terça-feira, setembro 29, 2015

VINDIMA 2015






MESMO SEM FAZERES NADA
JÁ TENS DIREITO A UMA ENTRADA:
APARECE-TE TUDO SEPARADO
MAS PODES COMER TUDO JUNTO
FRUTO RASTEJANTE AMARELADO
FACA CORTANTE PARA O PRESUNTO
FATIAS DO BELO CASQUEIRO
ALBARDADA ROXA EM SARAPILHEIRA
PIMPÃO AO VINAGRETE BEM ALHADO
PELO GRANDE MAIM APANHADO
NA CORRENTE DO TEJO TRAIÇOEIRA
À “COITELA” ARREFINFA-LHE UM BRANQUINHO
QUE HÁ - DE ESTAR BEM FRESQUINHO
PEGA NO BALDE E NA TESOURA
E ALA! A COLHER A UVA LOURA.
NÃO TE PREGUES A FAZER SUDOKU
E DÁ O LITRO, NA CARGA E DESCARGA
QUE ISTO NÃO É SÓ COMER À LARGA…
COMO FAZ QUALQUER GABIRU…
SE TE DER A SEDE, FAZ UM INTERVALO
MOLHA O BICO COMO FAZ O GALO
E VOLTA LOGO PARA O TRABALHO
QUE TUDO HÁ-DE ESTAR PRONTO A HORAS
E NÃO DEVE HAVER MUITAS DEMORAS
ENTRE O FIM DA COLHEITA E A BUCHA
QUE TE DARÁ MUITA ALTERNATIVA
NÃO SENDO PRECISO DAR-TE UMA CHUCHA
PARA TE CALAR ESSA BOCA ESQUISITA.
ORA VÊ SE TE AGRADA O CARDÁPIO
NÃO INVOQUES IGNORÂNCIA DO DITO
COMO FAZ O ESPERTO LARÁPIO:
FINGE QUE COMES DE TUDO SÓ PARA ARMAR
E ATASCA-TE NO QUE MAIS TE AGRADAR
A VER SE ÉS CAPAZ DE, DESTA VEZ, ACABAR
O QUE À FRENTE TE FOR POSTO COM AGRADO
E COMO VAIS VER, SERÁ BEM VARIADO:
CALDO FEITO APENAS COM PRODUTO NATURAL
BASTO COMO PERTENCE À MODA ANTIGA
SE COMERES DOIS DISCOS ENCHES A BARRIGA
SAMPAIO, BOLBOSA, TUBÉRCULOS VÁRIOS
TUDO TRITURADO PARA NÃO TE ENGASGARES
MANGA DE CAPOTE E, CLARO, O BELO REPOLHO
UM POUCO DE ADUBO DE TRASEIRO PORCINO
HORTELÃ BRAVA, QUE NOTARÁS SE CHEIRARES
NUMA COR QUE TE FARÁ ENCHER O OLHO,
IGUARIA QUE NÃO PODES PERDER, SE TENS TINO.
SARRABULHO À MODA DO CHEFE, DE CHAPÉU NOVO,
E AVENTAL A “CONDUZIR”, COMO BEM PERTENCE
QUE TE FARÁ LAMBER OS BEIÇOS DE PRAZER
TRAZENDO-TE À MEMÓRIA OS TEMPOS DE CRIANÇA
QUANDO SÓ COM ISTO ENCHIAS BEM A PANÇA…
MAS ALEGRA-TE QUE TENS MAIS PARA COMER:
TAPA OLHOS RECAL, EM MOLHO VERDE, POIS ENTÃO,
ACOLITADOS POR ESPARREGADO POPPEYANO
QUE PODERÁS ALTERNAR COM BELOS CICLISTAS
COLHIDOS NA QUINTA DO LÍRIO JÁ ESTE ANO
SERVIDOS EM TRAVESSA DE DAR NAS VISTAS
BEM ENVOLVIDOS EM TRICANA SABOROSA
OU, EM ALTERNATIVA, O CLÁSSICO MARHUA
QUE FICA BEM EM MOLHO DE ‘SALSA’ CRUA
E QUE TE VAI DEIXAR A BOCA BEM GOSTOSA.
JÁ ESTÁS FEITO GULOSO A PERGUNTAR:
“E DO FORNO A LENHA NÃO APARECE NADA?
LOGO VERÁS, FUMEGANTE, A REDONDA CAÇOLA
COM CHICHA DA VERDADEIRA, BEM MARINADA
QUE TE PORÁ A COÇAR ESSA TONTA TOLA
EVIDENTEMENTE QUE EXCELSAMENTE ACOMPANHADA
PELA BELA BATATINHA SOLTEIRA, MAIS QUE FAMOSA
QUE DEIXA TUDO DE CARA À BANDA
PERGUNTANDO A ESMO PELA RECEITA
O QUE É BOM, PARA FICAR COISA PERFEITA
SÓ PRECISA QUE NÃO O VÃO ESTRAGANDO
COM KNORRS, MAGGIS, E OUTROS AFINS
DEIXANDO A NATUREZA JUNTAR OS INGREDIENTES
QUE ASSIM NUNCA FAZ MAL AOS COMENTES
SE TENS POR HÁBITO COMER FRUTA
LOGO AO PRINCÍPIO PÕE UVA DE RESERVA
A NÃO SER QUE TE CONSOLES COM ALGUMA ERVA
COMO FAZ O GATO QUANDO TEM PRISÃO…
MAS AINDA TENS PARA IR À LUTA
VELHÍSSIMOS ESPREMIDOS DE SABOR ELEVADO
QUE TE FARÃO FICAR BEM CORADO.
AINDA PODES LAMBER-TE COM UM PRETINHO
TIRADO À HORA, BEM QUENTINHO
E UMA VARIEDADE DE DIGESTIVOS NACIONAIS
E ALGUNS TAMBÉM ESTRANGEIROS
PARA TE PROVAR QUE NO VELHO PORTUGAL
TAMBÉM ESTAMOS NA ALDEIA GLOBAL
SE QUERES MAIS VOLTA PARA O ANO
QUE NESTE, NÃO HÁ MAIS NADA, MANO!

P.S.- I – NÃO, NÃO É SIGLA DE PARTIDO
É SÓ PARA TE RECORDAR E CERTIFICAR
QUE EM TODO O TEMPO SEMPRE TERÁS
TINTO E BRANCO DE UVA, MEU RAPAZ,
SUMOS, ÁGUA E CEVADA A BORBULHAR.
MAIS NÃO TE POSSO FAZER, CARO AMIGO.

P.S.- II- VOU VER SE ARRANJO VAGAR
PARA COZER PÃO EM FARINHA DO TÓ

QUE AINDA, PARA MOER O CEREAL, USA A MÓ.


QUINTA DO CHANGOTO, 26 DE SETEMBRO  DE 2015


















sexta-feira, setembro 11, 2015

A NOSSA FALADURA -CCXXXVIII - CÓFIA

De algum modo, quando olhamos para as mitologias e divindades dos antigos, mormente as greco-romanas, que nos estão mais na matriz, rimo-nos daquelas fabulosas histórias e acontecimentos que justificam os mais diversos comportamentos dessas entidades sobrenaturais...
Consideramos ridículas muitas acções e situações que as diferentes divindades nos proporcionam. Nós, que somos educados e formatados para uma mitologia de deus único, entendemos que aqueles nossos antanhos eram uns mentecaptos que tinham um deus para tudo...
Com o advento do cristianismo e, mormente, depois do édito de Milão, promulgado por Constantino em 313 que a tornava como religião oficial do império romano, essas divindades desapareceram e o deus uno e trino ocupou o lugar cimeiro em matéria de religiosidade. Foi sol de pouca dura já que logo após a morte de Constantino ocorre a tetrarquia imperial e o cristianismo começa a sofrer as primeiras cisões com a ortodoxia oriental e com os coptas no Egipto. Muitas outras cisões ocorreram ao longo dos tempos: basta lembrar os cárpatos, os albigenses e mais tarde a Reforma com Lutero, Calvino, Huss, Henrique VIII,... e mais na actualidade a igreja dos santos dos últimos dias, a iurd, a piniel, a maná e toda uma plêiade de derivados do cristianismo que seria fastidioso enumerar, para além de nunca ficar completa. Fiquemos, pois, por aqui...
Deixando de fora o judaísmo, a mas antiga religião monoteísta, mas que sempre ficou muito circunscrita e confinada, a outra grande religião monoteísta é o islamismo. A sua expansão é hoje incrível  e são também conhecidas algumas diferenças de interpretação do livro fundamental que é o Corão.
No que aqui nos diz respeito é de assinalar que o islão nasce também ele, a partir da Bíblia ou, se preferirmos, da Torah.
Javé prometeu um filho a Abraão donde derivaria toda a descendência de Israel. Ora, a esposa de Abraão, Sara, era estéril e ela, querendo que Abraão deixasse descendência ofereceu-lhe a escrava Agar para que ele tivesse com ela um filho. Assim foi: nasceu Ismael. Só que os judeus e depois os cristãos entenderam que o bastardismo de Ismael não correspondia à promessa de Javé. Tanto assim que Sara acaba por conceber, já idosa, um filho de Abraão,que chamou de Isaac que será depois o pai de Jacob, o tal que desposou Raquel, serrana bela, filha de Labão, que daria origem às doze tribos de Israel. Para o Judaísmo e para o cristianismo é Isaac o filho legítimo de Abraão, sendo que os cristãos acreditam que o Messias, Cristo, descende  da linhagem de Isaac, enquanto os judeus ainda esperam a vinda do Messias. Maomé e os seus seguidores entendem que o filho de Abraão que cumpre a promessa de Javé é Ismael e portanto derivaram a descendência até Maomé que é avisado da sua missão pelo arcanjo Gabriel, exactamente o mesmo que anunciara a Maria a sua gravidez sem intervenção humana....
Assim sendo o grande patriarca das três religiões monoteístas que mais influência exercem e exerceram no Ocidente é Abraão.
Já para aqui vai muita história...
Vai já longe o tempo em que eu, puto reguila, passava as tardes soalheiras de Verão com a minha bisavó paterna, Isabel, vizinha da velha Menas e da velha Manata , enquanto os meus pais faziam os quintos lá para a serra da raposa e da marvana.. Eu corria lagariça acima, lagariça abaixo, empurrando o arco e elas, sentadas em tropessos de cortiça, à sombra e junto à ombreira da porta de uma delas, dedicavam-se à cófia, fiando o linho de roca e fuso na mão. Na altura o empedrado que actualmente percorre toda a Lagariça não existia, salvo em poucos espaços. Cansado do arco, de vez em quando lá me sentava junto delas e tornava-me o alvo das atenções. Foi com elas que aprendi muitas lenga-lengas que, com mágoa, já não sou capaz de reproduzir. Ainda assim deixo-vos estas: "Pipa velha, pipa nova, foi ao mar arrebentou, aqui está meus senhores quem se cagou"; sarra madeira no cu do zé peneira, lá vem o leão com a tranca na mão, feijões pra mim, cagalhões pra ti; pico pico sarapico, meu compadre zé penico, foi ao mar buscar sardinha para o filho do luís que está preso pela ponta do nariz, três cavalos a correr, três meninas a aprender, qual será a mais bonita que se irá esconder...
Pois é, o tempo tudo leva e tudo traz...
Por isso tal como a cófia já desapareceu da prática diária das mulheres à ombreira da porta e estas lenga-lengas já ninguém as diz, quem nos garante que daqui a dois mil anos ainda se pratiquem quer o cristianismo quer o islamismo ou o judaísmo. Pode ser que outras religiões e outros deuses ocupem o espaço sagrado da humanidade
E que bom seria que não se cometessem tantos crimes hediondos como aqueles a que hoje assistimos, tudo em nome de deus!
O mal já não é só de agora: Gregório IX institucionalizou a inquisição em 1231 e já antes as cruzadas combatiam os hereges desde 1095 até 1272. Em Espanha a Inquisição atingiu foros inimagináveis com Tomás Torquemada e chegou até ao sec XIX. O Islão iniciou-se mais tarde: em Meca no ano de 610 e confirmar-se-ia com a Hegira (fuga de Maomé de Meca para Media) em 622.
Será por isso que na actualidade as chachinas, ainda em nome de deus, sobretudo perpetradas por seguidores de Alá,contra todos os infiéis, estão cada vez mais acesas.
Só vos lembro que hoje é dia 11 se Setembro!
XXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDDEEEEE

quinta-feira, agosto 13, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVIII - (T)CHINA /(T)CHÁ(T)CHARO / XÁXARO

A infância de antigamente pouco tem a ver com a de hoje. Desde logo porque, em regra, as famílias eram numerosas e depois porque as circunstâncias nada tinham a ver com as de hoje. Garotos e garotas, se queriam brincar, tinham que imaginar e construir os seus próprios brinquedos. Essa criatividade e destreza são impossíveis de verificar nos tempos que correm: à uma os pais digladiam-se entre si para ver quem o há-de ir levar ou buscar à creche/infantário/ama. A bem dizer o que as crianças têm são tempos ocupados e não tempos livres. Ou seja: como só se é criança uma vez, esta malta nova de hoje nunca chega a ser criança e nunca deixa de ser criança. Os pais chamam-lhe sempre garotos/as, são controlados no espaço e no tempo (refiro-me a gente até por volta dos 14/15), mantêm-se sob dependência paternal/maternal cada vez até mais tarde, não podem brincar na rua, são assoberbados de tarefas mais que muitas: natação, música, judo, ginástica, música ritmada,...têm que se portar como adultos à mesa e, paradoxalmente, cada vez mais tarde lhes é concedida e reconhecida autonomia...
Não é tarefa do basa escalpelizar o tema. Volvamos, pois, ao xáxaro  e afins.
Qual o garoto que não jogou à bilharda, ao pião, ao esconder e achar (escondidas), ao burro, à raioula, ao fito, à cavaca, ao pinoco, ao espeta, ao arco, à marca, ao fósforo, ao berlinde, ao eixo rebaldeixo, ... quem não rolou num carrinho de esferas, não fez um arco de mimosa e uma flecha com um alfinete na ponta... Teria mesmo havido algum garoto que não tivesse construído um carrinho de empurre com uma cana rachada, um pequeno eixo de esteva e uma roda de cortiça, um moinho ou vira vento feito de cana de embude seca, folhas de caderno usado e carapetos a servir de agrafos? Aposto que não houve. Eu fiz disto tudo e não foi sozinho...
E as garotas? Também elas brincavam. Raramente os dois sexos se juntavam no recreio da escola, mas apesar do muro divisório, fácil era observá-las a jogar ao descanso (macaca) à roda com um lenço, à rolha, ao ringue, à apanhada, à (t)china ou (t)chá(t)charo,... Era neste jogo que eu mais as admirava. As tchinas eram cinco pedrinhas (seixos) bem polidas, apanhadas em leito de ribeira, às vezes em buracos de calhaus rolados, e depois exigia-se toda uma técnica manual quer com a palma quer com a cota da mão. Era deslumbrante assistir a tanta perícia com uma rapidez e segurança incríveis. Jogavam entre si, à vez, a ver quem conseguia cumprir todos os passos de uma jogada. Em regra, acabava sempre com gritos estridentes por parte da vencedora, Uma beleza, era o que era.
E hoje, a que jogam os nossos meninas e meninas? Jogam aos telemóveis, aos tablets, aos androids, aos ipads,... Tudo jogos parados, tudo jogos individuais, tudo electrónico, tudo previsto, tudo mecanizado, tudo controlado, tudo pontuado.... Tempos, direis vós. É verdade. Do mal o menos: sempre se recuperou e aprimorou a função do polegar, esse dedo quase esquecido e que tão relevante papel desempenhou na evolução da humanidade.
Isabel Rela era uma das maiores artistas no jogo da tchina. Era um encanto ver aquela garota com os tchátcharos na mão. Nem sei mesmo como conseguia tamanha destreza, sobretudo quando aventava as cinco pedrinhas ao ar e as aparava, todas juntas na cota da mão. Como que fazia uma concavidade onde as pedrinhas, qual animal amestrado caíam juntinhas, virava num instante da cota para a palma e lá estavam as pedrinhas prontas para novo jogo. Não me lembro de a ter visto perder. Tinha uma língua como um braço. A ela se aplicava aquela máxima do velho Comandante do Inferno:"«às mulheres ainda que lhe cortem metade da língua, falam sempre o dobro do que devem». Não sendo propriamente uma regadora, Rela sabia dar a volta a uma qualquer história e pôr-lhe um cunho pessoal que fazia com que mais ainda toda a gente se calasse quando ela falava. Sim, porque tinha uma voz estridente, sonora e agressiva, que se sobrepunha a qualquer outra, assertiva no seu todo, Isabel ficava sempre por cima quando se dispunha a ser ela o alvo das atenções. A mãe, ti Conceição Rela distinguia-se pelo nariz que era qualquer coisa de descomunal. Viviam nas Portelas mas, aos Domingos e mesmo durante a semana vinham amiúde ao povo. Eram cinco irmãos e como todos, ao tempo, começaram a esgalhar bem cedo. Isabel, garota ainda, foi contratada por Tonho Paravós  para o plantio de sobreiros na zona do Rosmaninhal. Trabalho duro, de sol a sol, sacola numa mão e árvore na outra, tinham que abrir um covacho de cerca de 30 cm de fundura enterrar o sobro, abrir uma caldeirinha para o tractor com água que vinha atrás os poder regar e a água não esbarrondar colina abaixo. Outros tempos em que o jogo não tinha electrónica!
Contava ela que um dia que ia na camioneta da carreira que apanhara no transbordo na ponte de S. Gens, sendo motorista da Martins Évora, empresa de camionagem concessionária dos transportes públicos, àquele tempo, para aquela zona raiana, sendo motorista dizia o ultra famoso Sr Ernesto. Era o único motorista que era tratado por SENHOR. Todos os outros eram ti João, ti Fernando, ti Zé Filipe,... O SENHOR Ernesto era da vila, sempre impecável no trajar, casaco e calça vincados, gravata sempre justa, camisa engomada, sapato reluzente. O cabelo, encaracolado, fazia inveja a artista de Hollywood. Conduzia uma GUY, a mais antiga da empresa, ainda com motor saído, cuja dianteira ia para aí uns três metros à frente do local onde Ernesto se sentava a conduzir. Tinha uma bitola ao centro e dois balizadores nas laterais. Ernesto nunca fazia marcha atrás. Só sabia conduzir para a frente. A velocidade máxima devia rondar os vinte quilómetros por hora, ao baixo e desde que a estrada fosse alcatroada, coisa que não era frequente naquele tempo e para aquelas bandas. Ernesto danava-se por mor do pó que lhe assentava na indumentária que ele, mal chegava sacudia e escovava ao pormenor.
Ia então Isabel rela com esta inesquecível figura da condução a caminho do Rosmaninhal para o plantio do sobreiro. Naquele dia ia mesmo no banco da frente logo atrás do banco da fiscalização, ocupado pelo também ultra famoso cobrador João Tarzan, que ali se sentara depois de ter cortado os bilhetes a todos os passageiros. Ernesto era de poucas falas, cão de vila, vaidoso quanto bastasse, dava pouca cúnfia, mas naquele dia estava para elas e vira-se para Tarzan: «oh!João, hoje vamos a andar bem, não vamos?» ( Rela a contar isto já quase não se tinha de tanto rir...) e João, malino como era, com a escola toda: " Vamos, pois, senhor Ernesto, olhe aí um macho atrelado a uma carroça, a ultrapassar a camioneta!"...
Era o que valia para matar o tempo àquela velocidade. 
Boas Férias.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE



                                         desenhos: carlos matos

quinta-feira, julho 02, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVII - ABRANGER / ABRENGER / ABRINGER

Tenho para mim que o mundo é redondo pela simples razão de que não tem ponta por onde se lhe pegue. Dispenso-me de vos massar com exemplos que o demonstram à evidência. Diferencio-me assim do velho Platão que defendia que a forma redonda do mundo não podia ser outra senão a redondez. Atenção: eu disse redonda e não esférica, embora no mesmo Timeu, o encarregado de executar as determinações da divindade, o demiurgo, fique justificada a forma da nossa cabeça, também ela de formato próximo do redondo. Na verdade, se entendermos que os gregos diziam que havia sete formas diferentes de movimento (seis rectilíneas: para cima e para baixo, para direita e para a esquerda, para a frente e para trás, e, claro, o redondo) facilmente compreendemos que a única forma plausível para o mundo só podia ser o redondo. Os gregos tinham como lema a harmonia e a perfeição. É ver qualquer das suas manifestações artísticas, seja na palavra - o teatro -, seja na pedra (arquitectura, escultura..., na cerâmica, enfim, e logo deduziremos da existência destas duas características, a que, consequentemente teremos de juntar o equilíbrio. Convido-vos a reparar no discóbolo, na vitória de Samotrácia,...
Ora tudo isto se junta no redondo: o fechamento é a própria união do princípio e do fim. Começa-se onde se acaba e acaba-se onde se começou. É a consecução do pretendido pelo efésio Heraclito: a harmonia dos contrários.
Porventura também vós que me ledes vos perguntareis que tem de tão original na nossa faladura este abranger. Como bem recomendava Heidegger, as palavras devem ser tratadas com desvelo e o seu significado deve ser buscado nas suas origens. Não é a semântica, nem a pragmática, que nos deixam a pureza da palavra, mas a etimologia. Vem a talho de foice ver o que o novo acordo ortográfico fez ao português: servilmente, abandonou-se à fonética e esqueceu o radical. Se fordes a um dicionário etimológico, o que vos vai aparecer sobre a origem desta palavra é obscura. Não admira portanto a enorme variedade de significados que lhe é atribuída.
Zé Verniz, Forelho ou Ferro Velho, era, de longe, quem melhor vestia na terra xêndrica. Era vê-lo fosse domingo ou dia de semana, aparecer do beco das escolas velhas, garboso e altaneiro, naquele seu porte típico de galã hollywoodesco, cabelo impecável, carregado de Brylcream, penteado com um risco do lado esquerdo, mantendo sempre um tamanho mais ou menos constante, elegantérrimo, enfiado, invariavelmente, num fato de pana (bombazina espanhola), sempre vincado, camisa bem abotoada, com botões de punho salientes e, claro, uma gravata de nó largo, sempre ajustada ao pescoço, reforçada por um colete de cujo bolso emergia um relógio preso por corrente de prata que de tão brilhante até encandeava. A completar o traje, um chapéu de aba curta, de cor variável, em função da cor do fato e uns sapatos pretos de verniz, ligeiramente pontiagudos. Nada disto admira se deixarmos claro que Verniz era contrabandista. Não era muito sociável mas gostava de vir até ao café do Chquim Cartola, que vivia da mesma actividade, e lá ia pagando e bebendo um copito com quem ele entendia. Ainda lhe fiz companhia algumas vezes.
Num dia de chuva o largo do Cavalheiro estava enlameado e Verniz não queria sujar os sapatos: "Oh Chquim abrenge-me aí um saco de plástico para forrar os sapatos, até que chegue ao alcatrão". E o Cartola:«Num tenho cá saco de plástico; só ali tenho um saco de enxofre flor, mas está todo sujo. Só se quiseres um cartuxo de papel pardo desses do açucar».Oh Ti Zé, disse eu, o melhor é esperar que pare de chover. Bebemos um cai bem e depois vamos os dois estrada acima. Só que Verniz estava apertado pelo tempo: tinha encontro com contrabandistas espanhóis para tratarem duns negócios e arranca desabrido. Estatela-se no chão e não ficaram só os sapatos sujos como todo o fatinho azul forte que até alumiava. Praguejou até mais não e acabou por alugar o táxi ao Fatela para ir até casa.
O contrabando é, de si, uma economia paralela, mas a esta escala não fazia grande mal ao mundo e sempre dava trabalho e subsistência, até com alguma qualidade, a muita gente. Nada que se pareça com os tempos que correm em que a dimensão é outra e quem anda nestas vidas são, muitas vezes, aqueles que deviam ser modelos de vida. Ocorre-me  referir:

A 2 de fevereiro de 1905 nasceu em S. Petersburgo a filósofa e escritora americana Alissa Zinovievna Rosenbaum, mais conhecida como Ayn Rand, falecida em Março de 1982 em Nova York. Ficou famosa esta frase dela, que se aplica como uma luva ao que vivemos em Portugal nos dias de hoje:

"Quando te deres conta de que para produzir necessitas obter a autorização de quem nada produz, quando te deres conta de que o dinheiro flui para o bolso daqueles que traficam não com bens, mas com favores, quando te deres conta de que muitos na tua sociedade enriquecem graças ao suborno e influências, e não ao seu trabalho, e que as leis do teu país não te protegem a ti, mas protegem-nos a eles contra ti, quando enfim descubras ainda que a corrupção é recompensada e a honradez se converte num auto-sacrificio, poderás afirmar, taxativamente, sem temor a equivocar-te, que a tua sociedade está condenada. “
AYN RAND (1950)

Estais, com toda a certeza, a abranger o que esta pensadora queria dizer, já naquele tempo!
Entretanto, Nosso Mnel chega ao Cartola ainda a rir-se do desaire de Verniz e dispara: Oh Cartola abrange-me aí um canabarro de branco traçado a ver se paro de me rir por causa do Verniz.
Naquele tempo os animais andavam na rua e Cartola, sabendo que nosso Mnel, vinha do alto da vila perguntou-lhe: "O Mnel viste o meu porco na lameira?" E Mnel:" Estava a coçar o lombo nas costas do Espírito Santo". 
Rebentamos todos a rir. Devo dizer para quem não conhece a aldeia dos xendros que o Espírito Santo é uma capela que fica em frente da lameira (baldio) e pertinho donde era a tasca do Cartola.
Aproveitei eu para contar aquela da factura de um artista que recuperava imagens de igreja e até talha dourada dos altares: 
- por ter posto os cornos ao diabo: 5 mil réis,
- por ter feito um menino ao colo de Nossa Senhora: 10 mil réis,
- por ter consertado a asa dum anjinho papudo: 20 mil réis.
Continuou o riso e finalmente deixou de chover.
Abrangi os copos ao Cartola e lá me fui com o mais que famoso carrinho de quatro rodas com a bilha vazia que tinha ido a levar ao Passa Culpas ao cimo da Lagariça. 
Abrangeis agora por que vos trouxe abrenger ou abringer?

XXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAANNNDDDEEE


Desenho: Carlos Matos

sexta-feira, maio 15, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXVI - PRI(E)ADA

Ti R’ção Chicórrela, baptizada Ressureição - no domingo de Páscoa do ano em que a Alemanha assinou o armistício reconhecendo a derrota na 1ª Grande Guerra -, pelo padre Zé Maria na velha pia côncava de granito talhada por mestre pedreiro na arte de manusear martelo e escopro, ficou viúva muito cedo. Ambrósio Balatreco, o seu homem, finou-se com uma cirrose, contraída à conta dos para cima de muitos copitos mal comidos. Senhor de uma gola larga, o tinto escorria sem empancar em nada até ao estômago. Era homem para precisar de 1 segundo e alguns milésimos para despejar um vaso de meio quartilho, mais ou menos o tempo que levava o líquido a sair do seu continente. Havia quem lhe pagasse copos só para apreciar o espectáculo.

Ambrósio ficava priado quando a mulher o ia chamar à taberna, numa tentativa de adiar o seu inevitável fim precoce. Foi vã a sua ralação e ignoradas as humilhações sociais que lhe infligiu. De maneiras que Ti R’ção teve de se fazer à vida sem a ajuda do seu Ambrósio para criar os 5 filhos que ele ainda teve tempo de lhe semear no ventre. O seu principal ganha pão provinha da venda de produtos hortícolas no mercado do Sabugal.

Quem sobe do Vale de Lobo para o Terreiro das Bruxas há-de reparar que a flora vai mudando, e por alturas de Santo Estêvão parece que se entrou noutro continente: a temperatura baixa, começam a rarear as hortas, as oliveiras e as árvores de fruto, em compensação, passam a abundar os prados, os castanheiros e os carvalhos negrais. E toda esta transição se opera em menos de 2 léguas. Para cá da Senhora da Póvoa cultivam-se boas hortícolas e boa fruta, para lá de Santo Estêvão, produz-se batata de excelência, castanha e carne tenrinha.

Foi neste quadro de complementaridade territorial que Ti R’ção encontrou uma oportunidade de negócio, um nicho de mercado: no tempo, carregava a carroça de nabiça, tomates, pimentos, beringelas, feijão verde e demais hortícolas e rumava a norte. A mula Andorinha estava ensinada e não precisava de muitas instruções para se meter direito à quelha funda, "às endireituras da fonte Carvalho, subida ao talefe do salgueirinho, passagem pela capela do Meimão, às endireituras do castanheiro das merendas e depois era sempre a descer até ao Sabugal". No regresso, acarrejava sobretudo batata de semente e castanha. Levava sempre 2 ou 3 dos seus filhos para lhe fazerem companhia mas sobretudo para a ajudarem nas contas que ela não sabia fazer. Quase ninguém o sabia mas a Ti R´ção, nalgumas viagens, meteu-se a contrabandista, feita com dois irmãos de Quadrazais a quem fazia chegar café e açucar e recebia alpergatas e fazendas que entregava a um primo de Castelo Branco. Uma oportunidade de negócio perigosa, mas rentável, facilitada pela situação económica espanhola que ainda lambia muitas feridas da guerra civil.

Uma vez, meava Junho, ali ao fundo da vila na água férrea, é interceptada pelo cabo Estrela, agente da Guarda Nacional Republicana conhecido pelo zelo com que cumpria o seu dever de fazer cumprir as leis do Estado Novo, a bem da Nação, que lhe pergunta pela licença da carroça.

O Estado Novo impunha leis peculiares. Careciam de licença o uso de isqueiro, as bicicletas, era proibido beber coca-cola, jogar às cartas nos comboios, dar beijos em público, as senhoras professoras tinham de pedir autorização ministerial para se casarem, etc. Ti R´ção não tinha licença nenhuma, tão pouco alguma vez lhe passara pela cabeça que era preciso ter. Não facilitou o nosso cabo e passou-lhe a respectiva multa de oitenta mil e quinhentos escudos. Mesmo analfabeta, logo ali percebeu que o lucro do dia ia todo para pagar a multa. Preada, fez o caminho de ida e volta a rogar conjuras ao intransigente agente, praguejando-o a ele e a toda a sua ascendência.

Na semana seguinte, no mesmo local, volta a ser parada pela GNR. Ela, orgulhosa exibe uma licença:

- Desta já no m’apanhandeis filhos d’um rai, aqui stá a licença, bem haja quem m’a emprestou.


quinta-feira, abril 30, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXV - SAROTO

Se há tema de difícil tratamento, sem dúvida, o tempo ocupará lugar cimeiro. Agostinho de Hipona em resposta à pergunta: o que é o tempo, sai-se assim (Vide Confissões, XI, 14-17): «Se ninguém me perguntar, eu sei, se quiser explicar a quem me pergunta, já não sei.».
Podemos falar de tantos tempos, que difícil é em pouco tempo conseguir enumerar tantos tempos: tempo físico, tempo psicológico, tempo atmosférico, tempo atómico, tempo social, tempo real, tempo virtual ... e até algumas partes do tempo são tão diversos que até parece que não nos referimos ao mesmo espaço de tempo: ano civil, ano fiscal, ano lectivo, ano religioso, ano agrícola..., tantos tempos e passamos a vida a dizer que não temos tempo.
Mais complicado ainda é se repararmos que ao mesmo tempo vivemos em tempos diferentes, seja no mesmo espaço, seja em espaços muito diferentes. Imaginai apenas uma festa de anos de um vosso filho e reparai quantos tempos diferentes aparecem na festa: O tempo do vosso filho, o vosso tempo, o tempo dos avós, dos tios ,... vivem todos no mesmo tempo e simultaneamente em tempos diferentes: brincadeiras diferentes, roupa diferente, preferências alimentares diferentes, linguagens diferentes, cada uma destas facetas reflectindo um tempo que já ocorreu noutro tempo. É mesmo complicado entender o tempo.
Se nos transpusermos para outros continentes, então até parece que o tempo parou: um bosquímane, por exemplo, até parece que vive nos tempos pré históricos e, no entanto, também coabita connosco a mesma Terra. E mais: nós que temos tanta civilização, tanta tecnologia, tanta facilidade, acabamos por não saber como sobreviver nos desertos africanos...Mas o bosquímane sabe. Essa é que é essa! Precisaríamos de muito tempo para aprendermos rudimentos do que ele sabe. A realidade é que ele sobrevive naquele ambiente inóspito com instrumentos rudimentares e nós morreríamos em pouco tempo, apesar de tanto aparelho sofisticado.
Às tantas vivemos num tempo sem tempo tantos são os tempos e nós nunca temos tempo. Falta-nos tempo para tudo. Antigamente não havia telemóveis e os meios de comunicação eram tão lentos que até afligia, só que havia tempo para tudo: os terrenos andavam todos lavrados, limpos e cultivados, as propriedades eram divididas por muros feitos com pedras pequenas, aparelhadas sem argamassa e ainda hoje resistem, se alguém nascia ou morria a presença dos familiares e amigos acontecia como que por magia, enquanto hoje, com tanta inovação, em que instantaneamente por correio electrónico, por sms, via skipe, a bem dizer, fazemos coincidir o real com o virtual, e ninguém, ou poucos, aparecem. Outros tempos! Sendo objectivamente o tempo o mesmo para todos, até parece que é diferente para cada um..
Volvamos ao tempo em que o tempo de criação de um porco doméstico era, em média, uma no. Criado sem aditivos farináceos de engorda, era mimado com viandas  resultantes do aproveitamento de todos os restos, a que se juntava, à laia de tempero, um pratinho de esmalte de farelo. Claro que o tempo de crescimento era muito mais lento. Só que isso fazia com que a carne fosse muito mais saborosa e os enchidos unissem melhor, deixando-nos os dedos untados por uma gordura temperada que lambíamos com sofreguidão. Já pouco se vê disso, nos tempos que correm.
Quem desta vez matava o porquinho era o ti Chico Rolo. O matador era o irmão Zé e entre os convidados estava também eu. O filho, também ele Chico, mais familiarizado com o animal entrou na furda com uma corda já pronta com nó corredio, para pear o animal. Com maior ou menos dificuldade, Chico lá atou a pata traseira do bicho, o mano Zé abriu a porta da furda, enquanto Mné Chquim com um caldeirinho com milho, ia chamando o desgraçado:«fecá, fecá, fecá, toma, toma, toma...».Chegado perto da banca era preciso tombá-lo, meter-lhe um cordel na boca e apertar-lhe bem o focinho, segurá-lo firmemente, deitá-lo na banca, amarrá-lo comédado e deixá-lo em posição adequada para Zé Rolo lhe espetar a faca. Não foi nada fácil: o porco era valente, o terreno estava escorregadio da chuva, tudo escorregava, inclusive o próprio porco devido à morrinha que caía e, para cúmulo, o rabo do porco era saroto, pelo que ninguém lhe podia pegar por trás para o conseguir ajudar a imobilizar. A custo lá se levou a tarefa a cabo e na conversa enquanto se saboreava a meloreja, lá se volta à narrativa e se realça de novo a complicação que é ardulhar um porco no chão quando tem o rabo saroto." Quando é comprido, afiançava Zé Labouxa, vizinho, um homem, bota-lhe os gadapunhos e o animal é como que fica sem metade da força, quando se lhe pega com alma ao rabo". Todos concordaram e a conversa depressa passou para o tempo que «num dava pra fazer nada, estava tudo encharcado, e nem o gado podia sair, era só a poder de comida à manjedoura», e mais isto e mais aquilo até que se passou o tempo e era tempo de cada um ir à sua vida mesmo que o tempo atmosférico não ajudasse.
E eu também tenho que me ir, cassenão não vou a tempo de chegar a tempo do tempo acordado para uma conversa entre amigos numa tertúlia gastronómica em que o tema é exactamente o tempo.
A ver se não demoro tanto tempo a contar-vos mais histórias das terras xêndricas.
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segunda-feira, abril 06, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXIV - SARAPOTO

Muito se tem discutido sobre o que seja e o qual o valor do que vulgarmente chamamos de opinião. Creio, no entanto, que talvez tenha sido Platão que a colocou no seu verdadeiro lugar. Ela está muito perto da ilusão, ou seja, da confusão entre sombra e realidade. De facto, não é difícil tomarmos por real aquilo que apenas nos parece ou que apenas se parece. Muitas vezes somos mesmo teimosos persistindo em asseverar o que afirmamos, não ouvindo quem connosco entabela conversa. Confundimos amiúde opinião com comentário, bitaite, ..., e, iludidos nessa pseudo-opinião, agimos em conformidade com ela, sem procurarmos fundamento seguro. Platão vai mais longe e junta ilusão à crença. Considera mesmo que uma crença verdadeira justificada origina conhecimento seguro. Ora, isto nem sempre é verdade, porque podemos partir de pressupostos que julgamos indubitáveis e garantimos, iludidos pela crença, que o que dizemos é verdade e não pode ser de outra maneira. Se alguém nos contradiz chegamos ao cúmulo de acabar com a dialéctica com o famoso aforismo: fica com a tua que eu fico com a minha.
Ora a opinião, enquanto vista como uma ascese para o conhecimento verdadeiro admite em si mesma o erro. Por exemplo, e sirvo-me de Gardner, se me habituei a olhar para um relógio e ele sempre me deu horas certas, penso que agora que olho para ele, também me está a dar a hora correcta. Não me passa pela cabeça que desta vez o relógio se tenha avariado ou simplesmente atrasado por velhice da pilha e, em consequência, pauto a sucessão da minha vida normal, em função da informação horária fornecida pelo 'infalível 'relógio. Só tarde e às más horas é que me dou conta de que, afinal, o relógio me enganara. Dito de outro modo: nem mesmo as crenças devidamente fundamentadas, justificadas por vezes sem conta e tidas como verdadeiras são insuficientes para nos garantir um conhecimento verdadeiro.
Para além disso há a natural tendência  para alijarmos a culpa para o outro. O outro, o grande outro como gosto de lhe chamar, só nos faz falta para pormos nele a culpa do que não nos acontece como gostaríamos que nos tivesse acontecido.
Desde logo, na Bíblia ficou escrito que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Ora, se lermos bem, entramos numa contradição original: se Deus nos fez à sua imagem e, sendo ele, por natureza, o Bem, então a sua obra devia agir como Ele: apenas praticando o bem, já que no efeito não pode haver mais que na sua causa, ou Lavoisier é uma balela. Volvamos à Bíblia: Deus olhou para o que tinha ordenado que se fizesse e viu que tudo estava bem feito (seria, de facto, um contra senso que  Deus omnipotente  tivesse que se esforçar para fazer o que quer que fosse, ou ainda que tivesse que emendar a mão para corrigir o mínimo erro que fosse) . Entendamo-nos: está escrito que no princípio era o Verbo, isto é, a palavra. E a palavra chave do Génesis é FIAT, isto é, faça-se ou seja feito, como se queira. É também assim no Pai Nosso onde se diz: FIAT voluntas tua= seja feita a vossa vontade).
Reparemos, todavia que Deus só ocupa seis dos sete dias da semana. Pois é, o sétimo ficou para o homem. Cabe perguntar: porquê e para quê. Ora, está bem de ver: para o homem fazer asneiras. Para fazer o Mal. Só que, e dando razão ao atrás dito, o homem não podia ficar com a culpa e vai daí culpa a mulher que ele próprio tinha requisitado a Deus para não se sentir sempre só, mas esta como era derivada do Adão originário, também não queria a culpa e, vai daí, transpõe-na para a sedução da serpente... Ou terá sido tudo também resultado de um planeamento divino, para que, efectivamnete, o homem nunca pudesse ter os poderes que ele tinha. Deus não poderia expulsar Adão do Paraíso de motu proprio. A responsabilidade, ou se preferirmos na linguagem bíblica - a culpa - nunca poderia recair sobre o próprio Deus. Assim, Ele também alija a culpa para o outro - para o homem -. Ele é que desobedeceu às ordens e portanto auto expulsou-se do Paraíso. Ou será que Deus tinha planeado isto tudo e assim, ao fim, seria ele o culpado? Aconselho-vos a ler um filósofo irlandês contemporâneo: Richard Kearney.
É um facto que nunca vemos o outro como o Bem. Há-de ter sempre defeitos. Perfeitos, só nós e as nossas opiniões. Mainada. Somos mesmo sarapotos.
Alma de Sino tinha um Ford Cortina de cor esquisita que custava a definir entre o anil e o turquesa. Aquilo não era um carro era um todo o terreno. Quantas lebres morreram debaixo daquela viatura que entrava pelas aradas com a mesma velocidade que andava em estrada!... Alma de Sino era um técnico de electrónica muito avançado para o tempo. Tinha freguesia de todo o lado para lhe arranjar os rádios avariados que nenhum outro técnico era capaz de compor. Vi-lhe mesmo fazer uma televisão a preto e branco, de origem: desde a armadura em madeira até toda a encruzilhada de fios de diferentes cores, soldadura de cada uma das peças, até ao fechamento. Trabalhava como um lírio. Ainda lá vi muitos jogos de bola. Um dia à noite estava combinado um petisco de lebre na Rosa. Só que ainda não havia lebre... Por tal azar o Ultra Cortina resolveu fazer gazeta e não pegou. Alma de Sino ainda fez uma série de matrafuscas, mas nada. Mas o petisco tinha que se fazer... Foram ter com Tchinchas e lá o convenceram a ir ao caminho da Ribeira da Ceife, até perto da charca do Figueira, do Pedrógão, "para limparem o sarampo" a uma. Foi rápido até que viram uma, mas Tchinchas que não estava treinado a atirar em movimento errou os dois tiros. Levou rodas de sarapoto, azelha, ceguinho e afins e Nosso Cabo Chico, salta para cima da carrinha e passado pouco tempo com um trabuco que ele próprio construíra virou uma lebracha de pantanas. Só que era pequena para os convidados...Alma de Sino diz para Coiote Pete que na altura conduzia: «Bota cá o volante que eu já resolvo isto num foguete». Virou a carrinha de caixa aberta em sentido contrário atou uma tábua presa por arames às laterais dos taipais, arranca com calma e vê uns olhos a brilhar. Confere que se tratava de uma lebre, mete pela arada e não tardou o animal tinha levado com uma traulitada com a tábua e ainda estrebuchava quando a fui apanhar.Alma de Sino auto vangloriava-se: «sois todos uns sarapotos; se num fosse cá o Mnel comíeis mas era pão com molho».
XXIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGRRAAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNNNNNDDDDEEEEEE


quinta-feira, março 19, 2015

NOVA FALADURA PORTUGUESA

Prontus
Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um 'prontus'! Fica bem.

Númaro
Também com a vertente 'númbaro'. Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para se deixar de utilizar a palavra NÚMERO, a qual está em claro desuso!

Pitaxio
Aperitivo da classe do 'mindoím'.

Aspergic
Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina

 Alevantar
O acto de levantar com convicção, com o ar de 'a mim ninguém me come por parvo!... alevantei-me e fui-me embora!'.

Amandar
O acto de atirar com força: 'O guarda-redes amandou a bola para bem longe'

Assentar
O acto de sentar, só que com muita força, como fosse um tijolo a cair no cimento.

Capom
Tampa de motor de carros que quando se fecha faz POM!

Destrocar
Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.

Disvorciada
Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.

É assim...
Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no início de qualquer frase. Muito utilizado por jornalistas e intelectuais.

Entropeçar
Tropeçar duas vezes seguidas.

Êros
Moeda alternativa ao Euro, adoptada por alguns portugueses.

Falastes, dissestes...
Articulação na 4ª pessoa do singular. Ex.: eu falei, tu falaste, ele falou, TU FALASTES...

Fracturação
O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que nãofractura... não predura.

Há-des
Verbo 'haver' na 2ª pessoa do singular: 'Eu hei-de cá vir um dia; tu há-des cá vir um dia...'

Parteleira
Local ideal para guardar os livros de Protuguês do tempo da escola.

Prutugal
País ao lado da Espanha. Não é a Francia.

Quaise
Também é uma palavra muito apreciada pelos nossos pseudo-intelectuais... Ainda não percebi muito bem o quer dizer, mas o problema deve ser meu.

Stander
Local de venda. A forma mais famosa é, sem dúvida, o 'stander' de automóveis. O 'stander' é um dos grandes clássicos do 'português da cromagem'...

Tipo
Juntamente com o 'É assim', faz parte das grandes evoluções da língua portuguesa. Também sem querer dizer nada, e não servindo para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado, nem certo. É assim... tipo, tás a ver?

Treuze
Palavras para quê? Todos nós conhecemos o númaro treuze.

rapinado da rede

terça-feira, março 10, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXIII - BAZAROCO

Nosso Fernando era, e ainda é, o mais velho dos Pombos. É daqueles que, com uma simples navalha, mata um porco de oito arrobas ou mais com uma única espetadela. Enterra a navalha uma vez, tira-a, limpa-a e poisa-a. Enquanto os outros seguram o porco e um mexe o sangue no alguidar com uma mão cheia de sal grosso, Fernando vai-se à mesa, corta um naco de queijo fresco, arrefinfa-lhe um branquinho e apenas limpa o focinho na chamusca, faz o cu e o pindrico se for macho, abre os nervos para o chambaril e torna a esperar que pendurem o porco para se dedicar a abri-lo. Rasga dois sulcos ao lado das tetas do animal, separa o soventre de baixo para cima num jeito certeiro, aventa a tira para trás e começa a abrir as laterais com uma eficácia que é de admirar em quem nunca foi cortador diplomado. Tão habilidoso é à direita como à esquerda. Aprecia a carne do animal decretando se tem boa febra ou se é só gordura, pede o tabuleiro para apararem as tripas, detém-se no osso da suã, abre-o nos dois sentidos puxa as tripas, tira o fel do fígado, vem até à língua, fazendo a gola de caminho e separa a fressura que pendura num prego da trave mestra da loja. Enquanto alguns vão a separar as tripas, nosso Fernando, pede uma malga e começa a cortar nas melorejas que eu logo me apresso a migar porque a bucha não pode tardar. Nosso Fernando vai-se até ao lume e aguarda que a fritada da meloreja vá para a mesa, roendo umas azeitonas retalhadas e mandando uma bocas aos das tripas: « sandens mesmo uns bazarocos, já arrebentásteis a tripa em cinco lados. Eu tinha vergonha...E tu oh nalga roxa, num vês que isso que estás a separar é a madre?! Isso num presta para levar enchido! És mesmo um bazaroco! já tiveste tempo de aprender. num sei pra que raio andandens a estudar se num distinguis a madre, da tripa dum animal. O que tu merecias era que ela estivesse saída e logo vias aí o sangue da lua...Palavra de honra!» Dou-lhe a meloreja a provar e salta logo: sal, precisa de sal. De pouca adiantava que eu lhe explicasse que o sal só fazia mal à saúde e que ele não gostava de meloreja mas de salgadeira. Lá o consolava com mais um branquinho e logo mandava a sentença: olha que a meloreja num quer branco. Casca-lhe mas é com uns tintos valentes na caçola».
Na minha casa paterna, matança não metia saia. As mulheres só apareciam mais tarde e competia-lhes fazer a viragem das tripas que os homens já tinham limpo e a respectiva adoba em laranja, alho, loureiro, sal e mais o que entendessem necessário para depois encherem o belo chouriço, bexiga, palaio...
Naquela matança, os homens estavam entretidos com as tripas e eu fiquei sozinho com ele e provoquei-o. Diga-se, antes de mais que nosso Fernando gabava-se de saber de tudo. Na verdade, ele era tosquiador, pedreiro, pintor, barbeiro, hortelão, meio sapateiro, limpador, podador e qualquer outra tarefa que lhe fosse cometida, era certo e sabido que nosso Fernando nunca se negava e desafiava quem fizesse melhor que ele
Começo eu: «Oh ti Fernando, já reparou que as mulheres não nascem mulheres?» E ele:" Então nascem homens, é?" « Não, elas nascem é com potencialidades para se tornarem mulheres; quando nascem ainda não são mulheres,» " lá isso pode ser verdade que eu à minha filha sempre lhe chamei de garota. Até agora, que já me deu dois netos quando falo para a minha, pergunto sempre pela nossa garota" Ora vê! Mulheres só são as do seu tempo que já se casaram, e, se bem calha, ainda lhes chama de cachopas quando passa por elas" Eu ia controlando a meloreja na caçola e ele apreciando e metendo veneno nos separadores de tripa, mas nunca esquecendo a conversa. Vem-se a mim e remata: « mas, porra, um garoto num é igual a uma garota! ele nasce com uma pindrica e ela com uma greta!» "Ora aí tem: não nascem mulheres, hão-de tornar-se mulheres"» Até aí tens tu razão, só chegam a mulheres quando se casam!» "não é bem assim" e começo a fazer uma oração de sapiência sobre a diferença entre natureza e cultura, a consideração que as mulheres têm nas diferentes culturas, religiões, povos... no seu papel social, na importância que sempre desempenharam na civilização... " «Vê lá num deixes esturrar a meloreja!
Percebi que a conversa estava desajustada e arranco-lhe com uma história sobre o significado do peido. Aí ele presta logo atenção. "Uma vez no combóio, no tempo em que ainda era tocado a vapor e o fogareiro ia alimentando a caldeira com hulha, na mesma carruagem e, num banco de frente uns para os outros, iam , um advogado, um médico e um agricultor. Não havia motivo de conversa e o lavrador, de repente, solta um sonoro. Diz o advogado: o peido é uma justa reivindicação do cu relativamente à boca; e o médico: o peido é uma consequência natural dos gases libertados por alguns alimentos que o organismo se vê na necessidade de expulsar. Digamos que é um arroto nos antípodas. O agricultor que encolhia mais uns quantos que lhe apetecia soltar, ia calado, até que lhe pergunta o médico: então e para si o que é o peido?

Nosso Fernando solta uma gargalhada e e depois de se ter certificado de que a meloreja estava no ponto: Oh corja de bazarocos, intão isso inda num está aviado?! Inté cagava um pé todo! se eu metesse as mãos a isso, já faz tempo que lhe estávamos a arrefinfar ! Nosso Zéi, irmão de Fernando, que também sabia da folha ainda lhe respondeu: O que tu sabes já a mim me esqueceu. Vai masé enchendo os copos que nós já aí vamos. Abriste pouco a cabeça do porco e se eu lá não tivesse ido a cortar mais meloreja ficavas só a molhar pão no molho. Fernando sentiu o toque :«quando tu nasceste já eu comia pão com côdea, meu bazaroco!
Tudo se compôs e a  plangana da meloreja depressa ficou aviada porque não adiantava guardar para as mulheres, que, se a comessem podiam quebrar a madre e nunca mais poderiam ser mães... Crenças que justificavam que os homens comessem o que era bom e as mulheres apenas assistissem, salvo as avós já em idade de não poderem voltar a ser mães, porque a essas já não fazia falta a tripa madre. Outros tempos!
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sábado, fevereiro 14, 2015

A NOSSA FALADURA -CCXXXII - CACHARRO

Mnel Belorico era conhecido por engenheiro. Mestre pedreiro por profissão era mais amigo de uns cacharros bem bebidos do que de aparelhar pedra. Dizia alto e bom som para quem o queria ouvir que ninguém sabia pronunciar o seu nome assim comédado: o apelido não era Belorico, mas Belo Rico. É assim a modos que uma mulher se chame Mariana em vez de ser como pertencia ser Maria Ana. Mainada. O povo dizia que era vaidoso e o que melhor fazia era despejar uns bons cacharros no Fatela ou no Zé Rolo. Belorico danava-se. Miguelito, numa festa de entrudo imitou-o: Belorico tinha ajustado uma parede ao Zé Geadas ali para os lados da Saramaga, que tinha caído para a ribeira. Era perto da aldeia e Belorico, perdido e achado estava na tasca do Fatela ou na adega do Zé Rolo. Geadas não era de modas. Tinha uma voz de trovão e morava mesmo a meio, entre as duas tascas na curva do adro a dar vistas para a ponte e se o cocava quer num quer noutra, injuriava-o até à quinta geração, ficando toda a aldeia a saber que Belorico, em vez de trabalhar, passava o tempo na borracheira. Belorico fazia-se surdo e só dizia: «Já lá vou!Daqui até que a ribeira volte a correr inda tens muito que aldeagar». Com o tempo, lá acabou a parede e foi-se ao Geadas para receber o ajuste. "Agora esperas tanto tempo pelo dinheiro como o tempo que demoraste a fazer o muro, engenheiro Belorico". Belorico afinou: «à uma num sou Belorico, mas Belo Rico, e odepoi num sou engenheiro mas artista da pedra, ouviu ou quer que repita?» Foi para as tascas e todos ficaram a saber que o Geadas faltava à palavra e que os que mais têm são os que pior pagam. Tanto pregou que o Geadas, bravo como era, num Domingo à saída de missa o chamou e na frente de quem estava: «Toma lá oh Belo Rico, artista do calhau, conta e vê se tens o que acertámos» Belorico conferiu e "num faz mai que a sua obrigação! Quem deve, paga, mainada"! O povo acabou por ficar indefinido sobre quem tinha razão. Miguelito, no entrudo, acabou por inventar uma rábula em que fez uma choradela aos dois. As paredes de Belorico só ficam direitas se fossem vistas de esguelha e Geadas era um caga de alto. O povo ria, está claro. Belorico encolhia os ombros, Geadas atordoava as pedras aos berros a vociferar que metia Miguelito em tribunal. 
A época do entrudo sempre me fez espécie. Não entendo por que razão uma pessoa deixa de ser o que é e se disfarça noutra, sempre mais horrorosa e feia. Parece que há gozo em se tornarem muito piores do que são. 
Depois, não faz sentido chamarem carnaval a este período introdutório da Quaresma. O termo é italiano CARNE VALE, ou seja, é permitido comer carne e por isso se chama ao Domingo que antecede esta época, Domingo Gordo. Era a altura em que se tirava da salgadeira 'antes que rançasse' a faceira com orelha, o chispe e a última buchanha, se coziam uns valente feijões encarnados e se provava comédado o azeite da última colheita, a ver se provava bem. Eu gostava daquilo. Até Quarta feira de cinzas era um fartar vilanagem, porque depois vinha o jejum e a abstinência, mais para os pobres dos pobres que não podiam comprar a bula que os desvincularia da obrigação de não consumir carne, sobretudo às sextas feiras até Domingo de Páscoa. Já se está a ver que quem as pagava era o bacalhau. A mim, pouca diferença me fazia, que se há peixe de que gosto, o fiel amigo está na linha da frente. Já ENTRUDO é português de lei e por isso às rábulas como as que Miguelito fazia nunca se chamou choradela de carnaval, mas sim choradela de entrudo.
Belorico era amigo do palavreado e se tivesse quem lhe desse troco e lhe pagasse uns cacharros tinha histórias para entreter tempo mais que muito. Morava num recanto da lagariça, numa casota de pedra -também era melhor que não fosse!- mas parava lá pouco. A casota ficava mesmo por detrás da do meu avô, o velho Comandante do inferno que de vez em quando o chamava a atenção, mas Belorico fazia ouvidos de mercador e ala que se faz tarde.
Duma vez meti conversa com ele, num Domingo em que tinha ido buscar um garrafão de tinto ao Comandante: Então, ti Mnel, o que faz agora?, «olha cachopo, agora num faço nada, e inda num acabei" «Mas não acabou o quê se não faz nada?» «é por isso que amanhã volto a fazer o mesmo que faço agora a ver se acabo». Fiquei a olhar para ele e a dizer-me "toma que já almoçaste"!
Quando nos despedimos no largo da lameira ao pé da adega do ti Zé Rolo ainda se saíu com mais esta: « já arreparaste que andamos sempre a comer e nunca matamos a fome?»
E de mim para mim comentei: " afinal Belorico não é engenheiro, é filósofo"
Apressai-vos a comprar a bula senão tendes que jejuar. Se puderdes arreai-lhe com uns cacharros bem acompanhados.
XIIIIIIIIIIII GRRRRRRRRAAAAAAAANDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEE

quarta-feira, janeiro 21, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXI - CASCAR

- "Casca-lhe com o machado nos cornos, a esse cabrão, antes que ele te torne a tentar morder!" Este edificante início de discurso travava-se no palheiro de Domingos Alguitarra, manhã cedo, quando Alvarinho ia a deitar comida à junta de asininos e o macho, inteiro e jovem como era, arreganhou a dentuça e, se Alvarinho não repara a tempo, ter-lhe-ia ferrado uma dentada que o deixaria marcado para sempre. Alguitarra tinha a mania de que era o justiceiro mor da terra xêndrica e nunca o agora recordado, por estátua na Lameira, padre Zé Pedro teve inimigo tão figadal. Tudo por causa da famosa Gráfica do Outeiro, cujo tipógrafo era seu filho, também ele, Domingos e funcionava ali para os lados do bairro mesmo ao lado da casa do Guilherme Chornico. Alguitarra afirmava alto e bom som que o padre Zé Pedro lhe ficou a dever muito dinheiro, já não me lembro quanto. Temo até, que se ele ainda fosse vivo ou a estátua não era feita ou ele já a teria destruído. Posso mesmo dizer porque lho ouvi muita vez que Zé Pedro era o seu ódio de estimação e que, se algum dia se voltasse a encontrar com ele, tinha umas contas a ajustar e" se ele se armasse em "mnel de sousa" lhe cascaria "com o olho do machado nos cornos". Mas, naquela manhã, o ódio de Alguitarra virou-se todo para o burro inteiro que matou à machadada, cascando-lhe tais e tantas que o sangue espirrou por todo o lado. Alvarinho escapou da mordidela mas não se livrou de ter que abrir uma cova para enterrarem o Zagaio.
Não vamos aqui aprofundar nem as teorias das emoções nem quantas são as chamadas básicas, mas numa estão os diferentes psicólogos de acordo, mudando-lhe, por vezes o nome: ira, raiva, ódio. As outras mais comuns, já agora, seriam o medo, a tristeza e a alegria. Já em plano secundário surgem depois o ciúme, a inveja e a vergonha. Posta esta lição de lado vamos a um outro tema, que deriva por sinédoque , das avessuras de Alguitarra contra o Padre Zé Pedro.
Deixei-vos aqui, há umas crónicas atrás, um grito: "nada como ir aos livros". Hoje por hoje, é por demais consabido que a tendência é procurar na rede (também chamada de net) informações sobre o que quer que seja e, neste afã, esquecemos de tirar a limpo informações sobre quem escreve aquilo que lemos e qual o seu nível de autoridade para nos merecer crédito. Não há dúvida que continuamos a sofrer de opinionite e mandamos bitaites sobre o que quer que seja sem fundamentação justificadora. Não é essa a prática do basa...
Os dias de hoje têm sido apoquentados por notícias em que essencialmente duas religiões são vedetas: o cristianismo e o islamismo  e, em menor grau, dado o ataque ao supermercado judeu em Paris, o judaísmo. Exactamente as três monoteístas de maior difusão.
Fiquei deveras estupefacto ao ler (História Oculta da Igreja, editorial Estampa, vv.aa.) e sob o título Mil anos de "santos" papas, que o primeiro milénio do papado foi multifacetado e ocupado por chefes supremos da Igreja católica que jamais julguei possível. Enumero alguns (Pgs.67 e sgs): Anacleto ou Cleto foi o terceiro papa e era casado (o segundo a seguir a Pedro teria sido um tal Simão, o mago) que praticava a levitação), Pio I (140-155) dizia-se irmão de Hermes, Sotero (166-!75) partilhava a sua vida com duas discípulas - Priscila e Maximina -, Fabião (236-250) mais não era que um pastor que chegou a Roma em busca de trabalho e uma pomba branca pousou-lhe na cabeça e as pessoas que o rodeavam convenceram-se de que era o Espírito Santo e, como havia vacatura papal, Fabião é investido em Papa, Marcelino (296-304) oferece sacrifícios a Ísis; Sisto III (432-440) violou a religiosa Chrysogonie e envenenou o padre Bassus que o denunciara. E fico-me por aqui. Se mais quiserdes saber, nada como ir ao livro...
Atiçado pelas verdades - podeis confirmar as datas e o que atrás fica dito em qualquer enciclopédia de jeito e até mesmo na cómoda rede (internet)- peguei num outro livro que já tinha adquirido faz algum tempo : A Igreja Católica Ainda Tem Futuro?, notícias editorial, 2001, de Herbert Haag, padre católico, professor emérito da Universidade de Tubingen, especialista na leitura da Bíblia e com renome internacional e voltei a ficar, como vos dizia há algum tempo, espapassado.
Assenta em três pontos a tese de Haag: "1- Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja; 2 -Por isso toda a estrutura ministerial remete para a própria Igreja. Jesus não criou nenhum cargo oficial. Assim, a Igreja pode proceder de modo totalmente livre com os ministérios. Pode mudar os actuais ou aboli-los e introduzir novos. Não deve tornar-se escrava dos ministérios que ela própria criou. 3- O mesmo vale para os sacramentos. Todos os sacramentos têm origem na própria Igreja e esta pode, neste domínio, proceder com liberdade...." (pag. 7) e mais à frente (pág. 13):" Tudo pode ser mudado na Igreja, só uma coisa é que não: a palavra de Jesus que lhe está confiada. Palavra que é Boa Nova de Deus para os homens e para as mulheres." 
A sequência do livro vai sugerindo alternativas para a actualização da Igreja mas esbarra no famoso tradicionalismo eclesiástico: "Roma só sabe pensar em séculos". Pode ser verdade, mas os tempos que hoje vivemos são muito rápidos, as unidades de tempo são curtas e tumultuosas. Isto é, nada tem a ver com a pacatez e a lentidão da Idade Média. Ora, nós vivemos hoje e é hoje que devemos fazer o que é necessário e nossa obrigação"(pág.17).
E hoje deixo-vos por aqui, deixando, todavia, uma máxima que já vem do velho Comandante do Inferno e era também apanágio de Alguitarra:" A mim não me comem eles as papas na cabeça"
Seja o que for que fizerdes fundamentai-vos sempre. E garanto-vos: nada que chegue aos bons livros, bem escritos por quem sabe da poda. Em breve vos trarei novas histórias das terras xêndricas
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGRRRRRRRAANNNDDDDDDDDEEEEEEEEEEE

quarta-feira, dezembro 31, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXX - (ES)CARAMOUÇO

Os Menas eram mais que muitos. A mãe de todos eles - e eram oito vivos quando eu comecei a ser gente- era vizinha de minha bisavó paterna, Isabel de seu nome, a quem eu ainda fiz a vida negra. Nunca lhe vi uns sapatos. Os pés, se caminhassem na areia, não precisariam de plataforma larga, pois, a bem dizer, tinham tanto de comprido como de largo. Vi-a várias vezes calcar lacraus e pisar silvas e outras plantas com carapetos. Por vezes levava-me com ela à lenha para o lume e já garotelho trazia quase tanta lenha como ela. Insisti com meu pai para lhe oferecermos um fogão a gás que substituísse a velhinha panela de ferro que lhe servia para tudo confeccionar. Invariavelmente tinha miga de batata que nunca mais comi igual. Fedelho como era, lembro-me de me sentar num tropesso de cortiça, perto do lume, junto a uma mesa esconça, coberta por uma toalha de estopa, bordada à mão, e mais encardida que tapete de seira à entrada de lagar de varas. É aqui que volvemos aos Menas. A mãe, Maria - pois que outro nome poderia ter? - morava contígua  à minha bisavó, cofiava o linho sentada num banco de pedra, ali na curva da lagariça, com tal arte e rapidez que me deixava encandeado a olhar para a sua destreza, na sábia habilidade da articulação da roca e do fuso. Era a companheira predilecta de minha bisavó. O pai, Mnel, junto com Chico e João eram os lagareiros do lagar da lameira. Que saudades tenho desse lagar!Diga-se, de passagem, que já aqui no basa fizemos força para que este espaço, que ainda se mantém de pé e em estado razoável de conservação, fosse adquirido pela autarquia e sobrevivesse como escola viva da arte de bem laborar a azeitona . É, de facto, uma lástima que uma relíquia destas se deteriore sem recuperação condigna.
O lagar é fácil de descrever: duas salas. Numa estava o pio onde se moía a azeitona (600kg de cada vez - uma moedura -) a poder de tracção de uma junta de vacas do Alberto Vaz, que, jungidas, puxavam três enormes pedras de granito excêntricas entre si para  apanhar todo o lastro do pio. Em média cada moagem durava duas horas ininterruptas até a massa estar em condições de ir para as seiras. Eram estas em número de quatro o que, como facilmente se entende, implicava que cada uma levasse 150kg de massa. Para tal, tinham que ficar todas de alto (es)caramouço. Muitas vezes, quando a massa era mais esbarroteirada  era necessário um prodígio de equilíbrio, conseguido através de quatro estacas que se interpunham entre as seiras de forma a que o prumo não sofresse alteração significativa, já que, quando do aperto pelo peso das varas, podia esbarrondar para um dos lados e lá se ia tudo perdido. É que além das varas - enormes troncos de sobreiro - a prensa era acrescida pelo peso de pedras monumentais que se suspendiam da ponta dessas varas através de um fuso com uma chave - tudo em madeira - que era uma verdadeira obra de arte.O levantamento dessas pedras era feito pela força de dois homens que, simetricamente tocavam um barrote que, encastrado no eixo do fuso, o içava ou descia, conforme se quisesse maior ou menos pressão. Toquei-o muita vez. A massa era transportada do pio para as seiras mediante o uso de grandes gamelas que muitas vezes ajudei a transportar e que iam sempre de caramouço.
A outra sala era propriamente o sacrário do lagar: um espaço térreo que comunicava à direita com a sala do pio e à esquerda tinha a meio a caldeira, permanentemente quente por uma fogueira sempre acesa. Ligeiramente desnivelado, estava o patamar das seiras donde o oiro de oliva escorria para a tarefa  - talha de barro embutida na rocha - com torneira  de escape para aliviar o azinagre que ia directamente para o inferno - poço onde era retida a água ruça -   antes de ser descarregado para a ribeira que corria contígua. O azeite corria para outra tarefa paralela já decantado, donde depois seria medido para o respectivo dono. As seiras eram sempre espremidas duas vezes: após uma primeira espremedela, a massa era depois toda desfeita, tal como se faz com os queijos à ovelheira, e de novo enseirada, depois de escaldada pela água fervente, tirada da caldeira com uma gamela de cabo comprido. O bagaço resultante era depois amontoado num canto, donde finalmente seria posteriormente carregado para fábricas mais refinadas.
Os Menas dormiam pouco, tal como Alberto, já que, para conseguirem fazer três moeduras por dia, tinham que começar por volta das 5 da manhã e esgalhar até às 23. Ainda os acordei algumas vezes já que meu pai era um dos três a quem incumbia a tarefa de encher a caldeira. Nas férias de Natal, invariavelmente calhava-me a mim esse trabalho. Havia um pocinho à entrada do lagar, do lado esquerdo, donde eu tirava a água com um caldeiro preso a uma corda . Estava completamente às escuras pelo que tinha primeiro que tentear a altura da água para depois atirar o caldeiro de borco e encher outro maior que era transportado pela ti Rosa Mota ou pela ti Maria Augusta, que entre si se revezavam, ora na acarreja ora no despejo para a caldeira. Eu ficava sempre no pocinho. Apesar do frio das cinco da manhã num instante ficava a suar. O enchimento da caldeira demorava cerca de três quartos de hora, pelo que, como era noite de todo eu ficava ao lume da caldeira, sentado num banquinho de três patas e, não raro, dormia um sono assado para completar o sono interrompido àquela hora da manhã.
Assisti também a muitas medições do azeite pelo ti Mnel Menas, o mestre: a primeira deca (medida de dois litros) ia para a casa, a segunda de um litro ia para a lenha e outra ia para a água. Era desta que eu partilhava num terço. Significava isto que, por dia, ganhava um litro de azeite resultante do terço de cada uma das três moeduras. Nada mau. Depois o ti Mnel media dez decas para o dono.A décima primeira voltava a ser para a casa, a que se seguiam mais dez para o dono e assim sucessivamente. Não raro, comia o pequeno almoço com os Menas : uma plangana de couve cozida, ora com bacalhau, ora toucinho assado, atum, alguma febra ou chouriça, morcela ou o que os donos iam ofertando ou eu mesmo levava, sempre bem temperada com azeite do novo. Bebíamos um tinto do novo por um copo de lata que mais parecia um caldeiro e voltava a dormir até ser dia. Outros tempos!
Vem aí 2015: que aquilo que desejardes vos seja servido de escaramouço.
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNDDDEEEEE!

quarta-feira, novembro 12, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXIX - ARGANEL

Para muitos o sistema é a segurança, para outros o sistema é o perigo escondido. O sistema é, queiramos ou não, um poder oculto. Só que essa ocultez não impede que ele seja um poder objectivo. Digamos que o sistema é a faceta executiva do poder absoluto dominante. Vem-me Hegel à memória e de algum modo a minha não compreensão do seu sistema quando por ele passei pela primeira vez. Achava-o um precursor de Hitler, um ideólogo pedante, fora da realidade, um idealista, que para além de absoluto, era o que se podia chamar de abstracto. Dizia de mim para mim que do que ele precisava era de um arganel no focinho que lhe provocasse tamanha dor quando deambulasse pelas suas divagações filosóficas, que nunca as pudesse tornar públicas. Com o tempo aprendi a lê-lo e a verificar a sua sagacidade e que foi bom não lhe ter posto o arganel. Foi assim benéfico que ele tivesse fossado até ao mais imo da consciência humana e tivesse partilhado connosco o resultado da sua fossagem.
Seja de que modo for, nós estamos pré preparados para que sobre nós se exerça um poder. Nem que seja o de nós mesmos sobre nós mesmos. É aqui que reside o poder do espírito objectivo - o tal executor do espírito absoluto, que muda a cada eleição, contra o qual nós passamos a vida a recalcitrar, mas sem o qual não podemos passar, sob pena de nos sentirmos sem bússola a navegar sózinhos em mar alterado e longe de referências terrestres. Mais importante do que quem exerça o poder é que nós precisamos de sentir que ele lá está e que vigia a cada instante, por um lado garantindo a nossa segurança e por outro retirando-nos a nossa liberdade. E o esquisito é que é nesta alienação da nossa liberdade para o tal sistema estatal que nos sentimos protegidos.
Até parece que não nos sentimos bem sem o arganel que nos impeça de investigar, de ir para o ignoto, de ousar romper com o stablishment. A questão é que podemos não nos importar com o Estado dominante mas nunca podemos viver sem Estado.
Sentimo-nos bem se soubermos que há uma força que providencie para que nada nos falte. Se sentirmos que essa força não superintende sobre nós ficamos acagaçados.
Tonho Modas era considerado o mais valente na escola. Era o Tonho que escolhia as equipas para o jogo de futebol, quem decidia quem era o guarda redes e por aí fora. Nada acontecia na escola sem o Tonho avalizar.
Naquele dia o  Tonho entendia que eu devia ir para a baliza. Foi uma tourada pegada, porque me entesei e não houve quem fosse capaz de me pôr um arganel. De vez em quando é preciso outro poder e recusarmos o arganel.
Mnel de Sousa era coveiro. Sempre o conheci como coveiro. Vivia com Maria Verónica. Verónica tinha uma língua que nem um braço, falava alto em todo o lado; já Mnel era a mudez personificada. Raramente se lhe ouvia a voz. Talvez fosse por causa daqueles com quem lidava a maior parte do tempo. Chegava a ter cinco ou seis campas abertas. Até parecia que adivinhava que havia muitos para morrer. Verónica dizia que ele era teimoso que nem uma bota da tropa sem atacadores. Manel nem ouvia. Baldava-se. Lá ruminava de quando em vez: Não houvera quem lhe pusera um arganel no focinho». Verónica, uma vez decidiu desaparecer num inverno em que a ribeira bateu nas guardas da ponte. Apesar das zangas Mnel decidiu ir procurá-la porque não queria que ela ocupasse tão cedo uma das campas que já tinha aberto. Encontrei-o debaixo de chuva perto da tapada do Robalo: " Oh ti Mnel então que anda aqui a fazer com tanta chuva.?» e ele " Ando à procura da Varónica não tenha caído à ribeira.", mas, disse eu, está a vir pela ribeira acima, havia de ir mas era para baixo» e ele" teimosa como ela é nunca ia à ribeira abaixo». Fiquei de cara à banda e lá o demovi da busca metendo-o debaixo do guarda chuva e meti conversa:« Oh ti Mnel, qual o animal que não come ao Domingo?» Ele , moita carrasco, fez de conta que não ouviu.  Vinhamos chegando à entrada da rua das Aranhas e começamos a ver a Verónica aos berros. Mnel: "Rais a partam, não há quem lhe ponha um arganel no focinho. Olha, rapaz, o animal que não come ao Domingo é o que morre ao Sábado.".
Fiquei tosquiado quando ia por lã.
XXXXXXXXXXXXXiiiiiiiii GRAAAAAAANNDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEE

domingo, outubro 05, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXVIII - ESPAPASSADO

Estamos no tempo dos dióspiros. É mesmo a última fruta sazonal. As árvores vão ficar sem folhas e eles lá vão ficar dependurados nos ramos a reluzir naquela sua cor típica. Não sei se sabeis - passe de lado a minha presunção - o que significa dióspiro. Então é assim : DIÓS é o genitivo de ZEUS e PÚROS é também o genitivo de PUR. Ora bem se o significado de ZEUS nada tem a assinalar, é mesmo Zeus, o mais poderoso de todos os deuses do Olimpo, já PÚROS pode oferecer mais dificuldades. Mas não é difícil se olharmos para os étimos que o apresentam como raíz: sirva de exemplo pirotecnia. Fica então claro que dióspiro mais não é do que FOGO DE ZEUS. Isso mesmo: aquela cor de fogo acarretou-lhe o nome. 
O primeiro dióspiro que comi comprou-me meu pai na praça de Castelo Branco. Só que quando o estava a comer ele chamou-me para o ajudar no transporte de uma caixa e eu, inadvertidamente, meti-o no bolso do casaco. Ora é por demais consabido que esta fruta quando cai se espatifa toda esborrachando-se ou melhor ainda espapassando-se. Quando mal me precatei lá estava o dióspiro todo espapassado no bolso e uma nódoa no casaco. Foi uma arrelia, foi o que foi.
Espapassado, mas da cabeça  também fiquei quando comecei a ler o último livro que comprei, por tal sinal na pulquérrima Livraria Lello no Porto e que dá pelo título HISTÓRIA OCULTA DA IGREJA, da Editorial Estampa e cujos autores são Jorge Blaschke, José M.Ibañez e Pedro Palao.
Vou deixar-vos de seguida algumas afirmações constantes desse livro a ver se não ficais também de cara à banda com todos os fusíveis a entrarem curto circuito e a derreterem todos espapassados.
Comecemos então: "Os começos (do cristianismo) implicaram martírio e sacrifício; então os objectivos mudaram  e aquela religião da fé, do amor, da adoração, não tardou a transformar-se numa religião de perseguição, opressão e extermínio dos hereges ou dos pagãos. E também numa religião que não teve qualquer respeito  pelas outras crenças, relativamente às quais se tornou sanguinária, tendo acabado por lhes declarar uma crua e selvagem guerra religiosa." (pág.16) . Logo depois, os autores referem uma  afirmação de José Montserrat  : " A verdade é que o Vaticano não passa de um banco e de um museu e o papa  de um peão na actualidade política internacional, um peão importante que tem de jogar uma carta necessária. O Vaticano, para falar com clareza, é a negação pura do evangelho, tal como o catecismo é a degeneração da religião" (pág. 17)
Logo após cita a catedrática de Teologia Uta Rank- Heineman: « Com a sua mania da virgindade de Maria, o papa levou a cabo um programa de infantilização à escala mundial. É como se nos exigisse  que continuássemos a acreditar na cegonha. » ( pág 18)
Na página 41 : « De todos os Messias que existiram, Jesus Cristo foi o único que conseguiu introduzir com êxito a sua doutrina no Ocidente. Antes dele podíamos falar dos messias Essénios que também morreram crucificados. Depois de Jesus Cristo surgiram outros que tiveram menos sorte, como Teudas, que à frente de um exército numeroso se dirigiu ao Jordão , prometendo que o rio se abriria à sua passagem. Cúspio Fado cortou-lhe a cabeça  e levou-a para Jerusalém, evitando a expansão deste novo messias.  Outro messias veio do Egipto instalou-se no deserto com 30.000 homens instigando-os depois a entrar em Jerusalém, mas o procurador Félix (52-60) matou 400 desses homens... e o novo messias acabou por desaparecer. Surgiu mais outro sob o governo de Pôncio Festo ( 60-62), prometendo saúde e cura para todos os males  aos que o seguissem para o deserto. Também morreu. Ainda durante a guerra da independência que acabou com Jerusalém em ruínas (ano 70), vários chefes autoproclamaram-se messias. Poderíamos citar muitos outros: Eleazar, Simão Manahem, Simão Barcoquebas e outros. »
Mas não ficam por aqui os meus espantos que às vezes me põem a pensar... Não é por acaso que se diz que a Filosofia nasceu do espanto.
Bem... para não ficardes espapassados com muitas outras afirmações constantes no livro, hoje fico por aqui. 
Como se vê as religiões não têm apenas a leitura oficial, dogmática. Há muitas outras leituras possíveis. Nada como ler livros, mesmo que nos espapassem.
Até breve.
XXXXIIIIIIGGGGRRRRAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEE