terça-feira, fevereiro 06, 2007

A NOSSA FALA LXXVI - Mãos ENGADANHADAS

Naquela noite, tinha caído um códão daqueles comédado. Albertino Chinchas levantou-se cedo para cumprir o compromisso firmado com o seu compadre Mnel Alma de Sino de lhe matar o marrano, como era hábito. De Verão ou de Inverno, Albertino gostava de vir lavar a cara na água do tanque que mantinha quase sempre cheio com água do poço. Bastas vezes, no Inverno, tinha de partir o caramelo com um martelo para chegar à água, mas ele sentia um prazer masoquista quando sentia os tomates a encolherem-se dentro das calças quando mergulhava a cara na água gelada. Acreditava que o acto de coragem era significado de virilidade e que a reacção dos testículos era sintoma disso mesmo.

Ainda com as mãos engadanhadas, preparou a vianda dos seus porcos em dois caldeiros que despejou em duas pias de pedra granítica. Já a caminho da casa do compadre reparou melhor na russa reluzente que cobria os campos: "Tá cá um códão!", murmurou, o que o arreganhou ainda mais, aconchegando instintivamente o pescoço no pêlo da sobrepolis.

O compadre esperava-o com um borralho vivo onde já fumegava um caldeiro farrusco engatado nas correntes que desciam da chaminé, e com o púcaro de aguardente quente com açúcar, a fumegar. A salvação foi imediatamente seguida da oferta de uma caneca e do púcaro. Arreganhado como estava, Albertino encheu a pchorra de cogulo que sorveu em pequenos goles, concentrando-se na sensação que o líquido provocava quando passava pela gola. Havia de emborcar mais duas pchorras, em resposta à insistência da comadre e para acompanhar os manos Alma de Sino e o tio João Alma de Sino que entretanto chegaram.

O calor que as 3 canecas de aguardente quente doce lhe emprestavam às tripas contrastava com o barbeiro da rua quando se foram todos ao porco. As mãos rapidamente voltaram a ficar engadanhadas dificultando a destreza e a força que era necessária para tratar da saúde ao reco. A coisa não começou da melhor maneira porque o animal se recusava a permitir que lhe metessem o laço na boca. Albertino bem lhe coçava o coiro com um toro de giesta e lhe chamava carinhosamente "f(e)cá, f(e)cá", mas o bácoro só cedeu quando alguém se lembrou de enrolar uma couve ao cabo de aço e ele a abocanhou. Também não correu muito bem o trabalho de deitar o bicho na banca, porque alguém não fez força bastante e tombou tudo, animal e banca. Quando finalmente o mamífero omnívoro ficou (mais ou menos) imobilizado, Albertino Chinchas pregou uma valente palmada nas nalgas do suíno, como faz sempre a todos os que vai matar e aprontou-se para lhe espetar a sua navalha matadeira de tachas pretas. Aqui, a coisa não correu melhor porque, pela primeira vez na sua longa experiência, o fio da navalha não encontrava a artéria devida. Os grunhidos e as sacoladas desesperadas do animal eram dificilmente contidos pelas mãos engadanhadas do compadre e dos filhos enquanto Albertino, desacorçoado, não parava de praguejar e chamar nomes impróprios ao porco. Em desespero, forçou a mão com intenção de espetar a navalha no coração do animal, mas uma sacolada mais vigorosa fê-la largar para dentro do corpo do bicho. Nesta altura, o compadre entendeu tomar uma atitude drástica: agarrou na marreta e desferiu duas valentes carchantadas na testa do animal. Não foi por isso que a"meloreja e o arroz do osso da suã não lhes souberam bem.

O curioso desta história, diz quem assistiu, é que a navalha não foi encontrada quando se abriu o porco, vindo a aparecer dois meses depois numa saca de batatas de semente “rambana” que o Albertino comprou a um comerciante do Soito.

Esta deveria ter dado direito a choradela de Entrudo. Mas já ninguém chora o Entrudo.

domingo, fevereiro 04, 2007

A NOSSA FALA LXXV - PIXOTES

Parece que temos andado com as mãos um bocado engadanhadas aqui no Baságueda.
Isto só lá vai com uma pchorra de aguardente quente e açucar, aquecida em púcaro de barro no borralho da aldeia.
Em jejum.
Se calhar, somos homens para acompanhar com 3 figos secos cada um...


(A ausência também teve a ver com umas alterações técnicas determinadas pelo google que obriga a aceder ao blogger através de uma conta diferente e que atrapalhou a vida aos pixotes que aqui debitam letras e palavras. Cá o karraio (um pixote) já conseguiu resolver o problema, mas o changoto (outro pixote) ainda não.
A ver vamos se a receita da aguardente quente doce nos ajuda a desengadanhar as mãos. E a alma.)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

A NOSSA FALA LXXIV - estar DESERTO por

Vamos ao latim. Tem que ser. Afinal, essa língua, hoje em vias de extinção, sempre é a matriz maior do nosso léxico. A raíz do termo é o supino do verbo desidero, isto é DESIDERATUM. Passaram-se alguns fenómenos fonéticos dos quais se enumeram alguns: queda do M final (apócope); abrandamento do U para O por ser pós-tónico : ficou DESIDERATO; as coisas agora são mais complexas mas abreviam-se: o D intervocálico sofre uma síncope(cai) e fica-nos desierato; o e assimila o i de forma regressiva e fica deserato; a tendência natural para que as palavras em latim tenham o acento o mais recessivo possível, salvo quando as regras da acentuação o impedem, levou a uma alteração da tónica do a primitivo para o e, que agora, devido à assimilação do i, ficou uma vogal longa, o que conduz, inevitavelmente à síncope(queda) do a e cá temos DESERTO.
Até vós já estáveis desertos por que eu voltasse. Cá estou de novo. Há alturas da nossa vida em que outros valores ocupam a nossa faina. Foi o caso. Mas também eu estava desertinho por volver aqui ao nosso convívio.
Kant defendia que o homem tinha três dimensões: a animalidade, a racionalidade e a personalidade. Na primeira, que não diferenciava o homem dos outros animais, considerava que eram três os instintos que cometiam ao homem: a conservação, a reprodução e a agregação.
Os estudiosos das motivações humanas colocam as mais vitais na base da pirâmide e é curioso que, se colocam a conservação, não consideram nesse nível as reprodutivas. Vamos lá a saber porquê!
Os factos que constatamos no mundo à nossa volta e corroborados por documentários ao vivo e ainda por teorias actualíssimas reforçam a decisiva importância da função reprodutora. Ou não é verdade que os machos zelam ciosos pelo seu espaço territorial e que toda a sua vida é dirigida para uma única missão: transmitir os seus genes, ou o que dá na mesma, eternizarem-se, já que o seu sangue continuará a correr nas veias dos seus descendentes.? Lutam às vezes até à morte pelo controlo do maior número de fêmeas. É o gene egoísta. Os machos solteiros, logo, não dominantes, estão desertinhos por substituir o seu progenitor no posto...
Também Freud, na sua curiosíssima leitura da importância do sexo na construção da personalidade humana recua aos tempos das hordas primitivas dos nossos antepassados: os machos adultos, titulares das fêmeas em reprodução expulsavam, castravam ou mesmo matavam, os seus rivais pretendentes ainda que fossem sangue do seu sangue. O sexo é como a fé: é cego. Então, os irmãos, todos filhos do mesmo pai, ainda que de diferentes mães juntaram-se e, todos à uma, atacam o pai, matam-no e comem-no; assim, nenhum deles seria culpado porque a sua culpabilidade se diluía no conjunto e, ao mesmo tempo, ao comê-lo, herdariam dele a virilidade que lhes possibilitaria a transmissão dos genes. Só que ao matarem o pai ficaram com as irmãs e com a mãe e se se reproduzissem com a sua própria mãe (coisa que não é tão rara quanto isso, desde o mito de Édipo até a algumas espécies onde é comum a partenogése) então cometeriam o incesto e a sua consciência, apesar de incipiente, não deixaria de os martirizar acusadoramente. Levam então mães e irmãs a outro clã e trocam entre si as fêmeas evitando a consanguinidade. Ainda se constata isso hoje na maioria dos selvagens e até nalguns domésticos, como os coelhos que se tornam canibais, muitas das vezes para impedir que os seus lugares de reprodutores sejam preenchidos.
Não há dúvida: o importante é a reprodução.
Acontece que o acto reprodutor causa prazer...
Descobertas recentes têm vindo a confirmar que a zona do cérebro onde se origina o prazer é exactamente o mesmo que gere a vingança. Não admira, pois, que sintamos prazer quando nos vingamos de alguém que nos fez mal ou quando algo de mau acontece a um qualquer que de nós troçou em tempos idos. Estamos mesmo desertinhos que lhes aconteça pior que a nós. E que gozo sentimos nisso!
Foi assim que aconteceu comigo: fui com Tonho Raposinho, Mnel Barril, Tonho Teixeirinha, Neto do Arplano, Chico Botas e Zé Gramacho, ali para os lados da Quelha Funda, ao fim de missa, num Domingo, Agosto já entrado, à procura de ninhos de melro por essas vinhas, na altura muito melhor tratadas do que hoje. Tempos.... Ora acontece que quando íamos ainda no caminho , perto daquilo do Melgo, no carvalhal do Raposo, o Botas dá de caras com ninho de gaio num ramo dum carvalho. Tinha visto sair a gaia e apercebeu-se que os gaiozinhos já tinham corpo para levar umas areias de sal num bom lume de borralho. Os carvalhos andavam, naquele tempo, bem esgalhados, à uma, por mor da lenha para aquecer a panelinha de ferro e, à outra, para que não fosse fácil roubá-los. Eu era meio tropa-gatos e decidi-me por ir lá acima tirar o ninho ao gaio. Eles ajudaram-me a embarrar e depois foi só comigo. Trepo por aí acima deito as mãos ao cruito do carvalho, começo a vergar para fazer de mola e o peso sobre a pernada onde estava o ninho não ser muito, quando, de repente, venho eu, o cruito do carvalho a pernada e o ninho, tudo em monte, até ao chão. Conferi aí aquilo que o velho comandante dizia: "o chão é um gajo porreiro: apara tudo!"
Por sorte não rasguei nenhuma peça de roupa mas o corpo ficou todo dorido e a manga da camisa suja quanto bastasse para ter de dar explicações quando chegasse a casa. Além do mais, fiquei um pouco sem conseguir respirar mas ouvi o Gramacho:" bem feita, não tinha nada que ir tirar o ninho!"Se não estivesse tão falto de ar tinha-lhe ido aos fagotes ali mesmo... Mas.... a vingança serve-se fria.
Um dia de Inverno, caramelo suspenso em forma de estalactite dos beirados, a mãe do Gramacho precisou de uma bilha de gás. Lá arranco eu com o mais que famoso carrinho quadrado direitinho ao arrabalde do Guerra e à casa do Gramacho. Tinha a casa umas escadinhas de acesso em granito, e como não estavam muito bem polidas a água gelou nas poças. Eu sabia que o Gramacho estava em casa e que usava umas botas cardadas com brocha espanhola que aquilo parecia um sino quando batiam na calçada. Disse-lhe da porta:" o Zéi, traz aí a bilha vazia que é para levares esta cheia aí para o fogão." Aí vem o Gramacho com a bilha, desce para o patamar das escadas e - haja Deus! - logo no primeiro degrau escorrega de chapa e cai um bate cu que chegou ao fundo sem precisar de galgar qualquer outro degrau.
Caladinhamente disse cá para mim: "bem feita!é para te lembrares de quando eu caí do carvalho. Agora já sabes o que dói!"
Não há dúvida: o centro nervoso do prazer só pode ser o mesmo o da vingança.
O mesmo se passa com a humanidade no seu todo: quantos foram que vibraram de prazer quando viram Hussein pendurado da corda! mais que todos deve ter gozado aquele que malevolamente colocou as imagens na NET. Crime mais que hediondo.
Agora dizei lá que não somos radical mente velhacos!
Um XXXXXIIIIIIIIII.

sábado, dezembro 30, 2006

ANTIGA FALA - GAUDETE



Gaudete, gaudete!
Christus est natus
Ex Maria virgine:
Gaudete!

