terça-feira, fevereiro 06, 2007
A NOSSA FALA LXXVI - Mãos ENGADANHADAS
Ainda com as mãos engadanhadas, preparou a vianda dos seus porcos em dois caldeiros que despejou em duas pias de pedra granítica. Já a caminho da casa do compadre reparou melhor na russa reluzente que cobria os campos: "Tá cá um códão!", murmurou, o que o arreganhou ainda mais, aconchegando instintivamente o pescoço no pêlo da sobrepolis.
O compadre esperava-o com um borralho vivo onde já fumegava um caldeiro farrusco engatado nas correntes que desciam da chaminé, e com o púcaro de aguardente quente com açúcar, a fumegar. A salvação foi imediatamente seguida da oferta de uma caneca e do púcaro. Arreganhado como estava, Albertino encheu a pchorra de cogulo que sorveu em pequenos goles, concentrando-se na sensação que o líquido provocava quando passava pela gola. Havia de emborcar mais duas pchorras, em resposta à insistência da comadre e para acompanhar os manos Alma de Sino e o tio João Alma de Sino que entretanto chegaram.
O calor que as 3 canecas de aguardente quente doce lhe emprestavam às tripas contrastava com o barbeiro da rua quando se foram todos ao porco. As mãos rapidamente voltaram a ficar engadanhadas dificultando a destreza e a força que era necessária para tratar da saúde ao reco. A coisa não começou da melhor maneira porque o animal se recusava a permitir que lhe metessem o laço na boca. Albertino bem lhe coçava o coiro com um toro de giesta e lhe chamava carinhosamente "f(e)cá, f(e)cá", mas o bácoro só cedeu quando alguém se lembrou de enrolar uma couve ao cabo de aço e ele a abocanhou. Também não correu muito bem o trabalho de deitar o bicho na banca, porque alguém não fez força bastante e tombou tudo, animal e banca. Quando finalmente o mamífero omnívoro ficou (mais ou menos) imobilizado, Albertino Chinchas pregou uma valente palmada nas nalgas do suíno, como faz sempre a todos os que vai matar e aprontou-se para lhe espetar a sua navalha matadeira de tachas pretas. Aqui, a coisa não correu melhor porque, pela primeira vez na sua longa experiência, o fio da navalha não encontrava a artéria devida. Os grunhidos e as sacoladas desesperadas do animal eram dificilmente contidos pelas mãos engadanhadas do compadre e dos filhos enquanto Albertino, desacorçoado, não parava de praguejar e chamar nomes impróprios ao porco. Em desespero, forçou a mão com intenção de espetar a navalha no coração do animal, mas uma sacolada mais vigorosa fê-la largar para dentro do corpo do bicho. Nesta altura, o compadre entendeu tomar uma atitude drástica: agarrou na marreta e desferiu duas valentes carchantadas na testa do animal. Não foi por isso que a"meloreja e o arroz do osso da suã não lhes souberam bem.
O curioso desta história, diz quem assistiu, é que a navalha não foi encontrada quando se abriu o porco, vindo a aparecer dois meses depois numa saca de batatas de semente “rambana” que o Albertino comprou a um comerciante do Soito.
Esta deveria ter dado direito a choradela de Entrudo. Mas já ninguém chora o Entrudo.
domingo, fevereiro 04, 2007
A NOSSA FALA LXXV - PIXOTES
Isto só lá vai com uma pchorra de aguardente quente e açucar, aquecida em púcaro de barro no borralho da aldeia.
Em jejum.
Se calhar, somos homens para acompanhar com 3 figos secos cada um...
(A ausência também teve a ver com umas alterações técnicas determinadas pelo google que obriga a aceder ao blogger através de uma conta diferente e que atrapalhou a vida aos pixotes que aqui debitam letras e palavras. Cá o karraio (um pixote) já conseguiu resolver o problema, mas o changoto (outro pixote) ainda não.
A ver vamos se a receita da aguardente quente doce nos ajuda a desengadanhar as mãos. E a alma.)
quinta-feira, janeiro 11, 2007
A NOSSA FALA LXXIV - estar DESERTO por
Até vós já estáveis desertos por que eu voltasse. Cá estou de novo. Há alturas da nossa vida em que outros valores ocupam a nossa faina. Foi o caso. Mas também eu estava desertinho por volver aqui ao nosso convívio.
Kant defendia que o homem tinha três dimensões: a animalidade, a racionalidade e a personalidade. Na primeira, que não diferenciava o homem dos outros animais, considerava que eram três os instintos que cometiam ao homem: a conservação, a reprodução e a agregação.
Os estudiosos das motivações humanas colocam as mais vitais na base da pirâmide e é curioso que, se colocam a conservação, não consideram nesse nível as reprodutivas. Vamos lá a saber porquê!
Os factos que constatamos no mundo à nossa volta e corroborados por documentários ao vivo e ainda por teorias actualíssimas reforçam a decisiva importância da função reprodutora. Ou não é verdade que os machos zelam ciosos pelo seu espaço territorial e que toda a sua vida é dirigida para uma única missão: transmitir os seus genes, ou o que dá na mesma, eternizarem-se, já que o seu sangue continuará a correr nas veias dos seus descendentes.? Lutam às vezes até à morte pelo controlo do maior número de fêmeas. É o gene egoísta. Os machos solteiros, logo, não dominantes, estão desertinhos por substituir o seu progenitor no posto...
