quinta-feira, outubro 29, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLIV - DESANDADOR

Quando ouvi pela primeira vez A CARTA, com letra do João Monge, cantada pelos Resistência, lembrei-me de quantas vezes, também eu, ao fundo das escadas, sob as quais meu pai fizera uma tarimba para eu dormir, escrevi, aos Domingos, depois de missa e almoço, cartas muito semelhantes àquela.
O analfabetismo era um facto indesmentível, em elevada percentagem, o telefone era caro e lento e a carta era mais barata e os correios nem por isso eram muito demorados.
Poucos mais, na aldeia, cumpriam graciosamente com este mister de mandar e pedir novas dos entes queridos. Mais ainda dos famosos aerogramas que a guerra do ex ultramar também levou muitos xendros; até para Índia com o brigadeiro Leitão e Timor.
Um desses era o ti Emídio, cuja caligrafia , quando não estava borrachinho de todo, era um regalo; a outra era a ti Ermelinda, ali em frente da Lameira, mulher seca e espevitada, mexida que nem bicho da madeira, rija até mais não e de um asseio mais que sacro. O seu tinteiro de tinta, de cerâmica, branquinho, completo como só em museu voltei a ver, brilhava quase às escuras, tal a alvura com que sempre o mantinha. O aparo da caneta era lavadinho ao fim de cada desempenho e o pau que o sustinha era envolto num paninho, também ele branco de neve e repousavam todos, até próxima chamada, numa mesinha rectangular pintada de castanho e com uma toalha bordada, onde também, quando lhe calhava a vez, ficava o tríptico da Sagrada Família com a impecável lamparina de azeite sobre água, em gamela de vidro trabalhado, e sobre o qual flutuavam uma latinha triangular com as pontas espetadas em bóias de cortiça e a flor geminada, sempre acesa.
A casinha onde morava tinha uma loja que durante o Verão era bastante usada, primeiro porque vinham os cunhados de Lisboa e depois porque era muito mais fresca. Durante todo o ano, pelo menos uma vez por semana, lhe fazia uma barrela geral. Não raro, quando lhe ia a levar gás cheirava a lixívia purificante.
Foi numa dessas vezes em que lhe levei gás que ouvi pela primeira vez dois termos : estampilha (referindo-se a um selo de carta e não a uma bofetada que era o significado que eu lhe atribuía) e DESANDADOR.
Depois de ter retirado a bilha vazia e de ter submetido ao famoso click das garrafas Mobil, notei que cheirava a gás. Perguntei-lhe se não tinha já cheirado a gás, respondeu que sim, tirei o redutor e percorri o tubo: estava gretado e havia uma fuga. Comecei a tentar desenroscar a abraçadeira com uma faca, ela viu:"ESPERA AÍ QUE JÁ VOU POR UM DESANDADOR QUE É MELHOR DO QUE A FACA, NÃO TE CORTES!" E foi e veio com o desandador: uma chave de fendas. Ora aí está. A palavra não é onomatopaica, a função é: aquilo serve mesmo para fazer desandar. Registei e aqui vos fica.
Por esta altura do ano, sozinha ia colher a azeitona para a talha e, quando a colheita era muita vendia alguma. Ainda lhe comprei. Foi numa dessas vezes que eu, a brincar apostei com ela como num cesto eu era capaz de identificar dez azeitonas da mesma oliveira. Ela olhou para mim, e riu: és mai engraçado có teu pai". E eu:´« é verdade, pode acreditar» "pesa lá mas é a azeitona que eu não tenho vida para ouvir tontarias".
Acontece que eu, ao mudar a azeitona do cesto onde as tinha para uma caixa de plástico, vi um ramo de azeitonas para aí com umas dez...
«O Ti Ermelinda, vomecê não acredita que eu sou capaz de saber que dez azeitonas desta caixa são de certezinha da mesma oliveira, mas eu provo-lhe que é verdade» . Aí ela especou: "atão mostra lá" . Meti a mão agarrei o raminho e mostrei: «são ou não são da mesma oliveira?» " um raio ta palira, cachopo!" Meteu a mão ao bolso e: "Toma lá pela lição" Vinte e cinco tostões: uma fortuna. Fui direitinho ao Cavalheiro e papei um chocolate da Regina com uma Laranjina C.
Outros tempos, outras vivências, outros termos, outras marcas, outras histórias.
E a vós sempre vos digo que aquelas azeitonas só estavam seguras de um lado....
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGRRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDEE

quinta-feira, outubro 15, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLIII - CARRI(T)CHO

Como diria o meu amigo Zé Lameiras - que descanse - " A língua tem lá porras". E digo eu à maneira dos parodiantes: lá isso tem".
Isto não dá emprego a ninguém como no reclame invocado, mas dá gozo, e isso ninguém nos tira.
Para quem não está habituado a este linguajar, estranhará a quase impossibilidade fonética aqui ocorrida. Para quem convive com a xendrada e outros que tais, a explicação é facílima.
Linearmente, é assim: carricho vem de pequerrucho. Nem mais. É por demais vulgar que as sílabas tónicas, acentuadas graficamente ou não, sejam elementos absorventes e, a bem dizer, as sílabas circunvizinhas acabem por ficar mudas. Não falam e, como não falam, não se ouvem.
O grande linguista português, Professor Doutor Luís Filipe Lindley Cintra experimentou, com um conjunto largo de alunos seus, na Faculdade de Letras de Lisboa, gravar entrevistas a pessoas de diferente nível cultural e de diferentes regiões do país. As gravações recolhidas eram depois tratadas em laboratório e uma máquina, altamente sensível às variações sonoras, construída para o efeito, passava a escrito a faladura dos entrevistados. O resultado foi de tal modo inconclusivo que Lindley Cintra desistiu da sua pretensão e dizia que a língua portuguesa, ao contrário da italiana, por exemplo, é muito fechada e os sons não são audíveis.
Como tal a máquina, ao transpor para escrito o falado, deixava um texto de tal modo ininteligível que nem o próprio entrevistador era capaz de aí ler o original.
É mesmo. Nós falamos em nevoeiro, os italianos, esse falam ao sol. Por isso, é mesmo a língua do belo canto...
Quem alguma vez passou, ainda que ligeiramente por alguns pormenores fonéticos entende perfeitamente esta lei do menor esforço, tão frequente ela é em português.
As influências do grego são mais fortes do que se pensa e o famoso Y (que muitos aprenderam, e bem, a chamar de i grego), embora só há poucos anos tenha tido entrada oficial no alfabeto português, na verdade, há já muito que a sua influência e até utilização, eram frequentes e sentidas. Mais ainda como resultado da emigração já que a França, pode dizer-se, é uma espécie de segundo portugal na Europa e os franceses ao traduzirem-no por u, condicionam o som de pronunciação e obrigam a que se pronuncie, como se quase se assobiasse, para o distinguirem do som u, que resulta da ditongação (portuguesa, é claro) de ou. Exemplifiquemos: o som do u no fonema tu é diferente do som em ouvres.
Em português, e para abreviarmos, dizemos que o U e o I são vogais médias e que é frequente a alternância entre uma e outra.
Vamos agora ao nosso carri(t)cho: é fácil de ver que a primeira sílaba foi absorvida : o PE desapareceu porque o E é mudo e foi progressivamente absorvido pelo som forte da tónica RU. Está bem de ver que QUERRUCHO é mais difícil de dizer do que carrucho e, como o U alterna com o I, aí temos como, de repente, em vez de pequerrucho, acabamos em CARRICHO.
Tinha razão o amigo Lameiras de boa memória:"o português tem lá porras". Aí está a lei do menor esforço.
Talvez os mais famosos carrichos da xendrice, tivessem sido O Zé pequeno e o João planeta. Já nenhum deles está entre nós.
Qualquer deles era verguio e eram o exemplo vivo de que os homens não se medem aos palmos...
Vão já longe os tempos do escutismo entre os xendros. ~~
Tonho Brigadeiro conseguiu uma dinâmica muito interessante com este saudável movimento mobilizador da juventude para actividade de respeito pelo ambiente e valores sãos que nunca morrem. Zé pequeno era vizinho de brigadeiro quase ao alto da lagariça e, embora não pudesse participar nas actividades por requisições familiares, sempre que podia assistia às sessões de preparação.
Brigadeiro era um chefe exemplar e queria a rapaziada afinada:« Um escoteiro, dizia, nunca recua.» Zé pequeno tem das maiores saídas que eu algum dia ouvi: " Pois não, dá meia volta e continua sempre em frente!"
Eu tive que vir para a rua a rir e Brigadeiro, sempre sério, quis manter a malta "firme e hirta", mas a saída de Zé pequeno ecoava nos ouvidos de todos e foi obrigado a dar por concluída a sessão até ao dia seguinte, Domingo, antes de missa.

XI Grande.

sexta-feira, outubro 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLII - FOGUEIRO

São muitas as teses acerca da linguagem e da linguística, bem como das funções da linguagem e mais ainda da sua utilização e finalidade. Não cabe, obviamente, no contexto deste encantador passatempo, o exercício de deambulações retóricas comparando, ou mesmo contrapondo teses a propósito desta variedade de leituras das funções da linguagem.
A verdade é que nem sempre aquilo que dizemos é entendido como gostaríamos que tivesse sido e não podemos levar a mal que o OUTRO, sempre O GRANDE OUTRO, não nos entenda com a clareza que nós pensamos ter-nos expresso. Esta presunção da clareza quase cartesiana de que partimos ao dizer que "É EVIDENTE" é, de si, uma petição de princípio, já que jamais posso pressupor que algo que eu diga seja, prima facie, evidente. A evidência é algo que o outro decide e não o que eu pressuponho. Defender que há indubitabilidades iniciais é querermos reduzir os outros a nós e impedi-los de pensar. Ora isso é o que aqui não vai acontecer. O que mais se aprecia é quem nos lê, pense por si e , se entender, disso nos dê eco, mesmo que, e ainda bem, não concorde connosco.
Sirva de exemplo a palavra que hoje aqui trazemos. O normal - o evidente - parece ser que tem a ver com fogo e até mais rigorosamente tem a ver com uma profissão - a daquele homem que alimentava a caldeira do comboio a vapor como se vê ainda nalguns filmes ou nos que ainda hoje, já não a carvão, mas, na maioria dos casos a nafta, ou outro combustível mantêm altos fornos sempre na temperatura ideal.
Nada de mais distante: no vocabulário xêndrico o fogueiro é o FUEIRO. Isso mesmo: aquele varapau, em regra de eucalipto, mimosa ou carvalho que ladeava, encalhado em buracos quadrados nas laterais dos carros de bois e que tanto serviam para amparar molho de erva ou palha, como até os taipais provisórios a fim de a mercadoria não ser apanhada pelas rodas e mesmo cair (estrume, por ex.). Quando se tratava de grandes transportes, como com os moios do cereal, aí ,os fogueiros mudavam de nome e chamavam-se estadulhos.
Montar sessenta molhos de semente em cima do estrado dum carro de vacas, era tarefa que nem todos eram capazes de levar a cabo. Se a carga caísse naqueles córregos dos caminhos velhos era certo e sabido que dava direito a choradela de entrudo e a vergonhas contínuas nas tardes maledicentes dos domingos, depois de missa enquanto se jogava o fito. Isso era limpinho.
Os Tiagos moravam num arrendamento ali para os lados do Frade a dar cômoro com as taliscas. Trabalhavam como moiros e as terras andavam sempre rodadas, semeando e alternando as colheitas para a terra não se cansar. A fona era de sol a sol e desde cedo, como aliás era costume,os garotos começavam a aprender, a bem ou a mal, o que custava a vida... O mais velho dos Tiagos estava a dar os molhos do pão ao pai com uma forca, quando, de repente, sente umas dores agudas, começa a vomitar e aos berros: " Ca raio tens, que bicho te mordeu, rais ta parta, olha agora". O velho Tiago desce do cimo do carro ainda a praguejar, mas quando viu o filho naquele estertor viu que o caso não era mangação e arrancou à pressa na burrica para a vila a ver do dr. Landeiro. O cachopo berrava que nem um capado mas lá chegou, o dr. landeiro viu logo o que passava e ala : internado imediatamente para ser operado à apêndice... Bons tempos aqueles em que se operava em Penamacor no velho hospital de st António...
Já se sabe que o asseio do homem campesino não era famoso e o tarro de suor e até de fezes agarrava-se tanto ao corpo como às ceroulas... Como a operação era mesmo premente lá foi o Tiago para a barrela. Vestem-lhe uma espécie de bata e vai para a sala a arrastar-se. Está bem de ver que a operação é inimiga de pêlos púbicos e que a enfermeira de serviço tinha que proceder à raspagem dos ditos. Ora para evitar cortes desnecessários e escusados era preciso arredar o pistolo como lhe chamava o Tiago. Diligente, a enfermeira agarrou no falo do tiago para o manter em posição que permitisse o barbeamento. Só que o tiago nunca tinha tido uma mulher que lhe tivesse mexido no ponteiro e sai-se como esta:" Já o pode deixar que ele não cai". A enfermeira riu-se e o Tiago gabava-se do tamanho que o fogueiro tinha atingido.
Xi Grande

quinta-feira, outubro 01, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLI - BO(U)RNAL

A sinonímia sempre acarretou problemas à comunicação. Na verdade, as palavras são como as pessoas: todas têm uma história. Não é por acaso que cada uma delas existe. Mesmo entre os grandes teóricos da linguagem e da comunicação não há unanimidade interpretativa. Desde logo porque a disciplina que faz a crítica da linguagem, podemos dizer que uma espécie de epistemologia da linguagem, tal como há uma epsitemologia científica, refiro-me, está bem de ver, à HERMENÊUTICA, traz consigo o deus dos ladrões e dos comerciantes. Hermes, esse veloz deus helénico, de asas nos pés, mensageiro dos mais hierárquicos, e que os romanos traduziram por Mercúrio, acumulava esta dupla protecção: ladrões e comerciantes... Sem nos determos muito neste acopulamento (comerciantes e ladrões), que, seja como seja, não deixa de ser interessante, avancemos para outro pormenor da linguagem/fala/comunicação.
É claro que não se pode meter tudo no mesmo saco e não é aqui que isso vai acontecer. O Baságueda pode brincar mas não ofende: tem humor mas não ironiza, brinca mas não faz mangação, ousa mas não violenta, serve mas não se escraviza, MAINADA!
Interseccionemos esta cangalhada toda a ver se chegamos ao bornal:
Sirva de exemplo o histórico facto de a língua latina ser o meio de difusão privilegiado inter centífico no mundo ocidental. Foi já tardio o aparecimento das primeiras universidades laicas, que a maioria dos locais de ensinança eram os mosteiros e as suas escolas monacais. Os burgueses aos poucos foram-se intrometendo entre os nobres e o clero, que o povo, esse, limitava-se a ser servo de gleba e, vá lá, às vezes, vilão franco, o povo, quanto menos soubesse, melhor - assim não recalcitrava... -. Dizia eu que os burgueses lá se foram, aos poucos, libertando das peias eclesiais e, ao mesmo tempo que fundavam cidades nas encruzilhadas das grandes vias, também construiram escolas para os seus filhos. Com a colaboração dos goliardos, cárpatos e outros proscritos pela santa madre igreja católica apostólica romana, conseguiram escolas de tão grande renome quanto as herméticas oficinas do saber bibliotecárias, manuscritas e dogmáticas escolas monacais. A abertura a novas formas de pensar incipientes e a natural rebeldia de quem, com o sangue na guelra, eivado da novidade e garantido e avalizado por um novo riquismo que competia com o clero e os nobres suseranos latifundiários, ousava PROVOCAR o stablishment, aos poucos, foi conseguindo romper com a afogo e o sufoco que o severo dogmatismo impunha. O latim deixou de ser a exclusiva língua e algum do saber já se difundia na língua original, tanto mais que, após Guttenberg, nada ficou como era: a bíblia, claro, sempre como ex libris, mas também romances e novelas de cavalaria que deram azo a demandas do graal e a códigos da vinci e por aí fora. O latim, inacessível como era e ainda é, agora mais ainda que já há muito pouca gente que o domine, o latim era um obstáculo comunicacional... Não admira que os detentores do saber, conhecedores como eram desse fenómeno, comunicassem com a populaça, através de símbolos: lá vem a cruz, a bandeira, a sigla, a marca, o distintivo, a patente, tudo o que servisse para indicar ao maior universo possível, a mensagem que se pretendia transmitir, o jargão, a oração comunitária, as rezas,... Ainda havia aquilo a que nós chamamos slogan e o famoso AMÈN que indicava um ASSIM SEJA subserviente.
O bornal do povo era repleto com dogmas, mandamentos, imperativos negativos, virtudes, obras de misericórdia, normas de conduta, que sei eu,...
As festas populares tinham os seus tempos: o povo não podia fazer festas a seu bel-prazer: tinha que festejar quando as autoridades eclesiásticas o autorizassem - nem sequer era senhor de gerir a sua, já de si, parca ementa: os ricos que tinham dinheiro para bulas papais enchiam o fato a bel-prazer, o galego, sem dinheiro sequer para uns tamancos, esse, tinha que roer botelha a ver se se sustentava: isto sim foi o que o Cristo pregou... Adiante...
O bornal propriamente dito não era aquele alforge de Júpiter que nos pôs às costas uma bolsinha com os nossos defeitos e à frente uma enorme com os defeitos dos outros... O próprio Cristo se fez eco desta fábula de Esopo, depois transcrita por Fedro e mais tarde actualizada por La Fontaine: vês o algueiro no olho do outro e não tropeças na tranca que tens nos teus olhos.
Antes, era uma espécie de saca , regra geral em pele macia, tipo odre, mas com boca de ajuste com ataca do mesmo material e uma tomba para fecho definitivo e servia para levar merenda para festa, ou para monda, vindima, sacha de milho, quintos na ceifa, enfim, alturas em que se juntava a família e era preciso muito entulho ou se ficavam dias sem reabastecimento. Não raro ia nas angarelas, bem acomodado, que as iguarias não se podiam estragar nem sequer amelancar: bacalhau de horta e pataniscas do mesmo, algum coelho macho já substituído, um galo assim comédado, ovos verdes, chouriço de azeite, orelha de porco e tromba do mesmo animal de salgadeira, algum naco de de presunto, tora de toucinho, cunca de queijo, corno de azeitonas, casqueiro roda de moinho, grande quanto bastasse, e o mais que houvesse e desse jeito para botar na manta estendida:o bornal levava todo o farnel.
Bornal era ainda aquela pessoa que tudo atamancava e misturava os pés pelas mão: "és mesmo um bornal" ou aquele outro que arcava com tudo e de tanta serventia aos outros era chamado de bornal.
As casas meãs não tinham terrenos nem gado para feitor ou maioral, mas, em regra, sustentavam uma espécie de criado que tirava esterco a porco, guardava e ordenhava cabras e/ou ovelhas, fazia a horta, recolhia o feno, tomava conta da alguitarra no tempo da aguardente, ia à agua para as necessidade domésticas, apanhava vides, queimava lenha de limpeza de árvores, e o mais que aparecesse. Era um bornal: no outro cabia tudo a este cabia-lhe tudo. Dois Bo(u)rnais.
Era assim a vida...
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGRRRRAAANNNNNDDDDDEEEEEE!

segunda-feira, setembro 21, 2009

VINDIMA OUTONAL 2009



Há mais ou menos 13 luas atrás foi ASSIM


Este ano...
CARDÁPIO/PÓCIO

α Fruto seco, moído, amassado, fermentado, fatiado e cozido em forno abobadal

β Ameixas martinicanas abertas a vapor alhínico, aromatizadas com erva coentral e suco cítrico

γ Traseiro curado de nalgudo beloteiro

δ Bife de caroço

ε Marisco de pantera negra

ζ Interstício moedor de bípede galináceo em molho xêndrico à moda antiga, levemente carilado e especiaria excitante

η Assadura em braseiro vivo de frutos pingentes encarnados e verdes, pelados e temperados

θ Berlindes tomatinos com cristais evaporados ao sol de água ondular

ι Pequenas leguminosas cozidas ao poejal combinado com nadador marítimo conserveiro e bolbo choroso, essência galinácea, acetizado e olivificado

κ Alimento de pobre conservado demolhado cozido e gratinado em barro com imo de poedeira

λ Palavreado roto de Manuel Hipólito

μ Carolada de milho adoçado e comido à mão

ν Achinchada curtida de alimento de mamífero

ξ Fruto de uva a duas cores vinificado

ο Destilado de balsa uveira em aroma de roble seco

π H2O fervente passado por grânulo torrado de grão torrefacto e importado

sexta-feira, setembro 04, 2009

A NOSSA FALADURA - CXL - BANDOLEIRA

O natural é o caos. Já assim era com Hesíodo. Só quando Cronos toma conta do Caos é que a ordem surge: tinha aparecido o tempo e o tempo tem ritmo, ordem, sucessão. Por isso Cartesius lhe chama a ordem das sucessões. Mais ou menos como aprendíamos quando éramos crianças: a história (esse estudo científico que indaga o passado para bem compreender o presente e até prever o futuro), a história é a sucessão sucessiva de sucessos que se sucedem sem cessar...
Por isso se pode falar da eternidade de Deus: como não havia tempo antes de ele ter criado a sua obra, então é eterno. De facto só pode falar de ANTES e DEPOIS quando a obra aparece. E ao primeiro dia Deus disse : faça-se noite e fez-se noite e fez-se dia. Na mitologia grega foi o Érebo que gerou a noite que gerou o dia e por aí fora. Só há tempo e, portanto, ordem, quando algo aparece. Que somos nós senão uma efemeridade temporal? Só contamos no ínfimo intervalo de tempo, enquanto vivemos. O tempo começa para nós quando nascemos -lá está no B.I. - e termina quando nos apagamos - e lá está na certidão de óbito - mas essa data já não a lemos, porque já não estamos no tempo. Durante um ligeiro instante passamos pelo "laser" do tempo e vemos e somos vistos. Antes não éramos e depois já não somos. É sempre assim: quem nasce traz consigo o embrião da morte.
O primeiro vestígio, que eu saiba, deixado pelo homem, em que claramente se pode ver uma tentativa de contar o tempo é uma espécie de cobra de madeira onde constam 28 ranhuras. Exactamente o período de uma órbita lunar. Essa constância levou o homem a registá-la. Daí veio o mês, mas o ano não tinha doze, tinha dez: daí que Setembro fosse o sétimo mês e Dezembro o décimo e não o 12º. A culpa foi dos césares: Caio JÚLIO César e Octávio César AUGUSTO, que se auto imortalizaram incluindo os meses de JULHO e de AGOSTO, o que fez com que nem OUTUbro fosse o oitavo, nem NOVEmbro o nono.
Seria fastidioso que eu agora vos tentasse explicar aqui como o meu avô, o velho Comandante, me ensinou a ler as horas à noite. Mas o erro não é grande e nunca perdia o combóio se me regulasse por esse relógio empírico. Adiante.
Raro teria sido o garoto xendro do meu tempo que não tivesse guardado uns borregotes. A mim também me calhou. Já aqui vos contei que ainda me apalparam as fúcias porque eu não sabia que o borrego acarrava e cheguei a casa antes do tempo - cá está outra vez o tempo -.
Havia na aldeia e nas circunvizinhas rebanhos valentes, tanto de ovelhas como cabradas. Sabia-se o dono pela música dos chocalhos: da casa Megre, da casa Campos, da Casa Franco Frazão, do velho Barroso, do Labouxa, do Stronca Brochas, do Puta Maluca, do Tonho Pedro, do ti Domingos Landeiro, dos Abades, dos Compõe, ..., Conhecia-se ao longe o som o reboleiro e o rebanho estava identificado e localizado. Técnicas de outros tempos em que não havia chips nem GPS. Era outra a ordem da vida como era outra a ordem do tempo. O tempo tinha outro ritmo: nada era virtual. Tudo se limitava ao local e ao presente próximo. Não dava tempo para outras cavalgadas ou ritmos.
Em regra, as grandes casas tinham pastores, ganhões, quinteiros, juntas, vacadas, cavalos,... e um capataz quando das colheitas agrícolas: ceifas, azeitona, malhas, sementeiras,... e um Maioral, o pastor dos pastores.
Era vê-los, Domingo, depois de missa, fato de sarrabeco (=surrobeco), jaqueta ao ombro ,colete justo, camisa bordada, relógio de bolso suspenso de casa de botão por corrente de prata reluzente, sempre polido e certinho, bota cardada, espora brilhante em tacão alto, chapéu de aba larga, castanho de mel, patarras descidas, ....; nem a jogar ao fito ou à raioula tiravam a indumentária. À tardinha lá iam a cavalo ou de macho "ver do vivo que não tem Domingos"
Os maiorais e os capatazes não tinham bandoleira. Os pastores , esses todos tinham. E mais: a bandoleira não tinha compartimentos. Aquilo era uma sala grande onde cabia tudo de tudo: era um caos... Mas tinha uma ordem: a ordem acidental que opastor lhe dava quando metia tudo outra vez na bandoleira. Cabia tudo ... Fosse como fosse.... A ordem variava. Como nós...
O maioral e o capataz comiam no rancho, ali onde ficavam as furdas, os bardos, as cavalariças, as eiras a horta da casa, a adega, as lojas e os celeiros, tudo o que era governo de ano inteiro para a casa, eles não precisavam de bandoleira. Já não era assim com os pastores que andavam por lá, dormiam em choças, bebiam água das fontes com o gado e, por isso andavam sempre limpas, e só vinham às vezes ao fim de semana reabastecer de tabaco, conduto e uma cabaça de vinho. A bandoleira era toda em cabedal, incluindo a cinta que a prendia a tiracolo por detrás das costas. O princípio era sempre o mesmo: a capa e a merenda nunca ficam na fazenda. Era na bandoleira que ia a merenda: pão, e conduto: toucinho, queijo, alguma chouriça, um naco de presunto, e no princípio a perna de algum galo ou ovelha badana cozida no panelão de ferro. Era tudo bom, nunca havia azia e as horas de comer era quando calhava que era preciso guardar bem o gado, mais agora no tempo das vindimas, assistir a partos, tosquiar, ordenhar, mudar o bardo,.... Era a vida.
Não hvia pastor que não fosse hábil a atirar o cajado e nem sempre era para tornar a ovelha tresmalhada ao rebanho: conheciam de cor luras, camas de lebre, ninhos de perdiz, pirolis, codorniz e cotovia, cova de texugo, tudo.
Comi muito coelho que alguns vendiam e traziam invariavelmente na bandoleira, para poder comprar uma onça de tabaco HOLANDEZ e dois livros de mortalha TORO para acigarrarem nas horas mais calmas de solidão.
E pronto. Hoje não vos trago herói. Trago-vos uma caterva deles.
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domingo, agosto 23, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXIX - BASQUEIRO

À hora a que começo a escrever esta missiva aproximamo-nos a passos largos da data da festa do orago dos xendros: o Sr. São Bartolomeu (ou como lá se diz S. Bartlameu), festa dos frangos e de valentes fogaças, que o eram noutros tempos, e também de muita crendice: dando por adquirido (mas barato) que S. Bartolomeu cantava o te deum laudamus enquanto era esfolado vivo e frito numa enorme caldeira, lá por terras da Índia (seria?), ele, como facilmente é constatável na imagem que sai no andor, tem o mafarrico preso por uma corrente... Só que, no dia da sua festa, quer conviver com os seus protegidos e deixa o diabo à solta... Por isso, nada de assomar a poços, que satã pode empurrar-nos, nada de aventuras tontas como subir a árvores, que se pode esgarnar a parnada , e sobretudo evitar andar sozinhos que belzebú se pode tornar, de repente, no nosso companheiro de viagem e para além de nos trapacear, pode ficar dentro de nós e a sua esconjura por exorcismo, para além de difícil é rara, e apenas praticada por agentes eclesiásticos autorizados...
Enfim, cuidado convosco e também com a criançada : que não vão sozinhas para as varandas que o rei dos infernos os pode atirar dela para baixo. Se virdes um abobrinho espetai-lhe um pau, que no seu olho está o cornudo, rabudo, de forquilha na mão.
São Bartolomeu vos livre de todas as mazelas, Amén.
A marca matricial, ou, um A PRIORI evolutivo, como quer Popper, já que não é aprendido, portanto não é adquirido, mas também não se pode considerar inato porque bastava que fosse nato (= natural), ou teleológico e teleonómico como defende Dawkins, a marca matricial, dizia, da necessidade de hierarquia, ordem, estabilidade, ... ,típica da mentalidade ocidental, oriunda já dos apotegmas dos sete sábios, das prescrições de Sólon e das imposições espartanas de Licurgo, passadas a escrito e defendidas, com recurso a mitos alegóricos pelo Ombros largos - Platão - e ainda pelo estagirita com o seu cânon, e depois por Plotino, Agostinho de Hipona, Eckart, e sobretudo Renatus Cartesius, que até escreve o Discurso do Método (para bem conduzir o raciocínio), esta necessidade de ordem, no tempo e no espaço, acompanha-nos.
Haja quem tente, de algum modo, profanar este status quo, Morin e Bourdieu, por exemplo, Heinsenberg e Bohr, que logo se advoga que Deus não andou a jogar aos dados (Einstein) e que, portanto, a incompetência é nossa porque já o velho sábio Galileu defendera que "o que para nós é de difícil inteligibilidade é para a natureza de facílima execução".
O Universo não pode ser um BASQUEIRO! ponto final. É assim e mainada.
Está tudo escrito no livro do destino e tanto adianta correr como saltar que AS MOIRAS já assinaram a nossa destinação e como diz Séneca: Juppiter non adest singulis (Júpiter não se preocupa com o singular) - era só o que faltava-: teria de ser injusto, porque para atender a uns desfavoreceria os outros... Que ao menos na divindade não haja jobs for the boys!
Se questionamos estes defensores da ordem e da estabilidade com a distribuição aleatória das pedras , por exemplo no penhasco de Monsanto, e invocamos a entropia, ou se os confrontamos com a falácia do seu ilusório argumento, que é cego a outros pontos de vista, viram-nos as costas e"fica-te com a tua que eu fico-me com a minha". É a pirronice levada ao extremo e já sabemos que os extremos se tocam e assim os cépticos se transformam em dogmáticos.
É a quadratura do cículo.
Já lá vão uns lustres ou carros de anos, como preferia mestre Aquilino - vide Malhadinhas - numa noite clara, depois de termos papado uma galinha roubada (eu era sempre e só o cozinheiro) e, quando era a minha vez de arranjar a galinha, simplesmente, pedia-a a minha mãe, que nunca ma recusou, calhamos a olhar para o céu, ali mesmo à saída da mina de toco Jabão, eu, abraço de basooka, Jorge alguitarra, varinha de arado, coiote pete e tonho modas e pusemo-nos a identificar as constelações...
"Ali está a Cassiopeia imortalizando a amada de Hércules que a mãe ursa e sua filhota mataram e estavam a devorar quando Hércules chegou... Arreliado espetou a sua amada no firmamento para que todos vissem as curvas dela e atirou com as Ursas (a Maior e a Menor) para a servirem no céu..." Isto disse eu, armado em sábio e, logo basooka, : o vinho fez-te mal ó rapa a unha. O Orion todos conheceram e o sete estrelo e, pelo caminho do ribeiro cimeiro lá ia argumentando como podia, dizendo que aqueles conjuntos de estrelas nada tinham a ver umas com as outras mas que éramos nós que, na nossa necessidade de segurança lhes atribuíamos uma forma conhecida segundo uma certa configuração como o trapézio do Orião. "Vai mas é lamber sabão" atirou alguitarra e Coiote mordeu:« a tua cabeça é um basqueiro de ideias... andas a ler muito. Organiza-te lá que no estamos para aturar as tuas patacoadas".
De nada valia contra argumentar e lá fomos para casa de toco jabão ouvir la belle musique française: Sheila- a preferida-, Mireille, Françoise, Sylvie, France Gall e de homens Halliday, (Jésu Christ est un hippie), Cristophe, invariavelmente ALINE, e Michel Sardou com Rivière.
No quarto de Jabão havia de tudo: fios eléctricos, maçãs, cama sempre por fazer, uma garrafa de jeropiga, corta unhas, alicates e chaves, multímetro, ... e discos com fartura mas só os franceses e os Rolling Stones é que tinham sítio certo e, depois, Proudy Mary por Tina Turner, que eu lhe ofereci e que mereceu: Ah música dum filho de puta!
Àquilo é que se podia chamar um basqueiro.
E por aqui me fico. Boas festas de S. Bartolomeu . XIIIIIII GGGGGGGRRRRRRANDEEEE

segunda-feira, agosto 10, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXVIII - (T)CHAVASCAL

Já uma vez, creio, aflorei aqui a temática do barulho.
De Darwin para cá, muitas foram as leituras a que estávamos profundamente arreigados, que sofreram alterações significativas, quando não, mesmo, subversões e até inversões. Simples: muito daquilo que aceitávamos como verdade dogmática, certeza inabalável, quase com o valor da (incrível) infalibilidade papal , veja-se que foi já este Bento, dito XVI, finalmente, acabou com a existência (e consequente crença) do Limbo. O Limbo era aquele local etéreo, para onde iam os recém nascidos que não tivessem sido baptizados antes de morrer. E não acaba com o Purgatório pela simples razão de que, se acabasse com ele, não valia a pena continuarmos a rezar pela salvação eterna das almas dos nossos entes queridos: se fossem para o Inferno, de nada valeria a oração, e, se tivessem ido para Céu, dispensar-se-ia a prática, já que era desnecessária. Assim, com o Purgatório a meio da viagem, sempre vale a pena porque podem lá estar.
Foi assim que nos catequizaram e, claro, registamos impressivamente esta crença, que nunca pusemos em causa. Se alguém a contradiz, agarramo-nos a ela e até a tentamos justificar com os argumentos mais balofos.
Na minha vida profissional têm-se-me deparado situações muito semelhantes: sirva de exemplo a resposta à questão simples de ' quantos sentidos temos?' Invariavelmente a resposta é que são cinco: visão, audição, olfacto, gosto e tacto. Se insisto: então e se te escaldas? e se sentes fome, ou sono, ou sede, ou dor de barriga, ou uma picadela de uma abelha,... onde raio metes estas sensações? Pasmam boquiabertos, asseveram que foi que o seu professor da primária lhe ensinara e pronto...
O mesmo se passa com o barulho (ainda cá hei-de voltar): basta um pouco de sono ou um problema pessoal, ainda que pequeno, para eu já não ouvir quem se me dirige. A fome, o sono, a dor, e outros problemas tão silenciosos que não contamos a ninguém, são, afinal, barulhos ensurdecedores ...
O professor desempenhava o papel da autoridade máxima em matéria de garante do saber. Bom era que esta deferência para com os professores, nos tempos que correm, ainda se verificasse, não já com o mesmo peso, está bem de ver, mas que também não fosse tão desautorizado como é, ... Bem, adiante, que isto tem pouco a ver com o nosso (t)chavascal.
De facto, já quase nada é sagrado.Tudo, ou quase, passou ao campo do profano.
Lembro-me bem de ter lido um livro extraordinário de um autor francês (Georges Gusdorf) chamado Mythe et Métaphisique (Mito e Metafísica): «o profano submete-se ao sagrado, ao mesmo tempo que foge dele para não ser completamente dominado».
Hoje, os campos estão a inverter-se, pelo menos no que às crenças tradicionais do mundo ocidental diz respeito. Veja-se só a quantidade de religiões que a cada instante vão aparecendo, explorando até ao tutano a figura de Cristo. Se ele por aí aparecesse hoje, havíamos de assistir a muitas expulsões de vendilhões do Templo (católicos incluídos, que não são melhores que os outros).
Vamos lá à xendrice:
Verdade insofismável é que o clima antigamente- e nós não somos ainda nenhuns velhos caquéticos - o clima, dizia, era menos flutuante do que agora. Não precisávamos de boletim meteorológico, porque se verificava um ciclicismo quase invariável e a aprendizagem resultava de acumulações de saber, transmitidas de geração em geração e cá nos íamos safando. Já não é assim agora. Também aqui nada é sagrado.
A questão é que se ia da marvana até ao caminho das Águas e da serra às portelas, da lameira da pinta à saramaga, e tudo andava cultivado. Não havia baldios e os matos eram segados, que os fornos e os lares bem os catavam. Agora há codeços, giestas, estevas, tojo, rosmanos, pinhais cheios de caruma, mato e panojo por todo o lado... Tudo mudou.
Qual o garoto que não tinha uma vintena de costis e não os armava ao taralhão, ao pisco, à felosa, até ao rouxinol, ao melro, ao tordo e ao gaio ao papa-figo e à rola. Apanhava-se de tudo e em abundância e não se notava a falta nos campos. Coelhos, perdizes, pirolises, lebres, texugos, de tudo se matava e caçava,todos os dias, de Outubro a Janeiro e sempre havia para todos.
Proibido era como hoje, mas não se notava a falta... Outros tempos...
Certa noite - entre centenas delas em que o mesmo aconteceu - saí eu, nosso sargento, quinzinho das Águas, Celestino grande, Domingos perdido, ronquinha, riconho, nosso Mário e mais não sei já quem... Íamos aos pardais para a serra a dar vistas para o canchal da nora, ali atrás da Carochinha, tudo em fila, luzes apagadas para poupar pilhas que eram caras, e Perdido, já no meio do calipal (eucaliptal) pisa um graveto seco e ouve-se uma revoada. Riconho ordena imperioso: «'Chiu, pouco tchavascal, aqui há caça grossa». E havia: eram pombos bravos. Centenas deles. E baixos, fáceis de tombar.
A lua já se tinha posto e separámo-nos em grupos o mais silenciosamente que podíamos, sempre às escuras. Ao assobio combinado acendem-se as lanternas aponta-se para os calípios (eucaliptos) e " ena pá, o que pr'aqui vai!" Foi matar até gastar as pilhas. Nunca tinha visto tanto pombo bravo morto em tão pouco tempo. Repartiu-se a carga e «toca a andar num venha por i a venatória.» Subimos até ao alto e sai-se riconho:" ena cum filha da puta, já chegamos a castelo branco!" E logo ronquinha" cale-se, sua besta, num vê qué Penamacor" «mamerda é qué Penamacor... num vês ali a avenida marechal carmona? " acode Perdido: num sejas basbaque, atão num tás a ver ali as luzes do asil?»(Lar D. Bárbara Tavares da Silva) e vou eu: «ó Tonho põe um lenço nos olhos que levo-te pela mão e quando chegares ali às pias do Barata já vês que estamos na serra. No metas é mais chavascal» A custo, lá veio sempre a praguejar e só acreditou quando chegámos à figueiras da velha Garriça e começámos a colher uns figos... Ouve-se mais barulho e, apesar das pilhas fracas ainda caíram mais uns pássaros dos pequenos. Um fartote.
Tudo crime, tudo mau, tudo escusado. Era assim.
XIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGGGGGGRANDDDDDDDDDEEE

terça-feira, julho 21, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXVII - PI(E)RRÓNI(E)CO

Ora digam lá que o povo não é erudito! Quando ouvi pela vez primeira a velha Libra a chamar isto ao seu neto Farnando, ali mesmo em frente da casa do Pirolas , fiquei assim como os tarantas que ouvem mas não entendem.
Só muito mais tarde, já com algumas letras aprendidas é que vim a saber quem fora Pirro de Élis, fundador da escola céptica, defensor acérrimo da tese que propugnava que a verdade nunca seria atingível e que o homem nunca dela teria consciência. A razão para a assumpção de tal posição radicava na constatação de que não havia um critério único de verdade e que só um relativismo seria aconselhável. Ora, tal posição inviabiliza uma verdade universal e assim nunca se podem formular leis. Era aquilo que os gregos chamavam a acatalepsia (impossibilidade de se conhecer a natureza própria das coisas) pelo que o melhor era um certo desprendimento da própria realidade e não nos preocuparmos muito (ataraxia).
Contemporaneamente podemos sentir influências desta forma de pensar em Karl Popper, o homem do falsificacionismo que propõe o inverso do normalmente crido: as teorias científicas só o são se puderem ser empiricamente falsificadas. O que há, são doutrinas aceites como verdadeiras, mas que o não são. Basta que ver que caminhamos sempre para novas formas de abordagem da realidade e que aquilo que hoje é a verdade é amanhã duvidoso e para a semana já é historicamente falso. É isto que justifica o progresso e que, consequentemente nos contentemos com probabilidades que se aproximam da verdade mas que a não têm, sob pena de liquidarmos a evolução do conhecimento humano.
É por causa disto que nunca se conclui grande coisa de um debate sobre um qualquer assunto: cada um dos participantes agarra-se com unhas e dentes aos seus pontos de vista, que considera os melhores, e fecha a porta a qualquer outro ponto de vista diferente porque será sempre inferior ao seu e assim não vale a pena ligar-lhe. É o que se chama o mito do contexto, que se pode expressar na afirmação popular de que " nunca há só um teimoso". Podeis chamar-lhe o que quiserdes: arrogância, pedantismo, mania, surdez, casmurrice, autoritarismo, sobranceria, narcisismo, umbilicalismo, ensimesmamento, misantropia, Socretinismo, ... o que quiserdes, mas vai sempre dar ao mesmo: eu é que sei e o outro é uma besta. Mainada.
O Farnando da Libra também assim era: teimosinho que nem galinha a tentar bicar o grão de milho pelo buraco da rede, quando lhe bastavam quatro passadas para o engolir se passasse pela porta ali ao lado. Pior ainda se o pombo por ali passasse e o engolisse...
Vamos lá então à estória: A velha Libra tinha um chão para o caminho das águas. Semeava milho para a burra e fazia uma horta pequena onde colhia no cedo alguns tomatitos e pepinos juntos com uns gatchos de Santa Maria numas videiras que tinha junto à parede do caminho e que « eram mai doces có mel». Tinha era um problema grave: o poço, a meio do Verão secava e podiam assar-se sardinhas lá no fundo. O remédio era acartar água em bidons que o Farnando tinha que encher no poço novo e levar na carroça para o chão. O Farnando era Perrónico mas não era parvo de todo: andava sempre à coca a ver quando é que alguém com motor ia ao poço a fazer o mesmo e pedia que lhe enchessem os bidons, que encher aquilo ao caldeirinho matava o corpo.
Além disso, o Farnando, se visse uma bola, esquecia-se do mais e era sempre o último a abandonar o jogo. A velha Libra rançava-o mas ele não ligava.
Quando apanhava os bidons cheios tocava a burra e lá ia direitinho ao chão e para não perder tempo despejava os bidons para o poço para poder vir jogar a bola outra vez. Quando a velha Libra ia para regar a hortinha, a água tinha-se sumido. O Zé Chornico que pegava com ela no chão:" diz ao teu cachopo que continue a acartar água que o meu poço agradece..." A Libra ficava preada e vinha sempre com alma para arrear nas fúcias ao Farnando: rais todos ta partam, garoto dum raio. Tou farta de te dizer que num botes a água dos bidons para o poço do chão. Vale mai lá deixares a carroça e trazeres a burranca, mê teimoso!
Farnando praguejava de igual modo - a falta que um pai faz na primeira infância!- ( os pais eram emigrantes em França e a Libra estava viúva)" velha dum corno não me desampara a braguilha...» Perdoe-se-me esta descida de nível mas o vernáculo assim o exige...
A questão era grave: Farnando dava-se mal com a besta e só a controlava entre os varais da carroça. Se a soltasse e a montasse para chegar à aldeia era certo e sabido que malharia com os costelados no chão que a burra não esquecia quem lhe punha carapetos de silva por debaixo da albarda... Cá se fazem cá se pagam... Depois chamem-lhe burra!... Antes JUSTICEIRA!
Aí está a razão por que Farnado despejava a água por gravidade e vinha com burra e carroça até à Lameira e ao poço novo... «Vai lá vai» dizia, «a puta da burra malhava comigo no chão e assim vem mansa que as patas batem-lhe nas guardas da carroça e só consegue trote, nunca galope.»
A pobre da Libra bem tentava domesticar aquele potro mas ele chegou a entrar pelo telhado às tantas da noite e a pobre desistiu de lhe trancar a porta.
Foi para a Alemanha como padeiro, tornou-se pasteleiro, comprou um ford capri, andei nele, uma bomba.
Também era perrónico: de vez em quando não obedecia ao dono e dava de rabo. Ainda lá apanhei uns cagaços...
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII GGGRRRRRRRRRAAAAANNDDDDEE

quarta-feira, julho 01, 2009

GRAMATIQUÊS

Cibernauta amigo fez-me chegar o texto que se transcreve. Pese embora seja muito seguro prever que ele vá circular na net e cair em milhares de caixas de correio electrónico, a sua criatividade e qualidade justificam plenamente que seja destacado aqui no Baságueda, com a devida vénia à autora.

Supostamente, trata-se de um texto apresentado por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa. Justíssima vitória. Ora leiam:

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


Fernanda Braga da Cruz

terça-feira, junho 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXVI - DEITAR

No domingo transacto fiz questão de me incluir na minoria que dá valor à forma mais formal de participação em democracia e lá fui deitar.

Esgotadas que estão 3 décadas de democracia, as assembleias de voto já se civilizaram, já não têm a animação dos primeiros tempos em que o povo experimentava a novidade do voto livre. Nos primórdios, em pleno PREC, a aprendizagem democrática também se fazia à custa de alguns conflitos, o que tornava o ambiente mais interessante e animado para quem gratuitamente se prestava a passar o dia a lamber folhas de papel à procura do nome do eleitor que não tinha cartão.

Estávamos em 1976, a caminho do solstício do Inverno e o povo ainda estava hesitante na avaliação da nova estética urbana imposta por uma novidade a que chamaram campanha eleitoral e que consistia em tapar todas as paredes com cartazes de vários tamanhos a preto e branco, alguns com a cara dos candidatos à presidência da Câmara, outros só com o "Vota **". Pouco faltava para as urnas encerrarem quando à assembleia de voto chegou João Meioquartilho, nariz rosado e a fungar, chapéu levantado à frente tornando bem visíveis as profundas rugas que o sol e a vida dura do campo lhe tinham desenhado na testa, já entornado, como era habitual todos os domingos, com o bandulho a abarrotar de morangueiro do Cavalheiro. Entrou determinado na sala e anunciou bem alto:

- Olhér lá! Ê quero dêtar p'ó Karraio (faz de conta). Ond'é quê dêto?

O Presidente da Mesa, Amândio Basófias, aposentado como sargento-mor do Exército, conhecedor das regras e disposto a fazê-las cumprir, apressou-se a informar o Meioquartilho que o voto era secreto e que não era permitido que ele revelasse o seu sentido de voto.

- Ai não? Atão mas estamos em liberdade ó no estamos, hein? Atão agora já no se pode falar à vontade outra vez? Já no bastou esse bandido do Salazar? Hein? Atão mas qu'a raio! Ê quero dêtar p'ó Karraio (faz de conta) porque me pagou 3 meiosquartilhos naquilo do Cavalhêro e p'a mai nenhum cabrão que no me pagou nada.

Autoritário, Amândio Basófias decretou que o Meioquartilho não estava em condições de exercer o direito de voto e determinou a sua expulsão da assembleia de voto. O delegado da lista do Karraio (faz de conta) opõs-se de imediato com o argumento de que o voto era um direito e o basófias não tinha o direito de impedir o eleitor Meioquartilho de o exercer, passando de imediato a contar com o desacordo dos outros delegados que se puseram ao lado do Presidente da Mesa. No meio do rebuliço que se gerou, o Meioquartilho, à rasca para esvaziar (outra vez) a bexiga, achou por bem retirar-se do debate, não sem antes vociferar:
- Ai no me dêxandeis dêtar p'ó Karraio (faz de conta)? Atão tamém no dêto p'a mai nanhum.


domingo, maio 31, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXV - PARRANÇO

Muitas são as expressões populares para designar barriga cheia: bandulho, papo, blusa, camisa, tripa (tudo CHEIO) mas esta de parranço é uma das mais frequentes na zona da raia.
Por tradição e até cultura - convém dizer que a tradição é um dos elementos da cultura - o português é bicho para enfardar o que quer que seja, desde que seja muito, não se preocupando muito com a estética do prato. Aquelas novas modas da cozinha contemporânea em que são mais os riscos a borrar o prato do que o entulho comestível não casam muito com o lusitano vero. Nem que sejam azeitonas com batatas cozidas com casca (mas descascadas à hora) é preciso é que se encha o papo. A sensação de fartura é algo predominante na cultura portuguesa. A comer, os portugueses gostam sempre de MUITO. Se for BOM, ajuda, mas não é indispensável. Se houver fome, então, até pão e navalha como conduto chegam... mas que haja pão. Não se passe como na malha do velho Elias em que a Rouca perguntou ao Estronca Brochas: "atão o pão chegou?" e ele:« foi o pão a acabar e as navalhas a fechar».
Já nos tempos dos reis, mormente D. Dinis, esse esposo infiel da Rainha Santa, havia o direito de comedura: por onde quer que passassem os reis tinham por direito de suserania a posse de todos os haveres das terras, para si e seu séquito, até mesmo das mulheres. Não admira que os reis tivessem tantos filhos bastardos. Como sói dizer-se: «É fartar vilanagem». Até mesmo quando sob o domínio filipino e antes, na crise de 1383-85, Tomás Ribeiro em D. Jaime propalava: «Portugal é lauta boda onde come a Espanha toda».
A afirmação: deus criou o homem (independentemente da falacidade) e o português criou o mulato" já nesta altura era visível...
Voltemos ao D.Dinis: Oh Damas por quem me aflijo / oxalá vós consintais/ que eu introduza por onde mijo/ onde, por onde vós mijais. Esta lubricidade tem a ver com o parranço cheio: onde quer que vão - e foram a todo o lado - sempre a genética lusa deixou marcas: «para ficar completo tem que se deixar aqui semente.» E se eles deixaram! provavelmete será dos povos que mais genes espalhou. Não bastava encherem a barriga deles, tinham que encher a barriga às mulheres. Má bicharada esta, a Lusitana!
A lubricidade desta gente é tal que nem os santos, mesmo os mais populares, se escapam à brejeirice da versejação: em Amarante, por exemplo, o próprio bolo (espécie de cavaca de diferentes tamanhos - O S. Gonçalinho (vai lá vai, a ajuizar pelo tamanho), tem a forma de um falo e é frequentemente invocado, até mais pelas mulheres do que pelos homens para que a eles nunca lhes falte a virilidade do pastor amarantino : "S Gonçalo de Amarante/ casai-me que bem podeis/ Já tenho teias de aranha/ no sítio que vós sabeis", e nem o Senhor de Matosinhos se escapa «Oh senhor de Matosinhos /que estais virados para vila /virai-vos pró outro lado /que vos bate o sol na pila. ».
Dê a volta que der ,a conversa entre lusitanos vai sempre a parar ao mesmo sítio: aos genitais. Mainada!
Entre os xendros houve verguios que espalharam semente comédado: o meu avô materno - que já não conheci - , embora de duas mulheres, deixou dezasseis filhos. Valente! Encheu bem o parranço. Só morreu um, de pequeno, com o que na altura se chamava o garrotilho-
difteria, para os entendidos- julgo -.
Ora vamos à estória: coiote pete, toco jabão, brutamontes, jabão pitincouro, albardinhas bertcho, teixeirinha, velho ourives e, claro, eu, na padaria do dito albardinhas, quando era ainda no Outeiro, perto do Domingos Molhano, fomos mamar uma coelha prenha que coiote tinha roubado ao Domingos Refe ali para o caminho da lomba: apalpou e o que lhe pareceu maior é que trouxe.... calhou coelha... A fome não escolhe qualidade e o parranço estava oco e pronto ... Toca com a coelha para a caçola, temperada como mandavam as regras, batatinha nova para outra caçola e ala! dentro do forno da padaria, antes da fornada que pitincouro batia assim mesmo comédado. Caçolas tapadas com telho de alumínio, fiscalização atenta, sueca a matar tempo, tinto a escorrer com chouriça gamada por coiote pete à mãe, e mal aquilo estava engrolado toca a encher a blusa que a hora era tardia, pitincouro tinha o pão finto e estava tudo com a galga. A coelha era enorme, comeu-se à grande e sobrou batata que nem vos conto... Sobrou? Toco Jabão aposta com teixeirinha e emborcou o resto do batatal. Nem uma que ficou.
Mamamos todos gambas na Rosa à conta do teixeirinha. Enchemos mesmo o parranço e a história revivida do batatal papado por Toco Jabão.
Outros tempos outros hábitos .
XXXXXXXIIIIIIIIII GGGGGGGGRRAAANNNNNNNNNNDDDDDEEEEEEEEEE.

quarta-feira, maio 20, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXIV - ARANCUM

Devo começar por fazer uma declaração: este termo era a minha tábua de salvação quando não me ocorresse uma história. Nunca pensei, à partida, que ele fosse motivo de tanta vitalidade aqui no baságueda.
Esclareçamos: o arancum é o pirilampo, que à letra quer dizer luz no cu (arancum) ou luz de fogo (pirilampo). O árabe e o grego mais uma vez patenteiam as suas influências na lusa língua. O que deve ter acontecido ao Pratitamen é que, com certeza, foi picado por alguma urtiga, quando andava aos pirilampos. O bicho é pacífico e a luz é apenas um chamariz para as suas amadas virem para junto dele e passarem um bocado no bem bom.
Havia mesmo muitos nas guardas da ponte.
Em honra ao arancum hoje não vos vou escrever uma história mas vou partilhar convosco dois textos que considero com mérito para figurarem no baságueda e que merecem mais luz do que a que produz o traseiro da nossa vedeta de hoje.
O primeiro texto teve que ser transcrito, mas obedece em rigor ao que D. Tancredo escreveu. Permiti-me que chame a a tenção para a data :1934.
O segundo é obra deste escriba que, de quando em vez divaga devagar e divagando d e v a g a r i n h o vai assim como que de vaga em vaga, vagando por onde calha e cismando sem querer criar qualquer cisma ,brinca a sério com a futilidade do importante e com a importância do fútil. No fim tudo é a mesma coisa tal como o tudo que não pode conter tudo porque se contivese tudo teria que se conter a si mesmo e ao nada; ora se contivesse o nada negar-se-ia em absoluto porque o nada é absorvente e assim o tudo tornava-se nada e o nada ,tudo. O melhor é que continuem a existir os dois: o tudo como a incompletude do todo e o nada como o vazio cheio do que lá pusermos.
Perguntaram-me uma vez o que era o nada e a resposta que na altura me ocorreu foi a mesma que hoje aqui vos deixo: o nada é uma faca sem cabo e sem lâmina. Os conceitos têm lá porras, não têm, como diria o meu amigo Lameiras de boa memória. Nada é absoluto, nem esta afirmação, tal como dizer que tudo é relativo é em si mesmo a antítese porque se auto nega.
Bom, vamos aos textos:

Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura


Exposição


Porque julgámos digna de registo,
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslise
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor! Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até a fralda da camisa.

Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca.
_A matéria, em questão, chama-se cáca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.

E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
Venha até nós!...

Solicito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado
e,… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhes os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
…quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
num traque do Ministério das Finanças?...
E quem viver aflito, sem recursos,
já não distingue, os traques, dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos nelas.

Precisámos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

…Adubos de potassa?... Cal?!...Azote!?!...
Tragam-nos merda pura, do bispote!

E todos os penícos portugueses
durante, pelo menos, uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras núas,
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

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Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...

Como é triste saber que todos vós
andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com sultura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas, à vontade,
não faremos questão de qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena pôia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.


Évora, 13 de Fevereiro de 1934

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo


O Presidente

Dom Tancredo (O Lavrador)



II







O PONTO ESTÉTICO

O ponto tudo inicia e tudo acaba. Para tudo, ou quase tudo, há um ponto de partida e um ponto de chegada.
Ao longo da nossa vida andamos sempre à procura do nosso ponto:
A criança aproxima o livro o idoso afasta o texto…
O ponto é o elemento da recta, que mais não é que a sua infinitude e se fecharmos a recta, o ponto transforma-se em plano, já com superfície definida; não se esgota aqui o ponto, afinal, o volume é ainda a tridimensionalidade do ponto.
Ocupamos, depois, um ponto no espaço, e o espaço está cheio de pontos: uns vazios, outros cheios, uns próximos outros longínquos: que é a Terra, afinal senão um minúsculo ponto no seio do Universo?
Este mesmo Universo começou por ser um ponto grande que, grávido de energia, explodiu e preencheu o que vemos e o que não vemos, dispersando-se por infinitos pontos.
É ainda o ponto que procuramos quando pretendemos a perfeição: a comida está óptima, quando estão no ponto, a confecção, o sal, a apresentação…
A verdade e a mentira são pontos de vista e a afinação dos instrumentos tem um ponto exacto; acertamos a nossa vida pelo ponto certo e quando queremos argumentar e contra-argumentar asseveramos que é aí mesmo, ou não, que bate o ponto.
A meta é um ponto de mira como o alvo e até os nossos desejos mais íntimos almejam alcançar um qualquer ponto. O nosso ponto.
É assim o artista: tudo começa num ponto, seja a primeira nota de uma sinfonia ou o primeiro risco de uma pintura, a primeira cinzelada na pedra da escultura, o primeiro corte na madeira da imagem, a primeira letra de um romance e é porque algo toca ao nosso ponto sensível que se torna significativo para nós. A adesão ou a repulsa e o afastamento do que sentimos mais não são que pontos da nossa sensibilidade.
Mais que sensação, que é bruta, a estética é sensibilidade, é percepção, porque inteligente.
A arte gravita no mundo da emoção e portanto não tem ponto fixo, não tem regra, não precisa de ponto geométrico.
Arte é imaginação, criatividade, ponto fora do plano e por esse ponto tudo pode passar.
O ponto é, assim, a encruzilhada do infinito. O infinito reduz-se a um ponto.
O ponto é a perfeição, por isso o colocamos apenas no fim.
O ponto não ocupa qualquer lugar.
O ponto para estar no ponto tem que estar no ponto certo.
Só quando tudo está acabado é que dizemos: ponto final!
Quando temos lacunas mnésicas é que mais apreciamos o valor do ponto: como no teatro, quem safa o actor é o ponto.
Até há pessoas que são mesmo um ponto.
Parece então que não há só um ponto, tantos são os pontos.
Chegamos a um ponto em que já não se tornava aconselhável continuar …
Os melhores pontos são os que têm nós. mas um ponto assim fecha-se, não produz, não gera.
O melhor então é juntarmos dois pontos, ou então, porque não, um ponto e uma vírgula: quem sabe se do acasalamento não nascem reticências?
Não se dê, então, ponto mas sele-se com uma laçada.
Pode ser que um dia deslacemos o laço e que o ponto sem nó venha até nós com novos pontos …
A isto chamo eu Pontaria. ....

Queria finalmente pegar no ponto que o nosso amigo Chanesco nos deixou : Salamanca , salamanca, uns sara outros desanca.
O poeta latino Marcial, já tardio na literatura latina,sendo mesmo já por muitos considerado como um escritor do que se convencionou apelidar de baibo latim, que viveu em Sagunto ( hoje mais ou menos Barcelona) relata mesmo os poderes da salamanca=salamandra: se queres mal a alguém passa-lhe uma salamanca pelo chapéu e verás como de repente fica careca. Com cedrteza que dama que fosse alvo de uma vingança destas nunca poderia ser a vedeta do poema de Nicolau Tolentino que Almeida que lembra a esquisita circunstância de, por tanto querer andar na moda, a uma senhora da alta, um dia num banquete, perante o espanto geral, lhe sai um colchão de dentro do toucado.
Os répteis(neste caso um batráquio) curam se deles fizermos canja ou podem matar se nos deixarmos morder por eles.
Atenção que não falam nem metem barulho mas vão a todo o lado. Há por aí muita salamanca: andai com o olho aberto, não vos desanque por estardes distraídos.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiiiiii GRANDE!

domingo, maio 10, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXIII - SALAMANCA

Ñão, não me refiro à cidade da vizinha Espanha, hoje muito frequentada por estudantes portugueses. E não só. A salamanca é a nossa salamandra, esse anfíbio lento até porque não precisa de ser rápido já que as suas manchas amarelas são sinalética para o resto da bicharada. A sua ossatura possui um dos mais poderosos venenos. O seu predador somos nós.

Já por mais de uma vez vos falei aqui da lei do menor esforço.... Já reparastes no esforço que a palavra salamandra exige? Quanto mais fácil não é salamanca, mais a mais para um raiano! Vai lá vai!
Experiência fiz eu um dia: uma salamanca, na sua pachorrentice caminhava lentamente pela caruma húmida do lagar da lameira. Tinha ouvido dizer que, mesmo que a metêssemos no lume, ela lançava um líquido que apagava as brasas à sua passagem e assim ela se safava. Garoto é garoto, a curiosidade desperta o engenho e aí vou eu: arranjei uma chapa de lata, com um galho empurrei a salamanca para cima dele e entro no lagar. O Tonho Mota viu e vociferou que não queria ali o bicho, que podia passar por cima da roupa e depois apanhavam um cobrão que se unisse a cabeça ao rabo era a morte do artista. "Tenha calma ti Tonho já a torno a pôr na rua." Sento-me no tropesso e empurro a salamanca para o borralho da caldeira, mas não sei que volta se me dá na consciência que depressa a tirei, mas o facto é que a mirei e não vi queimadura. Fiquei sem saber bem a verdade da teoria, mas não estou arrependido. O bicho tinha tanto direito à vida como eu.
Voltei a trazê-la para a caruma quando o João Feijão vinha a entrar com o João Tramoço e o Tapa Poleiros, entretanto já falecido.
Os lagareiros tinham acabado de escaldar a massa , as ceiras já estavam bem apertadas pela vara e pedra do fuso, pelo que também vieram até junto do borralho e conta o Tramoço:"aqui o Feijão perdeu o cão e a raposa foi logo lá à capoeira e mamou-lhe uma galinha. Vá lá que ele ouviu e se alevantou logo, cossenão via-as ir"; e o Feijão: «Foi, poi, foi mesmo assim... aqui o Tapa disse-me que o ti Zé Lopes tinha lá um cachorro pra dar e eu ficava-lhe com ele.»
Zé Lopes "levas o cachorro mas tens que trazer cinco litros, duas latas de atum e um pão de mistura." . O negócio fechou-se ali mesmo.
Já se iam quando eu me saio: «Oh Feijão, sabes o que fazes para no tornares a perder os cães? Hoje à noite vens aqui às guardas da ponte e apanhas uma mão cheia de arancuns pra dentro duma caixa de palitos e quando chegares à sorte da saramaga, vais ao pé da vossa burra e caças umas quantas pulgas e mete-as também na caixa dos palitos, mas no deixes fugir os arancuns. Aventa lá pra dentro uma pele dum chouriço para eles comerem e ao fim duma semana deitas tudo pra cima do cachorro." O Tapa rosnou: "vai mas é a gozar com quem te fez as orelhas" Aí entra o Tonho Mota: "é verdade poi então; o Chquim da Senhora lá na Mata da Rainha sabe sempre onde anda o Barbaças por causa disso". Tonho Lopes, irmão de Zé e cunhado de Chquim da Senhora: « o mê cunhado já me falou nisso uma vez, já. Diz que o cahorro alumia e que parece daquelas bichas de rabio que se botam na roda do São João. Nem os lobos lá aparecem que o cachorro deixa-os malucos»
Perante tal argumentação e para completar a missa Zé Lopes:"Vai à minha que te dê o cachorro e o vinho logo o trazes quando voltares ao povo". Ficaram os três meio tarantas e eu piquei:« é assim mesmo: as pulgas andam sempre aos saltos, mas como foram infectadas pelos arancuns alumiam e assim o cão é uma espécie de candeeiro a andar. Vais a ver que a raposa nunca mai lá torna. É limpinho! e tu, mesmo de noite, sabes sempre onde pára o cachorro, porque ele alumia."
Lá foram.
Ficamos os quatro a rir e o Mota:" tu és tchapado: há bocado querias que a salamanca deitasse água para apagar o borralho e agora espetas esta ao Feijão... És tchapado."
A verdade é que o Feijão lá andou a apanhar os arancuns nas guardas da ponte...
Guardai-vos vós de quem vos infecta. Vai lá vai!
As eleições vêm aí... cuidado com as enxertias.



XXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII.

sábado, abril 18, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXII - LAMBARÃO

A língua comprida não é a das girafas que, com arte conseguem evitar os aguçados picos das acácias nem a dos répteis, tipo varano que cheiram o habitat em busca de presa,... Não. A língua comprida é nossa. Não é por acaso o ditado popular: "temos dois ouvidos e uma língua: é para ouvirmos o dobro e falar metade" ou estoutro:" o calado diz tudo"; ou este " quem diz o que não deve ouve o que não quer" ou mais prosaicamente: "mete a língua na caixa".
Não é raro que nos refiramos a uma pessoa e que a caracterizemos como um tagarela e consideramos isso a sua imagem de marca: "tem a língua comprida", asseveramos.
Razão têm os chineses quando sentenciam: «como te atreves a pedir a uma pessoa que guarde um segredo se tu próprio não foste capaz de o guardar?».
Na Aldeia havia muito quem "esticasse o farrapo", e passasse horas a "dar ao lambarão."
Exemplo acabado do que vos digo, era, por exemplo a ti Tecla.
Cultivava um chão por detrás da igreja e morava a meio da barreira a caminho dos cucos quase em frente das escolas velhas. Eram quinhentos metros bem medidos. Demorava bem duas a três horas para chegar a casa. Então, se encontrava a Irene Paca no adro ou a Relochica no Batoco, carregadinha com o cesto de cogulo, especava-se a dar e receber coscuvilhice e até parecia que o cesto levava algodão em rama. Boato que lhe caísse na orelha era mais rápido a espalhar-se que fogo em pinhal no pino do Verão.
Marido de Tecla era o ti Mné Ferreiro, artista ímpar, multifacetado, relojoeiro, mecânico, ferrador, insuperável a meter aros em rodas de carroça ou carro de bois. Aquecia o aro em lume vivo de esteva e torga com hulha à mistura, deixava-o ao rubro e com tenazes que ele próprio concebera e fabricara, num ai ajustava o aro à estrutura da madeira, cravava-o com rebites que ele também fazia, arreganhava-o com água, pintava-o com breu, untava o eixo com breia e massa consistente e pronto aí estava o carro do Vigura ou do Geba pronto para mais uma safra, ou a carroça do Sarrabeco para transportar pinhos para fazer escadas desviados do pinhal do Chico Sarapião.
Dele eram a maioria dos relógios que davam as horas nas torres das igrejas.... Quantas vezes eu dei corda ao relógio, quantas vezes...? Contou-me que o trabalho maior não era calcular a proporção do número de dentes das rodas mas sim calcular o equilíbrio dos pesos das pedras das horas e dos minutos por forma a que marcassem certos os segundos. Construía relógios de bolso aproveitando peças de outros avariados. Um tive eu marca Combóio e outro da famosíssima Roskof.
Calmo, misantropo, não perdoava, fizesse chuva, vento, frio ou calor, quase ao fim da tarde, um passeio até aos bebedouros. Sempre sozinho, ia e vinha. Era capaz de estar uma semana calado e, se ninguém lhe falasse, ele nada dizia. Era até ele que os velhotes mandavam os garotos com a pedra de afiar as agulhas e ele, na sua calma e poucas palavras:" agora levas esta até que eu apronte a que trouxeste". Lá vinha o garoto outra vez carregado com um calhau embrulhado num jornal.
Era assim que se aprendia, com estes entreténs de aldeia.
Como se vê era um casal perfeito: ele era capaz de estar uma semana calado e ela era capaz de estar um dia inteiro a falar.
Bom, mas o nosso tema era o lambarão...
Campeões nesta arte são os caçadores. Quando a caçada corria bem ou, sempre, no início da época, havia rês para o tacho que a Rosa cozinhava e para o qual eu, inevitavelmente, era sempre convidado.
Era lebre naquele dia. Melhor: duas lebres. Tinto do Reis Alguitarra e do Modas surripiado à socapa quase um alqueire de batatas e picante quanto baste, ambiente aconchegado todos empinados à volta do barranhão. As histórias iam surgindo e lá vinha aquela do coelho que saíu do roto e levou cinco foguetes e ninguém lhe acertou ou a lebre que já se ia a passar o cômaro da reserva e foi ardulhada por um tiro certeiro ou a perdiz que quase cagou na cabeça do Mnel Faustino e a errou,... todos tinham que contar...
Agora o lambarão era bem esticado quando se tratava de gabar os cães!
Naquela noite havia um convidado especial, alentejano, homem de pouca fala, cordato, e com um estilo inconfundível, metia farpas com propriedade e deixava todos a pensar. Um artista, o Alfredo Papa Arroz.
Chquim Pardalim e Coiote Pete começaram a altear a voz e já se sentia algum azedume na ralhação:
"Num querias tu mainada do que o teu Ruço fosse melhor có meu Cara Linda. Só te digo meu babanca, qués um babanca, que uma vez fui caçar pró Alentejo, ali pra perto do Paparroz e o sacana do cão não apareceu. Mas cá chegou passados dois dias só plo cheiro do gasóleo da carrinha. Isto é qué ter faro, meu babanca"
Digo pró Paparroz: " porra, ó Papa esta é valente"e comecei «Arregaça, arregaça a calça» e pus-me a puxar as calças pra cima quando Pardalim levanta a voz:
«Cale-se, seu bebágua, seu borra botas, tu já num talembras do que se passou quando o ano passado fomos além prá raia ao pé do ribeiro Torto e salevanta uma perdiz longe como um corno e lhe despacho um foguete e ela vai cair dasa já em Espanha, já num talembras, mas eu lembro-me bem : O Ruço foi por ela e apareceu ao outro dia de manhã com ela na boca e tu bem viste que não lhe tocou e estava cheiinho de fome. Isto é que é um animal.»
Já se ia comendo na lebre e cinco litros já tinham voado quando o Paparroz, despeja dum gole o copo do vinho, espeta um moço no garfo, poisa-o no barranhão ( o moço obrigava a que ninguém pudesse tocar na comida até que quem o lá pusera o tirasse, sob pena de pagar a despesa da noite) e se sai com esta:
- "Cão, cão, era o meu Patolas: um dia cheguei-lhe ao nariz umas cuecas da minha mulher e cinco minutos depois aparece-me com a tarecada do vizinho na boca"!
Eu respinguei tudo à volta, todos começaram a estalar os dedos e Coiote e Pardalim: "tira mas é o moço do barranhão cóssenão a comida arrefece."
Nunca estiqueis demais o lambarão que pode haver quem vos espete uma farpa bem metida.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIII GRANDDDDDDDDDDDDDEE

segunda-feira, abril 06, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXI - CABRUNCO ou CARBUNCO

Há datas, objectos, pessoas, situações que ocorrem ao longo da nossa vida que nunca mais esquecemos. Não podemos reviver o dia do nascimento, mas não esquecemos a data, ainda que ela não seja real. Muitos dos que me lêem sabem que, nas aldeias ,era costume o representante do Registo Civil ir apenas a espaços à vila e era nessa altura que registava os nascimentos , os óbitos e outros assentos. Se a data da morte não podia ser adiada, já a do nascimento, essa, podia sofrer aproximações, até mesmo algumas conveniências, como a seguir se explica: O limite máximo para que uma pessoa pudesse ser registado estava de acordo com o livro único de assentos. Deste modo uma criança, nascida a vinte de Abril, não podia ser registada depois de uma outra que, por hipótese, tivesse nascido a vinte e sete e os progenitores a tivessem registado à hora. Por isso , só havia uma hipótese: era registar a criança nascida a vinte como se tivesse nascido no dia vinte e oito. O curioso é que é esta data que passa a vigorar. O mesmo se passa com o casamento pela igreja: o que vale perante a cidadania é a data da convenção nupcial, mas a que é festejada é a da ida à Igreja. Muitas outras circunstâncias se passam ao longo da nossa vida em que a realidade real e a oficial são distintas.
Quantos de nós não damos por nós a protestar com o tempo do nosso nascimento. Ora quereríamos ter nascido antes e podia ter acontecido que muito do que hoje nos acontece estivesse lixiviado: pessoas, objectos situações, reacções, .... Ou ao contrário: queríamos ter nascido depois, ser mais novos, porque foi com tristeza que encontramos alguém ou alguma coisa que desejaríamos ter como nossa, mas é agora impossível ou até desaconselhável. Quantas vezes damos por nós a amaldiçoar o NOSSO tempo e a berrar para as paredes: Mal empregada! fora eu uns trinta anos mais novo e depressa me ajeitava com ela. Não me escapava, era limpinho...
Criamos mesmo ideais de fantasia, mundos de convivência impossíveis, sistema de relações irresponsáveis. Enfim, consideramo-nos uns azarentos.
Verdade insofismável é que essa pessoa que tanto nos diz, deixou marca indelével na nossa mente. São circunstâncias, objectos, outras pessoas, conversas, que sei eu, que esporadicamente nos acicatam a memória e nos deixam a sangrar.
A história dos amores frustrados é rica de exemplos...
Foi assim que no fim de semana passado se me depararam pessoas e acasos circunstanciais que me avivaram outras pessoas, outros tempos,...
Pessoa inesquecível das gentes de aldeia do meu tempo foi o senhor Joaquim Vicente. Barbeiro por baixo da casa do clube, veterinário, enfermeiro, curandeiro, sabichão, consultor das mais variadas necessidades. A ele se recorria por quase tudo e para quase tudo. A mim me lembro eu que me curou um nascido que tinha muito perto das partes fracas . Foi um castigo porque eu não queria nada daquilo: tinha que aguentar umas papas de linhaça bem quentes, metidas numa bolsa de enxofre Flor, alva quanto podia ser, ou não fora lavada por minha mãe que as guardava para embrulhar os presuntos, quando em Maio, os tirava da salgadeira e os levava para o forro a secar antes de os barrar com o colorau por mor da mosca vareja.
Era respeitado como poucos e a sua nomeada esticava-se quase como a da Sra da Póvoa. Homem de andar lento, nem gordo nem magro, cuidadoso no arrear, impecável na sua bata branca, mais parecia professora debutante, ou médico em hospital público, especialista no afio da navalha, artista no corte do cabelo, ponderado na sentença, avisado nos conhecimentos, respeitado na competência. Morreu cedo. Custodinha, a viúva, e Carlos o filho único, grande repórter da R.T.P., assassinado por ciúmes injustificados, eram benquistos enquanto por cá andaram e ainda hoje referenciados. Três netos prolongam a sua imortalidade, para além, é claro, deste trecho do Baságueda.
A cena mais pungente a que assisti foi a da queima de um carbunco.
O velho Gramacho tinha a face direita em chaga viva e ferida a alastrar. Era um carbúnculo, ou carbunco.
Quando era garoto por causa de ter sempre os ferros do espeta bem aguçados, oferecia-me ao ti David, ferreiro, ferrador e curador de cobrões, para lhe tocar o fole, em marcha certa para atiçar a hulha que lhe permitia tratar o ferro na bigorna a poder de martelada certeira, calma e pausada com o martelão. Estava eu naquele movimento de vaivém dando vento ao carvão quando o senhor Joaquim Vicente, impecável na sua bata branca, chegou com o Gramacho. O velho sentou-se num banco quadrado, alto, mais escuro que o breu e um ferro inox com uma espécie de cubo na ponta é posto ao rubro na forja. O Gramacho é preparado: põem-lhe uma venda nos olhos, um meio cobertor em volta do pescoço a cair para as pernas, desinfectam-lhe a ferida com gaze e benzina, e de repente o cheiro a carne queimada invadiu o espaço. Gramacho deu um urro monumental, mas mão fortes impediram que se mexesse.
A cicatriz ficaria para sempre.
Assim as pessoas de quem gostamos mesmo. Estejam perto ou longe, contactemos ou não com elas, quando elas são para nós significativas, não há tempo que as apague da nossa memória.
Eu tenho gente assim. Pessoas que não esquecerei . Pessoas que vivem comigo.Portanto estão ao pé de mim e eu gosto de as sentir. Peço-lhes conselhos, confesso-lhes segredos, relembro situações em comum, rio-me de situações, e invoco-as amiúde. São outros eus e eu sou outro eles ou elas. E como a cicatriz do carbunco nunca vão desaparecer a não ser quando eu as levar comigo para onde nos levam a todos por muito que gostem de nós.
Não são muitas essas pessoas, mas há-as que são determinantes , que me deixam marcas como o ferro esbrazeado da queima do carbunco.
Lembrai as vossas que eu não esqueço as minhas.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRAAAANNNDEEEEEEEEEEEEEEE

segunda-feira, março 23, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXX - ATIDO

Nós, os do campo, da província, do mundo rural, aprendemos a encaixar com naturalidade a sobranceria dos urbanos. No que me toca, eu desenvolvi o truque do humor para lidar com as directas e indirectas que os meus camaradas de pelotão me atiravam, a mim, o único espécimen provindo desse Portugal longínquo que era a província. Ainda hoje sonho com a patuscada que se armava todos os domingos à noite na camarata, com pastéis de Belém comprados em Cascais, rissóis manhosos de uma tasca de Benfica ou croquetes rançosos de Cacilhas. Invariavelmente, a contribuição mais aguardada era o queijo (terrivelmente) mal cheiroso que eu levava. Já estavam atidos a ele. Deliciavam-se os citadinos com o ritual: eu estendia cuidadosamente o pano de cozinha, espremia a borracha espanhola apontada à goela durante 10 segundos, limpava os beiços à cota da mão, desnocava um bocado de bica de azeite, sacava da minha navalhinha de tachas pretas e, num ai, transformava a lua cheia em quarto minguante. Os urbanos camaradas d’armas, desajeitados a desnocar a bica e sem navalha, faziam fila. Mas, para terem direito à talhada do queijo, havia uma condição prévia: o tinto tinha que esguichar da borracha espanhola para o palato sem contacto labial. Raro era o metropolitano que não se engasgava ou não regava as ceroulas. Eu mostrava-lhes como se fazia e aproveitava para me vingar: “sois uns labregos”.

Nesses anos 80, a representação do rural era ainda a de um espaço com conotações negativas. Falar do rural ou do campo significava falar de um certo subdesenvolvimento, de atraso, de miséria, de trabalho duro, por comparação à cidade a que se associava a ideia de progresso, de abundância, de trabalho leve. Quantos à gentes, o senso comum citadino alimentou a imagem estereotipada da personagem que fala com o “s” sibilado (no caso das beiras), que chega à capital da nação desgrenhado, com o andar desengonçado de quem está mais habituado às irregularidades da terra lavrada do que ao piso liso de Santa Apolónia, às vezes sem bagagem mas com o inevitável palhinhas na mão.

O mundo vai dando as suas voltas e parece que quer as representações do espaço rural quer dos seus habitantes têm vindo a actualizar-se em articulação com a própria dinâmica da sociedade contemporânea. Ao espaço rural parecem competir agora novas funções, novos usos e mais diversificados, na medida em que tendencialmente ele parece estar a ser alvo de novas procuras que vão para além das tradicionais (fornecimento de produtos alimentares ou de mão de obra), como sejam as de espaço de lazer, segunda residência, descentralização produtiva, reserva ecológica, etc.

É claro que ao longo desse processo, o espaço rural viu decompor-se toda a sua estrutura social e económica bem como sofreu uma forte descaracterização na diversidade das suas culturas e tradições, subordinado à afirmação dominante do espaço urbano-industrial. Paradoxalmente (ou não), foi esta influência urbana que mais terá contribuído para invalidar em absoluto aquela imagem estereotipada, o que, no limite, suscita a questão se ainda existe rural.

As relações de sociabilidade entre os vizinhos que acompanhavam a vida uns dos outros foram boicotadas pelas telenovelas e reality shows (como é que isto se diz em português?) da TVI, a solidariedade intergeracional ficou irremediavelmente comprometida com o surto migratório e com a invenção dos lares de terceira idade, até a agricultura já não é a grande aliada do espaço rural, enfraquecida pelas regras de mercado ditadas pelas grandes superfícies, pelo abandono, e até pelo clima.

Quanto às “tradições” do mundo rural, são cada vez menos participadas pelos verdadeiros actores e mais por mirones infectados com o vírus urbano da perspectiva folclórica. A grande maioria das que são participadas e adquirem visibilidade, pouco ou nada têm a ver com o ritual original – veja-se o exemplo do madeiro de Penamacor, o “maior” do país. Os nostálgicos do bom velho mundo rural esforçam-se por continuar a alimentar a velha representação estereotipada de algo que já não existe.

Indiscutivelmente, deixou de fazer qualquer sentido falar do mundo rural em tom depreciativo conotando-o com subdesenvolvimento, atraso ou pobreza, o que indicia que provavelmente, ou estaremos perante uma nova noção de ruralidade ou, estaremos perante uma nova realidade para a qual será preciso inventar um novo conceito. Os geógrafos já lhes chamam, apropriadamente, “territórios de baixa densidade”, e não é apenas à dimensão demográfica que eles se referem. Os sociólogos vão argumentando que a nova “ruralidade” integrou uma dimensão simbólica que anteriormente era marginalizada, motivando assim novas práticas sociais, as quais, presume-se, se estão traduzir num acréscimo de procura da ruralidade, quer no sentido físico quer simbólico. Há uma socióloga que já fala em McRural, querendo com isto significar que essa procura se dirige a um mundo mais ou menos estilizado que ofereça, a um tempo, ambiente não poluído, paisagem colorida, natureza florida, campos pouco intervencionados, produtos típicos, e, se possível, algumas manifestações tradicionais e autóctones ostentatórios da sua identidade e da sua diferença. Não importa muito se estamos na Baságueda, nos montes Cantábricos, na Aquitânia ou na Toscânia, importa é que os requisitos se verifiquem, daí o McRural. O caminho lógico para combater a homogeneidade desta procura só pode residir na diferença da oferta. E aqui, a questão que se coloca é se essa diferença deverá assentar no mundo rural que parece, ou no mundo rural que é (ou quer ser). A problemática do mundo rural está prenha.

Seja como for, os tempos ajudaram a gastar a sobranceria dos urbanos, agora a lutar para ensinar os seus filhos que as couves e os tomates não nascem nas prateleiras do hipermercado. Ou que as azeitonas não se colhem doces.

A propósito, já que estais atidos à história, cá vai ela. Mário Caravelha aproveitou o fim de semana prolongado dos Santos para vir à terra e colher umas oliveiras carrasquenhas e vermelhal. Trouxe com ele o filho Luís Miguel, mancebo adolescente nado e criado no bairro da Serafina. O rapaz achou fixe ir colher azeitonas, apesar de não saber muito bem identificar a árvore que as dava. O grupo de trabalhadores contratados incluía Chquim Moca, nosso Farnando e nosso Zéi, conhecidos exímios na arte de enrolar incautos citadinos e não só. Entre outros ensinamentos, Luís Miguel aprendeu a aguentar a comichão das urtigas convencido das suas propriedades afrodisíacas, e que o sabor do fruto azeitona, ali colhido directamente da árvore, não era o mesmo que aqueles que a sua mãe comprava no hipermercado.

Quando ele informou que gostava muito de azeitonas, Chquim moca ouviu-se a sugerir de imediato:

- Ó rapaz, atão vai comendo, aproveita agora!

Até o pai se aguentou calado ao ver o esgar que o seu herdeiro fez quando roubou uma azeitona à árvore e a meteu na boca.

- Estas azeitonas sabem bué da mal.

- És tu que não as sabes colher. Tens que escolher as mai madurinhas – continuou o Moca.

Enquanto a cena se repetia, nosso Zéi agarra uma mão cheia na sacola do almoço e mete no bolso.

- Anda cá ao pé de mim qu’as há boas aqui.

Abana um ramo a fazer ver que a tinha colhido no momento e oferece ao pobre Luís uma azeitona carrasquenha retalhada. Perante a aprovação, nosso Zéi incentivou-o a continuar a colher e a comer directamente da árvore. Nosso Farnando também não quis perder o seu quinhão. Só à quinta cuspidela é que o pai se resolveu a intervir.

- És a minha vergonha. Estás atido a que te ponham tudo à frente, pronto a comer. A culpa é da tua mãe.

A inventora do conceito é a minha cara amiga Elisabete Figueiredo, da Universidade de Aveiro.

quarta-feira, março 04, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIX - TARIMBA

Se os fornos eram quatro, três eram os lagares. Bem, um era conhecido pela fábrica, pela simples razão de que já trabalhava, primeiro a motor e depois a electricidade. Ficava onde é hoje o café LAGAR, que lhe herdou o nome. Pertencia ao professor Leitão, artista inventor mor, espécie de professor Pardal, com motos a tirar água, chapéus de chuva invertidos para apanhar fruta, com uma tesoura colocada na ponta de um varapau que prolongava o eixo do guarda chuva, e por aí fora; outro pertencia à D. Carminda. Ficava ao lado da igreja no caminho para a ribeira: lagar de varas onde ainda se tentou adaptar um motor que a maior parte das vezes estava avariado. Raios e coriscos com praguejos mais que muitos se ouviam quando as correias não faziam andar o moinho e a massa estava quente....; o terceiro, e é este que merecerá maior atenção, era o da Lameira. Eram seus proprietários a Casa Campos, o professor Zé Manel Landeiro e a família Bargão com alguns Baptistas. Foi neste que quase me nasceram os dentes.
O Lagar, propriamente dito, tinha duas grandes salas: a da entrada onde se situavam as três varas e à direita a sala da lagariça. Tinha esta um enorme pio em pedra onde a azeitona ( 600 Kg por moedura) era moída até ao ponto conveniente por uma junta de vacas do Alberto Vaz. A hora de começo era, habitualmente as 5h 30min. O tempo de moagem era em regra de 2 a 2h-30 o que significa que a massa estava pronta por volta das 8h.
O moinho trabalhava a frio e a massa era transportada à mão, em gamelas para quatro ceiras que estavam por debaixo de cada uma das varas e que se iam enchendo e sobrepondo. Repare-se que cada uma levava 150 kgs de massa. Era obra. O líquido escorria para uma tarefa incrustada na rocha donde depois era decantado para outra ficando aí já o azeite limpo. De vez em quando lá ia o Zé Lopes a abrir a torneira para o azenagre ir para o inferno, espécie de poço, por onde passavam os detritos antes de entrarem na ribeira. É daqui que vem o velho aforismo: "a azeitona dá-a Deus e o azeite dá-o o diabo". As varas (enormes troncos de sobreiro) assentavam nas ceiras e com a pressão iam fazendo espremer as ceiras, mas para mais peso, havia, a meio, três enormes pedras, uma para cada vara, que eram levantadas num fuso enroscado numa chave, tudo em madeira, obra de arte de carpintaria artesanal. Por fim as ceiras eram despejadas e a massa era então escaldada e de novo enceirada. É aqui que eu entro:
O Chamiço dava lenha (recebia poia, é claro) mas a água para a caldeira que estava sempre aquecida era dada por três pessoas: eu, o lavra miúdo e o mota. Três vezes ao dia, às vezes quatro, quando o serviço apertava, lá íamos nós a dar água para a caldeira. À porta do lagar havia um pequeno poço donde era tirada a água que um transportava e outro despejava. O serviço era rotativo, mas eu queria ficar sempre a tirar a água do poço. Era um artista. Tenteava a água e o caldeiro caía sempre de borco e era só puxar e despejar. Tudo às escuras, que ali, às 5h 30min da manhã em pleno Inverno, não havia luz. Mau era quando chovia, mas lá se dava o jeito. Como era cedo e ainda nada se via e nada se podia fazer, às vezes ficava por ali, junto ao lume da caldeira no quentinho, sentado num tropesso e, quando combinava com os lagareiros, papávamos uma lata de atum de mistura com umas couves do dia anterior e escorropichávamos uns tintos pelo copo de lata sempre junto à candeia com torcida de trapo.
As duas salas do lagar eram divididas por taipas em madeira e o ganhão e as vacas dormiam logo à entrada, elas junto à manjedoura e ele numa tarimba cravada na parede e suspensa por dois barrotes para a qual subia por um escadéu. Às vezes já não subia porque o tinto era tanto que qualquer palha servia de enxerga. No outro lado dormiam , também em tarimbas, os três lagareiros.
Não sei em que estado isto tudo está, que o Zé do café comprou o lagar e pôs lá as galinhas e o tractor e mais o que quis.
Uma pena perder-se um lagar que eu vi em tão bom estado. Ainda esteve em tempos para ser adquirido pela autarquia para museu... O Presidente mudou, o lagar morreu, e o museu nem no papel.
Se alguém dos que me lêem tiver influência, sugiram a aquisição desta relíquia e facultem-na ao povo.
Um povo sem passado não tem história.
Aqui fica o apelo.
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