terça-feira, junho 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXVI - DEITAR

No domingo transacto fiz questão de me incluir na minoria que dá valor à forma mais formal de participação em democracia e lá fui deitar.

Esgotadas que estão 3 décadas de democracia, as assembleias de voto já se civilizaram, já não têm a animação dos primeiros tempos em que o povo experimentava a novidade do voto livre. Nos primórdios, em pleno PREC, a aprendizagem democrática também se fazia à custa de alguns conflitos, o que tornava o ambiente mais interessante e animado para quem gratuitamente se prestava a passar o dia a lamber folhas de papel à procura do nome do eleitor que não tinha cartão.

Estávamos em 1976, a caminho do solstício do Inverno e o povo ainda estava hesitante na avaliação da nova estética urbana imposta por uma novidade a que chamaram campanha eleitoral e que consistia em tapar todas as paredes com cartazes de vários tamanhos a preto e branco, alguns com a cara dos candidatos à presidência da Câmara, outros só com o "Vota **". Pouco faltava para as urnas encerrarem quando à assembleia de voto chegou João Meioquartilho, nariz rosado e a fungar, chapéu levantado à frente tornando bem visíveis as profundas rugas que o sol e a vida dura do campo lhe tinham desenhado na testa, já entornado, como era habitual todos os domingos, com o bandulho a abarrotar de morangueiro do Cavalheiro. Entrou determinado na sala e anunciou bem alto:

- Olhér lá! Ê quero dêtar p'ó Karraio (faz de conta). Ond'é quê dêto?

O Presidente da Mesa, Amândio Basófias, aposentado como sargento-mor do Exército, conhecedor das regras e disposto a fazê-las cumprir, apressou-se a informar o Meioquartilho que o voto era secreto e que não era permitido que ele revelasse o seu sentido de voto.

- Ai não? Atão mas estamos em liberdade ó no estamos, hein? Atão agora já no se pode falar à vontade outra vez? Já no bastou esse bandido do Salazar? Hein? Atão mas qu'a raio! Ê quero dêtar p'ó Karraio (faz de conta) porque me pagou 3 meiosquartilhos naquilo do Cavalhêro e p'a mai nenhum cabrão que no me pagou nada.

Autoritário, Amândio Basófias decretou que o Meioquartilho não estava em condições de exercer o direito de voto e determinou a sua expulsão da assembleia de voto. O delegado da lista do Karraio (faz de conta) opõs-se de imediato com o argumento de que o voto era um direito e o basófias não tinha o direito de impedir o eleitor Meioquartilho de o exercer, passando de imediato a contar com o desacordo dos outros delegados que se puseram ao lado do Presidente da Mesa. No meio do rebuliço que se gerou, o Meioquartilho, à rasca para esvaziar (outra vez) a bexiga, achou por bem retirar-se do debate, não sem antes vociferar:
- Ai no me dêxandeis dêtar p'ó Karraio (faz de conta)? Atão tamém no dêto p'a mai nanhum.


domingo, maio 31, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXV - PARRANÇO

Muitas são as expressões populares para designar barriga cheia: bandulho, papo, blusa, camisa, tripa (tudo CHEIO) mas esta de parranço é uma das mais frequentes na zona da raia.
Por tradição e até cultura - convém dizer que a tradição é um dos elementos da cultura - o português é bicho para enfardar o que quer que seja, desde que seja muito, não se preocupando muito com a estética do prato. Aquelas novas modas da cozinha contemporânea em que são mais os riscos a borrar o prato do que o entulho comestível não casam muito com o lusitano vero. Nem que sejam azeitonas com batatas cozidas com casca (mas descascadas à hora) é preciso é que se encha o papo. A sensação de fartura é algo predominante na cultura portuguesa. A comer, os portugueses gostam sempre de MUITO. Se for BOM, ajuda, mas não é indispensável. Se houver fome, então, até pão e navalha como conduto chegam... mas que haja pão. Não se passe como na malha do velho Elias em que a Rouca perguntou ao Estronca Brochas: "atão o pão chegou?" e ele:« foi o pão a acabar e as navalhas a fechar».
Já nos tempos dos reis, mormente D. Dinis, esse esposo infiel da Rainha Santa, havia o direito de comedura: por onde quer que passassem os reis tinham por direito de suserania a posse de todos os haveres das terras, para si e seu séquito, até mesmo das mulheres. Não admira que os reis tivessem tantos filhos bastardos. Como sói dizer-se: «É fartar vilanagem». Até mesmo quando sob o domínio filipino e antes, na crise de 1383-85, Tomás Ribeiro em D. Jaime propalava: «Portugal é lauta boda onde come a Espanha toda».
A afirmação: deus criou o homem (independentemente da falacidade) e o português criou o mulato" já nesta altura era visível...
Voltemos ao D.Dinis: Oh Damas por quem me aflijo / oxalá vós consintais/ que eu introduza por onde mijo/ onde, por onde vós mijais. Esta lubricidade tem a ver com o parranço cheio: onde quer que vão - e foram a todo o lado - sempre a genética lusa deixou marcas: «para ficar completo tem que se deixar aqui semente.» E se eles deixaram! provavelmete será dos povos que mais genes espalhou. Não bastava encherem a barriga deles, tinham que encher a barriga às mulheres. Má bicharada esta, a Lusitana!
A lubricidade desta gente é tal que nem os santos, mesmo os mais populares, se escapam à brejeirice da versejação: em Amarante, por exemplo, o próprio bolo (espécie de cavaca de diferentes tamanhos - O S. Gonçalinho (vai lá vai, a ajuizar pelo tamanho), tem a forma de um falo e é frequentemente invocado, até mais pelas mulheres do que pelos homens para que a eles nunca lhes falte a virilidade do pastor amarantino : "S Gonçalo de Amarante/ casai-me que bem podeis/ Já tenho teias de aranha/ no sítio que vós sabeis", e nem o Senhor de Matosinhos se escapa «Oh senhor de Matosinhos /que estais virados para vila /virai-vos pró outro lado /que vos bate o sol na pila. ».
Dê a volta que der ,a conversa entre lusitanos vai sempre a parar ao mesmo sítio: aos genitais. Mainada!
Entre os xendros houve verguios que espalharam semente comédado: o meu avô materno - que já não conheci - , embora de duas mulheres, deixou dezasseis filhos. Valente! Encheu bem o parranço. Só morreu um, de pequeno, com o que na altura se chamava o garrotilho-
difteria, para os entendidos- julgo -.
Ora vamos à estória: coiote pete, toco jabão, brutamontes, jabão pitincouro, albardinhas bertcho, teixeirinha, velho ourives e, claro, eu, na padaria do dito albardinhas, quando era ainda no Outeiro, perto do Domingos Molhano, fomos mamar uma coelha prenha que coiote tinha roubado ao Domingos Refe ali para o caminho da lomba: apalpou e o que lhe pareceu maior é que trouxe.... calhou coelha... A fome não escolhe qualidade e o parranço estava oco e pronto ... Toca com a coelha para a caçola, temperada como mandavam as regras, batatinha nova para outra caçola e ala! dentro do forno da padaria, antes da fornada que pitincouro batia assim mesmo comédado. Caçolas tapadas com telho de alumínio, fiscalização atenta, sueca a matar tempo, tinto a escorrer com chouriça gamada por coiote pete à mãe, e mal aquilo estava engrolado toca a encher a blusa que a hora era tardia, pitincouro tinha o pão finto e estava tudo com a galga. A coelha era enorme, comeu-se à grande e sobrou batata que nem vos conto... Sobrou? Toco Jabão aposta com teixeirinha e emborcou o resto do batatal. Nem uma que ficou.
Mamamos todos gambas na Rosa à conta do teixeirinha. Enchemos mesmo o parranço e a história revivida do batatal papado por Toco Jabão.
Outros tempos outros hábitos .
XXXXXXXIIIIIIIIII GGGGGGGGRRAAANNNNNNNNNNDDDDDEEEEEEEEEE.

quarta-feira, maio 20, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXIV - ARANCUM

Devo começar por fazer uma declaração: este termo era a minha tábua de salvação quando não me ocorresse uma história. Nunca pensei, à partida, que ele fosse motivo de tanta vitalidade aqui no baságueda.
Esclareçamos: o arancum é o pirilampo, que à letra quer dizer luz no cu (arancum) ou luz de fogo (pirilampo). O árabe e o grego mais uma vez patenteiam as suas influências na lusa língua. O que deve ter acontecido ao Pratitamen é que, com certeza, foi picado por alguma urtiga, quando andava aos pirilampos. O bicho é pacífico e a luz é apenas um chamariz para as suas amadas virem para junto dele e passarem um bocado no bem bom.
Havia mesmo muitos nas guardas da ponte.
Em honra ao arancum hoje não vos vou escrever uma história mas vou partilhar convosco dois textos que considero com mérito para figurarem no baságueda e que merecem mais luz do que a que produz o traseiro da nossa vedeta de hoje.
O primeiro texto teve que ser transcrito, mas obedece em rigor ao que D. Tancredo escreveu. Permiti-me que chame a a tenção para a data :1934.
O segundo é obra deste escriba que, de quando em vez divaga devagar e divagando d e v a g a r i n h o vai assim como que de vaga em vaga, vagando por onde calha e cismando sem querer criar qualquer cisma ,brinca a sério com a futilidade do importante e com a importância do fútil. No fim tudo é a mesma coisa tal como o tudo que não pode conter tudo porque se contivese tudo teria que se conter a si mesmo e ao nada; ora se contivesse o nada negar-se-ia em absoluto porque o nada é absorvente e assim o tudo tornava-se nada e o nada ,tudo. O melhor é que continuem a existir os dois: o tudo como a incompletude do todo e o nada como o vazio cheio do que lá pusermos.
Perguntaram-me uma vez o que era o nada e a resposta que na altura me ocorreu foi a mesma que hoje aqui vos deixo: o nada é uma faca sem cabo e sem lâmina. Os conceitos têm lá porras, não têm, como diria o meu amigo Lameiras de boa memória. Nada é absoluto, nem esta afirmação, tal como dizer que tudo é relativo é em si mesmo a antítese porque se auto nega.
Bom, vamos aos textos:

Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura


Exposição


Porque julgámos digna de registo,
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslise
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor! Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até a fralda da camisa.

Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca.
_A matéria, em questão, chama-se cáca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.

E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
Venha até nós!...

Solicito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado
e,… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhes os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
…quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
num traque do Ministério das Finanças?...
E quem viver aflito, sem recursos,
já não distingue, os traques, dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos nelas.

Precisámos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

…Adubos de potassa?... Cal?!...Azote!?!...
Tragam-nos merda pura, do bispote!

E todos os penícos portugueses
durante, pelo menos, uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras núas,
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

……………………………………………………………

Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...

Como é triste saber que todos vós
andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com sultura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas, à vontade,
não faremos questão de qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena pôia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.


