domingo, janeiro 27, 2013

JOÃO LUÍS

O João Luís era meu amigo desde pequenino.

Trazia-me brinquedos fantásticos quando vinha de férias da França.
Uma vez, chegou durante a noite, já eu estava na cama. Deve ter insistido muito com a mãe dele, mas a verdade é que me apareceu no quarto eufórico e a mostrar-me o último grito em pistolas, directamente de Brive. Mais ou menos cerimonioso, pegou numa espécie de um pau de plástico com um palmo de comprimento, enfiou-o pela boca da pistola até fazer um clique. Depois passou o indicador pela língua e com ele molhou a ventosa que estava na ponta do pau. Apontou à parede e…voilá, o pau ficou lá espetado.
Já não me lembro bem mas a minha mãe deve ter-se zangado comigo para eu parar de fuzilar as paredes.

O João desenvolveu um sentido de humor que me fazia inveja: criativo, fino, inteligente, oportuno. E manteve-o mesmo durante um par de anos apesar da doença. Nas conversas, nos escritos, lá estava aquele toque, aquela volta à ideia, à frase, à palavra que dava gosto ouvir ou ler. Quando tiver tempo e espírito, hei-de voltar a ler alguns comentários que deixaste aqui neste blogue, e também hei-de revisitar-te no teu TROGLAMONGA (só tu para dares um nome destes a um blogue).
Ainda há pouco mais de um ano atrás, por alturas do madeiro, na aldeia, já ele tinha muitas dificuldades em se locomover, conseguia surpreender-me com algumas tiradas. Se calhar, era também aí que ele ia buscar alento para enfrentar a besta que o devorava.

E que luta tu deste João!

Onde quer que estejas, espero que te tratem bem. Eu vou guardar-te como meu amigo desde pequenino.

Deixo-te aqui um som que eu sei que tu gostavas. Que nós gostavamos.






quinta-feira, janeiro 03, 2013

A NOSSA FALADURA - CXC - TRAMPASSO

Chorelas andava sempre de gravata. Vinha-lhe o nome do facto de andar sempre com os olhos vermelhos e remelados, permanentemente a lacrimejar, a ponto de quase ter um rêgo debaixo de cada pálpebra, consequência da erosão provocada pelo contínuo escorrer das lágrimas. Para agravar, o nariz era também uma fonte de muco viscoso que Chorelas limpava continuamente à manga do casaco, à cota da mão, quando, tapando uma venta, fazia pressão e o expulsava em direcção ao chão. Usava uns sapatos de atacador, quase sempre desapertados e à vontade aí três números a mais que o tamanho do pé. Podia dizer-se que se quisesse dormia em pé que os balanços da sonolência eram compensados pela biqueira dos sapatos. A camisa branca só o foi no momento da compra, já que agora parecia roupa de viúva em luto profundo. Não deixava a sua burra Mimosa em parte nenhuma e chegava a ir atado a ela andando a dormir. A burra sabia o caminho e deixava-o sempre à porta do palheiro. Chorelas acordava, punha-a à manjedoira e acendia o lume no andar de cima para cozinhar o que a terra dava em cada época do ano. Pouco mais.
Morreu já bem entrado na idade e ficaram famosos os seus trampassos, resultantes, na maioria dos casos de tropeções com aqueles sapatos avantajados que lhe serviam de abrigo aos pés. Não consta que alguma vez tivesse apanhado qualquer trampasso quando montado na Mimosa, até porque, quem sabe previdentemente, Chorelas aparelhava sempre a burra com as angarelas e metia as pernas à laia de estribo o de apoio, para "não ficar com os pés dormentes. Era esperto o Chorelas.
Além de se esmerar no trato da Mimosa, criava também umas poucas de galinhas, entre as quais estava uma cocó que chocava três vezes por ano, facto que Chorelas aproveitava para renovar a criação, matando uma de vez em quando. O galo não era grande, mas era vistoso e tinha crista romana. Cantava como um lírio e tinha um esporão já do tamanho de um dedo. Chorelas já o tinha tentado trocar " por mor de andar a galar as próprias filhas", mas como era mais pequeno do que os outros e idoso quanto bastasse ninguém aceitava a troca. De ano para ano Chorelas ia adiando a compra de outro e o abate do crista romana. 
Num caixote ao lado da manjedoura tinha também um caixote de madeira grossa, tapado por uma rede onde criava uma coelha que chegava ao macho cada dois meses. Era aqui que Chorelas apanhava grandes trampassos devido à sola escorregadia dos sapatos. Lá praguejava um barafusto, mas nada de monta.
Assim é o povo português: sempre a chorar lamúrias, sempre a gastar mais do que o que pode, dando a passada maior que a perna, sempre a ser explorado e a não atirar com os aparelhos ao ar. O tal povo dos brandos costumes, como Chorelas que tudo aguentava, até mesmo alguns atrevimentos mais descabidos de canalha miúda que se pelava por o ver arreliado. Chorelas fazia que não os ouvia e lá seguia o seu caminho atrás ou montado na Mimosa.
Tinha as sua piadas o Chorelas. Duma vez saíu-se-me com esta: "Sabes o que estou a pensar fazer?... Tenho lá em casa dentro duma caixa de palitos umas cinco centopeias. Ando a ver se descubro qual é a fêmea e depois faço uma operação ao meu porco a ver se ele também fica a andar com cem pernas. Assim ia tendo sempre presunto fresco sem ter que matar o porco".
Fiquei a olhar para ele e só soube responder: « Não está mal visto, não senhor!».
Ano Novo do melhor que puderdes ter são os votos do Basa. Sem trampassos.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAADDDDDDEEEEE.

terça-feira, dezembro 18, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXIX - CÔCA

Garoto do meu tempo tinha medo da côca. Os mais velhos ameaçavam com a côca para garantir que as naturais traquinices da criançada não ultrapassassem os trambelhos. 
Tenho para mim que um dos primeiros conceitos que uma criança constitui é o de justiça. De facto se se lhe aplica um castigo, às vezes até excessivamente severo, por uma asneira que cometeu, ela suporta, esforçando-se por conter as ganas que tem de chorar, por exemplo; mas se o castigo que se lhe aplica, ainda que leve, não resultar de um acto que não seja da sua responsabilidade, aí, ela barafusta e não esconde a sua revolta.
Deixo-vos dois exemplos famosos que ilustram o que referi: o primeiro acontece no filme de François Truffaut - O Menino Selvagem - em que Victor, a criança encontrada na floresta e que não tinha comportamentos típicos de um ser humano, é injustamente metido no quarto escuro devido a uma falha que não cometera. A sua reacção deixa o professor Itard perplexo, dada a sua exuberância, acrescido do facto de pela primeira vez chorar. O segundo é narrado pela mulher do pastor anglicano de Sijn, na Índia, que também recolheu duas meninas a quem deu os nomes de Amala e Kamala e que em tudo imitavam os comportamentos da loba que as afilhou e que só as deixou partir porque a mataram. Na tentativa de conseguir um relacionamento mais próximo e de tentar que se fossem aos poucos humanizando, a mulher do pastor deu um bolo a cada uma delas, fora da hora do lanche. Como é sabido a tradição inglesa - a Índia era ainda a jóia da coroa - quase impõe que às cinco da tarde se beba o chá. As crianças da creche para onde as irmãs tinham sido levadas tinham, cada uma, direito a dois bolos e à respectiva chávena de chá. Quando o cesto com os bolos passou por elas, cada uma tirou apenas um bolo e por muito que insistissem para que tirassem outro, elas recusaram. Como já tinham comido um, não tinham direito a dois.
A questão de chamarem selvagens a estas crianças é muito discutível. Lévy Bruhl afirma mesmo que elas sofrem de uma mentalidade pré-lógica, tese contra a qual se opõe Lévy Strauss que defende que as crianças têm uma lógica própria e rejeita a defesa da mentalidade pré-lógica substituindo-a por mentalidade pré-científica. Eu vou por aqui.
O senso comum, esse saber que alguns menosprezam, pode não ser coerente, nem congruente, mas tem uma lógica. Pode contradizer-se ao sabor das circunstâncias do género: "não guardes para amanhã o que podes fazer hoje", mas também: "Roma e Pavia não se fizeram num dia" ou até o mais comum ainda "devagar que tenho pressa". Aparentemente parece alógico este modo de pensar, mas restam dúvidas de que é analógico e que a semelhança de situações conduz, por indução, às mesmas conclusões. Sempre assim foi e sempre assim há-de ser. Mainada.
As crenças movem sociedades. Desde sempre que se propalou o fim do mundo para datas fixas: o ano 4444 para Heraclito, depois as viragens dos milénios, a famosa leitura da Bíblia que levou Miller a calcular o fim do mundo para 1843 e depois para 1846 e agora o difundido calendário maia que o situa a 21 de Dezembro deste ano. O certo é que nem os desmentidos da NASA ou quaisquer outros impedem que se continue a acreditar nestas previsões e que haja mais gente do que possamos pensar a preparar-se para o efectivo fim do mundo. Parece absurdo, mas tem lógica. A lógica dos mitos e como bem diz Gusdorf , «o mito não é mito para o homem do mito».
Como se vê as côcas continuam a vigorar.
Mais grave ainda se repararmos que continuamos a alimentar fábulas. A fábula é uma fala. Fala-nos, dá-nos conselhos, chama-nos a atenção para factos fantasiosos: o Pai Natal é uma dessas fantasias e o facto é que todos os anos o renovamos.
Como o mundo só acaba para aqueles que morrerem e o pai natal  já saiu da Lapónia, aproveitai e festejai um Bom Natal. Que assim seja. Sem côcas.
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terça-feira, dezembro 04, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXVIII - BABUGE(M)

