da lenha, que competia manter o ambiente quente e, as vezes que lhe chamaram de CORNO, passaram sem conto. Para cúmulo, a ti Alice tinha cozido feijão grande para a ceia, por mor de fazer o caldo da matança no outro dia de manhã com umas folhas de couve esfarrapadas, uns bagotes de massa manga de capote da grossa, onde, para adubo, se cozeriam também, a bexiga do porco do ano anterior e mais uns nacos de toucinho do alto. Os feijões estavam a saber a sal e a carne que os acompanhava tinha o mesmo forro de sal, pelo que o espanhol teve sede.
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
Levantou-se então o espanhol para beber e:"oh, filho dum corno, dá-me água tamém a mim", "eu tamém quero" «e eu»... entretanto, os feijões iam descendo no barranhão enquanto o espanhol enchia o copo e servia a família de água... Quando se sentou, apanhou já o fundo alguidar e contentou-se com a cebola picada.
Quando regressou a Espanha, depois, aí sim, de ter comido à tromba estendida na matança, dizia para os de Valverde e de Eljas:« Mira! se fores a Portugal, nunca te pongas del lado del agua ni del piorno, sino te llamaran hijo dum corno».
Nunca o espanhol também tinha comido broa e dessa gostou: «pero se te deren broa, prueva-la que es boa.»
Outro tipo de contrabando este, da comezaina e da cultura típicas portuguesas.
Ficai-vos com um XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII
P.S. - Se por aí houver alguma matança, deixai recado.

quarta-feira, novembro 28, 2007

A NOSSA FALA - CI - CANALHA


Em recente visita ao vizinho distrito da Guarda, o nosso PR manifestou-se preocupado com o despovoamento do interior tendo proferido autênticas pérolas de senso comum misturado com politicamente correcto. Eis algumas que retirei dos jornais:

"O número das crianças que nascem em cada ano é inferior ao número de portugueses que morre em cada ano. E, porque morrem mais do que nascem, em cada ano, há cada vez menos portugueses".
(Eu acho que devemos orgulhar-nos deste brilhantismo dedutivo do nosso Presidente)

"(…)muito preocupado por Portugal ser um dos países da Europa onde cada mulher tem menos filhos".
(Andam a falhar as mulheres portuguesas…)

“Por que é que nascem tão poucas crianças?
(Bolas! A essa não sei responder)

O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?”
(Só perguntas difíceis, hoje. Hesito entre espreitar e copiar…Lá vou ter de admitir que sei menos do que um miúdo de 10 anos…)

"Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo".
(Pelos outros portugueses não posso falar, cada um que se manifeste. Para que conste, declaro solenemente que eu, português, mantenho o meu entusiasmo).

"É preciso alterar esta situação (…) não é apenas uma responsabilidade do Governo, da Assembleia da República, é de todos".
(O Senhor Presidente, por acaso, não está a sugerir aquilo que eu estou a pensar, pois não?, É que essa do todos, sinceramente, acho um bocado debochada…)

Agora (um pouquinho mais) a sério:

Fica bem ao Senhor Presidente manifestar-se ralado com a falta de canalha nas nossas aldeias ou, como ele lhe chama, com o despovoamento do interior. Eu entendo que ele devia até manifestar-se mais vezes incomodado com esse problema. Aliás, eu até acho que ele se deveria ter preocupado com a questão, e muito a sério, na década que foi de 1985 a 1995.

É claro que o mesmo é válido para os que lhe antecederam como PM e os que se lhe seguiram, porque esses também entram no rol dos responsáveis. Não foi agora que os homens e as mulheres do interior começaram a padecer de uma disfunção sexual colectiva. (A propósito, ou talvez não tenha nada a ver, o Mário Zambujal, em "À noite logo se vê" já glosava com o tema: "No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu nenhuma criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral". Estou capaz de o reler.) A raiz do problema está funda, nas sucessivas políticas concebidas em Lisboa e tomando como referência apenas Lisboa, para onde se reservaram sempre os melhores investimentos públicos. Foi à conta deles que sucessivas vagas da melhor mão de obra e da melhor força reprodutora do interior se transferiu do interior para a capital da Nação. Ainda está por fazer o estudo que calcule quanto é que Lisboa deve ao resto do país, sobretudo ao interior.

O grave da situação é que aquilo que parece ser sinónimo de progresso tem um reverso, do ponto de vista económico, e também social e ambiental. Pense-se nos efeitos do crescimento desmesurado e caótico da capital e nos efeitos que isso acarretou, e continuará, em termos de qualidade de vida (trânsito, insegurança, poluição, etc.) Mas a elite governante insiste. Provavelmente porque é na capital que estão os interesses maiores.

Ah! e os eleitores. Também é lá que se concentram os eleitores.

A canalha, essa vai escasseando nas aldeias. E que belas eram as aldeias coloridas com o riso autêntico da canalha...

sexta-feira, novembro 16, 2007

A NOSSA FALA - C - AVESSEIRO

Ou eu leio mal a realidade ou isto anda mesmo às avessas.

Todos os dias ouvimos que fábricas faliram, mais uns quantos desempregados e os comandantes a dizer que criaram 60.000 postos de trabalho! organizações internacionais deixam claro que é em Portugal que o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e os chefes dizem conceder um subsídio de fralda aos casais com mais de três filhos mediante o preenchimento de um sem número de papéis ... representa um grande esforço económico mas é assim que se reduz o fosso! dizem que querem fixar as pessoas no interior, cada vez mais desertificado, quer em gente, quer em florestas e cultivos e que vemos? fecham escolas, centros de saúde, reduzem-se os meios de comunicação...; os bancos apresentam lucros chorudos e os juros nunca descem nem tão pouco se mantêm; as petrolíferas mal se fala no aumento do crude já estão a aumentar o preço do combustível e as mais valias são as sabidas; as empresas de Telecomunicações comem-se umas às outras em publicidade caríssima mas não reduzem o preço das nossas chamadinhas; as finanças autorizam a justiça a adquirir nem sei quantas viaturas topo de gama; as Estradas de Portugal em rota de falência são premiadas com um contrato de 75 anos para composturas de vias.... Fazem-me lembrar um texto de Guerra Junqueiro a propósito do Marquês de Pombal que aqui vou citar de cor, admitindo alguma impropriedade que o Guerra me desculpará: «O próprio Pombal é o desejado? Não. Dum deserto quis fazer um jardim... Como? Plantando traves: regou-as com sangue e adubou-as com mortos»;
Num país em que quase só vemos agricultores de alcatrão em grandes jeeps pagos com a subsídiocultura que é uma vergonha descarada: compensa-se a extensão que é dos que já têm muito e despreza-se a produção e bom tratamento dos terrenos para além de dificultarem o acesso deslocando os serviços para locais distantes dos centros urbanos...; vemos os técnicos nos gabinetes e o mais a esmorecer... enfim...isto anda às avessas ou sou eu que vejo mal a realidade.
Quando era pequeno fui mandado a guardar um único borrego:"vais para o chão do caminho das águas e guardas o borrego no avesseiro a ver se ainda rapa algum verde". E pronto, lá fui e deixei corda larga ao animal na baixa contra o sol (portanto avesseiro), à sombra, onde algumas poucas ervas ainda tentavam a viçosidade, resistindo aos calores que começavam a apertar. O borrego era um merino, cabelo (lã) encaracolado, manso como a terra, e ainda algumas vezes me montei nele e ia às corrichas; ia comigo para onde eu fosse e quando o deixava na casa da Leitoa os MÉS ouviam-se longe protestando contra a falta de companhia.
Foi às avessas também que levei uma solha, estampilha, espapada, lamparina ou bolachada, porque logo à primeira vez quando o borrego se deitou a acarrar, ao pé do barroco onde eu estava sentado à sombra da velha azinheira, eu, lembrando-me que coiote pete, varinha de arado, filho do chico mainovo, jolim da pata branca, contramestre, moisés pitincouro, velho jonja, nosso cabo, tonho cagarela e outros se divertiam na Lameira ao pontapé NA MINHA BOLA, eu, disse cá para mim, mas alto para o borrego ouvir:" oh! mê cabrão, atão já no queres comer mais? Já rapaste o avesseiro todo? Eu bem que achei que o animal tinha comido depressa demais mas sempre o puxei outra vez para a baixa e ele nada! E pensei: "se não queres comer vais para o palheiro e é já"!
Agarrei em mim e no borrego pela corda e numa corrida cheguei ao povo, ia a meter o borrego quando o meu pai me brada: "olha a pressa que tens! atão o borrego nem teve tempo de comer comédado e tu já vens de volta?" E eu: «ele deitou-se à sombra...» A lamparina caiu-me nas bitráculas:" atão tu no sabes que estes animais acarram?" Fiquei a olhar como um basbaque... "Poi, estes animais comem e remoem e depois tornam a comer... Toca pró avesseiro outra vez!" Lá se me foi a bola. Às avessas também eu fiquei a saber que o borrego era um pequeno ruminante. Era assim muita da aprendizagem antigamente. Aquilo a que muitos chamam o curso de pontapé no cu. Às avessas também vos digo que este curso se sobrepõe a muitos formais... em muitas circunstâncias.
Ao ritmo a que isto anda estou em crer que qualquer dia estamos como aquela mãe vaidosa que num dia de Juramento de bandeira só tinha olhos para o seu Mnel, ali aprumado no centro da parada... Quando é dada a ordem para marchar: "olher além, mulheres, o mê Mnel, no meio destes todos é o único que leva o passo certo." Mainada.

ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais.
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

domingo, novembro 11, 2007

A NOSSA FALA - XCIX - P'CHORRA



A Mangedoura é o nome de uma adega de tecto baixo atravessado por caibros de pinho e chão de gravilha que alberga um velho pipo de carvalho que acode pelo nome de Patriarca. Com capacidade para engolir 5oo litros, o Patriarca é obra de tanoeiro experiente que se esmerou na preparação e montagem das aduelas firmemente ligadas por arcos de metal. O Patriarca é a testemunha estática de uma fadistice anual que o pretexto da vindima ou da sua confirmação pelo S. Martinho, proporciona. Habitualmente, o vinho escorre do Patriarca de uma grossa torneira de pau que se tem de abrir obrigatoriamente sempre no sentido dos ponteiros do relógio, para uma p(i)(t)chorra de barro e depois distribuído por pequenos copos de vidro. Há sempre algo de cerimonioso na hora de levar o copinho aos lábios: mira-se a cor do líquido em contra-luz, cheira-se longamente, tecem-se comentários sobre as suas características e qualidades, elencam-se os acompanhamentos ideais, enfim, faz-se do acto de beber vinho, um momento muito especial.