Também Freud, na sua curiosíssima leitura da importância do sexo na construção da personalidade humana recua aos tempos das hordas primitivas dos nossos antepassados: os machos adultos, titulares das fêmeas em reprodução expulsavam, castravam ou mesmo matavam, os seus rivais pretendentes ainda que fossem sangue do seu sangue. O sexo é como a fé: é cego. Então, os irmãos, todos filhos do mesmo pai, ainda que de diferentes mães juntaram-se e, todos à uma, atacam o pai, matam-no e comem-no; assim, nenhum deles seria culpado porque a sua culpabilidade se diluía no conjunto e, ao mesmo tempo, ao comê-lo, herdariam dele a virilidade que lhes possibilitaria a transmissão dos genes. Só que ao matarem o pai ficaram com as irmãs e com a mãe e se se reproduzissem com a sua própria mãe (coisa que não é tão rara quanto isso, desde o mito de Édipo até a algumas espécies onde é comum a partenogése) então cometeriam o incesto e a sua consciência, apesar de incipiente, não deixaria de os martirizar acusadoramente. Levam então mães e irmãs a outro clã e trocam entre si as fêmeas evitando a consanguinidade. Ainda se constata isso hoje na maioria dos selvagens e até nalguns domésticos, como os coelhos que se tornam canibais, muitas das vezes para impedir que os seus lugares de reprodutores sejam preenchidos.
Não há dúvida: o importante é a reprodução.
Acontece que o acto reprodutor causa prazer...
Descobertas recentes têm vindo a confirmar que a zona do cérebro onde se origina o prazer é exactamente o mesmo que gere a vingança. Não admira, pois, que sintamos prazer quando nos vingamos de alguém que nos fez mal ou quando algo de mau acontece a um qualquer que de nós troçou em tempos idos. Estamos mesmo desertinhos que lhes aconteça pior que a nós. E que gozo sentimos nisso!
sábado, dezembro 30, 2006
Gaudete, gaudete!
Christus est natus
Ex Maria virgine:
Gaudete!
Tempus adest gratiae,
Hoc quod optabamus
Carmina laetitiae
Devote redamus.
Deus homo factus est
Natura mirante,
Mundus renovatus est
A Christo regnante.
Ezechielis porta
Clausa pertransitur
Unde Lux est orta
Salus invenitur.
Ergo nostra contio
Psallat iam in lustro,
Benedicat Domino
Salus Regi nostro.
Steeleye Span
(Pareceu-me oportuno revisitar estes velhos conhecidos. Admite-se que o sotaque não será dos melhores, mas o jogo de vozes é interessante para um grupo de folk.
Se quiserem a tradução, peçam aí ao changoto.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
A NOSSA FALA - LXXIII - ANDAR IR
A intenção era colocar o som de "Entrai pastores entrai", versão do coro xendro.
Não estando ainda disponível na net, em alternativa, ficou:
Hark! the herald-angels sing
F. Mendelssohn
Gravado na Capela da Universidade de Coimbra em Dezembro de 2002
sexta-feira, dezembro 01, 2006
A NOSSA FALA - LXXII - MANCAR
quinta-feira, novembro 23, 2006
A NOSSA FALA - LXXI - GANDULO
quarta-feira, novembro 08, 2006
A NOSSA FALA LXX - JÁ HÁ CABONDE
Se a porta não fosse assinalada era porque nada de bom se augurava para aquela família e acontecer-lhe-iam as desgraças que aconteceram no Egipto com a morte dos primogénitos às famílias que não tivessem sido ungidas com o sangue do cordeiro imolado. Ainda hoje na liturgia sacra mais significativa do catolicismo se chama a Cristo o Cordeiro de Deus e se lhe pede a paz.
As interinfluências sagrado/profano, ou, no mundo ocidental, mais estritamente, as interinfluências paganismo/judaísmo-cristianismo, se bem que sejam de todo o tempo e ainda hoje seja fácil constatá-las, tiveram maior impacto na pré REFORMA, nos tempos dos Goliardos, esses minadores do stablishment que a Igreja Romana Católica Apostólica desde a sua fundação, e ainda hoje, sempre quis impôr.
Os sucessivos Concílios, com o estabelecimento de dogmas e mesmo as Encíclicas, essas famosas carta ecumémicas, normalmente documentadas com citações pouco menos que pré históricas - o que desde logo atesta da sua actualidade! - e, ao tempo, o aparecimento, como tortulhos em períodos de humidade, das famosas ordens religiosas, mendicantes ou não, tudo, completado por um altamente poderoso Santo Tribunal da Inquisisição, foram algumas das diferentes formas pelas quais o sacro quis vigiar, controlar, martirizar o profano. Aquele que ousar divergir do pré determinado pela hierarquia religiosa tinha que se haver com esses esbirros que tudo queriam subjugar... Os autos de Fé superabundaram...
Por outro lado não é menos verdade que o profano jamais abdica de muitas das suas crendices e a religião dominante, se quer penetrar nos hábitos tradicionais dos povos, tem que saber lidar com essas crenças e aceitá-las torneando-as depois. É assim que muitas das datas mais sagradas só se explicam com o conhecimento das anteriores práticas pagãs.
Costume que ainda hoje se vê nalgumas povoações - cada vez menos - é a chamada Visita Pascal. No Domingo de Páscoa, à tarde, depois do almoço, normalmente um pouco melhorado, juntava-se a malta junto à casa do Sr. Prior e começava-se a visita a cada um dos lares da povoação: o pároco de sobrepliz e estola, um rapazola com uma opa levava a cruz a qual era ladeada por duas lanternas também transportadas por rapazes com opa. Um outro levava a campainha com que se assinalava a passagem dos visitantes, sempre ladeado pela caldeirinha da água benta e respectivo hissope. Uma outra quantidade razoável de rapazes - nunca entravam raparigas nesta visita - ia armado com cestos, cabazes, açafates, caixotes, bolsas,..., destinados à recolha dos diferentes produtos com que os donos das casas presenteavam os visitantes: queijos frescos e/ou curados, enchido diverso, galos e galinhas, nozes, figos secos, vasilhas várias com azeite, vinho, jeropiga, ... Duma vez até deram um reco pequeno...
domingo, outubro 29, 2006
A NOSSA FALA LXIX - (A)REPELINDO
Namorar no antigo regime não era nada fácil, às vezes era quase tão perigoso como dizer mal do Salazar. Que o diga o Tonho Jaja Nova, moço humilde e de posição social modesta, que bem mereceu a vitória da conquista da sua C’ceição.
O processo de escolha do cônjuge era moroso e delicado porque havia que enfrentar e vencer vários adversários: a resistência da donzela, a desconfiança do pai e da mãe (não necessariamente por esta ordem), a concorrência dos pares (proporcional aos atributos físicos, patrimoniais e sociais da donzela), e os tabus de todos (este todos quer designar o “povo”) que fazia questão de exigir ao mancebo prova da sua seriedade.
C’ceição, filha de Xquim Choças e de Strudes Forca dos Ratos era moça bela, com tudo no sítio, bem colocado e distribuído nas medidas e proporções adequadas. Também era arisca como lhe ensinou a mãe, mulher pequena e redonda, de bigode fino e língua afiada para a maledicência, malina em pensamento e acções, autoridade máxima e incontestada da casa. Xquim choças, homem seco de carnes, há muito que se tinha vergado ao regime que a mulher impunha, respondendo com o refúgio na quinta na Lameira da Pinta, complementado na borracheira dominical na Tasca do Fatela, assumindo o sermão certo da ceia que nesse dia nunca tomava. Mais tarde, fechada a tasca do Fatela (e as outras também) mudou-se para o café da Rosa, com quem fez um trato: ela tinha de lhe servir o vinho em chávena de café. Chegava a tomar 20 cafés numa tarde. Mas voltemos à questão dos namoricos no antigo regime.
A coisa começava por fazer várias aproximações exploratórias à donzela, habitualmente no balho do domingo. Tonho Jaja Nova passava a semana repelindo que chegasse o dia para poder estar junto da amada. Logo que se armava o balharico, posicionava-se estrategicamente nas proximidades da C’Ceição para ser o primeiro a pedir-lhe a dança, mal o Ti Mnel Ceguinho arranhava as primeiras notas na concertina. Na corrida estavam vários abutres como o Xico Catorze, o Jorge Pirolito e o Luís Varinha d’Arado. A este último chegou a partir o nariz numa bulha de final de balho, porque o outro lhe atirou que ele não era homem para a C’Ceição: “mas sou homem p’ra ti ó paspalho”.
Feitas as primeiras aproximações, punha-se em marcha uma estratégia de publicidade da imagem junto do progenitor a quem, como quem não quer a coisa, se pagava um copito na tasca do Fatela, e junto da progenitora, a quem, como quem não quer a coisa, se informava que se ela não tivesse lá couves para pôr, ele arranjava-lhas, penca de chaves, bacalã ou de sete semanas, “como vomecêi quizer, ó Ti Strudes”. Em complemento, recorria-se a informadores privilegiados a quem se encarregavam de fazer chegar cartas (verbais) de recomendação (“o Tonho é bom moço, é poi, sério e trabalhador, inda no outro domingo o vi eu a esborralhar a vinha do pai, e deu conta dela sozinho”.
À donzela competia resistir aos avanços do mancebo, mais nas primeiras tentativas, reduzindo gradualmente ao longo dos 4 ou 5 meses que levava o rapaz a arranjar coragem para lhe pedir namoro. A fase seguinte, igualmente delicada, era o pedido de autorização ao progenitor, que era preciso enfrentar esperando que o investimento dos copitos na tasca do Fatela tivesse o seu retorno: “Olhe lá T’Xquim, vocemessêi sabe qu’ê gosto da su C’ceição, e atão ê queria-lhe pedir qu’ma deixasse namorar cá in casa. Ande qu’ê no stou cá pa brincadêras… ”. O deferimento havia de vir, naturalmente, da Ti Strudes, sensibilizada com as couves penca de chaves, e com a novidade que eram as sementes de courgetes que o Tonho lhe havia oferecido. Mas isso não a inibiu de proferir com ar sério e ríspido: “ôlhér quê no quero cá poucas vergonhas! Bem...”
A noite de 4ª feira era oficialmente dedicada ao cortejo, tirando, claro, os balhos do domingo à noite. A censura, personificada na Ti Strudes, posicionava-se na cozinha, atenta ao que se passava na sala, onde Tonho e C'Ceição se enfrentavam de cada lado da mesa de jantar tapada por uma toalha de linho bordada à mão e jarro de flores ao centro, sentados em cadeiras de verga. Nas primeiras vezes, olhavam-se timidamente. Às vezes também conversavam. O tempo que estava a fazer e que iria fazer e seus efeitos na agricultura era tema recorrente. Em alternativa, havia o sempre fértil e inesgotável tema da vida na aldeia.
A medo, entrelaçavam as mãos. Não se usava ainda o cruzamento terno de olhares e a expressão “tens uns olhos tão lindos!”. Fora de questão estava encostar lábios e roçar línguas, muito menos apalpar fosse o que fosse… A prevaricação corria o risco de ser sancionada por descompostura da matriarca “Pscht! Ó meninos qu’arraio de pouca vergonha é essa?, tâmazi?”, ou à desaprovação social, com terríveis consequências no mercado de escolha do cônjuge.. A paixão tinha de ser reprimida, o amor tinha de ser martelado.
Era o tempo da sardinha para três, do trabalho de sol a sol, das cantorias no trabalho, das excursões de burro à festa da ribeira (da Baságueda, claro), do andar descalço porque as botas eram caras. Naquela fase inicial em que o Tonho se propôs a si próprio conquistar a C’ceição, o balho de domingo, já se disse, era um momento ansiosamente aguardado e crucial da estratégia. A ansiedade era acompanhada por uma sensação de desespero quando o pai do Tonho demorava a ir para a cama. É que o Tonho precisava das botas do velhote. Por isso, acabada a ceia, estava sempre (a)repelindo de ouvir o ronco a entrar em velocidade de cruzeiro para surripiar as botas que o seu austero progenitor arrumava debaixo da cadeira de verga que servia de mesa de cabeceira. Depois, apresentava-se orgulhosamente no balho com umas botas impecavelmente ensebadas. Claro que, antes de as recolocar no mesmo sítio, tinha o cuidado de lhe passar o sebo novamente. Tudo corria bem, até que o pai, um dia, se deu conta de que o tacão estava exageradamente gasto de um lado e que, estranhamente, as botas já precisavam outra vez de ir ao Guerrilhas sapateiro, para meias solas. No domingo seguinte, o Tonho confirmou que o amor é mesmo sacrifício: aguentou sem um gemido as vergastadas que o pai lhe aplicou com a correia de cabedal, bem como cumpriu à risca o castigo de esborralhar a vinha da saramaga, durante o dia de domingo. Não seria por via dessas minudências que a C’ceição não havia de ser sua. E veio a ser.
Estava o mesmo século a acabar, a neta do Jaja Nova, 18 anos, andava repelinda de se entregar ao neto do Varinha d’Arado, 19 anos, moço esbelto de olhos verdes, sempre de cabelo propositadamente desarranjado à conta de uma mão cheia de gel. Era Sábado, estavam ambos no café, juntamente com os outros jovens, enfadados de não haver espaços de animação na aldeia nem à volta. Discretamente, mandou-lhe um sms:“But’aí curtir?” Recebeu um sms dele com a resposta: “ya, bute”. Sairam para a esplanada, olharam-se ternamente nos olhos, ela disse-lhe “Tens uns olhos bué da lindos”, beijaram-se na boca com paixão, apalparam-se… ninguém os incomodou.
sexta-feira, outubro 20, 2006
A NOSSA FALA - LXVIII - CUNCA
Parece até mal dizê-lo, mas fica bem esta confissão. Estranheza tive também quando oiço na televisão chamarem MACACA a um jogo que na aldeia sempre se chamou descanso. Jogava-se com uma CUNCA: um bocado de telha galega ou de um tijolo com o tamanho de meia palma de mão e sem configuração definida. Convinha que tivesse uma parte com ligeiro rebordo ou saliência já que facilitava o impulso que lhe era dado pelo pé coxinho quando passávamos de casa em casa. Este jogo do descanso era misto, tanto era jogado por rapazes como por raparigas. Não eram muitos os que gozavam deste privilégio. Por via de regra os jogos eram diferenciados por géneros sexuais. Um dia pode ser que tratemos deste tema das brincadeiras da canalha em tempo de escola.(...)
domingo, outubro 08, 2006
Estudo sobre o abandono
Estudo sobre o abandono em Portugal Continental.
Análise das dinâmicas de Ocupação do Solo, do Sector Agrícola e da Comunidade Rural.
Não estão reunidas as condições ideais para a abordagem conveniente do estudo pelo que ficam aqui apenas 2 referências, ambas relacionadas com a integração do concelho de Penamacor nas tipologias relativas às dinâmicas do sector agrícola e sócio-económica.
1. Na tipologia de áreas segundo a “dinâmica do sector agrícola”, o concelho de Penamacor é situado no cluster “ Elevado peso social com alguma estabilidade agrícola”, que inclui um conjunto de concelhos de Trás-os-Montes, Vila Velha de Ródão e dois concelhos do interior algarvio, e é caracterizado assim:
“É o grupo com o peso mais alto de população agrícola e dos produtores. (…) o peso dos produtores na população total quase não diminuiu. Mesmo assim, o peso das explorações com rendimentos do exterior cresceu bastante enquanto a Superfície Agrícola Utilizada (SAU) dentro da exploração diminuiu. O peso das matas e florestas aumentou e já ocupa em média à volta de 20% da superfície total da exploração. É o grupo com o peso mais alto de da Superfície Agrícola Não Utilizada embora este peso tenha diminuído algo durante os anos 90.”
2. Na tipologia de áreas segundo a “dinâmica sócio-económica”, o concelho acompanha Idanha-a-Nova e Vila Velha de Ródão no cluster “graves problemas sócio-económicos” e é caracterizada como segue:
“ Este grupo pequeno que consiste de 5 concelhos é neste contexto o mais problemático em quase todos os sentidos. A variação da população é muito negativa, a população é muito envelhecida e o índice do poder de compra é o mais baixo. Tem também o peso mais baixo de população economicamente activa.”
Aqui o Baságueda vai fazendo o que pode... mas não mandamos nada... só post(a)s de pescada, perdão, de falas populares tradicionais e outras inutilidades.
sábado, setembro 16, 2006
A NOSSA FALA -LXVII -CANDONGA
Eram muitos os contrabandistas pelas terras da Raia. Alguns morreram mesmo, varados por bala de Guarda Fiscal ou Carabinero. Viajavam de noite por aqueles córregos da Baságueda e, claro, tinham que evitar os caminhos mais batidos e aqueles mais próximos das herdades para não serem denunciados pelos cães. Para eles não havia nem bom nem mau tempo: apenas era importante salvar o carrêgo, senão, lá se ia parte significativa da jorna. Aqui tropeçavam, além caíam mas sempre se levantavam. Calados ,cada um fazia por si e era um alívio quando chegavam a casa já sem o peso, que esse fora antes aliviado em sítio combinado com o angariador. Ainda ajudei a descarregar alguns carrêgos que chegavam a cavalo, alta noite, ali por detrás da serra a dar vista para a Bemposta, bem perto da Carochinha e do João Ratão. Tudo às escuras, tudo calado. Cada um sabia o que fazer e onde deixar o material.
O velho comandante também andou nestas aventuras e não era raro ouvi-lo contar histórias de fugas aos Guardas Fiscais e Carabineiros. Protestava mesmo contra Deus, que, a seu ver, também não tinha feito tudo bem... Era sua convicção que Deus se teria distraído e que havia quatro coisas mal feitas no mundo. E contava:
A primeira é chover no mar - se lá há tanta água por que raio lá caía mais?
A segunda era fazer Lua de dia - se cá está o Sol a alumiar para que precisamos da lua?
A terceira é que a barriga das pernas havia de ser à frente e nunca atrás, Assim, quando vinha com os carrêgos, já não se "demazelaria" tanto por mor das "topadelas" das canelas contra os "picerros"
A quarta só a contava quando não havia mulheres por perto: aquilo que nos homens não tem osso é que havia de ter porque assim estava sempre direito e pronto para o "trabalhinho".
Contrabandista famoso na área era o velho Jonja: andava sempre na CANDONGA. Sempre com o copo, os dados e o bocadinho de cortiça no bolso,ou com as caricas aí estava ele sempre a desafiar para o pilinhas. Escondia um bocadinho de cortiça debaixo de uma das caricas ou de um dos três copos e o desafio consistia em descobrir onde estava a cortiça. Era sempre a apostar. Quem descobrisse ganhava o dobro do apostado, que pagava o Jonja. Os que perdiam ficavam sem o dinheiro da aposta. Não havia festa nem mercado onde o Jonja não aparecesse. E o mais: apesar de o Jonja levar sempre mais dinheiro do que o que trazia, nunca lhe faltavam clientes. A malta ia na candonga do velho. E se ele era artista!
terça-feira, setembro 12, 2006
A NOSSA FALA - LXVI - ARDULHAR / ARDULHO
domingo, setembro 03, 2006
Esfola Gaitas, Picha d'Aço e outras...
A terra dos xendros é fértil em alcunhas. A coisa começa logo com esse exclusivo nome que a todos identifica: xendros, um bonito nome que ninguém sabe a origem, mas que soa bem. Pessoalmente simpatizo com a tese do passarinho, isto é, que xendro será nome de felosa, eventualmente da espécie PHYLLOSCOPUS COLLYBITA. Honestamente, dá-me mais gozo ser apelidado com nome de passarinho, do que de legume como os lisboetas, ou, pior ainda, de designação popular de elemento do órgão digestivo como as gentes do Porto.
Bom, condescende-se que o venerável cidadão conhecido por peidorreiro terá direito a não apreciar convenientemente o chamamento público, mas isso só porque ele se esquece que, pese embora todos o sejamos – coitados daqueles cujo organismo não possui um sistema de escape em bom funcionamento-, ele é o único que se pode gabar de ter essa sua faceta reconhecida. De igual modo, a respeitável senhora conhecida por forca dos ratos verá desrespeito e desconsideração no nome mas, se calhar, não é caso para tal.
Já precisaremos de uma imaginação mais elaborada para enquadrar, alma de sino, montanhaque, vale quem tem, pantelhão, pito em couro, talha burricos, varinha d’arado ou zé inverno, mas com tempo, havíamos de lá chegar.
Só para que conste, na sequência da tal recolha realizada há 15 anos (desactualizadíssima, portanto), foi pedido a uma amostra estatisticamente relevante de xendros que votassem nas alcunhas mais engraçadas. As "quinze mais" foram:
1º - Esfola Gaitas
2º - Picha d'Aço
3º - Vale Quem Tem
4º - Caga e Tosse
5º - Capa Grilos
6º - Bate na Avó
7º - Alma de Sino
8º - Mama na Burra
9º - Montanhaque
10º - Espanta Mulas
11º - Pantelhão
12º - Pitincouro
13º - Talha Burricos
14º - Caça Moscas
15º - Peidorreiro
terça-feira, agosto 22, 2006
A NOSSA FALA - LXV - CACHEIRA
A estória que hoje eu vos trago, também não tem muitos anos - afinal eu ainda não penso sequer que já estou entradote, quanto mais que já sou velho - ( bem, COTA, no dizer da rapaziada mais nova, se calhar, já sou) e por isso não se pode chamar história a um facto tão recente quanto esta estória que agora aqui trago. (Estais a ver o jogo das palavras?!) - já pareço o Fernão Lopes naquele seu famoso visualismo.
Não sei mesmo se já vos contei aquela do «pássaro para o primeiro» , mas estou em crer que sim, aquela em que quem primeiro fizesse, todas certas, as contas que o senhor professor ditava, levava para casa o pardal que ele matava com a sua pressão de ar - ao tempo chamava- se (veja-se já o pedantismo ) FLOBÉR (correspondente a FLAUBERT), mas não é essa a que vos quero contar, embora o professor fosse o mesmo da história anterior.
Antes mesmo da tal estória reparai como se vilipendia o português - honra seja feita ao Baságueda e outros, como o Arcaz , que regeneram o verdadeiro linguajar e lhe dão o lugar que, com o tempo, justamente conquistou, só que, como atrás disse, já poucos respeitam o tempo. Razão tinha o velho Comandante: AH! TEMPO!:
Qualquer borra botas diz baby-sitter em vez de ama, diz abat-jour em vez de quebra- - luz, enche a boca a dizer coffee break por intervalo para café, chaise longue por espreguiçadeira, T-shirt por camisola de manga curta, algibeiras por bolsos, lanche por merenda, check up por actualizar, cachecol por abafo, e-mail por correio electrónico, barbecue por assador, blazer por casaco, para além dos famosos bué por muito, e DÁAA por ceguinho. Já não há respeito pelo genuíno Camões... também já são poucos os que sabem alguma coisa de latim... Daqui a cinquenta anos já poucos saberão que o Português é novilatina e que 60% do Inglês também.
segunda-feira, agosto 07, 2006
A NOSSA FALA - LXIV - ALDEAGAR
Mesmo que não sejam tontos (tarantas), algumas mulheres há que, em menos de uma ave-maria põem uma notícia do beco da ribeira ao cimo do ribeiro cimeiro e do bairro da padaria ao alto da lagariça. Exemplos mores dessa arte de espaventosa capacidade de comunicação foram Tecla e Pieres, por exemplo, ou Paca, velha Raposa ou Ilda do Vinagre. Eram bichas de rabiar em fogueira de S. João. O comandante bem dizia: " isto é má gado: às mulheres inda que lhe cortem metade da língua falam o dobro... deus deu-nos uma língua e duas orelhas, é para ouvir o dobro e falar metade". Filosofia de trazer por casa, mas funcional. Exemplos de tarantas lá temos o inefável Tonho, entretanto desaparecido, o Tramoço, Fainica, Feijão que não sendo espalha-brasas também aldeagavam quanto bastasse. Rosnavam ameaças, inventavam atoardas, ameaçavam-se fazendo o gesto mais revelador de pré-início de luta a sério: punho fechado por debaixo do queixo, ao mesmo tempo que, depois de traçarem um risco no chão:" se pisas o risco arrebento-te a alma!".
A Vontade de Poder, essa força que nos move a partir do mais básico de nós mesmos, em que o cérebro reptiliano avassala e subjuga todas as aprendizagens, sejam elas tradicionais ou pessoais, permitindo acções que até nos fazem, por vezes, gritar: "esta nem parece minha", a Vontade de Poder, queria eu dizer, impõe que fiquemos sempre por cima, que sejamos os vencedores, que ninguém nos ponha os pés no pescoço. Muito simples, como dizia um dos maiores vultos do pensamento ocidental, castrado na sua mensagem, só porque ousou ser diferente e não alinhar na NOMENKLATUR e no STABLISMENT, Nietzsche de seu apelido, é tempo, dizia ele, de sermos heróis e não humildes a ponto de nos confundirmos com cobardes. A moral tem que mudar, e essa, de aceitar, resignado, que o que se sofre neste mundo será corrigido no outro, é balela "com que o povo néscio se engana" no dizer do nosso inimitável zarolho.
terça-feira, agosto 01, 2006
A NOSSA FALA - LXIII - FIGOS MARANHÕES
Em todas as sociedades há elementos que gostam que as coisas não mudem e há outros que se esforçam para que a mudança aconteça. Os primeiros aceitam as estruturas tradicionais e tudo fazem para a manutenção da ordem e da disciplina vigentes; defendem a estabilidade e a harmonia do seu mundo sustentadas nas normas tradicionais; recebem com hostilidade as novidades que as podem comprometer; a modernização causa-lhes augústia. Os segundos, pelo contrário, entendem a mudança como necessária e desenvolvem uma forte propensão para contrariarem e subverterem as estruturas e a ordem estabelecidas, por as considerarem factores de estagnação e inibidoras da inevitável modernização.
Digamos, com Khun, que estamos perante dois paradigmas antagónicos, em que o anterior entrou em crise e surge um novo que pressupõe a aniquilição do outro. A transformação do velho para o novo é sentida como uma desorganização social, um caminho para a anomia, como diria Durkheim, pelo menos enquanto o sistema normativo antigo não é substituído pelo novo que emerge. Ainda com Khun, e utilizando o exemplo mais conhecido, pense-se nos efeitos da substituição do paradigma geocêntrico pelo que já apontava, certeiramente - eppur si muove -, para a nossa mesquinhez no contexto do universo, e os efeitos que tal provocou na visão do homem, do mundo, e… de Deus. Neste sentido, a modernização constitui um processo criativo e destrutivo da ordem anterior. Será? Ou será que a mudança é um processo primário, inexorável, e a estabilidade é apenas um afrouxamento da mudança?
Noutro quadro, recorramos a Bourdieu para pedir emprestado, o conceito de “campo”, aqui tomado, abusivamente, generalizado à escala societal. As posições relativas dos que são pró e contra a mudança leva-os a lutarem pela subversão ou pela conservação das estruturas, entendidas sobretudo no sentido da doxa, ou seja do senso comum, das “certezas” do velho paradigma, e do nomos, isto é das leis gerais, tendencialmente invariantes, que regem o seu funcionamento.
Esta conversa densa só para dizer que Ti Julho Ramelica era um fundamentalista do velho paradigma, um lutador tenaz do campo conservador.
O que se passava, em termos simples é que Ti Julho Ramelica não gostava da modernidade. Ele era um apreciador da ordem e do costume, avesso ao novo, hostilizava o desvio. Tirando a enfardadeira, que lhe dava jeito, por via da artrose, desconfiava de tudo o que era tecnologia. Entrava o velho sec XX na última década quando, a muito custo, lá concordou finalmente com a mulher em comprar o frigorífico, e em aceitar a televisão que a filha, emigrante na capital da Nação, lhe ofereceu, mas ninguém teve manhas para o convencer das virtualidades do micro-ondas. Mesmo no Verão, a mulher tinha de fazer o caldo na panela de ferro, ao lume. Doutra maneira, dizia, não lhe sabia bem. Incomodavam-no outras modernices como o telemóvel - proibiu a filha de oferecer um à patroa -, as saias curtas - umas desavergonhadas, é o que elas são -, as barulhentas motas de 4 rodas - espantam-me as pitas, haviam de marrar c'os cornos numa sobreira-, a música rock - eu sou capaz de bater os testos melhor do que eles - e, claro os piercings - atão mas qu'arraio de coisa é aquela?. Não seria admiração nenhuma que, se para tal tivesse preparação, discordasse em absoluto com o Vaticano II e com a missa noutra língua que não o latim.
Naturalmente, não apreciava futebol. A bem dizer, não achava qualquer utilidade a nenhum desporto, porque, no seu paradigma, o esforço tinha de ser produtivo. Daí que, não se inibia de, alto e bom som, invectivar aqueles “parvos que andam todos a correr atrás de uma bola, a cansarem-se que nem malucos, se querem suar, que me vão lá a arrancar as batatas”. Cada vez que passava junto ao polidesportivo a caminho da horta no serralheiro, arranjava sempre maneira de comentar com alguém “rais os palirem, andam eles ali a cansarem-se atrás do rai da bola, p’ra quêi? Se querem suar, ê tenho lá muntas inchadas e uma vinha para escavachar…”. O Mundial fora uma ralação para ele: “ na tilvisão é todo o santo dia naquilo, arre porra!”
A sua aversão ao futebol aumentou naquele dia em que regressava da horta com um caldeiro de lata de cogulo com figos maranhões, pendurado no cabo do sacho que equilibrava no ombro direito. Tinha acabado de repetir à Ti Ressureição Bandolas a sua teoria da improdutividade da actividade futebolística, quando uma bola chutada com força a mais galgou a rede do polidesportivo e veio embater em cheio no caldeiro dos figos.
Conjugada a raiva da situação com a maldade própria que lhe era (re)conhecida, Ti Julho atirou com o sacho para o lado, agarrou na bola e sacou do bolso a sua inseparável navalha de tachas pretas e folha já gasta de mais de 20 anos de uso, e põs-se a tentar espetá-la no esférico. Ou porque a raiva lhe reduziu o discernimento e a habilidade no manuseamento da navalha, ou porque o “cautchu” era duro, o certo é que a arma se lhe fechou apanhando-lhe o indicador, provocando-lhe um talho dos grandes e abundante soltura de sangue. A situação fê-lo atingir as raias da exasperação absoluta. Cego de dor e de humilhação, agarrou no sacho e começou a bater na bola que saltitava caprichosa como que a fugir das investidas do Ti Julho. Os jovens futebolistas assistiam agarrados à rede, comungando da opinião: “o velho passou-se…” O espectáculo só terminou quando o Ti Julho Ramelica desnocou o cabo do sacho numa pedra, quando falhou a fugidia bola redonda, e ele abalou com passo apressado berrando as mais ordinárias imprecações e os mais inconvenientes impropérios.
Juro que ele ia visivelmente consternado quando passou por mim. Quinze dias passados fui levar-lhe o caldeiro a casa e consolei-o, informando-o que, ao menos, os figos maranhões não se estragaram: papei-os eu.
sábado, julho 15, 2006
A NOSSA FALA - LXII - TRAMBELHO /TRAMBELO
"Olha, filho, não botes a cabeça fora da janela do camboio que ele passa numa ponte tão rente, tão rente que já se contam por nove os que lá ficaram." Invariavelmente era assim. E continuava: "Vê se te portas com trambelhos de gente...Já és um homenzinho!"
UM XXXXXIIIIGRRRRRRRAAANNDDDDEE!
sexta-feira, julho 07, 2006
A NOSSA FALA - LXI - ESCARAPUÇAR
Numa aldeia bem perto da nossa quando os pirolitos com os berlindes foram substituídos pelas caricas e, porque tal nunca tinham visto, imperioso se tornava arranjar um nome para aquela nova forma de tampa ou rolha, o povo não se ensaiou muito: como as caricas são parecidas com as formas dos bolos de coco, sejam em lata ou em papel, nada mais simples que chamar-lhes FORMINHAS. Ainda hoje por lá se chamam assim. Ainda outra: uma mulher, por acaso casada com um natural desta aldeia, tinha como apelido CARRECHANA. Dava-se o caso de a mulher ser de tez muito escura. Ora como as trovoadas também escurecem o céu, quando ameaçam a descarga, a ligação foi instantânea: vem aí uma carrechana!
O que aqui nos traz hoje é também uma palavra que derivou de carapuça, não por via gramatical, mas por via imagética, direi eu agora. De facto a palavra carapuça é, por demais, conhecida e até sentida, já que continuamente nos estão a enfiar uma. A uns assenta bem, a outros nem tanto!
ESCARAPUÇAR dizia-se essencialmente da situação em que a baraça com que se enrolava um pião, fosse porque não fora bem apertada ou apertada de mais, fosse porque o nó que se punha junto ao ferrão e que permitia enrolar de baixo para cima o dito cordel, fosse ainda porque o desgaste da baraça era já de tal monta que mal se podia puxar, fosse por que razão fosse, o certo era que o pião não dançava e tínhamos que o pôr na roda do meio à espera que um amigo no-lo tirasse.
O ESCARAPUÇAR vem do facto de ao vestirmos o pião com o cordel e, embora fosse vestido de baixo para cima - ao contrário da carapuça que se enfia de cima para baixo- às vezes o cordel se desmaranhar, (desemaranhar) , o pião, assim vestido, parecia uma boneca de carapuça. Já percebestes agora por que razão a via de entrada na língua portuguesa foi a via imagética? Como é parecido passa a ser igual. MAINADA! É apenas uma questão de imaginação.
Quantas vezes eu ouvi a mesma história ao João Vicente quando escarchava os piões !- a ele não se lhe escarapuçava a baraça. Tinha uma só dele que fazia a inveja da malta.
Dizia ele:" sabeis porque é que eu tenho esta força toda? Porque como muito bacalhau e o bacalhau é o peixe mais valente que há no mar.» «Como é que sabe isso? », perguntávamos nós, malandrecos, só para tornarmos a ouvir a resposta: "porque depois de pescado, esquartejado seco, salgado e demolhado ainda lhe fazem uma punheta". Todos ríamos e até corávamos.