Em todos os tempos houve quem vivesse à mama. Nos tempos que correm, então, é à descarada, e não é difícil encontrar quem ande sempre à babugem.
A natural tendência para a prática da 'lei do menor esforço' leva a um oportunismo desenfreado e mais ou menos a um maquiavelismo exagerado, olhando apenas para o umbigo próprio e espezinhando ou desprezando quem se oponha.
São conhecidos quantos vivem sempre à pála e, sem vergonha, aparecem depois nos MEDIA armados em consultores e pregadores de uma moral de valores, quando eles há muito que os rasgaram. São tão previdentes e tão espertos que legislam antecipadamente para si mesmos.Veja-se só quantos vivem com subsídios vitalícios chorudos, só porque andaram oito anos em algumas funções públicas...
Na sua origem a palavra ministro ,que provem do latim, significa, vejam só, servente, escravo, aquele que ajuda, e reparai  no que se transformou: aquele que manda, aquele que faz dos outros seus escravos. Afinal aquele que devia servir, serve-se. Quando deixam de exercer essas funções, já têm bem acautelado o futuro modus vivendi.: sempre à babugem.
Bem cantava a canção :CRAVO VERMELHO AO PEITO/ A TODOS FICA BEM/ SOBRETUDO DÁ JEITO/ A CERTOS FILHOS DA MÃE.
São mais que muitos os que viram  a casaca e começam a jogar noutra equipa quando pressentem que daí lhes pode vir proveito sem grande esforço. Não raro fazem gala dessa sua arte. Facto é que se safam e comem as papas na cabeça a muitos que, não tendo rasgado os valores, afinal têm muito menos valor do que os não praticam esses mesmos valores.
Coloca-se, pois, a questão do SER  e do TER. Não restam dúvidas que no mundo actual, o TER predomina claramente sobre o SER. O Substantivo, o suporte, a base, acaba por perder para o adjectivo, o acessório,o atributo. Se o significado de ministro se inverteu, o lugar dos valores também anda às avessas.
Podemos aumentar os exemplos: não restam dúvidas de que é muito mais barato um milénio de paz do que um dia de guerra. E que vemos nós? exactamente o contrário. Mais bela é a harmonia, a compreensão, o diálogo, mas temos desavenças, rixas, discussões.
Viver  à babugem é tão normal que aqueles que procuram o zeloso cumprimento do que deve ser feito de acordo com os compêndios normativos da sã convivência social acabam por ser uma avisrara, uma espécie de crocodilo na classe dos mamíferos, um nefelibato.
Um autor italiano, cujo nome não me ocorre, afirma peremptoriamente que um em cada três homens vale pouco e vive sempre à babugem. Olhai à vossa volta e vede se a terça parte dos que vos rodeiam não vive à babugem.
Embora tivesse vontade de cumprir o princípio dum amigo meu que se pauta por:«ora vamos lá a dizer mal dos outros, que eles também dizem mal de nós , quando nós não estamos», não vou trazer aqui ao basa nenhum xendro que viva à babugem. Mas que os há lá, ai isso há.
Por aqui vos deixo com um
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quinta-feira, novembro 08, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXVII - PIN(T)CHO

Temos sempre a natural tendência para os extremos e, por isso, limitamos os nossos próprios contornos de pensamento, acomodando-nos a um hábito comezinho da formiga no carreiro. É assim que comodamente dizemos "se não é boi é vaca" , se não é bom é mau, se não é por mim é contra mim, se não é preto é branco, se não é fácil é porque é difícil, se não é por deus é pelo diabo, se não é gordo é magro, se não é baixo é alto, se não é mentira é verdade,... Estaríamos aqui até ao infinito.
Ora, esta divisão dicotómica de espírito maniqueísta é anquilosante de um espírito que se pretende aberto e revisível, adepto de mudanças e de progressos. Mas é sempre nesta base que temos tendência a pensar, pois é aí que nos sentimos mais seguros. Ainda aqui, e mais uma vez, somos cartesianos: "quando não souberes o que fazer, faz como os outros" e nisto nos sentimos seguros.
Somos mesmo muito comodistas...
Vivemos muito de convicções e recusamo-nos a pensar que aquilo que julgamos ser uma verdade inabalável, pode, afinal, não passar de um preconceito...E todos sabemos que os preconceitos são, em regra, mal fundamentados e têm sempre um sentido negativo e pejorativo. Dito de outra forma: as nossas certezas tem alicerces arenosos e assentam em bases mal fundamentadas. Vivemos, portanto, no seio de meras ilusões, confundindo a sombra com a realidade.
A verdade é que a verdade não passa da superação de erros e que a humanidade vai progredindo não pintchando de uma verdade para outra mais perfeita, mas , ao contrário, progride por sucessiva eliminação de erros.
Bachelard defendia que as ideias são anteriores aos factos e, na verdade, a ideia de que a Terra girava em torno do sol teve que esperar até que  a comunidade científica aceitasse esse facto, porque durante tempos longos ela estava parada e o sol é que girava em seu redor.
Na mesma ordem  de ideias  somos levados a defender, se nos perguntarem: que é primeiro: o pensar, ou o fazer? ou, o que dá na mesma: pensamos porque fazemos , ou fazemos porque pensamos?, somos levados a defender, dizia, que primeiro é o pensar e depois o fazer, isto é, fazemos depois de pensar.
A história, todavia, ensina-nos o contrário. Não podemos partir do pressuposto errado de que aprendemos a nadar lendo tratados de natação...Leroi Gouhran em Le Geste e la Parole chama a atenção para a dialéctica evolutiva , justificando, e bem, que a mão se libertou a partir do momento em que o pé ficou com a tarefa do andamento e a mão pôde prolongar-se com os instrumentos, levar os alimentos à boca e só muito depois é que o cérebro se desenvolveu e pôde começar a pensar. Se o caminho se faz caminhando também se aprende a andar, andando. O pensamento é muito tardio face às outras actividades humanas e, por isso, ao contrário do usualmente defendido, a verdade é que pensamos porque fazemos. Antes é o fazer e só depois vem o pensar. É preciso dar o pin(t)cho.
Tonho Arplano, naquela sua figura esguia, pregava na Lameira que a Terra era muito maior do que o mar porque se o mar fosse maior o que a Terra quando chovia inundava tudo e nem as serras se escapavam como tinha acontecido no tempo do Dilúvio em que o Noé teve que esperar que a pomba já não voltasse , o que significava que já tinha onde pousar e até fazer o ninho, não precisando já da secura da Arca. Deus mandou  encolher o mar e aumentou a Terra que , assim, é muito maior do que o mar. Tanto dava que fossem todos contra ele, ou nenhum, porque asseverava: daqui não saio e daqui ninguém me tira". Ficava a falar sozinho, mas mantinha que a Terra continha o mar nos seus limites e mainada.
É preciso dar pinchos mas também obedecer ao preceito do velho Comandante: "Vê bem antes de saltar".
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domingo, outubro 21, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXVI - BOLÉU

O sagrado e o profano andaram sempre a par. O homem e o universo sempre se opuseram, no sentido de que, o primeiro, desde tempos imemoriais, tenta descortinar os segredos do segundo. É nesta oposição que o conhecimento se reparte em sujeito (aquele que quer conhecer) e o objecto (aquele que pode vir a ser conhecido). Não é do campo do basa deter-se agora nas diferentes doutrinas que, ora atribuem predominância a um, ora ao outro. Ainda assim, a incompetência ou incapacidade do sujeito para conter na sua rede de conhecimentos todos os insondáveis segredos do segundo, conduziu a que ele - que não gosta nada de perder - se desculpabilizasse, atribuindo a responsabilidade do que não entende a um ou muitos seres cuja antropomorfização é evidente, mas com características que extravasam das capacidades do ser humano. As divindades surgiram assim: da necessidade que o homem sentiu de a elas recorrer para se sentir minimamente seguro no enorme mundo do ignoto. O mais curioso é que, tendo sido ele o inventor desses seres, depois, não só se submete a eles, como, o que é pior, os usa para submeter outros. Na verdade, em nome dos deuses, sejam eles quais forem, cometem-se as maiores das atrocidades, desde os autos de fé às jhiads, às imolações de virgens,enfim, que sei eu... É por isso que, sabiamente, Eliade diz que o profano tenta dominar o sagrado ao mesmo tempo que foge dele, para não ser completamente subjugado por esse mesmo sagrado. Aqueles que a si mesmos, com mais ou menos demagogia, se auto proclamam enviados e/ou representantes terrenos desses seres sobrenaturais, cedo se aperceberam das vantagens e do poder que lhes era e é conferido e/ou atribuído, pelo que jamais querem perder essa vantagem estatutária. A História é tão fértil em exemplos  que me dispenso de citar algum.
Esses "eleitos do Senhor" aperceberam-se também de que o exagero de "tirania" que exerciam sobre o povo, poderia virar-se contra eles próprios e, habilmente, criaram épocas festivas, aproveitando mesmo as datas profanas, ditas pagãs (vá lá saber-se porquê), para que o povo ( leia-se fiéis) pudesse descarregar a sua energia, sempre contida por mandamentos ou normas de moral, impostas em imperativo negativo, e, assim, louvassem o Senhor e seus "legítimos" representantes pela sua infinita bondade. As festas anuais surgem assim e o cariz religioso - sagrado, portanto - encaixa nas antigas festas do profano que ocorriam em função do ano agrícola. O povo precisa de festas, demos-lhe então algumas, mas controladas por nós, assim pensavam e pensam os SACERS.
Era costume, nos meus tempos de meninice, que, de vez em quando, passassem pela aldeia xêndrica os comediantes. Vulgarmente numa carroça ou, já mais tarde, numa carrinha ou camioneta a cair de velha, estes comediantes eram uma família de três gerações, anunciavam-se percorrendo as ruas da aldeia com uma tarola bem batida,  a canalha atrás, sempre curiosa e ávida de novidades, anunciando que à noite no largo em frente da Igreja, teria lugar uma sessão de espectáculo circense, com palhaço, ilusionista, pantomineiro, trapezista e acrobacias várias, em que o povo seria também participante activo.
A rapaziada assistia ao montar do trapézio sem rede, os velhos davam opinião sobre a segurança dos ferros, em função do esticanço das cordas e da altura do trapézio e a canalha rodeava os artistas, sempre solícita, colaborando, indo buscar a marreta, a espia, água ou o que lhes fosse pedido.
À noite, depois de ceia, lá vinha o povoléu ver as comédias. Fazia-se naturalmente um círculo que servia de arena, onde os artistas, anunciados com um funil adaptado para amplificação de som, exibiam as suas habilidades. Em regra, culminava com o /a trapezista, que fazia o Cristo numas piruetas com ambas as mãos ou só com uma, subia e descia da corda, volteava sobre o eixo do trapézio e foi aí que, inesperadamente , nessa noite, a trapezista caiu um boléu de todo o tamanho. Todos se precipitaram para ajudar, mas, felizmente, aos poucos, a rapariga, lá se começou a mexer e a andar pelo próprio pé, bebeu água, ainda quis voltar ao trapézio, mas o patriarca dos comediantes não deixou. Pediu desculpa e passou com um chapéu por toda a roda agradecendo uns tostões.
O espectáculo acabou com uma salva de palma e o regresso a casa comentando a sessão e apreciando a habilidade da rapariga não só no trapézio, como na rapidez com que rodou o corpo para não cair de chapa na calçada, evitando que se escavacasse toda com o boléu que apanhou.

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segunda-feira, outubro 01, 2012

JENTACULUM VINDEMIAE - MMXII


JENTACULUM VINDEMIAE
MMXII
SEPTEMBER


INTROITO

PALAIO TRADICIONAL
Em louvor de Santa Marta, quem quiser que o parta

ISCA PORCINA HEPÁTICA GRELHADA, ALHADA, ACETIZADA, AZEITADA
À hora de comer sempre mais alguém há-de aparecer

TAPA OLHOS PORCINO, BEM ACOLITADA POR COENTRADA PICADA, BOLBO CHORANTE, CABEÇA DENTADA BEM PICADA EM TIRAS GROSSEIRAS
Ovelha que berra, bocada que perde

LEGUMINOSA PEQUENA SEMPRE DE COSTA VIRADA DE CARA VERDE BEM ACOMPANHADA POR ENLATADO CONSERVEIRO EM MOLHO TOMATINO LEVEMENTE PICANTE
Presunção e água benta, cada um toma a que quer


OBLATIO

CALDO BASTO DE INGREDIENTE VARIADO, ADUBADO POR OSSO PRESUNTEIRO A ATIRAR PARA O RENÇO AROMATIZADA POR MANTRASTE HORTELÃO
-oh Arnaldo queres caldo?
Não que me escaldo
Antes queria pão
Mas como o como
Se não mo dão?


CÂNON


PERNIL BACOREIRO LACERADO ENCAÇOLADO E ACOMPANHADO POR TUBÉRCULO AMIDADO
Se queres conhecer o teu corpo, mata o porco


ERVA RUCULAR SELVAGEM ASSIM COMÉDADO
Não há nada como realmente
Antes assim do que infelizmente
As ondas do mar trazem peixe
As primeiras principalmente
E assim sucessivamente
Uma mão lava a outra
E as duas lavam a cara
Quando assim não seja
Quatro na peida e uma cerveja


VENERATIO

NEGRO AROMÁTICO FUMEGANTE E SEUS ADEREÇOS
Quem não gosta come menos



ITE ,VINDEMIA EST



eucaristias anteriores:

MMXI


MMIX



quarta-feira, setembro 26, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXV - BOUCHADA ou BOUCHEDA

São muitas as histórias acerca do aproveitamaento total dos animais para a alimentação humana: veja-se o caso das tripas ou das alheiras, só para servir de exemplo. Sem dúvida que o animal mais aproveitado, foi, desde sempre, o porco. Desde a pele aos ossos, tudo era reconvertido em alimento.
No caso vertente, referimo-nos à cabra e ao seu estômago: a bochada/ bocheda/ botchada/ botcheda/ bouchada/ boutcheda.
A época, por excelência, do abate dos caprinos, tal como dos anhos/borregos / ovelhas/carneiros, em suma, dos chamados pequenos ruminantes, é a Páscoa. Não é por acaso que até o próprio Cristo na Liturgia é apelidado de Cordeiro de deus e que com o sangue deles que se marcaram as portas .
Na região interior a bochada é aproveitada para a feitura de um alimento de sabor delicioso  - os maranhos. Depois de bem lavada e virada, deixa-se em curtume num alguidar com laranja, alho, louro, sal, corta-se à medida pretendida, cose-se com agulha e linha e enche-se com carne da própria cabra (preferentemente a do cachaço, previamente e razoavelmente encalada, chouriço caseiro, presunto com pouco branco, muita salsa e hortelã picadas, e arroz demolhado, fecha-se e coze-se durante o tempo considerado necessário, tendo em conta a idade da rês. Convém não encher muito porque depois o arroz vai , naturalmente, inchar durante a cozedura. Há quem coma a bouchada e outros consolam-se apenas com o recheio. Eu, por mim, como tudo. Só sobra a linha da cosedura. Nada como arriscar a fazer e depois contar.
As tradições são o que são e se muitas se perderam ou cairam em desuso, outras, sobretudo as culinárias ainda subsistem e são até alvo de um revivalismo saudável. Aqueles que comeram comida feita em panela de ferro ou em caçola de barro sabem bem do incrível paladar dessas iguarias.
Cinco foram as mulheres que quase sempre vi descalças: a minha bisavó paterna Isabel, a velha Lorpa, a velha Nacha (Inácia), a velha Pieres e a velha Poupeda.
Trago-vos hoje a Pieres: media por aí um metro e quarenta, seca como as palhas, sempre de saia comprida, ligeira quanto baste, corria a aldeia toda e apanhava tudo quanto fosse gravato para acender o lumito. Vivia num tugúrio ao cimo da barreira do outeiro, curiosamente, mãe de um dos homens mais altos que ainda hoje habitam a aldeia xêndrica: o Camião.
Por altura das festividades religiosas, muitos dos Xendros vinham até à terra mãe e era ver a velha Pieres, solícita a prestar-se para todo o serviço que a senhora precisasse. Uma das que mais aproveitava as prestações serviçais de Pieres era D. Bondita (Benedita) , professora, esposa que era do ilustre comendador, também ele professor Zé Manel Landeiro, autor de Penamacor na História e na Lenda, e Caminhos Velhos de Penamacor, membro da Academia de História e com direito a dar nome ao Largo central de aldeia. Foram professores em vários locais, mas acabaram a sua vida profissional no Montijo.
Não era muito comum a D. Bondita descer ao povo, mas o professor Zé Manel vinha logo de manhã a ver se o correio já tinha chegado, a beber uma ginja traçada na tasca do Fatela e a comprar tabaco. Sofria dos calos e o seu andar era muito característico. Pieres sabia logo quando chegavam porque nas suas constantes deambulações depressa se deparava com o professor e lá ia ligeirinha a ver o que a senhora precisava.
Depois era vê-la no Chquim do Trem a comprar a mercearia, e no ti Chico Miguel a ver da chiça de cabra e da bouchada. Foi na casa de D. Bondita que provei os maranhos pela primeira vez. Fui lá levar a bilha do gás naquele mais que famoso carrinho de quatro rodas e o cheirinho da hortelã levou-me a soltar um louvor: "Oh Senhora D. Benedita, hoje há rancho melhorado... Cheira tão bem!" E ela ofereceu-me uma fatia de maranho. Lambi-me. Benedita gostava de me examinar e perguntava-me sempre qualquer coisa. Naquele dia perguntou-me se eu já tinha lido a Bíblia. "Já sim, já a li". «Então qual é a profissão do diabo?» Eu fiquei a olhar para ela, encolhi os ombros e ela» «era padeiro, rapaz, era padeiro...é por isso que temos que comer o pão que o diabo amassou»
Fiquei assim de cara ao lado, despedi-me e cruzei-me com Pieres que ia a subir as escadas.
XXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGRRRRAAAANNDEE

terça-feira, setembro 11, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXIV - ÀS E(I)ND(I)RE(I)TURAS

Não raro confundimos convicção com certeza, teimosia com persistência, causa com opinião e por aí fora.
A natural tendência para aparecermos como vedetas maiores nas estórias que contamos levam-nos a uma pseudo auto estima a partir de uma imagem defeituosa do nosso próprio auto conceito.
Educados como fomos numa lógica bivalente, numa divisão dicotómica, num maniqueísmo atávico, tendemos sempre a pensar que quem não é por nós é contra nós e que quem discorda de nós é tendencialmente anormal ou um cegueta que não quer ver a verdade (que evidentemente é a nossa). A questão agrava-se se falamos de religião ou nos metemos em questões de fé.
A nossa matriz mais profunda é, sem dúvida, a matriz judaico-cristã. Mas não só: temos raízes celtas, fenícias, helenas, romanas, árabes e depois africanas, brasileiras, francesas e anglicanas e o que mais se queira, como indianas e asiáticas no seu todo. Os portugueses foram os primeiros aldeões globais. Por isso é que " se Deus criou o homem, o português criou o mulato".
A religião enquanto fenómeno individual e social é, a bem dizer, um fenómeno universal e intemporal. Só que as religiões são todas sectárias, desde os cristãos (católicos, anabaptistas, adventistas, anglicanos, luteranos, calvinistas, cárpatos, coptas, ortodoxos, iurd, piniel, maná, e um rol mais que inumerável) judeus com as testemunhas de jeová, rabinos e outros que tais, muçulmanos com as teocracias mais que muitas com as diferenças interpretativas que levam, em todas elas - estou apenas a falar das três monoteístas - a fundamentalismos sem nexo, cada uma convencida que o seu deus é o único deus, quando é apenas um a das divindades aceites por correligionários crentes.
Permita-se-me citar Michel Onfray - Tratado de Ateologia,- pg. 69:... «os homens , quando se decidem a dar à luz um deus único, fazem-no à sua imagem: violento, ciumento, vingativo, misógino, agressivo, tirânico, intolerante....»
Não há dúvidas que em nome de deus tudo é possível, desde uma fervorosa Teresa de Calcutá a um Torquemada, de mártires pela liberdade a vingadores de 11 de Setembro, de união em torno de um ideal a invasões de toda a ordem com morticínios a eito. Se deus soubesse o que fazem em seu nome, envergonhar-se-ia.
Alma de Sino tinha uma burranca valente. Quase parecia uma mula. Quando bem arreatada como na altura das festas, era um animal garboso, bem posto, crina brilhante e rabo enorme, dorso largo. Alma de sino primava pelo trato da sua besta e tinha razões para isso. O seu modo de vida consistia em ir ao Sabugal a vender as primícias: o primeiro feijão verde, a batatinha nova, figos, abóbora, nabiços, que sei eu... Aparelhava a burranca, punha-lhe as angarelas e carregava-as com dois cestos laterais e dois ao centro de sobrecarga. O animal arrancava com a carga sem aparente esforço e Alma de Sino lá ia, quantas vezes também ele atado à burra, caminhando, qual sonâmbulo, puxado por corda presa à rabicha da albarda.
"Ó Ti Mnel, atão qual é o caminho que vomecê toma para encurtar viagem até ao Sabugal? perguntei-lhe um dia. E ele: « olha cachopo, meto aqui direito à quelha funda, vou às endireituras da fonte de Carvalho, subo até ao talefe do salgueirnho, passo ao lado da capela do Meimão às endireituras do castanheiro das merendas e depois é só descer até ao Sabugal.»
"Atão e se fosse ali pelo carregal, a passar à sra do incenso contornasse a mata às endireturas da ponte do zé mendes e à queijeira do elias até ao carvalhal da meimoa, passasse pela sra da póvoa, subisse a serra de opa e depois fosse na mesma a dar ao castanheiro das merendas?.»" »Tu és tonto, era muito mai longe! e além disso tinha que ensinar o caminho à minha burra e ela, como é velha, já não aprende vereda...»
Discutimos os trajectos mas ao fim cada um ficou com a sua. A burra olhava para nós a dizer que éramos os dois uns tarantas.Se calhar era ela que tinha razão.
Passados dois anos a burra acabou por morrer e Alma de Sino começou a ter que ir na camioneta da carreira.
Assim somos nós: só mesmo perante uma evidência insofismável alteramos as nossas convicções, mas a tendência é a de continuarmos a bater na mesma tecla, mesmo que esteja desafinada. Habituamo-nos àquele som e passa a ser melódico ouvi-lo, contra tudo e contra todos.
Somos mesmo muito lindos, não somos?
As coisas só estão bem quando ficam nas nossas endireituras!
XXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDDE

sábado, agosto 18, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXIII - AF(E)NÉDO


Marcel Proust, em “Em busca do tempo perdido”, que, confesso, nunca li na totalidade, realiza um notável exercício de memória de um tempo que ele perdera mas que reconstrói admiravelmente: o da sua infância. Claro que mais notável ainda é a sua capacidade criativa de o descrever, mas também é enfadonho e até doentio que esse passado lhe seja tão presente. É que, admito: são poucas e difusas as minhas memórias de infância. Mesmo sem o desejar, devo ter concebido e feito correr um programa de selecção dessas memórias, tão exigente nos critérios que só deixou algumas. E, mesmo que assim não fosse, reconheço humildemente a minha incapacidade de as reconstruir como Proust o fez. Tenho muitas dificuldades em encontrar aquele tempo, ou porque está perdido ou porque a minha memória o arquivou num dos seus cantos mais recônditos.

Todavia, tudo indica que subsiste uma relação da memória com o passado. O changoto já qui o declarou solenemente: a memória não encorrancha. Involuntariamente, resgatamos acontecimentos da infância e revivêmo-los, reconstruídos, na vida adulta. Por um processo complexo, o nosso passado está permanentemente a revisitar-nos, sem o chamarmos, ressuscitado por um cheiro, por um sabor, por uma imagem, por um som…
Agora mesmo, eis o que a minha memória foi represtinar: o velho Nicas, meu vizinho, cuja imagem mais forte o coloca dentro de um enorme pio (em boa verdade nem era muito grande, mas era essa a perspectiva do gaiato de 5 anos), ceroulas brancas com listas pretas finas longitudinais, arregaçadas ao máximo mal tapando as nalgas, marchando compassadamente no meio das uvas esmagadas; de vez em quando, agarrava no rodo e revolvia vigorosamente toda aquela massa meio líquida meio sólida da cor do que havia de vir a ser: de vinho.  Eu apareço à porta da loja, curioso, e ele:

- Anda cá ó roupinha afnéda qu’ê t’ensino a nadar aqui”.

Para além desta situação, noutras, com contornos difusos, não recriáveis, a minha memória regista que o epíteto de “roupinha afnéda” era-me bastas vezes aplicado. À sua maneira, o velho Nicas alimentou o meu auto-conceito de javarino que a idade, naturalmente, corrigiu.

Por essa época, também, o mesmo javarino tinha o privilégio de acordar ao som de fado de Coimbra. Nas manhãs mais amenas do Verão, dia novo de 7 horas, sem qualquer acompanhamento de guitarra, só com a sua tonitruante voz, Mnéixquim Carrêras plantava-se ali no vértice do Batoco em frente à minha casa e debitava, qual Luíz Goes:

O sol anda lá no céu
Tão contente atrás da lua
Assim minh’alma anda
De castigo atrás da tua

Mnéixquim Carrêras era uma figura invulgar numa pequena aldeia do interior profundo. Tinha o 5º ano (antigo, equivalente ao actual 9º) o que naquele tempo fazia dele uma das pessoas mais letradas da aldeia, vantagem que ele soube rentabilizar: toda a vida ganhou a vida a dar explicações. Décadas antes do ensino recorrente, o Carrêras foi pioneiro na educação de adultos. Todos os “cavalgaduras” que o professor José “tanganho” Paula de Campos não conseguia fazer passar no exigente exame da 4ª classe, todos os pastores, latoeiros, sapateiros, albardeiros que foram obrigados a trocar a escola pela “arte”, todos eles iam pedir ao Mnéichquim Carrêras, que a troco de umas moedas, os compensasse da falta de oportunidade ditada pelas contingências das suas vidas. Disso vivia.

O seu método não era muito distinto do que era utilizado no escola regular, salvo, talvez, as reguadas. Nem a exigência era menor: em vez de “cavalgadura” ele não hesitava em mimosear de “martelão” todo aquele que demorava a distinguir os advérbios dos adjectivos. A sala de aula era austera: uma pequena assoalhada, paredes toscamente caiadas de branco, piso de madeira carcomida, despida de qualquer mobiliário ou outro adorno a não ser uma espécie de carteira de escola, de pé alto, adaptada propositadamente para que o aluno se mantivesse em pé, estrategicamente colocada ao lado da única janela por onde entrava a luz. Com voz forte, a mesma com que entoava as baladas coimbrãs, ele passeava-se ruidosamente nas suas impecáveis botas de sola feitas à medida pelo sapateiro Guerrilhas, 5 protectores metálicos em cada uma, por detrás do aprendiz tentando que ele aprendesse os rudimentos, para a época, da gramática, da aritmética, da geografia (que neste tempo incluíam as colónias ultramarinas), da história de Portugal.

- Repete atrás de mim, rapaz: os reis de Portugal da Primeira Dinastia foram D. Afonso Henriques, o Conquistador; D. Sancho I, o Povoador, D. Afonso II, o Gordo, D. Sancho II, o Capelo, D. Afonso III, o Bolonhês, D. Dinis, o Lavrador, D. Afondo IV, o Bravo, D. Pedro I, o Justiceiro, D. Fernando, o Formoso.

Se ele não repetia af(e)nédo à segunda, lá vinha:

- martelão! martelão! martelão!

E o tratamento não fazia grande distinção entre o mancebo de 16 e o homem de 40 anos. Muita gentinha aqui aprendeu a ler e a escrever, outra tanta aqui apreendeu conhecimentos básicos mas essenciais para posteriores actividades noutras latitudes, mais lucrativas e se calhar menos rudes do que o pastoreio e demais trabalhos da lavoura – o movimento emigratório estava em crescendo no início daqueles anos sessenta.

Aos mais adiantados, obrigava a saber na ponta da lingua:

- Os minerais classificam-se segundo a sua dureza, do menos para o mais duro: talco, gesso, calcite, fluorite, apatite, feldspato, quartzo, topázio, corindo e diamante.

O fado de Coimbra aprendeu-o ele sem nunca ter posto os pés na cidade do Mondego. Machado Soares, Fernando Rolim, Luíz Goes e mesmo José Afonso eram sofregamente bebidos através da rádio Altitude que ele sintonizava no velho aparelho blaupunkt, aos sábados à tarde.

E nas manhãs de Verão lá comparecia ele na esquina do Batoco entoando, af(e)nédo quanto baste:

Fui ao Mondego lavar
As penas das minhas mágoas
Minhas mágoas eram negras
Negras ficaram as águas

Para um roupinha af(e)néda de 5 anos, era uma inusitada forma de acordar. E um luxo!

quarta-feira, agosto 08, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXII - ACONDUTER

Nada, nem ninguém como as coisas de aldeia e as gentes de aldeia! Não sei se deverei falar em "bons tempos" aqueles em que vivi e, sobretudo, convivi na aldeia. Foi lá que aprendi muito da escola da vida. Poucos me ensinaram tanto como o velho Comandante, aquele avô severo, rude, áspero, bruto, na verdadeira acepção da palavra, que se gabava de nunca ter posto as mãos em cima dos filhos! Pudera! batia-lhes em pêlo com a bomba de borracha do vinho ou com o cinto pelo lado da fivela, quando não com as cordas de sobrecarga ou mesmo vergôntea de gesta ou arrocho de aperto.
Tito Lívio dizia de Aníbal Barca que mal dormia, pouco se alimentava, era de resistência invulgar, sempre o último a deitar-e e o primeiro a levantar-se, capaz das maiores façanhas, simultaneamente conselheiro e admoestador, capaz do elogio ou de uma sentença de morte que ele próptio executava, vigilante ímpar, passando furtivamente pelos sentinelas, verificando se dormiam ou se se mantinham despertos. O que fosse apanhado a dormir nunca mais acordava. O velho Comandante timha muito a ver com este famoso general Cartaginês, o primeiro que foi a atravessar os Alpes, ínvios até então, como conta Salústio repetido por Lhomond, ele, o seu exército e os elefantes. Foi obra: ir de Sagunto (Barcelona) até Cannas e derrotar os Romanos em casa. O velho Comandante era igual: por tal severidade a avó Isabel se findou cedo. Poucos aguentavam aquele ritmo: tanto trabalhava à canha como à direita, quer a cavar, a ceifar, a gadanhar a cortar, a podar,... Era um ambidextro, na verdadeira acepção. Sempre o primeiro a chegar ao trabalho e, se se tratava de trabalho onde pudesse adiantar, como na apanha da azeitona, por exemplo, era certo e sabido que quando os assalariados chegavam já tinham tudo montado: fato estendido, escada encostada, lume aceso e ele já no cimo da muda a gritar: CHOVA!CHOVA!. Era capaz de trabalhar de sol a sol, ir de noite a Espanha, no tempo da guerra civil, entregar vacas e estar na linha da frente para pegar ao trabalho logo cedo. Um fenómeno!
Cito, um tanto de cor, o retrato de Lívio que, sendo romano, nunca será muito probo relativamente a um cartaginês :" princeps proelium ibat, ultimus, conserto proelio, excedebat. Inhumana cruidelitas, perfidia plus quam punica, nihil veri, nihil sancti, nullum deum metus, nulla religio...".
Parcimonioso, mais que medieval, bastava-lhe um figo seco para aconduter uma refeição...
Fazendo aqui uma espécie de anacoluto convém esclarecer que não é raro, no lingujar popular a troca de sons, especialmente, no caso vertente, a troca do som E pelo A: em vez de assobiar dizem assobier, por mijar pronunciam mijer, por molhar preferem molher (as vogais finais devem ser abertas)... e por aí fora.
O nosso linguajar de hoje é alvo desta permuta de fonemas: em vez de a condutar, sai aconduter. ( leia-se ACONDUTÉR).
Que me lembre, apenas duas matanças aquele homem fez para casa. Não se pense que os porcos eram valentes; ao contrário... tal como o dono, eram magros, de cabelo ericedo (=eriçado), e de pequeno porte. Se nas outras matanças a refeição era uma festa, ali apenas se comia a meloreja, um prato de sopa de couve, mal aconduteda, fígado e soventre, bebia-se vinho por copos que mais pareciam dedais, lá aparecia uma cunca de queijo e "ala milhano" que se faz tarde!.
Raramente oferecia um copo a alguém e, se fosse o caso, nunca oferecia nada para aconduter.
 De facto, estranho que apenas conhecesse aquela casa iria com uma apreciação errada do que é uma típica casa de aldeia: junto do pipo se não havia, depressa aparecia um pão e o respectivo conduto, para acompanhar o copo: azeitonas, queijo, presunto, uns fritos de beringela, se fosse o tempo, ou, que mais não fosse, uma tora de toucinho salgado para fazer boca. Eram assim as casas de aldeia: sempre que se bebia tinha que se comer. Nunca se comia pão seco, sempre aparecia algo para aconduter. É esta a escola que eu pratico: alguém que me visite tem sempre pão e algo para aconduter. No velho Comandante não era assim.
Eu, enquanto neto, beneficiava de uma excepção: lá vinha o figo deco ou, raramente, um naco de pão com um queijo seco embrulhado em folha de botelha e guardado no arcaz da semente, "por mor de ficar macio".
 Agora que já vos matei a bicheza e vos trouxe um naco de prosa para aconduter, prometo voltar mais cedo para não vos desavezar...
XI GRANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEE


segunda-feira, julho 09, 2012

DE PASCENTE FILHO DE CAPRINO


AO CHEGAR

IR CUMPRIMENTAR
    E COM VÉNIA REVERENCIAR
           O GRANDE CHEFE NA ARTE DE BEM COZINHAR
                                                     “LOBO CERVAL” CUJA NOMEADA HÁ-DE CHEGAR
          MUITO PARA ALÉM DA TERRA E DO MAR.
  DE TUDO PROVAR
     COM PRAZER DEGUSTAR
   DEPOIS OPINAR
COM TODOS CONVERSAR
                 A BOA COMPANHIA SABOREAR
                        E COM RESPEITO AGUARDAR
                                                                        A ORDEM DE SENTAR.

 :::::::::::::

ODE PARA-HORACIANA

OH  ENCANTADORA QUINTA DO LÍRIO!
MAIS FAMOSA  DO QUE A FONTE DE BANDÚSIA
DO  QUE AS PIRÂMIDES EGÍPCIAS
E DO QUE AS PROFECIAS CALDAICAS.
É A TI QUE VÃO DAR
COMENSAIS MAIS QUE DIGNOS
DO REPASTO QUE  A SEGUIR APRESENTO:

EM VÃO A NATUREZA INCHOU A FRONTE TÚRGIDA
DO PASCENTE FILHO DE CAPRINO
PREPARANDO-O PARA AS LUTAS PELA PROGÉNIE
COM CHIFRES DE DUREZA CONSABIDA
EM VÃO!
SEU SANGUE TINGE DE PÚRPURA
GRÃOS DE ALVO CEREAL
E GRAVETO DE LOURO, TORO DE OLIVA
PAU DE AZINHO, APARAS DE MEDRONHO
O TOSTARÃO ATÉ FICAR CREME
ACOLITADO POR TUBÉRCULO RECENTE
BOLBO CHOROSO E DENTE DE CABEÇA ALHÍFERA
NACOS DE VENTRE PORCINO,AQUOSO TOMATINO
TUDO REGADO COM SEIVA DE BIFE DE CAROÇO
REFULGENTE NA SUA DOURADA FLUIDEZ.

À SUA FRENTE MARCHARÃO IGUARIAS OUTRAS
QUE PREPARARÃO A INOLVIDÁVEL SAPIDEZ.
LÍQUIDOS BÁQUICOS, UNGEM  O SACO VENTRAL
ENQUANTO PARA FAZER COMPANHIA
PELA ORDEM QUE SE IMPÕE
SURGIRÃO EM SUPERFÍCIE EUCLIDEANA:

AURICULAR CERDINO, A VERDE ENSALSADO
EM AROMA LEVEMENTE ACETINADO
E PARTÍCULAS DE ANEL BOLBADO
TRASEIRO CURTIDO FATIADO
CURTUME ENTRIPADO
PRODUTO LÁCTEO FERMENTADO
ACHINCHADO,DEPOIS CURADO
OLIVA  DE SABOR LIMONADO
SECO CICLISTA FRIO E PARADO
BEM TEMPERADO , ENSALSADO,
COENTRADO E ATUNADO

JÁ SOBRE A MESA DO REPASTO
FUMEGANTE E BASTO
VIRÁ RECIPIENTE VASTO
COM CALDO NABIÇASTO
À MODA DAS VELHAS CASAS DE PASTO

SEMPRE PRESENTE ANDARÁ O CASQUEIRO
FEITO POR HÁBIL FORNEIRO
FATIADO POR ARTISTA PRAZENTEIRO
ESPALHADO PELO ESPAÇO INTEIRO

A COR VARIADA DE BELEZA CATIVANTE
E DE SABOR ESTONTEANTE
CABE Á PERDIZ ERRANTE
ESCONDIDA POR INSTANTE
EM RÚCULA VERDEJANTE.
 E TOMATINO FULGURANTE
NÃO ANDARÁ DISTANTE.
 Changoto, 06/07/2012

 coitela aí!
 inté reluzia
 o changoto e a sua circunstância
  ó êgua




quinta-feira, junho 07, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXI - BIMBIGO

Porque ambos são mamíferos e pertencem à mesma espécie, homem e mulher apenas se parecem neste ponto: no bimbigo. Em tudo o mais são diferentes, e ainda bem. Não é por acaso que a natureza exige a comparticipação dos dois para uma reprodução considerada natural.
A grande causa é que um e outro dos géneros produzem hormonas diferentes. São estas hormonas que são os grandes mensageiros e a sua importância é tal que o cérebro, que em princípio as coordena, está intrinsecamente dependente delas.
Ludwig Feuerbach e independentemente de concordarmos ou não com ele - não é aqui o local para essa controvérsia  - dizia que " o ser humano não pensa; quem pensa é o fósforo".
A divisão dicotómica vinda já dos pitagóricos e depois reforçada por Platão, dogmatizada pelo cristianismo, defendida por Descartes, polemizada em Kant, levada ao extremo com Hegel ... , a divisão em corpo e alma, matéria e espírito, mortal e imortal, temporal e eterno, finito e infinito, sei lá..., que de alguma forma Kierkggaard quis conjugar com o hiato ou intervalo de uma humanização da divindade na figura de Cristo, essa divisão, não faz sentido em Feuerbach. Aqui só o material faz sentido.
Em última análise, podemos dizer que o ser humano é complexo e multidimensional e já Morin em "O Paradigma Perdido" o explicava.
Face a tudo o que se vai sabendo, uma visão minimamente razoável do ser humano tem que considerar, no mínimo, uma série de dimensões que podemos simplificar num palavrão: o ser humano é um ser BIOANATOMOFISIOPSICOSOCIOCULTOECORELIGIOSO,  isto é, nasce cresce, reproduz-se e morre, aparenta uma figura que nos permite distingui-lo de qualquer outro ser vivo, é constituído por órgãos com função específica, mormente, dotado de um córtex cerebral único, reage a emoções, vive em sociedade no seio de um meio ambiente de que ele faz parte integrante, como bem escreve Karel Kosic, e é o único que criou um Ser transcendente a quem recorre e adora...E mesmo assim não o esgotamos. Alexis Carrel disse bem quando escreveu que o Homem (é) Esse Desconhecido.
Sem presunção de qualquer espécie, podemos reduzir este elemento da natureza a três características fundamentais: o ser humano é FÍSICO, QUÍMICO E ELÉCTRICO. Cá volta o nosso Feuerbach !
Físico, porque tem um organismo, ritmo cardíaco, metabolismo complicdo, temperatura organísmica,..., químico, porque mais de dois terços da sua composição é água e depois é cálcio, ferro, potássio. sódio, magnésio, fósforo, pois claro,... e eléctrico porque a sua relação com o mundo e consigo mesmos depende de influxos nervosos que mais não são que circuitos eléctricos de vai-vem com carga positiva e negativa nas células nervosas que se polarizam e descarregam em intervalos de um cinquenta avos de segundo...Quem regula isto tudo? a hipófise, pois, e o hipotálamo, e a amígdala e o simpático e o parassimpático, e... as hormonas.
Se é verdade que não há um homem cem por cento masculino, nem uma mulher que não tenha traços de masculinidade, - afinal o pai determinou o género sexual com o gâmeta veiculado no espermatzóide vitorioso na corrida para a fecundação e a mãe, salvo casos especiais, gerou-o durante trinta e seis semanas - . Cada um de nós é assim de dois e temos marcas dos dois, embora sejamos diferentes de cada um deles.
Ora o que  distingue um ELE de uma ELA são as hormonas que cada um produz: ele testosterona, ela estrogénios e progesterona. As outras não vêm aqui ao caso, porque são estas que fazem com que cada um deles, em regra, nasça com um sexo definido, que permite à parteira dizer «é menina» ou «é menino» e isso faça toda a diferença.
A sociedade tem normativos comportamentais para o menino e para a menina e a natureza, ela própria, atribuiu-lhes missões diferentes.Por isso é que só são  iguais no bimbigo!
Não é hoje dia de nos determos nesses normativos, mas sempre vos digo que todos temos tendência para só olharmos para o nosso bimbigo e mesmo os gémeos já lutam no ventre materno para cada um ocupar o melhor lugar, empurrando o outro  para o pior lugar no meio intra uterino.
Somos todos muito vaidosos e só narramos peripécias em que nós e o nosso bimbigo saiam por cima.
E pronto... Deixo-vos a olhar para o vosso umbigo e porventura  a desdizer do meu .
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRAAAAAANNNNNDDDDDEEEEEEEEEEE

terça-feira, maio 15, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXX - BIQUEBORNATO

Se havia cozinheira de boda afamada em toda a Raia, a Ti Maria Rainha levava a palma. Mulher cheia, de barruma na testa, braços mais que compridos, mãos lhanas e enormes, sapato para aí nº 40, tudo para mais, voz tonitroante, andar calmo, mas constante. Nunca se cansava e era capaz de trabalhar três dias e três noites sem ir à cama. Não sabia ler nem escrever e nunca precisou de contar ou pesar o que quer que fosse de ingrediente. Dizia que os ovos não eram todos iguais e que a proporção nunca era a mesma, porque era diferente se fosse de compra ou fosse de capoeira, se era de galinha pedrez ou castanha ou preta, pelada ou não, com galo ou solteira, sei lá! Muitas vezes lhe pedi receitas de iguarias ímpares e a resposta era sempre a mesma: " tu num vês que eu faço tudo a olho!?. E era mesmo. Até a têmpera do forno era medida metendo o braço na porta e dando indicações: "mete lenha de azinho", "mete esteva", "tira borralho", "passa o vassouro". Ela lá sabia. O facto é que caçola, bolo ou assadura saíam sempre na perfeição. Nem relógio usava, mas ela lá sabia quando virar, pôr à porta, afundar, tapar borralho, tudo.
Não usava artefactos de cozinha, salvo faca quando necessária.
Onde mais eu gostava de a ver trabalhar era na confecção dos bolos: sentava num tropesso de cortiça diante de um alguidar enorme, arremangava as mangas, lavava as mãos e queria uma pessoa a seu mando ali perto e todos os ingredientes que ela colocava à mão.
« Escarcha praqui ovos, bota mais, bota, bota», e o braço tocava a mão que ia batendo os ovos; quando via que já chegavam: bonda!, bota agora farinha, bota, bota, bonda! Agora bota açucre, bota, bota, bota, bonda! O braço esse andava sempre num vai-vem semelhante aos dos alcatruzes de uma nora ... De vez em quando os dedos procuravam algum cogulho, esborrachava e voltava ao mesmo movimento. «Vai-me por um cochito de biquebornato e desmancha-mo aí num chá de cidreira, mexe-te!» E a mesma lenga- lenga: "bota, bota, bota, bonda!".
Com a mão livre metia um dedo na massa, provava e logo: bota mai açucre, mai um pacote de farinha  e traz-me agurdente: bota, bota, bonda! Sempre assim foi, e ainda nunca provei nem bolos de leite, nem esquecidos, nem borrachões, nem biscoitos, nem arroz doce, nem bolo de noz ou amêndoa, pão de ló ou chocolate como aquele braço e mão faziam...
Fazia panelões de caldo, tudo a olho e no pino do Verão, quando as couves têm menos viço e são ásperas, lá vinha ela com o biquinho da faca transportando o indispensável biquebornato, as couves ganhavam um verde intenso e ficavam macias que era um regalo.
As bodas eram refeições monumentais: as famílias dele e dela começavam separadas e por volta das 10 lá se começava o enchimento com pastéís de toda a ordem, panados, bolos secos, branco e tinto com fartura e sumos para a canalha e para as mulheres. Ele chegava primeiro à porta da igreja e esperava que ela aparecesse. Só aqui é que ele podia ver o vestido dela. O pai entregava-a à madrinha e lá subiam a coxia e ficavam lado a lado. Recebiam-se, o oficiante dava as bençãos e saíam já casados. O almoço dos noivos era na casa dela e o jantar na casa dele. Os convidados duma e do outro iam para espaços separados. Só muito mais tarde é que se começaram a fundir os adjuntos.
As mesas já estavam compostas com mais bolos e com os frios assados avícolas: galos e perus.
Havia sempre duas sopas, uma das quais invariavelmente era canja e a outra variava entre o grão com massa e couve grossa, caldo verde, feijão grande com nabo. O prato de peixe era na maioria da vezes, bacalhau à Brás e depois vinham as carnes: arroz de sarrabulho, coelho com esparregado, galo de cabidela, borrego ou cabra guizados, carne de caçola, bifes de porco com batata frita, muita alface, e ao fim um número interminável de sobremesas, desde bolos a pudins e até, nas bodas mais finas, gelado que mais parecia um creme.
Havia gente que comia o prato cheio de todas as variedades. Duma vez vi comer catorze pratos diferentes a um Labouxa.
A situação mais aberrante, no entanto, aconteceu com o Balecas que me diz: « Se não fosse cá por coisas agarrava-me a este galo e vindimava-o. ! » E vindimou. Comeu o galo inteirinho com duas travessas de esparregado.
Durante a tarde havia bailarico, tá claro e à noite tornava-se a encher a blusa. Havia gente cujo estômago não devia ter fundo, tal a quantidade que ingeriam.
Os noivos na manhã seguinte tinham direito a pequeno almoço servido com todos os requintes.
Não raras vezes, ele pedia um pouco de biquebornato por mor da azia!
XXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRAAAAAAAANNNNNNNNNDDEEE

quarta-feira, abril 25, 2012

terça-feira, abril 24, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXIX - TARRABA ou TARRÁBIA

É por demais consabido que o tempo das matanças era e ainda é, sobretudo se se pretende fazer enchido, tempo frio, seguindo o velho aforismo: «ande o frio por onde andar/No Natal cá há-de chegar.» São muitas as razões explicativas para esta tradição, não sendo a menor a ausência de moscas .
Um porco, tratado a vianda, águas sujas, pouco farelo resultante de peneira, baldregas (beldroegas, sramagos (saramagos), bagaço de azeitona, figos, frutos da horta e, às vezes, restos de algum vizinho que não criava, um porco destes, demorava um ano a criar. Um ano ou mais! Por isso a carne tinha outro sabor...
Ora, os recos, às sete semanas, contas redondas, eram capados. Os criadores de pardeiras (porcas parideiras) chegavam a dita ao barraco (varrasco) em pleno Verão, por mor de terem os bácoros pelos fins de Setembro (S. Miguel) , princípios de Outubro, para os poderem vender ao fim das tais sete semanas, capados e sarados, pois nessa altura valiam mais umas notas. Convém assinalar, para os menos batidos nestas andanças a gestação de uma pardeira : "três meses, três semanas, três dias, três horas e bácoros fora". Basta fazer as contas e somar as já referidas sete semanas, antes das quais nenhum porco era vendido porque não teria competência para se criar sozinho, com as parcas viendas (viandas) e a friagem de furdas cheias de fetos verdes e frios como o diabo.
Não admira portanto que, por estas alturas, os capadores andassem de terra em terra com o seu pífaro cabeça de cavalo e chamassem a atenção com aquele toque característico.
Como nos enxertadores, também os capadores tinham clientela em função do êxito que lhes era reconhecido. Na aldeia xêndrica, o mais afamado vinha da Zebreira, montado na sua Zundapp cinzenta de três velocidades: uma bomba! Invariavelmente parava no batôco e era aí que ao colo, em angarelas, dentro de cestos, em carrinhos de mão, sei lá, os pretendentes à capadela vinham chegando. De lanceta na mão, deitava o reco no chão, e enquanto um segurava as patas ele punha o joelho no cachaço do reco e num instante lá se iam as potencialidades de maternidade ou paternidade: água desfeita em criolina servia de desinfectante e "venha outro".
Os conselhos era repetidos: «faça-lhe uma viandinha quente, com batatas cozidas e esmagadas, umas tarrábias bem migadinhas e tempere-lhe tudo com farelo e bote-lhe um pouco de azeite do escoreiro do ano passado e farelo. Tamém lhe pode cozer umas botelhinhas, mas não lhe deite tomate, nem bagaço,enquanto não estiver bem sarado, por mor da borreira».
Era sempre aos Domingos, depois de missa, que estas cenas aconteciam, que durante a semana, era preciso ganhar a jorna ou tratar do campo.
Não deixa de ser espantoso constatar que, trabalhando de sol a sol, fazendo tudo à mão, a bem dizer sem qualquer maquinaria nem transportes para se chegar mais depressa, não deixa de ser espantoso, dizia, que os campos estivessem todos cultivados, a poder de jeiras de ganhão, de arado de burrito, ou à força da enxada, quando não de picareta. Não havia esteva, codeço, gesta (giesta) , pinhal com caruma, nada! Tudo era rapado e mulher que quisesse cozer em forno privado tinha que ir por uns gravatos para lá da serra da Marvana ou da Raposa, já a dar vistas para terras de Espanha. Agora, com tanto tractor, tanto herbicida, tanto motocultivador ... está tudo pejado de vegetação espontânea e para se apanhar uma saca de pinhas, basta andar uns metros para fora da aldeia, até ao primeiro pinhal...
No tempo em que o tempo corria devagar, havia tempo para tudo, até para ter um rancho de filhos, agora, com artefacto facilitador, nunca há tempo para nada.O resultado é o que se vê: incêndios por toda a parte e em todo o ano.
Neste altura do ano, os campos estavam pejados de gente a alinhar as leiras para as batatas, o feijão de seco, os tomates, as cebolas, os pimentos, as alfaces, as botelhas, as tarrabas..que os grãos, esses já foram semeados em Fevereiro ; as cabritas, presas a uma estaca, iam sendo mudadas ... até ficarem fartas.
Faz-me lembrar o grande Vergílio: non, me pascente, capellae meae, carpetis salicem viridem aut cytisum amarum ... ( Não mais, cabrinhas queridas, enquanto eu for o vosso pastor, comereis do verde salgueiro ou rapareis as pontas do codeço amargoso...). A citaçaõ foi de cor, mas a mensagem era esta.
Neste tempo em que o virtual e o real se tocam, em que as metafísicas ( o METÁ TA PHYSICA) já não são os trancendentes, mas os electrões, em que a distância desapareceu e tudo se reduz ao instante, neste tempo, afinal já não há tempo! Ou somos nós que não temos tempo?
Haviamos de ter vivido no tempo em que os recos demoravam uma ano a criar e as tarrábias eram um dos seus alimentos preferidos. Aí já teríamos tempo!
Como dizia o velho Comandante do Inferno: AH! Tempo!
XXXXIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGRRAAANDE

sexta-feira, abril 13, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXVIII - BABANCA

« És  mesmo um abre-nó, um cagarela, fazem-te o ninho atrás da orelha, comem-te as papas na cabeça, e tu, meu babanca, aguentas tudo. Um homem quere-se com génio! Eu até cagava um pé todo se fizessem assim mangação de mim! podes crer!».
Esta pedagógica advertência travava-se entre Zé Estanqueiro e seu filho, também ele Zé, candidato  e depois efectivo soldado da GNR.
Os Estanqueiros, embora tivessem casa na aldeia, viviam a maior parte do ano para os lados do Carregal, paredes meias com a ribeira das Taliscas. Vinham ao povo apenas aos Domingos e era ver o velho Estanqueiro, garboso, montado na sua mula esgueira, de albarda bem bordada e estribos laterais, bota com esporas reluzentes, fato de surrobeco, colete justo, relógio Cortebert, atacado por corrente de prata no bolso pequeno, jaqueta à meia haste, chapéu de cartola : um príncipe dos lavradores.
O filho, esse, deslocava-se noutra montada, uma bicicleta pasteleira, sempre com os guarda lamas por mor dos charcos que tinha que atravessar evitando assim os salpicos resultantes do acelerar dos pedais.Vinha à escola com a bolsa a tiracolo, onde cabiam o livro único, o caderno das cópias e das contas, a gramática do Zé Maria Relvas, a História do Tomás Barros, e, claro, a pedra e o ponteiro.
A mãe fazia um enchido de paladar único e não foram poucas as vezes que eu trocava um chocolate de cinco tostões da Regina por uma tora daquele chouriço cujo unto escorria pelos dedos e que eu lambia sorvendo os dedos, a ponto de não ser preciso lavar nada. Era um rapaz espadaúdo, bota número 45, alto para idade, tanto mais que as calças não tapavam as botas, o que o fazia parecer ainda mais alto. Moreno quanto baste, cabelo farto e forte, emaçarocado por falta de lavagem conveniente, mãos enormes e unhas que pareciam sachos.
Nunca o vi sem dinheiro e era com ele que, muitas vezes, comprava a resolução dos problemas que o professor mandava para casa e que o Estanqueiro se via aflito para deslindar. Ainda ganhei uns trocos.
Um dia o professor topou o jogo, levámos os dois reguadas que chegassem, eu papei um raspanete e o Estanqueiro levou o recado para o pai ir à escola a falar com o senhor professor. Queria saber de onde lhe vinha o dinheiro, se o tinha tirado do lenço das mãos da mãe ou da boieira do pai ou se lho tinham dado. À cautela foi-lhe confiscado.
O velho Estanqueiro lá foi e os três esclareceram ali o assunto, o dinheiro foi entregue ao pai e é aí que sai aquele diálogo tão edificante com que comecei a crónica de hoje. Ouviram-se dois estalos e o Estanqueiro lá volta para a sala, mais encarnado que tomate coração de boi, envergonhado e a vociferar baixinho. Um quadro digno de Van Gogh!
Não há dúvida de que são as emoções que nos comandam e determinam a nossas reacções.
Há mesmo alguns autores que defendem que nós temos mais do que uma personalidade. Talvez seja por isso que não é pacífico defender se os diferentes Pessoas são heterónimos, ortónimos ou até pseudónimos. Se bem que não venha aqui ao caso tratar esta temática em profundidade, não deixa de ser relevante que, em regra, quase toda a gente afirma que encontra diferenças entre o que é e o que gostava de ser. Há sempre ícones que são directrizes e cuja imitação se torna para o ser humano um desiderato sempre incumprido mas sempre referencial: ser inocente como uma criança, ser puro como Cristo, ser futebolista como Eusébio, ser cantor como Springsteen, ser engatatão como Casanova, ser inteligente como Einstein, ser revolucionário como Mandela ou Gandhi, sei lá... ser como o ídolo. Sempre vos digo que a palavra "IDOLO"  vem do grego e significa na sua origem, EIDOLON -  aquele desvelo que Heidegger sempre propunha para entendermos o que as palavras querem dizer,- significa, dizia, sombra, imagem, parecença. Não está longe, se repararmos bem, de uma outra, EIDOS cujo significado não é outro senão IDEIA. As ideias são assim, algo que ainda não existe materialmente mas cuja realidade é indiscutível, pois é em função dos nossos IDEAIS que pautamos grande parte da nossa vida. Desde cedo se defendeu que o ser humano é um insatisfeito e que sempre pugnou por se transcender a si mesmo num incontido desejo de ir mais além. Foi este apego à descoberta, à novidade, à ruptura com o estabelecido que fez andar a humanidade e nos possibilita um progresso cada vez mais acelerado, a ponto de o presente passar num ápice a pré história. Há sempre um diferencial entre o que somos e o que gostaríamos de ser ou ter sido, entre o que temos e o que gostávamos de ter. Por isso labutamos na vida, projectando sempre, antecipando o futuro, querendo mais do que o que podemos.
Deixamo-nos continuamente ofuscar, deslumbrar , extasiar com os nossos almejos que não reparamos na realidade à nossa frente e, por isso, perdemos inúmeras oportunidades de sermos muito mais do que somos porque queremos demais. Somos mesmo uns babancas.Tão espertos queremos ser e tão pavões nos avaliamos que deixamos que nos comam as papas na cabeça e nos façam o ninho atrás da orelha, só porque, distraídos com o enorme, esquecemos de reparar no pequeno pormenor que faria toda a diferença. É o absurdo humano.
Que me lembre, não foram muitos os movimentos de massas na aldeia xêndrica: a tomada de assalto das escolas primárias devolutas, as"guerras para decidir da manutenção da fonte na Lameira, do atascamento do Poço Novo, do estabelecimento do horário de trabalho e da jorna para os trabalhadores agrários, a defesa da igualdade de salário entre homens e mulheres nos trabalhos agrícolas e pouco mais. Fiz parte de algumas destas movimentações e contribuí para muitas das conquista de então. Adiante.
Foi depois de uma dessas acções colectivas, chamadas de movimentos de massas, que se chega a mim o Estanqueiro, nessa altura já GNR em Medelim e me pergunta: "Sabes qual é o mais belo movimento feminino, oh rapa a unha?» E eu: "É o movimento pela emancipação da mulher!" e o Estanqueiro: "O mais belo movimento feminino é o da anca! És mesmo um babanca!"
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIII GRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDEE

sábado, abril 07, 2012

ALVÍSSARAS



Não sei se também foi lá que a Brigada recolheu estas ALVÍSSARAS, mas foi em Aldeia de João Pires que eu as ouvi. À semelhança de muitas outras terras por esse país fora, a terra dos cucos é rica, provavelmente a mais abastada aqui à volta da Baságueda, nas tradições quaresmais e pascais, algumas delas com características únicas, como a ladainha dos homens (todas as sextas feiras da quaresma) e a ladainha das mulheres (apenas na quinta feira santa).

No sábado de aleluia, ALVÍSSARAS.

terça-feira, março 13, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXVII - BURRANCANA

Se há animal em que a performance não condiz com o nome, sem dúvida, esse é o burro. Já vos trouxe aqui alguns dos mais famosos asininos da família xêndrica. Perdoareis, todavia, que "ressuscite" alguns - ou não estivéssemos nós perto da festa do anho pascal - !
Começo pela famosa burra do velho Freitas a quem só  faltava falar, pois, garantia ele, se fosse à escola e fosse dotada de mãos, escreveria como nenhum estudante; depois, o ultra burro do Zé Luís Barata, de nome o ESTUDANTE a quem não era preciso guiar na lavra, aguilhão para se acostar fosse ao tiro do carro em que fazia parelha com uma vitela turina - a BONECA -, fosse aos varais da carroça, fosse à tracção do arado ou charrua... Nunca precisava de guia e bastava que alguém estivesse na ponta da torna e lhe mudasse a aiveca que ele se encarregava de trazer o rego sempre a direito até à outra extrema; a um assobio parava, a dois arrancava, sempre em marha certa, sem esticões; a ti Lurdes só lhe dizia: ENCOSTA!  e ele ajustava ao baturel onde ela estava, bastando que se deixasse cair para cima da albarda para ficar montada e guiava-o sem esforço apenas com pequenos toques de rédea; não comia fora do pasto e nunca roeu nada para além dos cômoros das propriedades de Zé Luís; sabia de cor os caminhos  dos terrenos, bastando, tão só, que o "enregueirassem" como dizia Zé Luís que, muitas vezes, quer com a bácora no corpo, quer de noite e ele se dormisse, sempre o conduzia ao destino sem se enganar; manso como a terra, era o que se podia chamar um burrancana! Mas, havia mais: o burro inteiro da Ti Conceição Pires do João Rela, pequeno e verguio, com uma pujança de alto lá com o chouriço: cobria tudo quanto fosse burra saída! A este propósito perguntou-me um dia aquele que alguns chamavam de burrancana  -João Feijão - : "Sabes quando é que uma burra anda saída? " E eu « Não!» E vai o Feijão: " Olha que o burro sabe! "
A minha avó materna tinha uma burra que era qualquer coisa de invulgar: ia de aldeia ao Sabugal por montes e vales a passar ali ao Salgueirinho, pela serra da Malcata e a velhota ia atrás arreatada ao atafal da albarda e dormia a andar sempre ao ritmo da burra que a levava, a ela e aos figos secos, às barras de sabão, às dúzias de ovos e a uns quilos de toucinho februdo até ao mercado! um espanto!Conhecia-me na perfeição e fazia o que eu lhe ordenasse. Também ninguém a tratava como eu que a desaguava sempre com umas águas de farelo que ela sorvia até à última gota.
Enfim... paremos com a enumeração explicativa, mas muitos mais podiam vir aqui à liça,: o calmeirão do Alberto Rogante, a pachorrenta do Jaime Pexogo, o esquivo do Calça Defuntos, sei lá! tantos!
Bem... do que não restam dúvidas é que o mais burro de todos os animais somos nós mesmos: os seres humanos. Ufanamo-nos de ser o Rei dos animais, de estarmos no topo da pirâmide hierárquica, mas basta ver  as  burrices que vamos cometendo. Deixo-vos a mor delas todas: é muito mais barato um milénio de paz do que um dia de guerra! E que fazemos nós?! andamos sempre aos tiros uns aos outros. Não que fale apenas das guerras inter ou intra povos, não!  É o marido e a mulher, o aluno e o professor, estes, uns com os outros, aqueles, idem, o peão contra o condutor e este contra todos num buzinar desenfreado, até aqueles que deviam dar o exemplo, os que pregam o bem contra o mal, vestem-se de fundamentalismos inqualificáveis e em NOME DE DEUS autorizam-se a tudo! Isto sim que é burrice!
Não é possível, menos ainda no âmbito do BASA esgotar as definições que ao longo dos tempos foram sendo dadas de HOMEM! A mais clássica e quiçá mais expandida é a de Aristóteles: o homem é um animal racional! Já antes Platão tinha dito que era um bípede sem plumas e apanhou com o cínico Diógenes que lhe apresentou uma galinha depenada e gritou: eis o bípede sem plumas! - o homem! Mais contemporaneamente  Roland Barthes acentua a mitomania do homem, como já antes a história o tinha definido como faber, erectus, sapiens, ou Goldeman corroborado por Damásio destruindo o dualismo antropológico Pitagórico/ Platónico e depois cristão e mais ainda cartesiano, quando se detêm: o homem é um ser eminentemente emocional!
Daí a sua falibilidade: reage ao instante!  É mesmo burro! Sem ofensa para os referidos!
Aqueles que mais eco fizeram dos chamados impulsos vitais, Nietzsche primeiro e depois Freud, foram proscritos, escorraçados, castrados, expulsos, dados como loucos... A verdade às vezes é dura de ouvir!
Só que eles não foram burrancanas: ousaram propagar aos sete ventos que o que nos rege são os mais primários impulsos, pulsões, forças primárias - alguns chamam-lhes mesmo instintos! -  e que o nosso prazer e a nossa salvação não está num sofrer neste mundo para alcançarmos a beatitude num outro mundo prometido por aqueles que sempre tiveram o mandarinto do poder e habilmente foram moldando as mentes para aceitarem com coragem o sofrimento, confundindo o que é cobardia com capacidade de sofrer estoicamente as agruras da vida. Quão fácil é confundir humildade com subserviência e rebeldia com atavismo cobarde! Burrancanas!
Acompanho João de Sousa Monteiro  em " Tire a Mãe da Boca" e no segundo volume "Tabu, Príncipe dos Cágados de Fraldas ao Vento Ladra às Portas do Futuro" ( publicados na Assírio e Alvim) quando diz que somos pouco mais que uma bola de sebo, de unto e de ranho: vemos os males dos outros e não vemos os hitleres, os mussolinis, os átilas, os bush, e afins que estão dentro de nós mesmos!
O que mais queremos é que os outros sejam mesmo uns burrancanas para nos montarmos neles e, de esporas no estribo colado ao calcanhar, os aferroarmos e obrigarmos a ir para onde nós decidirmos que eles devem ir!
Somos mesmo muito lindos não somos? Umas bestas é o que somos! Mainada1
Vamos lá ver se não nos deixamos montar como os burrancanas e se nos revestimos da metamorfose de Nietzsche que nos aconselha a alijar os valores caducos de uma ideologia dominante e avivamos os valores da vida, aqueles que nos fazem ser nós, sem termos que nos sujeitar apenas ao ter.
Um dia destes volto aqui. Por hoje chega.
XXXXXXIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAANNNNNNNNNDDDDDDDEEEEEEE