Tempus adest gratiae,
Hoc quod optabamus
Carmina laetitiae
Devote redamus.

Deus homo factus est
Natura mirante,
Mundus renovatus est
A Christo regnante.

Ezechielis porta
Clausa pertransitur
Unde Lux est orta
Salus invenitur.

Ergo nostra contio
Psallat iam in lustro,
Benedicat Domino
Salus Regi nostro.

Steeleye Span

(Pareceu-me oportuno revisitar estes velhos conhecidos. Admite-se que o sotaque não será dos melhores, mas o jogo de vozes é interessante para um grupo de folk.
Se quiserem a tradução, peçam aí ao changoto.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A NOSSA FALA - LXXIII - ANDAR IR

Ide todos à porfia. Andar ir...


A intenção era colocar o som de "Entrai pastores entrai", versão do coro xendro.
Não estando ainda disponível na net, em alternativa, ficou:
Hark! the herald-angels sing
F. Mendelssohn
Gravado na Capela da Universidade de Coimbra em Dezembro de 2002

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A NOSSA FALA - LXXII - MANCAR

O Homem é, por natureza, agressivo. O seu cérebro reptiliano sobrepõe-se a qualquer adorno civilizacional. Kant bem bradava que era o MAL RADICAL que caracterizava a natureza humana; Nietzsche, curiosamente anti kantiano na sua essência, acabava por concordar com o chinês de Konigsberg (o mesmo Kant), quando acarretou para o mundo da filosofia os conceitos de VONTADE DE PODER e de INSTINTO VITAL. O que nos caracteriza de modo a não deixar qualque dúvida é que nenhum de nós gosta de ficar por baixo. Se nos pisam, logo clamamos:"o de baixo é meu, o de cima é de um judeu". Foi assim que, um dia, Montes Hermínios e Zé S. Marcos (curiosamente fazia anos a 25 de Abril, dia do santo e da revolução das forças armadas) se pegaram: S. Marcos tinha descido a barreira do Oiteiro ainda meio atarantado dos vapores da bebedeira da noite anterior, embolsa umas quantas escarretas, ardulha-as e atira-as para a terra pisando-as com a bota cardada, usual em dias de domingo invernal. Estava" frio como um corno", e, naturalmente, encostou-se ao muro do Geadas, velho resmungão que, quando bradava da curva do aidro, se ouvia em clarinho ao cimo da barreira da escola, paredes meias com a Tonha freira, vendedora de queijos nos intervalos de missas, lausperenes, terços e outras ocupações em prol da eclésia. Uma verdadeira beata. Tonho Lindo, vizinho aposentado da G.N.R. dizia mesmo:"isto, mulher que ande debaixo de saia de padre e sempre a bater com a mão no peito, é valhaca como as cobras".
Estava então o S. Marcos encostado à parede do chão do geadas, apanhando os raios de sol daquela manhã, aí por obra dessas dez horas, batendo ora uma bota ora outra e esfregando as palmas das mão e sempre resmungando: está um frio dum corno. Montes Hermínios vinha ainda com os olhos remelados - aquela cara já não via água havia para aí uns dez dias e o corpo, esse, pelo menos havia um ano. A cinquenta metros já se sabia que ele estava a chegar: quando ia ordenhar as ovelhas aquelas que podiam afastavam-se tal o perfume que Montes exalava!- S. Marcos dá-se conta e "ó cerdo, nem ao domingo mudas de ceroulas?!" Ainda por cima especou-se na frente de S. Marcos, que estava a MANCAR a filha mais velha do Mné maneta que vinha encher o cântaro ao chafariz do batoco. «Cachorrinho de al de ol, tira-te da frente do meu sol». E Montes" O sol é de quem o apanha não é de quem se encosta...«Ó mê cabrão de merda, se querias este lugar tiveras vindo mai cedo, ora o filho da puta». Montes chega-se ao Zé pisa-lhe as botas cardadas, borra-lhas todas e acalca: «vê lá se queres que te faça já aqui a cama!» S. Marcos:" o de baixo é meu e o de cima é dum judeu" e cospe mais uma escarradela bem enrolada. Aí Montes espeta uma estampilha ao S. Marcos... pegaram-se assim comédado e a filha do Mné Maneta que se tinha ajudado sozinha ao cântaro para a molídia, especou-se a MANCAR a espapada. De soslaio S. Marcos, que já havia muito andava de olho na Celestre, bota as unhas ao gasganete do Montes Hermínios, aperta-lhe o papo com toda a alma e espeta-lhe uma cabeçada no nariz que lho deixou a sangrar ..." Logo mas pagas mê cabrão" gritou o Hermínios, que, contra vontade, teve que mexer na água.
S.Marcos afoitou-se:"olha lá, Celestre, tu queres que eu vá a casa a buscar o carroço de ir à fonte e levo-te o cântaro ao cavacal?". Ela mancou-o de alto a baixo:"toma tino!" voltou-lhe as costas e desandou...
Vamos lá analisar esta situação: S. Marcos tinha chegado ao ponto mais alto do seu auto conceito quando partiu as ventas ao Montes e agora é afundado literalmente por aquela por quem, à noite, na enxerga de palha, tantos caibros já tinha contado... Achais vós que vos ficáveis assim? Nem S. Marcos! O seu instinto vital vestiu as garras, deixou-a dar a curva do Nicas, correu estrada acima, salta o portão do Brigadeiro, sobe a uma parnada da figueira curiga junto à parede, busca uma pedra redondinha, saca da funga (=funda=fisga), aquece os elásticos distendendo-os, mira pela forcalha a ver se apanhava bem o caminho por onde a Celestre havia de passar, espera o melhor momento, estica o elástico, solta a sola da mão e o projéctil acerta em cheio no cântaro de barro da Celestre que se escaqueirou, proporcionando-lhe um banho integral. A velha Bate-orelhas, que estava escanchada na porta da furda do porco do Coelhinho a dar uma mijadela antes de missa, "isso foi o câncaro do barro, a mim outro dia, ia pra beber uma pinguinha de água, mal rocei com o copo de resmalde na barriga do cântaro e ele escavacou-se. É o câncaro do barro, dixe-mo o home de Alcafozes que aí vem a vender talhas e escoureiros, e malgas e tudo. Até lhe comprei lá um pucheirinho pra fazer o café de borra. Tive que lho encher de feijão grande duas vezes! Maldito negro!"
Celeste nem ouviu nada....botou-se a correr a ver se S.Marcos ainda estava a apanhar o Sol encostado ao muro do Geadas. O S. Marcos, mancou-a logo e"ala que se faz tarde", arranca estrada abaixo e quando a Celeste lá chega, estava ele a fingir que apertava as botas, mas sempre mancando o que ela faria...."Depressa chegaste a casa com o cântaro... parece que vens toda sueda!"
«O que gostava de saber é quem foi o urso que me partiu o cântaro! » "Eu inda daqui no saí!"no penses!"
Como se vê, só nos sentimos realizados quando ficamos por cima e podemos cantar vitória mesmo que isso seja à custa dos outros. Melhor: sempre à custa dos outros.
A humanidade é mesmo velhaca; nunca resolveu o problema mais simples: viver em paz. Todos sabemos que é mais barato um século de paz do que meia hora de guerra. O que se verifica é que nunca conhecemos meia hora de paz!
Culpamos o S. Marcos pela atitude que cometeu: somos inquisidores. Todos nós somos fiscais do outro e se o pudermos calcar para que nós fiquemos mais altos aí nem há dúvida.
Andamos sempre a mancar-nos uns aos outros e aparecer oportunidade de o achincalharmos, sentimos um prazer maquiavélico.
Ainda assim não desisto de procurar e mesmo manquinho ainda vou mancando alguns patifes, mas também - haja esperança!- MANCO gente com quem vale a pena conviver. São esses que figuram nos meus amigos... Quereis pertencer a esse grupo? Procurai viver em PAZ!
XXXXXIIIIIIII GGGRRRAAAAANNNNDDDDDEEE!

quinta-feira, novembro 23, 2006

A NOSSA FALA - LXXI - GANDULO

Muitas foram e continuarão a ser as definições de homem: desde o famoso animal racional de Aristóteles, até ao bípede de Platão que levou a que um cínico lhe apresentasse um galo depenado " aqui tens o animal bípede", e, depois, outras definições como o de animal emocional, como diz Goleman, mas de todas, se calhar, a mais repetida é a de que é um mamífero, da ordem dos primatas.
Tudo bem; mas o que hoje aqui vos quero trazer é mais que um mamífero: é o mamão. Aquele que anda sempre à mama, à babugem... Conhecei-lo? Há por aí muitos... olhai à vossa volta. Um terço dos que convosco lidam são roupa afinada desta. Verdadeiros mamões. Os Xendros metem nestes os gandulos: os que andam na gandulagem, não fazem nada, espreitam oportunidades, perdem toda a vergonha, vadiam quanto baste, mas, o certo é que não lhes falta nada. São uns artistas estes mamões.
Por natureza, os portugueses só trabalham um bocadinho hoje para ver se amanhã fazem menos ou, se possível, nada. É por isso que, proporcionalmente, de entre todos os países da Europa em que se aposta no euro-milhões, os portugueses ocupam a linha da frente.
Quando se pergunta a um apostador o que faria com tanta nota o que ouvimos? "Dava uma volta ao mundo, fazia uma casa com piscina e tudo, arranjava um bom bólide, arrumava as botas, dedicava-me ao remanso,..." Somos ou não uns madraços, uns mamões.O que queremos é andar na gandulagem.
Se eu fosse o bafejado - coisa improvável de todo porque, ao todo, participei apenas três vezes em listas de grande quantidade de apostadores num total de cinco euros, nem mais um cêntimo - se me saísse a mim, então podeis ter a certeza que eu continuaria a trabalhar normalmente - não sei não fazer nada -, havia de criar trabalho para muita gente, com salários dignos de seres humanos, e condições de trabalho em que daria prazer dar esforço. Podeis crer que seria assim...Gandulos é que não entrariam.
Só que não me sai e, portanto, o número de desempregados continua a aumentar assustadoramente. Se credes nalguma divindade, rezai-lhe para que interfira a favor dos números em que vou apostar dois euros para a semana e pode ser que sejais vós, leitores amigos, alguns dos que poderão vir a beneficiar destes meus sinceros intentos.
Vem-me à memória a história de dois amigos já encharcados de tinto e aguardente:« se eu fosse governo, dizia um, o litro do vinho só custava 5 cêntimos » e o outro «eu punha o copo de aguardente do tamanho dos do vinho e a 10 cêntimos»...Nisto caem e diz o primeiro:«ora porra, agora que o governo ia tão bem é que caíu». Riram os dois e melhor solução não haveria, digo eu.
Se agora vos deixasse aqui alguns nomes de mamões e gandulos, a lista seria tão grande que calejaria os dedos com que bato as teclas e vos cansaria com esse relambório. Assim deixo a lista à vossa completa liberdade de decisão e selecção.
Se me sair o euro milhões logo o sabereis, que eu, como pessoa educada e bem criada que sou, comprarei um minuto em cada uma das televisões de sinal aberto, e agradecerei o vosso gesto de terdes contribuído para o aumento do emprego em Portugal e para mais um pouco de menos dores de cabeça minhas, pois assim já não me irá sobrar mês e faltar dinheiro... Podeis ficar cientes disso...
Assim já ninguém tem o direito de me chamar gandulo.Isso nunca!
Deixo-vos o habitual XXXXXXXIIIIIIIIII GGGRRRRRRRAANNDDDEEEE.