Neste contexto, os temas habitualmente recorrentes são relegados para secundários, como a política, o futebol ou a religião. A mangedoura é feudo do fado e do vinho, ali, o fado é qu'induca, o vinho é qu'instroi. Há que estar à altura. Daí a minha preocupação nalguma preparação prévia e, como todos sabemos, para tal desiderato, a net é um universo. Procurava eu umas coisitas sobre vinhos e vou dar com uns números interessantes sobre o consumo do dionisíaco nectar no mundo. Sem me deter em detalhes e explicações de conceitos e números, apenas para que vós tenhais uma ideia, sempre vos mostro alguns quadros construídos a partir de outros, constantes de um documento da Food and Agriculture Organization of the United Nations - 2003 (fonte fidedigna, pois):

Consumo de vinho:
1. Luxemburgo
2. França
3. Portugal
4. Itália
5. Croácia

Não posso deixar de salientar o honroso 3º lugar. Mas, não posso deixar de salientar igualmente que na França vive um milhão de Portugueses, e que uns bons milhares vivem no pequeno Luxemburgo. Ou seja, os primeiros dois lugares têm a nossa ajudinha.

Já agora, também vos mostro o podium dos países bebedores de cerveja:
1. República Checa
2. Irlanda
3. Suazilândia

Sim, Suazilândia, era o que lá estava, só depois é que vinham Alemães, Austríacos, Ingleses, Australianos e outros que têm a mania que bebem muita cerveja. Portugal? O nosso campeonato é o do vinho, não é este. Digamos que, nos que nos diz respeito, o vinho está para o futebol, como a cerveja para o rugby.

Sem grande interesse para nós, eis o podium dos bebedores de bebidas espirituosas:
1. Moldávia
2. Reunião
3. Rússia

Claro que a nossa melhor expressão facial de admiração vai para os reunioneses...
Também gostaria de pedir o vosso esgar levemente sorridente para o Irão. Parece que neste país o consumo de álcool é ZERO. Pois! Se a esta estatística juntarmos a que assegura - pelo menos na análise do senhor presidente -, que tão pouco lá existem homosexuais, temos que a antiga Pérsia continua a ser um país cuja evolução convém seguir com muita atenção.

Bom, mas voltemos ao vinho. Aproveitando a maré, naveguei até ao nosso INE para ficar a saber como vai o consumo de produto da uva e do trabalho do homem, em Portugal. Eis os números oficiais do consumo humano de vinho per capita (litros/habitante):

1992 / 1993 - 60,9
1993 / 1994 - 58,8
1994 / 1995 - 58
1995 / 1996 - 57,3
1996 / 1997 - 54,8
1997 / 1998 - 50,8
1998 / 1999 - 50,6
1999 / 2000 - 46
2000 / 2001 - 47
2001 / 2002 - 46,4
2002 / 2003 - 52,9
2003 / 2004 - 48,9
2004 / 2005 - 48,7
2005 / 2006 - 47,7

Consumo humano de vinho per capita (l/ hab.) - Anual; INE, Balanços de Aprovisionamento de Produtos Vegetais
Ano Campanha (1 de Setembro do ano n a 31 de Agosto do ano n+1)

É notória a quebra. Ela reflecte a tendência associada às modificações estruturais nos estilos de vida, ao comportamento dos consumidores, ao papel do vinho na alimentação, etc. Ainda assim, convém salientar que o vinho continua a ser, defendem conceituados entendidos, a mais benéfica das bebidas alcoólicas. Bem como continua a ser o melhor parceiro para o fado. Ora, como o fado é qu'induca e o vinho é qu'instrói, já se está a ver que dificilmente sairemos do podium. Agarrai então na p'tchorra, enchei, distribuí pelos amigos, sentai-vos num ”môtcho” e, ”buêi” e ”aldeagai” a gosto.

quarta-feira, outubro 31, 2007

A NOSSA FALA - XCVIII - MÔTCHO



Nesta altura, a agenda da nossa cultura marca que devemos lembrar-nos dos mortos – o Sr Prior será mais polido e preferirá sempre dizer: “os que já partiram” ou “ aqueles que já foram chamados”. Seja como for, estamos a falar desse inelutável e irreversível fenómeno que é a morte. Parece que foi Bento, o Santo, não o XVI, que se lembrou de “catolicizar” uma prática ancestral pagã crente na imortalidade da alma.

Aqui se presta homenagem “in memoriam”. À nossa maneira, mas sempre “in memoriam”.

Por toda a aldeia, da Portela à Lameira da Pinta, do Carregal à Saramaga, se ouviu o sino entoar 4 vezes a mesma batida sincopada: tinha morrido um homem da aldeia. Se fossem 3, era sinal que tinha sido uma mulher. Um código simples, uma espécie de requiem, conhecido de todos. A notícia espalhou-se com o vento, como era habitual: tinha morrido o Ti Tonho Zéi mataburros – assim alcunhado por via de episódio em que ele teria dado cabo de um jerico com uma machada na testa, por o animal insistir em cheirar o cú da burranca do velho João Dez Réis, com quem ele não se dava. Depois de lavado, vestido e preparado pelas filhas, o corpo foi velado na Igreja, durante toda a noite, pela comunidade, que acompanhava as rezas com fé e o choro carpideiro da família. Toda a gente anuía que Tonho Zéi tinha sido bom homem, nunca fizera mal a ninguém – o episódio do jerico, naturalmente, não contava. No dia seguinte, reuniu-se a aldeia para a cerimónia religiosa fúnebre e acompanhamento do defunto à sua última morada.

Naquele tempo, ainda se não usavam os caixões de madeira rendilhados com fios de metal dourado para cada falecido. O defunto era enrolado numa manta de felpa e assim depositado na sepultura. No transporte desde a Igreja até ao cemitério era utilizada uma caixa de pinho, adornada apenas com um crucifixo e 4 pegas de ferro pintado a negro, onde outros tantos homens pegavam. Ao lado, ia sempre um garoto com um môtcho que servia para suportar a caixa enquanto os homens descansavam. O acompanhamento religioso incluía, para além, evidentemente, do Senhor Prior, do sacristão que transportava a caldeirinha da água benta e dos andores da Confraria – com as lanternas, bandeira e estandarte -, a campainha que trinava ao longo do percurso. Havia sempre uma catrefada de garotos a disputá-la, sendo o bafejado designado pelo sacristão. O pequeno Alberto Faznada sentia-se injustiçado porque os outros nunca o deixavam tocar a sineta. No funeral do Ti Tonho Zéi lá ia ele no meio de 20 garotos empenhado em ter o direito, ao menos um bocadinho, de abanar os 3 barulhentos badalitos. Nada! Os matulões do costume atiravam-lhe olhares agressivos e negavam-lhe tamanha glória. Já à entrada do cemitério, furioso, havia de lançar aos outros a terrível ameaça:

- No me dêxandeis tocar a sineta? Andar filhos do diabo que q’ando morrer o mê pai hei-de a tocar eu sozinho o tempo todo.

Foi sobretudo a partir da década de 60 que a nossa cultura começou a matar a morte. De algo que era vivido em público, principalmente no meio rural – e Portugal era quase todo meio rural - em que a dor era comungada e sentida pela comunidade, o fenómeno passou a ocultar-se, a privatizar-se, a modernizar-se no sentido urbano. Observe-se um funeral numa cidade, ainda que de média dimensão, nos dias que correm. A cerimónia pode passar perfeitamente despercebida na confusão do trânsito ao pacato transeunte que se passeia na avenida entretido a contemplar as numerosas e coloridas montras comerciais. Ninguém sabe se naquela carrinha funerária de vidros fumados vai homem ou mulher, qual o seu nome, a que família pertencia, de que morreu. O sino não tocou nem 3, nem 4 vezes o requiem, e mesmo que tivesse tocado, ninguém o teria ouvido porque na cidade o sino não é referência, nem para as horas. E mesmo que o tivessem ouvido, não saberiam descodificar qu’arraio era aquilo. A comunidade não velou o corpo, não carpiu a mágoa da perda com a família. Não se via nem padre nem sacristão, nem lanterna, nem bandeira. Atrás do veículo não iam garotos a disputar uma campainha.

Sobretudo no contexto urbano, o quadro das práticas e das representações da morte foi retocado pelo progresso. As transformações são visíveis em todos os domínios: na dessacralização das exéquias; na crescente “desresponsabilização” da família, compensada pela hospitalização da morte; na profissionalização e comercialização dos rituais fúnebres; na substancial redução do período de luto, das suas manifestações e vivências; na adopção de novos métodos de evacuação como a cremação; na crescente privatização da dor, também por ausência de comunidade. A morte está mais discreta, afastada do nosso espaço quotidiano, porque mais banalizada. Seja na nossa comunidade, seja na dos Iraquianos, dos Curdos, dos Chineses ou dos Uzbeques, já nos habituámos a olhar para ela ao longe, recostados no sofá e chinelinho no pé.

O inglês Geoffrey Gorer antecipou na década de 50 que o assunto viria a tornar-se no tabu do sec. XX, destronando o sexo. Viu bem. Afinal, qual é o homem que se pode gabar de ter morrido, aos seus amigos?

Sentai-vos num môtcho e recordai os vossos que já partiram e reflecti sobre as vossas práticas e representações sobre o assunto. É tempo disso.

sexta-feira, outubro 19, 2007

A NOSSA FALA - XCVII - GA(T)CHO

Tão linear quanto injustificável: um GATCHO é uma uva, ou, se preferirmos um cacho. A sonorização gutural profunda do G predomina sobre o C como acontece em Espanha... E como estamos na Raia, o resto é fácil: tudo o que se escreva com CH em vez de X tem obrigatoriamente de ser pronunciado de forma aspirada dando o nosso típico TCH. É assim em CHAVE=tchave; em CACHEIRA =catcheira; em BUCHO=butcho; em CHÁ=tchá e por aí fora.

Acontece que o tempo das vindimas já foi. Mas ..., Em tempos idos quem marcava as vindimas era a festa de Sta Luzia no Castelejo (Fundão) que se festeja exactamente a 14 de Setembro junto com Sta Eufêmia a 15. O pessoal já tinha muito figo seco, o cereal tinha sido malhado e arrecadado, as couves já cobriam a terra, as frutas já enfeitavam as salas e sentia-se aquele perfume a maçã BRAVO-MOFO (= bravo de esmolfe), que não raro servia de mata borrão para beber um tinto do ano passado já em limpo naqueles fabulosos garrafões de vidro revestidos a verga e encastrados em sustentáculos de ferro forrados a palha. O vinho tirava-se por cima com uma borraha e nunca se deixava retroverter por mor de não eludrar. Havia muitos e bons vinhos na aldeia. Ainda há. Eu, com era o distribuidor (quase oficial) do gás conhecia o provo de quase todas as adegas e havia algumas de que não perdoava o provo. Muitas vezes cedinho, logo às seis, pois então. Valia que a lasca do presunto, a cunca do queijo, a malga das azeitonas e o naco do pão vinham sempre para baixo e não havia nada como escorropichar pela goela abaixo um valente copo daquele néctar que fez com que Noé amaldiçoasse os seus próprios filhos: "sereis os escravos dos escravos dos vossos filhos". Vede o poder do tinto!

Os bons costumes vão morrendo com os seus praticantes... Ora, era costume, aos Domingos depois de missa, almoço já meio desfeito, grupos de homens juntarem-se e, em vez de ficarem no largo do Zé Rolo, no Adro ou na Lameira, no Batoco, a jogar ao fito, em vez disso, a malta juntava-se e ia de adega em adega, bebendo do bom, sempre com bu(t)cha, até horas de jantar. Assim, mesmo que houvesse algum peso na cabeça, a coisa não preocupava demais, enquanto que se se metessem no vinho da tasca e a apanhassem, era certo e sabido que no outro dia andavam VARIADOS. Ainda fiz algumas destas procissões. Não era raro que ainda permanecessem dependurados, por uma guita, alguns gatchos, quase sempre brancos, Uva Formosa, Arinto, Moscatel, de volta com algum Ferral que o oídio tivera perdoado. Os gatchos de "pendura" eram sempre cobertos por uma folha de papel, algumas mesmo bordadas com tesoira de costura. Era uma honra chegar com uvas comestíveis à vindima do ano seguinte.

Foi num desses Domingos - aquele era soalheiro - que eu, meu pai e o velho Comandante, mais o Tonho Alfácea, o Mné Furdas, sr. Jaquim Bargão (repare-se na diferença do trato) e Tonho Modas iniciámos a ronda pelo Alfácea, passamos ao Furdas e chegamos ao Sr. Joaquim Bargão. Entrámos na adega, a menina Isabelinha não tardou com uma travessa com comestíveis ao toque de um pau no sobrado, e enquanto se lavavam os copos - naquela adega havia excepcionalmente um copo para cada convidado - foi-se conversando da vida e de aventuras dispersas, desde a picadela dum alacrário até uma fo(u)nisca que se desencaminhou para o forro do Furdas e ia pegando fogo à casa...

Copos lavados, o senhor Joaquim Bargão convida a deglutir os opíparos acepipes e faz chiar a torneira da pipa (as torneiras rodam-se sempre no sentido dos ponteiros e é proibido que para se fechar se utilize o movimento retrógado, por mor de não estragar o calejo da madeira e possa ficar a pingar), rodou então a torneira, encheu o copo e oferece-o ao Modas: " beba o sr. primeiro, ofereceu-me a mim" eu sou o mais novo", passou ao Comandante "primeiro o dono da casa" chega-se ao Modas "Ná, a mim não me engana", estica a oferta a meu pai "cse nenhum pegou, eu tamém não" e escusado será dizer que nem Alfácea nem Furdas aceitaram a ser os primeiros a beber...
Senhor Joaquim Bargão insistiu:« ninguém quer beber este copo?» Nada...«Então bebo-o eu». E foi assim... Bebeu, foi à bacia, lavou-o e deborcou-o no tampo da pipa: «Vamos embora». Ficaram todos a olhar... «Em minha casa não preciso que mandem beber».
E o facto é que não bebemos. Acabamos por achar graça, fomos ao Modas, ao Comandante e ao meu pai e no fim o senhor Joaquim Bargão: «agora voltamos à minha». E fomos. Já ninguém recusou o copo à primeira e também já nenhum precisava de jantar tal a quantidade, variedade e qualidade do que se comeu... E digo-vos: apesar de já ninguém ter sede, nenhum se embebedou e podeis crer, que de todos os vinhos aquele era de longe o melhor.
Deixo-vos um XXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. e prometo não voltar a andar tanto tempo arredado desta saborosa página.

terça-feira, outubro 16, 2007

A NOSSA FALA - XCVI - APULAR

Chegou-me recentemente às mãos o nº 6 da Revista Estudos de Castelo Branco, de Julho de 2007 (nova série). A revista original foi fundada em 1961 pelo quase patrício do Vale da Senhora da Póvoa, José Lopes Dias, e por João Caetano de Abrunhosa. Actualmente, a revista é dirigida por António Salvado, poeta, e altruísta e filantropo, (estes dois adjectivos são da minha inteira responsabilidade). Fundamento: recebo regularmente a revista em casa sem pagar um cêntimo. No dia da apresentação desta nova série, ocorrida faz este Outono 4 anos, à qual em boa hora fui assistir, e em que rápida e facilmente me apercebi da elevada qualidade da revista, entendi como justo, dar a minha modesta contribuição, ao menos como assinante e leitor pagante. Já não me recordo bem das palavras do Dr António Salvado quando lhe manifestei o gosto, sincero, em deixar logo ali o valor correspondente à assinatura anual, mas lembro-me que fiquei com a sensação de ter levado um raspanete. É que esta revista não visa qualquer lucro material para o seu director e proprietário, para o sub-director, para o administrador, ou, creio, mesmo para os autores dos textos. Esta revista assume como ideário “uma atenção persistente aos valores da cultura, que o mesmo é dizer aos valores intrínsecos do Homem”. “Apenas” isto.

De entre os textos que compõem este nº 6 – todos excelentes, como é timbre - não posso deixar de destacar um que surge na órbita de interesses aqui do Baságueda, da autoria de José Teodoro Prata, intitulado “Instantes saborosos”.

Com a devida vénia, passo um cheirinho:

“O mundo em que me fiz gente já não existe. (…) Não foi na cama que a minha mãe me teve. Ela agachou-se e fez força para eu sair, enquanto a irmã dela, a minha tia Estela, a segurava pelos braços e a senhora Celeste Dias, a parteira, me apulava com as mãos. Mas o meu pai contava doutra maneira. Eu fui deixado por um lobo atrás de umas giestas, por cima das Lameiras, na serra, onde ele andava a cortar pedra. Ainda viu o lobo a escapar. Ouviu-me a chorar e trouxe-me para a minha mãe me criar. Não sei qual destas histórias é verdadeira, mas acredito nas duas.”

O autor faz uma breve passagem por todas as datas, social e religiosamente relevantes para a sua comunidade (S. Vicente da Beira), descrevendo sucintamente alguns dos costumes, tradições, cantigas, ladainhas associados. Em anexo, resume as receitas de alguns dos manjares típicos da sua aldeia - praticamente em tudo iguais aos que conhecemos aqui à beirinha da Baságueda - e acaba com um pequeno glossário de vocábulos da "fala" de S. Vicente - quase todos conhecidos e com o mesmo significado. Foi a consultá-lo que fiquei a saber que na “fala” do autor, apular significa: apanhar algo que vem de cima, que cai. Não sei se o termo faz parte da "fala" aqui na bacia da Baságueda, mas faz parte da ruralidade um pouco mais de volta, por isso, creio que pode legitimamente juntar-se à "nossa fala" e torná-la ainda mais rica.

sábado, setembro 01, 2007

A NOSSA FALA - XCV- CO(U)RRI(t)CHAS/CARRICHAS

Contra a corrente empirista que se limita a asseverar que o hábito mais não é do que a repetição continuada de uma mesma experiência, já o velho(!) Georges Washington, rebatia ao afirmar que "o hábito não é uma segunda natureza, ... ,ele vale mais que dez vezes a natureza! "
Vem isto a propósito de que, muitas vezes,nos ”avezamos” a pronunciar, não importa o quê, de determinada maneira e, se ouvimos esse termo de modo diferente, depressa acusamos o emissor, dizendo que não se deixe embarcar nas formas de dizer comuns e diga as coisas comédado. Por exemplo: na nossa aldeia todos chamam ao Domingos, filho do Lavra Miúdo, fai nica, mas a verdade é, que, quando ele andava com os Tiagos, ali para as portelas, já a dar vistas para as minas do Pinheiro, nas traseiras do João Rela e do Tonho Sarrabeco, o cachopo, irmão do actual coveiro - O Tonho Zéi - quando, miúdo ainda, vizinho que era dos Tiagos, malinos dum corno, estes lhe atiravam lascas a zunir às orelhas para o atentarem de grande. O fai nica não sabia de onde vinha o zaranzum, e, acagaçado com o medo - afinal era um petiz - começava a gritar :«PAI A MICA,PAI A MICA..., o que, pura e simplesmente, apenas queria dizer «ó pai vem aqui ao pé de mim!».
Joaquim, lavra miúdo,com quem reparti muitas manhãs de dar água ao lagar, ouvia o bramir do MINGA e lá ia a ver o que se passava...: FAINICA, OU, PAI A MICA, pedia então corrichas, currichas ou carrichas ao LAVRA MIÚDO e ele lá acedia ao pedido, montando o filho às costas (às cavalitas) até sítio onde as pedradas dos filhos dos Tiagos ou do Sarrabeco já não alcançassem...
Outros tempos... em que as crenças no diabo e seus apaniguados era outra...
A mãe logo dizia que "aquilo era a diabólica" e acendia o toco de uma vela à imagem da SS. Sagrada Família, que recebia cada três semanas e à qual, obrigatoriamente, mantinha aceso um pavio feito de encastramento de ervas que se colocava num triângulo de lata, cujos bicos, espetados em nacos de cortiça, permitiam a flutuação em azeite virgem, que servia de combustível.
É meu crer que muitos dos que me lêem tenham tido em casa o pequeno tabernáculo da Sagrada Família, que, como é sabido, transitava de casa em casa, sabendo nós de quem o recebíamos e a quem o passaríamos... Muitas vezes fiz essa transição ...
A vez em que na aldeia, que eu me lembre, vi mais garotos às currichas dos pais foi nas festas da Desfolhada (por questões com o prior já aqui narradas) por alturas do ”Sr S. Bartolomeu” - faz agora anos - quando o velho professor Leitão, em combinação com o saudoso Tarzan Taborda, traz à terra dos Xendros, Francisco Xavier (mister músculo do ano - já não sei qual) para fazerem uma demonstração de CATCH AS CATH CAN, em tradução livre: AGARRA COMO PUDERES, E O QUE PUDERES, não importa como, ou numa tradução mais inteligível: LUTA LIVRE, especialidade onde o nosso Albano Taborda Curto, ou Albano Taborda Curtis, ou simplesmente TARZAN, era especialista, tendo sido por mais que uma vez Campeão mundial.
Famosas ficaram as lutas com o algarvio Zé Luís de quem se dizia que tinha uma marrada, digo, uma cabeçada, mais forte que um carneiro. Conta- se até que de tanto marrar, digo, cabecear, contra um sobreiro este, dorido com tanta marrada, deixou de se vestir de cortiça e secou.
Bem..., naquele ano então houve espectáculo de luta livre: Tarzan contra Xico Xavier!
Talvez a maioria dos que me lêem, Xendros que sejam, não saiba o porquê daquele quadrado de cimento existente a meio da lameira... Ora, aqui fica a explicação: aquele "ringue" foi propositadamente feito para a luta entre Tarzan e Xavier...
Depois foi aproveitado para pista de dança, nas festas.
Foi então dessa vez que a canalha exigiu corrichas aos pais para conseguir ver o famoso golpe de tesoura que Tarzan aplicava, fazendo uma espécie de mortal à rectaguarga, apoiando as mãos no chão e engarranchando os pés cruzados (daí o nome de tesoura) no pescoço do adversário.
Lembro-me do Domingos Patanisca que estava comigo na linha da frente:"o filho da puta, mal lhe botou as patas ao cachaço, ardulhou-o logo". E foi mesmo assim: Xico Xavier caíu redondo chão, entalado entre as pernas de Albano Curtis. Foi o delírio na aldeia. Toda a canalha às corrichas batia palmas freneticamente, os PsYcadelic Set, com Tó Nô, Pedro Veiga, Xico Milheiro e o velho Cisne arrancam com Rolling Stones e camarada Licas, sozinho, entoava no seu inconfundível estilo aicanaguetanou. Inesquecível! Só mesmo quem viveu...
Agora nem que vos ponha às corritchas... Tarzan já partiu e do Xico Xavier nada sei. Do Licas todos sabemos e dos Psycadelic Set sei de alguns.
Se há coisa onde a nossa aldeia não tem grande nomeada é em matéria de artistas musicais... Aldeia de João Pires tem banda, Aranhas tem Rancho, Penamacor tem o Telmo e Rancho, Pedrógão tem banda, ... a aldeia não tem coisa de jeito a não ser agora o coro da igreja, mas só para esse efeito.
Àparte o Chquim Ventaneira e o seu pífaro, o Domingos Poças com a sua concertina, o Tonho Bondito com o seu Armonho, que o Tonho Fatela também arranhava numa desgarrada, não há memória de grandes executantes do que quer que fosse.
Foi numa destas desgarradas em que Manel Manata, o bisga, também apareceu com o seu acordeão, que apareceu um visitante do Meimão que desafiou o Manata:" Cala-te aí, ó boca aberta,/Meu goelas de peru/Os teus dentes são navalhas/Faz-me aqui a barba ao cu... O Manata afinou logo: "Tu num estás a ver bem/ o barbeiro com quem te metes/tenho cinquenta navalhas/ e duzentos canivetes/.... A coisa foi crescendo, mas, ao fim, tudo acabava em bem. Pergunta o bisga do velho Manata ao cantador do Meimão:«Como é a sua graça?» -" Porfírio Branco... e o Manata: pois eu profírio tinto.
Ah tempo! como diria o velho Comandante às corrichas de quem me passeei muitas vezes....
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

sexta-feira, agosto 17, 2007

A NOSSA FALA XCIV - BUÊR

Era dia de matança e eu assumira o controlo do palhinhas com a missão de manter o vasilhame individual com uma pinguinha no cimo. Ti Julho Sardones acabara de emborcar o 2º, apenas à conta de uma azeitona carrasquenha retalhada e ficara a mirar, compenetrado, para o copo vazio que continuava a segurar à altura dos olhos.
- Vai mai um Ti Julho?
Ele deu um estalido de língua e com ar muito sério informou:
- Ó Inserme, olha qu’ê gosto do filha da puta do vinho. Tem bom BUÊR. Bota lá outro.

Veio-me este episódio à lembrança há dias num corredor de uma grande superfície onde jaziam expostas uma catrefada de garrafas de vinho de múltiplas proveniências, qualidades e preços. E eu precisava apenas de um tintinho para acompanhar um besugo grelhado ao almoço. Hesitante, perante tanta oferta, fui criteriando entre o preço médio e a região vitivinícola. Num Alentejano descubro:

“Vinho tinto macio, de cor vermelha intensa, com reflexos violáceos. Levemente abaunilhados, os aromas e o sabor são bem marcados a fruta, lembrando compotas de frutos vermelhos. Apresenta um final de prova prolongado e muito suave.”

Fiquei tentado. Continuei para um Bairrada, cuja literatura proclamava:

“Vinho de cor granada profunda, de aroma rico e complexo dominado por notas de frutos vermelhos, frutos secos e caruma, envolvidos por muito ténues notas de madeira. O sabor é agradável, encorpado, com taninos redondos e excelente persistência gustativa.”

Tudo à minha volta emudeceu para me facilitar a viagem pelos aromas a caruma e abaunilhados, pelos sabores encorpados e a frutos vermelhos, pelos taninos suaves e redondos…A viagem prosseguiu inadvertidamente para uma reflexão sobre o código linguístico em que assenta esta deliciosa literatura. Socorro-me de Basil Bernstein e da sua teoria sócio-linguística concebida no âmbito da problemática do processo educativo. Esta teoria inscreve-se no que se poderá chamar “paradigma determinista” que pretende explicar o (in)sucesso escolar. Muito telegraficamente, a teoria postula a existência de 2 códigos que no processo educativo reflectem uma correspondência entre modos de expressão cognitiva e estrutura de classes, fazendo sentir os seus efeitos ao nível do (in)sucesso escolar (e também nos comportamentos sociais). Chama-lhes o autor código restrito e código elaborado. O primeiro caracteriza-se por uma estrutura semântica particularista, fraca complexidade léxica e gramatical, construção sintáctica pobre, tudo traduzido numa linguagem concreta e descritiva, muitas metáforas, recurso a uma gama limitada de adjectivos e advérbios. O código elaborado, para abreviar, caracteriza-se pelo oposto. Salto já para o corolário: o código elaborado é mais frequente à medida que se sobe na estrutura de classes sociais, o código restrito é partilhado nas classes mais baixas. A escola privilegia o código elaborado, logo, à partida, as probabilidades de sucesso escolar tenderão a ser mais elevadas nos alunos mais familiarizados com ele, ou seja, os alunos das classes mais altas, fenómeno que, denunciaram Bourdieu e outros, contribui para a reprodução das desigualdades sociais. Mas isso não é conversa para aqui.

Forçando uma importação (bem martelada, diga-se), da teoria dos códigos para a descrição dos vinhos, considerando-me eu um indivíduo da classe alta (em termos de provo, entenda-se), compreender-se-á que não tenha resistido ao Douro de 2003 que exibia esta pérola:

“Os aromas emergem extravagantes, misteriosos e quase exóticos, juntando-se a um estilo perfumado que acompanha notas de café e frutos negros. Um toque de carvalho veio acrescentar uma deliciosa fragrância fumada que intensifica a já existente e suave nota de cereja. Este vinho apresenta-se encorpado, com alguma estrutura firme e um final de prova invulgarmente longo.”

Eu seja ceguinho se não me esforcei por detectar a extravagância do aroma e a fragrância fumada do carvalho. Admito que não fui capaz. O que posso dizer é que gostei do filha da puta do vinho. Tinha bom BUÊR.

quinta-feira, agosto 02, 2007

A NOSSA FALA - XCIII - ESCARRANCHAR ou ESCANCHADO

Nunca os quadrúpedes asnos, burros como lhe chamamos, foram tão poucos em Portugal. Garoto era eu e só na Aldeia dos Xendros era fácil contar para cima de cem; à vontade e sem receio de engano. E é pena! Animal dócil, robusto, parco e, pasme-se, bom aprendiz, merecia melhor tratamento. Isto para além do esterco que proporciona e que, segundo diziam a velha Zagaia e a velha Patrocínia Galfarra, vendedeiras que eram, no cedo, de todas as novidades - couve, repolho, cebolo, e mais hortícolas como o tomate e o pimento, - as quais, à ida acima, caminho da serra, por detrás da cruz do Rebolo, ia enchendo os caldeiros de lata onde tinham vindo os viços com os cagalhões deixados no alcatrão pelas tais bestas asininas. Verdade ou não, indesmentível era que elas apresentavam produto de qualidade.

Era normal virem a pé com o caldeirinho à cabeça em cima de uma molídia, mas quando as encomendas eram mais a Zagaia trazia o seu burrinho, o JOVIAL, e aproveitava para vir a cavalo.

Naquele tempo não se via mulheres de calças. Só de saias e compridinhas quanto bastasse por mor dos olhos gulosos... Por isso o modo de as mulheres montarem nos burros era diferente da dos homens: estes iam ESCARRANCHADOS em cima da albarda, uma perna para cada lado e, alguns até tinham estribos, como o Zé Borges, aldrabão mor que já foi aqui vedeta, elas, porque não se podiam ESCARRANCHAR sentavam-se no dorso da albarda e deixavam cair as pernas para o mesmo lado. Era por isso que noutros tempos, a maioria das casas tinha um batorel (ou baturel) junto à porta das lojas, ao lado do qual inevitavelmente estava cravada na parede da casa uma ferradura que servia para prender o burrico. As mulheres subiam para o baturel (ou batorel) e deixavam-se cair para a albarda, aproximavam-se da ferradura, soltavam o burro, e com a rédea lá o guiavam para onde queriam.

Eu era um ás a cavalgar na burrinha da minha avó Maria... Tinha o cuidado de, sempre que me servia dela, a desaguar com, a pouca de água com farelo, coisa que ela adorava. Depois era só pedir que ela dava. Um burro a passo é cómodo, mas a trote é horroroso, faz doer, porque o corpo é empurrado para cima e cai de chapa na albarda ; então, o melhor é ir a galope. Aí é um prazer cavalgar, bem escarranchado, rédea numa mão e a outra a servir de contrapeso equilibrador. Era aqui que eu era campeão. Bons tempos!

Nunca fiz a sevícia de Teixeirinha (que é feito de ti, meu bom amigo?) que, para a burra mais esperta que havia na aldeia, a do avô dele, a burra do velho Freitas, andar sempre a galope, lhe metia uma silva seca cheia de carapetos por debaixo da albarda. Esta burra ficou famosa: sabia contar até dez batendo com a ferradura no chão ao som do algarismo e nunca o velho Freitas teve que lhe ensinar o caminho nem para as oliveiras de melão, nem para a quelha funda nem para a lameira da pinta. Montava-se nela e só dizia: lameira da pinta! e a burra desandava certinha. O velho Freitas até garantia que ela lia os jornais colados com massa de farinha que a ti Beatriz tinha nas ripas do tabique que separava o palheiro da burra da cozinha dos velhos. Ao velho Gonito ouvi eu dizer que, uma vez, de noite, a ouviu a sonhar de alto, amaldiçoar a sua má sina de ter calhado naquela família, porque se fosse noutra, havia de ir à escola e estudar para engenheira. Se é verdade não sei e o velho Gonito já cá não está.

