quinta-feira, julho 02, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVII - ABRANGER / ABRENGER / ABRINGER

Tenho para mim que o mundo é redondo pela simples razão de que não tem ponta por onde se lhe pegue. Dispenso-me de vos massar com exemplos que o demonstram à evidência. Diferencio-me assim do velho Platão que defendia que a forma redonda do mundo não podia ser outra senão a redondez. Atenção: eu disse redonda e não esférica, embora no mesmo Timeu, o encarregado de executar as determinações da divindade, o demiurgo, fique justificada a forma da nossa cabeça, também ela de formato próximo do redondo. Na verdade, se entendermos que os gregos diziam que havia sete formas diferentes de movimento (seis rectilíneas: para cima e para baixo, para direita e para a esquerda, para a frente e para trás, e, claro, o redondo) facilmente compreendemos que a única forma plausível para o mundo só podia ser o redondo. Os gregos tinham como lema a harmonia e a perfeição. É ver qualquer das suas manifestações artísticas, seja na palavra - o teatro -, seja na pedra (arquitectura, escultura..., na cerâmica, enfim, e logo deduziremos da existência destas duas características, a que, consequentemente teremos de juntar o equilíbrio. Convido-vos a reparar no discóbolo, na vitória de Samotrácia,...
Ora tudo isto se junta no redondo: o fechamento é a própria união do princípio e do fim. Começa-se onde se acaba e acaba-se onde se começou. É a consecução do pretendido pelo efésio Heraclito: a harmonia dos contrários.
Porventura também vós que me ledes vos perguntareis que tem de tão original na nossa faladura este abranger. Como bem recomendava Heidegger, as palavras devem ser tratadas com desvelo e o seu significado deve ser buscado nas suas origens. Não é a semântica, nem a pragmática, que nos deixam a pureza da palavra, mas a etimologia. Vem a talho de foice ver o que o novo acordo ortográfico fez ao português: servilmente, abandonou-se à fonética e esqueceu o radical. Se fordes a um dicionário etimológico, o que vos vai aparecer sobre a origem desta palavra é obscura. Não admira portanto a enorme variedade de significados que lhe é atribuída.
Zé Verniz, Forelho ou Ferro Velho, era, de longe, quem melhor vestia na terra xêndrica. Era vê-lo fosse domingo ou dia de semana, aparecer do beco das escolas velhas, garboso e altaneiro, naquele seu porte típico de galã hollywoodesco, cabelo impecável, carregado de Brylcream, penteado com um risco do lado esquerdo, mantendo sempre um tamanho mais ou menos constante, elegantérrimo, enfiado, invariavelmente, num fato de pana (bombazina espanhola), sempre vincado, camisa bem abotoada, com botões de punho salientes e, claro, uma gravata de nó largo, sempre ajustada ao pescoço, reforçada por um colete de cujo bolso emergia um relógio preso por corrente de prata que de tão brilhante até encandeava. A completar o traje, um chapéu de aba curta, de cor variável, em função da cor do fato e uns sapatos pretos de verniz, ligeiramente pontiagudos. Nada disto admira se deixarmos claro que Verniz era contrabandista. Não era muito sociável mas gostava de vir até ao café do Chquim Cartola, que vivia da mesma actividade, e lá ia pagando e bebendo um copito com quem ele entendia. Ainda lhe fiz companhia algumas vezes.
Num dia de chuva o largo do Cavalheiro estava enlameado e Verniz não queria sujar os sapatos: "Oh Chquim abrenge-me aí um saco de plástico para forrar os sapatos, até que chegue ao alcatrão". E o Cartola:«Num tenho cá saco de plástico; só ali tenho um saco de enxofre flor, mas está todo sujo. Só se quiseres um cartuxo de papel pardo desses do açucar».Oh Ti Zé, disse eu, o melhor é esperar que pare de chover. Bebemos um cai bem e depois vamos os dois estrada acima. Só que Verniz estava apertado pelo tempo: tinha encontro com contrabandistas espanhóis para tratarem duns negócios e arranca desabrido. Estatela-se no chão e não ficaram só os sapatos sujos como todo o fatinho azul forte que até alumiava. Praguejou até mais não e acabou por alugar o táxi ao Fatela para ir até casa.
O contrabando é, de si, uma economia paralela, mas a esta escala não fazia grande mal ao mundo e sempre dava trabalho e subsistência, até com alguma qualidade, a muita gente. Nada que se pareça com os tempos que correm em que a dimensão é outra e quem anda nestas vidas são, muitas vezes, aqueles que deviam ser modelos de vida. Ocorre-me  referir:

A 2 de fevereiro de 1905 nasceu em S. Petersburgo a filósofa e escritora americana Alissa Zinovievna Rosenbaum, mais conhecida como Ayn Rand, falecida em Março de 1982 em Nova York. Ficou famosa esta frase dela, que se aplica como uma luva ao que vivemos em Portugal nos dias de hoje:

"Quando te deres conta de que para produzir necessitas obter a autorização de quem nada produz, quando te deres conta de que o dinheiro flui para o bolso daqueles que traficam não com bens, mas com favores, quando te deres conta de que muitos na tua sociedade enriquecem graças ao suborno e influências, e não ao seu trabalho, e que as leis do teu país não te protegem a ti, mas protegem-nos a eles contra ti, quando enfim descubras ainda que a corrupção é recompensada e a honradez se converte num auto-sacrificio, poderás afirmar, taxativamente, sem temor a equivocar-te, que a tua sociedade está condenada. “
AYN RAND (1950)

Estais, com toda a certeza, a abranger o que esta pensadora queria dizer, já naquele tempo!
Entretanto, Nosso Mnel chega ao Cartola ainda a rir-se do desaire de Verniz e dispara: Oh Cartola abrange-me aí um canabarro de branco traçado a ver se paro de me rir por causa do Verniz.
Naquele tempo os animais andavam na rua e Cartola, sabendo que nosso Mnel, vinha do alto da vila perguntou-lhe: "O Mnel viste o meu porco na lameira?" E Mnel:" Estava a coçar o lombo nas costas do Espírito Santo". 
Rebentamos todos a rir. Devo dizer para quem não conhece a aldeia dos xendros que o Espírito Santo é uma capela que fica em frente da lameira (baldio) e pertinho donde era a tasca do Cartola.
Aproveitei eu para contar aquela da factura de um artista que recuperava imagens de igreja e até talha dourada dos altares: 
- por ter posto os cornos ao diabo: 5 mil réis,
- por ter feito um menino ao colo de Nossa Senhora: 10 mil réis,
- por ter consertado a asa dum anjinho papudo: 20 mil réis.
Continuou o riso e finalmente deixou de chover.
Abrangi os copos ao Cartola e lá me fui com o mais que famoso carrinho de quatro rodas com a bilha vazia que tinha ido a levar ao Passa Culpas ao cimo da Lagariça. 
Abrangeis agora por que vos trouxe abrenger ou abringer?

XXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAANNNDDDEEE


Desenho: Carlos Matos

2 comentários:

José Caldeira disse...

Adorei a defesa da Língua Portuguesa tendo sido considerado o étimo como uma variável com mais peso do que a fonética.
Adorei o assunto, com sumo, com substância, sobre o aspecto filosófico referenciado com a terminologia derivada do Grego, que é uma riqueza para a Língua Nacional o que dá razão a quem está contra o desastre que é o Acordo Ortográfico.
A "estória" do contrabandista que, situado no tempo e na circunstância, até se podia dizer que tinha uma profissão honesta se compararmos com o canibalismo vigente dos contrabandistas de hoje, é de ir às lágrimas.
O redondo como princípio e fim de todas as coisas fez-me intuir que terei sido capaz de abranger a mensagem mesmo que não vos abrange o fardo que carrego comigo e não quero transferir para o vosso dorso.
Um grande abraço. Zé Rainho

pratitamem disse...

Porventura, colhemos frutos da nossa dedicação, quando o estado nos paga pra estudar. As nossas opções depois, envolvem tantas variáveis, que nem nós nem o mundo conhecem. Acreditando eu, nesse estado tão felizmente democrático desde os meus 6 anos. Apresento-me para o representar aos 23, numa difícil tarefa, de ser mal entendido. Pelo estado (povo) que eu defendo e represento. Falo daqueles que não sofrem de anomia, seja ela tomada em pequeno ou revelada em adulto. Entendo o meu tempo, como o meu estado e isso só me dá boas razões, pelo facto de ter ido pra escola em democracia! Não gosto de branqueamentos, mas também não gosto de Juros, sou católico, criado no tempo da democracia. Essa coisa MÁ, Em que qualquer um a seu belo prazer diz com desplante, que um mal é melhor que outro, ou que tenta seduzir o leitor pra um tempo em que o crime era não crime, sendo grave ou não, é aquela democracia de eu não gosto, mas também não vota senhor José! somos mesmo nós e só nós.... Os TUGAS..