quarta-feira, novembro 08, 2006

A NOSSA FALA LXX - JÁ HÁ CABONDE

Ainda não entendi muito bem porque é que a Páscoa é uma festa móvel... Parece que tem a ver com o aparecimento da lua cheia em Janeiro. Se esta aparece cedo nos céu do Januário - do deus Jano, deus com duas caras, uma virada para trás a olhar para o passado e outra para a frente a abrir as portas do futuro, que quando as portas do seu templo estavam fechadas significava que Roma estava em paz e quando abertas que Roma estava em guerra - (ao que parece só se fecharam por dois dias) - a matança do anho era também cedo; se o satélite tardasse a aparecer pleno, então, o borrego só era festejado mais tarde e as farinhas nas portas só se punham nessa data... Esta farinhas chamadas MOIOS, eram postas nas portas de entrada das casas e queriam desejar aos que nela vivessem a fartura para o ano que se iniciava. Convém dizer que um moio valia 60 alqueires e assim quem tivesse sete bolinhas de farinha amassada espalmadas na porta sabia que alguém desejava que ficasse com sete vezes a semente semeada.
Se a porta não fosse assinalada era porque nada de bom se augurava para aquela família e acontecer-lhe-iam as desgraças que aconteceram no Egipto com a morte dos primogénitos às famílias que não tivessem sido ungidas com o sangue do cordeiro imolado. Ainda hoje na liturgia sacra mais significativa do catolicismo se chama a Cristo o Cordeiro de Deus e se lhe pede a paz.
As interinfluências sagrado/profano, ou, no mundo ocidental, mais estritamente, as interinfluências paganismo/judaísmo-cristianismo, se bem que sejam de todo o tempo e ainda hoje seja fácil constatá-las, tiveram maior impacto na pré REFORMA, nos tempos dos Goliardos, esses minadores do stablishment que a Igreja Romana Católica Apostólica desde a sua fundação, e ainda hoje, sempre quis impôr.
Os sucessivos Concílios, com o estabelecimento de dogmas e mesmo as Encíclicas, essas famosas carta ecumémicas, normalmente documentadas com citações pouco menos que pré históricas - o que desde logo atesta da sua actualidade! - e, ao tempo, o aparecimento, como tortulhos em períodos de humidade, das famosas ordens religiosas, mendicantes ou não, tudo, completado por um altamente poderoso Santo Tribunal da Inquisisição, foram algumas das diferentes formas pelas quais o sacro quis vigiar, controlar, martirizar o profano. Aquele que ousar divergir do pré determinado pela hierarquia religiosa tinha que se haver com esses esbirros que tudo queriam subjugar... Os autos de Fé superabundaram...
Por outro lado não é menos verdade que o profano jamais abdica de muitas das suas crendices e a religião dominante, se quer penetrar nos hábitos tradicionais dos povos, tem que saber lidar com essas crenças e aceitá-las torneando-as depois. É assim que muitas das datas mais sagradas só se explicam com o conhecimento das anteriores práticas pagãs.
Costume que ainda hoje se vê nalgumas povoações - cada vez menos - é a chamada Visita Pascal. No Domingo de Páscoa, à tarde, depois do almoço, normalmente um pouco melhorado, juntava-se a malta junto à casa do Sr. Prior e começava-se a visita a cada um dos lares da povoação: o pároco de sobrepliz e estola, um rapazola com uma opa levava a cruz a qual era ladeada por duas lanternas também transportadas por rapazes com opa. Um outro levava a campainha com que se assinalava a passagem dos visitantes, sempre ladeado pela caldeirinha da água benta e respectivo hissope. Uma outra quantidade razoável de rapazes - nunca entravam raparigas nesta visita - ia armado com cestos, cabazes, açafates, caixotes, bolsas,..., destinados à recolha dos diferentes produtos com que os donos das casas presenteavam os visitantes: queijos frescos e/ou curados, enchido diverso, galos e galinhas, nozes, figos secos, vasilhas várias com azeite, vinho, jeropiga, ... Duma vez até deram um reco pequeno...
Um dos do séquito, ligeirinho, entrava na casa, via o que havia e dava a ordem para avançar o par a quem competisse a recolha. Assim, se fosse queijo avançava o caixote dos queijos, se fosse dinheiro arrancava a bolsa do mealheiro, se fosse galináceo logo surgiam os cestos de tampa para a recolha,...
O Sr. prior aparecia, pegava na cruz que lhe era cedida pelo seu portador, não sem antes ter aspergido a casa com o hissope da água benta, oferecia-a para que fosse beijada pelos moradores que de joelhos em círculo aguardavam a oportunidade. Não raro havia convite para um bolo de leite, um figo seco com noz, uma jeropiga ou um copinho e, nas casas mais abastadas, lá aparecia um pequeno petisco que a rapaziada devorava em menos que demora a dizer.
À noite, toda a malta estava estafada e era oferecido pelo sr. prior um jantar a que tinham acesso todos os participantes nesta visita.
É aqui que aparece o JÁ HÁ CABONDE: vinham as travessas para a mesa e o sr. prior fazia questão de nos ser ele a servir : a colher de pau enterrava-se no arroz de miúdos e despejava-se no prato de cada um. O pároco punha sempre os pratos de cogulo. O Chquim pardalim quando vê tanto arroz: chega! e o tonho bate-sacas: alto! e o fainica: já há cabonde. Ficou o grupo desse ano conhecido pelo alto!,bonda! já chega!. Houve risada geral e o tonho maregas, que já era assim mais crescidote e já tinha mamado uns púcaros durante a visita estava já meio entornado. Eu, sorrateiramente, desci à loja da casa da paróquia parti uma botelha porqueira das pequenas em talhada fina e levei para cima numa travessa a fingir que era melão casca de carvalho. Fingi que era uma maravilha e o maregas foi-se logo a ela como gato a bofe. Louvou a rijeza do pseudo melão e repetiu a façanha. Até o padre se riu e se não fosse o paz d'alma do santinho a dizer" já há cabonde", era certo e sabido que o Maregas enfardava ainda mais uns nacos de abóbora porqueira. Um gozo, foi o que foi.
Ainda agora eu que revivo esta situação sinto algum gozo. Mas não penseis que estou a gozar convosco. As coisas foram assim como vos contei...
Um XXXXIIIIGRRRANDDDEEE!

domingo, outubro 29, 2006

A NOSSA FALA LXIX - (A)REPELINDO

Namorar no antigo regime não era nada fácil, às vezes era quase tão perigoso como dizer mal do Salazar. Que o diga o Tonho Jaja Nova, moço humilde e de posição social modesta, que bem mereceu a vitória da conquista da sua C’ceição.

O processo de escolha do cônjuge era moroso e delicado porque havia que enfrentar e vencer vários adversários: a resistência da donzela, a desconfiança do pai e da mãe (não necessariamente por esta ordem), a concorrência dos pares (proporcional aos atributos físicos, patrimoniais e sociais da donzela), e os tabus de todos (este todos quer designar o “povo”) que fazia questão de exigir ao mancebo prova da sua seriedade.

C’ceição, filha de Xquim Choças e de Strudes Forca dos Ratos era moça bela, com tudo no sítio, bem colocado e distribuído nas medidas e proporções adequadas. Também era arisca como lhe ensinou a mãe, mulher pequena e redonda, de bigode fino e língua afiada para a maledicência, malina em pensamento e acções, autoridade máxima e incontestada da casa. Xquim choças, homem seco de carnes, há muito que se tinha vergado ao regime que a mulher impunha, respondendo com o refúgio na quinta na Lameira da Pinta, complementado na borracheira dominical na Tasca do Fatela, assumindo o sermão certo da ceia que nesse dia nunca tomava. Mais tarde, fechada a tasca do Fatela (e as outras também) mudou-se para o café da Rosa, com quem fez um trato: ela tinha de lhe servir o vinho em chávena de café. Chegava a tomar 20 cafés numa tarde. Mas voltemos à questão dos namoricos no antigo regime.

A coisa começava por fazer várias aproximações exploratórias à donzela, habitualmente no balho do domingo. Tonho Jaja Nova passava a semana repelindo que chegasse o dia para poder estar junto da amada. Logo que se armava o balharico, posicionava-se estrategicamente nas proximidades da C’Ceição para ser o primeiro a pedir-lhe a dança, mal o Ti Mnel Ceguinho arranhava as primeiras notas na concertina. Na corrida estavam vários abutres como o Xico Catorze, o Jorge Pirolito e o Luís Varinha d’Arado. A este último chegou a partir o nariz numa bulha de final de balho, porque o outro lhe atirou que ele não era homem para a C’Ceição: “mas sou homem p’ra ti ó paspalho”.

Feitas as primeiras aproximações, punha-se em marcha uma estratégia de publicidade da imagem junto do progenitor a quem, como quem não quer a coisa, se pagava um copito na tasca do Fatela, e junto da progenitora, a quem, como quem não quer a coisa, se informava que se ela não tivesse lá couves para pôr, ele arranjava-lhas, penca de chaves, bacalã ou de sete semanas, “como vomecêi quizer, ó Ti Strudes”. Em complemento, recorria-se a informadores privilegiados a quem se encarregavam de fazer chegar cartas (verbais) de recomendação (“o Tonho é bom moço, é poi, sério e trabalhador, inda no outro domingo o vi eu a esborralhar a vinha do pai, e deu conta dela sozinho”.

À donzela competia resistir aos avanços do mancebo, mais nas primeiras tentativas, reduzindo gradualmente ao longo dos 4 ou 5 meses que levava o rapaz a arranjar coragem para lhe pedir namoro. A fase seguinte, igualmente delicada, era o pedido de autorização ao progenitor, que era preciso enfrentar esperando que o investimento dos copitos na tasca do Fatela tivesse o seu retorno: “Olhe lá T’Xquim, vocemessêi sabe qu’ê gosto da su C’ceição, e atão ê queria-lhe pedir qu’ma deixasse namorar cá in casa. Ande qu’ê no stou cá pa brincadêras… ”. O deferimento havia de vir, naturalmente, da Ti Strudes, sensibilizada com as couves penca de chaves, e com a novidade que eram as sementes de courgetes que o Tonho lhe havia oferecido. Mas isso não a inibiu de proferir com ar sério e ríspido: “ôlhér quê no quero cá poucas vergonhas! Bem...”

A noite de 4ª feira era oficialmente dedicada ao cortejo, tirando, claro, os balhos do domingo à noite. A censura, personificada na Ti Strudes, posicionava-se na cozinha, atenta ao que se passava na sala, onde Tonho e C'Ceição se enfrentavam de cada lado da mesa de jantar tapada por uma toalha de linho bordada à mão e jarro de flores ao centro, sentados em cadeiras de verga. Nas primeiras vezes, olhavam-se timidamente. Às vezes também conversavam. O tempo que estava a fazer e que iria fazer e seus efeitos na agricultura era tema recorrente. Em alternativa, havia o sempre fértil e inesgotável tema da vida na aldeia.

A medo, entrelaçavam as mãos. Não se usava ainda o cruzamento terno de olhares e a expressão “tens uns olhos tão lindos!”. Fora de questão estava encostar lábios e roçar línguas, muito menos apalpar fosse o que fosse… A prevaricação corria o risco de ser sancionada por descompostura da matriarca “Pscht! Ó meninos qu’arraio de pouca vergonha é essa?, tâmazi?”, ou à desaprovação social, com terríveis consequências no mercado de escolha do cônjuge.. A paixão tinha de ser reprimida, o amor tinha de ser martelado.

Era o tempo da sardinha para três, do trabalho de sol a sol, das cantorias no trabalho, das excursões de burro à festa da ribeira (da Baságueda, claro), do andar descalço porque as botas eram caras. Naquela fase inicial em que o Tonho se propôs a si próprio conquistar a C’ceição, o balho de domingo, já se disse, era um momento ansiosamente aguardado e crucial da estratégia. A ansiedade era acompanhada por uma sensação de desespero quando o pai do Tonho demorava a ir para a cama. É que o Tonho precisava das botas do velhote. Por isso, acabada a ceia, estava sempre (a)repelindo de ouvir o ronco a entrar em velocidade de cruzeiro para surripiar as botas que o seu austero progenitor arrumava debaixo da cadeira de verga que servia de mesa de cabeceira. Depois, apresentava-se orgulhosamente no balho com umas botas impecavelmente ensebadas. Claro que, antes de as recolocar no mesmo sítio, tinha o cuidado de lhe passar o sebo novamente. Tudo corria bem, até que o pai, um dia, se deu conta de que o tacão estava exageradamente gasto de um lado e que, estranhamente, as botas já precisavam outra vez de ir ao Guerrilhas sapateiro, para meias solas. No domingo seguinte, o Tonho confirmou que o amor é mesmo sacrifício: aguentou sem um gemido as vergastadas que o pai lhe aplicou com a correia de cabedal, bem como cumpriu à risca o castigo de esborralhar a vinha da saramaga, durante o dia de domingo. Não seria por via dessas minudências que a C’ceição não havia de ser sua. E veio a ser.

Estava o mesmo século a acabar, a neta do Jaja Nova, 18 anos, andava repelinda de se entregar ao neto do Varinha d’Arado, 19 anos, moço esbelto de olhos verdes, sempre de cabelo propositadamente desarranjado à conta de uma mão cheia de gel. Era Sábado, estavam ambos no café, juntamente com os outros jovens, enfadados de não haver espaços de animação na aldeia nem à volta. Discretamente, mandou-lhe um sms:“But’aí curtir?” Recebeu um sms dele com a resposta: “ya, bute”. Sairam para a esplanada, olharam-se ternamente nos olhos, ela disse-lhe “Tens uns olhos bué da lindos”, beijaram-se na boca com paixão, apalparam-se… ninguém os incomodou.

sexta-feira, outubro 20, 2006

A NOSSA FALA - LXVIII - CUNCA

Já era adulto quando ouvi pela primeira vez a palavra sanefa.
Parece até mal dizê-lo, mas fica bem esta confissão. Estranheza tive também quando oiço na televisão chamarem MACACA a um jogo que na aldeia sempre se chamou
descanso. Jogava-se com uma CUNCA: um bocado de telha galega ou de um tijolo com o tamanho de meia palma de mão e sem configuração definida. Convinha que tivesse uma parte com ligeiro rebordo ou saliência já que facilitava o impulso que lhe era dado pelo pé coxinho quando passávamos de casa em casa. Este jogo do descanso era misto, tanto era jogado por rapazes como por raparigas. Não eram muitos os que gozavam deste privilégio. Por via de regra os jogos eram diferenciados por géneros sexuais. Um dia pode ser que tratemos deste tema das brincadeiras da canalha em tempo de escola.(...)
No tempo da colheita da azeitona, às vezes Dezembro já avançado, dias curtos e frio que bastasse, Mnel Mantarrota, da esquina do café da Rosa, por essas seis -que o trabalho espera-se no sítio e não em casa - fazia soar o búzio chamando o rancho para a abalada. Na Aldeia vislumbrava-se aquela fumaça por sobre os telhados, efeito da miguinha da batata em panelinha de ferro ou do aquecimento da VIENDA para o porquinho, que o regresso era só já de noite.
Lá vinham eles e elas aos pares ou isolados e confluíam para o adro.Os diferentes grupos formavam-se e do barulho passava-se a um silêncio que só algum cão cortava no aferrenho a alguém que passasse na sua área de circunscrição e ele não conhecesse ou dele tivesse má memória, por via de alguma pedrada ou ameaça com paulada.
O almoço era invariavelmente ao meio dia. O lume era aceso logo de manhã e mantido aceso todo o dia, que, naqueles tempos, o códão só abalava lá para as onze e mãos e pés arreganhavam com facilidade. De vez em quando era imperioso descer da escada e reactivar a circulação, ou, então deixar de apanhar para que os dedos não ficassem hirtos hora de almoço lá saíam das bandoleiras o corno com as azeitonas, o tanoco de pão centeio ou de mistura, uma tora de toucinho e uma cunca de queijo. Alguns, sobretudo quando o casal pertencia ao mesmo rancho, levavam comida de tacho embrulhado em rodilhas por mor de não perder de todo o quentinho do lume. O toucinho ou a morcela, o naco de entremeada (luxo maior) ou até mesmo o pão, eram aquecidos na ponta de uma sovina e pingavam sobre o pão. Velha era a história do toucinho assado e do pão pingado. Quem não se lembra desta maravilha, sempre recontada quando as couves coziam ao lume, com a panela pendurada nas cadeias, que, por baixo, às vezes, era preciso pôr o pucheirinho para fazer o café de borra com que se mataria a bicheza na manhã do dia seguinte. (...)
Se há coisa de que eu quase nunca prescindo quando ando nas lides campestres é duma valente posta de bacalhau, bem regada no azeite da bela oliveira e com dentes de alho que dá para uma família de cidade para uma semana. Se acompanhada por umas batatinhas assadas na cinza, então, aí o sete-estrelo do prazer gastronómico fica mesmo ao lado. Se o vinho for a condizer claro está que ultrapassa a raia do extraordinário. Minha mãe sabia disso. Mãe é sempre mãe e eu tinha algumas vezes na minha buchinha um postinha do fiel e um garrafinho de azeite já com o alho escarchado . Lambia-me.
Muitos de vós talvez já não vos lembreis daqueles queijos cabreiros, muito negros, baixinhos, com gordura envolvente, os quais eram tratados em tábua de solho revestida de palha centeia e todos os dias voltados e passados por água tépida com muito jeitinho. Aquilo era - às vezes(cada vez menos) ainda consigo arranjar um ou outro- aquilo era, e é, um prazer inefável. Só com uma cunquinha quase se comia um pão inteiro tal a intensidade do sabor.(...)
Para que a cunca não fique sem todos valores da sua polissemia aqui vai o derradeiro: quem ia a monte, aviar a vida, arrear a calça, telefonar ao Salazar, aliviar a tripa, fazer um alívio, estrumar a couve, dar comida à mosca, que sei eu?... quem ia, por norma, levava uma cunca, ou mais, para limpar o traseiro. Quando se esquecia da cunca servia uma pedra meia lasca, ou mesmo umas folhas de carvalho. Aos garotos, por vezes, aconselhava-se a folha de figueira! Era assim que se aprendia.
Na vida há sempre que aprender! E que recordar. Recordei hoje aqui coisas que o tempo ainda não apagou mas que já estavam meio tapadas. Destapei-as para vós. Podeis consumi-las que elas não trazem as desgraças de Pandora.
Acabemos com um dito espirituoso: disse o Tonho para a Elvira que tinha as mamas pequeninas:" eh! cachopa, hás-de esfregar as mamas com papel higiénico! E ela atarantada: tu és parvo ou quê? E ele: Se o teu cu cresceu pode ser que as mamas também aumentem de volume! e ela: Ranhoso! que és um ranhoso!
Imaginai que era com uma cunca!!!!
XIIII GGGRRRRANDDDDEEEEE!

domingo, outubro 08, 2006

Estudo sobre o abandono

O estudo já tem algum tempo e já era para aqui ter sido referenciado. Faltou tempo. Refiro-me ao trabalho realizado por investigadores da Universidade de Évora, no âmbito do protocolo de colaboração com o MADRP:

Estudo sobre o abandono em Portugal Continental.

Análise das dinâmicas de Ocupação do Solo, do Sector Agrícola e da Comunidade Rural.

Tipologia de Áreas Rurais

Não estão reunidas as condições ideais para a abordagem conveniente do estudo pelo que ficam aqui apenas 2 referências, ambas relacionadas com a integração do concelho de Penamacor nas tipologias relativas às dinâmicas do sector agrícola e sócio-económica.

1. Na tipologia de áreas segundo a “dinâmica do sector agrícola”, o concelho de Penamacor é situado no cluster “ Elevado peso social com alguma estabilidade agrícola”, que inclui um conjunto de concelhos de Trás-os-Montes, Vila Velha de Ródão e dois concelhos do interior algarvio, e é caracterizado assim:

“É o grupo com o peso mais alto de população agrícola e dos produtores. (…) o peso dos produtores na população total quase não diminuiu. Mesmo assim, o peso das explorações com rendimentos do exterior cresceu bastante enquanto a Superfície Agrícola Utilizada (SAU) dentro da exploração diminuiu. O peso das matas e florestas aumentou e já ocupa em média à volta de 20% da superfície total da exploração. É o grupo com o peso mais alto de da Superfície Agrícola Não Utilizada embora este peso tenha diminuído algo durante os anos 90.”

2. Na tipologia de áreas segundo a “dinâmica sócio-económica”, o concelho acompanha Idanha-a-Nova e Vila Velha de Ródão no cluster “graves problemas sócio-económicos” e é caracterizada como segue:

“ Este grupo pequeno que consiste de 5 concelhos é neste contexto o mais problemático em quase todos os sentidos. A variação da população é muito negativa, a população é muito envelhecida e o índice do poder de compra é o mais baixo. Tem também o peso mais baixo de população economicamente activa.”

Aqui o Baságueda vai fazendo o que pode... mas não mandamos nada... só post(a)s de pescada, perdão, de falas populares tradicionais e outras inutilidades.

sábado, setembro 16, 2006

A NOSSA FALA -LXVII -CANDONGA

O contrabando é um fenómeno com uma quantidade de variáveis, talvez ainda não completamente exploradas....
Eram muitos os contrabandistas pelas terras da Raia. Alguns morreram mesmo, varados por bala de Guarda Fiscal ou Carabinero. Viajavam de noite por aqueles córregos da Baságueda e, claro, tinham que evitar os caminhos mais batidos e aqueles mais próximos das herdades para não serem denunciados pelos cães. Para eles não havia nem bom nem mau tempo: apenas era importante salvar o carrêgo, senão, lá se ia parte significativa da jorna. Aqui tropeçavam, além caíam mas sempre se levantavam. Calados ,cada um fazia por si e era um alívio quando chegavam a casa já sem o peso, que esse fora antes aliviado em sítio combinado com o angariador. Ainda ajudei a descarregar alguns carrêgos que chegavam a cavalo, alta noite, ali por detrás da serra a dar vista para a Bemposta, bem perto da Carochinha e do João Ratão. Tudo às escuras, tudo calado. Cada um sabia o que fazer e onde deixar o material.
O velho comandante também andou nestas aventuras e não era raro ouvi-lo contar histórias de fugas aos Guardas Fiscais e Carabineiros. Protestava mesmo contra Deus, que, a seu ver, também não tinha feito tudo bem... Era sua convicção que Deus se teria distraído e que havia quatro coisas mal feitas no mundo. E contava:
A primeira é chover no mar - se lá há tanta água por que raio lá caía mais?
A segunda era fazer Lua de dia - se cá está o Sol a alumiar para que precisamos da lua?
A terceira é que a barriga das pernas havia de ser à frente e nunca atrás, Assim, quando vinha com os carrêgos, já não se "demazelaria" tanto por mor das "topadelas" das canelas contra os "picerros"
A quarta só a contava quando não havia mulheres por perto: aquilo que nos homens não tem osso é que havia de ter porque assim estava sempre direito e pronto para o "trabalhinho".
Contrabandista famoso na área era o velho Jonja: andava sempre na CANDONGA. Sempre com o copo, os dados e o bocadinho de cortiça no bolso,ou com as caricas aí estava ele sempre a desafiar para o pilinhas. Escondia um bocadinho de cortiça debaixo de uma das caricas ou de um dos três copos e o desafio consistia em descobrir onde estava a cortiça. Era sempre a apostar. Quem descobrisse ganhava o dobro do apostado, que pagava o Jonja. Os que perdiam ficavam sem o dinheiro da aposta. Não havia festa nem mercado onde o Jonja não aparecesse. E o mais: apesar de o Jonja levar sempre mais dinheiro do que o que trazia, nunca lhe faltavam clientes. A malta ia na candonga do velho. E se ele era artista!
São hoje outras as candongas que nos iludem. Escondidas por debaixo de outros copos que não os sebentos do velho Jonja.Basta a vergonha do que se passa no futebol (antigamente o desporto era noticiado sempre ao fim dos jornais, agora é logo no início); este povo deve andar louco: em vez de se preocupar com o que é essencial - a saúde, a paz, o trabalho, a educação, a segurança social, o pão, o preço da energia, os aumentos diários dos produtos vitais,que sei eu?... - este povo discute um penalti, um golo marcado com a mão, a questão da possível sucessão do mesmo num qualquer clube,... O povo vai na candonga do que lhe impingem e tal como os clientes do Jonja pensavam que a cortiça estava por debaixo do copo do meio e aí apostavam, também agora,tontos, continuam a apostar em cavalos (ou serão éguas?) errados.
Não se pode ensinar a virtude, já dizia o velho Platão, mas, c'os diabos, é tempo de acordarem e deixarem de pensar que o que acontece aos outros está longe de nos acontecer a nós.
Aquele que, para mim, é, de longe, o maior escritor português em prosa - o P. António Vieira - já chamava a atenção para o facto de nada, (já naquele tempo) se poder considerar seguro: "nem já o frade, dizia, tem segura a sua cela".
Nós, iludidos como andamos nesta azáfama quotidiana, embarcamos no engodo - ou será na candonga ? - do que nos querem envolver. Enredados nesta teia bem urdida pela Aracne dos poderosos, ficamos sem o fio de Ariadne que nos conduza, qual Teseu, à porta do labirinto de Dédalo. Façamos, então, as asas mas não sejamos tontos como Ícaro...
Outras candongas por aí andam mas ficam para outra oportunidade.
Para já deixo-vos o alerta de que há por aí muitos Jonjas, que na sua pequena figura, nos iludem em candongas bem camufladas a ponto de só tarde reconhecermos que apostámos no cavalo errado.
Depois não vos queixai.
Como dizia o velho comandante"um homem quer-se com génio" MAINADA!
Um XI gggrrrrrrrraaaaaaaaannnnndddde!

terça-feira, setembro 12, 2006

A NOSSA FALA - LXVI - ARDULHAR / ARDULHO

Palavra de honra que, às vezes, tenho uma certa nostalgia das velhas lojas = mercearias, drogarias, tecidos, conservas, e o mais...- e na Aldeia havia umas quantas.
Quantos sabem que a farmácia começou na cave da casa do Sr. domingos campos, presidente da junta, ao tempo, e que depois passou para a loja do professor Marcelo, a dar vistas para a Igreja, até que se aposentou na velha casa do tecelão, à Lameira, mesmo ao lado do chafariz que, ainda não há tanto tempo assim abastecia a Aldeia de água juntamente com a fonte do Ribeiro Cimeiro? Só agora ela está no cruzamento da estrada nova a dar para as Águas. Quem se lembrava das andanças deste benefício público que o velho Padre Zé Pedro trouxe com a anuência do dr Ildefonso que tinha como ajudante o enorme Zé Barrigana, emigrante que é na Alemanha, e depois o Cândido Pantelhão e a Fatinha Portas que um combóio trucidou. Tudo há tão pouco tempo e parece que todos esquecemos! O tempo é uma porra: se somos nós a contá-lo tudo bem, mas se já são os outros a contá-lo por nós, é uma porra das grandes. Mudemos de conversa!
Lojas, mesmo lojas, na Aldeia havia várias. Enumeremo-las:
nenhuma no caminho da Vila, nenhuma no Beco da Ribeira, nenhuma na Lagariça, nenhuma no Cavacal, nenhuma no Oiteiro, nenhuma no Caminho da Serra, nenhuma no Caminho das Aranhas, nenhuma no ribeiro cimeiro, nenhuma na Eira cimeira... ora, como se vê há já um total de- NENHUMA - o que é uma enormidade .
Comecemos então a contar de cima para baixo: a loja do Sr. João Robalo Elvas (Sobrinho), com entrada pela estrada e por detrás pelo beco do Fatela, uma casa de intervalo e tínhamos a casa dos pais destes que aqui vos dão notícia desta topografia aldeã, em frente, em tempos esteve a tasca do ti Agostinho Ratado mais o seu batorel, depois, a fechar o largo da paragem das camionetas estava a loja do Sr. António Robalo Elvas, irmão do sr. João que para além da chita da tabela, do bacalhau e do sal, vendia também o petróleo de iluminação e dos motores de rega; era, ainda, correspondente de todos os jornais regionais: Beira-Baixa, Reconquista, Jornal do Fundão, Notícias da Covilhã, e dos nacionais: Diário de Notícias, O Século e Diário Popular: colada estava a casa do ti Chico Miguel com a respectiva tasca e, à ponta, talho, em frente do qual se situava a tasca do arqui- rival Tonho Fatela, o qual colava com a Conceição do Trem, casada em segundas núpcias com o Chquim Argentino e que rivalizava com os manos Robalo atrás citados. Por detrás, na rua que dava para o barbeiro Zé Malagueta e casa da velha Manta-Rota estava a casa da farinha do Trem (também assim conhecido) e a casa do sal e rações do velho Fatela que era da Mona e agora é do Chinchas, já foi café e mini Mercado, mesmo ao lado do mais que tudo - o CAFÉ DA ROSA , o ex libris; em frente a tasca e talho do ti Zé Rolo e na esquina do Desembargador a taberna do Zé Júlio onde muitos trocavam as fanegas. No enfiamento do adro, mesmo ao lado da Igreja, do outro lado onde antigamente fora a Farmácia o ti Joaquim Faustino, que vendia tudo o que dissesse respeito a drogaria e ferragens, cimentos, caibros, ripas e o mais que respeitasse a obras, não fosse, ele mesmo, artista dessa arte. Passada a ponte sobrava a tasca do Cavalheiro com a respectiva garagem para os bailaricos de Domingo ao som do acordeão do Zé Manel, e, nos dias de mercado, a adega do ti Zé Rolo, coladinha mesmo ao Domingos Portas por onde, de fugida também passou a Farmácia. Efémera foi a loja do Cartola no mesmo largo já a dar entrada para a lagariça, onde havia umas mesas de matraquilhos.
A primeira conta fi-la eu, agora, somai vós esta!
E agora perguntais vós: onde é que está aqui a palavra ARDULHA/ARDULHAR?
RESPOSTA: em todas estas casas se ARDULHAVA.
Esta malta de agora que desenvolveu e deu, de novo, valor ao polegar com a destreza que mais escondem que mostram, tal a velocidade a que movem o tal dedo que mais parece uma mosca em voo não geométrico em torno de uma lâmpada acesa, esta malta, dizia eu, pensa que sempre houve televisão e rádio e até telemóveis. Tudo isto não chega a ter - a começar pelos mais antigos (talvez a telefonia ) mais de 70 anos. Uma ninharia na história do tempo.
Às vezes, qual velho ratinho, migrante em tempo de ceifa ou vindima, dou por mim a dizer: " a esta malta, que mais não fosse, fazia-lhes falta um dia de monda, um dia de ceifa, um dia de malha, um dia de arrebanho, um dia de sementeira, uma noite de descamisa ,...bom, nada, vá!" Efectivamente os tempos são outros. Por muitos lados, ainda bem!
Facto é, todavia que, não há mesmo muito tempo - novo sou eu ainda - o sal, o acúcar, o arroz, o milho, o grão, o feijão e muito mais não vinham embaladinhos em pacotes como agora, não. O merceeiro ou outro qualquer comerciante, tinha que estar bem munido de umas quantas espécies e uns quantos tamanhos de cartuchos, onde, por meio de um corrimão, normalmente de lata zincada, introduzia o peso ou medida, requeridos pelos fregueses. Ainda escolhi muito baguinho de arroz. O acúcar era do amarelo, o branco, tal como o pão trigo à cabeceira, só em alturas de nascimento de cria ou morte de velhote.
Todas as lojas de comércio tinham uma daquela balanças de dois pratos, mais ou menos rudimentares, que eram aferidas todos os anos pelo aferidor camarário que, nela e nos pesos, apunha uma punção que garantia a fidedignidade do aparelho. Quando o material requerido não justificava cartucho então utilizavam-se diferentes papéis, consoante o artigo a ardulhar: assim, por exemplo, para o bacalhau, que não cabia em cartucho havia o papel pardo ou, até mesmo um castanho ensebado que restasse das entregas do toucinho amarelo salgado - um petisco -; para a anilina qualquer resto de jornal fazia as vezes; já na farmácia, cem gramas de bicarbonato (que sempe se chamou bicabornato ou memo, mais simples ainda, BIQUEBORNATO) o papel utilizado era sempre de categoria superior e os empregados, já acima supraditos, eram exímios na feitura do ardulhanço; para pregos, chumbo de flóber, pimentão para enchido, pregos de cravar, semilha, brocha espanhola, e outras variedades, qualquer notícia de jornal servia; um saco de plástico era religiosamente guardado, reciclado, reutilizado até às últimas ...
Eu era um artista a fazer ardulhos de anilina e todos os tamanhos de prego desde o 20/5 de cravar à forma até ao 16/7, passando pelo 18/6 de palmilhar e 15/7 de pregar tacões. Ah! tempo! como dizia o comandante! Eram ardulhos geométricos, simétricos, perfeitos e quase invioláveis. Às vezes, ainda me entretenho a fazer ardulhos desses!
O velho comandante também ardulhava, mas assim comédado!
Duma vez - fazia ele contrabando de Aldeia para Espanha com três vacas e foi descoberto pela Guarda Fiscal. Na fuga, caíu-lhe o chapéu da cabeça. Os guardas encontraram o chapéu e, sabendo o costume de as pessoas do campo só virem ao povo nos dias de Domingo, lá apareceu uma patrulha da Guarda Fiscal a dizer-lhe: " Ò ti João, quando quiser pode ir a buscar o seu chapéu ao posto" E o velho: "O meu chapéu está aqui na cabeça!" e depois para mim: " Os gazios queriam que eu lá fosse e assim ficavam cientes de que tinha sido eu que levava as vacas. Não queriam eles mainada!" O velho ardulhou-os. Outra forma de ardulho foi aquela em que Domingos Moiral, ou Domingos Molhano, ou Domingos Patanisca acompanhava, na caça, Manquinho, Mné Faustino, Mné Vinagre, Coiote Pete, Chquim Pardalim e Tero Caturra. Fala Patanisca:
-" O mnél faustino, pá,! viu a lebre ardulhada ao toro da videira de uva formosa do Pirolas ali à Lameira da pinta, pá ! ; em vez de lhe espetar um foguete na mona, enxota-a com a coronha da espingarda e berra Hei!Hei! que era para a lebre endireitar e atira-lhe dois fogachos mas errou, vai o Manquinho e pimba, pimba, errou, o mnel Vinagre PUM!PUM" errou tamém, e passa pelas endireituras do Tero, pá! e foi logo à primeira: Pum! ardulhou-a logo. O Tero pá! tem uma apontaria à lebre dum filha da puta, homem! Essa lebre papamosa (papámo-la) naquilo da Rosa."
Também eu vos ardulho num XIIIIIII GRANDE!

domingo, setembro 03, 2006

Esfola Gaitas, Picha d'Aço e outras...

A terra dos xendros é fértil em alcunhas. A coisa começa logo com esse exclusivo nome que a todos identifica: xendros, um bonito nome que ninguém sabe a origem, mas que soa bem. Pessoalmente simpatizo com a tese do passarinho, isto é, que xendro será nome de felosa, eventualmente da espécie PHYLLOSCOPUS COLLYBITA. Honestamente, dá-me mais gozo ser apelidado com nome de passarinho, do que de legume como os lisboetas, ou, pior ainda, de designação popular de elemento do órgão digestivo como as gentes do Porto.

Tinha o simpático leitor menos 15 anos quando promovi a recolha (quase) exaustiva de alcunhas na terra dos Xendros. O número total andaria a roçar as seis centenas. Considerando que a Aldeia tinha cerca de 800 habitantes, das quais, 50 ou 60 crianças com idade inferior a 7 anos – gente que ainda não tinha justificado o (re)baptismo -, significa que havia pessoas sem alcunhas, coisa que não posso compreender. E, confesso, que me custa aceitar. Como é que pode haver 600 pessoas devidamente alcunhadas e 100 por alcunhar? Não posso - não poderá igualmente o simpático leitor -, deixar de ver aqui uma situação de injustiça e descriminação. E não me venham com o argumento de que se poderá tratar de uma descriminação positiva, porque a alcunha é estigmatizante e não sei quê… Algumas até podem ser mas, ao mesmo tempo são socialmente integradoras, o que compensa bem o eventual efeito estigmatizante. Por exemplo, o xendro a quem chamam de picha d’aço, deverá sentir-se rotulado positiva ou negativamente? E essoutros que acodem por esfola gaitas, ou por puta maluca?. Estas alcunhas, tal como todas as outras, terão resultado de um episódio marcante na vida da pessoa, ou reflectem um determinado traço da sua personalidade. Ora, convenhamos, há algo de heróico numa alcunha como a de picha d’aço. Desconhecendo o episódio em concreto, podemos sempre livremente imaginar uma cena que justifique tal alcunha. O mesmo vale para espanta mulas ou para mama na burra ou para capa grilos, ou para caça moscas ou ainda para jaja nova. Será preciso fazer um desenho para justificar a alcunha de caga e tosse? Tanto quanto me foi dado a conhecer, o visado permitia-se até alimentar a denominação.

Bom, condescende-se que o venerável cidadão conhecido por peidorreiro terá direito a não apreciar convenientemente o chamamento público, mas isso só porque ele se esquece que, pese embora todos o sejamos – coitados daqueles cujo organismo não possui um sistema de escape em bom funcionamento-, ele é o único que se pode gabar de ter essa sua faceta reconhecida. De igual modo, a respeitável senhora conhecida por forca dos ratos verá desrespeito e desconsideração no nome mas, se calhar, não é caso para tal.

Já precisaremos de uma imaginação mais elaborada para enquadrar, alma de sino, montanhaque, vale quem tem, pantelhão, pito em couro, talha burricos, varinha d’arado ou zé inverno, mas com tempo, havíamos de lá chegar.

Concordemos pois que bem aventurados serão os que foram bafejados pela deferência colectiva quando saltaram para a lista dos eleitos, dos merecedores de uma alcunha comunitária. Pobres dos outros, a quem a comunidade nunca reconheceu relevância a nenhuma das suas acções, tão pouco valorizou um só traço que fosse, da sua personalidade . Que sentem ou sentiram essas pessoas? Porque é que a comunidade xendra os descrimina? Serão esses concidadãos, xendros de 2ª que não mereçam uma alcunha? Que factores estão por detrás da sua deficiente integração na comunidade? Questões que justificariam uma tese, no mínimo, de mestrado, cujo quadro teórico teria necessariamente de recorrer, entre outros, a Ferdinand Tonnies (com umlaut no “o”) e ao seu conceito de gemeinschaft. Sim, que a terra dos xendros ainda abriga relações típicas da gemeinschaft de F. Tonnies: o nascimento e a morte são publicamente vividos e sentidos, o potlatch é praticado em diversos domínios, na entreajuda no arranque das batatas, na matança do porco, na vindima e na colheita da azeitona e, mais comum, nas rodadas no café ou na procissão dominical entre adegas. É a ruralidade a resistir (ainda e sempre) ao invasor urbano e seus padrões. A coesão de uma gemeinschaft depende do grau de integração de todos os seus membros. Estou em crer que ajudaria se todos tivessem direito à sua alcunha.

Só para que conste, na sequência da tal recolha realizada há 15 anos (desactualizadíssima, portanto), foi pedido a uma amostra estatisticamente relevante de xendros que votassem nas alcunhas mais engraçadas. As "quinze mais" foram:

1º - Esfola Gaitas
2º - Picha d'Aço
3º - Vale Quem Tem
4º - Caga e Tosse
5º - Capa Grilos
6º - Bate na Avó
7º - Alma de Sino
8º - Mama na Burra
9º - Montanhaque
10º - Espanta Mulas
11º - Pantelhão
12º - Pitincouro
13º - Talha Burricos
14º - Caça Moscas
15º - Peidorreiro

terça-feira, agosto 22, 2006

A NOSSA FALA - LXV - CACHEIRA

Quando, ainda não há muito tempo, - de facto os eventos hoje por hoje são tão efémeros que apenas lhes damos importância instantânea e já não guardamos respeito ao tempo - bom, não há mesmo muito tempo, publicava-se em Portugal um jornal matutino diário, de enorme expansão - O SÉCULO - , de boa memória, diga-se, que na sua sua última página, na última coluna, ao cimo, à direita, tinha sempre por título: "há sempre uma história para contar".
A estória que hoje eu vos trago, também não tem muitos anos - afinal eu ainda não penso sequer que já estou entradote, quanto mais que já sou velho - ( bem, COTA, no dizer da rapaziada mais nova, se calhar, já sou) e por isso não se pode chamar história a um facto tão recente quanto esta estória que agora aqui trago. (Estais a ver o jogo das palavras?!) - já pareço o Fernão Lopes naquele seu famoso visualismo.
Não sei mesmo se já vos contei aquela do «pássaro para o primeiro» , mas estou em crer que sim, aquela em que quem primeiro fizesse, todas certas, as contas que o senhor professor ditava, levava para casa o pardal que ele matava com a sua pressão de ar - ao tempo chamava- se (veja-se já o pedantismo ) FLOBÉR (correspondente a FLAUBERT), mas não é essa a que vos quero contar, embora o professor fosse o mesmo da história anterior.
Antes mesmo da tal estória reparai como se vilipendia o português - honra seja feita ao Baságueda e outros, como o Arcaz , que regeneram o verdadeiro linguajar e lhe dão o lugar que, com o tempo, justamente conquistou, só que, como atrás disse, já poucos respeitam o tempo. Razão tinha o velho Comandante: AH! TEMPO!:
Qualquer borra botas diz baby-sitter em vez de ama, diz abat-jour em vez de quebra- - luz, enche a boca a dizer coffee break por intervalo para café, chaise longue por espreguiçadeira, T-shirt por camisola de manga curta, algibeiras por bolsos, lanche por merenda, check up por actualizar, cachecol por abafo, e-mail por correio electrónico, barbecue por assador, blazer por casaco, para além dos famosos bué por muito, e DÁAA por ceguinho. Já não há respeito pelo genuíno Camões... também já são poucos os que sabem alguma coisa de latim... Daqui a cinquenta anos já poucos saberão que o Português é novilatina e que 60% do Inglês também.
Verdade seja dita que, às vezes, me faltam palavras para expressar o que quero. Mas isso não é incompetência da língua. A incompetência é toda minha. MAINADA.
Dessa incompetência faz parte o nome científico duma erva que nesta época do ano está já em fase de deixar cair a semente e que cria uma cacheira no topo de uma haste, assim parecida com a do alho porro ou da cebola quando espigam. Não é mesmo, com certeza, por acaso, que o cheiro que exala é semelhante ao do alho e a forma esférica e repartida por pequenos filamentos é também igual aos destes bolbos. Não sei o nome científico, mas não digo, como um amigo meu, borrocu quando pretensamente de forma erudita quer dizer o tal barbecue e que eu chamo de assador e mainada. Não sei, dizia, o nome científico, mas sei o popular: erva caralheira. Assim mesmo. A forma arredondada ligeiramente mais estreita no cimo e o facto de estar na ponta de um longo pescoço devem ter sugerido à populaça a semelhança evidente com o pai da humanidade.
Vai daí, e porque o povo não é de modas - quando não tem, cria - sai espontaneamente o nome: erva caralheira e ponto final.
Críamos também nós, imberbes fedelhos em idade escolar, que se conseguíssemos que uma garota da escola ao lado comesse uma baga que fosse da cacheira da erva caralheira, os seus apetites sexuais relativamente a quem lhe tivesse dado o fruto ou o pão com a tal baga seriam tais, que se entregaria desalmadamente a um esfreganço de crica que nos transportaria até ao oitavo céu. ... Aí mesmo: aquele acima do Olimpo. Então, era vê-los junto àquele famoso muro, de que já vos falei, onde estava o fontanário com que XARINGÁVAMOS as cachopas, a tentar conseguir que elas dessem uma dentada na maçã de BRAVO MOFO ou no paposseco, daqueles com maminha e tudo - lembrais-vos deles? - onde disfarçadamente se tinha introduzido uma baga da cacheira da erva caralheira.
Não consta na história da aldeia que alguma donzela, alguma vez, se tivesse entregue a um mancebo por motivos da ingestão de uma baga da cacheira da erva caralheira.
O facto é que ainda hoje essa ideia perdura. E o que nunca pode morrer é a ideia, mesmo que já não se consiga fazer nada. É a vida!
Há coisa bem feitas , não há?!
Ide dando algumas inculcas para sabermos se ainda vos cativamos com as nossas estórias.
Um XXXXIII dosGGGGGGGGGGGRRRRRRRRAAAADDDDDDDDDDDDDEEEEEES!