Outro burro mais que célebre era o ESTUDANTE de Zé Luís Barata: lavrava sozinho. Ele punha-se na ponta de uma torna e o filho na outra; era só virar a aiveca, apontar o rego e dar ordem de marcha ao ESTUDANTE e ele aí vinha até à outra torna sem ser preciso guiá-lo...

O mais desordeiro foi sempre o burro inteiro da ti Conceição Rela, o MOURISCO, que, apesar de pequeno, quando lhe cheirava a burra com cio, ali por altura de Março, arreganhava a beiça, zurrava que nem um perdido, deixava pender a sua valente arma e nada nem ninguém o segurava... Não lhe importava se a fêmea ia carregada ou não, se trazia atafais, se era no centro da estrada...nada. Aquilo não se podia perder e o burro metia medo. Foi morto à machadada pelo ti João que se viu quente com ele um dia no palheiro... Dizia o velhote: o que mais me custou foi abrir a bureca pró enterrar e arrastá-lo até lá... vi-me nas horas del conho!

Era tempo de os burros serem vedetas aqui no baságueda até porque a festa da Ribeira, da Baságueda, das Aranhas ou da Sra do Bom Sucesso, não se fazia sem burros no tempo em que as festas eram genuinamente populares... Agora são feiras!
Há ainda por aí gente qie se lembra dos ajuntamentos nas Eirinhas: Russo, Zé Manel e Alziro puxavam dos acordeões e, enquanto se trocavam umas merendas e se despejavam uns tintos, aquecia-se para o arraial numa lailada bem sapateada que até metia cobiça...
A única passagem era a chamada ponte velha, hoje só já restam vestígios, mesmo ao fundo donde é hoje a barragem que em tempos abastecia Penamacor e Aldeia, antes da Meimoa tomar esse lugar e lá ae ia até à festa, gente e burrinhos, todos engalanados com rosmanos e verdura e lírios roxos, perigosos, porque se deixassem nódoa lá se ia o fatinho.
Foi num desses anos em que eu fui com o velho Comandante que, bem perto da capela da Santa (não mede mais de 30 cm), Tonho Refe deparou-se com o seu Mário deitado no chão... Saí-se então com esta máxima: " ou ele caíu ou alguém o tombou, que ele sozinho no era capaz". O burro do Rogante que ia atrás junto com a burranca do velho Comandante, não percebeu o sentido da frase, e começou-se a rir num zurro ensurdecedor...
Tinha razão o burro: lógica desta, só mesmo em dia de festa!Mainada!

sexta-feira, julho 27, 2007

A NOSSA FALA XCII - AVEZADO

Os assuntos que nos despertam interesse dependem, como tudo, aliás, das circunstâncias. Excluindo desde logo aqueles que, consta, são próprios das damas – telenovelas, trapos, maridos, filhos -, continuando a excluir os que, consta, são mais habituais nos valetes mas que as circunstâncias não favorecem – o campeonato da bola está parado, a política está calma(!), as férias ainda não foram, restam-lhes (a eles) duas categorias de assuntos interessantes: as virtudes, qualidades, capacidades e atributos físicos das donzelas (repare-se que não caí no facilitismo de resumir tudo no termo “gajas”), e, os temas sérios.

Por via das tais circunstâncias, e porque sou cavalheiro (de género, não só mas também), o tema que me despertou interesse, e de que vos venho falar hoje, é dos sérios. Foi suscitado por uma história que adiante vos contarei e que me levou a revisitar alguns escritos arrumadinhos nas estantes da minha biblioteca, sobre a religiosidade (ora aí está: é ou não é um assunto sério?).

Parece que a religiosidade é incontornável em qualquer sociedade, seja ela simples ou complexa, constituindo a fonte original das normas em que assenta a ordem social, ou seja, retira-se dos estudos do francês Emile Durkheim, sem religião não haveria moral (normas), sem normas não haveria ordem, e isto seria um regabofe maior do que o que é. Se assim é, a sociedade, para conseguir a coesão e a ordem, precisa que os seus membros sejam religiosos e comunguem dos mesmos valores. Se assim é, a desordem é culpa dos não religiosos. Hum! Cheguei aqui sem querer, e não queria chegar.

Outro clássico, o nosso “camarada” proto-comunista Karl Marx, escreve que “a religião é o ópio do povo”, esclarecendo que é uma forma de alienação, porque as crenças religiosas levam à atribuição a entidades místicas, das capacidades e poderes que, na verdade, são dos homens. Esta, e outras ideias tão ou mais subversivas foram-lhe inspiradas pelos compatriotas Feuerbach e Hegel. Mas o Karl vai mais longe e tenta convencer que as crenças religiosas só servem para legitimar a posição de subordinação das classes dominadas, na medida em que pregam a aceitação resignada das condições de existência. As classes dominantes instrumentalizam a religião, a religião instrumentaliza as classes dominantes. Que as classes dominantes padeciam de uma perigosa falta de ética já nós sabiamos, agora a religião... Compreende-se que o Karl tenha avançado com a proposta de as classes dominadas se unirem para acabar com tanto pecado.

Outro prussiano, Max Weber, (re)encontrou outra “utilidade” no fenómeno religioso: factor de mudança da sociedade. Nos seus estudos sobre a influência da religião na vida social e económica, chegou à conclusão que ela não era necessariamente uma força conservadora, algumas - caso do protestantismo -, tiveram mesmo um impacto decisivo no desenvolvimento do capitalismo no Ocidente. Foi à conta da ânsia de serem ricos que alguns crentes fervorosos inventaram o capitalismo, todavia, o interessante é que o verdadeiro objectivo deles não era a posse de bens materiais mas a busca de um sinal do criador de que faziam parte do gupo de escolhidos com lugar reservado na lotação limitada do paraíso. Aqui sim, a religião como caminho para a felicidade dos homens.

Todos os citados concordam no papel dos rituais enquanto alimento espiritual e reforço da coesão comunitária, seja qual for a religião em questão. São conhecidos rituais vários, alguns deles manhosos e até macabros. Há um outro pormenor, curioso por sinal, que eles partilham: não eram crentes, nenhum deles. Mandam as leis universais do equilíbrio que a seguir, eu deveria visitar também o S. Tomás de Aquino, ou o S. Anselmo (Deus é o ser do qual não se pode pensar nada maior), o Ayatolah Khomeiny e, claro, Joseph Ratzinguer. Falhas graves na minha biblioteca.

Ah! Mas falta a história que suscitou o interesse por assunto tão sério. Já estais avezados, não é? Ei-la:

Zé Valquentem, morador em Monsanto, fizera uma promessa à Srª da Póvoa: ir a pé até ao santuário do Vale de Lobo com as mãos postas. O compromisso nascera numa noite de temporal, quando um raio lhe assou instantâneamente o porco que chafurdava na furda, paredes meias com o cubículo onde ele dormia. Na falta de santuário de Santa Bárbara, transferiu para a colega Srª da Póvoa o agradecimento por ter sobrevivido. A explicação do pormenor das mãos postas desconhece-se, mas deverá ter o mesmo significado de outros rituais manhosos como aquele do percurso de joelhos em Fátima.

Meteu-se Valquentem ao caminho bem cedo, com ideia de almoçar uma patanisca de bacalhau no sopé da serra d’Opa, todavia, passada que estava a Meimoa, já com vistas para o arraial sobreveio-lhe uma irritante cólica que o levou a optar pelo alívio das tripas, em detrimento do cumprimento da promessa. Vociferou impropérios ao caldo de feijão que tinha emborcado às 5 da manhã. No ano seguinte, partiu em jejum, para não dar argumentos a boicotes do corpo. O problema é que o nosso organismo não acompanha o fervor religioso do espírito. A bexiga pôs-se a recolher os líquidos todos do corpo e, ia ele a passar ao largo da terra dos Xendros, na Saramaga, parecia-lhe que ia rebentar. Prazeres Batórelhas ia de regador enfiado no antebraço a regar o alfobre quando se deparou com o Valquentem a maldizer a sua sorte com palavras nada consentâneas com a postura das mãos, a pontos de Prazeres ter de lhe chamar a atenção:
- Atão mas qu’arraio de reza é essa? Foi assim qu’o inxenéram a rezar?
A simplicidade aflitiva com que o Valquentem contou a sua história fez com que Prazeres compreendesse rapidamente o drama e logo ali se prontificou a ajudar o monsantino a não quebrar a promessa. Destemida, abre a portinhola das calças do Valquentem, encontra a abertura das ceroulas e as águas verteram abundantemente. Antes dos agradecimentos, o Valquentem ainda sentiu à vontade para pedir:
- Já agora, dê-lhe lá uma abanadela que também está avezado a ela.
Em jeito de bónus, ainda vos informo que dali nasceu namoro e casório e ambos são velhotes felizes, residentes ali mesmo por detrás da Matriz de Aldeia do Bispo.
Na circunstância, parece que o Max Weber era o que estava mais certo.

Aviso à navegação:
Eis-me rumo ao sul a iodar as nalgas. Torno antes do senhor S. Bartlameu.

sábado, julho 21, 2007

A NOSSA FALA - XCI - (t) CHINCA

Comecemos por uma lenga lenga: à morte ninguém escapa/nem o bispo, nem o Rei nem o Papa.../Mas hei-de escapar eu: compro uma panela/ meto-me dentro dela/ e quando a morte vier/ Digo-lhe assim: aqui não há homem nem mulher/ Aqui não mora ninguém/ Passe Vexa muito bem.
O ser humano é mesmo um artolas. É o ser mais maligno à superfície da Terra.
Na distribuição dos espaços a cada um dos seres vivos ficaram para últimos o peixe, o lobo e o homem. Perguntou o Demiurgo: «Que queres tu, peixe? » "Quero o fundo mar"; « para ti será»... E tu, lobo, de que espaço queres usufruir»? ; "Do alto das montanhas, Senhor!" «Ficam-te desde já concedidos»; e «e tu, macaco pelado, que queres?»; " Eu só quero arte e manha"; «São tuas». E foi assim que a partir daquele momento nem o peixe escapa no fundo mar nem o lobo no alto das montanhas ao detentor da arte e da manha.
Mné Gaguela era cunhado de TonhoZÉi. Rivalizavam entre si a ver qual fazia menos. A velha Menas, mãe de Mné e sogra de Tonho é que se desunhava na acadeja da lenha e, mesmo já velhinha, ainda ia para os quintos para dar de "mamar" a estes dois.
Só queriam era candonga, andar na moinice, viver na gosmia, mas, o que era indubitável, era que lá iam bebendo sempre o seu copinho a ponto de irem borrachinhos de todo, estrada acima, até ao Mnel Ferreiro, altura em que viravam até ao recôndito lar.
Para se ver a sabujice e a lambugueirice destas duas prendas veja-se que Mné, para não ter o trabalho de se casar, pediu a própria mãe em casamento. Nem Freud no se melhor teria imaginado uma destas!
Tonho Zéi, esse, andava sempre "co reumático". De Verão e de Inverno calçava sempre umas alpergatas espanholas, 'que os pés não me cabem nas botas por mor dos ginetes (=joanetes) e de inverno atolo e ando sempre molhado e o reumático no quer húmido, de Verão em qualquer lado espeto um crapeto (carapeto) ou umas unhas de gato (v.g.-abre olhos ou abrolhos), inté mesmo uma palha de restolho me fura a sola da alpargata (alpergata)', e, por via disso, Tonho Zéi, nem ia à azeitona, que, não sendo trabalho pesado, exigia que os pés andassem todo o dia no degrau da escada e a finura da borracha até fazia parecer que andava descalço, e, de Verão, não ia à ceifa porque podia espetar alguma seta nos pés.
Do que ele gostava era da vindima.... aí é que era... Andava sempre a ver de quem o convidasse para esmagar as uvas. As grainhas não o apoquentavam, podia fumar o seu cigarrinho e matava a sede com tinto do outro ano. Mné Gaguela, nem isso.
Tenho pena que as palavras não reproduzam a fala entoada de Mnel. Mas é assim...
Sócrates (o grego, que não este basófias...) nunca esceveu, porque, dizia, as palavras são polissémicas e quem lê pode ir para onde o locutor não queria, ao passo que o diálogo à hora, se bem que efémero, torna a palavra viva e ajustada.
Esclarece e não dá azo a interpretações dúbias ou ambíguas...
Quer um quer outro, eram expertos no costil. A bem dizer, metade das refeições eram chicha de ave agarrada em armadilha. Tinham agúdias todo o ano e conheciam de cor os melhores agachis.
Preguiçosos a levantarem-se, não eram... Manhã cedo lá iam com os costis engudiados na noite anterior à luz da velha candeia e, por volta do meio-dia, aí apareciam com o almoço. Ainda lhes comprei alguns passarinhos. Tempos...
Tonho Zéi era mais velho e sabia mais da folha do que Mné. Os costis que custavam mais a engudiar dava-os sempre ao Mné e o monte que ele fazia era sempre maior do que o do cunhado. Daí a chamar azelha ao Mné ia um passo e, como cada um sabia os costis que punha, o dinheiro de alguma venda era correspondente aos passarinhos agarrados e nestas coisas, quem mais tem, mais agarra. Mné ficava sempre a perder. Não era raro que andasse dever cigarros a Tonho ZÉi:"ó cunhado, eu pago, eu pago, pró Verão eu pago..." Tonho Zéi tinha uma espécie de régua no bolso e com a navalha acentava cada um dos cigarros que o cunhado lhe pedia. «Contas são contas, mainada»; também os costis que eram mais difíceis de armar porque o arame que segurava a tensão da mola estava muito aguçado para ser mais sensível, também esse, tonho Zéi passava ao Gaguela. Ouviam-se cá fora os praguejos de Mné quando se entalava a experimentar o costil, que (t)chincava facilmente.
O. S. Bartolomeu vem aí. Numa noite dessa festa, já lá vão uns anitos, Mné tinha arranjado umas coroas e comprou cigarros com "cu de cortiça" = (cigarros com filtro). Tinha agarrado um alacrário (escorpião) e meteu-o numa caixa de fósforos dos grandes...
Chega-se a mim, lá lhe paguei um copinho servido pelo meu amigo Zé Cadete que até foi a Nova Iorque na SAGRES, no tempo da vida barata, e :« Ó primo, queres ver que eu vou a (t)chapar o meu cunhado Tonho Zéi!?, queres ver, queres?» " Então como? "« espera aqui que já vês..." Chamou o Tonho Zéi, lá tive que pagar mais três copitos, e Gaguela:´«Ó cunhado queres um cu de cortiça, queres?» "ôia! hoje tens cu de cortiça!? dá cá, homem". «Toma, Toma»! Tonho Zéi agarra no maço tira o cigarro CT e Mné Gaguela, solícito, apresenta-lhe a caixa grande dos fósforos...: «Toma tamém lume, toma »; "cum filha da puta até tens palitos dos grandes...festa é festa...; abre a caixa e mete a mão a pensar que ia tirar os fósforos mas saíu-lhe uma ferroada do alacrário... O que a seguir se passou não pode ser transcrito. Imaginai!
Gaguela no entanto sempre ia dizendo: Toma. toma, é por causa de não me dares sempre os costis que se (t)chincam fácil, toma, bem feita; prá outra vez é pior! pensavas que no mas pagavas, pensavas,?; agora toma!
Não há dúvida: a arte a manha não agarram só peixes e lobos... Agarram-nos a todos.
Para a outra vez logo vos dou mais significados de (t)chincar...
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

terça-feira, julho 17, 2007

A NOSSA FALA - XC -(t) CHANCA

Era costume os mais velhos procurarem passar rasteiras aos mais novos. Sobretudo se fossem estudantes,então, o prazer era redobrado já que o gozo aumentava quando constatavam que «aqueles que andavam na vida da escola se esqueciam da escola da vida». Foi assim que o Zé Guerrilhas, sapateiro afamado, mais amigo de vinho que as próprias uvas, um dia me faz esta questão:« Olha lá, tu que andas lá na estudantaria, vê lá se desatravancas este problema: O que é que para um não chega e pra dois é demais?» a verdade é que não descortinei a solução e Zé Guerrilhas, todo inchado porque ia insiner um estudante sai-se com esta: « estás ali a ver a passagem para o chão do Sardones por detrás da casa queimada?» «Estou, mas o que é que isso tem a ver ...» «Espera que já vês... Quando a ribeira leva água tu só com uma (t)chanca não consegues chegar ao outro lado, mas se puseres uma poldrinha ao meio até nem precisas de dar grande salto porque já te sobra terra onde pores os pés. Vês tu que para uma não chegava mas para duas já era muito?» Lá tive que conceder razão ao velho Guerrilhas que, raro era o Domingo em que não se pegava com alguém, até mesmo com os irmãos Chquim Guerrilhas e Mné Maneta.
As coisas são como são; só o homem é que não é como é. Quer sempre parecer! É por isso que, por exemplo Marques Mendes que é pequeno (sob muitos pontos de vista) quer parecer grande; por isso Sócrates que é grande quer parecer gigante e por isso ninguém o cala nas basófias... foi por isso que Hitler se tornou lider na Alemanha Nazi e pela mesma razão Mussolini o queria imitar na megalomania que não no tamanho!
Chaplin escalpelizou isso de forma indelével em o Grande Ditador...
Mas... quanto mais alto se sobe de mais alto se cai... veja-se Hussein, veja-se Salazar, veja-se Franco, veja-se Ho Chi Min, veja-se Filipe II de Espanha e I de Portugal, Carlos V e o mais que quisermos.
Queremos sempre parecer mais do que somos. Mais grave: queremos ter sempre muito mais... Longe vão os tempos da AUREA MEDIOCRITAS e do ' baste a quem basta o bastante de lhe bastar' do nosso Pessoa...
Por natureza e agora também por cultura e logo por civilização, o homem quer sempre transcender-se. Chega mesmo a devorar-se a si mesmo! Mais não faz do que repetir as leis do neo liberalismo económico que tão desgovernadamente nos governa. Afinal o que quer a COCA COLA? - destruir a Pepsi para ficar senhora do mercado; e que quer a Sony? - tornar os seus próprios produtos obsoletos porque se ela o não fizer, logo vem a Samsumg que o fará. .. E assim andamos.
Agora até criaram e já alguns praticam a Flexi-segurança...! enfim...
Outro pormenor de não menos relevância é o desejo de Transcendência. O Homem furou as núvens: foi-se até à divindade. E aí joga conceptualmente com o absurdo como regra lógica: no caso concreto do catolicismo lá está a Revelação como o fundamento: Deus humaniza-se, a Virgem é mãe sem perder a virgindade, o Pai é um com as outras duas pessoas, o pão é corpo e o vinho é sangue, o imortal morre, o infinito limita-se, a forma materializa-se o espírito reifica-se... A Fé é por excelência a lógica do Absurdo.
Dizem que são mistérios e, portanto, DOGMAS : é a negação do homem: deixa de pensar para acreditar. Temos que volver a Pessoa: A Fé é cega!
Um pensador Dinamarquês: Soren Kierkggaard, falava num hiato ou intervalo que faria a ponte entre o deus humanizado e o homem deificado e a salvação do homem só era possível num estádio último de vivência - o estádio religioso - em que o homem se encontraria sozinho perante Deus, mais ou menos como Abraão no Sinai. A Fé destrói deus.
Abraão porque nunca vacilou na obediência às ordens do deus da sarça ardente, obriga Deus a emendar a mão e a disponibilizar um carneiro para substituir Isaac seu único filho de Sara, já atado na pira para ser imolado pelo fogo...
Isto sim que foi uma grande TCHANCA!
Ao homem já não bastava este mundo: inventou outro e promete-o com argumentos e subterfúgios do mais caricato que imaginar se pode. Outra TCHANCA: salta-se do real para o imaginário; ou para o mítico, se preferirmos. Já não há intervalo como no dinamarquês: Ele está aqui no meio de nós; sem mais. Que grande TCHANCA.
E o mais grave é que não bastava já uma religião... Outras aparececeram do mesmo jaez e com argumentos mais ou menos paralelos lá vão também dando grandes TCHANCAS porque o que para um é pouco para dois é muito. Tinha razão o velho Guerrilhas. Eu é que na altura não o soube ler convenientemente e nem sei se agora o consegui...
É decisivo que saibamos medir as distâncias e, se vemos que não podemos lá chegar, mais vale dar uma volta e ir por terreno seguro... Assim não me escorrega o pé e não fico marcado pelo lodo do lapacheiro para onde escorreguei por me ter faltado o pé...
Pronto! está bem... Chega de sermão. Fico-me por aqui senão já dizeis que também eu sou mais papista do que o Papa. E Então do que este Ratzinger! LIVRA! Fujo à TCHANCADA. Fazei o mesmo!

sábado, julho 07, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIX - BURRANCANA

