segunda-feira, abril 06, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXI - CABRUNCO ou CARBUNCO

Há datas, objectos, pessoas, situações que ocorrem ao longo da nossa vida que nunca mais esquecemos. Não podemos reviver o dia do nascimento, mas não esquecemos a data, ainda que ela não seja real. Muitos dos que me lêem sabem que, nas aldeias ,era costume o representante do Registo Civil ir apenas a espaços à vila e era nessa altura que registava os nascimentos , os óbitos e outros assentos. Se a data da morte não podia ser adiada, já a do nascimento, essa, podia sofrer aproximações, até mesmo algumas conveniências, como a seguir se explica: O limite máximo para que uma pessoa pudesse ser registado estava de acordo com o livro único de assentos. Deste modo uma criança, nascida a vinte de Abril, não podia ser registada depois de uma outra que, por hipótese, tivesse nascido a vinte e sete e os progenitores a tivessem registado à hora. Por isso , só havia uma hipótese: era registar a criança nascida a vinte como se tivesse nascido no dia vinte e oito. O curioso é que é esta data que passa a vigorar. O mesmo se passa com o casamento pela igreja: o que vale perante a cidadania é a data da convenção nupcial, mas a que é festejada é a da ida à Igreja. Muitas outras circunstâncias se passam ao longo da nossa vida em que a realidade real e a oficial são distintas.
Quantos de nós não damos por nós a protestar com o tempo do nosso nascimento. Ora quereríamos ter nascido antes e podia ter acontecido que muito do que hoje nos acontece estivesse lixiviado: pessoas, objectos situações, reacções, .... Ou ao contrário: queríamos ter nascido depois, ser mais novos, porque foi com tristeza que encontramos alguém ou alguma coisa que desejaríamos ter como nossa, mas é agora impossível ou até desaconselhável. Quantas vezes damos por nós a amaldiçoar o NOSSO tempo e a berrar para as paredes: Mal empregada! fora eu uns trinta anos mais novo e depressa me ajeitava com ela. Não me escapava, era limpinho...
Criamos mesmo ideais de fantasia, mundos de convivência impossíveis, sistema de relações irresponsáveis. Enfim, consideramo-nos uns azarentos.
Verdade insofismável é que essa pessoa que tanto nos diz, deixou marca indelével na nossa mente. São circunstâncias, objectos, outras pessoas, conversas, que sei eu, que esporadicamente nos acicatam a memória e nos deixam a sangrar.
A história dos amores frustrados é rica de exemplos...
Foi assim que no fim de semana passado se me depararam pessoas e acasos circunstanciais que me avivaram outras pessoas, outros tempos,...
Pessoa inesquecível das gentes de aldeia do meu tempo foi o senhor Joaquim Vicente. Barbeiro por baixo da casa do clube, veterinário, enfermeiro, curandeiro, sabichão, consultor das mais variadas necessidades. A ele se recorria por quase tudo e para quase tudo. A mim me lembro eu que me curou um nascido que tinha muito perto das partes fracas . Foi um castigo porque eu não queria nada daquilo: tinha que aguentar umas papas de linhaça bem quentes, metidas numa bolsa de enxofre Flor, alva quanto podia ser, ou não fora lavada por minha mãe que as guardava para embrulhar os presuntos, quando em Maio, os tirava da salgadeira e os levava para o forro a secar antes de os barrar com o colorau por mor da mosca vareja.
Era respeitado como poucos e a sua nomeada esticava-se quase como a da Sra da Póvoa. Homem de andar lento, nem gordo nem magro, cuidadoso no arrear, impecável na sua bata branca, mais parecia professora debutante, ou médico em hospital público, especialista no afio da navalha, artista no corte do cabelo, ponderado na sentença, avisado nos conhecimentos, respeitado na competência. Morreu cedo. Custodinha, a viúva, e Carlos o filho único, grande repórter da R.T.P., assassinado por ciúmes injustificados, eram benquistos enquanto por cá andaram e ainda hoje referenciados. Três netos prolongam a sua imortalidade, para além, é claro, deste trecho do Baságueda.
A cena mais pungente a que assisti foi a da queima de um carbunco.
O velho Gramacho tinha a face direita em chaga viva e ferida a alastrar. Era um carbúnculo, ou carbunco.
Quando era garoto por causa de ter sempre os ferros do espeta bem aguçados, oferecia-me ao ti David, ferreiro, ferrador e curador de cobrões, para lhe tocar o fole, em marcha certa para atiçar a hulha que lhe permitia tratar o ferro na bigorna a poder de martelada certeira, calma e pausada com o martelão. Estava eu naquele movimento de vaivém dando vento ao carvão quando o senhor Joaquim Vicente, impecável na sua bata branca, chegou com o Gramacho. O velho sentou-se num banco quadrado, alto, mais escuro que o breu e um ferro inox com uma espécie de cubo na ponta é posto ao rubro na forja. O Gramacho é preparado: põem-lhe uma venda nos olhos, um meio cobertor em volta do pescoço a cair para as pernas, desinfectam-lhe a ferida com gaze e benzina, e de repente o cheiro a carne queimada invadiu o espaço. Gramacho deu um urro monumental, mas mão fortes impediram que se mexesse.
A cicatriz ficaria para sempre.
Assim as pessoas de quem gostamos mesmo. Estejam perto ou longe, contactemos ou não com elas, quando elas são para nós significativas, não há tempo que as apague da nossa memória.
Eu tenho gente assim. Pessoas que não esquecerei . Pessoas que vivem comigo.Portanto estão ao pé de mim e eu gosto de as sentir. Peço-lhes conselhos, confesso-lhes segredos, relembro situações em comum, rio-me de situações, e invoco-as amiúde. São outros eus e eu sou outro eles ou elas. E como a cicatriz do carbunco nunca vão desaparecer a não ser quando eu as levar comigo para onde nos levam a todos por muito que gostem de nós.
Não são muitas essas pessoas, mas há-as que são determinantes , que me deixam marcas como o ferro esbrazeado da queima do carbunco.
Lembrai as vossas que eu não esqueço as minhas.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRAAAANNNDEEEEEEEEEEEEEEE

9 comentários:

Anónimo disse...

Para essa arte da barbearia e quejandos havia, ainda, o Domingos de Campos.

António Serrano disse...

Escrito com sentimento, muita nostalgia. É bom gostar das pessoas que nos marcaram BEM e recordá-las para sempre. Aqui, hoje, mostra-se um pouco do coração de quem não tem só memória. Parabéns. Obrigado.
Nota 1: Sou um dos que nasceram num dia e tem registo noutro, neste mês de Abril, diferença pouca. Cá em casa, comemora-se a data do acontecimento, servindo a do registo só para preencher documentos. Mas a explicação que me foi dada, quando o meu uso da razão deu conta da "anomalia", não se compadece com a que vem no texto: o prazo legal para o registo do nascimento era de 30 dias passado o qual dava multa de 3 escudos. Ora faltar ao trabalho para cumprir tal dever era de mais. Assim, esperava-se pela ida a Penamacor, geralmente no dia de mercado e era "matar 2 coelhos de uma cajadada". Ajustar a data era forçoso para escapar à multa... Foi a "razoável" razão que há muitos anos me deram os meus Pais... Não quero ser impertinente, mas parece-me mais lógica, pois seria grande a quantidade de garotos, nesse tempo, a nascer "fora de prazo"... Mas AB era quase sede de concelho - com esta é que o ex-Padre José Pedro arreliava "os da Vila" - e teria critérios próprios do seu ajudante de registo civil?
Nota 2. Cá em casa - outra vez? - também há marca de "carbunco" para levar até à cova. Feita pelo Dr. Rodrigão...
Nota 3. Falando do ex-Padre José Pedro não posso deixar de reclamar contra a injustiça que lhe fizeram não o citando, uma vez sequer o seu nome e o seu papel, no livro comemorativo do Centenário da Banda da minha Aldeia... Malhas que o "império" tece!
Perdôem-me o "oportunismo", mas sei que esta página é muito visitada e deixem-me aproveitar a boleia... Mesmo "na mó de baixo" - oxalá tenha dado a volta -o seu papel foi decisivo, na Banda e na vida de muita gente. Quase sempre para o BEM! Lá pelos anos 60...

oli disse...

mais um bom texto ..

Para quem tem saudades e quer ver....mande o seu contributo para canioli@clix.pt

http://oblogatoriodealdeiadobispo.blogspot.com/

(T)charepo disse...

Eu também fui registado bastante depois do dia de nascimento. Não havia dinheiro para o baptizado, eram despesas de pobre, mas nem para essas havia,e por isso se foi adiando. Depois havia que pagar a multa, nada pequena, e, como também não havia dinheiro para a pagar, mentiu-se ao padre.
O que me intriga é que o pároco devia saber do nascimento anterior e até era forreta, mas nada conseguia fazer!
Foram muitos séculos de fome, de desenrasca, de fazer pela vida. Contra essa herança genética, nem o padre mais avarenta conseguia mais uns escudos.
Um abraço aos baságuedas.

António Serrano disse...

(T)charepo,
Estamos a falar de coisas diferentes: para além do custo do acto, a multa era paga ao Estado, por atraso no Registo Civil, não tendo sido cumprido o prazo legal. O "descuido" no baptizado, que eu saiba - e já cá ando há muitos anos - não pagava nem paga multa, até porque não era nem é obrigatório. Embora a sociedade fechada em que nascemos quase o tornasse compulsivo...Mesmo hoje, quem se atrase no cumprimento da Lei paga a dívida, a coima e os JUROS! nem que seja com penhora, sobretudo dos que podem menos. Os ricos e os poderosos "safam-se" sempre... E baptizado só é quem quer. Sem consequências.

(T)charepo disse...

António Serrano:
Talvez fosse assim, mas não é essa a informação que tenho.
Toda a explicação que sempre me deram só dizia respeito à Igreja.
Uma forma de disciplinar os crentes no cumprimento dos sacramentos?
Vou falar com quem sabe, a minha velhota, e depois volta ao assunto.
Um abraço.

zé morgas disse...

Vale mais tarde do que nunca.
Em nada lamento o só agora ter “descoberto” este blogue
Durante duas “santas” noites de trabalho, outra coisa não li.
Que deleitoso divertimento foi para o meu espírito.
Vou ler os trechos todos. Com toda a certeza.
Que excelência
Bem Hajam

Karraio, Changoto
Como me recordo desses termos.
Foi na altura de sulfatar a vinha. Tinha prometido ao meu avô, O Ti Domingos Catcheiro, assim era conhecido na vila, que no dia seguinte lhe levaria o material que precisava para fazer a calda, ao chão de marrão.
Levantava-se sempre muito cedo, e cedo partia para o campo, muito antes da abertura da loja do Tó Católico.
Quando a loja abriu, já eu lá estava à porta com com a minha avó, a Ti Conceição Pereirinha. Tinha-me ido buscar a casa. Mercou o artigo, entregou-mo e disse-me:
--Vai num pé e vêm no outro. O teu avô está à espera.
Quis o destino que, assim que deixei a minha avó, aparecesse o Nalgas e o Chanfalho. Tinham os "espetas" com eles.
--Vamos a uma partidinha de espeta?
--Tenho que levar isto ao meu avó.
--É só uma partidinha
--Bora lá, e vale apertar canais.
Jogámos uma partidinha, a atirar para o longo, no final meti-me à estrada direitinho ao chão de marrão.
Chegado, e antes que tivesse tido tempo de o meu avó cumprimentar, e de lhe entregar a calda, papei logo uma changotada nos costados
--Karraio, atão...berrei eu
--Atão, atão o quê? está aqui um hôme desacorçoadinho á espera... os tratos e as horas são para cumprir.
Um hôme quando vai apanhar a camnete da víuva, não é a camnete que espera, é o hôme que espera a camnete.
Entendido? C'assnão ainda papas mais.
Embora a falta de vista o acompanhasse, dizia-me que me acertava sempre bem, porque eu tinha um costado largo.
Entendi, dei-lhe o produto para fazer a calda, e voltei para a vila, com uma valente changotada marcada nos costados.
O pau era bom, de marmelêro
Karraio, já um homem não se pode atrasar um bocadinho.

Um abraço

Zé Morgas

(T)charepo disse...

António Serrano:
Já consultei a minha velhota e aqui vai.
Dias ou semanas depois de nascermos, o meu pai ia-nos registar ao professor Couto, que era quem fazia os registos, em S. Vicente da Beira. E dava como data de nascimento o dia certo ou outro, se o batizado estivesse atrasado e a data prevista ultrapassasse os 30 dias.
Com as minhas irmãs mais velhas e comigo, o meu pai indicou uma data posterior ao nascimento, porque já passara quase um mês e o baptismo ainda não se realizara.
A multa era de facto paga ao padre(10 escudos, em 1957), mas o meu pai nunca pagou, porque, apesar de ter baptizado os primeiros filhos mais de um mês depois do nascimento, teve o cuidado de os registar de modo a que a data do baptismo calhasse dentro dos 30 dias.
Exemplo: eu nasci no dia 13 de Março, mas fui registado como tendo nascido no dia 30 de Março, e fui baptizado no dia 24 de Abril, salvo erro.
Um abraço.

António Serrano disse...

Tcharepo,
"Aprender até morrer..." Padre guloso, o de S. Vicente da Beira!!!
Felizmente, "há mais Marias na terra..." Ainda no passado Sábado de Aleluia, por todo o País - já não falo do Mundo - baptizaram-se centenas de adultos. Sem multa!!! Apenas com muita Alegria. Aqui na Diocese de Setúbal foram quase cem!!! Obrigado pela explicação. Abraço.