segunda-feira, agosto 07, 2006

A NOSSA FALA - LXIV - ALDEAGAR

Sempre as aldeias tiveram e têm um tontinho, ou mais, e espalha brasas que, em menos que leva a apagar um fósforo em dia de vendaval, difundem uma qualquer notícia, não raro, distorcida.
Mesmo que não sejam tontos (tarantas), algumas mulheres há que, em menos de uma ave-maria põem uma notícia do beco da ribeira ao cimo do ribeiro cimeiro e do bairro da padaria ao alto da lagariça. Exemplos mores dessa arte de espaventosa capacidade de comunicação foram Tecla e Pieres, por exemplo, ou Paca, velha Raposa ou Ilda do Vinagre. Eram bichas de rabiar em fogueira de S. João. O comandante bem dizia: " isto é má gado: às mulheres inda que lhe cortem metade da língua falam o dobro... deus deu-nos uma língua e duas orelhas, é para ouvir o dobro e falar metade". Filosofia de trazer por casa, mas funcional. Exemplos de tarantas lá temos o inefável Tonho, entretanto desaparecido, o Tramoço, Fainica, Feijão que não sendo espalha-brasas também aldeagavam quanto bastasse. Rosnavam ameaças, inventavam atoardas, ameaçavam-se fazendo o gesto mais revelador de pré-início de luta a sério: punho fechado por debaixo do queixo, ao mesmo tempo que, depois de traçarem um risco no chão:" se pisas o risco arrebento-te a alma!".
A Vontade de Poder, essa força que nos move a partir do mais básico de nós mesmos, em que o cérebro reptiliano avassala e subjuga todas as aprendizagens, sejam elas tradicionais ou pessoais, permitindo acções que até nos fazem, por vezes, gritar: "esta nem parece minha", a Vontade de Poder, queria eu dizer, impõe que fiquemos sempre por cima, que sejamos os vencedores, que ninguém nos ponha os pés no pescoço. Muito simples, como dizia um dos maiores vultos do pensamento ocidental, castrado na sua mensagem, só porque ousou ser diferente e não alinhar na NOMENKLATUR e no STABLISMENT, Nietzsche de seu apelido, é tempo, dizia ele, de sermos heróis e não humildes a ponto de nos confundirmos com cobardes. A moral tem que mudar, e essa, de aceitar, resignado, que o que se sofre neste mundo será corrigido no outro, é balela "com que o povo néscio se engana" no dizer do nosso inimitável zarolho.
A figura que hoje aqui vos trago era também zarolha, mas não por ter sido atingido por bala traiçoeira, antes porque um horrível cancro lhe foi comendo aos poucos o olho direito que ele trazia sempre tapado com uma lata. Por isso lhe chamavam o "olho de lata". Era o Mnel, da família dos alfáceas. Bom trabalhador com uma pronúncia muito "sui generis". Dele se conta que duma vez foi a Lisboa ao hospital de Oncologia, ali pertinho de Sete Rios a dar para Palhavã, a fim de fazer umas análises circuntanciais e relativas à sua moléstia: era triste e arrepiante ver a carne a desfazer-se, o que mais não seria sentir como Mnel sentia!!!; quando chega a sua vez de ser atendido as coisas passam-se mais ou menos assim:
- Onde foste ,Mnel?
-Fui às Lisboas, catapum, catapum, catapum, rio abaixo, ao hospital.
- O que foste fazer?
- Lá no Hospital disseram para eu mijar para um garrafo, mas eu enchi três, três garrafos; havia lá umas enfermeiras muita boas, tinham as mamas como as ratas pecarrichas, eram muita boas, anda cá ela!
enquanto foi e veio, logo as pombas correio da aldeia fizeram correr a notícia de que o Mnel se tinha apagado. E pior: inventaram a herança que ele havia de deixar.
A sobrinha que sempre o tratara e, por direito próprio, se tornaria a única herdeira é que não gostou da conversa e faz valer a sua Vontade de Poder:
-Ò varinas dum corno, o que andandendes praí a aldeagar? Invejosas de merda! se vós passásseis o que eu passo a tirar aquela trampa do olho do homem todos os dias até as tripas vos saíam por essa boca! Putas! Metei-vos na vossa vida! Se tivésseis tanto que fazer como eu, não andáveis para aí a dar ao lambarão, feitas bácoras dum corno. Sempre a aldeagar, sempre a aldeagar!O dia que mordêreis a língua haveis de morrer com o vosso próprio veneno!
Linguinha de trapos é que a alfácea não era. O certo é que o Mnel voltou e ainda durou um bom par de anos até que o mal lhe apanhou partes vitais do cérebro e acabou por o levar. Dores que o homem passou não se desejam nem ao pior dos inimigos.
O tempo é como a água: aquele tudo apaga e esta tudo lava, (menos a má língua), ambos correm, fluem e, embora fisicamente, ao contrário do que o velho SKOTEINÒS, Heraclito de Éfeso, dizia - que tu não te podes banhar duas vezes na mesma água dum rio - ou o que dá na mesma, - a história não se repete - verdade é que o eterno retorno anda aí e que que cada ano há uma Primavera, nova e diferente da anterior, é verdade, mas sempre Primavera, a deixar compreender Chatelêt:" em tudo o que permanece, algo está em mudança, e em tudo o que se altera algo há que sempre fica" Eu sou sempre eu mas sempre diferente de mim "- basta ver as fotos do B.I. .
Mas agora reparo eu!, Que diabo estou eu para aqui a aldeagar!?
Ficai-vos com um
XI GGGGGRRRRRRRRAAAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE!

terça-feira, agosto 01, 2006

A NOSSA FALA - LXIII - FIGOS MARANHÕES

Em todas as sociedades há elementos que gostam que as coisas não mudem e há outros que se esforçam para que a mudança aconteça. Os primeiros aceitam as estruturas tradicionais e tudo fazem para a manutenção da ordem e da disciplina vigentes; defendem a estabilidade e a harmonia do seu mundo sustentadas nas normas tradicionais; recebem com hostilidade as novidades que as podem comprometer; a modernização causa-lhes augústia. Os segundos, pelo contrário, entendem a mudança como necessária e desenvolvem uma forte propensão para contrariarem e subverterem as estruturas e a ordem estabelecidas, por as considerarem factores de estagnação e inibidoras da inevitável modernização.

Digamos, com Khun, que estamos perante dois paradigmas antagónicos, em que o anterior entrou em crise e surge um novo que pressupõe a aniquilição do outro. A transformação do velho para o novo é sentida como uma desorganização social, um caminho para a anomia, como diria Durkheim, pelo menos enquanto o sistema normativo antigo não é substituído pelo novo que emerge. Ainda com Khun, e utilizando o exemplo mais conhecido, pense-se nos efeitos da substituição do paradigma geocêntrico pelo que já apontava, certeiramente - eppur si muove -, para a nossa mesquinhez no contexto do universo, e os efeitos que tal provocou na visão do homem, do mundo, e… de Deus. Neste sentido, a modernização constitui um processo criativo e destrutivo da ordem anterior. Será? Ou será que a mudança é um processo primário, inexorável, e a estabilidade é apenas um afrouxamento da mudança?

Noutro quadro, recorramos a Bourdieu para pedir emprestado, o conceito de “campo”, aqui tomado, abusivamente, generalizado à escala societal. As posições relativas dos que são pró e contra a mudança leva-os a lutarem pela subversão ou pela conservação das estruturas, entendidas sobretudo no sentido da doxa, ou seja do senso comum, das “certezas” do velho paradigma, e do nomos, isto é das leis gerais, tendencialmente invariantes, que regem o seu funcionamento.

Esta conversa densa só para dizer que Ti Julho Ramelica era um fundamentalista do velho paradigma, um lutador tenaz do campo conservador.

O que se passava, em termos simples é que Ti Julho Ramelica não gostava da modernidade. Ele era um apreciador da ordem e do costume, avesso ao novo, hostilizava o desvio. Tirando a enfardadeira, que lhe dava jeito, por via da artrose, desconfiava de tudo o que era tecnologia. Entrava o velho sec XX na última década quando, a muito custo, lá concordou finalmente com a mulher em comprar o frigorífico, e em aceitar a televisão que a filha, emigrante na capital da Nação, lhe ofereceu, mas ninguém teve manhas para o convencer das virtualidades do micro-ondas. Mesmo no Verão, a mulher tinha de fazer o caldo na panela de ferro, ao lume. Doutra maneira, dizia, não lhe sabia bem. Incomodavam-no outras modernices como o telemóvel - proibiu a filha de oferecer um à patroa -, as saias curtas - umas desavergonhadas, é o que elas são -, as barulhentas motas de 4 rodas - espantam-me as pitas, haviam de marrar c'os cornos numa sobreira-, a música rock - eu sou capaz de bater os testos melhor do que eles - e, claro os piercings - atão mas qu'arraio de coisa é aquela?. Não seria admiração nenhuma que, se para tal tivesse preparação, discordasse em absoluto com o Vaticano II e com a missa noutra língua que não o latim.

Naturalmente, não apreciava futebol. A bem dizer, não achava qualquer utilidade a nenhum desporto, porque, no seu paradigma, o esforço tinha de ser produtivo. Daí que, não se inibia de, alto e bom som, invectivar aqueles “parvos que andam todos a correr atrás de uma bola, a cansarem-se que nem malucos, se querem suar, que me vão lá a arrancar as batatas”. Cada vez que passava junto ao polidesportivo a caminho da horta no serralheiro, arranjava sempre maneira de comentar com alguém “rais os palirem, andam eles ali a cansarem-se atrás do rai da bola, p’ra quêi? Se querem suar, ê tenho lá muntas inchadas e uma vinha para escavachar…”. O Mundial fora uma ralação para ele: “ na tilvisão é todo o santo dia naquilo, arre porra!”

A sua aversão ao futebol aumentou naquele dia em que regressava da horta com um caldeiro de lata de cogulo com figos maranhões, pendurado no cabo do sacho que equilibrava no ombro direito. Tinha acabado de repetir à Ti Ressureição Bandolas a sua teoria da improdutividade da actividade futebolística, quando uma bola chutada com força a mais galgou a rede do polidesportivo e veio embater em cheio no caldeiro dos figos.

Conjugada a raiva da situação com a maldade própria que lhe era (re)conhecida, Ti Julho atirou com o sacho para o lado, agarrou na bola e sacou do bolso a sua inseparável navalha de tachas pretas e folha já gasta de mais de 20 anos de uso, e põs-se a tentar espetá-la no esférico. Ou porque a raiva lhe reduziu o discernimento e a habilidade no manuseamento da navalha, ou porque o “cautchu” era duro, o certo é que a arma se lhe fechou apanhando-lhe o indicador, provocando-lhe um talho dos grandes e abundante soltura de sangue. A situação fê-lo atingir as raias da exasperação absoluta. Cego de dor e de humilhação, agarrou no sacho e começou a bater na bola que saltitava caprichosa como que a fugir das investidas do Ti Julho. Os jovens futebolistas assistiam agarrados à rede, comungando da opinião: “o velho passou-se…” O espectáculo só terminou quando o Ti Julho Ramelica desnocou o cabo do sacho numa pedra, quando falhou a fugidia bola redonda, e ele abalou com passo apressado berrando as mais ordinárias imprecações e os mais inconvenientes impropérios.
Juro que ele ia visivelmente consternado quando passou por mim. Quinze dias passados fui levar-lhe o caldeiro a casa e consolei-o, informando-o que, ao menos, os figos maranhões não se estragaram: papei-os eu.

sábado, julho 15, 2006

A NOSSA FALA - LXII - TRAMBELHO /TRAMBELO

Tempos inefáveis eram aqueles em que, apanhado o comboio em Castelo Branco, a malta da região que, na altura, estudava em Lisboa e não era assim tanta que não se conhecesse, ocupava toda uma carruagem - às vezes até já estava parada na estação e depois era só atrelá-la à máquina - .
Embora a viagem demorasse umas boas cinco horas, o tempo não custava a passar. Não raro, e porque a carruagem era sempre a última e o comboio parava em tudo quanto fosse estação ou apeadeiro, lá apareciam uns fregueses das Benquerenças, do Retaxo, dos Amarelos, das Sarnadas e por aí abaixo. Aquilo era fatal: mal se acomodavam, o cesto da merenda era logo aberto e "são servidos"? Ai não que não éramos!
Quantas foram as vezes que o meu pai me dava cinco litros para oferecer à Senhora da casa onde eu me hospedava. Nunca o vinho chegou sequer ao Entroncamento. Depois comprava outro vinho e era esse que oferecia. Era a vida.
"Olha, filho, não botes a cabeça fora da janela do camboio que ele passa numa ponte tão rente, tão rente que já se contam por nove os que lá ficaram." Invariavelmente era assim. E continuava: "Vê se te portas com trambelhos de gente...Já és um homenzinho!"
Voltas dei eu para descobrir donde raio vinha este termo TRAMBELHO. Lá descobri: o trambelho era uma espécie de registo que regulava a entrada da semente na mó - se se queria a farinha fina apertava-se o registo, se mais grossa alargava-se o trambelho.
Assim também aquele que se porta comédado e tem os cinco alqueires bem medidos tem trambelos de gente o que não tem regra e ora aperta ora alarga sem rei nem roque, não tem tino, é um taranta. Ah! o registo aqui não é o assento no livro do registo civil. Não. É uma roda dentada na ponta de um eixo, rachado ao meio, que atravessava os candeeiros a petróleo na parte metálica onde assenta a chaminé e servia para regular a chama desse candeeiro. Havia-os também nos fogões a petróleo e com a mesma finalidade: regular a potência da chama.
Figura inolvidável da xendrada era o Zé Bondito. A paciência que a ti Maria teve em aturá-lo só a divindade a saberá. Só apanhava uma bededeira por ano: de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro. mesmo nos bissextos. Duma vez o encontrei eu deitado na valeta ali ao fundo da curva do muro do Marcelo, em frente da casa do Geadas... Chovia sem trambelhos nenhuns. Água com fartura!
Vinha eu de levar uma bilha de gás ao Rancheiro, lá por detrás do cemitério, com o incansável carrinho quadrado, boina na cabeça e bota cardada, quando, depois de passar a ponte, começo a ouvir um rosno compassado. Apuro a orelha: era o Bondito!
"Ó tzéi?Tzéi! "clamei.... "rais o afundem... "Voltei atrás àquilo do Cavalheiro e lá engatei o Fainica, que era vizinho do Bondito, e o João Feijão, que só veio a troco dum copo. Os três lá arrastamos Bondito para debaixo do alprendre do Geadas, onde é agora a loja do Licas, mesmo na curva do aidro. Fui pôr o carrinho na garagem estrela, ao canto do Fatela por debaixo do baturel da velha Batista e vou-me à casa da ti Maria, quase ao cimo da Lagariça, paredes meias com o velho Comandante e bem perto da velha Passarinha, vedeta outra que um dia trataremos aqui comédado: - era Passarinha, porque era a parteira de serviço na Aldeia e, claro, tinha que ver muita passarinha - !
Bato à porta e lá oiço passos do lado de dentro, apercebo-me do aumento da luz no registo do candeeiro a petróleo : "quem está aí?" Lá me identifiquei, já a velha Pássara estava no cimo do balcão, a Maria Chan Chan já vinha com uma pinha acesa a ver o que se passava, o velho Sarrabeco com a voz catarral "que é lá isso,home? e até a mari troncha, que antes queria ter um filho,(e teve oito antes de o seu Jabão se enforcar) aparece à esquina tentar ver à luz dum fósforo que acabara de riscar na lixa da caixa, brada: «O que queres à mulher a esta hora, ó fedelho" tu num sabes as horas? já num há trambelhos nenhuns!-
A ti Maria, é preciso dizê-lo, era uma das forneiras da comunidade, já dormia - que o dia começava às quatro da manhã para ela quando deitava lume ao forno da D. Carminda, do outro lado das escolas velhas, um pouco acima do Tonho pitincoiro e em frente do velho Forelho. (Isto é que são dados geo- estratégicos! qualquer rasca, curioso em G.P.S.. daria no forno com estas indicações).
Voltemos à narrativa...
Lá venho com a Ti Maria - esta malta, a bem dizer, dormia vestida - direitinhos ao alpendre do geadas, mas ... Bondito, viste-o!
Ao fim de algum tempo lá o achamos na rua de trás, portinhola desapertada e a cantarolar: "Ela já anda na rua!ela já anda na rua! côtche!côtche! côtche!"
«Vergonha da família, vocêi num sinvergonha deste porte, seu porco sujo?!» e ele: « ela já anda na rua! ela já anda na rua!... Caminhe à minha frente para casa, seu badalhoco!"
O Bondito, aquecido como estava, nem arrastava o pé! A água continuava a cair!
"Estou chapado!" digo para mim. De repente penso:" vou a buscar o carrinho , sento lá o velho e...ala!."Foi um instante.
Empurrei o velho lagariça acima, levei-o em braços até à soleira e deixo-o para a ti Maria: "bem hajas tu! meu home! bem hajas tu! é a minha cruz.... O Comandante ouviu e conheceu a minha voz:"és tu ,Changoto?! "Sou, meu avô!" Não tardou já estava a descer as escadas com a candeia baixa, a abrir a porta da adega, ali mesmo em cima do barroco que tanto servia de eira como de passadeira de figos:" ó porra! estás molhadinho que nem um pito! anda lá pra cima pró pé do lume!" A custo lá lhe disse que não, que bebia um copito e me ia à cama!
Aos poucos lá se foi convencendo: "vês o que dá a falta de trambelos do Bondito! Ê tamém gosto dele mas vêi lá se algum dia me viste borracho. Um homem tem que honrar o tchapéu que traz na cabeça. A canalha é que pode perder o tino! um homem tem que andar com trambelos de gente. "
«Já me vou avô! Fique descansado que eu tenho trambelhos, assim comédado! Dê-me a sua bênção» "Deus tabindçôe, mê filho! e te faça um home de bo sorte!Amén"
Desci a Lagariça sem trambelos nenhuns com o carrinho a saltar na carecada das pedras de quase meia calçada e só parei ao lume, já o meu pai dormia e a minha mãe estava em cuidados. Quis saber a história. Contei-lha, deu-me um beijo, e deitei-me.
Quereis mais trambelhos que estes?
UM XXXXXIIIIGRRRRRRRAAANNDDDDEE!

sexta-feira, julho 07, 2006

A NOSSA FALA - LXI - ESCARAPUÇAR

Lembro-me de uma vez, quando se estudava a formação das palavras, que, em causa, estavam as divergentes nau e nave, provenientes do étimo latino NAVEM. A explicação dada, então, pelo meu companheiro de turma, foi, que NAU entrou na Língua Portuguesa por via marítima e NAVE teria entrado por via espacial. Era também estralibeta este velho companheiro.
Numa aldeia bem perto da nossa quando os pirolitos com os berlindes foram substituídos pelas caricas e, porque tal nunca tinham visto, imperioso se tornava arranjar um nome para aquela nova forma de tampa ou rolha, o povo não se ensaiou muito: como as caricas são parecidas com as formas dos bolos de coco, sejam em lata ou em papel, nada mais simples que chamar-lhes FORMINHAS. Ainda hoje por lá se chamam assim. Ainda outra: uma mulher, por acaso casada com um natural desta aldeia, tinha como apelido CARRECHANA. Dava-se o caso de a mulher ser de tez muito escura. Ora como as trovoadas também escurecem o céu, quando ameaçam a descarga, a ligação foi instantânea: vem aí uma carrechana!
O que aqui nos traz hoje é também uma palavra que derivou de carapuça, não por via gramatical, mas por via imagética, direi eu agora. De facto a palavra carapuça é, por demais, conhecida e até sentida, já que continuamente nos estão a enfiar uma. A uns assenta bem, a outros nem tanto!
ESCARAPUÇAR dizia-se essencialmente da situação em que a baraça com que se enrolava um pião, fosse porque não fora bem apertada ou apertada de mais, fosse porque o nó que se punha junto ao ferrão e que permitia enrolar de baixo para cima o dito cordel, fosse ainda porque o desgaste da baraça era já de tal monta que mal se podia puxar, fosse por que razão fosse, o certo era que o pião não dançava e tínhamos que o pôr na roda do meio à espera que um amigo no-lo tirasse.
Poucos tiveram tantos piões novos como eu : o sr. João Vicente, mecânico que era na garagem Petronilho em Penamacor, vinha todos os dias apanhar a camioneta ali ao pé de casa. Invariavelmente nós jogávamos o pião e ele pedia-mo sempre a mim.
A força daquele homem era bruta: chegou a levantar do chão uma carrinha HANOMAG para que o seu parceiro pudesse por uma preguiça a fim de tirarem o pneu, pois, o macaco tinha-se avariado. Quando ele lançava o pião, se caísse em cima de qualquer outro que estivesse no sal (castigo por causa de não ter saído da roda) era certo e sabido que o escarchava. Às vezes o pião batia numa pedra ou em alcatrão mais rijo, e, de um, ficavam dois. Logo a mão ia ao porta- moedas, saíam cinco mil réis e "vai comprar um novo."
Havia piões esgravunas que mais pareciam galinhas a esgaravatar e outros que até se ouviam zunir, bem calibrados que quando a velocidade reduzia se deitavam sobre o seu próprio eixo e, ... aí vinham eles para fora da roda! Estes eram os mais valiosos.
O ESCARAPUÇAR vem do facto de ao vestirmos o pião com o cordel e, embora fosse vestido de baixo para cima - ao contrário da carapuça que se enfia de cima para baixo- às vezes o cordel se desmaranhar, (desemaranhar) , o pião, assim vestido, parecia uma boneca de carapuça. Já percebestes agora por que razão a via de entrada na língua portuguesa foi a via imagética? Como é parecido passa a ser igual. MAINADA! É apenas uma questão de imaginação.
Quantas vezes eu ouvi a mesma história ao João Vicente quando escarchava os piões !- a ele não se lhe escarapuçava a baraça. Tinha uma só dele que fazia a inveja da malta.
Dizia ele:" sabeis porque é que eu tenho esta força toda? Porque como muito bacalhau e o bacalhau é o peixe mais valente que há no mar.» «Como é que sabe isso? », perguntávamos nós, malandrecos, só para tornarmos a ouvir a resposta: "porque depois de pescado, esquartejado seco, salgado e demolhado ainda lhe fazem uma punheta". Todos ríamos e até corávamos.
Também nós ficávamos escarapuçados, assim como que "incouros" perante vocabulário desta monta. O que é facto é que até parece que gostávamos.
Se lermos isto à luz da Psicanálise pode ser que, de algum modo, isto consista num mecanismo de defesa do eu que assim evita o complexo de castração, através de uma transferência para o outro da nossa incapacidade.
Se calhar, sou eu que estou a meter alguma escarapuçadela! No melhor pano cai a nódoa.
Escarapuçado se dizia ainda, quando, garotos imberbes e de experiência curta, nos era pedido para ogarmos um bom molho de colmo e nos era dado um nagalho... Quem não soubesse como pegar na palha, era certo e sabido que o molho se escarapuçava e era alvo de mangação.
Passou-se algumas vezes comigo até que com o tempo dei nela e os velhos já não me atentavam. Outros tempos em que os garotos eram facilmente escarapuçados!
Havia de ser nos dias de hoje!