A agressividade do ser humano, mau grado todas as formas de socialização de que foi sendo alvo ao longo dos tempos, é um fenómeno visível por demais para poder ser escamoteado. Há, desde logo, que reparar que é o único ser que consciente, voluntária e até, pasme-se, com prazer mais que requintado, agride, magoa, fere, tortura, mata,... É bicho esquisito este macaco pelado!
São por demais conhecidos os primeiros códigos que não visavam tanto o estabelecimento da ordem pública como pretendiam demonstrar quem detinha o poder e podia decidir da vida ou da morte: os códigos de Nabucodunosor e Hamurábi, o espartanismo, as ordálias, o Jus romanum, todas as formas hediondas praticadas pela Inquisição, para além dos requintes orientais em matéria de máquinas de fazer sofrer...
Hoje por hoje, se bem que algumas destas práticas ainda vigorem, temos outras formas mais sofisticadas de violentação, seja ela ocasional ou bem esquematizada.
A própria conceptualização alterou-se significativamente: ESTRESSE, BULLYING, BURNOUT, RUSTOUT,... É ver as nossas escolas a serem frequentemente vitimadas por formas diferentes de acosso ou assédio aos mais fracos, levando-os até a suicídio se o ambiente familiar não se apercebe do fenómeno e colabora na sua resolução.
Isto serve apenas para demonstrar que o baságueda não é apenas "Água baixa" ou basa agua. Quando lhe dá na bolha extravasa das margens e alaga tudo o que esteja no leito de cheia. Já Brecht:" todos culpam o rio que sai das margens e ninguém culpa as margens que o apertam"
Lembro-me bem de o meu primo "Escolinhas", o estoura vergas, vir das portelas com a sua bolsa onde se acumulavam a pedra e os ponteiros, o livro único, uma pedra aquecida, quando, no inverno, o frio exigia que as mãos aquecessem, preparando-se para as inevitáveis reguadas, e a merenda, pois claro que não dava para ir e vir durante o intervalo para o almoço. Tinha o Escolinhas uma merendeira de alumínio com duas molas laterais, onde trazia uns sólidos, tipo um naco de chouriça ou de morcela ou farinheira, uma presa de uma ovelha entretanto abatida, e às vezes a marmita vinha simplesmente cheia com caldo, daquele caldo com feijão, couve e massa. Uma maravilha, era o que era. A minha tia Natividade não deixava que o Escolinhas passasse fome...
O que a bolsa trazia sempre era queijo fresco. Não havia dia nenhum que um bom naco de queijo não fosse o complemento da refeição do Escolinhas.
As roupas afinadas que eram os "companheiros da Escola" do Estoura eram mesmo isso: roupinhas afinadas. Invariavelmente, coiote pete, contra-mestre, pitincouro ou até pinga ou portas, sapo ou bolas, filho do chico mai novo, e evidentemente esta vedeta que vos escreve, para além dos outros que agora não adianta enumerar, invariavelmente um ou mais que um, todos os dias, tínhamos que esborrachar o queijo ao Escolinhas. Era fatal. A irmã mais velha, a Lurdes, mulher brava, trabalhadora daquelas assim comédado, só lhe dizia: rais todos ta partirem...És mesmo um Burrancana. Fazem todos mangação de ti! tu não te envergonhas?! és mesmo um burrancana!"
Escolinhas, coitado, iniciava uma desculpa que de nada valia porque o vozeirão da Lurdes ecoava pela loja:« burrancana, que és um burrancana!»
A sala da escola estava organizada em função dos postos militares conseguidos em duelos de competências travados por nós todos através de desafios que tinham lugar nas quartas-feiras da parte da manhã. Assim, por exemplo, eu, que tinha sido sorteado para cabo, desafiava o brigadeiro que era, por hipótese, o Jolim da pata branca. Se eu ganhasse ficava com o posto de brigadeiro e o Jolim ia para cabo. Mas não ia de mãos a abanar: uma dúzia de reguadas dadas por mim e "que fossem bem puxadas" senão era eu quem as papava. Alguns que estavam a meio da hierarquia ficavam quietos mas o professor registava os combates e os postos e se eles não tinham a iniciativa era ele que os obrigava a digladiarem-se entre si.
Escolinhas nunca passou de sargento. Lá estava a Lurdes: «burrancana, que és mesmo um burrancana... tu num vês os outros a passarem-te a peneira? inda hás-de ficar no tinteiro, meu burrancana!»
O desgraçado lá ia a ordenhar as ovelhas com o velho Jerónimo, irmão de Tonho da Aldeia e já noite cerrada, em cima do arcaz do trigo, é que fazia as cópias e os mais trabalhos à luz de uma candeia de torcida curta que o ti Domingos e mais a Ti Natividade já estavam entre os cobertores e luz era coisa que não queriam... Mais a mais era preciso poupar.
Mas não... Escolinhas não ficou no tinteiro e, no exame, em Penamacor só trocou os afluentes do Sado, dizendo que os da margem direita eram os da esquerda. Também que interesse tinha? Se calhar ainda nem hoje o Escolinhas, que vive agora no Canadá, alguma vez viu o Sado e nem o Mira, o Xarrama, o S. Martinho e o Marateca. Era asssim e mainada.
Agora o que eu espero é que vós que me ledes não sejais burrancanas e vos espalmem o queijo dentro da bolsa.
Lá que vos queiram ir às nalgas, isso ... agora que sejais vós a pôr a manteiga!!!!
Toca a abrir os olhos e a ver se ninguém fica no tinteiro nem é burrancana.
Força! que o futuro está sempre à frente e eu já tenho saudades dele.

quarta-feira, junho 20, 2007

A NOSSA FALA - LXXXVIII - CATRINO

Todos nós vivemos e 'con vivemos' com inúmeras máscaras. Vamos ler a palavra: más + caras. Raramente as máscaras favorecem as pessoas. São sempre ou quase formas horripilantes, enrugadas, feias, adamastoras... Se assim é, cumpriria saber por que razão nós mudamos continuamente de 'más caras'.
Parece absurdo que tenhamos prazer em parecermos pior do que somos. Em vez de matarmos o pai para ficar com a mãe, como explica Freud, acabamos por matar a mãe e preferir o pai. É a inversão total dos valores pessoais. Creio mesmo que os psicólogos da motivação e , consequentemente do auto conceito e da auto estima, ficarão baratinados se analisarem em fundura esta problemática. Afinal eu sou claramente masoquista quando me transformo num outro ainda muito mais feio do que eu e nisso tenho prazer e até o demonstro porque não me coíbo de me apresentar aos outros assim tão horroroso. É caso para dizer CATRINO!
A terça parte daqueles que connosco convivem, ou com quem temos que conviver, vale pouco; o valor estatístico não é meu. Indubitavelmente, todos conhecemos nas nossas circunvizinhanças indivíduos queixinhas. Passam a vida a dizer lamechas, andam sempre doentes e até parece que andam a ler o SYMPOSIUM médico para saberem quais os mais adequados medicamentos para as mais esquisitas doenças. Enfim, são mesmo queixinhas...
Figura marcante desta postura de queixinhas foi a velha Passarinha, vizinha do velho Comandante e do Zé Sarrabeco, alfaiate e da Maritroncha, que antes queria ter um filho do que ir buscar um molho de lenha à serra. A alcunha adveio-lhe da profissão: era ela ia que buscar os bébés ao Fundão, como os pais explicavam aos filhos quando um novo rebento passava a pertencer à família.
Foi ela que me foi buscar a mim e à grande maioria dos de mais de quarenta que habitam a aldeia.
Naqueles tempos nascia-se muito - basta lembrar que chegou a haver cinco professores a trabalhar em simultâneo (Zé Paula de Campos, -Tanganho-Carminda, Guiomar, Zé Candeias, Libério, para servir de exemplo), e, como se nascia muito, a velha Pássara não tinha mãos a medir. Os seus serviços de parteira entendida eram continuamente requisitados.
Era Novembro adiantado, frio como um corno, água que Deus a dava,lapacheiros e poças de água, algumas caramelizadas, já noite de breu, o velho Chamiço sobe as escadas de pedra que davam acesso à porta da velha Passarinha, bate: "quem é?"«ó ti Rosa, alevante-se lá, que a minha já deitou as águas e está pra lá a berrar cas dores»"quem?"? «a minha, despache-se, catrino, cassenão inda o garoto cai pró chão». A velha Passarinha lá se levantou, acendeu um palito e a candeia de petróleo, rodou o chavelhão da porta, premiu o trinco, espreita para lá das agueiras bastas e lá vê o Chamiço aflito...."atão mas inda no está vestida?! despache-se lá, catrino, já tenho ali o carro, com os burros para irmos mai depressa.". « Já vou». Aquela gente não perdia grande tempo a mirar-se ao espelho, ou a preocupar-se com as relações entre as cores e os modelos: blusa de chita, para cima da combinação que se mantinha no corpo toda a semana, camisola de lã e xaile, lenço na cabeça, saiote comprido sapato de borracha, duas penteadelas e, ala! Apesar disso, o tempo parecia uma eternidade ao Chamiço: "Ande lá depressa! veja se se despacha!" Até o velho Comandante se chega ao cimo das escadas: "Que é lá isso!Tanto barulho, nem um home pode dromir!"«Ó ti João é a minha que já deitou as águas»... Lá surge a velha Pássara e o Comandante: "Rais a partissem, tanto demora a arranjar-se...em vez de se andar sempre a lamuriar, mexa-se!" «Cala-te que no é nada contigo, meu Comandante do Inferno dum raio que te parta» Eram assim os vizinhos...
Chamiço e Pássara lá desceram as escadas, às escuras, que luz não havia nem era precisa. A Pássara lá se sentou na traseira do carro, sempre a queixar-se, o Chamiço chega-lhe um saco de palha para ela não molhar a saia e espeta o ferrão nos burros que arrancam, espavoridos, lagariça acima, até ao coito do Chamiço. Pelos córregos dos velhos caminhos lá vão na velocidade possível, passam as oliveiras e a fonte de melão, sobem o frade, viram ao batcharel, contornam as portelas e lá estava a casa do Chamiço, com a luz acesa , ali mesmo entre castanheiros milenares. Ambiente perfeito, bucólico, calmo e só faltaria ali passar o Míncio, para Vergílio poder ser o poeta narrador deste acontecimento, em vez deste reles prosador.
Na noite molhada, os gritos da Chamiça rasgam os ares e a Pássara:" Eh! cachopa, olha que isto no é o fim do mundo"...pediu que lhe chegassem a luz mais perto, espreitou por entre as pernas da Chamiça, mete os dedos na boca do corpo, pede água quente num caldeiro lavadinho, panos crus, brancos, com fartura e toalhas.
«Daqui a cinco minutos tens mais um filho, ó Chamiço!» Começam as ordens: "arreda para lá esta cangalhada toda e põe-me aqui ao pé as bacias, a água quente e toda a roupa que te pedi" e a Chamiça dá mais um grito, a velha Pássara afasta-lhe as pernas, levanta-lhas quanto pode: "Vá, faz força, Catrino, faz força, vá, um, dois, três, força, catano, força, faz de conta que estás a mijar, força!Já lhe apalpo a cabeça, força!, catano, força! isso, força! e o cachopo lá veio assim de repente, a velha apara-o. "Catrino, ó Ana! tinhas razão...É um um belo cachopo!"
Era mais ou menos assim que se nascia neste país.
E que rijos que foram os nossos antanhos, catrino!
A única que viveu até aos noventa e tal sempre a queixar-se foi a velha Passarinha.

quarta-feira, junho 13, 2007

A NOSSA FALA - LXXXVII - GENÊTES

Eu não conheço nenhum trabalho científico, com ambição de exaustividade, que trate do processo de surgimento da “fala” popular, seja da “nossa”, seja de outra região qualquer. Teria de ser um autêntico Tratado linguístico, muito mais do que uma espécie de dicionário da fala popular porque não se poderia limitar à semântica dos vocábulos ou das expressões e à suas origens e evolução, muito mais que uma gramática porque não se poderia ficar pela morfologia, pela sintaxe, pela ortografia. Havia de precisar, se almejasse reconhecimento e credibilidade, de ir mais fundo na busca de tudo isso nos contextos em que são utilizados. Haveria até de se socorrer de algumas histórias onde eles ganhassem mais sentido, como se faz aqui no Baságueda. Fica já aqui o manifesto de total liberdade para o plágio de situações, episódios e personagens.

Vem isto a propósito da reflexão (intelectual!) suscitada por uma expressão que ouvi há dias à minha sogra. A cena passa-se lá em casa com a karraiazinha a encenar uma das suas monumentais birras, quando a avó se sai com esta.
- Ai o rai da garota! Tem cá uns genêtes!
Conseguimos apreender pacificamente de onde vem a maior parte das palavras e expressões que já foram tratadas em “a nossa fala”. O Changoto já tem tido a preocupação de se demorar nesse trabalho. Seja do latim ou do grego, a lei do menor esforço parece ser a regra principal, porque o povo é simples e gosta de coisas simples. Nós também.

Mas esta dos “genêtes” soou-me diferente. Porque atira para conceitos que, convenhamos, não estão propriamente na orbita da fala e da cultura popular, como “genes”, “génio”, “genética”. É absolutamente improvável que a autora da expressão alguma vez tenha contactado ou ouvido falar de um tal Darwin e de uma tal sua teoria sobre a origem e evolução das espécies. Mesmo levando em linha de conta o seu vasto e riquíssimo curriculum vitae em matéria de agricultura, designadamente no que concerne a hortículas, tão pouco se pode aceitar, nem como mera hipótese, que tenha visto nas suas ervilhas o mesmo que Mendel. Não merece a pena ir para além da simples referência à impossibilidade de qualquer contacto com algum escrito de Bateson. Adond’rai foi, então, o povo buscar palavra tão cara?

Um estudante tê-la-á utilizado numa reunião familiar alargada, em que toda a gente entendeu o sentido e depois adaptou o som e estendeu ao resto do povo? O Senhor Prior, no sermão eucarístico, ter-se-á perdido em considerações sobre a origem da vida – seguramente para discordar de Darwin – e, o povo católico, naturalmente integrou no seu léxico?

Fosse como fosse, o vocábulo faz parte da “fala” da terra dos xendros e à volta, e, tudo indica, há bastante tempo.

Já lá vão uns anitos, ainda José Socrates não tinha nascido, num domingo à tarde em que teve de separar uma bulha entre o seu Artur e o filho do Zé Púcaro, o Ti Armindo Estanqueiro desabafou com uma ponta de orgulho:
- O mê Artur tem cá uns genêtes… Ah! garoto dum d’rai…

Desde tenrinho que o Artur se revelava mais agitado do que o normal. Ti Armindo ia procurando amansar o cachopo à custa de muitas sovas de cinto e de trabalho no campo, mas ele não dava mostras de abrandar a genica com que nasceu. A avó Ressureição bastas vezes se esforçava para meter o fedelho ao rêgo, mas só conseguia que ele se virasse a ela aos pontapés. Por causa disso, já tinha ganho a alcunha de “batenávó”. Um dia, no tempo da lavra, o garoto foi posto à frente da burranca para a conduzir a direito. Como era de esperar, o Arturinho fazia de propósito para andar aos ziguezagues, na esperança de que o pai se chateasse e o mandasse embora para a brincadeira no povo. A dada altura, ia ele rente ao cômaro com o terreno do Batorelhas, viu o pai concentrado no percurso do arado, atirou com um torrão de terra aos olhos da burranca que se espantou para o chão do vizinho, arrastando arado e Ti Armindo que praguejava furioso:
- Ah! garoto dum filho do diabo quê rebento-te a alma, atão no vês o q’andas a fazer?
E o Arturinho:
- Filho do diabo é vómecei…
- O quêi? O que é q tu dexeste? - E começa a tirar o cinto das calças avançando firme para o petiz, a gritar – Quem é que é filho do diabo? Quem é que é filho do diabo?
À vista da correia o batenávó meteu os genêtes no bolso e respondeu baixinho:
- Sou eu mê pai

quarta-feira, junho 06, 2007

A NOSSA FALA - LXXXVI - GALULA

Ainda não há muito, os marmeleiros estavam floridos. Às pétalas da flor chama-se GALULA. A Galula é como o tremoço: por muito que se coma não enche barriga. Eu que o diga! Nos tempos em que era um ás do futebol, trinco com funções de médio de distribuição, fui um dia jogar contra o Eléctrico de Ponte de Sôr... Cada um de nós tinha recebido dez escudos para o almoço, que a organização só garantia a bucha depois do jogo. Eu e mais Varito, o pateta do Milhazes e o Força Hercúlea fomos a jogar bilhar e compramos cinco escudos de tremoço: era quase um alqueire. Comemos e jogámos e se não nos vêm chamar não dávamos pelas horas.
Foi chegar e equipar e ala para o campo.
O sal do tremoço e mais os fininhos que tínhamos mamado, juntos, com um sol de esturrar tordos às quatro da tarde, começaram a fazer efeito...
Nós éramos dos que não podíamos falhar: atrás de nós só o Tonho Bisga que era o guarda redes e hoje é médico. O pobre do Henrique Belejo, o velhinho, cansava-se na acarreja de água para nós bebermos.
Ficamos emparrançados, com o bandulho cheinho de água que até se ouvia o balanço quando saltávamos para cabecear o esférico (nome que eruditamente se dava à tchintcha )...
Fica o resultado: empate a 2 golos, sendo que a segunda parte durou 58 minutos até que o Eléctrico empatasse.
Por cortesia deixámos o troféu em disputa para o clube, que o que nós queríamos não era mais prolongamento nem penáltes, mas a bucha prometida. E que boas foram as achigãs grelhadas, fresquinhas da barragem de Montargil e quentinhas a sair do borralho... E o mais que veio a seguir para ensopar os almudes de água que tínhamos emborcado.

Mas... Volvamos ao Baságueda e à nossa querida xendrice.

Havia na Aldeia dois Tonhos Valentes: um morava no oiteiro, tinha um dedo saroto na mão esquerda e era, vá lá, um lavrador razoável, o outro morava no cavacal ali ao pé da cruz, era Guarda Republicano reformado e tinha uma hérnia bem destacada pelo que lhe chamavam o COBRADO. É esta a vedeta que hoje vos trago.

O homem era caçador mas ninguém queria caçar com ele. Tinha uma perdigueira a quem chamava DULCE que era a sua companhia. Amandinho Leitão, às vezes, lá ia com ele e o seu Piloto.(...)

Malinos como eram, Coiote Pete, Abraço de Bazuka, Chibeto e eu, está claro, combinámos um dia pregar uma das valentes ao Tonho Valente: o mais conceituado na opinião do Cobrado era eu. Ficou então decidido que eu me encarregaria de dizer ao Valente que estava uma lebre na cama na vinha do Corlha:"tu viste-a?" Vi, sim senhor, estava deitada ao toro da videira grande na ponta do fio que dá para o poço da figueira maranhoa. Já a lá vi mais do que uma vez!"Entretanto Coiote e companhia tinham ido ao quintal da vítima, roubaram-lhe um coelho e foram a atá-lo na tal videira com um baraço. E eu: " Vomecê bem sabe que ali passa muita gente e se o Ti João Toscano ou o Toco a vêem, são eles que a agarrram",« Bom , vou lá a ver... "Vá aqui pelo caminho do ribeiro cimeiro, entre por trás, por aquilo ali da Bate-orelhas, a passar junto à vinha do Caturra". Ele aí vai.
Eu corri pela estrada a avisar os outros, que se esconderam a ver a marosca. Lá aparece Tonho Valente com a sua espingarda de canos sobrepostos, de três tiros...Olha para a videira e lá estava o coelho. Atira-lhe um foguete, levanta-se pó e o coelho nem buliu. Deita-se a correr confirma que 'a lebre' estava lá caída e, lampeiro, vai a agarrá-la. Na sofreguidão nem reparou que era o coelho e ainda por cima seu! quando o quer puxar fica-lhe preso pelo baraço ao toro da videira:«Querias galula, tonho Valente! querias galula! e riam-se a perder, fora da vista dele...
O General Mola, alcunha por que era conhecido o nosso Tonho Valente, ainda assim, meteu o coelho na bandoleira para não se perder tudo... Arrancou pelo caminho velho do ribeiro cimeiro a praguejar. Ia preado...
Entretanto Chibeto e Coiote já tinham vindo para a frente e espetaram uma pele de lebre na porta da loja do General.
Eu fiz-me de novas quando, com o meu inefável carrinho quadrado ia levar uma bilha de gás à casa de Cum Filha da Puta, que era vizinho: «Anda cá, garoto do catano! Nunca esperei isso de ti!,atão tu fazes-me uma destas?! e eu:"Que mal é que eu fiz? a consciência não me acusa de nada." «Disseste-me que havia uma lebre na vinha do Corlha..." «e havia,vi-a lá mais do que uma vez...» "olha o que lá estava!olha!" «olhe ali a pele da lebre espetada na sua porta!Isto foi malandragem de gente sem vergonha». Aproximou-se e viu a pele da lebre que tinha um papel escrito: a lebre estava ao toro da videira, mas quem a papa sei eu!
Eu queria estoirar a rir mas lá me consegui conter.
É a vida!