Évora, 13 de Fevereiro de 1934

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo


O Presidente

Dom Tancredo (O Lavrador)



II







O PONTO ESTÉTICO

O ponto tudo inicia e tudo acaba. Para tudo, ou quase tudo, há um ponto de partida e um ponto de chegada.
Ao longo da nossa vida andamos sempre à procura do nosso ponto:
A criança aproxima o livro o idoso afasta o texto…
O ponto é o elemento da recta, que mais não é que a sua infinitude e se fecharmos a recta, o ponto transforma-se em plano, já com superfície definida; não se esgota aqui o ponto, afinal, o volume é ainda a tridimensionalidade do ponto.
Ocupamos, depois, um ponto no espaço, e o espaço está cheio de pontos: uns vazios, outros cheios, uns próximos outros longínquos: que é a Terra, afinal senão um minúsculo ponto no seio do Universo?
Este mesmo Universo começou por ser um ponto grande que, grávido de energia, explodiu e preencheu o que vemos e o que não vemos, dispersando-se por infinitos pontos.
É ainda o ponto que procuramos quando pretendemos a perfeição: a comida está óptima, quando estão no ponto, a confecção, o sal, a apresentação…
A verdade e a mentira são pontos de vista e a afinação dos instrumentos tem um ponto exacto; acertamos a nossa vida pelo ponto certo e quando queremos argumentar e contra-argumentar asseveramos que é aí mesmo, ou não, que bate o ponto.
A meta é um ponto de mira como o alvo e até os nossos desejos mais íntimos almejam alcançar um qualquer ponto. O nosso ponto.
É assim o artista: tudo começa num ponto, seja a primeira nota de uma sinfonia ou o primeiro risco de uma pintura, a primeira cinzelada na pedra da escultura, o primeiro corte na madeira da imagem, a primeira letra de um romance e é porque algo toca ao nosso ponto sensível que se torna significativo para nós. A adesão ou a repulsa e o afastamento do que sentimos mais não são que pontos da nossa sensibilidade.
Mais que sensação, que é bruta, a estética é sensibilidade, é percepção, porque inteligente.
A arte gravita no mundo da emoção e portanto não tem ponto fixo, não tem regra, não precisa de ponto geométrico.
Arte é imaginação, criatividade, ponto fora do plano e por esse ponto tudo pode passar.
O ponto é, assim, a encruzilhada do infinito. O infinito reduz-se a um ponto.
O ponto é a perfeição, por isso o colocamos apenas no fim.
O ponto não ocupa qualquer lugar.
O ponto para estar no ponto tem que estar no ponto certo.
Só quando tudo está acabado é que dizemos: ponto final!
Quando temos lacunas mnésicas é que mais apreciamos o valor do ponto: como no teatro, quem safa o actor é o ponto.
Até há pessoas que são mesmo um ponto.
Parece então que não há só um ponto, tantos são os pontos.
Chegamos a um ponto em que já não se tornava aconselhável continuar …
Os melhores pontos são os que têm nós. mas um ponto assim fecha-se, não produz, não gera.
O melhor então é juntarmos dois pontos, ou então, porque não, um ponto e uma vírgula: quem sabe se do acasalamento não nascem reticências?
Não se dê, então, ponto mas sele-se com uma laçada.
Pode ser que um dia deslacemos o laço e que o ponto sem nó venha até nós com novos pontos …
A isto chamo eu Pontaria. ....

Queria finalmente pegar no ponto que o nosso amigo Chanesco nos deixou : Salamanca , salamanca, uns sara outros desanca.
O poeta latino Marcial, já tardio na literatura latina,sendo mesmo já por muitos considerado como um escritor do que se convencionou apelidar de baibo latim, que viveu em Sagunto ( hoje mais ou menos Barcelona) relata mesmo os poderes da salamanca=salamandra: se queres mal a alguém passa-lhe uma salamanca pelo chapéu e verás como de repente fica careca. Com cedrteza que dama que fosse alvo de uma vingança destas nunca poderia ser a vedeta do poema de Nicolau Tolentino que Almeida que lembra a esquisita circunstância de, por tanto querer andar na moda, a uma senhora da alta, um dia num banquete, perante o espanto geral, lhe sai um colchão de dentro do toucado.
Os répteis(neste caso um batráquio) curam se deles fizermos canja ou podem matar se nos deixarmos morder por eles.
Atenção que não falam nem metem barulho mas vão a todo o lado. Há por aí muita salamanca: andai com o olho aberto, não vos desanque por estardes distraídos.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiiiiii GRANDE!

domingo, maio 10, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXIII - SALAMANCA

Ñão, não me refiro à cidade da vizinha Espanha, hoje muito frequentada por estudantes portugueses. E não só. A salamanca é a nossa salamandra, esse anfíbio lento até porque não precisa de ser rápido já que as suas manchas amarelas são sinalética para o resto da bicharada. A sua ossatura possui um dos mais poderosos venenos. O seu predador somos nós.

Já por mais de uma vez vos falei aqui da lei do menor esforço.... Já reparastes no esforço que a palavra salamandra exige? Quanto mais fácil não é salamanca, mais a mais para um raiano! Vai lá vai!
Experiência fiz eu um dia: uma salamanca, na sua pachorrentice caminhava lentamente pela caruma húmida do lagar da lameira. Tinha ouvido dizer que, mesmo que a metêssemos no lume, ela lançava um líquido que apagava as brasas à sua passagem e assim ela se safava. Garoto é garoto, a curiosidade desperta o engenho e aí vou eu: arranjei uma chapa de lata, com um galho empurrei a salamanca para cima dele e entro no lagar. O Tonho Mota viu e vociferou que não queria ali o bicho, que podia passar por cima da roupa e depois apanhavam um cobrão que se unisse a cabeça ao rabo era a morte do artista. "Tenha calma ti Tonho já a torno a pôr na rua." Sento-me no tropesso e empurro a salamanca para o borralho da caldeira, mas não sei que volta se me dá na consciência que depressa a tirei, mas o facto é que a mirei e não vi queimadura. Fiquei sem saber bem a verdade da teoria, mas não estou arrependido. O bicho tinha tanto direito à vida como eu.
Voltei a trazê-la para a caruma quando o João Feijão vinha a entrar com o João Tramoço e o Tapa Poleiros, entretanto já falecido.
Os lagareiros tinham acabado de escaldar a massa , as ceiras já estavam bem apertadas pela vara e pedra do fuso, pelo que também vieram até junto do borralho e conta o Tramoço:"aqui o Feijão perdeu o cão e a raposa foi logo lá à capoeira e mamou-lhe uma galinha. Vá lá que ele ouviu e se alevantou logo, cossenão via-as ir"; e o Feijão: «Foi, poi, foi mesmo assim... aqui o Tapa disse-me que o ti Zé Lopes tinha lá um cachorro pra dar e eu ficava-lhe com ele.»
Zé Lopes "levas o cachorro mas tens que trazer cinco litros, duas latas de atum e um pão de mistura." . O negócio fechou-se ali mesmo.
Já se iam quando eu me saio: «Oh Feijão, sabes o que fazes para no tornares a perder os cães? Hoje à noite vens aqui às guardas da ponte e apanhas uma mão cheia de arancuns pra dentro duma caixa de palitos e quando chegares à sorte da saramaga, vais ao pé da vossa burra e caças umas quantas pulgas e mete-as também na caixa dos palitos, mas no deixes fugir os arancuns. Aventa lá pra dentro uma pele dum chouriço para eles comerem e ao fim duma semana deitas tudo pra cima do cachorro." O Tapa rosnou: "vai mas é a gozar com quem te fez as orelhas" Aí entra o Tonho Mota: "é verdade poi então; o Chquim da Senhora lá na Mata da Rainha sabe sempre onde anda o Barbaças por causa disso". Tonho Lopes, irmão de Zé e cunhado de Chquim da Senhora: « o mê cunhado já me falou nisso uma vez, já. Diz que o cahorro alumia e que parece daquelas bichas de rabio que se botam na roda do São João. Nem os lobos lá aparecem que o cachorro deixa-os malucos»
Perante tal argumentação e para completar a missa Zé Lopes:"Vai à minha que te dê o cachorro e o vinho logo o trazes quando voltares ao povo". Ficaram os três meio tarantas e eu piquei:« é assim mesmo: as pulgas andam sempre aos saltos, mas como foram infectadas pelos arancuns alumiam e assim o cão é uma espécie de candeeiro a andar. Vais a ver que a raposa nunca mai lá torna. É limpinho! e tu, mesmo de noite, sabes sempre onde pára o cachorro, porque ele alumia."
Lá foram.
Ficamos os quatro a rir e o Mota:" tu és tchapado: há bocado querias que a salamanca deitasse água para apagar o borralho e agora espetas esta ao Feijão... És tchapado."
A verdade é que o Feijão lá andou a apanhar os arancuns nas guardas da ponte...
Guardai-vos vós de quem vos infecta. Vai lá vai!
As eleições vêm aí... cuidado com as enxertias.



XXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII.

sábado, abril 18, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXII - LAMBARÃO

A língua comprida não é a das girafas que, com arte conseguem evitar os aguçados picos das acácias nem a dos répteis, tipo varano que cheiram o habitat em busca de presa,... Não. A língua comprida é nossa. Não é por acaso o ditado popular: "temos dois ouvidos e uma língua: é para ouvirmos o dobro e falar metade" ou estoutro:" o calado diz tudo"; ou este " quem diz o que não deve ouve o que não quer" ou mais prosaicamente: "mete a língua na caixa".
Não é raro que nos refiramos a uma pessoa e que a caracterizemos como um tagarela e consideramos isso a sua imagem de marca: "tem a língua comprida", asseveramos.
Razão têm os chineses quando sentenciam: «como te atreves a pedir a uma pessoa que guarde um segredo se tu próprio não foste capaz de o guardar?».
Na Aldeia havia muito quem "esticasse o farrapo", e passasse horas a "dar ao lambarão."
Exemplo acabado do que vos digo, era, por exemplo a ti Tecla.
Cultivava um chão por detrás da igreja e morava a meio da barreira a caminho dos cucos quase em frente das escolas velhas. Eram quinhentos metros bem medidos. Demorava bem duas a três horas para chegar a casa. Então, se encontrava a Irene Paca no adro ou a Relochica no Batoco, carregadinha com o cesto de cogulo, especava-se a dar e receber coscuvilhice e até parecia que o cesto levava algodão em rama. Boato que lhe caísse na orelha era mais rápido a espalhar-se que fogo em pinhal no pino do Verão.
Marido de Tecla era o ti Mné Ferreiro, artista ímpar, multifacetado, relojoeiro, mecânico, ferrador, insuperável a meter aros em rodas de carroça ou carro de bois. Aquecia o aro em lume vivo de esteva e torga com hulha à mistura, deixava-o ao rubro e com tenazes que ele próprio concebera e fabricara, num ai ajustava o aro à estrutura da madeira, cravava-o com rebites que ele também fazia, arreganhava-o com água, pintava-o com breu, untava o eixo com breia e massa consistente e pronto aí estava o carro do Vigura ou do Geba pronto para mais uma safra, ou a carroça do Sarrabeco para transportar pinhos para fazer escadas desviados do pinhal do Chico Sarapião.
Dele eram a maioria dos relógios que davam as horas nas torres das igrejas.... Quantas vezes eu dei corda ao relógio, quantas vezes...? Contou-me que o trabalho maior não era calcular a proporção do número de dentes das rodas mas sim calcular o equilíbrio dos pesos das pedras das horas e dos minutos por forma a que marcassem certos os segundos. Construía relógios de bolso aproveitando peças de outros avariados. Um tive eu marca Combóio e outro da famosíssima Roskof.
Calmo, misantropo, não perdoava, fizesse chuva, vento, frio ou calor, quase ao fim da tarde, um passeio até aos bebedouros. Sempre sozinho, ia e vinha. Era capaz de estar uma semana calado e, se ninguém lhe falasse, ele nada dizia. Era até ele que os velhotes mandavam os garotos com a pedra de afiar as agulhas e ele, na sua calma e poucas palavras:" agora levas esta até que eu apronte a que trouxeste". Lá vinha o garoto outra vez carregado com um calhau embrulhado num jornal.
Era assim que se aprendia, com estes entreténs de aldeia.
Como se vê era um casal perfeito: ele era capaz de estar uma semana calado e ela era capaz de estar um dia inteiro a falar.
Bom, mas o nosso tema era o lambarão...
Campeões nesta arte são os caçadores. Quando a caçada corria bem ou, sempre, no início da época, havia rês para o tacho que a Rosa cozinhava e para o qual eu, inevitavelmente, era sempre convidado.
Era lebre naquele dia. Melhor: duas lebres. Tinto do Reis Alguitarra e do Modas surripiado à socapa quase um alqueire de batatas e picante quanto baste, ambiente aconchegado todos empinados à volta do barranhão. As histórias iam surgindo e lá vinha aquela do coelho que saíu do roto e levou cinco foguetes e ninguém lhe acertou ou a lebre que já se ia a passar o cômaro da reserva e foi ardulhada por um tiro certeiro ou a perdiz que quase cagou na cabeça do Mnel Faustino e a errou,... todos tinham que contar...
Agora o lambarão era bem esticado quando se tratava de gabar os cães!
Naquela noite havia um convidado especial, alentejano, homem de pouca fala, cordato, e com um estilo inconfundível, metia farpas com propriedade e deixava todos a pensar. Um artista, o Alfredo Papa Arroz.
Chquim Pardalim e Coiote Pete começaram a altear a voz e já se sentia algum azedume na ralhação:
"Num querias tu mainada do que o teu Ruço fosse melhor có meu Cara Linda. Só te digo meu babanca, qués um babanca, que uma vez fui caçar pró Alentejo, ali pra perto do Paparroz e o sacana do cão não apareceu. Mas cá chegou passados dois dias só plo cheiro do gasóleo da carrinha. Isto é qué ter faro, meu babanca"
Digo pró Paparroz: " porra, ó Papa esta é valente"e comecei «Arregaça, arregaça a calça» e pus-me a puxar as calças pra cima quando Pardalim levanta a voz:
«Cale-se, seu bebágua, seu borra botas, tu já num talembras do que se passou quando o ano passado fomos além prá raia ao pé do ribeiro Torto e salevanta uma perdiz longe como um corno e lhe despacho um foguete e ela vai cair dasa já em Espanha, já num talembras, mas eu lembro-me bem : O Ruço foi por ela e apareceu ao outro dia de manhã com ela na boca e tu bem viste que não lhe tocou e estava cheiinho de fome. Isto é que é um animal.»
Já se ia comendo na lebre e cinco litros já tinham voado quando o Paparroz, despeja dum gole o copo do vinho, espeta um moço no garfo, poisa-o no barranhão ( o moço obrigava a que ninguém pudesse tocar na comida até que quem o lá pusera o tirasse, sob pena de pagar a despesa da noite) e se sai com esta:
- "Cão, cão, era o meu Patolas: um dia cheguei-lhe ao nariz umas cuecas da minha mulher e cinco minutos depois aparece-me com a tarecada do vizinho na boca"!
Eu respinguei tudo à volta, todos começaram a estalar os dedos e Coiote e Pardalim: "tira mas é o moço do barranhão cóssenão a comida arrefece."
Nunca estiqueis demais o lambarão que pode haver quem vos espete uma farpa bem metida.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIII GRANDDDDDDDDDDDDDEE

segunda-feira, abril 06, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXI - CABRUNCO ou CARBUNCO

Há datas, objectos, pessoas, situações que ocorrem ao longo da nossa vida que nunca mais esquecemos. Não podemos reviver o dia do nascimento, mas não esquecemos a data, ainda que ela não seja real. Muitos dos que me lêem sabem que, nas aldeias ,era costume o representante do Registo Civil ir apenas a espaços à vila e era nessa altura que registava os nascimentos , os óbitos e outros assentos. Se a data da morte não podia ser adiada, já a do nascimento, essa, podia sofrer aproximações, até mesmo algumas conveniências, como a seguir se explica: O limite máximo para que uma pessoa pudesse ser registado estava de acordo com o livro único de assentos. Deste modo uma criança, nascida a vinte de Abril, não podia ser registada depois de uma outra que, por hipótese, tivesse nascido a vinte e sete e os progenitores a tivessem registado à hora. Por isso , só havia uma hipótese: era registar a criança nascida a vinte como se tivesse nascido no dia vinte e oito. O curioso é que é esta data que passa a vigorar. O mesmo se passa com o casamento pela igreja: o que vale perante a cidadania é a data da convenção nupcial, mas a que é festejada é a da ida à Igreja. Muitas outras circunstâncias se passam ao longo da nossa vida em que a realidade real e a oficial são distintas.
Quantos de nós não damos por nós a protestar com o tempo do nosso nascimento. Ora quereríamos ter nascido antes e podia ter acontecido que muito do que hoje nos acontece estivesse lixiviado: pessoas, objectos situações, reacções, .... Ou ao contrário: queríamos ter nascido depois, ser mais novos, porque foi com tristeza que encontramos alguém ou alguma coisa que desejaríamos ter como nossa, mas é agora impossível ou até desaconselhável. Quantas vezes damos por nós a amaldiçoar o NOSSO tempo e a berrar para as paredes: Mal empregada! fora eu uns trinta anos mais novo e depressa me ajeitava com ela. Não me escapava, era limpinho...
Criamos mesmo ideais de fantasia, mundos de convivência impossíveis, sistema de relações irresponsáveis. Enfim, consideramo-nos uns azarentos.
Verdade insofismável é que essa pessoa que tanto nos diz, deixou marca indelével na nossa mente. São circunstâncias, objectos, outras pessoas, conversas, que sei eu, que esporadicamente nos acicatam a memória e nos deixam a sangrar.
A história dos amores frustrados é rica de exemplos...
Foi assim que no fim de semana passado se me depararam pessoas e acasos circunstanciais que me avivaram outras pessoas, outros tempos,...
Pessoa inesquecível das gentes de aldeia do meu tempo foi o senhor Joaquim Vicente. Barbeiro por baixo da casa do clube, veterinário, enfermeiro, curandeiro, sabichão, consultor das mais variadas necessidades. A ele se recorria por quase tudo e para quase tudo. A mim me lembro eu que me curou um nascido que tinha muito perto das partes fracas . Foi um castigo porque eu não queria nada daquilo: tinha que aguentar umas papas de linhaça bem quentes, metidas numa bolsa de enxofre Flor, alva quanto podia ser, ou não fora lavada por minha mãe que as guardava para embrulhar os presuntos, quando em Maio, os tirava da salgadeira e os levava para o forro a secar antes de os barrar com o colorau por mor da mosca vareja.
Era respeitado como poucos e a sua nomeada esticava-se quase como a da Sra da Póvoa. Homem de andar lento, nem gordo nem magro, cuidadoso no arrear, impecável na sua bata branca, mais parecia professora debutante, ou médico em hospital público, especialista no afio da navalha, artista no corte do cabelo, ponderado na sentença, avisado nos conhecimentos, respeitado na competência. Morreu cedo. Custodinha, a viúva, e Carlos o filho único, grande repórter da R.T.P., assassinado por ciúmes injustificados, eram benquistos enquanto por cá andaram e ainda hoje referenciados. Três netos prolongam a sua imortalidade, para além, é claro, deste trecho do Baságueda.
A cena mais pungente a que assisti foi a da queima de um carbunco.
O velho Gramacho tinha a face direita em chaga viva e ferida a alastrar. Era um carbúnculo, ou carbunco.
Quando era garoto por causa de ter sempre os ferros do espeta bem aguçados, oferecia-me ao ti David, ferreiro, ferrador e curador de cobrões, para lhe tocar o fole, em marcha certa para atiçar a hulha que lhe permitia tratar o ferro na bigorna a poder de martelada certeira, calma e pausada com o martelão. Estava eu naquele movimento de vaivém dando vento ao carvão quando o senhor Joaquim Vicente, impecável na sua bata branca, chegou com o Gramacho. O velho sentou-se num banco quadrado, alto, mais escuro que o breu e um ferro inox com uma espécie de cubo na ponta é posto ao rubro na forja. O Gramacho é preparado: põem-lhe uma venda nos olhos, um meio cobertor em volta do pescoço a cair para as pernas, desinfectam-lhe a ferida com gaze e benzina, e de repente o cheiro a carne queimada invadiu o espaço. Gramacho deu um urro monumental, mas mão fortes impediram que se mexesse.
A cicatriz ficaria para sempre.
Assim as pessoas de quem gostamos mesmo. Estejam perto ou longe, contactemos ou não com elas, quando elas são para nós significativas, não há tempo que as apague da nossa memória.
Eu tenho gente assim. Pessoas que não esquecerei . Pessoas que vivem comigo.Portanto estão ao pé de mim e eu gosto de as sentir. Peço-lhes conselhos, confesso-lhes segredos, relembro situações em comum, rio-me de situações, e invoco-as amiúde. São outros eus e eu sou outro eles ou elas. E como a cicatriz do carbunco nunca vão desaparecer a não ser quando eu as levar comigo para onde nos levam a todos por muito que gostem de nós.
Não são muitas essas pessoas, mas há-as que são determinantes , que me deixam marcas como o ferro esbrazeado da queima do carbunco.
Lembrai as vossas que eu não esqueço as minhas.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRAAAANNNDEEEEEEEEEEEEEEE

segunda-feira, março 23, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXX - ATIDO

Nós, os do campo, da província, do mundo rural, aprendemos a encaixar com naturalidade a sobranceria dos urbanos. No que me toca, eu desenvolvi o truque do humor para lidar com as directas e indirectas que os meus camaradas de pelotão me atiravam, a mim, o único espécimen provindo desse Portugal longínquo que era a província. Ainda hoje sonho com a patuscada que se armava todos os domingos à noite na camarata, com pastéis de Belém comprados em Cascais, rissóis manhosos de uma tasca de Benfica ou croquetes rançosos de Cacilhas. Invariavelmente, a contribuição mais aguardada era o queijo (terrivelmente) mal cheiroso que eu levava. Já estavam atidos a ele. Deliciavam-se os citadinos com o ritual: eu estendia cuidadosamente o pano de cozinha, espremia a borracha espanhola apontada à goela durante 10 segundos, limpava os beiços à cota da mão, desnocava um bocado de bica de azeite, sacava da minha navalhinha de tachas pretas e, num ai, transformava a lua cheia em quarto minguante. Os urbanos camaradas d’armas, desajeitados a desnocar a bica e sem navalha, faziam fila. Mas, para terem direito à talhada do queijo, havia uma condição prévia: o tinto tinha que esguichar da borracha espanhola para o palato sem contacto labial. Raro era o metropolitano que não se engasgava ou não regava as ceroulas. Eu mostrava-lhes como se fazia e aproveitava para me vingar: “sois uns labregos”.

Nesses anos 80, a representação do rural era ainda a de um espaço com conotações negativas. Falar do rural ou do campo significava falar de um certo subdesenvolvimento, de atraso, de miséria, de trabalho duro, por comparação à cidade a que se associava a ideia de progresso, de abundância, de trabalho leve. Quantos à gentes, o senso comum citadino alimentou a imagem estereotipada da personagem que fala com o “s” sibilado (no caso das beiras), que chega à capital da nação desgrenhado, com o andar desengonçado de quem está mais habituado às irregularidades da terra lavrada do que ao piso liso de Santa Apolónia, às vezes sem bagagem mas com o inevitável palhinhas na mão.

O mundo vai dando as suas voltas e parece que quer as representações do espaço rural quer dos seus habitantes têm vindo a actualizar-se em articulação com a própria dinâmica da sociedade contemporânea. Ao espaço rural parecem competir agora novas funções, novos usos e mais diversificados, na medida em que tendencialmente ele parece estar a ser alvo de novas procuras que vão para além das tradicionais (fornecimento de produtos alimentares ou de mão de obra), como sejam as de espaço de lazer, segunda residência, descentralização produtiva, reserva ecológica, etc.

É claro que ao longo desse processo, o espaço rural viu decompor-se toda a sua estrutura social e económica bem como sofreu uma forte descaracterização na diversidade das suas culturas e tradições, subordinado à afirmação dominante do espaço urbano-industrial. Paradoxalmente (ou não), foi esta influência urbana que mais terá contribuído para invalidar em absoluto aquela imagem estereotipada, o que, no limite, suscita a questão se ainda existe rural.

As relações de sociabilidade entre os vizinhos que acompanhavam a vida uns dos outros foram boicotadas pelas telenovelas e reality shows (como é que isto se diz em português?) da TVI, a solidariedade intergeracional ficou irremediavelmente comprometida com o surto migratório e com a invenção dos lares de terceira idade, até a agricultura já não é a grande aliada do espaço rural, enfraquecida pelas regras de mercado ditadas pelas grandes superfícies, pelo abandono, e até pelo clima.

Quanto às “tradições” do mundo rural, são cada vez menos participadas pelos verdadeiros actores e mais por mirones infectados com o vírus urbano da perspectiva folclórica. A grande maioria das que são participadas e adquirem visibilidade, pouco ou nada têm a ver com o ritual original – veja-se o exemplo do madeiro de Penamacor, o “maior” do país. Os nostálgicos do bom velho mundo rural esforçam-se por continuar a alimentar a velha representação estereotipada de algo que já não existe.

Indiscutivelmente, deixou de fazer qualquer sentido falar do mundo rural em tom depreciativo conotando-o com subdesenvolvimento, atraso ou pobreza, o que indicia que provavelmente, ou estaremos perante uma nova noção de ruralidade ou, estaremos perante uma nova realidade para a qual será preciso inventar um novo conceito. Os geógrafos já lhes chamam, apropriadamente, “territórios de baixa densidade”, e não é apenas à dimensão demográfica que eles se referem. Os sociólogos vão argumentando que a nova “ruralidade” integrou uma dimensão simbólica que anteriormente era marginalizada, motivando assim novas práticas sociais, as quais, presume-se, se estão traduzir num acréscimo de procura da ruralidade, quer no sentido físico quer simbólico. Há uma socióloga que já fala em McRural, querendo com isto significar que essa procura se dirige a um mundo mais ou menos estilizado que ofereça, a um tempo, ambiente não poluído, paisagem colorida, natureza florida, campos pouco intervencionados, produtos típicos, e, se possível, algumas manifestações tradicionais e autóctones ostentatórios da sua identidade e da sua diferença. Não importa muito se estamos na Baságueda, nos montes Cantábricos, na Aquitânia ou na Toscânia, importa é que os requisitos se verifiquem, daí o McRural. O caminho lógico para combater a homogeneidade desta procura só pode residir na diferença da oferta. E aqui, a questão que se coloca é se essa diferença deverá assentar no mundo rural que parece, ou no mundo rural que é (ou quer ser). A problemática do mundo rural está prenha.

Seja como for, os tempos ajudaram a gastar a sobranceria dos urbanos, agora a lutar para ensinar os seus filhos que as couves e os tomates não nascem nas prateleiras do hipermercado. Ou que as azeitonas não se colhem doces.

A propósito, já que estais atidos à história, cá vai ela. Mário Caravelha aproveitou o fim de semana prolongado dos Santos para vir à terra e colher umas oliveiras carrasquenhas e vermelhal. Trouxe com ele o filho Luís Miguel, mancebo adolescente nado e criado no bairro da Serafina. O rapaz achou fixe ir colher azeitonas, apesar de não saber muito bem identificar a árvore que as dava. O grupo de trabalhadores contratados incluía Chquim Moca, nosso Farnando e nosso Zéi, conhecidos exímios na arte de enrolar incautos citadinos e não só. Entre outros ensinamentos, Luís Miguel aprendeu a aguentar a comichão das urtigas convencido das suas propriedades afrodisíacas, e que o sabor do fruto azeitona, ali colhido directamente da árvore, não era o mesmo que aqueles que a sua mãe comprava no hipermercado.

Quando ele informou que gostava muito de azeitonas, Chquim moca ouviu-se a sugerir de imediato:

- Ó rapaz, atão vai comendo, aproveita agora!

Até o pai se aguentou calado ao ver o esgar que o seu herdeiro fez quando roubou uma azeitona à árvore e a meteu na boca.

- Estas azeitonas sabem bué da mal.

- És tu que não as sabes colher. Tens que escolher as mai madurinhas – continuou o Moca.

Enquanto a cena se repetia, nosso Zéi agarra uma mão cheia na sacola do almoço e mete no bolso.

- Anda cá ao pé de mim qu’as há boas aqui.

Abana um ramo a fazer ver que a tinha colhido no momento e oferece ao pobre Luís uma azeitona carrasquenha retalhada. Perante a aprovação, nosso Zéi incentivou-o a continuar a colher e a comer directamente da árvore. Nosso Farnando também não quis perder o seu quinhão. Só à quinta cuspidela é que o pai se resolveu a intervir.

- És a minha vergonha. Estás atido a que te ponham tudo à frente, pronto a comer. A culpa é da tua mãe.

A inventora do conceito é a minha cara amiga Elisabete Figueiredo, da Universidade de Aveiro.

quarta-feira, março 04, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIX - TARIMBA

Se os fornos eram quatro, três eram os lagares. Bem, um era conhecido pela fábrica, pela simples razão de que já trabalhava, primeiro a motor e depois a electricidade. Ficava onde é hoje o café LAGAR, que lhe herdou o nome. Pertencia ao professor Leitão, artista inventor mor, espécie de professor Pardal, com motos a tirar água, chapéus de chuva invertidos para apanhar fruta, com uma tesoura colocada na ponta de um varapau que prolongava o eixo do guarda chuva, e por aí fora; outro pertencia à D. Carminda. Ficava ao lado da igreja no caminho para a ribeira: lagar de varas onde ainda se tentou adaptar um motor que a maior parte das vezes estava avariado. Raios e coriscos com praguejos mais que muitos se ouviam quando as correias não faziam andar o moinho e a massa estava quente....; o terceiro, e é este que merecerá maior atenção, era o da Lameira. Eram seus proprietários a Casa Campos, o professor Zé Manel Landeiro e a família Bargão com alguns Baptistas. Foi neste que quase me nasceram os dentes.
O Lagar, propriamente dito, tinha duas grandes salas: a da entrada onde se situavam as três varas e à direita a sala da lagariça. Tinha esta um enorme pio em pedra onde a azeitona ( 600 Kg por moedura) era moída até ao ponto conveniente por uma junta de vacas do Alberto Vaz. A hora de começo era, habitualmente as 5h 30min. O tempo de moagem era em regra de 2 a 2h-30 o que significa que a massa estava pronta por volta das 8h.
O moinho trabalhava a frio e a massa era transportada à mão, em gamelas para quatro ceiras que estavam por debaixo de cada uma das varas e que se iam enchendo e sobrepondo. Repare-se que cada uma levava 150 kgs de massa. Era obra. O líquido escorria para uma tarefa incrustada na rocha donde depois era decantado para outra ficando aí já o azeite limpo. De vez em quando lá ia o Zé Lopes a abrir a torneira para o azenagre ir para o inferno, espécie de poço, por onde passavam os detritos antes de entrarem na ribeira. É daqui que vem o velho aforismo: "a azeitona dá-a Deus e o azeite dá-o o diabo". As varas (enormes troncos de sobreiro) assentavam nas ceiras e com a pressão iam fazendo espremer as ceiras, mas para mais peso, havia, a meio, três enormes pedras, uma para cada vara, que eram levantadas num fuso enroscado numa chave, tudo em madeira, obra de arte de carpintaria artesanal. Por fim as ceiras eram despejadas e a massa era então escaldada e de novo enceirada. É aqui que eu entro:
O Chamiço dava lenha (recebia poia, é claro) mas a água para a caldeira que estava sempre aquecida era dada por três pessoas: eu, o lavra miúdo e o mota. Três vezes ao dia, às vezes quatro, quando o serviço apertava, lá íamos nós a dar água para a caldeira. À porta do lagar havia um pequeno poço donde era tirada a água que um transportava e outro despejava. O serviço era rotativo, mas eu queria ficar sempre a tirar a água do poço. Era um artista. Tenteava a água e o caldeiro caía sempre de borco e era só puxar e despejar. Tudo às escuras, que ali, às 5h 30min da manhã em pleno Inverno, não havia luz. Mau era quando chovia, mas lá se dava o jeito. Como era cedo e ainda nada se via e nada se podia fazer, às vezes ficava por ali, junto ao lume da caldeira no quentinho, sentado num tropesso e, quando combinava com os lagareiros, papávamos uma lata de atum de mistura com umas couves do dia anterior e escorropichávamos uns tintos pelo copo de lata sempre junto à candeia com torcida de trapo.
As duas salas do lagar eram divididas por taipas em madeira e o ganhão e as vacas dormiam logo à entrada, elas junto à manjedoura e ele numa tarimba cravada na parede e suspensa por dois barrotes para a qual subia por um escadéu. Às vezes já não subia porque o tinto era tanto que qualquer palha servia de enxerga. No outro lado dormiam , também em tarimbas, os três lagareiros.
Não sei em que estado isto tudo está, que o Zé do café comprou o lagar e pôs lá as galinhas e o tractor e mais o que quis.
Uma pena perder-se um lagar que eu vi em tão bom estado. Ainda esteve em tempos para ser adquirido pela autarquia para museu... O Presidente mudou, o lagar morreu, e o museu nem no papel.
Se alguém dos que me lêem tiver influência, sugiram a aquisição desta relíquia e facultem-na ao povo.
Um povo sem passado não tem história.
Aqui fica o apelo.
XXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIII

sábado, fevereiro 21, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXVIII - CASQUEIRO

Eram quatro os fornos que trabalhavam para o povo. Não se podiam considerar comunitários, já que tinham dono e forneiro. O povo, melhor, as mulheres do povo, no entanto, cozia(m) o pão em qualquer deles: em frente às escolas velhas, o forno da D. Carminda, onde pontuava como forneira a ti Maria Bondita, não raro, coadjuvada pelas suas duas filhas, na 5 de outubro o forno do ti Mné Alfácea, no Beco da Ribeira o do Mija a Parede e no Oiteiro, à direita da barreira, o da Figo Seca.
Não havia moleiros na aldeia, que sejam da minha lembrança. Com toda a certeza, deve ter havido porque os moinhos de vento, tanto à direita como à esquerda do alto da estrada, atestam esse mister. A ribeira nunca correu todo o ano, mas falava-se no moinho dos Casacos, mesmo onde a ribeira tem uma queda de água em socalco e lá está (ainda estará?) a levada que fazia mover a roda da azenha.
Nos meus tempos de garoto, o moleiro vinha de Penha Garcia e trazia a farinha moída, centeio, milho(pouco) ou trigo, que levava uma semana antes e moía na sua azenha no Ponsul. Era o ti António Beringuilho.
A mula que sempre o acompanhava era uma animal de se lhe tirar o chapéu: alta, espadaúda, crina farta, castanha escura, reluzente, arreios sempre a brilhar, levava 5 taleigos como se não fosse nada. Valente animal, mansinha, nem era preciso prendê-la à ferradura do Agostinho Ratado. Era uma mula egueira, orelha curta, viva de olhar e dente sadio.
Aparte o Beringuilho, todos os comércios faziam a troca da semente por farinha, mediante o pagamento da poia: o taleigo da semente tinha dois alqueires e perdia a dízima.
Para facilitar começou a pesar-se naquelas balanças decimais cujos pesos permitiam alguma batota que um dia vos explicarei.
Faziam-se trocas no Fatela, no Cunha, no Zé Rolo, no Zé Júlio, na Troa, e periodicamente passava o Zé Oliveira que levava a semente e deixava a farinha. Até que começaram as sacas e os pacotes e se deixou, a bem dizer, de semear cereal. Lembro-me bem dos quintos e de todos os cabeços até à serra da Marvana e da Raposa serem semeados de centeio, na maioria, e algum trigo.
Quem fazia o casqueiro tinha que acarrejar a lenha para o forno, excepção no do Alfácea que era permanentemente abastecido pelo Chamiço que dava também a lenha para o lagar quando trabalhava. Claro que cobrava poia, tanto no forno como no lagar.
A sala do forno tinha a toda a volta uns baturéis onde as mulheres pousavam os tabuleiros com o casqueiro (e ou as bicas) já finto(as). Cada uma delas - o forno metia quatro tabuleiros - tinha uma marca que podia ser uma caruma, um pau de esteva, ou como ainda hoje é o meu carimbo, tinham um sinete que timbravam no cimo do pão antes de o forneiro o meter, por mor de não baixar e assim não haver dúvidas de pertença.
A periodicidade da cozedura variava em função do número do agregado ou das fainas do campo, mas era hábito uma cozedura cada 15 dias.
Pode parecer estranho a quem não viveu neste tempo, mas uma caixa de fósforos dava para um ano e fermento para o pão era também coisa que não se gastava : os fósforos eram substituídos por um tição que se pedia à vizinha que já tivesse o lume aceso e o fermento era vantajosamente substituído pelo crescente, que era também cedido por quem tivesse pão bem finto.
A isto chama-se economia.
Ao sair do forno, o casqueiro era embrulhado num cobertor dentro do respectivo tabuleiro e era lentamente que arrefecia. Na verdade, se o pão arrefecer ao ar, a côdea solta-se do miolo e não fica nada de jeito. Nunca se comia no dia em que era feito. Primeiro deixava-se assentar que era para luzir mais. No dia, lá se comia uma biquinha ou fazia-se uma ( taborna) = tibórnia .

O velho Estopa, naquele Verão tinha ido para os quintos, para lá do Frade e do Batcharel e para não terem de se levantar ainda mais cedo - é preciso notar que se trabalhava de sol a sol - os homens decidiram que dormiam por lá. O almoço seria levado, cada dia, por uma das mulheres e eles tinham comida de seco para o desjejum, a côdea, a merenda e a ceia.
Só que o Estopa, um dia antes de acabar a estrafega do quinto, foi acometido de tal borreira que se viu nas horas del conho.
Papel não havia e Estopa tinha que limpar o traseiro com palha molhada dos nagalhos.
O Sol era inclemente, Estopa suava, não podia atrasar-se na linha do corte e esgadanhava-se todo para ir a par, mas lá lhe vinha outra vez a vontade.
As ceroulas molhavam-se e secavam, Estopa sofria atrozmente e estava mais vermelho nas partes que um pimento para pimentada.
Lá chegou a casa, a arrastar as botifarras, diz à mulher para lhe aquecer água, tempera-a com um pouco de fria, mete as nalgas na selha, lava-se com sabão macaco, a sorver ar e a assobiar para não gritar.
A mulher que tinha cozido, e o cheiro do casqueiro desafiava a fome, preparava uma taborna morna. Só que os assobios do homem aguçam-lhe a curiosidade e quando se depara com aquela vermelhidão: «oh! home, isso está feio; espera aí que vou por um pano macio e já te limpo.» Só que Estopa não consentia que lhe esfregassem, nem mesmo com pano macio, as pudibundas partes e a mulher sai-se com esta:« põe-te aí de cu pró ar ao pé do lume, maneiras junto à candeia que eu boto-te aí um pouco de farinha triga que me sobrou do pão pra secares».
Estopa, desacorçoado (=descoroçoado) como estava, nem hesita. A mulher lá espalha a farinha, mas os resíduos gasosos da borreira entraram em descarga e quando ela estava mesmo por trás, sai-lhe uma bojarda que salpica a cara da mulher. A linguagem trocada não é traduzível, mas não vos é difícil imaginá-la.
A taborna ia ficando por comer mas a necessidade obriga e mesmo no meio do cheiro lá a roeram enquanto o casqueiro, esse, estava a salvo, abafado no cobertor e não ficou garanhotado como a cara de Angélica.
Acidentes.
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

domingo, fevereiro 15, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXVII -GARANHOTO

Em tempos outros, jornais houve que tinham gente, iniciativas e textos que pouco têm a ver com os de hoje. Foram acabando: o Século, o Diário de Lisboa, República, o Jornal, ..., todos se foram... Bom... As tristezas não pagam dívidas e as saudades não aliviam dores...
Bem, o Século, tinha, creio que às Sextas, uma rubrica, cujo título era: há sempre uma história para contar.
Também hoje tenho uma história para vos contar:
Zé Tanganho foi professor de muito xendro. Passei-lhe na sala pouco tempo e fui depois estrear aquelas que, em tempos, se chamaram as escolas novas. Era uma figura alta, de voz tonitroante e com uma vara - tanganho - que quase atravessava a sala e fumador de mata-ratos impenitente, sempre pachorrento no andar, ou não fosse o dilecto marido de D. Carminda, que nunca soube andar depressa.
Tanganho tinha um discurso pouco vulgar e uma forma de dizer única: ora falava alto e na mesma palavra alterava a tonalidade e quase ninguém ouvia as átonas. Raramente chamava alguém pelo nome. Ia baptizando aos poucos os alunos e as alcunhas que ele deixou ainda hoje se ouvem: rapa a unha, chiquinho, pata branca, maregas,....
A rotatividade não era um costume enraízado e, como muitos sabem, as classes eram unisexuais. Professores davam aulas a alunos, e professoras a alunas. Assim mesmo. Foi assim durante muito tempo.
Como se dizia : "TINHA LÁ PORRAS O PROFESSOR TANGANHO".
Ao ano a que me reporto, Tanganho tinha a quarta classe e, como também era uso, o professor que tivesse este ano curricular de fim de ciclo, a antiga escola primária, essa do livro único e muito mais coisas únicas, espremia-se e espremia os alunos que aprendiam metade de vontade e outra metade à tanganhada.
Como as escolas novas estavam a ser ultimadas, alguns alunos, acabadinhos de entrar na escola, - eu fui um deles - foram repartidos pelos diferentes professores.
Assisti a sessões de desafio, um contra um, que me ficaram na memória.
Cada um dos da quarta tirava uma senha onde estava escrito um posto da tropa. Depois degladiavam-se, cabo contra capitão, sargento contra major ,... e assim as alternâncias de posto eram uma constante. O exame da quarta era assim preparado. Havia bordoada com fartura mas tudo se aguentava e nós, os da primeira, íamos vendo o que nos esperava.
O exame era feito na vila e Tanganho ameaçava sempre com o júri. Ora nós nunca tínhamos visto um júri...
Tanganho lembrava: "quero toda a gente bem limpinha, sapato a reluzir, cabelo penteado e sem garanhotos, corpo a cheirar a sabão, orelhas sem cera, nariz limpinho e olhos sem remela, calça bem vincada e gravata comédado, tudo caladinho e à hora."
Ia preparando os alunos, ferrava-lhes tanganhadas à bruta,e, por vezes, tinha saídas incríveis. Posso, sem temer errar, garantir que nunca encontrei, ao longo do tempo que depois tive oportunidade de conviver com ele, ninguém que tanto soubesse de ditados populares , como prever o tempo meteorológico, condições e épocas de sementeiras: Um Borda D'Água.
Regressando à escola e à preparação para o exame , um dia Tanganho sai-se com esta:
tomai tento que o júri vos pode perguntar coisas que não vêm nos livros. Tendes que estar preparados e responder certo e a eito. Não quero ninguém empapado com garanhotos na fala. Por exemplo: o júri pode perguntar assim - QUAL A COISA MAIS VELHA DO MUNDO? e vós tendes que vos saber sair deste emaranhado. Ficais a saber que a coisa mais velha do mundo é o tempo, porque se não houvesse tempo nem Deus tinha mandado fazer o mundo. Até demorou seis dias a dizer para se fazer.
Quem não concordou com a explicação foi o zé da bogalha que levantou o braço. "Diz lá o que queres, oh regedor do cemitério."
- Oh senhor professor, eu não posso responder assim
- Então porquê
-A minha mãe diz que eu nasci antes do tempo...
Uma tanganhada pelas orelhas abaixo foi o prémio para tal honestidade.
Eu fiquei confuso porque afinal o da bogalha tinha razão mas fiquei quedo e calado e continuei a escrever a cópia com a caneta de aparo no caderno de duas linhas. Os cadernos daquele tempo eram muito irregulares, um tanto amarelos e não eram raras as farpas que se atravessavam no caminho da escrita. Foi o que me aconteceu. O aparo, acabadinho de molhar no tinteiro de porcelana, empancou num desses obstáculos e respinguei a folha toda. Fui mostrar: «Oh rapa a unha, escreves a olhar para o ar e depois fazes este lindo serviço. Se estivesses a olhar para o que estavas a fazer não empancavas na farpa»; levei meia tanganhada e tive que repetir a cópia toda.
Vem isto tudo a propósito de que há sempre uma história para contar...
Acontece que na crónica anterior saíu o termo garanhoto sem qualquer explicação já que nunca tinha aparecido.
Tal como o zé da bogalha também veio antes do tempo.
A tempo vos deixo com um XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIII

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXVI - AMARUJA(E)R

Vamos lá então: coza-se na mesma panela uma metade de galinha campestre, uma chouriça das verdadeiras, daquelas em que o unto escorre pelos dedos, uma faceira de cerdo, bem limpa de pêlos e com a orelha sem cera, mais um naco de osso da sevã. Saquem-se as carnes, reservem-se, deixe-se arrefecer maneirinhas a água, coe-se. Entrementes, faça-se uma cebolada farta, com tomate já sem pevide e pele, umas tiras de pimento, um ramo jeitoso de salsa. Quando já tudo estiver bem suado, junte-se um pouco da água coada deixe-se levantar fervura, triture -se tudo com a varinha e faça-se um caldo semi líquido, aí para o gelatinoso, vá-se deitando carolo de milho, sempre mexendo, em lume brando para não ganhar garanhotos e tenha se cuidado para não haver bispo.

Enquanto isso coza-se em água abundante com sal (pouco) uns grelinhos de nabo, daqueles mesmo que amarujam. Em estando satisfatórios escorra-se, esprema-se levemente, frija-se uns dentes de alho, sem grelo, numa sertã larga, deixe-se amolecer, deite-se os grelos espremidos, envolva-se e una-se com ovo batido. O milho deve ser tapado para não formar coroa. Corte-se a orellha, parte da faceira, metade da chouriça e desfie-se meia galinha. Num tacho, ou melhor, na panelinha de ferro, estale-se uns alhos espalmados, a cutelo, com casca, em azeite, uma folha de louro, despeje-se a carne, envolva-se bem, arreganhe-se com um salpico de vinho branco, deixe-se evaporar, regue-se com um pouco de vinagre aromatizado, cubra-se com coentros viçosos e sirva-se de imediato com os milhos de carolo e o esparregado ligeiramente amargo - por isso amaruja. Ao fim, coma um Kiwi. Se gostar, acompanhe com vinho já ambientado, tinto, de uva, ou ,então, chá morno de salva brava, sem açúcar.

Lamba-se e limpe-se.

Vá passear com o/a seu/sua companheiro/a, de mão dada, que o amor não tem que ser escondido, regresse a casa, vá para a sua varanda, se a tiver e se tal for tempo, ofereça um simples copo de água, traga outro para si e falem de coisa nenhuma ao sabor do que vier. Mainada.

Lembro-me de três excelentes cozinheiras de boda, afora eu, que não tinha tempo para tão demoradas contendas: ti Maria Rainha, Celeste do Espeto e Maria, olho de lata.
Por razões que não adianta a ti Maria Rainha, levava a palma. Foi confeccionados por ela, que papei os melhores coelhos no forno e as melhores chanfanas.
Eu, curioso como era, quase sempre convidado para todos os casamentos, tinha a vantagem de entrar na cozinha porque ia com o mais que famoso carrinho quadrado a levar a bilha do gás. Metia o bedelho e Ti Maria dava-me a provar. Eu servia de aferidor. Sabia sempre o que havia e reservava-me sempre para o melhor, porque sabia a ementa completa com antecedência.
Aprendi muito com ela e por isso vos ofereci a receita acima. Experimentai e logo me direis.
Padre Pinto rivalizava comigo em quantidade de bodas. A vantagem pendia para o meu lado, mas foram imensos - ainda havia povo naquela altura - aqueles em que fomos comensais.
O interessante, e nós já nos ríamos, é que havia um copinho famoso que percorria todas as bodas e que ficava sempre para o Sr. Prior.
Num casamento que teve lugar na loja do Balecas - aquele que numa boda comeu sozinho um galo assado no forno com uma travessa de esparregado e um alqueire de batata frita, três
litros de vinho e dois pratos de arroz doce com muita canela - ali à barreira do Oiteiro, frente à casa da Espeta Figos, nesse casamento, lá estava o famoso copinho à frente do Sr. Padre Pinto. Olhámo-nos, rimo-nos, sentámo-nos, iniciámos o repasto com uma sopinha de grão com massa e hortelã, arrancámos para um arroz de cabidela de coelho, continuámos com fígado com esparregado de nabo amarujante e o vinho sempre a escorrer. Eu ficava sempre com um garrafão aos pés e servia as pichorras ali por perto. Só que o copo de Padre Pinto - lindo era mas pequeno - exigia enchimento continuado.
Foi nesse casamento/boda que fiz a quadra que durou anos: Ao Padre Pinto dava jeito/ Não um copo tão perfeito / É de tal modo pequenote/Que o faz andar a trote. A malta riu-se e o que é facto é que nunca mais o abençoado do copo ajudou a engolir esparregado de nabo a amarujar nem chanfana de cabra ou badana com puré.
Hoje não há lição teórica. É dia de prática. Mãos à obra.
XXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

sábado, janeiro 24, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXV - ACARUJA(E)R

O saber humano nunca é estanque. Verdade sem sofismas é também aquela que facilmente demonstra que nem sempre é o mesmo ramo do saber que se adianta aos outros e os arrasta. Ora é a Física, ora a pintura, ora a literatura, ora a música, ora a geometria, ora..., que faz a ruptura com o estabelecido e, de algum modo, dá razão a Thomas Kuhn, quando fala na crise de paradigmas e na necessidade que a ciência normal tem de se negar como dona da verdade e ceder o lugar, ainda que provisoriamente, à ciência extraordinária, porque os esquemas explicativos não esgotam os puzzlles ou enigmas que se vão deparando, muito devido aos avanços da técnica.
No caso vertente foi a Física que deu o passo. Louis de Broglie, prémio Nobel da Física, afirmava que se soubéssemos o que era um raio de luz, já sabíamos muito. As explicações para a propagação da luz são tantas - e todas têm fundamento de verdade - que não sabemos por qual optar. A corpuscular defende que a luz é difundida por pequenos corpúsculoss que a retêm e propagam e a prova é que, mesmo depois de o Sol se pôr, ainda temos luz durante algum tempo devido a esses corpúsculos; já o electromagnetismo tem outra explicação e assim por diante. Foi a Física, dizíamos, que deu o primeiro passo. Com a ruptura copernicana e as observações galilaicas, os cálculos de Kepler e de Newton, entre outros, ficou demonstrado que tudo se relaciona num complexo sistema de leis que a matemática aos poucos foi descobrindo. A própria Psicologia com Kurt Lewin vem aqui beber as relações interpessoais que mais não são que uma transmutação das Teorias de Campo da Física. O mesmo fez a Sociologia com Bourdieu ou mesmo Morin. Bem, adiante que se faz tarde...
Nunca estamos sós e precisamos sempre dos outros. Do grande outro. Do que está à minha volta e do que está mais afastado que, com mais ou menos impacto, também exerce influência sobre nós.
Não é por acaso que os nossos avós olhavam para o astro e decidiam do que fazer em função, por exemplo, da fase da lua ou do arco que a circunscreve mais longe ou mais perto, ou olhavam para o pôr do Sol e sabiam se vinha calor, vento ou chuva. Os Astrólogos, esse pantomineiros da futurologia, replicam, sem autoridade, esse saber empírico, iludindo os tarantas com bolas de cristal e coisas que tais....
O decisivo é que estamos sempre a influenciar e a ser influenciados por forças que nos envolvem: o campo, o campus, o habitus, o que quiserdes...
Tó Lindo, reformado da Guarda Fiscal e Beatriz Violas criaram o neto Quim, filho único do seu único filho que se tinha descuidado com uma mulher que desposou mas com quem quase não conviveu.
Quim não era o que se pudesse chamar uma inteligência. Tinha limitações de diferente ordem e Mné Chquim Carreiras dava-lhe explicações tentando, a poder de muito ""ah martelão que és um martelão, martelão martelão, tu num vês que isso não é um pronome mas um adjectivo adverbial"? Quim lá balbuciava os nomes complicados da morfologia gramatical e ora acertava ora levava com mais uma resma de martelão.
As explicações eram dadas no balcão ao cimo das escadas dos Bargões, de manhã, antes de o Sol lá bater e Mné Chquim parecia um arauto a pregar disposições de Sua Majestade. Ouvia-se em redor aí uns bons cinquenta metros e Quim era mesmo martelado. Pedagogias ... .
Nas manhãs de Março, já meio quentes, por vezes ACARUJAVA, o que era um transtorno para Mné Chquim que tinha que levar Quim para sua casa e , como não podia abrir a janela por causa do acarujo, que molhava, mais que o sobrado, o caderno de cópia de Quim, o martelão, martelão, martelão ficava confinado às paredes da casa e a exibição de Mné Chquim era assim uma reles amostra de influência e o seu campo de força como que ficava reprimido.
Por isso Mné Chquim passava a vida a amaldiçoar o acarujo .
Eu não morava longe e meu pai trabalhava na arte, ali mesmo entre a casa de Mné Chquim e o balcão dos Bargões, numa casota da Leitoa.
Mal me via Mné Chquim arrancava logo com uma pergunta mais rebuscada :" Que função passa a exercer na voz passiva o sujeito da voz activa? Quim, evidentemente, voz, só conhecia a dele, do avô , da avó , de Mné Chquim e mais uma quantas, mas a passiva e a activa ele nunca as tinha ouvido falar e portanto não as conhecia. Aventava o que lhe vinha à cabeça, desde predicado a advérbio de lugar, mas lá Agente da Passiva é que nunca. Ele de agentes também só conhecia os da Guarda Fiscal porque seu avô lhe falava dos agentes da alfândega.
A culpa era da gramática que tinha outros agentes que não eram do conhecimento do avô e, portanto, não exerciam qualquer força de impacto na cabeça de Quim. Estavam fora do seu campo de acção e ele não lhes sentia a influência porque não sabia da sua existência, como bem disse Bachelard, que também nunca foi da familiaridade de Quim.
Para que não fiqueis cheios da minha teoria de campo deixo-vos com um XIIIIIIIIIIIIII.

sábado, janeiro 17, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIV - ESCARAMOUÇO

Dou por mim muitas vezes a pensar no porquê de o nosso cérebro, sobretudo o do ser humano latino, estar formatado à maneira francesa, e, mais ainda, à moda cartesiana. Renatus Cartesius foi muito bem vendido pelos franceses e os outros povos romanizados mamaram nesse leite e ainda hoje sofrem dos efeitos.
Gabarola quanto baste, plagiou Sto Agostinho e, mais despudoradamente, o nosso Francisco Sanches, quase transcrevendo páginas do QUOD NIHIL SCITUR ( porque nada se sabe), pertencente a esse bracarense, injustiçadamente despromovido no mundo do saber. Portugal nunca soube aproveitar nem vender os seus vultos. Foi assim com Camões, com Pedro Nunes, com Garcia da Horta, com Amato Lusitano, com Ribeiro Sanches, com....; salva-se Pessoa e agora Saramago e Eduardo Lourenço. Mas andam lá por fora...
Quando George Washington se enfrentou com o lugar comum "o hábito é uma segunda natureza" tem esta tirada que ficou histórica: "MAS ELE VALE DEZ VEZES A NATUREZA!" Não há dúvida de que somos animais de hábitos. Digo hábitos e não vícios ou sequer instintos. Criamos rotinas, estigmatizamos, fixamo-nos e depois dizemos que o destino estava traçado e que tinha que ser assim, etc. e outras desculpas esfarrapadas sem sentido e que têm valor porque fazem parte do lugar comum e se é comum é geral e,logo, é universal. Transformamos o subjectivo em objectivo, o geral em universal, o comum em igual para todos. Claramente cartesianos. Partimos de evidências e como são evidências entendemos que não precisamos de as demonstrar. Na verdade, o evidente impõe-se por si mesmo, mas o perigo é que assumimos, à partida, como evidente, aquilo que é discutível e, sendo assim, damos razão a S. Tomás: "UM PEQUENO ERRO AO PRINCÍPIO, TORNA-SE GRANDE NO FIM".
Auto convencemo-nos de que a verdade é nossa e transformamos uma opinião, muitas vezes a carecer de fundamento seguro, numa verdade dogmática, indubitável, e sacralizamo-la defendendo-a até ao limite. Depois digam que não somos irracionais!
Vigura era assim. Quando bebia uns copos era do piorio. Se se lhe metia uma na cabeça não havia quem o demovesse.
Agostinho Cagarela, também conhecido por Cabo Vermelho, num Domingo à tarde, nas traseiras do café da Rosa, discutia com Vigura sobre quem tinha a melhor junta de Aldeia.
Não eram muitos os ganhões, sobretudo aqueles que trabalhavam com junta de vacas: Mné Guerra, o Geba, Domingos Guerra (irmão do anterior), o Caga de Alto, Alberto Vaz, o Borrachica, e o nosso Vigura, Zé Malagueta. Outros havia que ganhavam à jeira, mas com junta mista (burro e vaca).
Retomando o fio, Cagarela defendia que o Geba tinha uma parelha valente e que as vacas de Vigura tinham muito canelo para gastar até chegarem às de Mné Guerra.
Vigura estava já meio tonho e agarra Cagarela pelos ombros,espeta-lhe uma cabeçada, ao mesmo tempo que que lhe ferroa uma dentada que lhe arrancou parte do lábio inferior. Cabo Vermelho começa a sangrar, os dentes viam-se-lhe, o lábio jorrava sangue, os gritos atordoavam, o Vigura ficou taranta, Melro aventa-lhe um soco que o sentou e Fatela arranca a toda a brida com Cagarela para a vila com um recado que eu lhe dei: "Ó Tonho olha que o Agostinho leva o lábio dentro do bolso;eu apanhei-o do chão e meti-lho lá".
Fosse ou não amigo de dinheiro, facto é que o Dr Moutinho, quando se apurava, era competente: coseu o lábio ao Cagarela a sangue frio, fez-lhe um penso e recambiou-o para a Aldeia.
Cagarela arranca directo para a quinta do Ramalhão e só voltou ao povo quando a ferida já estava sarada e, quem não soubesse da história não notava a costura.
Mas não foi esta pior de Vigura.
Sério, era homem pacífico e bem tratante, salvo para a mulher e filhos que andavam sempre a toque de caixa e até tremiam quando ele entrava em casa. Ainda assim, entregava sempre o dinheiro da jorna e a ti Rosa nunca ficava a dever.
Era o que se podia chamar de artista a carregar o carro e fazia o que queria da junta. Muitas vezes o ajudei a carregar e admirava a sua arte a meter os molhos nos fueiros sempre certinhos, nunca de ESCARAMOUÇO. Era um gosto ver uma carrada do Vigura. Os sessenta molhos do moio vinham na perfeição e tinha o cuidado de tapar os molhos da frente para nque as vacas não se picassem na palha. Nunca caíu uma carrada ao Vigura. Já Júlio Aspirante, e Beto borrachica carregavam de ESCARAMOUÇO e eram alvo de gozo nas conversas do Adro.
Um dia bebeu demais e - lá está a ideia fixa cartesiana - cismou que havia de ajustar as contas com o Zé Carradas.
Chovia a cântaros.
Vigura agarra na gadanha da erva, entra na propriedade de Carradas a aldeagar e a pedir meças por causa de uma passagem que Carradas lhe tinha trancado dizendo que aquilo era dele. Por via disso, Vigura tinha que dar uma grande volta para entrar aquilo que era seu. Cismou que havia de fazer a folha ao Carradas e, pronto, partiu da evidência - que o não foi - de que eram favas contadas: limpava o sarampo ao velho.
Carradas acordou com os brados e viu logo que era o Vigura. Passa do tugúrio ao palheiro, agarra na machada do cepo, esperou que o vigura se aproximasse e, quando este o viu, deixou de ver mais nada: a machada enterrou-se-lhe cabeça adentro, os miolos espalharam-se, o sangue era lavado pela água da chuva.
Carradas vem à Aldeia, acorda o Fatela e vai-se entregar à guarda. O Vigura já estava teso quando a patrulha lá chegou.
Lá está: morreu por estar convencido de uma verdade. Não a pôs em questão.
Pela mesma razão palestinianos e israelitas combatem e se matam: cada um agarra-se à sua verdade, esquecendo que estão ambos errados.
Mais airosamente me saí eu, fez agora anos. Mandei embrulhar um bolo rei julgando que tinha levado dinheiro. Quando ia para pagar constato que nem um avo trazia:" oh diabo! então agora esqueci-me do dinheiro... olhe, embrulhe-me só o buraco!"
Foi o que trouxe para casa.
XXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDEEEEEEE

quarta-feira, janeiro 07, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIII - CRUITO

Há quem diga que o melhor remédio para vencer momentos de crise, doença, fraqueza, ... é querer ultrapassá-las. Assim, um doente pode recuperar mais depressa se ajudar os remédios a fazer efeito, isto é, se colaborar internamente, com as ajudas externas. E assim de seguida.
Carl Rogers falava na pessoa como centro e assim o ajudante externo apenas seria facilitador da recuperação dos momentos de afundamento de qualquer pessoa. Ninguém substitui ninguém e se o acompanhante conseguir estabelecer com o outro uma relação de companheirismo, de entendimento, enfim de empatia, consegue compartilhar as mesmas emoções e, como agora são dois a querer subir a montanha é mais garantido que acedam ao cruito. Nenhum de nós é melhor do que nós todos juntos. Facto é que todos precisamos uns dos outros. Até o narcisista socrático que nos governa precisa de quem vote nele. Nanja eu...
Afinal a questão do ser e do ter continua premente. Em termos efémeros, de usufruto, o ter é relevante, mas, em termos de perenidade, é o ser que comanda. Decididamente mais vale ser do que ter. Veja-se o que se está a passar com quem tanto tinha e agora é por todos considerado um trafulha, um mamão,.... Menos, outra vez, pelos governantes que se apressam a adiantar o que faz falta aos que têm muito e se descuida com os que não têm, às vezes, com que dar entulho ao bico. E a justiça vai com a governação. Emperra situações, os artistas da legislação inventam em tempo útil novas formas de empecilhar tudo e aqui andamos nós todos a ver andar os combóios e a construir aeroportos em vez de se construirem, por exemplo, hospitais de rectaguarda , e eles a viver à fartazana. Não vale a pena citar nomes mas não há dúvida, só para exemplificar, que o Vale e Azevedo é um paradigma. Tem, mas não é. Nunca será como nós que lemos o Baságueda que não temos mas somos. O ter é adjectivo, acessório, se bem que útil, mas o ser é permanência, contância, hombridade, dignidade. O ser está no cruito, o ter vegeta pelo pântano. Viva quem é, e mainada!
Tonho Brigadeiro era mesmo assim: sempre de fato à militar, espécie de ganga cinzenta, botões cravados como o fato dos músicos das bandas, bota de cabedal sempre bem ensebada, não raro com assomo de ceroula, por causa da encolha de tanto Angélica lavar as calças do mesmo material, na pedra da ribeira, ali junto à ponte . No tempo da azeitona, dizia o Brigadeiro, que era capaz de subir ao cruito das oliveiras, foito, assim mesmo comédado, porque "nenhum galho ou parnada de oliva se engarranchava naquela roupa e assim non havia empecilho que estorvasse a subida até ao último degrau da escada". Pena leve como era, Brigadeiro não se importava de começar as mudas à sombra porque ele, pequeno, leve mas verguio, agarrava-se logo à escada de dezoito degraus e ia logo lá para cima , mesmo até ao cruito.
Brigadeiro era feitor de Zé Geadas, roupa afinada, velhaco como as cobras, inquisidor mor, chegava a dizer que vinha ao povo quando andava lá pelas portelas, mas até dava conta se algum seu trabalhador ia a monte arrear o calhau. Punha-se a espreitar atrás de um barroco. Era má raposa, este Geadas.
Seu filho , também Tonho e Brigadeiro, fotocópia do pai foi o chefe de agrupamento de escoteiros na terra xendra. Foi efémera esta iniciativa e, em vão, Tonho se enfronhava a querer ensinar-me a dar os nós que os escutas sabem Tá quieto, oh mau! nunca aprendi aqueles nós esquisitos. Ainda assim, aprendi a sobreviver em condições, as mais agrestes. Aí sim, aí, era eu um campeão: a nadar, a resistir ao frio, a trepar a árvores, a arranjar armadilhas, a pescar à mão, a montar ciladas,... Eram bons os quinze dias de Verão!
Tonho era fiel às determinações dos escoteiros e cumpria religiosamente com os princípios do Baden Powell. Tinha mesmo uma folha onde cada Domingo marcava as faltas a quem faltasse à missa e era sempre do grupo de escutas que saía o ajudante para a missa pelas intenções do povo.
O velho Brigadeiro era fonte de arrelia para o filho Tonho porque, para além de chegar sempre tarde à missa, ainda por cima pigarreava e puxava pelos escarros de forma única em plena igreja o que era motivo de chacota e arrelia.
Tonho atentava-o:«num tem vergonha nenhuma, nunca mai aprende que o padre num espera por si... E depois vem sempre a alimpar as ventas prá missa, rais o afundem!»
O velho respondia invariavelmente: « Tu bim sabes que se eu tivesse vindo a horas à missa daquela vez, se calhar já num tinhas mãe quando ela escorregou ao cimo das escadas e vinha a arrebolar po li abaixo»
Nós já sabíamos a história, mas duma vez: «Ó ti Tonho, atão porque é que vomecê no agarrou a ti Angélica quando ela ia a rebolar pelas escadas?»
O velho tem esta tirada monumental: " Ó cachopo, eu num sabia se era promessa e assim ela tinha que se deitar abaixo das escadas outra vez. Assim só caíu uma vez, embora ficasse toda desmazelada." O que lhe valeu foi eu ter chamado a ambulância.
Tonho ficava baratinado e desandava dali.
XXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRANNDDDDDDEEEEEEEEEEE

sábado, dezembro 27, 2008

A NOSSA FALA - CXXII - ALDRA

Freud tratou deste fenómeno de forma superior: o contínuo desejo de retorno ao ventre materno, ou, dito de outro modo, o retorno às origens: a Regressão. Tal como Homero no canto X da Ilíada, narra de forma única o mito do eterno retorno: essa eternidade constante mas sempre renovada. Todos os anos há Inverno, mas ele é cada ano outro e é nesse fluir que a vida ao morrer se renova. Afinal tudo começa onde acaba. O que nasce traz já consigo a morte. Morrer é reviver e aí está o cerne da eternidade.
A ideia de procurar a origem das palavras só faz sentido se for no intuito de descortinarmos o significado original. É na fonte que se encontra a pureza dos significados. Aí não é preciso depurar nada. Está tudo virgem, intocado, puro, límpido e cristalino.
Foi assim no comentário do Karraio ao escarrafoucedo e assim vai ser aqui. Vou regressar às origens como sempre faço: Freud com a regressão e o ciclicismo homérico acompanham-me.
Em tempos, quando tinha mais vagar, entretinha-me a brincar com muitos aspectos da aprendizagem por que ia passando. Foi assim que profanei o singelo e inimitável poema de Augusto Gil - A Balada da Neve - a que chamei Balada da Pinga e que era mais ou menos assim: Bebem leve, levemente/Como quem bebe por mim/Será vinho ou aguardente/Ginja não é certamente/ E a cerveja não se bebe assim./Fui ver: a pinga caía/Tinta e leve, tinta e fria/... e por aí adiante.
Foi também assim que me deu para brincar com a convergência e a divergência, a propósito da entrada das palavras na língua portuguesa. Em regra, diz-se, as palavras ou entram por via erudita ou por via popular. Assim: solitarium deu em português solitário, por via erudita e solteiro, por via popular. Tudo bem, mas não tem piada. A questão agora prendia-se com a palavra NAU, cujo étimo latino é NAVEM (acusativo do singular de navis-is). Então, saio-me assim : NAVE entrou por via espacial e NAU entrou por via marítima.
Vem isto a propósito da origem da palavra que hoje vos trago aqui. Esta veio de Cometa.
Zé Cometa era ajudante de carga no antigo serviço de correspondência das centrais de camionagem com a C.P., que por acaso era lá em casa. Cometa era um fraca chichas, homem aí de 1,60 de altura, esquelético, mas verguio e teso como vi poucos. Brincava com as sacas cheias de batatas e, às vezes, eu e ele punhamo-nos a ver a que distância conseguíamos lançar uma saca de 50 Kg da loja para a camioneta encostada à porta. A loja era curta. Não havia pai. Muitos lá foram mas só eu e Cometa ou Pereira (o motorista),outro bom amigo desses tempos fazíamos tal proeza. Por tudo e por nada, Cometa gritava ALDRA! a moda pegou e a xendrice agarrou a palavra e fê-la sua. Ainda hoje se ouve por lá. Veio mesmo de Cometa
A vedeta que hoje vos quero trazer, porém, é o Miguelito: figura mais que famosa, fogueteiro das festas com camião, sempre pronto para ajudar em funerais, procissões e outros eventos, mordomo quase perene do sr. S. Bartolomeu, leiloeiro, pedreiro, mineiro, tosquiador, lavrador, limpador, cortador de lenha, valdevinos e amigo de fazer rir o pessoal. Lembro-me bem de, quando ele trabalhava para o Alferes Rei, ser o grande animador dos Carnavais da Aldeia. Só por uma vez foi substituído e um dia logo vos conto como foi. Estou a vê-lo, qual Napoleão, montado numa mula, de espada brandida, dando notícia dos namoros escondidos que por lá se passavam. Corria a Aldeia toda como um arauto, anunciando o que se queria ocultar. Era tchapado o Miguelito.
Casado com Lurdes Lúcia, de vez em quando abalava-lhe sem dar cavaco e ia a ver delas. Chegou a ir para França sem lhe dizer nada.
Certo dia, depois de regressar de uma dessas suas viagens mirabolantes, prometeu à Lurdes que só vinha ao povo a beber um café e voltava logo para casa. A promessa fez ele, mas o cumprimento foi como os do governo. Esqueceu-se.
Lurdes, cansada de esperar, deitou-se. Miguelito foi para casa já madrugada dentro, meteu-se à sucapa na cama, Lurdes fingiu que não deu conta.
Na manhã seguinte: «oh, meu aldrabão, a que horas te deitaste onte, à noite? E o Miguel:" às dez; demorei-me um pouco porque incontrei o Changoto e estivemos a escrever uma carta prá França, por mor da Segurança Social. Se num acreditas, pergunta-lhe".
Miguelito tinha ideia de me preparar para a inculca mas Lurdes veio ao sabão, à loja:« Já viste: o mê Miiguel disse que entrou às dez em casa e que esteve contigo a escrever uma carta prá França, o aldrabão...Eu bem ouvi o relógio a bater só uma hora» " Ó ti Lurdes, atão tamém queria que o relógio batesse o zero" « És igual a ele, ALDRA!
Para todos vós os desejos de um Ano Novo com tudo o que mais desejardes; convém não esquecer que o último minuto de dois mil e oito tem mais um segundo, para acertar o movimento da terra com a hora atómica. Ela vai-se atrasando. é preciso dar-lhe mais tempo.
Não esquecer que o relógio não bate as zero horas...
XIIIIIIIIIIIIIIII EEEEEEEEEEEEEENNNNNNNOOOOOOORRRRRRRRRRRRRRMMMMMMMMEEEEEEEEE

segunda-feira, dezembro 22, 2008

VOTOS

A vida, como sabeis, está a modos que encrencada e há alturas em que uma pessoa se sente desacorçoada de todo. Tendes que ser azados cassenão ficais chapados. Tenteai as dificuldades comédado, não sejais taloubenas nem nhonhas, não cuideis que a galula é certa e andar só à gosmia também não é a atitude mais acertada. Se for preciso mostrar que tendes cafones, mostrai-os. E quando vos sentirdes assim mais tchoutchinhos, buêi umas p'chorras valentes e lêde o Baságueda para não encorranchardes . Mas ide dando inculcas.

O Changoto e o Karraio votaram. Por unanimidade e aclamação é-vos desejado um Feliz Natal e um Bom Ano de 2009.





Se acaso alguém estava com ideias de me oferecer uma prendinha de Natal e não sabe bem como me agradar, eu facilito: pode ser o dvd deste concerto de Natal.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

A NOSSA FALA - CXXI - ESCARRAFO(U)CEDO

A vaidosice sempre foi característica dos seres vivos sexuados, quer machos quer fêmeas. Se bem que a Apostólica Romana a tenha colocado no rol da Preguiça, da Ira, da Inveja, da Gula, da Luxúria, da Avareza, a Vaidade ou Orgulho, mesmo na Idade Média e apesar das santas atrocidades cometidas pela Santa Inquisição, nem mesmo assim ela alguma vez se reduziu. Ao contrário, cada vez mais fermentou e no mundo de hoje a pedantice grassa por tudo quanto é sítio.
Lembro-me, lembro-me bem, de, por alturas da catequese para o Crisma, altura em que o bispo diocesano saía do seu opulento Paço, onde até se podia a gente pentear ao espelho dos azulejos, Clara Violas, Tonha Freira, Menina Irene, Menina Palufa, Joãozinho Bargão, ensinavam e repetidamente insistiam no significado deste Sacramento: Que seríamos soldados de N.S.J.C..
Chegado o dia, no lado Norte, a todo o cumprimento da Igreja, estenderam-se as mesas e as iguarias foram espalhadas por cima de toalhas alvas: bolinhos de toda a qualidade - borrachões, esquecidos, bolos de leite, de noz, de amêndoa, tartes e tortas, de buraco e fechados, pão de ló, e mais cascuréis (=coscorões), biscoitos, troncos, pratinhos com chouriço, presunto, queijo, azeitonas, galos no forno, coelhos, e até um perú... e sumos de capilé, groselha e limão, grades de pirolitos, gasosa castraleuca e prazeres, laranjada e muito leite de cabra e de vaca em cântaros de lata, tapados por guardanapo bordado à mão - Não havia A:S:A:E:.
Bebi leite com cacau naquele dia pela primeira vez. Ainda hoje bebo. Gosto muito de cacau com leite.
Era um regalo de ver: tudo muito bem arreado, assim mesmo como mandavam os trinques: avôs de surrobeco de jaqueta ao lado, relógio de bolso, preso por corrente de prata segura com nó cego na casa do botão do colete, avós com chita bem passadinha coma atilho na cintura, sandalinha de cabedal a reluzir, saiote a meia perna e algumas de avental "por mor de alguma nódoa", as mães, mais novas, já com saia de merca em feira e, algumas mesmo, com vestido feito pela ti Glória em fazenda garrida comprada na Troa, Tó ou João Robalo, e blusa ou casaquinho a "conduzir" =(condizer) com a farpela, todas (avós e mães) de lenço na cabeça, algumas já de preto, os pais, esses de botim cardado, fato feito por medida no Tó Pedro, chapéu de aba curta.
Chquim Camião e Miguelito estavam ao alto da estrada, à espera que o séquito episcopal lhes estivesse ao alcance da vista e , de repente, PUM,PUM;PUM,pum,pum, tau,pum: o bispo estava a chegar.
Só nessa altura é que os dois manos Chamiços, João Feijão, Domingos Abade e outros foram molhar as fúcias no caldeiro da água, lavar a cabeça com sabão de borra de azeite e mistura de petróleo, vestir-se à pressa e chegar ao adro esbaforidos, mas a horas de entrarem na fila comandada pelos respectivos professores e ao lado dos padrinhos competentes.
O cabelo dos Chamiços alumiava. Naquele dia de S. Bartolomeu, brilhante de Sol, a mistura do petróleo da lavadela com o suor da corrida deixou a cabeça dos dois irmãos a reluzir que nem pirilampos nas guardas da ponte em noite húmida.
Já de si aquele cabelo era desalinhado e depois cortado com a tesoura da costura com a ajuda de uma malga para ficar arredondado, dava aos Chamiços, de face encarnada, um aspecto escarrafoucedo. Menina Irene vê aqueles preparos e foi-se a eles, só o que o cheiro do petróleo era ainda intenso e mexer naquele cabelo era impensável para uma mão de alvura mais que neve. Como resolver o problema: sobrou para mim, está claro. Pediu-me para acender o fogão que havia de servir para amornar o leite ao fim da cerimónia, aqueci água, ela lavou a cabeça aos Chamiços com sabonete e saio-me: «O Mné furdas trouxe-me um perfume de Espanha, quer que o vá buscar?»Era Tabu, cheirava a uma légua, mas Menina Irene antes queria Tabu do que Petróleo. Untou a cabeça dos Chamiços que continuaram escarrafoucedos, mas cheirosos. Empestaram a igreja toda. Os velhos cá atrás comentavam:«quem será o do garoto que tomou banho em Tabu? Raios o afundem...»
D. Policarpo quis saber da nossa competência: " Quem me diz o que significa o Crisma? "Ao fim de algum tempo lá levantei a mão e a Clara Violas, catequista, ficou assim a modos com medo e "Vê lá se sabes?" "Diz lá meu menino! "e vou eu: «O Santo Sacramento do Crisma significa que agora nós pertencemos ao Exército da Santa Madre Igreja Católica Romana e somos soldados de Nosso Senhor Jesus Cristo! » " Muito bem! E como se chama aquele soldado que em vez de obedecer às ordens do comandante para avançar e atacar, vira as costas e foge?" Prontamente digo :« é um cagão , senhor bispo». Risada geral em toda a igreja e discussão pegada; Zé Borges acalma as hostes no coro:" o miúdo tem razão porque um cagão é um cagarela mas também pode ser um vaidoseco".
D. Policarpo lá me crismou, levei a bofetada do meu padrinho e fui-me ao cacau e ao presunto, ao queijo e aos cascuréis. Mas não fiquei ao lado do Chamiço de cabelo escarrafoucedo e cheio de TABU
XI GRANDE

sexta-feira, dezembro 12, 2008

A NOSSA FALA - CXX - (T)CHINCAR

O ícone da Justiça é, de si, polémico: olhos vendados, balança inclinada espada de gume lasso, jovem, são símbolos que podem ser lidos do lado avesso. De facto, ter os olhos fechados, pode indicar que a lei é igual para todos e que a justiça não privilegia ninguém, seja rico ou pobre, crente ou infiel, branco ou preto, nobre ou plebeu, mas também pode ser lido de outra forma: fecha os olhos à realidade, não liga a circunstancialismos decisivos, dogmatiza as suas conclusões, apodera-se da verdade e não quer saber de mais nada, breve, confunde verdade com veracidade ou verosimelhança; a balança inclinada também oferece leituras contraditórias, porque pode significar que, seja qual for a força dos argumentos, ela, a Justiça, há-de descortinar a verdade oculta e, qual divindade, "escreverá direito por linhas tortas"; ou, diferentemente, pode induzir a que se pense que, por muito que ajuíze, há-de sempre pender para um dos lados, já que a equidistância do fiel é perturbada pela inclinação dos pratos da balança; a espada de gume nada afiado pode querer dizer tudo menos que corta bem a direito e a juventude da donzela que a empunha, tal como à balança, não é obrigatório que signifique que a Justiça mesmo que seja aplicada tarde é sempre a justiça e nunca envelhece. Ora, é sabido que a experiência não deixa de ser boa conselheira e que só se obtém depois de longos anos de vida.
A Justiça, como a Beleza, a Bondade, a Caridade e outras virtudes são irrepresentáveis tal como não podemos representar um fotão, ou um Volt ou um Ampère, um Joule, etc. Podem ser traduzidos em valores matemáticos, em relações de ratio, mas nunca sabemos como são: sabemos o que valem.
O importante para nós não são as coisas em si mas o que elas valem. O valor da Justiça é mais importante do que a sua própria substância, e assim das outras formas ideais. É pela sua influência na nossa vida que nós as avaliamos.
O mais interessante no meio de tudo isto é que nós somos sempre insatisfeitos e não ficamos consolados com o que temos, isto é, apreciamos a estabilidade, a ordem, o equilíbrio, exigimos que se cumpram as regras que permitem a convivência pacífica, mas, a cada passo, achamos que "isto assim não está bem" e vai de, não raro, fazermos as nossas privadas regras de conduta que colidem com as geralmente aceites. Criamos o desequilíbrio, a desordem a instabilidade. É por isso que há guerra e crime e o resto que, se não existisse, dispensaria a necessidade da Justiça para corrigir a ofensa. A justiça vem sempre ao fim quando devia estar ao princípio. Atiramos:" é da mais elementar justiça que..." Só que a justiça não conhece o nosso elementar.
Não há muito tempo, um parlamentar afirmou que os animais não têm direitos. Aqui d'el rei que o homem não sabe o que diz, clamaram muitos pseudo defensores dos animais. Mas, a verdade é que muito antes de ele o ter dito já eu o pensava.
Quem dá e tira os direitos aos animais, somos nós. Afinal, criamos coelhos, galinhas, vacas, porcos, patos,...,pescamos, caçamos, fazemos trinta por uma linha aos animais e, ao fim, até os comemos. Invadimos-lhes os espaços, delimitamos-lhes os contornos, seleccionamos as gerações, limitamos a sua propagação...
Entre os muitos animais que tive, um me deixou saudades maiores: um pardal.
Apanhei-o caído do ninho, levei-o para casa, aqueci-o, fui à minhoca, fiz papa com gafanhotos esmagados com farelo, arranjei-lhe um espaço com cobertor para não ter frio, metia-lhe comida no bico, dava-lhe água com uma palhinha...O pardal cresceu e afeiçoou-se a mim: ia comigo para todo o lado, quando queria voava, mas voltava sempre para mim e nunca teve a porta da gaiola fechada. Essa foi a causa da sua morte: um gato comeu-o.
Ainda o vi a roer as últimas partes do meu Golifão...
Evidentemente que isto não podia ficar assim.... Arranjei modos de fintar o gato e um dia lá calhou: com uma pressão de ar (T)CHINQUEI-LHE um olho. Mandou um escrito ao ar, um grito de dor lancinante e eu«e se te torno a agarrar a jeito (T)CHINCO-TE o outro. »
À distância no tempo e com o passar dos anos, fui entendendo que a ordem da natureza é mesmo assim e que, se calhar eu devia ter deixado o passarinho à triste sina de ter caído do ninho .
É sempre assim: a morte de um pode ser a vida de muitos. Mas, no momento da emoção, a gente cega e chincar um olho ou dois a quem perturba a nossa felicidade, ainda que mesquinha, não faz diferença: tem que as pagar !
O ser humano é naturalmente mau: é o mal radical que já Kant propalou.
Bem se fazem, votam e aprovam Declarações Universais (passaram agora 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) ! Vede só como vai o seu cumprimento...
Com esta vos deixo.
XI GGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNDDDDDDDDDEEEEE