segunda-feira, fevereiro 15, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLI - ARTIMPENCHA / ARTEMPENCHA



A faladura do povo sempre me surpreendeu. É essa a razão de ser do próprio basa.Foram muitas as circunstâncias que me despertaram para esta temática. Sirva de exemplo o significante ' dembanão'. Foi por acaso que, um dia, a ti Tecla, carregada com o cesto que trazia da sorte da ribeira à cabeça, em conversa com a ti Conceição Pires, mulher das portelas sempre cheia de que fazer ... com a ti Tecla, porém, todas as pressas davam em vagares porque ela nunca tinha pressa, mesmo carregada com o cesto, tarefa, a bem dizer diária. Entre a sorte da ribeira e a casa, no cimo de aldeia, perto das escolas novas, o intervalo de tempo rondaria as duas horas, tudo para cima. Dizia eu, então, que foi com ela que naquele dia me deixou clara a evolução até ao dembanão e até ao dabanão. Ora vejamos: Tecla dizia que 'indembanão' uma pessoa estava viva e, logo, estava morta. Apurei o som e li: afinal, aquilo que me parece ser dabanão, mais não é que a aglutinação  de AINDA BEM NÃO.Daqui derivou para indembanão, depressa para dembanão e de caminho para dabanão. O que se passa é que eu pensava que o povo dizia dabanão com o sentido de repentinamente, quando, afinal, a raíz dessa semântica era anterior: vinha mesmo de Ainda bem não. Tudo claro, tudo justificado
Foi também por acaso que fui despertado para este artimpencha. Rosa Espeta Figos, de telemóvel na mão, a querer ligar para a filha, cujo nome não encontrava na listagem nominal constante no aparelho, sai-se com esta: "rais parta esta artimpencha que num intendo nada disto. Num incontro aqui o nome da mnha Celestre. Intigamente a gente ia ali à rosa, levava o númaro num papel e a chamada lá ia a ter. Agora com esta artimpencha, fica uma pessoa baralhada". Fui ter com ela e lá lhe liguei para a Celestre.
Pus-me, depois, a analisar  donde raio teria vindo este ARTIMPENCHA.E concluí: artimpencha só pode ser resultado de ARTE(facto) + EMPECILHO. Isto é: temos na mão um aparelho (artefacto) que em vez de facilitar o que nos propomos, só atrasa o nosso desiderato...logo, é um e(i)mpecilho. A nasalação é facílima de explicar e não é o basa que se vai entreter com aulas de fonética científica.
Serve este prefácio para vos deixar um texto que me vi na contingência de escrever porque também este tema me preocupava. Porque é que as igrejas clássicas, desde as prémedievais tinham aquela configuração e aquela simbologia. Claro que falo da simbologia cristã, já que as outras não são do meu conhecimento suficiente e não quero cometer abusos interpretativos sem fundamento. Então aqui fica esse texto e espero que não mais, ao entrardes numa igreja tradicional fiqueis estupefactos e não entendais o que tudo o que vos envolve significa. A intenção é ajudar... Se algum termo vos ultrapassa, só há que ir ao dicionário que estava na prateleira com bastante pó, devido a tanto tempo de descanso.

Aqui vai então:

Há quem diga que a história do cristianismo é a história mais bem contada de todos os tempos.

A figura de Cristo é um marco indelével na civilização, tanto mais que a própria história e o calendário se refere ao seu nascimento e se fala em dois grandes períodos : a. C. e d.C.

As Igrejas, locais sagrados por excelência, nem sempre existiram. A princípio os cristãos reuniam-se em catacumbas e em casas de grandes senhores onde se reuniam e debatiam a palavra divina.

As Igrejas não são exclusivamente lugares de culto; foram durante muito tempo casas de abrigo. Até mesmo foragidos, enquanto estivessem sob o tecto das igrejas, estavam protegidos e não podiam ser presos.

Repare-se ainda que a Igreja é um referencial de importância incalculável, durante muitos séculos: ficava situada no centro das povoações, o casario começava a construir-se à sua volta, e a torre sineira, indicava as horas, tocava  as Ave-Marias e marcava a todos os ritmos de vida.

Habilmente o cristianismo aproveitou-se das festividades pagãs em honra da natureza e transformou-as em datas sagradas. O calendário litúrgico é determinante sob muitos pontos de vista.

A ornamentação e a própria arquitectura das igrejas não são obras do acaso ou fruto da criatividade dos artistas. Obedecem a determinadas regras e acarretam consigo uma simbologia que convém deslindar para que quando entremos num templo saibamos ler o que está por detrás do que se vê.

É por demais consabido que as religiões vivem de mistérios, de dogmas, de preceitos, têm por base um livro sacro,  são representadas por pontífices, sacerdotes, monges, adivinhos, videntes, magos, até bruxos,…

Sendo o cristianismo uma religião da Revelação, é muito pouco o que está revelado. Por isso há os teólogos que esclarecem o que deve ser entendido, por detrás do que está escrito, ou vem da tradição oral. Interpretações outras que divirjam da oficial caem, inevitavelmente, no anátema, no apóstata, no iconoclasta, no herege, no protestante, no excomungado, no condenado…

A Igreja, no seu todo e cada uma em particular, representa o corpo místico de Deus, as pedras da construção são os fiéis que a suportam, alimentam e garantem a sua robustez e segurança.

As janelas significam a abertura ao exterior, nos vitrais representam-se figuras eméritas ou cenas bíblicas, o pavimento é o fundamento da fé e as colunas e vigas são representações dos grandes alicerces da doutrina da Fé.

Impõem-se algumas questões, que visam esclarecer o fiel que entra num templo e ignora o significado de cada um dos elementos que fazem parte da estrutura de uma eclésia.

Qual a orientação geral que deve ter uma igreja? Porquê?
Que representam a pedra do altar e a toalha branca que a cobre?
Qual a forma da pia baptismal?
A que se referem o fogo e o incenso?

Que motivos se encontram nas portas de entrada, nas jambas, nas arquivoltas, nos tímpanos?
Quais as três funções principais do sino?
Qual a colocação correcta do vitral?

Convém desde já estabelecer uma diferença entre o que é arte religiosa e arte sacra ou sagrada, já que são dois campos distintos.

Arte religiosa tem a ver com o artista e a sua liberdade criativa. Tanto pode fazer uma obra de arte religiosa como profana. Depende da sua inspiração executa-a em plena liberdade.
A arte sacra por sua vez não é de natureza sentimental, mas antes de ordem metafísica e cosmológica. Aqui o artista tem pouca margem para a sua liberdade criativa.

A arte sacra propõe-se tornar visível o invisível de forma tal que a divindade se torne acessível a qualquer crente.
Um templo não serve apenas para reunir os crentes mas também criar um ambiente de recolhimento e de comunhão de ideais que permitam uma relação mais próxima com o divino.

Deve notar-se que cada vez mais se verifica uma cada vez menor criatividade sacra. O mundo contemporâneo é cada vez mais materialista.

Só nos finais do  sec. III e princípios do sec. IV durante o império de Valério Diocleciano (284-305) os cristãos adoptaram a prática de adorarem deus em templos. Foi assim que surgiu o rito da missa (de Messiah, o Messias, o ungido).

O ritual da missa era, ao princípio, muito simples: consistia numa refeição – a ágape - e de leitura de escritos sagrados. Durante a ÁGAPE repartia-se o pão, rezava-se a oração de graças, repartia-se o pão e partilhava-se o vinho. Aos poucos a ágape desapareceu devido aos excessos.

De notar ainda que os primeiros cristãos não tinham manifestações públicas, tais como procissões, peregrinações ou cerimónias equivalentes.
Significativo é o facto de tanto a hierarquia como os fiéis não utilizarem vestes distintivas.

A doutrina de Cristo impunha serviço e não patronato. Assim, os discípulos das comunidades cristãs deviam estar disponíveis para servir e não para impor.

Ninitius Félix (convertido do sec. II d.C. ) afirmava. « Imaginais que nós, cristãos, escondemos aquele que adoramos porque não possuímos templos ou altares?
Que templo poderia ser erigido a deus se o universo é a sua maior obra. Como fechar o omnipotente dentro de um edifício? Não é melhor consagrarmos um templo à divindade em nosso coração e nosso espírito?»

Após a morte de Cristo começaram a formar-se pequenas comunidades que iam, elas próprias interpretando as escrituras. Aos poucos começou a ver-se que havia diferenças significativas. Por isso, uma vez que “todos os caminhos vão dar a Roma” estabeleceu-se que a doutrina oficial o cristianismo seria a ditada pela congregação de Roma.

Como já acima se referiu só a partir do sec. III se começaram a construir templos e não deixa de ser curiosa a determinação do papa Gregório Magno, já nos fins do sec VI:«podeis destruir os ídolos mas nunca os templos. Borrifai-os com água benta colocai as nossas relíquias e deixai que o povo continue  a prestar culto nos locais onde sempre o prestou».

O Cristianismo, de início, não tinha símbolos e vai enraizá-los em duas proveniências: as religiões cósmicas e na cultura hebraica.


O templo primitivo  era um templo natural que aproveitava colinas, grutas, árvores, pedras, nascentes,… Pode até fazer-se uma comparação entre esses templos e os actuais:

Templo primitivo (paisagem natural)
Templo cristão (paisagem petrificada)

Colina ou montanha sagrada

Gruta

Árvores ou pedras verticais

Pedra sagrada

Nascente

Fogos e fumos

Cerca

Céu

Colunas solares

Percussão em metal

Degraus do altar

Nichos ou ábsides

Colunas interiores

Altar

Pia baptismal

Candelabros e incenso

Edifício

Abóbada

Torres

Toque de sino


A orientação geral dos templos foi, inicialmente, com a porta de entrada virada a oeste e o altar mor para leste ( o nascer do sol), arquitectura que se perdeu quase por completo, devido a uma multiplicidade de factores.

Em sentido lato a igreja é o povo de deus. Em Niceia o credo definiu que a igreja seria una, santa, católica, apostólica, romana.
Depois da divisão do império romano por Diocleciano em 285, designa-se por igreja do Ocidente, ou Latina (porque a língua adoptada foi essa) os que dependiam de Roma e do papa e por Igreja Bizantina os que obedeciam à igreja de Constantinopla e seu patriarca.
A ruptura entre as duas igrejas deu-se oficialmente em 1054.

Existem outras nomenclaturas : igreja celeste ou triunfante e a terrestre, igreja visível e invisível. A mesma palavra serve para designar  a assembleia de cristãos e o edifício onde se reúnem os fiéis.

Principais partes de uma igreja:

Porta de entrada – uma das partes mais importantes do edifício pela simbologia que lhe é atribuída: passagem de um espaço profano para um espaço sagrado.

Ábside – Parte semicircular oposta à porta de entrada.

Absidíola- capela lateral que abre para o deambulatório.

Cabeceira – parte exterior da abside, em regra virada para leste.

Coro -  parte mais próxima do altar mor, acessível apenas a clérigos e raramente a crianças separado por um gradeamento -a coxia- limite a que os fiéis podiam chegar.

Cripta - Parte baixa destinada a receber a relíquia de um santo ou um corpo.

Nártex - preâmbulo da entrada antes do cata-vento e destinada aos catecúmenos.

Nave – parte reservada aos fiéis entre a entrada e a capela mor.

Transepto – Extensão ou corpo transversal que separa o corpo da igreja da capela mor e que torna a  planta da igreja cruciforme.

Zimbório - parte alta na vertical do centro do transepto e que significava o alto onde morava o Senhor. É para o alto que viramos o olhar quando oramos.

Há que notar que as igrejas eram espaços respeitados:”Não invadirei uma igreja de nenhuma maneira em virtude da salvaguarda que a protege. Também não invadirei os celeiros que estão no recinto da igreja. Não atacarei o clérigo ou o monge; não levarei boi ou burro, vaca, porco, ovelha ou carneiro, nem o molho de lenha, nem a égua e seu potro. Não apreenderei camponês, camponesa ou mercador. Não lhes tomarei o dinheiro nem os forçarei a resgate….”

A construção de um templo começa pela definição exacta do local onde ficará o altar encarado como o centro do mundo. Depois vem a orientação.
Em todas as igrejas as formas geométricas são a bem dizer o quadrado e o círculo. O círculo ou as suas divisões representam o céu e por isso se sobrepõe o quadrado/cubo.

A porta é por excelência, juntamente com o altar um dos locais onde a simbologia mais se representa. Normalmente as grandes igrejas oferecem-nos na porta os seguintes elementos:

TÍMPANO – a parte mais importante, grande parte das vezes preenchido com o Cristo em glória, sentado no trono com uma mão levantada e a outra segurando o Livro da  vida e ladeado pelos tetramorfo: homem,touro,águia e leão.
Pode ter também representado o Juízo Final, a Virgem Maria,ou a transfiguração de Cristo.

ARQUIVOLTAS – Por cima do tímpano, em regra representando a hierarquia celeste.

JAMBAS – colunas verticais ao lado da entrada representando profetas, reis bíblicos, santos,..

MAINEL – parte do fechamento das duas folhas da porta onde é vulgar encontrar-se o monograma de Cristo: o X e o P. ( De notar que estas letras são do alfabeto grego e  a primeira é o QUI e a segunda é o RÓ , ou seja XP é equivalente a CR, que mais não são no léxico latino as primeiras letras do nome CRisto).
O cimo das portas era normalmente semicircular aparentando ser o Arco do Triunfo, símbolo da vitória do Bem sobre o Mal.

Outros símbolos:

A TORRE e o CAMPANÁRIO – indicando o céu e convidando à oração, marcando o ritmo de vida dos fiéis ao som do sino, que simbolizava também o afastamento do mal. Por vezes as torres são encimadas por um GALO que faz lembrar a traição de Pedro. Além disso, o Galo é o despertador da manhã rompendo portanto com as trevas e anunciando a luz do novo dia. Santo Ambrósio apelida mesmo Cristo de GALLUS MYSTICUS.

PIA DA ÁGUA BENTA – ao entrar convém a purificação pela água.

BATISTÉRIO / PIA BATISMAL - símbolo da ruptura com Satanás e admissão no corpo da eclésia, recordando as nascentes de água pura. Muitas vezes de forma octogonal simbolizando a passagem do mundo terreno ao celeste.

ALTAR- mesa de pedra ou madeira, normalmente esculpida, onde antigamente os sacerdotes imolavam as vítimas e ofereciam incenso e agora se celebra a missa.
A toalha branca que o cobre mais não é que a mortalha de Cristo.
O altar é o coração da igreja por isso local central por eminência.
É também o local onde se reparte o pão e recorda o sonho de Jacob.

FOGO E INCENSO- como elementos regeneradores e purificadores.

A LUZ E OS VITRAIS – Os vitrais eram uma forma de explicar cenas bíblicas a quem não sabia ler.

Labirintos e cruz -  os espíritos malignos entrariam no labirinto e de lá não saíam.
Simboliza também o nascimento – a entrada - e a morte – a saída-.

 A cruz é o distintivo dos cristãos e só no sec XV aparece Cristo na cruz.

Já estou como a Rosa Espeta Figos.Só espero que isto vos tenha servido para lerdes melhor o que vos surge na frente quando entrardes numa igreja. 


XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRAAAAAAAAAAAAANNNNNDDDDDDDEEEEEEEE



Desenhos: Carlos Matos




sexta-feira, dezembro 18, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXL - (T)CHINHO / (T)CHINHA


desenho: Carlos Matos

Eram dois os alfaiates na terra xêndrica: José Sarrabeco e Tonho Pedro. Sarrabeco, tirante a água que a colher da sopa lhe levava à boca só bebia tinto, mas nunca em tascas, apenas em adegas. Mesmo assim não era fácil que ele bebesse outro vinho que não o que ele mesmo produzia. Já Tonho Pedro só bebia ginja.Todos os dias, a qualquer hora e sempre pelo mesmo copo, que tinha lugar reservado no café da Rosa. Sempre (t)chinho. Raramente se ficava por um, quase sempre iam dois, quando não mais e muita vezes encostava-se ao balcão do café e mandava às urtigas a agulha, dedal, ferro e demais apetrechos de alfaiate. Era bebedeira certa. A Sarrabeco nunca o vi torto, mas também não gostava de copos carecas. Como morava no beco do meu avô Comandante ainda despejei uns tintos com ele. Era espadaúdo, mas um tanto atarracado e tinha uma voz grossa, de baixo, em qualquer coro, enquanto Pedro era alto e tinha uma voz que mal se ouvia. Era preciso atentar bem senão tinha que repetir umas poucas de vezes e afinava com isso.
Já sapateiros, havia bastante mais: só Guerrilhas eram três (Mnel, Zé e Chquim). Tão depressa andavam aos abraços como ralhavam por tudo e por nada - daí o nome comum de Guerrilhas. Depois tínhamos o Fernandinho Lucho, o Mnel Viagre, o Chquim calça defuntos, o Chquim Camião, o Tonho Lobo. Outros tempos em que as artes e ofícios davam de comer a muita gente. Tudo desapareceu e já ninguém deita sequer uma tomba na biqueira de uma bota...O mundo do descartável invadiu tudo e vai daí foi preciso arranjar outros modos de sobrevivência.
Antigamente era tudo feito por medida e à medida, agora bastam pequenos retoques e já está. Até mesmo já se encontram companheiros e companheiras através de agências. Já não há tradição do velho namoro: vai-se à agência e encarrega-se de arranjar o parceiro ideal para dois que nunca se cruzaram. Para não falar já da Net...Bem, adiante!
Já vos deveis ter dado conta que o termo de hoje é uma adaptação popular de CHEINHO/A. O que se passa é que, vá-se lá saber porquê, não sendo regra, as palavras escritas com "ch" têm pronúncia de "Tch": tchave por chave, por exemplo, enquanto as têm a grafia de "X" mantêm essa mesma pronúncia sem qualquer aspiração. É claramente visível em buxo (planta de sebe) e bu(t)cho  (estômago de pequenos ruminantes.). Não deixa de ser curioso também algumas palavras de grafia com "ch" não verificam o tal "tch" quando mantêm a vogal primitiva, mas já o verificam quando sofrem apofonia: sirva de exemplo "o reumatismo faz inchar a mão" e "o reumatismo faz in(t)cher a mão". Já por mais de uma vez aqui tratamos deste fenómeno fonético, da substituição do "a" pelo "e", pelo que se recomenda leitura de outras páginas do basa.
Jolim da pata branca era malino quanto bastasse. Tirava provocações da cabeça, ao instante, e deixava os visados sem resposta quando o entalavam e ele se saía com resposta de pitonisa. Um artista era o que ele era. Depois virava as costa com aquele sorriso de cão Mutley, irónico e cínico a um tempo.
Nas terras xêndricas não havia autoridade regimental. Nos tempos a que nos referimos a autoridade civil era desempenhada pelo regedor, figura entretanto extinta, e também pelo senhor presidente da junta  e pelo senhor professor e, claro, noutro  âmbito, pelo senhor prior. Depois, bem, depois eram os pais, os avós, os mais velhos,... Por tal motivo a G.N.R. do posto de Penamacor, em patrulha, umas vezes a pé, outras a cavalo, visitava amiúde a aldeia e ia controlando desmandos com que se topasse. Não eram bem vistos porque obrigavam ao capacete nas motos, a trazer a documentação da bicicletas, a ter luzes reflectoras nas carroças, a licença de obras,... Jolim foi multado porque andava de bicicleta sem carta.. Ganhou um ódio tal à GNR ainda por cima porque levou uma malha valente do pai que teve que arrotar com o pagamento da multa.
Vai daí, cada vez que passava pela GNR gritava a plenos pulmões: A Guarda é uma grande merda!...Até que um dia um agente a cavalo o perseguiu, agarrou e interrogou: «porque é que a Guarda é uma merda, hein?» e Jolim:" A Guarda é uma merda, porque a Covilhã, que não é capital de distrito, tem muito mais indústria do que a Guarda !" O agente ficou a olhar para ele e teve que o largar sem lhe poder fazer nada.
Jolim, em pose de quase toureiro que capeia um touro, sai calmamente com o peito tchinho.
Também eu, de boca tchinha vos desejo o melhor Natal que vos seja possível na companhia de quem mais desejardes e puderdes.
Já só voltarei em 2016.

domingo, novembro 01, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXIX - SARAFANA


Há questões que, de vez em quando, me ocupam o espírito e me desafiam  no sentido de lhes procurar dar resposta. Uma delas é a de saber se o nosso cérebro tem alguma predisposição natural para crer em seres transcendentes, ou, o que dá na mesma, se há alguns neurónios que activam a necessidade de crer em entidades superiores a nós mesmos, tal como o hipotálamo, por exemplo nos indica a necessidade de comer, beber,... . Pode parecer uma questão peregrina ou mesmo bizantina, mas o que é facto é que ela me inquieta. É assim uma espécie de sarafana irritante que não nos deixa parar quietos. Não se sabe bem como é que elas entram pela manga da camisa acima ou se espetam na roupa, o que se sente é uma permanente comichão e não adianta tentar esquecer porque simplesmente não é possível. Quanto mais nos mexemos mais ela se entranha. A alternativa é só uma: tirar toda a roupa até que se encontre a maldita da sarafana  ou pragana se vos dá mais jeito, ou seta como também lhe chamam. O nome é indiferente, o efeito é sempre o mesmo: enquanto a não sacarmos do corpo, não conseguimos fazer nada. 
O problema das localizações cerebrais sempre foi polémico nas ciências humanas que se dedicam, no todo ou em parte, ao estudo do cérebro humano. Não é do âmbito despretencioso do basa aprofundar a temática, Deixemos isso para quem sabe da folha ou então acabo por vos pespegar uma sarafana que nunca mais vos safais dela. O basa gosta de divertir, não de massacrar.
Ainda assim seja permitido datar a problemática: o neurocirurgião Pierre Paul Broca em 1861 ao efectuar uma autópsia num conhecido taranta de Paris que ficou conhecido por Tan-Tan, já que era o único som que emitia, verificou que ele apresentava uma lesão profunda na base da terceira circunvolução frontal esquerda. Vai daí, atribuiu a afasia de Tan-Tan a essa lesão cerebral, situando nessa zona o centro nervoso da fala. Outros se seguiram com novas investigações (Wernick, Fritch, Hitzig,...) e a apetência pelo estudo das localizações cerebrais desenvolveu-se, não sem que houvesse quem a tal se opusesse, defendendo que "o homem pensa com o corpo todo", como foi o caso de Kretschmer e Anna Damásio, ou Lashley que se recusava a admitir que o cérebro fosse uma prateleira compartimentada, influenciado pela corrente gestáltica de Kohler, Kofka e Wertheimer. Bem...,adiante, senão já não descobris onde está a maldita da sarafana.
Não sei se estais a ver onde eu quero chegar com a minha questão inicial: há ou não uma localização cerebral para a prática de práticas religiosas, sejam elas quais forem, assentes em crenças e mitologias que como dizia o nosso Pessoa:" a Fé não pensa; pensar é duvidar; crer é morrer."
Inelutável é que desde os próstinos mais prístinos da sociedade humana sempre crenças em seres sobrenaturais marcaram presença. As religiões monoteístas são já formas tardias na história da religiosidade humana, que se iniciou muito antes. A explicação para este fenómeno, a um tempo individual e colectivo, também não é pacífica, como não é a das localizações cerebrais: uns dizem que resultou das tentativas de explicação da origem do universo e das incapacidades que os homens reconheceram em não o conseguirem fazer satisfatoriamente, enquanto outros atribuem essas crenças a predisposições naturais situadas no nosso cérebro. Esta última tese data de 1970 com o antropólogo francês Dan Sperber que chegou a essa conclusão enquanto estudava uma tribo do sul da Etiópia (Os Dorzé). Esclareçamos  que o cérebro não está préprogramado para crer, mas que existem reacções cerebrais diferentes quando se vivencia uma qualquer religião através de um ritual, disso já não restam dúvidas porque investigações de neurologistas em voluntários a que se ligaram eléctrodos o confirmaram. Pascal Boyer, professor na Universidade de Washington, nesta linha afirma no seu livro "E o homem criou os deuses" (2001), que o cérebro tem muito mais apetência para determinadas informações que tem natural tendência para fixar, e outras para desprezar e nas primeiras encontram-se as religiosas.
Deixo-vos a vós a opção pela tese que entenderdes, sendo que a outra vos há-de arreliar  como a sarafana.
Padre Zé ou Zé Padre, tanto dá, homem baixinho mas espadaúdo, careca, castiço no trajar, sempre com o seu chapéu preto de aba larga, lenço vermelho ao xadrez  no pescoço, por causa mesmo das sarafanas, era o mandador nas malhas ao mangoal na eira da ti Natividade. Aos Domingos Padre Zé deixava a Raivosa onde morava com Tonho Troncho como vizinho mais próximo e descia ao povo. Gostava muito de jogar ao fito e logo cedo marcava vez na taberna do Fatela. Grande parte das vezes tinha dificuldade em arranjar parceiro e até adversário porque era demasiado rezingão e não sabia perder, azucrinando as orelhas a todos. Era mesmo o que se podia chamar de uma sarafana a rezingar: os outros tinham sorte e ele tinha classe. Acabou mal o nosso Padre Zé, pendurado de uma trave com uma corda no pescoço.
Deixo-vos por aqui  para não me chamardes sarafana, tantos foram os nomes que hoje aqui vos deixei. Voltarei em breve.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGRRRAAAAAAAAAAAANNNNNNNDDDEEEE.

Desenhos de Carlos Matos

terça-feira, setembro 29, 2015

VINDIMA 2015






MESMO SEM FAZERES NADA
JÁ TENS DIREITO A UMA ENTRADA:
APARECE-TE TUDO SEPARADO
MAS PODES COMER TUDO JUNTO
FRUTO RASTEJANTE AMARELADO
FACA CORTANTE PARA O PRESUNTO
FATIAS DO BELO CASQUEIRO
ALBARDADA ROXA EM SARAPILHEIRA
PIMPÃO AO VINAGRETE BEM ALHADO
PELO GRANDE MAIM APANHADO
NA CORRENTE DO TEJO TRAIÇOEIRA
À “COITELA” ARREFINFA-LHE UM BRANQUINHO
QUE HÁ - DE ESTAR BEM FRESQUINHO
PEGA NO BALDE E NA TESOURA
E ALA! A COLHER A UVA LOURA.
NÃO TE PREGUES A FAZER SUDOKU
E DÁ O LITRO, NA CARGA E DESCARGA
QUE ISTO NÃO É SÓ COMER À LARGA…
COMO FAZ QUALQUER GABIRU…
SE TE DER A SEDE, FAZ UM INTERVALO
MOLHA O BICO COMO FAZ O GALO
E VOLTA LOGO PARA O TRABALHO
QUE TUDO HÁ-DE ESTAR PRONTO A HORAS
E NÃO DEVE HAVER MUITAS DEMORAS
ENTRE O FIM DA COLHEITA E A BUCHA
QUE TE DARÁ MUITA ALTERNATIVA
NÃO SENDO PRECISO DAR-TE UMA CHUCHA
PARA TE CALAR ESSA BOCA ESQUISITA.
ORA VÊ SE TE AGRADA O CARDÁPIO
NÃO INVOQUES IGNORÂNCIA DO DITO
COMO FAZ O ESPERTO LARÁPIO:
FINGE QUE COMES DE TUDO SÓ PARA ARMAR
E ATASCA-TE NO QUE MAIS TE AGRADAR
A VER SE ÉS CAPAZ DE, DESTA VEZ, ACABAR
O QUE À FRENTE TE FOR POSTO COM AGRADO
E COMO VAIS VER, SERÁ BEM VARIADO:
CALDO FEITO APENAS COM PRODUTO NATURAL
BASTO COMO PERTENCE À MODA ANTIGA
SE COMERES DOIS DISCOS ENCHES A BARRIGA
SAMPAIO, BOLBOSA, TUBÉRCULOS VÁRIOS
TUDO TRITURADO PARA NÃO TE ENGASGARES
MANGA DE CAPOTE E, CLARO, O BELO REPOLHO
UM POUCO DE ADUBO DE TRASEIRO PORCINO
HORTELÃ BRAVA, QUE NOTARÁS SE CHEIRARES
NUMA COR QUE TE FARÁ ENCHER O OLHO,
IGUARIA QUE NÃO PODES PERDER, SE TENS TINO.
SARRABULHO À MODA DO CHEFE, DE CHAPÉU NOVO,
E AVENTAL A “CONDUZIR”, COMO BEM PERTENCE
QUE TE FARÁ LAMBER OS BEIÇOS DE PRAZER
TRAZENDO-TE À MEMÓRIA OS TEMPOS DE CRIANÇA
QUANDO SÓ COM ISTO ENCHIAS BEM A PANÇA…
MAS ALEGRA-TE QUE TENS MAIS PARA COMER:
TAPA OLHOS RECAL, EM MOLHO VERDE, POIS ENTÃO,
ACOLITADOS POR ESPARREGADO POPPEYANO
QUE PODERÁS ALTERNAR COM BELOS CICLISTAS
COLHIDOS NA QUINTA DO LÍRIO JÁ ESTE ANO
SERVIDOS EM TRAVESSA DE DAR NAS VISTAS
BEM ENVOLVIDOS EM TRICANA SABOROSA
OU, EM ALTERNATIVA, O CLÁSSICO MARHUA
QUE FICA BEM EM MOLHO DE ‘SALSA’ CRUA
E QUE TE VAI DEIXAR A BOCA BEM GOSTOSA.
JÁ ESTÁS FEITO GULOSO A PERGUNTAR:
“E DO FORNO A LENHA NÃO APARECE NADA?
LOGO VERÁS, FUMEGANTE, A REDONDA CAÇOLA
COM CHICHA DA VERDADEIRA, BEM MARINADA
QUE TE PORÁ A COÇAR ESSA TONTA TOLA
EVIDENTEMENTE QUE EXCELSAMENTE ACOMPANHADA
PELA BELA BATATINHA SOLTEIRA, MAIS QUE FAMOSA
QUE DEIXA TUDO DE CARA À BANDA
PERGUNTANDO A ESMO PELA RECEITA
O QUE É BOM, PARA FICAR COISA PERFEITA
SÓ PRECISA QUE NÃO O VÃO ESTRAGANDO
COM KNORRS, MAGGIS, E OUTROS AFINS
DEIXANDO A NATUREZA JUNTAR OS INGREDIENTES
QUE ASSIM NUNCA FAZ MAL AOS COMENTES
SE TENS POR HÁBITO COMER FRUTA
LOGO AO PRINCÍPIO PÕE UVA DE RESERVA
A NÃO SER QUE TE CONSOLES COM ALGUMA ERVA
COMO FAZ O GATO QUANDO TEM PRISÃO…
MAS AINDA TENS PARA IR À LUTA
VELHÍSSIMOS ESPREMIDOS DE SABOR ELEVADO
QUE TE FARÃO FICAR BEM CORADO.
AINDA PODES LAMBER-TE COM UM PRETINHO
TIRADO À HORA, BEM QUENTINHO
E UMA VARIEDADE DE DIGESTIVOS NACIONAIS
E ALGUNS TAMBÉM ESTRANGEIROS
PARA TE PROVAR QUE NO VELHO PORTUGAL
TAMBÉM ESTAMOS NA ALDEIA GLOBAL
SE QUERES MAIS VOLTA PARA O ANO
QUE NESTE, NÃO HÁ MAIS NADA, MANO!

P.S.- I – NÃO, NÃO É SIGLA DE PARTIDO
É SÓ PARA TE RECORDAR E CERTIFICAR
QUE EM TODO O TEMPO SEMPRE TERÁS
TINTO E BRANCO DE UVA, MEU RAPAZ,
SUMOS, ÁGUA E CEVADA A BORBULHAR.
MAIS NÃO TE POSSO FAZER, CARO AMIGO.

P.S.- II- VOU VER SE ARRANJO VAGAR
PARA COZER PÃO EM FARINHA DO TÓ

QUE AINDA, PARA MOER O CEREAL, USA A MÓ.


QUINTA DO CHANGOTO, 26 DE SETEMBRO  DE 2015


















sexta-feira, setembro 11, 2015

A NOSSA FALADURA -CCXXXVIII - CÓFIA

De algum modo, quando olhamos para as mitologias e divindades dos antigos, mormente as greco-romanas, que nos estão mais na matriz, rimo-nos daquelas fabulosas histórias e acontecimentos que justificam os mais diversos comportamentos dessas entidades sobrenaturais...
Consideramos ridículas muitas acções e situações que as diferentes divindades nos proporcionam. Nós, que somos educados e formatados para uma mitologia de deus único, entendemos que aqueles nossos antanhos eram uns mentecaptos que tinham um deus para tudo...
Com o advento do cristianismo e, mormente, depois do édito de Milão, promulgado por Constantino em 313 que a tornava como religião oficial do império romano, essas divindades desapareceram e o deus uno e trino ocupou o lugar cimeiro em matéria de religiosidade. Foi sol de pouca dura já que logo após a morte de Constantino ocorre a tetrarquia imperial e o cristianismo começa a sofrer as primeiras cisões com a ortodoxia oriental e com os coptas no Egipto. Muitas outras cisões ocorreram ao longo dos tempos: basta lembrar os cárpatos, os albigenses e mais tarde a Reforma com Lutero, Calvino, Huss, Henrique VIII,... e mais na actualidade a igreja dos santos dos últimos dias, a iurd, a piniel, a maná e toda uma plêiade de derivados do cristianismo que seria fastidioso enumerar, para além de nunca ficar completa. Fiquemos, pois, por aqui...
Deixando de fora o judaísmo, a mas antiga religião monoteísta, mas que sempre ficou muito circunscrita e confinada, a outra grande religião monoteísta é o islamismo. A sua expansão é hoje incrível  e são também conhecidas algumas diferenças de interpretação do livro fundamental que é o Corão.
No que aqui nos diz respeito é de assinalar que o islão nasce também ele, a partir da Bíblia ou, se preferirmos, da Torah.
Javé prometeu um filho a Abraão donde derivaria toda a descendência de Israel. Ora, a esposa de Abraão, Sara, era estéril e ela, querendo que Abraão deixasse descendência ofereceu-lhe a escrava Agar para que ele tivesse com ela um filho. Assim foi: nasceu Ismael. Só que os judeus e depois os cristãos entenderam que o bastardismo de Ismael não correspondia à promessa de Javé. Tanto assim que Sara acaba por conceber, já idosa, um filho de Abraão,que chamou de Isaac que será depois o pai de Jacob, o tal que desposou Raquel, serrana bela, filha de Labão, que daria origem às doze tribos de Israel. Para o Judaísmo e para o cristianismo é Isaac o filho legítimo de Abraão, sendo que os cristãos acreditam que o Messias, Cristo, descende  da linhagem de Isaac, enquanto os judeus ainda esperam a vinda do Messias. Maomé e os seus seguidores entendem que o filho de Abraão que cumpre a promessa de Javé é Ismael e portanto derivaram a descendência até Maomé que é avisado da sua missão pelo arcanjo Gabriel, exactamente o mesmo que anunciara a Maria a sua gravidez sem intervenção humana....
Assim sendo o grande patriarca das três religiões monoteístas que mais influência exercem e exerceram no Ocidente é Abraão.
Já para aqui vai muita história...
Vai já longe o tempo em que eu, puto reguila, passava as tardes soalheiras de Verão com a minha bisavó paterna, Isabel, vizinha da velha Menas e da velha Manata , enquanto os meus pais faziam os quintos lá para a serra da raposa e da marvana.. Eu corria lagariça acima, lagariça abaixo, empurrando o arco e elas, sentadas em tropessos de cortiça, à sombra e junto à ombreira da porta de uma delas, dedicavam-se à cófia, fiando o linho de roca e fuso na mão. Na altura o empedrado que actualmente percorre toda a Lagariça não existia, salvo em poucos espaços. Cansado do arco, de vez em quando lá me sentava junto delas e tornava-me o alvo das atenções. Foi com elas que aprendi muitas lenga-lengas que, com mágoa, já não sou capaz de reproduzir. Ainda assim deixo-vos estas: "Pipa velha, pipa nova, foi ao mar arrebentou, aqui está meus senhores quem se cagou"; sarra madeira no cu do zé peneira, lá vem o leão com a tranca na mão, feijões pra mim, cagalhões pra ti; pico pico sarapico, meu compadre zé penico, foi ao mar buscar sardinha para o filho do luís que está preso pela ponta do nariz, três cavalos a correr, três meninas a aprender, qual será a mais bonita que se irá esconder...
Pois é, o tempo tudo leva e tudo traz...
Por isso tal como a cófia já desapareceu da prática diária das mulheres à ombreira da porta e estas lenga-lengas já ninguém as diz, quem nos garante que daqui a dois mil anos ainda se pratiquem quer o cristianismo quer o islamismo ou o judaísmo. Pode ser que outras religiões e outros deuses ocupem o espaço sagrado da humanidade
E que bom seria que não se cometessem tantos crimes hediondos como aqueles a que hoje assistimos, tudo em nome de deus!
O mal já não é só de agora: Gregório IX institucionalizou a inquisição em 1231 e já antes as cruzadas combatiam os hereges desde 1095 até 1272. Em Espanha a Inquisição atingiu foros inimagináveis com Tomás Torquemada e chegou até ao sec XIX. O Islão iniciou-se mais tarde: em Meca no ano de 610 e confirmar-se-ia com a Hegira (fuga de Maomé de Meca para Media) em 622.
Será por isso que na actualidade as chachinas, ainda em nome de deus, sobretudo perpetradas por seguidores de Alá,contra todos os infiéis, estão cada vez mais acesas.
Só vos lembro que hoje é dia 11 se Setembro!
XXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDDEEEEE

quinta-feira, agosto 13, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVIII - (T)CHINA /(T)CHÁ(T)CHARO / XÁXARO

A infância de antigamente pouco tem a ver com a de hoje. Desde logo porque, em regra, as famílias eram numerosas e depois porque as circunstâncias nada tinham a ver com as de hoje. Garotos e garotas, se queriam brincar, tinham que imaginar e construir os seus próprios brinquedos. Essa criatividade e destreza são impossíveis de verificar nos tempos que correm: à uma os pais digladiam-se entre si para ver quem o há-de ir levar ou buscar à creche/infantário/ama. A bem dizer o que as crianças têm são tempos ocupados e não tempos livres. Ou seja: como só se é criança uma vez, esta malta nova de hoje nunca chega a ser criança e nunca deixa de ser criança. Os pais chamam-lhe sempre garotos/as, são controlados no espaço e no tempo (refiro-me a gente até por volta dos 14/15), mantêm-se sob dependência paternal/maternal cada vez até mais tarde, não podem brincar na rua, são assoberbados de tarefas mais que muitas: natação, música, judo, ginástica, música ritmada,...têm que se portar como adultos à mesa e, paradoxalmente, cada vez mais tarde lhes é concedida e reconhecida autonomia...
Não é tarefa do basa escalpelizar o tema. Volvamos, pois, ao xáxaro  e afins.
Qual o garoto que não jogou à bilharda, ao pião, ao esconder e achar (escondidas), ao burro, à raioula, ao fito, à cavaca, ao pinoco, ao espeta, ao arco, à marca, ao fósforo, ao berlinde, ao eixo rebaldeixo, ... quem não rolou num carrinho de esferas, não fez um arco de mimosa e uma flecha com um alfinete na ponta... Teria mesmo havido algum garoto que não tivesse construído um carrinho de empurre com uma cana rachada, um pequeno eixo de esteva e uma roda de cortiça, um moinho ou vira vento feito de cana de embude seca, folhas de caderno usado e carapetos a servir de agrafos? Aposto que não houve. Eu fiz disto tudo e não foi sozinho...
E as garotas? Também elas brincavam. Raramente os dois sexos se juntavam no recreio da escola, mas apesar do muro divisório, fácil era observá-las a jogar ao descanso (macaca) à roda com um lenço, à rolha, ao ringue, à apanhada, à (t)china ou (t)chá(t)charo,... Era neste jogo que eu mais as admirava. As tchinas eram cinco pedrinhas (seixos) bem polidas, apanhadas em leito de ribeira, às vezes em buracos de calhaus rolados, e depois exigia-se toda uma técnica manual quer com a palma quer com a cota da mão. Era deslumbrante assistir a tanta perícia com uma rapidez e segurança incríveis. Jogavam entre si, à vez, a ver quem conseguia cumprir todos os passos de uma jogada. Em regra, acabava sempre com gritos estridentes por parte da vencedora, Uma beleza, era o que era.
E hoje, a que jogam os nossos meninas e meninas? Jogam aos telemóveis, aos tablets, aos androids, aos ipads,... Tudo jogos parados, tudo jogos individuais, tudo electrónico, tudo previsto, tudo mecanizado, tudo controlado, tudo pontuado.... Tempos, direis vós. É verdade. Do mal o menos: sempre se recuperou e aprimorou a função do polegar, esse dedo quase esquecido e que tão relevante papel desempenhou na evolução da humanidade.
Isabel Rela era uma das maiores artistas no jogo da tchina. Era um encanto ver aquela garota com os tchátcharos na mão. Nem sei mesmo como conseguia tamanha destreza, sobretudo quando aventava as cinco pedrinhas ao ar e as aparava, todas juntas na cota da mão. Como que fazia uma concavidade onde as pedrinhas, qual animal amestrado caíam juntinhas, virava num instante da cota para a palma e lá estavam as pedrinhas prontas para novo jogo. Não me lembro de a ter visto perder. Tinha uma língua como um braço. A ela se aplicava aquela máxima do velho Comandante do Inferno:"«às mulheres ainda que lhe cortem metade da língua, falam sempre o dobro do que devem». Não sendo propriamente uma regadora, Rela sabia dar a volta a uma qualquer história e pôr-lhe um cunho pessoal que fazia com que mais ainda toda a gente se calasse quando ela falava. Sim, porque tinha uma voz estridente, sonora e agressiva, que se sobrepunha a qualquer outra, assertiva no seu todo, Isabel ficava sempre por cima quando se dispunha a ser ela o alvo das atenções. A mãe, ti Conceição Rela distinguia-se pelo nariz que era qualquer coisa de descomunal. Viviam nas Portelas mas, aos Domingos e mesmo durante a semana vinham amiúde ao povo. Eram cinco irmãos e como todos, ao tempo, começaram a esgalhar bem cedo. Isabel, garota ainda, foi contratada por Tonho Paravós  para o plantio de sobreiros na zona do Rosmaninhal. Trabalho duro, de sol a sol, sacola numa mão e árvore na outra, tinham que abrir um covacho de cerca de 30 cm de fundura enterrar o sobro, abrir uma caldeirinha para o tractor com água que vinha atrás os poder regar e a água não esbarrondar colina abaixo. Outros tempos em que o jogo não tinha electrónica!
Contava ela que um dia que ia na camioneta da carreira que apanhara no transbordo na ponte de S. Gens, sendo motorista da Martins Évora, empresa de camionagem concessionária dos transportes públicos, àquele tempo, para aquela zona raiana, sendo motorista dizia o ultra famoso Sr Ernesto. Era o único motorista que era tratado por SENHOR. Todos os outros eram ti João, ti Fernando, ti Zé Filipe,... O SENHOR Ernesto era da vila, sempre impecável no trajar, casaco e calça vincados, gravata sempre justa, camisa engomada, sapato reluzente. O cabelo, encaracolado, fazia inveja a artista de Hollywood. Conduzia uma GUY, a mais antiga da empresa, ainda com motor saído, cuja dianteira ia para aí uns três metros à frente do local onde Ernesto se sentava a conduzir. Tinha uma bitola ao centro e dois balizadores nas laterais. Ernesto nunca fazia marcha atrás. Só sabia conduzir para a frente. A velocidade máxima devia rondar os vinte quilómetros por hora, ao baixo e desde que a estrada fosse alcatroada, coisa que não era frequente naquele tempo e para aquelas bandas. Ernesto danava-se por mor do pó que lhe assentava na indumentária que ele, mal chegava sacudia e escovava ao pormenor.
Ia então Isabel rela com esta inesquecível figura da condução a caminho do Rosmaninhal para o plantio do sobreiro. Naquele dia ia mesmo no banco da frente logo atrás do banco da fiscalização, ocupado pelo também ultra famoso cobrador João Tarzan, que ali se sentara depois de ter cortado os bilhetes a todos os passageiros. Ernesto era de poucas falas, cão de vila, vaidoso quanto bastasse, dava pouca cúnfia, mas naquele dia estava para elas e vira-se para Tarzan: «oh!João, hoje vamos a andar bem, não vamos?» ( Rela a contar isto já quase não se tinha de tanto rir...) e João, malino como era, com a escola toda: " Vamos, pois, senhor Ernesto, olhe aí um macho atrelado a uma carroça, a ultrapassar a camioneta!"...
Era o que valia para matar o tempo àquela velocidade. 
Boas Férias.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE



                                         desenhos: carlos matos

quinta-feira, julho 02, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVII - ABRANGER / ABRENGER / ABRINGER

Tenho para mim que o mundo é redondo pela simples razão de que não tem ponta por onde se lhe pegue. Dispenso-me de vos massar com exemplos que o demonstram à evidência. Diferencio-me assim do velho Platão que defendia que a forma redonda do mundo não podia ser outra senão a redondez. Atenção: eu disse redonda e não esférica, embora no mesmo Timeu, o encarregado de executar as determinações da divindade, o demiurgo, fique justificada a forma da nossa cabeça, também ela de formato próximo do redondo. Na verdade, se entendermos que os gregos diziam que havia sete formas diferentes de movimento (seis rectilíneas: para cima e para baixo, para direita e para a esquerda, para a frente e para trás, e, claro, o redondo) facilmente compreendemos que a única forma plausível para o mundo só podia ser o redondo. Os gregos tinham como lema a harmonia e a perfeição. É ver qualquer das suas manifestações artísticas, seja na palavra - o teatro -, seja na pedra (arquitectura, escultura..., na cerâmica, enfim, e logo deduziremos da existência destas duas características, a que, consequentemente teremos de juntar o equilíbrio. Convido-vos a reparar no discóbolo, na vitória de Samotrácia,...
Ora tudo isto se junta no redondo: o fechamento é a própria união do princípio e do fim. Começa-se onde se acaba e acaba-se onde se começou. É a consecução do pretendido pelo efésio Heraclito: a harmonia dos contrários.
Porventura também vós que me ledes vos perguntareis que tem de tão original na nossa faladura este abranger. Como bem recomendava Heidegger, as palavras devem ser tratadas com desvelo e o seu significado deve ser buscado nas suas origens. Não é a semântica, nem a pragmática, que nos deixam a pureza da palavra, mas a etimologia. Vem a talho de foice ver o que o novo acordo ortográfico fez ao português: servilmente, abandonou-se à fonética e esqueceu o radical. Se fordes a um dicionário etimológico, o que vos vai aparecer sobre a origem desta palavra é obscura. Não admira portanto a enorme variedade de significados que lhe é atribuída.
Zé Verniz, Forelho ou Ferro Velho, era, de longe, quem melhor vestia na terra xêndrica. Era vê-lo fosse domingo ou dia de semana, aparecer do beco das escolas velhas, garboso e altaneiro, naquele seu porte típico de galã hollywoodesco, cabelo impecável, carregado de Brylcream, penteado com um risco do lado esquerdo, mantendo sempre um tamanho mais ou menos constante, elegantérrimo, enfiado, invariavelmente, num fato de pana (bombazina espanhola), sempre vincado, camisa bem abotoada, com botões de punho salientes e, claro, uma gravata de nó largo, sempre ajustada ao pescoço, reforçada por um colete de cujo bolso emergia um relógio preso por corrente de prata que de tão brilhante até encandeava. A completar o traje, um chapéu de aba curta, de cor variável, em função da cor do fato e uns sapatos pretos de verniz, ligeiramente pontiagudos. Nada disto admira se deixarmos claro que Verniz era contrabandista. Não era muito sociável mas gostava de vir até ao café do Chquim Cartola, que vivia da mesma actividade, e lá ia pagando e bebendo um copito com quem ele entendia. Ainda lhe fiz companhia algumas vezes.
Num dia de chuva o largo do Cavalheiro estava enlameado e Verniz não queria sujar os sapatos: "Oh Chquim abrenge-me aí um saco de plástico para forrar os sapatos, até que chegue ao alcatrão". E o Cartola:«Num tenho cá saco de plástico; só ali tenho um saco de enxofre flor, mas está todo sujo. Só se quiseres um cartuxo de papel pardo desses do açucar».Oh Ti Zé, disse eu, o melhor é esperar que pare de chover. Bebemos um cai bem e depois vamos os dois estrada acima. Só que Verniz estava apertado pelo tempo: tinha encontro com contrabandistas espanhóis para tratarem duns negócios e arranca desabrido. Estatela-se no chão e não ficaram só os sapatos sujos como todo o fatinho azul forte que até alumiava. Praguejou até mais não e acabou por alugar o táxi ao Fatela para ir até casa.
O contrabando é, de si, uma economia paralela, mas a esta escala não fazia grande mal ao mundo e sempre dava trabalho e subsistência, até com alguma qualidade, a muita gente. Nada que se pareça com os tempos que correm em que a dimensão é outra e quem anda nestas vidas são, muitas vezes, aqueles que deviam ser modelos de vida. Ocorre-me  referir:

A 2 de fevereiro de 1905 nasceu em S. Petersburgo a filósofa e escritora americana Alissa Zinovievna Rosenbaum, mais conhecida como Ayn Rand, falecida em Março de 1982 em Nova York. Ficou famosa esta frase dela, que se aplica como uma luva ao que vivemos em Portugal nos dias de hoje:

"Quando te deres conta de que para produzir necessitas obter a autorização de quem nada produz, quando te deres conta de que o dinheiro flui para o bolso daqueles que traficam não com bens, mas com favores, quando te deres conta de que muitos na tua sociedade enriquecem graças ao suborno e influências, e não ao seu trabalho, e que as leis do teu país não te protegem a ti, mas protegem-nos a eles contra ti, quando enfim descubras ainda que a corrupção é recompensada e a honradez se converte num auto-sacrificio, poderás afirmar, taxativamente, sem temor a equivocar-te, que a tua sociedade está condenada. “
AYN RAND (1950)

Estais, com toda a certeza, a abranger o que esta pensadora queria dizer, já naquele tempo!
Entretanto, Nosso Mnel chega ao Cartola ainda a rir-se do desaire de Verniz e dispara: Oh Cartola abrange-me aí um canabarro de branco traçado a ver se paro de me rir por causa do Verniz.
Naquele tempo os animais andavam na rua e Cartola, sabendo que nosso Mnel, vinha do alto da vila perguntou-lhe: "O Mnel viste o meu porco na lameira?" E Mnel:" Estava a coçar o lombo nas costas do Espírito Santo". 
Rebentamos todos a rir. Devo dizer para quem não conhece a aldeia dos xendros que o Espírito Santo é uma capela que fica em frente da lameira (baldio) e pertinho donde era a tasca do Cartola.
Aproveitei eu para contar aquela da factura de um artista que recuperava imagens de igreja e até talha dourada dos altares: 
- por ter posto os cornos ao diabo: 5 mil réis,
- por ter feito um menino ao colo de Nossa Senhora: 10 mil réis,
- por ter consertado a asa dum anjinho papudo: 20 mil réis.
Continuou o riso e finalmente deixou de chover.
Abrangi os copos ao Cartola e lá me fui com o mais que famoso carrinho de quatro rodas com a bilha vazia que tinha ido a levar ao Passa Culpas ao cimo da Lagariça. 
Abrangeis agora por que vos trouxe abrenger ou abringer?

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Desenho: Carlos Matos

sexta-feira, maio 15, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVI - PRI(E)ADA

Ti R’ção Chicórrela, baptizada Ressureição - no domingo de Páscoa do ano em que a Alemanha assinou o armistício reconhecendo a derrota na 1ª Grande Guerra -, pelo padre Zé Maria na velha pia côncava de granito talhada por mestre pedreiro na arte de manusear martelo e escopro, ficou viúva muito cedo. Ambrósio Balatreco, o seu homem, finou-se com uma cirrose, contraída à conta dos para cima de muitos copitos mal comidos. Senhor de uma gola larga, o tinto escorria sem empancar em nada até ao estômago. Era homem para precisar de 1 segundo e alguns milésimos para despejar um vaso de meio quartilho, mais ou menos o tempo que levava o líquido a sair do seu continente. Havia quem lhe pagasse copos só para apreciar o espectáculo.

Ambrósio ficava priado quando a mulher o ia chamar à taberna, numa tentativa de adiar o seu inevitável fim precoce. Foi vã a sua ralação e ignoradas as humilhações sociais que lhe infligiu. De maneiras que Ti R’ção teve de se fazer à vida sem a ajuda do seu Ambrósio para criar os 5 filhos que ele ainda teve tempo de lhe semear no ventre. O seu principal ganha pão provinha da venda de produtos hortícolas no mercado do Sabugal.

Quem sobe do Vale de Lobo para o Terreiro das Bruxas há-de reparar que a flora vai mudando, e por alturas de Santo Estêvão parece que se entrou noutro continente: a temperatura baixa, começam a rarear as hortas, as oliveiras e as árvores de fruto, em compensação, passam a abundar os prados, os castanheiros e os carvalhos negrais. E toda esta transição se opera em menos de 2 léguas. Para cá da Senhora da Póvoa cultivam-se boas hortícolas e boa fruta, para lá de Santo Estêvão, produz-se batata de excelência, castanha e carne tenrinha.

Foi neste quadro de complementaridade territorial que Ti R’ção encontrou uma oportunidade de negócio, um nicho de mercado: no tempo, carregava a carroça de nabiça, tomates, pimentos, beringelas, feijão verde e demais hortícolas e rumava a norte. A mula Andorinha estava ensinada e não precisava de muitas instruções para se meter direito à quelha funda, "às endireituras da fonte Carvalho, subida ao talefe do salgueirinho, passagem pela capela do Meimão, às endireituras do castanheiro das merendas e depois era sempre a descer até ao Sabugal". No regresso, acarrejava sobretudo batata de semente e castanha. Levava sempre 2 ou 3 dos seus filhos para lhe fazerem companhia mas sobretudo para a ajudarem nas contas que ela não sabia fazer. Quase ninguém o sabia mas a Ti R´ção, nalgumas viagens, meteu-se a contrabandista, feita com dois irmãos de Quadrazais a quem fazia chegar café e açucar e recebia alpergatas e fazendas que entregava a um primo de Castelo Branco. Uma oportunidade de negócio perigosa, mas rentável, facilitada pela situação económica espanhola que ainda lambia muitas feridas da guerra civil.

Uma vez, meava Junho, ali ao fundo da vila na água férrea, é interceptada pelo cabo Estrela, agente da Guarda Nacional Republicana conhecido pelo zelo com que cumpria o seu dever de fazer cumprir as leis do Estado Novo, a bem da Nação, que lhe pergunta pela licença da carroça.

O Estado Novo impunha leis peculiares. Careciam de licença o uso de isqueiro, as bicicletas, era proibido beber coca-cola, jogar às cartas nos comboios, dar beijos em público, as senhoras professoras tinham de pedir autorização ministerial para se casarem, etc. Ti R´ção não tinha licença nenhuma, tão pouco alguma vez lhe passara pela cabeça que era preciso ter. Não facilitou o nosso cabo e passou-lhe a respectiva multa de oitenta mil e quinhentos escudos. Mesmo analfabeta, logo ali percebeu que o lucro do dia ia todo para pagar a multa. Preada, fez o caminho de ida e volta a rogar conjuras ao intransigente agente, praguejando-o a ele e a toda a sua ascendência.

Na semana seguinte, no mesmo local, volta a ser parada pela GNR. Ela, orgulhosa exibe uma licença:

- Desta já no m’apanhandeis filhos d’um rai, aqui stá a licença, bem haja quem m’a emprestou.