sexta-feira, dezembro 18, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXL - (T)CHINHO / (T)CHINHA


desenho: Carlos Matos

Eram dois os alfaiates na terra xêndrica: José Sarrabeco e Tonho Pedro. Sarrabeco, tirante a água que a colher da sopa lhe levava à boca só bebia tinto, mas nunca em tascas, apenas em adegas. Mesmo assim não era fácil que ele bebesse outro vinho que não o que ele mesmo produzia. Já Tonho Pedro só bebia ginja.Todos os dias, a qualquer hora e sempre pelo mesmo copo, que tinha lugar reservado no café da Rosa. Sempre (t)chinho. Raramente se ficava por um, quase sempre iam dois, quando não mais e muita vezes encostava-se ao balcão do café e mandava às urtigas a agulha, dedal, ferro e demais apetrechos de alfaiate. Era bebedeira certa. A Sarrabeco nunca o vi torto, mas também não gostava de copos carecas. Como morava no beco do meu avô Comandante ainda despejei uns tintos com ele. Era espadaúdo, mas um tanto atarracado e tinha uma voz grossa, de baixo, em qualquer coro, enquanto Pedro era alto e tinha uma voz que mal se ouvia. Era preciso atentar bem senão tinha que repetir umas poucas de vezes e afinava com isso.
Já sapateiros, havia bastante mais: só Guerrilhas eram três (Mnel, Zé e Chquim). Tão depressa andavam aos abraços como ralhavam por tudo e por nada - daí o nome comum de Guerrilhas. Depois tínhamos o Fernandinho Lucho, o Mnel Viagre, o Chquim calça defuntos, o Chquim Camião, o Tonho Lobo. Outros tempos em que as artes e ofícios davam de comer a muita gente. Tudo desapareceu e já ninguém deita sequer uma tomba na biqueira de uma bota...O mundo do descartável invadiu tudo e vai daí foi preciso arranjar outros modos de sobrevivência.
Antigamente era tudo feito por medida e à medida, agora bastam pequenos retoques e já está. Até mesmo já se encontram companheiros e companheiras através de agências. Já não há tradição do velho namoro: vai-se à agência e encarrega-se de arranjar o parceiro ideal para dois que nunca se cruzaram. Para não falar já da Net...Bem, adiante!
Já vos deveis ter dado conta que o termo de hoje é uma adaptação popular de CHEINHO/A. O que se passa é que, vá-se lá saber porquê, não sendo regra, as palavras escritas com "ch" têm pronúncia de "Tch": tchave por chave, por exemplo, enquanto as têm a grafia de "X" mantêm essa mesma pronúncia sem qualquer aspiração. É claramente visível em buxo (planta de sebe) e bu(t)cho  (estômago de pequenos ruminantes.). Não deixa de ser curioso também algumas palavras de grafia com "ch" não verificam o tal "tch" quando mantêm a vogal primitiva, mas já o verificam quando sofrem apofonia: sirva de exemplo "o reumatismo faz inchar a mão" e "o reumatismo faz in(t)cher a mão". Já por mais de uma vez aqui tratamos deste fenómeno fonético, da substituição do "a" pelo "e", pelo que se recomenda leitura de outras páginas do basa.
Jolim da pata branca era malino quanto bastasse. Tirava provocações da cabeça, ao instante, e deixava os visados sem resposta quando o entalavam e ele se saía com resposta de pitonisa. Um artista era o que ele era. Depois virava as costa com aquele sorriso de cão Mutley, irónico e cínico a um tempo.
Nas terras xêndricas não havia autoridade regimental. Nos tempos a que nos referimos a autoridade civil era desempenhada pelo regedor, figura entretanto extinta, e também pelo senhor presidente da junta  e pelo senhor professor e, claro, noutro  âmbito, pelo senhor prior. Depois, bem, depois eram os pais, os avós, os mais velhos,... Por tal motivo a G.N.R. do posto de Penamacor, em patrulha, umas vezes a pé, outras a cavalo, visitava amiúde a aldeia e ia controlando desmandos com que se topasse. Não eram bem vistos porque obrigavam ao capacete nas motos, a trazer a documentação da bicicletas, a ter luzes reflectoras nas carroças, a licença de obras,... Jolim foi multado porque andava de bicicleta sem carta.. Ganhou um ódio tal à GNR ainda por cima porque levou uma malha valente do pai que teve que arrotar com o pagamento da multa.
Vai daí, cada vez que passava pela GNR gritava a plenos pulmões: A Guarda é uma grande merda!...Até que um dia um agente a cavalo o perseguiu, agarrou e interrogou: «porque é que a Guarda é uma merda, hein?» e Jolim:" A Guarda é uma merda, porque a Covilhã, que não é capital de distrito, tem muito mais indústria do que a Guarda !" O agente ficou a olhar para ele e teve que o largar sem lhe poder fazer nada.
Jolim, em pose de quase toureiro que capeia um touro, sai calmamente com o peito tchinho.
Também eu, de boca tchinha vos desejo o melhor Natal que vos seja possível na companhia de quem mais desejardes e puderdes.
Já só voltarei em 2016.

4 comentários:

José Caldeira disse...

Fantástico, como sempre. Gostei muito da forma e do conteúdo. Da genuinidade da prosa de outros tempos e de quem faz tudo para a preservar.
Bom Ano Novo (Tc)inho de coisas boas e felizes.

Joaquim Dionísio disse...

O mundo do descartável invadiu tudo e vai daí foi preciso arranjar outros modos de sobrevivência. Daí que a maior parte dos "figurantes" referidos se encontrem já a "fazer tijolo" !!!!!!!!!

Anónimo disse...

Bom dia,

O meu nome é Artur Oliveira e, no âmbito deste trabalho,

http://rapinasnocturnas.blogspot.pt/2015/08/colabore-neste-projecto-as-rapinas.html

gostaria de trocar algumas palavras com os autores deste blogue.

Deixo o meu contacto:

rapinasnocturnas@gmail.com

Os meus melhores cumprimentos,
Artur

Manuel Leitão disse...

PARA MIM É UM PRAZER IMENSO VISIONAR ESTE BLOG. SUA AUTENTICIDADE É O MELHOR TRUNFO. DA BASÁGUEDA ÀS TALISCAS E NALGUNS CASOS ATÉ A.RIBEIRA DA CEIFE HAVERIA MUITAS HISTÓRIA DE XENDROS PARA CONTAR
BEM HAJAM (changoto e carraio).
manecas leitão