sexta-feira, junho 13, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXV - I (N)DENBANÃO

O velho comandante, por mais de uma vez me disse:« olha que tu tens duas orelhas e só uma língua, portanto, isso quer dizer que deves ouvir o dobro e falar metade». E continuava (com toda a carga de machismo que isto possa ter):« num sejas como as mulheres que, mesmo que lhe cortem metade da língua, inda falam o dobro do que devem».
Foi por um acaso que justifiquei esta aglutinação popular. Dito de outro modo: soube ouvir. Afinal este fonema que parece não ter sentido, resulta da aglutinação de três palavras: ainda bem não. Agora já fica claro o seu significado.
Talvez que a figura mais misteriosa que pisou solo xêndrico  tivesse sido Tonha Freira. Muito se ouvia a seu propósito, mas tudo era tão controverso que nada fazia sentido e fundo de verdade não se vislumbrava nas diferentes versões do que teria sido a vida daquela mulher. Certo era que não era muito benquista por ninguém, nem mesmo por aquelas que andavam sempre a bater com a mão no peito e a defender que nos devemos "amar uns aos outros como irmãos". Não a aceitavam nos enfeites da igreja nos dias festivos, não lhe permitiram que fosse catequista, nuca foi ela que deu início aos cânticos litúrgicos. Todavia, nunca se ouviu daquela boca um resquício de desejos de vingança.
Muitas vezes me pus a questão do que viveria aquela mulher. É verdade que, de vez em quando, me aparecia com uma cesta de queijos curados e me pedia para lhos pesar um a um e lhe fazer a conta individualmente. Mas, mesmo assim, algum dinheiro que ganhasse na venda de queijos, que ela própria já tinha comprado e apenas tratava, nunca daria para a sua sobrevivência. Eu que era invasor de grande maioria das casas nunca entrei na dela. Mesmo na visita pascal, circunstância em que eu, como portador da cruz para o beijo comum, era sempre o primeiro a entrar, alguma vez passei o limiar da porta daquela casa.
O que se dizia é que ela teria feito o noviciado e os votos de uma qualquer ordem de freiras, teria pertencido à congregação, mas a sua velhacaria era tal que foi expulsa do convento com uma pequena reforma. Nunca a vi receber uma carta sequer, nem nunca soube o seu verdadeiro nome. A verdade é que apenas tinha o trajecto de casa para a igreja - não faltava a um único acto litúrgico - e da igreja para casa. Só ia por outros lados quando andava na venda dos queijos. Nem família , alguma vez alguém lhe conheceu. Apareceu por lá e por lá ficou até morrer.Nessa altura já eu andava por outras paragens e ainda não foi dessa que entrei com a caldeira da água benta e respectivo hissope.
Quando a Menina Irene ou a Clara Violas iniciavam os cantos logo o trinado da voz de Tonha Freira se fazia ouvir. Distinguia-se perfeitamente já que tremia a voz como nunca ouvi fazer a ninguém. O mais parecido com aquela forma de cantar era o assobio de Mnel Cara Velha. Indenbanão, Mnel  arrancava a assobiar e tudo se calava para ouvir. Aquilo não era um homem a assobiar, eram três: ninguém sabe como fazia mas o assobio vinha harmónico: parecia três. Era mesmo um encanto de ouvir. Nunca ninguém me encantou tanto com um simples assobio . Faz lembrar o saudoso Dr. Luís Goes: quem tiver mãos livres ou  um assobio, nem é preciso que saiba cantar»
Tonha Freira ensaiava-se em casa. Ia eu a levar uma bilha de gás no já mais que famoso carrinho quadrado de duas rodas ao professor Tanganho quando dembanão, ao passar à porta da casa de Tonha Freira, oiço a sua voz tremelicada. Espequei e fiquei a ouvir enquanto durou.
O mundo é mesmo assim: tem sempre segredos por e para desvendar..
Hoje a crónica fica curtinha senão dabanão fico sem leitores.
XXIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGRRRAAAAAAANNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEE!

sábado, maio 17, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXIV - BARBILHO/BRABILHO

Há pastores e até, mais ainda, grandes proprietários do ramo agro-pecuário que têm gado, (no caso vertente - cabras) com a finalidade mista de produzirem leite de que depois fazem queijo e para carne, ou seja, a missão principal das fêmeas é apenas produzirem cabritos. Neste caso, o desmame do cabrito acontece mais cedo para assim conseguirem que a cabra se saia mais cedo e o bode, sempre atento, encarrega-se do resto. Para impedirem que os cabritos continuem a mamar metem-lhe na boca um barbilho que os impede de chegar à teta da cabra, que, como não é puxada, logo seca e fica pronta para a função desejada. Em ar de gozo os pastores provocam-nos : querias mama, querias? Mas não a mamas!
Também há por aí muito boa gente que o que quer é mama, anda sempre à babuge(m) e não se importa nada de virar a casaca desde que o rio corra para a sua barragem. Os exemplos são tão bastos que me dispenso de citar um único que seja...não fossem os outros ficar melindrados. Vai lá vai...
Hoje trago-vos outro texto, já escrito há algum tempo, mas que cabe perfeitamente nos tempos que correm. É bastante longo e não sois obrigados a lê-lo todo de uma vez. Não tenho brabilho e portanto podeis sempre refasteladamente voltar a ele sempre que vos apraza.
Se é verdade, como diz James: - que a nossa mente é contínua - , então, estamos sempre activos em pensamento. Só que de alguns nos damos conta e de outros nem tanto… Mesmo assim continuamos sempre a pensar.
A nossa atenção ao meio próximo circundante, mesmo se a tarefa que desempenhamos é do nosso inteiro agrado e a motivação é forte, mesmo aí, dificilmente estamos mais de oito segundos concentrados. Esta é a saúde do nosso espírito: uma dispersão selectiva ou orientada. Nem obsessão concentracional ou monoideísmo obsessivo nem poliideísmo difuso.
Fazeis então bem quando saís e vos perguntais pela saúde do vosso filho ou sobre o que irá ser o vosso almoço, hoje. A nossa mente é uma vadia, até porque, como diz o poeta, “não há machado que corte a raíz ao pensamento. Vadiemos, pois. Mas, …, de vez em quando passemos por nós e por aqueles que nos enviam a sua mensagem. Foi assim que num daqueles momentos de hipnogagia, já quase a descambar para Morfeu me pus a pensar de mim para mim e relembrei que eu, afinal, era um sujeito objectado. Eu era o outro de mim mesmo. Uma espécie de não-eu como queria Fichte. A minha consciência de mim implica que sejamos dois num: um eu e um não-eu. A identidade funde-se com a alteridade, mas não em tempos diferentes como o filósofo do absoluto defendia. E a questão emergiu: então o sujeito é um objecto. Vai daí, propus-me um projecto que não me fosse, nem, muito menos para vós, abjecto… Decidi: tens um problema injecto…. Agora procura o melhor trajecto para que ele tenha algum afecto e não o considerem um dejecto.        
E foi assim que o feto começou a crescer no mais íntimo do meu imo.
Foi esta lucubração que me trouxe à ideia deter-me um pouco e pensar. Nesta época de velocidade onde tudo e todos voam à velocidade de um simples click, esta atitude até parece ter o seu quê de bizarro! Pensar! que desperdício....
Ainda assim, sempre fui contra o que sói dizer-se FAST: contra a Fast food, e mais ainda contra o FAST THINKING. Pensar depressa para quê. Já o velho Cartesius aconselhava que nos precatássemos contra a precipitação... nanja que eu seja muito seguidista deste racionalista metodista, mas, se se souber olhar, sempre se descortina algo de positivo onde se pensa que tudo é déjà vu!
Assim decidi divagar, mas devagar, m u i t o    d    e   v   a   g   a   r  i-  n  h  o.!
As ideias, ao princípio, atafulhavam-se, e como gladiadores em arena de Coliseu, umas com retis e outras com Gladium, à porfia lutavam para ver qual veria o polegar de César apontando para cima.... Olha, agora veio-me uma que calcou as outras todas! Já reparastes vós que os nossos jovens, nos dias de hoje estão a dar uma ocupação nova ao nosso velhinho polegar?! De facto, este velho oponente aos outros prolongamentos da mão, é agora senhor de uma destreza excepcional... olhai para eles, quando mexem nos telemóveis, vede a que velocidade emitem mensagens ou digitam um número de telefone. Se quereis saber o número digitado só se tiverdes à mão uma câmara lenta…
Já aferistes que voltamos a dar razão àquilo que sempre foi defendido? A verdade é que é a mão que desenvolve o cérebro e não este aquela. A necessidade de segurar liberta mais uma vez o polegar, e, ainda mais, se reforça a sua importância decisiva. Se a oponência do polegar permitiu a preensão, agora a sua libertação das funções de contra força, deixam lugar para a destreza, a habilidade. Finalmente, já não é o gordo que vai para a baliza.... Ele agora corre como os outros e mais: corre com os outros! É lindo!
Esta marca humana decisiva para a sua evolução fez-me lembrar o título dos nossos encontros: o homem revisitado... e se voltássemos a olhar o homem tal como me revi e me revisito todos os dias? Sempre igual e sempre diferente.
Nunca sou ou somos completamente velhos conhecidos, mas também não somos clones de nós mesmos. Como é agradável cada manhã vermos a nossa narcisidade e saudarmo-nos logo com um humor cáustico: bom dia, carga de ossos com carne! Tens à frente mais um dia, encarrega-te dele senão ele encarrega-se de ti...
Vamos então revisitar o homem.
A perspectiva que vos quero apresentar não pretende ser exaustiva, - haverá alguma coisa que o seja? - mas visa ser uma visão diferente , pessoal e com toda a certeza  é original.
Enquanto sujeito do mundo ele mais não é que um objecto desse mesmo mundo. É um entre os demais. Ao princípio viveu numa fusão perfeita enquadrando-se no seu habitat jogando o seu papel, lutando pela sobrevivência. É um sujeito idiossincrético e como tal mesmo sem a racionalidade que depois lhe vai dar a marca distintiva durante séculos ainda hoje perdurável, - o homem como animal racional -  idiossincrásico, numa harmonia que de selvagem tem o título infeliz que muitos lhe deram e que Lévy Stauss em boa hora corrigiu. Tinha uma lógica vivencial, pré-científica, é verdade, mas nem por isso menos lógica. O tempo era o tempo presente. O seu tempo, aquele mesmo que o obrigava a buscar sustentação, gregação e reprodução nos termos do chinês de Konigsberg. Este sujeito indistinto, imiscuído na perfeição do universo fazia parte da vida no mesmo patamar que muitos outros. Este sujeito deixava-se ficar sujeito à roda do devir e, aos poucos, começando a ler o que o rodeia, inicia uma nova narrativa que lhe possibilita uma nova gramática relacional na geometria espacial que o envolvia. É simultaneamente hiperactivado pela necessidade natural de se manter vivo e passivo, no sentido de sofredor, como tudo o que traz à mistura paixão. Este sujeito físico a breve trecho se torna metafísico, quer ordenar o que em si mesmo é caos. Como Ovídio in principio moles imensa indigestaque erat. O desejo de ordem afasta-o de si. Pendura-se num ordenador. Como não se fizera a si mesmo, a sua lógica levava-o a que alguém o tivesse feito. Os outros como ele, também não teriam tido essa capacidade, pelo que ele derivaria de um estranho a si mesmo. Não só ele, também o que o rodeava e lhe oferecia tanta diferenciação. Se ele não fazia o que o rodeava nem a si mesmo, mistério era e a exigência de um ser metahumano se tornasse emergente. A divindade, quando não as múltiplas divindades, respondiam às questões que o apoquentavam. E ele sossegou.
Mas... oh sortilégio, a idade de ouro, não podia durar por muito tempo e o abandono do paraíso não tarda... Ainda se volta para si a ver se encontrava respostas, mas aqueles que a procuram são iníquos e morrem às mãos dos seus iguais. Aí temos o sujeito social e enquanto social o sujeito político, o que ao não saber governar-se apoia que outros o governem... O político enquanto sujeito aliena a sua vontade, anonimiza-se, confunde-se no seio dos seus iguais e a sua virgindade inicial é conspurcada pelo ódio, inveja, escravização... A racionalidade afinal deixa-se vencer pelo sensorialismo. É bem verdade que o político é muitas vezes bem pouco polido.
O desmoronamento dos valores essenciais humanos inevitavelmente conduz a uma época do salve-se quem puder em que o sujeito é personificado, teocrático…. Impunha-se um novo sujeito que na convergência da valoração apresentasse pontos de vista divergentes. O sujeito do rompimento, da ruptura com os status quo, um sujeito dividido, um sujeito cristão, que, aos poucos se apossa de meio mundo e tentacularmente também ele aniquila quem é contra ele. Sujeito que realça a futilidade dos bens materiais e promete para além túmulo um mundo de bem aventuranças. O mundo deixou de ser humano, passou a ser ecuménico. É o sujeito catecúmeno possuído por uma catequese escatológica em que a razão cede lugar à crença, em que o dogma se confunde com a verdade, e a dúvida despertadora é esmagada ao peso da imposição inquisitorial. Só que este sujeito, de si, é insatisfeito, avesso a continuuns estagnantes que favorecem a putrefacção, e quer novas fontes, novos rios de verdade e, embora a custo e após penumbra quase eclíptica, reassume o seu lugar górdio, renasce e das cinzas de Fénix as sementes, tanto tempo hermeticamente enclausuradas num vórtice de mistérios, abrem-se agora para um novo dia e um nova postura. O homem humaniza-se. É o sujeito humanista, centro dos centros. Abre-se ao mundo e abre os mundos. Rompe com establishment e com a nomenklatur. Conhece e conhece-se, a doutrina cede o passo à prática e o saber deixa o trono para o conhecer. A investigação arreda o magister dixit, e os adivinhos, videntes e bruxos caducam ante a universalização das leis entretanto conquistadas à força de verificações experimentais. As sacralizações profanizam-se, a razão vai aos píncaros da sua capacidade e, tribunalícia, estabelece limites à sua própria extensão e compreensão. Vem já aí a caminho o sujeito individual, o que rejeita a lógica dos sistema e rebelde entende que a sua liberdade se exerce no seio dos outros. Alguns velhos do Restelo bem vociferam a força da ordem, da constância do método, do rigor da mathesis universalis. Mas o sujeito tinha aprendido a andar e quer agora caminhar e devolver de novo à natura aquilo que nunca dela deveria ter sido desapossado. Aí está o sujeito experimentalista, laboratorial, positivo. Fundamentalista na sua convicção que nada podia escapar à verificação factual, ufano nos poderes da previsibilidade e do controle, veste fato de gala e pretende de novo sujeitar-se a si mesmo a uns contornos de predefinição. Nem já a imaginação tinha lugar neste sujeito tirano que, à margem do que as circunstâncias aconselhavam, recusava a revisibilidade dos conceitos e queria o emparedamento das convenções. A poesia não cabia, tinha que tudo ficar ao nível de uma prosa fria, carrilada, dedutiva, sempre de navegação à vista…
Sempre a presunção umbilical, libidinosa do mandarinato científico!
Mas se há sujeitos que tudo querem sujeitar outros há que rejeitam o metodismo, a repetição o “amén…“ Afinal a teoria que nunca tinha sido e ainda continua por ser provada, a teoria da evolução, segue sendo isso mesmo: uma teoria. Como tal hipotética, provável, polémica, descarrilada…Mais uma vez o sacralizado, o intocável, rui e até mesmo o átomo se desintegra, o que era elemento ínfimo, é agora múltiplo composto, o que estava em repouso agita-se, e com que força! O sujeito atómico ‘ cria um poder sobre o qual deixa de ter poder ‘ como nos ajuda Morin, e, o que era visto como isolado, é entendido como inserido num campo, como muitos nos ensinaram desde Maxwell, a Lewin e Bourdieu. E para mais o sujeito guerreiro revive nos movimentos independentistas e as fronteiras deixam de ser espaciais para passarem apenas a ser temporais, como futuramente nos vai avisar Tofler. Com a guerra somos obrigados a recordar Vieira: «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela, e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.»
Como eu gostava de escrever como este sujeito escritor. Antes como agora o sujeito belicoso acarreta para a humanidade sempre este rol de desgraças. E nesta nossa revisita ao homem pergunta que se impõe será a saber quantos dias de paz conheceu a humanidade….
Mas… é forçoso que continuemos a nossa viagem por algumas das facetas que o homem enquanto sujeito nos foi deixando no tempo.
Já não bastava a destruição de alguns dos paradigmas, quando o mundo é acordado pelo escândalo menos esperado: chegou o sujeito sexual. O último tabu, aquele que se velava, fosse de tanga ou com as mais sofisticadas roupas, é agora deixado às claras e considerado como o responsável mor pelo comportamento humano. Vasculha-se até ao mais fundo do segredo pessoal, descodificam-se os sonhos, põe-se ao léu o que fortalezas consideradas inexpugnáveis pelo sujeito ciosamente guardavam. O importante não é o que se vê ou o que se diz, mas antes o que se oculta.
Afinal a verdade está escondida e o que é preciso é encontrar as armas adequadas para a desvendar.
Parecia adivinhar-se o sujeito fiscal… Era preciso guardar as verdades; afinal já nada está seguro? Os guardiões dos templos, qual horda organizada, poderosa no seu STATUS a breve trecho cria o sujeito epistemológico, hidra de sete cabeças e boca voraz, ressurreição inquisitorial, microscopinvestiga e acerrimamente critica quem extravasa das margens. Mais uma vez este sujeito inquisitorial se esquece que o rio é livre e que a culpa nunca é dele, mas exactamente das margens que o apertam na soberba imagem de Brecht.
O novo sujeito agora possesso pela energia liberta e, simultaneamente, controlada, a breve trecho, vai espezinhar este sujeito epistemológico, indivíduo de escola, servil e obediente, que apenas arriscava pôr os pés nas poldras que sobressaíssem seguras da torrente das águas. De pouco lhe valeu. O sujeito epistemológico esqueceu-se do sujeito epistémico, inovador, investigador, curioso, indomável, agressivo, rebelde, cada dia novo. Como bola de neve rolando o volume do seu tamanho aumenta e arrasa o que se opõe. Liberta-se de peias e assume uma nova postura, ávido de saber, não pára na sua indagação e olhando para trás aproveita o que de bom pelo tempo fora conseguindo e melhora significativamente as suas potencialidades.
É assim que chegamos ao sujeito cibernético, à era da tecla à fusão entre virtual e real. O tempo e o espaço deixam de pertencer à esfera do sujeito, que, estulto na sua comodidade, abre as portas aos invasores que, especialistas na arte do engodo lhe impingem de novo verdades que se convence serem insofismáveis. O sujeito cibernético, traz o sujeito marketing, o sujeito publicidade, o sujeito global…, fica tudo sujeito ao simples gesto de premir um botão.
Que homem é este que agora nos acompanha? Fecha as portas aos seus vizinhos próximos e escancara a sua sala, a privacidade do seu quarto, vilipendia a sua mesa, renega o diálogo familiar, abocanha a velocidade, corre mais depressa para a sua própria destruição…
Será este o homem apocalíptico?
Será desta que os tentáculos da mais ganância, a valoração da materialidade, do egoísmo e da competitividade dizimarão o nosso homem?
Não deixaremos nós também uma marca que permita aos vindouros revisitarem-nos?
Quero terminar com o sujeito esperançoso. O mundo e o homem não são feitos à imagem de Hitler ou outro qualquer ditador.
Há outras leituras, outras narrativas e, como em todas as mitologias, o Bem sempre venceu o Mal.
Disse ou tenho dito que é o que se diz quando se disse o que se queria dizer. Disse!
XIIIIIGGGGGRRRRAANNNNDDDDEEEEE

segunda-feira, abril 21, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXIII - SAMARRO

Podemos comunicar de muita maneira e não é aqui lugar para um aprofundamento do tema. Ainda assim deixemos claro que uma das formas a que menos ligamos é a roupa. Facto é que identificamos um polícia pelo uniforme, ou um bombeiro, um médico em serviço...É muito difícil identificar, por exemplo, um professor pela roupa que traz vestida. Há mesmo pessoas que se disfarçam para parecer o que não são e, muitas vezes, conseguem iludir os outros. Basta ver os constantes contos do vigário. Há mesmo os lobos com pele de cordeiro. Julho Grilo também enganaria qualquer que o não conhecesse.
Quem visse Julho (= Júlio) Grilo e, mais ainda,  o ouvisse no seu puritanismo falante, todo garboso, numa fala quase cantada, seria levado a pensar que se tratava de algum universitário a quem a vida tivesse corrido mal. Não admitia palavras nem com aférese, nem síncopes nem apócopes. Menos ainda com próteses, epênteses ou paragoges. Teimava que as palavras deviam ser pronunciadas correctamente, obrigando o falante a pronunciar silabicamente cada palavra . Nunca dizia "tamém", mas insistia sempre que a palavra era "também" e era assim que devia ser pronunciada. Não havia para ele "amandar" mas só e apenas "mandar". Também não autorizava permutas como, por exemplo, "cravão" por "carvão", ou " assobier" por "assobiar, ou "traguer" por "trazer". Às vezes ficava a falar sozinho porque os circunstantes o mandavam à fonte limpa e se borrifavam para as suas tentativas de correcção. Chamavam-lhe o maniento, apelido que era reforçado pela sua maneira de vestir. Nunca aparecia no "povo" que não fosse com o seu chapéu bem burnido, camisa bem apertada, gravata com alfinete ajustado, calça vincada e sapato engraxado. Tinha pose este Julho Grilo! No Inverno, fazia questão de trazer  a sua samarra, com gola de raposa e relógio de bolso preso por corrente de prata. Já Popeda (=Poupada), sua mulher, andava vestida com chita da tabela, a maior parte das vezes descalça e quando vinha "às mercas" (=compras) trazia os trocos embrulhados num lenço das mãos mais ensebado que botas de pele de lavrador abastado em missa de festa ou Domingo. Podia pôr-se de pavio numa candeia que não consumiria combustível durante uma hora ou mais. Apesar de ter o mestre da pronúncia em casa Popeda tudo atamancava e havia alturas em que até era difícil 'cortar' a linguagem dela. Pior que ela só mesmo Chquim Camião ou  Zé Mêlgo quando carregado com uns tintos jeitosos.
Não havia dúvidas de que tínhamos aqui o que se pode chamar de "casal perfeito": um completava o outro.
Julho era também, por vezes, um tanto gabarola das suas aventuras amorosas extra conjugais.
Lembro-me de uma vez ele contar que roubara uma rosa no Jardim de Penamacor e a foi levar a uma pretendida, todo lampeirinho, com uma frase bem estudada para conseguir ver se ela lhe dava troco. A porta estava aberta e ela estava sentada no segundo degrau das escadas a passajar umas meias do marido e Julho, cego pelo desejo cupidinoso, nem mediu a atitude e de chofre: "Toma lá esta rosa em botão como prova do meu amor por ti no meu coração". O marido estava na trasfega do vinho e quando tal ouviu vem de lá com um barrote nas mão e ainda assestou uma valente bordoada em Julho que arrancou rua abaixo a fugir do imprevisto. Contava então " O samarro do meu casaquinho é que as papou! ai papou, papou!"
Muito mais prosaicos os que tal gabarolice ouviram  não estavam com tais ensaios poéticos e diziam que o marido lhe tinha mas é " tosado o samarro assim comédado".
Procurai cuidar bem do vosso samarro.
XXXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAANNNNNDDDDDDEEE

terça-feira, março 25, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXII - ÀS AT(E)(I)NÊNCIAS

Às atinências de que não me esqueço onde ponho as  chaves, confio na fidelidade da minha memória... O facto é que, como dizia o velho Comandante do meu avô: « a memória drome»! assim mesmo drome e não dorme. Dizia esse avô inesquecível, apesar de ser o Comandante do Inferno, velhaco como as cobras, que a memória tinha horas, como a água correr: « hades arreparar, uma noite calma que andes pelo campo, perto duma queda de água, que, de vez em quando, deixas de ouvir a cachoeira da água... ela continua a correr mas como corre a dormir num se ouve... Podes crer que a água drome...» Tal qual como a nossa memória. Ela sabe o que se passou, mas não é capaz de to pôr à frente dos olhos. Drome! E quanto mais te esforçares por te alembrar, menos t'alembra.»
 A verdade é que o velho Comandante tinha razão.
Vem isto a propósito de um texto que, faz tempo, escrevi, e que há muito procurava. Cumprindo um velho aforismo : «Quando encontras sem procurar é porque já procuraste muito sem encontrar». Encontrei-o finalmente. Como ainda gosto dele, ofereço-vo-lo, às atenências que também o aprecieis. Se não gostardes, pronto, tenho que me convencer que não se pode continuar a viver às atnências. Por exemplo, de que quem governa cumpra o diz que irá fazer... Mas aí já não me fio ...
O ponto tudo inicia e tudo acaba. Para tudo, ou quase tudo, há um ponto de partida e um ponto de chegada.
Ao longo da nossa vida andamos sempre à procura do nosso ponto:
A criança aproxima o livro o idoso afasta o texto…
O ponto é o elemento da recta, que mais não é que a sua infinitude e se fecharmos a recta, e juntarmos ao ponto outros dois, o ponto transforma-se em plano, já com superfície definida; não se esgota aqui o ponto, afinal, o volume é ainda a tridimensionalidade do ponto. Do plano passamos ao objecto.
Ocupamos, depois, um ponto no espaço, e o espaço está cheio de pontos: uns vazios, outros cheios, uns próximos outros longínquos: que é a Terra, afinal senão um minúsculo ponto no seio do Universo?
Este mesmo Universo começou por ser um ponto grande que, grávido de energia, explodiu e preencheu o que vemos e o que não vemos, dispersando-se por infinitos pontos.
É ainda o ponto que procuramos quando pretendemos a perfeição: a comida está óptima, quando estão no ponto, a confecção, o sal, a apresentação…
Quando entendemos que qualquer coisa está mesmo como nós queremos e até desejávamos dizemos que está em ponto rebuçado.
A verdade e a mentira são pontos de vista e a afinação dos instrumentos tem um ponto exacto; acertamos a nossa vida pelo ponto certo e quando queremos argumentar e contra-argumentar asseveramos que é aí mesmo, ou não, que bate o ponto.
A meta é um ponto de mira como o alvo e até os nossos desejos mais íntimos almejam alcançar um qualquer ponto. O nosso ponto.
É assim o artista: tudo começa num ponto, seja a primeira nota de uma sinfonia ou o primeiro risco de uma pintura, a primeira cinzelada na pedra da escultura, o primeiro corte na madeira da imagem, a primeira letra de um romance e é porque algo toca ao nosso ponto sensível que se torna significativo para nós. A adesão ou a repulsa e o afastamento do que sentimos mais não são que pontos da nossa sensibilidade.
Mais que sensação, que é bruta, a estética é sensibilidade, é percepção, porque inteligente.Tem outro ponto de interesse.
A arte gravita no mundo da emoção e portanto não tem ponto fixo, não tem regra, não precisa de ponto geométrico.
Arte é imaginação, criatividade, ponto fora do plano e por esse ponto tudo pode passar.
O ponto é, assim, a encruzilhada do infinito. O infinito reduz-se a um ponto.
O ponto é a perfeição, por isso o colocamos apenas no fim.
 O ponto não ocupa qualquer lugar.
O ponto para estar no ponto tem que estar no ponto certo.
Só quando tudo está acabado é que dizemos: ponto final!
Quando temos lacunas mnésicas é que mais apreciamos o valor do ponto: como no teatro, quem safa o actor é o ponto.
Até há pessoas que são mesmo um ponto.
Parece então que não há só um ponto, tantos são os pontos.
Chegamos a um ponto em que já não se tornava aconselhável continuar a bater no ponto … 
O estudante clama: vêm aí os pontos! e esses pontos não são para brincadeiras. São pontos que têm nós, que são pontos mais grossos e que muitas vezes decidem até que ponto podemos chegar.
Apesar de não pretendermos ter dado um nó neste ponto, apenas pretendíamos uma laçada, o facto é que é nesse ponto que bate o ponto.
Esperamos que ainda possamos deslaçar o laço e que o ponto sem nó venha até nós com novos pontos de vista,  nova vida, quem sabe num outro ponto.
Temos pessoas que, para nós, marcam pontos e por isso as colocamos no ponto mais alto.
É nesse ponto, o mais alto, que eu vos tenho. 
Sou mesmo um ponto, não sou?
XXXIIIIIIIIGGGGRRRRRAAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEE!

segunda-feira, março 03, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXI - CHARRINCA

Hoje deu-me para aqui. Quero a vossa cabeça a aquecer.  A ver se não charrinca quando for preciso pensar na vida a sério. E já faltou mais! Há que preparar. Senão depois, enferrujados como estamos charrincamos por todo o lado e não damos carreira direita. A ver se gostais desta prosa:
Vivemos num tempo em que quase não há tempo para ter tempo. Apesar das velocidades que a tecnologia nos possibilita a verdade é que passamos grande parte da nossa vida a protestar que não temos tempo.
Por isso vivemos num tempo sem tempo. A característica mor deste tempo é a efemeridade. Tudo é efémero e descartável: pessoas, situações, objectos, … Já nada é como era e a própria memória, essa nobre faculdade humana, está hoje tão empobrecida e esquecida que já não é estimulada.
Trocamos a memorização e a recordação pelo registo em artefactos.
O futuro será de Alzheimer a não ser que se arrepie caminho e voltemos a accionar a nossa faculdade de evocar e reconhecer.
Até parece – perdoe-se a delação - que  o novo acordo ortográfico também alinha por este diapasão: tiram tanta letra que desconfiguram o português e a nossa língua deixa de ser novilatina para ser novimulticultural. Perde a sua identidade e a sua vernaculidade. Penso que isto é também consequência deste tempo sem tempo: quantos menos letras escrevermos, mais depressa escrevemos e assim ganhamos o tempo que não temos e nos falta. Triste solução.
Por isso, aparecer neste tempo quem recuse o fast thinking, com a mesma veemência que eu recuso o fast food, alguém que parou para pensar, que não se afligiu em parecer fora de tempo, em ser desalinhado face à grande maioria, que come em pé e não saboreia calmamente a refeição, é tão estranho que até destoa.
É mesmo necessário parar para pensar! Exercitar aquela que é a dimensão mais elevada do ser humano: a sua capacidade de criar, de romper com o estabelecido, de desobedecer ao status quo, de subverter o dogma, de propor ousadias e de nos convidar a nós próprios também a exercitar o nosso pensamento.
O tempo hoje nem é local nem global: é glocal, e o facto de as coisas que não sabemos serem muitas mais do que as que sabemos, não nos deve preocupar sobremaneira. Afinal estamos, hoje por hoje, sempre mais perto do erro, da falibilidade, do que da segurança e da estabilidade. Já nada está certo a não ser a insegurança, ela mesma. Mais que nunca o velho efésio tinha razão: panta rei. Tudo flui, tudo passa naquela fugacidade do instante eterno. Estamos muito num agora e pouco num aqui.
A indefinição do espaço e a ausência de fronteira obriga-nos a um nova concepção do limite. Afinal vivemos no limite sem contornos, no ilimitado.
É assim que se entende que cada vez que dou uma volta e volto ao ponto de origem, já não volto como saí. O não-eu fichteano desnorteia o eu e a inconsciência sobrepõe-se ao consciente, nesta efemeridade permanente, em que o que é, é o que não é. 
O que é, é apenas o que é nosso:  a subjectividade de cada momento é que revitaliza a objectividade do que acontece.
Estamos longe das coordenadas cartesianas em que tudo tinha um quadrante e o ponto era entendível nesse espaço; «Já nada sói como soía», pregava, faz tempo, o nosso zarolho.
A educação, ela própria, esse motor que impulsiona o progresso, vive o dilema de ficar para trás a empurrar para a frente. Esta nova realidade surge tão relampejante que ofusca o simples observador e, imperioso é que tenhamos a necessária competência para releituras desta realidade que nos ultrapassa e à educação.
O passo é maior que a perna.
Já nada é paradigmático, único, fechado, sistémico. Temos que aprender a aprender e limparmos as nossas leituras, pejadas de viciações, que já não se enquadram nas padronizações em que enraizamos o nosso saber.
O mundo, hoje por hoje, é da mobilidade, da alterabilidade, do movediço, do polémico. Não mais uma razão arquitectónica , alicerçada em fundamentos tidos como inabaláveis.
Os dogmas são rebatidos e já nada é sagrado, tudo é, a cada momento, profanado.
É aqui que entra, impante, a necessidade de uma ética mínima.
Na nova educação não pode haver pretensões ao “no meu tempo é que era”.
Os valores mais tradicionais entraram também em decadência e é indispensável uma nova escatologia axiológica.
Estamos numa nova dimensão da ética: não já a fixa deontologia do chinês de Konigsberg, menos ainda o oportunismo utilitarista de Mill, que não dava carreira direita no que à felicidade dizia respeito, mas numa ética de outra dimensão, virada para os tempos hodiernos, com fulcro no homem e no seu tempo, numa idiossincrasia com o ambiente e percorrendo todos os campos da sua actividade, acentuando o enfoque numa educação ética, que proponha uma educação para os valores e para a cidadania, pois só esta, enfim, possibilitará a almejada felicidade ao homem, perante as mudanças produzidas pela sociedade actual.
Tempos outros foram aqueles que proporcionaram as éticas do equilíbrio, da ponderação, da temperança, da aurea mediocritas… Os de hoje têm inimigos muitos, desde o egoísmo, muitas vezes camuflado num altruísmo reversível, em que o gene egoísta nunca desaparece, ao relativismo cultural que, hipocritamente, diz que cada cultura deve ser respeitada nos seus valores, mas quer sempre impor os seus, renegando-se a si próprio e aos outros, caindo num individualismo que pode levar a uma total perversão do que deve ser a compostura humana e humanitária.
Vamos então situar o homem perante uma charneira onde nada está fechado e tudo está em aberto.
A contemporaneidade é acidental relativamente ao tempo, mas é essencial para a assumpção da condição humana no tempo.
A necessidade educativa e/ou ética parte das exigências de compromisso do sujeito responsável e activo em estar presente no presente, que, no fundo, é um tempo caracterizado pelas ideias e crises, pela globalização, pela informatização, pela ruptura e avanços das tecnologias nas diferentes áreas do saber.
Num tempo em que o homem tem dificuldade em segurar o presente a dimensão ética adquire foros de necessidade premente, não com pressupostos valorativos impostos, mas antes, como propostas que sejam vivenciais e atractivas, visando a obtenção da felicidade que se busca.
A epistemologia desvia-se para a ética e os cientistas quase emergem como novos deuses e o saber arrisca-se a arrastar-se para uma crise axiológica que mais não é do que uma crise antropológica.
A questão agrava-se se confirmarmos que vivemos numa sociedade de informação, quando a questão mais premente é se essa informação é boa e, mais ainda se os cidadãos estão e são bem informados.
É que, tanta informação torna-se em desinformação e o que se transmite pode resvalar para os não valores e o homem acaba por desaparecer no meio da massa, no interior do sistema.
É por isso que mais ressalta e emerge a importância do papel da escola para que o homem não desapareça.
Entramos numa nova era que abriu os campos do desespero como diz Toffler e não há alternativa senão que
“ é obrigatório falar de uma ética mínima, entendendo por ética o espaço de procura e articulação de formas válidas de convivências, e, por mínima, o conjunto de valores comuns a todos os homens e culturas.”
Volvamos ao começo para que o norte não nos fuja! Neste tempo de mudanças contínuas, não cabe já falar de uma profissão mas de profissões e a ética das profissões acarreta a responsabilidade de arcar com a missão de ser o pontífice entre a tradição do constante com a alterabilidade do contemporâneo, satisfazendo as cada vez mais sucessivas especialidades formativas que a sociedade exige.
Basta ver que, paradoxalmente, a sociedade da comunicação convida a que se trabalhe em casa, que cada um “case” com a sua máquina, que produza no isolamento.
Singular paradoxo!
Morin tem vindo a recuperar para a ribalta as ciências humanas e sociais e, mais radicalmente ainda, Bourdieu assinala o decisivo papel do homem, já que é dele que tudo parte e a ele tudo retorna – o inultrapassável mito do eterno retorno, -  mas agora numa dialéctica fermentada num campus de forças, que acrescenta sempre novidades, como Husserl exigia na alteração da posição radical.
Talvez não seja asneira colocarmo-nos off-side e metermos muito do que temos crido até agora entre parêntesis, para que lixiviados de crenças que reputamos de bem fundamentadas, não nos confrontemos com a simples constatação de Gettier: afinal o relógio do tempo que sempre bateu as horas certas e me servia de fuso para as minhas tarefas, naquele dia, avariou e eu cheguei tarde ao trabalho…
Cartesius queria a ordem, mas, ao que parece, mais vale a entropia. A boa ordem, não é a ordem do racionalismo, mas a do humanismo e esta nunca é igual e, mais importante que seguir um método que não se renova, melhor será uma aparente ausência de metodismo, jogando numa abertura a novidades que permitam transformar o método em plano e assim admitir, e até aconselhar, alterações ao momento, enfrentando as realidades com novas epistemologias e novas diálises.
Os jovens de hoje gravitam na era da tecla, do click, do instante, do eficaz, do empréstimo, do importa e do exporta, do actualizar e reformular, do formatar, não estão muito para se encharcar com informação despicienda, desde os sistemas das serras até às linhas de comboio e afluentes das duas margens dos rios.
Eles sabem -  e quanto eles sabem que os outros não sabem! -, eles sabem tirar do caos a ordem de que necessitam. Não é preciso forçar! Está-lhes na massa do sangue: a inteligência racional casada com a inteligência artificial dá campo vasto de manobra para as novas ciências cognitivas.
Não queiram, pois os velhos do Restelo querer andar para a frente a olhar para o retrovisor.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXX - (T)CHIADEIRA / (T)CHIADÊRA

Eram vários os ganhões na terra xêndrica. Era famosa a junta do ti mné Guerra com duas vacas valentes - a mimosa e a mourisca- amarelinhas como o oiro, sempre luzidias e garbosas, sinal de bom trato. Seu irmão Domingos rivalizava com ele, mas, cá para mim, junta valente era a do Vigura, composta por dois animais possantes - a rosada e a bonita - mansos como a terra, pachorrentas mas como uma força conjunta quase inimaginável para duas vacas. Vigura carregava sempre mais que a medida e elas correspondiam. Embora trouxesse sempre a vara com o aguilhão a verdade é que nunca lha vi usar. Era mais bruto ele do que propriamente as vacas, sobretudo quando bebia. Num domingo na tasca da Rosa em disputa com Cabo Vermelho, mordeu-o com tal raiva que lhe arrancou o brinco da orelha esquerda e ainda teve tempo para cuspir para o chão parte do lábio inferior do desditado Cabo Vermelho. Foi meu pai que entregou ao bombeiro que chegou na ambulância os dois bocados de carne: o brinco da orelha e o lábio. Cabo Vermelho acabou por ficar inteiro porque lhe coseram os dois bocados. Vigura, esse acabou por ser morto com uma gadanha quando escavacava a porta de Carradas com um machado, com intenção de o matar. Carradas saltou pela janela das traseiras, agarrou na gadanha e ceifou literalmente o Vigura. Estória macabra...
Famosa era também a junta do Alberto Vaz, que era composta por um boi inteiro e uma vaca. Era sempre ele que moía a azeitona no pio do lagar da lameira. Gostava tanto ou mais de vinho do que o Vigura.
Havia ainda mais ganhões mas a parelha já não era composta por vacas. Ou era uma burra e uma vitela ou mesmo dois burros. Lembro-me do Júlio Aspirante, do Tonho Labouxa, do Alberto Rogante, do Zé Luís Barata, do Mné Chquim Labouxa, do Puta Maluca, do Passa Culpas, do Julho Sardones e mais não sei quantos. Os ganhões faziam de tudo na agrícola onde fosse precisa a força animal. Trabalhavam de sol a sol, uma jeira, e tanto lavravam como transportavam fosse os moios de pão no Verão, as dornas de uvas em Setembro, ou lenha para o lagar, areia da ribeira para pequenas obras, bem como pedra, toradas, traves, caibro, enfim, tudo.
Outros, tinham uma carroça e uma besta para a puxar e com ela também lavravam e transportavam. Cavalo só havia o do Raposo, casado com Bandeira de Guerra e mula também só a do Ti Zé Rolo.
As rodas dos carros eram envoltas em ferro na oficina de outro grande artista: o ti Mné Ferreiro. Homem muito reservado, poucos lhe ouviam a voz, calmo,  muito ponderado e com uma habilidade fora do comum. Construiu sozinho um sem número de relógios de torre de igreja, refazia relógios de bolso de peças múltiplas. Ainda tenho um com o mostrador marca Combóio. O ferro era aplicado na estrutura de madeira das rodas aquecendo-o em fogueira grande até ao rubro e depois arrefecido e cravado. Vi-lhe meter vários.
Num dia em que tocava o fole da forja para enrubescer a hulha em troca de o Ti Mné Ferreiro me aguçar o meu espeta , apareceu o Puta Maluca com a sua parelha de burros atrelada ao carro: « Ó ti Mnel, tire-me lá esta tchiadêra das rodas. A minha anda-me a atentar o tino a dizer que é uma vergonha». Mné Ferreiro riu-se e caladinhamente, chega-se a cada uma das rodas, saca a cuba do eixo, unta tudo muito bem com massa consistente e volta a meter as rodas. Puta Maluca ficou especado a olhar . Pagou cinco mil réis, coisa pouca, e lá se vai com os burros a puxar o tiró do carro todo contente porque já não ia tornar a ouvir o ranço da mulher.
Depois lá calhou a vez do meu espeta ser aguçado. Fui logo experimentá-lo no alcatrão da estrada: uma beleza! enterrava-se que era um encanto. Agora já podia vir para o largo do Batoco e limpar os adversários que já tinham o ferro do espeta motcho. Fiz um figurão.
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNDDDDDEEE

terça-feira, fevereiro 04, 2014

A NOSSA FALADURA - CCIX - CAÇULHO

É lugar comum que nas aldeias as pessoas sejam mais conhecidas pelas alcunhas do que propriamente pelos nomes ou apelidos. Há mesmo alguns muito engraçados. Por muitos levantamentos que se façam nunca se consegue uma lista exaustiva e, menos ainda, da origem, ou sequer da justificação para essa alcunha.
Dou alguns exemplos: mama na burra, mija a parede, caga e torce, borra botas, papa arroz, alfácea, olho de lata,... Trago-vos hoje duas alcunhas de um casal para as quais não vislumbro a mínima justificação.
Maria TchanTchan Três e Dois são Cinco era casada com Mnel Tendeirinho. A casa onde,  mais ela do que ele, moravam ficava no alto da lagariça, ali no beco do Belorico, quando se vira no gaveto do Balão. Casa térrea de uma única divisão onde tudo se fazia: lareira, comida, dormida..., tudo. Tinham uma filha. Tendeirinho passava a maior parte do tempo em Lisboa. Vivia em Campolide no Bairro da Serafina, num tugúrio miserável, trabalhava como servente de pedreiro. Ganhava pouco e pouco mandava para Maria TchanTchan. Ambos analfabetos, nem por carta comunicavam. Tendeirinho vinha uma vez ou duas por ano à terra xêndrica e por pouco tempo. Nunca gozou férias. Tchan Tchan ia fazendo uns jornais na sacha do milho, na sementeira da batata, na plantação do eucalipto, na apanha da azeitona. A filha ia sempre com ela para todo o lado. O dinheiro não o conhecia. Viviam uma vida miserável. Pouco sociáveis, passavam a maior parte dos dias no casebre e era muito raro vê-las naquilo a que se chama O POVO. Tinham uma pequena horta, à renda, ali para os lados da quelha funda, onde cultivavam o pouco que comiam. Tendeirinho quando vinha, levava o que podia e que não podia ser muito, porque tinha que carregar com tudo às costas desde a estação de Campolide e era sempre a subir até à sua palhota. Tal como Tchan Tchan, também era muito reservado e mesmo os xendros que viviam perto dele chegavam a não o ver durante meses. Quando queria que Tchan Tchan lhe enviasse algum cesto com batata, cebola, alho, feijão e o mais que a terra dava, Tendeirinho dirigia-se à estação dos correios e fazia aquilo que se chamava, à época, (e não há assim tanto tempo como pode parecer) uma chamada de aviso. Consistia esta via de comunicação em o requerente pagar para que o titular do posto de telefone de destino fosse avisar o destinatário da chamada no prazo máximo de duas horas. À hora aprazada chegava, então, a ligação da estação de origem e a pessoa podia falar com quem desejava, num qualquer posto público. Estes postos públicos tinham uma cabina para a qual havia uma extensão telefónica a partir da qual os clientes falavam. A privacidade era nula, porque, em regra, essas cabinas estavam tão empenadas que as portas, quando as tinham, nunca fechavam. Era na loja dos meus pais que estava o posto público. Lembro-me uma vez ter recebido uma chamada de aviso para senhora Maria de Oliveira Martins, moradora na rua da Lagariça. Começo a indagar quem seria e nem mesmo o carteiro sabia quem era. Por exclusão de partes lá cheguei à conclusão de que seria a Maria Tchan Tchan Três e Dois são Cinco, tanto mais que a estação de proveniência era a de Campolide. Tchan Tchan estava na horta e lá fui eu de bicicleta a avisá-la. Chegou à hora e quando lhe digo para se dirigir à cabina, Maria nem sequer levanta o auscultador e começa ainda   distante «Quem é que quer falar comigo? És tu Mnel? Diz lá o que queres...» Bem, a cena dispensa comentários...Tive que a meter dentro da cabina, pôr-lhe o auscultador nos ouvidos, mas mesmo assim falava tão alto que era fácil perceber a conversa. O Tendeirinho pedia-que lhe mandasse cebolas e couves e alguma farinheira fresca que ela conseguisse arranjar. Maria sai-se então com esta: «Num te posso mandar as couves porque inda estão verdes como um caçulho»
Foi risada geral entre todos quantos estavam na loja. Já não se sabe o mais que Tendeirinho lhe pediu mas ela lá foi no dia seguinte a despachar o cesto com o pedido. Fui eu que lhe escrevi a tabuleta.
Esclareça-se, uma vez sem exemplo, que o caçulho popular é o carçulo, planta herbácea que cresce nas paredes e que tem uma folha carnuda, muito igual na forma à do nenúfar e que independentemente da chuva cair ou não se mantém permanentemente verde. A flor surge na ponta de um caule também muito semelhante ao da floração do cacto AloéVera. Só que em ponto muito mais pequeno, é claro.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

A NOSSA FALADURA - CCVIII - ATA(LA)MANCADO

Os portugueses são exímios a atamancar. Por regra deixam tudo para a véspera do limite final e, depois, lá se vão desenrascando. Mas de forma atalamancada. Respiram de alívio e logo esquecem os tremores por que passaram e voltam a adiar a cabal resolução do problema até que de novo se sintam premidos pela urgência.
Participei, já lá vão anos num Fórum sobre personalidade base, inconsciente colectivo e padrões de cultura, que são, no fundo a matriz comportamental de um qualquer povo. Um dos parceiros do painel estabeleceu uma comparação muito sui generis entre os portugueses e os alemães da qual não mais me esqueci. Do seu ponto de vista os portugueses eram espertos mas menos inteligentes enquanto os alemães eram inteligentes mas pouco espertos. Assentava esta tese num argumento que pode parecer e até ser uma falácia mas que não deixa de ser curioso: os portugueses começam a rir-se mito antes de um qualquer entretainer acabar um anedota enquanto se houvesse um ouvinte alemão teria que esperar pelo fim, desvendar onde estava o absurdo e só então se riria procurando também compreender por que raio o português se começou a rir tão antes do fim do chiste. Os portugueses andam pela rama, os alemães vão à raíz.
Não vem ao caso debatermos a asserção mas do que não há dúvida é que eles planeiam e nós passamos a vida a remendar. Muitas vezes de forma atamancada e é por isso que, a breve trecho, torna a ficar tudo atalamancado.
Veja-se o que se passa na (des?)governação deste rectângulo. O país todos os anos arde mas já alguém se preocupou em fazer um planeamento adequado para uma correcta reflorestação das áreas ardidas? Esporadicamente lá vão tomando medidas avulsas que pouco ou nada solucionam já que não são medidas isoladas e desenquadradas. Passam o tempo a remediar e quase nunca a solucionar. Atamancam tudo, é o que é. Podíamos estender a nossa análise à Educação (lançamento de programas totalmente ad hoc sem qualquer aferição prévia que pudesse validar e fiabilizar a sua implementação); podíamos estender à Saúde onde medidas mais impostas do que respostas vão liquidando o SNS); ao Trabalho e Solidariedade Social com intenções malévolas de tudo pretender privatizar... Tudo atamancamentos.
Bem... mas o âmbito do nosso Basa não é o do comentário político para não nos pormos também a atalamancar.
Voltando à base: inquestionável é que o português se tiver um alicate e um arame resolve quase tudo. Mainada!
João Manel - o Salazar - era assim uma espécie do Vai-a -todas sem perceber de nenhuma. Vi-lhe fazer pretensos sapatos, forrar tectos a ripa, pintar, rebocar, aparelhar pedra, fazer parede (construiu sozinho a sua própria casa ), lançar foguetes, elaborar bombas artesanais para pesca clandestina, pôr tachas em navalhas, soldar, aplicar gatos em pratos e travessas de porcelana, remendar panelas de ferro rotas, lixar e aparelhar carros, arranjar motorizadas, desenrascar muitos aflitos com problemas eléctricos variados, mas foi sobretudo como animador de arraiais de festas populares com a sua aparelhagem meio artesanal, meio profissional e como leiloeiro das oferendas que mais se distinguiu. Para além, é claro, de ser um campeão de gamar tudo o que lhe pudesse ser vantajoso: desde bilhas de gás até pregos, chumbos para pressões de ar, fios eléctricos, ferramentas várias, discos, e sei lá que mais...
Também é verdade que passou por ser autor de muitos roubos dos quais estava inocente. 
Com maior ou menor capacidade ele lá ia atamancando tudo e era relativamente chamado para os diferentes serviços. Com o que ele não queria nada era com a agricultura. Bem bradava com ele a mãe, a velha Natcha (Maria Inácia, de nome próprio) para a ir ajudar a semear batatas ou a regar a horta... Vai lá vai!...
O certo é que lá ia governando a vida umas vezes mais atamancadamente outras nem tanto. Perdi-lhe o rasto depois que se casou. Conheci-lhe uma casota no alto da Buraca feita com material que ia recolhendo no lixo e que transportava às costas. E está bem de ver: como ferramenta apenas um alicate e muito arame. Será que anda por lá?
XXXIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNDDEE.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

A NOSSA FALADURA - CCVII - ATALAMOCADO /ATALAMOUQUEDO

Não há povoação onde não haja um atalamocado. Normalmente vítima da mangação popular o atalamouquedo é normalmente brando de costumes e, se algumas vezes se enfurece, breve lhe passa, tanto mais que, se se mete com a canalha, acaba por perceber, apesar da sua relativa lentidão raciocinante, que fica sempre a perder. Era assim com Daniel, que não sendo um xendro, pois era cuco, passava a maior pare do tempo em terra xêndrica. Bastava que um garoto o visse para que, de repente, Daniel tivesse um cortejo de futebolista famoso a conceder autógrafos, a atazanar-lhe o tino. A princípio, corria contra o provocador, mas, a breve trecho, limitava-se a ameaças mais ou menos barulhentas e a acenos de cabeça, prometendo vingança próxima e ajuste de contas quando apanhasse algum sozinho.
Somos mesmo assim: quanto mais desgraçada for uma pessoa, mais a desgraçamos, achincalhando-a, numa espécie de valentia fálica, demonstrativa de algum poder. O cérebro humano mais primitivo é mesmo o reptiliano. Os mais velhos, às vezes, assistindo a cenas destas, lá iam admoestando a canalha, mas, ao mesmo tempo, riam-se a bandeiras despregadas com as patifarias a que assistiam e até faziam disso motivo de conversa, avaliando a esperteza da canalha. 
Figura típica da comunidade xêndrica, era Mné Gaguela: sempre agarrado à sua bengala, meio corcunda, muito gostava de se sentar no baturel do Chico ou do Fatela, puxar do livro de folhas Toro, procurar a onça de tabaco Duque e despejar o tabaquinho com  muito cuidado para que nada se desperdiçasse  na folha semicurva, arrecadava a onça e, com arte mais que muita, apertava o tabaco na mortalha, enrolava-o na ponta da unha, lambia-a no sentido do comprimento e segurava o cigarro no canto da boca, não sem antes ter humedecido toda a superfície labial com a língua a parecer um pincel. Puxava, então, da tocha, uma espécie de torcida feita com desperdícios, riscava um vidro na cabeça de um prego espetado numa tabuinha, baforava um pouco e aí estava a mecha a fumegar com que acendia a ponta do cigarro. Dava uma chupadela forte, soprava o fumo, traçava a perna, encostava-se à parede e regalava-se de prazer. De vez em quando lá vinha uma cuspidela mais forte, provocada por algum tabaco que se desprendia da mortalha, uma tosse de esgana, mas nada que impedisse o sublimado prazer duma valente fumarada. Gaguela também era meio atalamocado, mas tinha partes que demonstravam que no fim é que se via quem ria melhor. Nunca aventava as beonas: apagava-as cuidadosamente e com o bico de uma navalha, abria-a e despejava os restos não queimados para uma caixa de fósforos vazia. Assim fazia a reciclagem do tabaco.
Numa tarde de S.Bartolomeu assisti a uma cena com Gaguela: Um xendro que tinha vindo à festa do orago, para provocar o Gaguela, pôs-lhe à frente uma moeda de dez e outra de vinte cinco, perguntando ao Gaguela qual queria. Gaguela, lesto: quero a grande! Deu-lhe a moeda e foi a rir-se do Gaguela para um grupo próximo, todo pavão a contar a sua proeza. Outro, não acreditando fez o mesmo e o mesmo fez Gaguela. Acabou por ter ficado com cinco escudos enquanto todos se riam. Fui ter com Gaguela e disse-lhe:« O Mnel, então não vês que a moeda de vinte tostões, apesar de mais pequena, vale mais do dobro do que a de dez tostões que é muito maior?» E o Gaguela: "Tu num vês que assim já cá moram cinco mil réis. Se tivesse tirado a pequena só ficava com metade porque eles já não me tentavam outra vez". Bati-lhe com a mão no ombro e comentei: embrulha e manda para a tulha.
Gaguela não guardava só as suas beonas. Na ponta da bengala tinha um prego espetado na lateral com que apanhava outras pontas de cigarro que encontrasse no caminho. Principalmente as que fossem, como ele dizia" com cu de cortiça"=(filtro). Assim não tinha que se baixar para as apanhar. Às vezes, os atalamouquedos ensinam-nos muito.
Fazem-me lembrar um grande pensamento: Porque é que o mar é grande?- Porque é humilde! Não se importa de ficar a um nível abaixo dos rios.
O melhor 2014 para todos.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAANNNNNDDDDDEEEEEEEEE

quarta-feira, dezembro 11, 2013

A NOSSA FALADURA - CCVI - PAFONSO /PALONSO

Joãozinho Palufo era assim uma espécie de unto sem sal: não empurrava nem fazia força, não estava nem fazia míngua, não pinava nem saía de cima. Para os que não saibam o unto sem sal resumia-se a enxúdia de galinha velha, liberta de película, batida em tábua com martelo também ele de madeira, até fazer uma papa, que depois se embrulhava num papel de cartucho, daqueles onde antigamente se pesava o açúcar, o arroz, a massa e demais mercearia a retalho, e tinha utilidades várias. A mim, duma vez que espetei um carapeto de silva no calcanhar do pé esquerdo, que infectou, a minha avó aplicou-me o unto sem sal, fez um atilho com um trapo velho, mas limpo em volta do tornozelo e calcanhar e o facto é que o unto "puxou" o carapeto, sugou o pus da inflamação e deixou-me o pé com pele de bebé. Mainada!  Sem dor e absolutamente inócuo.
Palufo era um palonso: andar ligeirinho, passinho curto, meneava o corpo esguio, mãos sempre entrelaçadas, salvo se transportasse alguma coisa. Era o moço de recados da casa Bargão. Aviava tudo e dava bem conta do recado: mercearia, bacalhau, chita, carros de linha, media vinho e azeite a quem queria comprar na casa da Lameira, ia aos correios, registava cartas, escrevia cartas a muita gente que não sabia escrever e cantava como muito tenor com disco gravado nunca seria capaz. A sua voz era límpida e sonora, suave e bem timbrada, sempre afinado e obedecendo com rigor ao ritmo e aos momentos de entrada. Era mesmo um regalo ouvi-lo e agora que o Natal se aproxima, era por ele que a maioria seguia, já que Rosa Rei ia sempre adiantada e Albertina Molhana ia sempre atrasada. Não só cantava limpidamente, como falava de forma irrepreensível. 
As más línguas difamavam Palufo, mas nunca se vislumbrou a mínima situação  que pudesse dar azo a que pudessem ser confirmados comportamentos de que era suspeito...
Nada pior que cair na bocas do mundo.O povo tem sempre gente que espalha qualquer evento de uma forma mais rápida do que labareda em pasto de panojo no fim do Verão. Palufo sabia tudo o que se passava  na aldeia. Era sempre dos primeiros a noticiar qualquer acontecimento e quer Tecla quer Irene Paca ou Chicorrela, quais arautos régios, perdiam quase sempre para ele.
Ainda assim Palufo não difamava. Contava o que ouvia, mas não emitia opinião. Não era o que se poderia chamar de malino, como as linguareiras referenciadas.
Não sei se uma vez vos falei já do chamado mal radical. A doutrina é do "chinês de Konisgberg", como Nietzsche lhe chamou, o eminente Kant, e resume-se à tese de que, de sua natureza, o homem é velhaco. Por isso se impõe uma lei moral que o trave na sua natural tendência para o mal. Como se vê é doutrina no antípoda do velho Sócrates, que pregava que só ignorante do Bem fazia o Mal. Aqueles que soubessem o que era o Bem, nunca praticariam o mal. O problema do Mal é assunto mais que polémico e não é nestas pobres crónicas do Basa que ele pode ser escalpelado. Adianta-se ainda uma outra perspectiva. Foi uma querela dos Universais, bizantinices com que os medievais se entretinham  e também os modernos posteriormente, até que chegou à actualidade e foi reavivado, e de que maneira, por essa grande pensadora que foi Hannah Arendt, a aluna dilecta do filósofo da Floresta Negra, Martin Heidegger. Na verdade era um problema sério porque chocava com a crença dogmática de que Deus tudo tinha criado. Mas só por absurdo é que se poderia admitir que Deus tivesse criado o Mal. Seria absolutamente contra natura que tal possibilidade fosse admissível. Como apareceu então o Mal e se impôs que fossem necessários os Mandamentos e as leis morais? Só podia existir uma causa: o homem , ele mesmo. Defendia-se que Deus só podia criar a Perfeição, de acordo aliás, com a sua própria essência: de uma causa perfeita não podia sair o que quer que fosse imperfeito. Mas não se podia negar a existência do Mal e isto chocava com a defesa de que Deus tudo tinha criado. Argumentou-se então que Deus agiu na Perfeição: criou o homem livre, o que muito mais perfeito do que se o tivesse criado condicionado como aos outros seres da natureza que não têm possibilidade de optar por decidir responsavelmente entre várias opções. Estão condicionados ao que a natureza lhes confere e ponto final. O homem, esse, é incondicionadamente livre e absolutamente responsável pelas suas acções. Ele pode decidir  praticar o Mal em detrimento do Bem, apesar de o conhecer. Foi infinitamente mais perfeito que Deus tivesse criado o homem livre do que condicionado, possibilitando-lhe mesmo que o pudesse ofender, que pudesse defender apostasias e cometer sacrilégios. Assim, Deus deixava de ser o criador do mal e a responsabilidade da sua prática recaía totalmente sobre o homem. Só existe o Mal porque existe o homem.
Palufo nunca emitiu parecer sobre esta temática.
Bom Natal.!
XXXXXXXXXIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDEEEEEEEEEEE
                                                                                                                            

quarta-feira, novembro 27, 2013

A NOSSA FALADURA - CCV - CASCOREL

Já por várias vezes aqui falamos da lei do menor esforço. O povo não se incomoda muito com o perfeccionismo da pronúncia de algumas palavras. Com facilidade altera os fonemas e refaz uma palavra. É   o que se passa aqui: a palavra correcta é coscorão, mas, como facilmente se depreende esta palavra não beneficia de um som atraente. Não admira que, a breve trecho, o coscorão passasse a cascorel. Da mesma forma, por exemplo que apologista passa a ser apugilista e barbecue aparece como borrocu e por aí fora.
Einstein dizia que era mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um preconceito. Similarmente, George Washington não se coibiu de dizer que mais que uma segunda natureza, o hábito vale dez vezes a natureza. Se o hábito resulta da repetição da mesma acção conferindo a quem o adquire uma certa semiconsciência do que está a fazer, num automatismo negligente que, por vezes nos arrelia. Como estamos habituados a ir sempre pelo mesmo caminho para casa ou para o trabalho, esquecemos muitas vezes de cumprir uma outra tarefa que apenas implicaria um ligeiro desvio.
O preconceito, por sua vez, é um juízo valorativo de sentido negativo, neutro ou positivo a propósito de uma situação, objecto, espaço ou pessoa, normalmente muito mal fundamentado e aceite de ânimo leve, muito difícil de anular, ou simplesmente, alterar.Ficamos convencidos de que as coisas são assim e não podem ser de outra maneira diferente. Insistimos na opinião mal fundamentada e até nos batemos por ela. Se alguém nos contraria, limitamo-nos a dizer: fica com a tua que eu fico com a minha. Facto é que, transformamos uma mera opinião em certeza dogmática.
Tal como o povo adapta e se adapta a pronunciação defeituosa, também nós nos acomodamos às nossas convicções e persistimos nelas teimosamente. É outro mal dos tempos correntes: a opinionite.
Pirolas era assim. Agarrado às suas crenças, ficava impenetrável a quem quer que, mesmo que lhe demonstrasse o erro em que incorria à evidência, tentasse contrariá-lo. Por causa deste seu feitio já poucos lhe davam trela e se lha davam, era mais porque Pirolas tinha a pipa ali à mão e, como que a conquistar um aliado para a sua maneira de ver, levava-o a beber um copito, enquanto ia defendendo muitas vezes o indefensável. Teimava a bom teimar que os americanos nunca por nunca tinham pousado na lua. Aquilo que apareceu na televisão era uma pantomina como a dos bonecos animados e faziam de conta que era verdade. Aquilo era tudo uma aldrabice pegada, mas a ele, não passavam eles a perna. Vai lá vai. A base da sua tese era tão simples quanto isto: se eles lá poisassem caíam cá para baixo. Mais teimosos que ele só mesmo os aristotélicos a quem Galileu mostrou que a lua era acidentada, que Vénus tinha fases, que Júpiter tinha satélites. Eles viam, confrontavam-se com a evidência, mas como o mestre tinha dito que os céus eram incorruptíveis, nada havia que pudesse beliscar essa incorruptibilidade.
Mas, volvamos aos nossos coscorões, digo, cascoréis.
Como já há muito tempo que não vos deixo uma receita, aí vai: preparai todos os ingredientes: obra de meio quilo de farinha, quatro ovos, meia caneca de azeite, um cálice de aguardente, raspa e sumo de uma laranja,mais ou menos dez pacotinhos de açúcar e um  chirrichichi de sal. Bate-se tudo junto com uma vareta: os quatro ovos, o azeite, o meio kg da farinha, a aguardente, o sumo e a raspa da laranja e o acúcar, até ficar uma massa relativamente consistente. Se for preciso pode deitar-se um pouco de água. Depois de tudo bem amassado, deixa-se repousar durante umas duas horas após o que numa mesa polvilhada com farinha se amassa bem a massa de modo a se desprender completamente dos dedos. Em caso de necessidade polvilha-se com farinha. Estende-se com o rolo da massa, até à espessura de 2mm e com uma faca ou um carrinho rendilhado, fazem-se rectângulos de tamanho a gosto e cortam-se no espaço interior com duas feridas. Leva-se a fritar em óleo bem quente dos dois lados e polvilha-se, ainda quente, com uma mistura de açúcar com canela. Arrefinfa-se com café de borra.
O Natal está a chegar e nada como ensaiar.
Pode ser que ainda vos visite antes da missa do galo.
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domingo, novembro 17, 2013

CCIV - A NOSSA FALADURA - ABRE-NÓ

General Mola era o apelido de um cabo da G.N.R. reformado. Homem alto, espadaúdo, não dava passos mas chancas.Calçava para aí um 46, tanto que nunca encontrou sapatos à medida do seu pé. Zé Guerrilhas era o sapateiro que lhe fazia o calçado e por mais de uma vez lhe ouvi dizer que o general podia dormir empinado. Sua companheira dilecta era Leca, uma cadela já quase sem dentes, que o acompanhava nas suas deambulações de caçador. Quase nada caçava, mas fartava-se de espalhar chumbo. Chamavam-no de Abre-Nó  devido a esta azelhice. Coiote Pete, bardina e malino como era, apanhou uma lebre com malina, trouxe-a viva para casa e combinou com Chquim Parricho e João Petrol convidarem o General Mola para ir com eles à caça. O velho desconfiou da oferta  mas perante os argumentos de Coiote lá se decidiu ir com eles. Parricho tinha ido para a frente e prendeu a lebre ao toro de uma videira com um arame. A lebre, adoentada, não se tinha de pé e até parecia que estava na cama. Depois de umas voltas e de já terem morto um coelho que ofereceram ao General para, garboso, o trazer pendurado à cintura, lá o foram levando até à lebre e Coiote: «Oh Sr. Flor, olhe além uma lebre na cama!» Onde? perguntou o General. Com calma e de voz baixa sempre a fazer a parte, lá lhe foram dando as indicações até que Mola vê a lebre. "Atire-lhe um foguete à cabeça, força!". Mola deu uns passos em frente e nem deu conta que Coiote e os outros se piravam. Atirou e a lebre ainda mandou um escrito e caiu inerte. Mola chama Leca e lá vão até à lebre Quando se baixa para a apanhar e a começa a puxar é que se deu conta da marotice de Coiote. Solta uns indizíveis impropérios e, creio que se os visse lhes atirava. Eles, longe, riam a bom rir e claro, vieram para os xendros a contar a peripécia. Do mal o menos, General ainda matou um coelho naquele dia e atravessou a aldeia com os dois à cintura. Não perdeu tudo.
Todos nos rimos das misérias dos outros e muito poucas vezes cumprimos a chamada regra de oiro da moral: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti", ou, muito simplesmente: "põe-te no lugar do  outro".
Podemos dizer que a grande disputa entre as teses mais difundidas da moral - a deontológica e a utilitarista - diferem logo no ponto de partida. A primeira é  apriorista, o seja é anterior e independente da experiência ao mesmo tempo que lhe garante a universalidade, formalista na sua essência e o dever impõe-se pela representação de uma lei que deriva de uma máxima. O princípio subjectivo do querer  a máxima - transforma-se numa lei e portanto abandona a subjectividade para se tornar objectiva. Como qualquer lei. Não se preocupa com as consequências e o valor da acção está na simples formulação: age de tal modo que a máxima da tua vontade se possa transformar em qualquer circunstância em lei universal". É, portanto, uma moral pura e ninguém pode ser culpado se a intenção da sua acção puder ser por cada um vista como a única alternativa: aquilo que eu faço é aquilo que qualquer outro faria na minha situação. A outra, a utilitarista, é consequencialista, portanto "a posteriori" e o valor da acção depende do bem estar da maioria, da felicidade da maior parte. É, por isso uma moral eminentemente subjectiva, interesseira e facciosa .
No caso do nosso General Mola e da partida que lhe fez Coiote Pete está bem de ver que se situa nesta segunda. Somos mesmo tentados a dizer que nesta corrente da moralidade se invertem os pólos: o que deve ser feito é aquilo que se não deve fazer. Não se infira daqui que a moral deontológica está livre de críticas justas também elas, mas que não vem ao caso aqui aprofundar.
Mas, já que andamos neste âmbito da acção humana é preciso não esquecer que há muitas outras morais: hedonista, cínica, estóica, ambiental, da responsabilidade, até dos direitos dos animais...Queria no entanto deixar aqui a necessidade de todos convergirmos para uma ética mínima, seja em que circunstância for, até mesmo na forma como tratamos o nosso corpo: será dever moral, por exemplo, tatuarmos parte ou a sua totalidade? roer as unhas? agredi-lo sob diversas formas, por exemplo no boxe? e por aí fora.
E ficamos por aqui. Em breve voltaremos.
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quinta-feira, outubro 24, 2013

A NOSSA FALADURA - CCIII - TANGANHO

Menina Aguércia era a única filha de três irmãos. Chquim Pardalinho, magro, fumador inveterado de Provisórios, casou em Espanha com D. Rema, na altura beleza excelsa, vencedora de concurso de beleza em Cáceres, que lhe deu três filhos e que ainda hoje por cá gravita. Pardalinho, explicador de matemática, mais que famoso na década de 70 do seculo passado, voz grossa e tonitroante, de pedagogia à bordoada, mas, o que era facto, era que nunca lhe faltavam clientes. Os pais gostavam de gente rija que obrigasse a rapaziada a aprender, custasse o que custasse, e a bordoada era de borla.
Tinha sempre sala cheia e os resultados iam provando a eficácia da sua metodologia.
As más línguas diziam que só tinha um testículo, mas isso não o impedia de demonstrar a sua testosterona.
O terceiro membro da família era o dr João António Landeiro, conhecido em todo o concelho por ser o médico do cura ou mata. Tendo uma casa bem no centro da aldeia, ele e Aguércia, passavam a maior parte do tempo para os lados do Ferrador, numa quinta abastada, bem perto das oliveiras de Melão.
O Dr Landeiro era conhecido pelo seu Peugeot 404, verde: quando ele apitava ao cimo de aldeia mesmo junto à casa do professor José Tanganho, (vedeta que um dia destes aqui vos trarei ), e depois a dar vistas para a casa do Sarapião, toda a gente gritava: ARREDA;ARREDA, que vem aí o maluco do Landeiro. E era verdade.
Apenas duas pessoas afastavam o povo xêndrico da estrada: o dr. Landeiro com o seu Peugeot 404 e o entretanto falecido e homenageado Padre Zé Pedro, no seu fabuloso Ânglia cinzento. Os outros tinham que esperar que o povo se decidisse a ir para os largos. Vai lá vai!...
Foi com Aguércia que ouvi falar pela primeira vez de arroz de manjericão. Ela tinha ido a Portalegre e comeu arroz de manjericão com cação frito. Trouxe umas polas da dita erva e tratava-as divinamente. Por mais de uma vez me convidou a provar aquela delícia.
As mamas caíam-lhe até abaixo do umbigo - que ela não usava soutien - e, não raro, quando se baixava para medir azeite ou tirar azeitonas da talha para vender,as mamas saíam-lhe pelo decote, fenómeno que a arreliava a ponto de displicentemente as aventar para trás das costas a praguejar.
Pareciam dois melões flácidos...
Só vinha à aldeia aos Domingos para assistir à missa: tinha cadeira privativa à esquerda de quem entrava na Igreja, sempre reluzente, com almofada no genuflectório e no apoio dos braços e assento dobrável, também almofadado. Um privilégio que poucos tinham.
Quando ela levantava a voz, tudo ficava em sentido, que a estridência do esganiçado assustava quem quer que fosse.
O mesmo se passava com Pardalinho que não sabia falar, mas apenas ralhar.
Aguércia saía da quinta do Ferrador por volta das 10, não gostava de bengala ou bordão, mas apoiava-se sempre num tanganho que, dizia, sempre lhe dava para matar alguma cobra que se lhe atravessasse ao caminho ou até para dar alguma bordoada nalgum garoto mais atrevido que lhe reclamasse uma amostra das mamas avultadas que sobressaíam volumosas da blusa. Aí afinava, esganiçava a voz e os garotos desapareciam não fosse a mãe aparecer e terem o merecido castigo.
Era ecologista a menina Aguércia: tratava de tudo na quinta sem qualquer fertilizante e tinha um jardim de ervas digno de qualquer ervanária. Sabia o nome e os efeitos de cada uma:  fel da terra, néveda, manjericão, mantrastes, manjerico, pimpinela, segurelha, sarpão, louro, manjerona, alecrim, alfazema, orégãos, poejos, bolsa do pastor, que sei eu...
À entrada da casa tinha sempre dois vasos de vergamota com que se perfumava por debaixo dos sovacos, aspergindo-se com uns raminhos da dita. Ainda, por mais de uma vez me explicou as virtudes de cada uma. Já as perdi... E é pena que este saber, vai-se.
Isto tudo faz-me lembrar aqueles que defendem que o senso comum é para desprezar! Qual quê?! O saber de senso comum, se bem que seja superficial, empírico, mal fundamentado, tradicional, conservador, subjectivo e muito mais, é a base de todo o saber. Afinal, todos os outros assentam  neste saber de experiência feito, que permite a um bosquímane sobreviver no deserto, enquanto um biólogo morre de sede se não for provido de água. O senso comum é primário mas, por isso mesmo, é a raíz de todos os outros saberes. Podemos viver sem conhecer leis científicas, doutrinas filosóficas, estilos estéticos e por aí fora, mas nunca sem senso comum.
E mais: o seu primo bom senso também dá muito jeito.
Por causa deste bom senso é que entendo que já vos massacrei com tanta palavra balofa e por isso me despeço...
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terça-feira, outubro 08, 2013

A NOSSA FALADURA - CCII - REDOLHA /RODOLHA

Ritinha Penedo era mesmo o que se podia chamar de redolha: pequenina mas bem feita com tudo no sítio, proporcional ao tamanho. Podia dizer-se mesmo que era bastante jeitosa e que não era pela estatura que não despertava atenção. A única coisa que tinha desmesurada era a língua. Esfarrapava em tudo e em todos e ai de quem lhe caísse na análise. Virava tudo de pantanas e, por isso, poucos eram  os que privavam com ela. Não admira que tenha ficado para tia. Eu, como tinha que periodicamente ir abastecer a casa de gás, tinha que tirar parte da manhã para ouvir umas lavagens de roupa suja a propósito de situações e pessoas da aldeia xêndrica. Era a vida !
Tal como um presidente da República conhecido, nunca tinha dúvidas e sabia sempre tudo. Mais ainda: conhecia todas as causas. Não afirmava nada sem fundamentar numa causa. Nem que fosse a mais estapafúrdia, a convicção com asseverava era tal que fazia parecer verdade o inverosímil. Quando não havia causas na Terra, subia ao céu e invocava divindades em seu auxílio. Era em vão que alguém a desdissesse.A consequência era que caía nas suas más graças e não tardava que a espezinhasse com a sua língua viperina. Da mesma forma tecia os mais alto louvores para os que lhe diziam AMEN e anuíam a tudo o que dissesse. A forma que eu tinha de me libertar daqueles massacres era estar sempre de acordo. Não valia a pena discutir com espíritos herméticos.
Para rodolha não estava nada mal: agigantava-se .
Lembrei-me desta personagem para vos convidar a uma pequena ruminação mental sobre o conceito de causa.
Por exemplo: para os clássicos da antiguidade os céus eram incorruptíveis porque eram perfeitos e o que está perfeito não pode alterar-se. Para os medievos o decisivo era martirizar o corpo nesta vida terrena por causa de merecermos a salvação; para os modernos a causa obrigava a que o efeito se seguisse sempre da mesma maneira desde que se mantivessem as circunstâncias. O método experimental, base de todo o pensar positivista defendia mesmo que só tinha direito de alforria em ciência aquilo que pudesse ser demonstrado nos factos. Ora como se sabe as demonstrações não têm argumentação ou seja, não se discutem. As coisas são assim porque são e não podem ser de outra maneira, porque é assim  que se verifica na experimentação factual. O problema começa a complicar-se quando o alcance do mundo científico se estende para lá dos confins dos laboratórios experimentais. Aí, a experimentação e a verificação factual não são possíveis, mas a ciência, no seu afã de mais descobrir, não pode parar no que já domina e arrisca para campos ignotos. Aí os factos e as coisas já não são as nossas coisas. Podemos dizer mesmo que são coisas não-coisas. Isto é, há muitos objectos de ciência que já não cabem na concepção tradicional de objecto. Habituamo-nos a aceitar que tudo o que existe tem que existir num tempo e ocupar um espaço. Mas não é bem assim: no mundo do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande (no microcosmos ou no macrocosmos) o que alimenta a ciência já não são as causas, porque os objectos que são alvo de estudo já não se enquadram nas velhas concepões. O determinismo e a segurança cedem lugar ao indeterminismo e à incerteza. A realidade escapa-se-nos e a tridimensionalidade é insuficiente para configurar estes novos objectos. Por isso, há quem lhes chame sobre-objectos. Os fenómenos deixam de poder ser entendidos nos quadros de uma ciência normal e temos que buscar uma ciência extraordinária. Vemo-nos na contingência de ter que mudar de paradigma explicativo embora isso nos custe. Era isto que a nossa redolha nunca fazia: só havia uma bitola- a dela -.
Voltemos ainda às nossas deambulações: as tais coisas não coisas são objectos de uma técnica aperfeiçoadíssima. Justifica-se então que lhes deixemos de chamar fenómenos mas os apelidemos de fenomenotécnicos. Exemplifiquemos: ao olharmos para uma gota de sangue que vemos? que é líquida durante pouco tempo, já que depois solidifica, que é vermelha e que é quente.Se, porém, submetermos essa gota a uma máquina que a analise, então a nossa gota aparece com um sem número de componentes que nela estavam escondidos ao nosso olho mas que a análise desvendou e nos trouxe à luz. Da mesma forma, quando vamos a um médico e ele nos pede para fazermos uma série de exames, ele fá-lo, primeiro, porque à primeira vista e apenas baseado nos sintomas que nós lhe dizemos e  noutros que ele pode descortinar, quer ter mais fundamento, para depois poder actuar e, segundo, porque o importante para ele irão ser os resultados desses exames e não propriamente a pessoa que está à sua frente. Quando lhe levamos os exames, ele já não olha para nós mas para os resultados que os aparelhos técnicos lhe fornecem. A sua decisão acerca do que irá prescrever não está tanto em função da pessoa mas daquilo que a tecnologia lhe mostrou... Ora aqui está: o que é decisivo nos tempos que correm é que substituamos a palavra causa e o seu conceito pela palavra função com tudo o que isso implica. Entramos no mundo das probabilidades e como bem disse Popper" a maior das improbabilidades ainda é uma probabilidade". 
As coisas já não podem ser explicadas por uma causa única, mas justificadas em função de uma multiplicidade de variáveis que podem ser lidas de diferentes formas por diferentes especialistas. Reparai apenas como os números das contas correntes do Estado são lidas pelos do Governo e seus apoiantes em confronto com os da oposição.Os números são os mesmos mas as consequências são todas outras...Tudo por causa da função, acrescento eu.
Para não parecer um pavão como a nossa redolha, hoje fico-me por aqui. Mas hei-de cá voltar.
XIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGRAAAAAAANNNNNNNNNDDDDDDDDDDEEEEEE