quinta-feira, outubro 29, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLIV - DESANDADOR
O analfabetismo era um facto indesmentível, em elevada percentagem, o telefone era caro e lento e a carta era mais barata e os correios nem por isso eram muito demorados.
Poucos mais, na aldeia, cumpriam graciosamente com este mister de mandar e pedir novas dos entes queridos. Mais ainda dos famosos aerogramas que a guerra do ex ultramar também levou muitos xendros; até para Índia com o brigadeiro Leitão e Timor.
Um desses era o ti Emídio, cuja caligrafia , quando não estava borrachinho de todo, era um regalo; a outra era a ti Ermelinda, ali em frente da Lameira, mulher seca e espevitada, mexida que nem bicho da madeira, rija até mais não e de um asseio mais que sacro. O seu tinteiro de tinta, de cerâmica, branquinho, completo como só em museu voltei a ver, brilhava quase às escuras, tal a alvura com que sempre o mantinha. O aparo da caneta era lavadinho ao fim de cada desempenho e o pau que o sustinha era envolto num paninho, também ele branco de neve e repousavam todos, até próxima chamada, numa mesinha rectangular pintada de castanho e com uma toalha bordada, onde também, quando lhe calhava a vez, ficava o tríptico da Sagrada Família com a impecável lamparina de azeite sobre água, em gamela de vidro trabalhado, e sobre o qual flutuavam uma latinha triangular com as pontas espetadas em bóias de cortiça e a flor geminada, sempre acesa.
A casinha onde morava tinha uma loja que durante o Verão era bastante usada, primeiro porque vinham os cunhados de Lisboa e depois porque era muito mais fresca. Durante todo o ano, pelo menos uma vez por semana, lhe fazia uma barrela geral. Não raro, quando lhe ia a levar gás cheirava a lixívia purificante.
Foi numa dessas vezes em que lhe levei gás que ouvi pela primeira vez dois termos : estampilha (referindo-se a um selo de carta e não a uma bofetada que era o significado que eu lhe atribuía) e DESANDADOR.
Depois de ter retirado a bilha vazia e de ter submetido ao famoso click das garrafas Mobil, notei que cheirava a gás. Perguntei-lhe se não tinha já cheirado a gás, respondeu que sim, tirei o redutor e percorri o tubo: estava gretado e havia uma fuga. Comecei a tentar desenroscar a abraçadeira com uma faca, ela viu:"ESPERA AÍ QUE JÁ VOU POR UM DESANDADOR QUE É MELHOR DO QUE A FACA, NÃO TE CORTES!" E foi e veio com o desandador: uma chave de fendas. Ora aí está. A palavra não é onomatopaica, a função é: aquilo serve mesmo para fazer desandar. Registei e aqui vos fica.
Por esta altura do ano, sozinha ia colher a azeitona para a talha e, quando a colheita era muita vendia alguma. Ainda lhe comprei. Foi numa dessas vezes que eu, a brincar apostei com ela como num cesto eu era capaz de identificar dez azeitonas da mesma oliveira. Ela olhou para mim, e riu: és mai engraçado có teu pai". E eu:´« é verdade, pode acreditar» "pesa lá mas é a azeitona que eu não tenho vida para ouvir tontarias".
Acontece que eu, ao mudar a azeitona do cesto onde as tinha para uma caixa de plástico, vi um ramo de azeitonas para aí com umas dez...
«O Ti Ermelinda, vomecê não acredita que eu sou capaz de saber que dez azeitonas desta caixa são de certezinha da mesma oliveira, mas eu provo-lhe que é verdade» . Aí ela especou: "atão mostra lá" . Meti a mão agarrei o raminho e mostrei: «são ou não são da mesma oliveira?» " um raio ta palira, cachopo!" Meteu a mão ao bolso e: "Toma lá pela lição" Vinte e cinco tostões: uma fortuna. Fui direitinho ao Cavalheiro e papei um chocolate da Regina com uma Laranjina C.
Outros tempos, outras vivências, outros termos, outras marcas, outras histórias.
E a vós sempre vos digo que aquelas azeitonas só estavam seguras de um lado....
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGRRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDEE
quinta-feira, outubro 15, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLIII - CARRI(T)CHO
XI Grande.
sexta-feira, outubro 09, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLII - FOGUEIRO
A verdade é que nem sempre aquilo que dizemos é entendido como gostaríamos que tivesse sido e não podemos levar a mal que o OUTRO, sempre O GRANDE OUTRO, não nos entenda com a clareza que nós pensamos ter-nos expresso. Esta presunção da clareza quase cartesiana de que partimos ao dizer que "É EVIDENTE" é, de si, uma petição de princípio, já que jamais posso pressupor que algo que eu diga seja, prima facie, evidente. A evidência é algo que o outro decide e não o que eu pressuponho. Defender que há indubitabilidades iniciais é querermos reduzir os outros a nós e impedi-los de pensar. Ora isso é o que aqui não vai acontecer. O que mais se aprecia é quem nos lê, pense por si e , se entender, disso nos dê eco, mesmo que, e ainda bem, não concorde connosco.
Sirva de exemplo a palavra que hoje aqui trazemos. O normal - o evidente - parece ser que tem a ver com fogo e até mais rigorosamente tem a ver com uma profissão - a daquele homem que alimentava a caldeira do comboio a vapor como se vê ainda nalguns filmes ou nos que ainda hoje, já não a carvão, mas, na maioria dos casos a nafta, ou outro combustível mantêm altos fornos sempre na temperatura ideal.
Nada de mais distante: no vocabulário xêndrico o fogueiro é o FUEIRO. Isso mesmo: aquele varapau, em regra de eucalipto, mimosa ou carvalho que ladeava, encalhado em buracos quadrados nas laterais dos carros de bois e que tanto serviam para amparar molho de erva ou palha, como até os taipais provisórios a fim de a mercadoria não ser apanhada pelas rodas e mesmo cair (estrume, por ex.). Quando se tratava de grandes transportes, como com os moios do cereal, aí ,os fogueiros mudavam de nome e chamavam-se estadulhos.
Montar sessenta molhos de semente em cima do estrado dum carro de vacas, era tarefa que nem todos eram capazes de levar a cabo. Se a carga caísse naqueles córregos dos caminhos velhos era certo e sabido que dava direito a choradela de entrudo e a vergonhas contínuas nas tardes maledicentes dos domingos, depois de missa enquanto se jogava o fito. Isso era limpinho.
Os Tiagos moravam num arrendamento ali para os lados do Frade a dar cômoro com as taliscas. Trabalhavam como moiros e as terras andavam sempre rodadas, semeando e alternando as colheitas para a terra não se cansar. A fona era de sol a sol e desde cedo, como aliás era costume,os garotos começavam a aprender, a bem ou a mal, o que custava a vida... O mais velho dos Tiagos estava a dar os molhos do pão ao pai com uma forca, quando, de repente, sente umas dores agudas, começa a vomitar e aos berros: " Ca raio tens, que bicho te mordeu, rais ta parta, olha agora". O velho Tiago desce do cimo do carro ainda a praguejar, mas quando viu o filho naquele estertor viu que o caso não era mangação e arrancou à pressa na burrica para a vila a ver do dr. Landeiro. O cachopo berrava que nem um capado mas lá chegou, o dr. landeiro viu logo o que passava e ala : internado imediatamente para ser operado à apêndice... Bons tempos aqueles em que se operava em Penamacor no velho hospital de st António...
Já se sabe que o asseio do homem campesino não era famoso e o tarro de suor e até de fezes agarrava-se tanto ao corpo como às ceroulas... Como a operação era mesmo premente lá foi o Tiago para a barrela. Vestem-lhe uma espécie de bata e vai para a sala a arrastar-se. Está bem de ver que a operação é inimiga de pêlos púbicos e que a enfermeira de serviço tinha que proceder à raspagem dos ditos. Ora para evitar cortes desnecessários e escusados era preciso arredar o pistolo como lhe chamava o Tiago. Diligente, a enfermeira agarrou no falo do tiago para o manter em posição que permitisse o barbeamento. Só que o tiago nunca tinha tido uma mulher que lhe tivesse mexido no ponteiro e sai-se como esta:" Já o pode deixar que ele não cai". A enfermeira riu-se e o Tiago gabava-se do tamanho que o fogueiro tinha atingido.
Xi Grande
quinta-feira, outubro 01, 2009
A NOSSA FALADURA - CXLI - BO(U)RNAL
segunda-feira, setembro 21, 2009
VINDIMA OUTONAL 2009
Este ano...
β Ameixas martinicanas abertas a vapor alhínico, aromatizadas com erva coentral e suco cítrico
γ Traseiro curado de nalgudo beloteiro
δ Bife de caroço
ε Marisco de pantera negra
ζ Interstício moedor de bípede galináceo em molho xêndrico à moda antiga, levemente carilado e especiaria excitante
η Assadura em braseiro vivo de frutos pingentes encarnados e verdes, pelados e temperados
θ Berlindes tomatinos com cristais evaporados ao sol de água ondular
ι Pequenas leguminosas cozidas ao poejal combinado com nadador marítimo conserveiro e bolbo choroso, essência galinácea, acetizado e olivificado
κ Alimento de pobre conservado demolhado cozido e gratinado em barro com imo de poedeira
λ Palavreado roto de Manuel Hipólito
μ Carolada de milho adoçado e comido à mão
ν Achinchada curtida de alimento de mamífero
ξ Fruto de uva a duas cores vinificado
ο Destilado de balsa uveira em aroma de roble seco
π H2O fervente passado por grânulo torrado de grão torrefacto e importado
sexta-feira, setembro 04, 2009
A NOSSA FALADURA - CXL - BANDOLEIRA
domingo, agosto 23, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXIX - BASQUEIRO
segunda-feira, agosto 10, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXVIII - (T)CHAVASCAL
terça-feira, julho 21, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXVII - PI(E)RRÓNI(E)CO
quarta-feira, julho 01, 2009
GRAMATIQUÊS
Supostamente, trata-se de um texto apresentado por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa. Justíssima vitória. Ora leiam:
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
Fernanda Braga da Cruz
terça-feira, junho 09, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXVI - DEITAR
Autoritário, Amândio Basófias decretou que o Meioquartilho não estava em condições de exercer o direito de voto e determinou a sua expulsão da assembleia de voto. O delegado da lista do Karraio (faz de conta) opõs-se de imediato com o argumento de que o voto era um direito e o basófias não tinha o direito de impedir o eleitor Meioquartilho de o exercer, passando de imediato a contar com o desacordo dos outros delegados que se puseram ao lado do Presidente da Mesa. No meio do rebuliço que se gerou, o Meioquartilho, à rasca para esvaziar (outra vez) a bexiga, achou por bem retirar-se do debate, não sem antes vociferar:
- Ai no me dêxandeis dêtar p'ó Karraio (faz de conta)? Atão tamém no dêto p'a mai nanhum.
domingo, maio 31, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXV - PARRANÇO
quarta-feira, maio 20, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXIV - ARANCUM
Esclareçamos: o arancum é o pirilampo, que à letra quer dizer luz no cu (arancum) ou luz de fogo (pirilampo). O árabe e o grego mais uma vez patenteiam as suas influências na lusa língua. O que deve ter acontecido ao Pratitamen é que, com certeza, foi picado por alguma urtiga, quando andava aos pirilampos. O bicho é pacífico e a luz é apenas um chamariz para as suas amadas virem para junto dele e passarem um bocado no bem bom.
Havia mesmo muitos nas guardas da ponte.
Em honra ao arancum hoje não vos vou escrever uma história mas vou partilhar convosco dois textos que considero com mérito para figurarem no baságueda e que merecem mais luz do que a que produz o traseiro da nossa vedeta de hoje.
O primeiro texto teve que ser transcrito, mas obedece em rigor ao que D. Tancredo escreveu. Permiti-me que chame a a tenção para a data :1934.
O segundo é obra deste escriba que, de quando em vez divaga devagar e divagando d e v a g a r i n h o vai assim como que de vaga em vaga, vagando por onde calha e cismando sem querer criar qualquer cisma ,brinca a sério com a futilidade do importante e com a importância do fútil. No fim tudo é a mesma coisa tal como o tudo que não pode conter tudo porque se contivese tudo teria que se conter a si mesmo e ao nada; ora se contivesse o nada negar-se-ia em absoluto porque o nada é absorvente e assim o tudo tornava-se nada e o nada ,tudo. O melhor é que continuem a existir os dois: o tudo como a incompletude do todo e o nada como o vazio cheio do que lá pusermos.
Perguntaram-me uma vez o que era o nada e a resposta que na altura me ocorreu foi a mesma que hoje aqui vos deixo: o nada é uma faca sem cabo e sem lâmina. Os conceitos têm lá porras, não têm, como diria o meu amigo Lameiras de boa memória. Nada é absoluto, nem esta afirmação, tal como dizer que tudo é relativo é em si mesmo a antítese porque se auto nega.
Bom, vamos aos textos:
Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura
Exposição
Porque julgámos digna de registo,
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslise
e em que damos razão da nossa crise.
Senhor! Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até a fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca.
_A matéria, em questão, chama-se cáca.
Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.
Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!
O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
Venha até nós!...
Solicito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado
e,… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!
A Nação confiou-lhes os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
…quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
num traque do Ministério das Finanças?...
E quem viver aflito, sem recursos,
já não distingue, os traques, dos discursos.
Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos nelas.
Precisámos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.
…Adubos de potassa?... Cal?!...Azote!?!...
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penícos portugueses
durante, pelo menos, uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!
Terras alentejanas, terras núas,
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…
Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.
……………………………………………………………
Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
andais cagando sem pensar em nós!
Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com sultura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.
Venham todas as merdas, à vontade,
não faremos questão de qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena pôia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.
Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
Pela Junta Corporativa dos Sindicatos reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo
O Presidente
Dom Tancredo (O Lavrador)
II
O PONTO ESTÉTICO
O ponto tudo inicia e tudo acaba. Para tudo, ou quase tudo, há um ponto de partida e um ponto de chegada.
Ao longo da nossa vida andamos sempre à procura do nosso ponto:
A criança aproxima o livro o idoso afasta o texto…
O ponto é o elemento da recta, que mais não é que a sua infinitude e se fecharmos a recta, o ponto transforma-se em plano, já com superfície definida; não se esgota aqui o ponto, afinal, o volume é ainda a tridimensionalidade do ponto.
Ocupamos, depois, um ponto no espaço, e o espaço está cheio de pontos: uns vazios, outros cheios, uns próximos outros longínquos: que é a Terra, afinal senão um minúsculo ponto no seio do Universo?
Este mesmo Universo começou por ser um ponto grande que, grávido de energia, explodiu e preencheu o que vemos e o que não vemos, dispersando-se por infinitos pontos.
É ainda o ponto que procuramos quando pretendemos a perfeição: a comida está óptima, quando estão no ponto, a confecção, o sal, a apresentação…
A verdade e a mentira são pontos de vista e a afinação dos instrumentos tem um ponto exacto; acertamos a nossa vida pelo ponto certo e quando queremos argumentar e contra-argumentar asseveramos que é aí mesmo, ou não, que bate o ponto.
A meta é um ponto de mira como o alvo e até os nossos desejos mais íntimos almejam alcançar um qualquer ponto. O nosso ponto.
É assim o artista: tudo começa num ponto, seja a primeira nota de uma sinfonia ou o primeiro risco de uma pintura, a primeira cinzelada na pedra da escultura, o primeiro corte na madeira da imagem, a primeira letra de um romance e é porque algo toca ao nosso ponto sensível que se torna significativo para nós. A adesão ou a repulsa e o afastamento do que sentimos mais não são que pontos da nossa sensibilidade.
Mais que sensação, que é bruta, a estética é sensibilidade, é percepção, porque inteligente.
A arte gravita no mundo da emoção e portanto não tem ponto fixo, não tem regra, não precisa de ponto geométrico.
Arte é imaginação, criatividade, ponto fora do plano e por esse ponto tudo pode passar.
O ponto é, assim, a encruzilhada do infinito. O infinito reduz-se a um ponto.
O ponto é a perfeição, por isso o colocamos apenas no fim.
O ponto não ocupa qualquer lugar.
O ponto para estar no ponto tem que estar no ponto certo.
Só quando tudo está acabado é que dizemos: ponto final!
Quando temos lacunas mnésicas é que mais apreciamos o valor do ponto: como no teatro, quem safa o actor é o ponto.
Até há pessoas que são mesmo um ponto.
Parece então que não há só um ponto, tantos são os pontos.
Chegamos a um ponto em que já não se tornava aconselhável continuar …
Os melhores pontos são os que têm nós. mas um ponto assim fecha-se, não produz, não gera.
O melhor então é juntarmos dois pontos, ou então, porque não, um ponto e uma vírgula: quem sabe se do acasalamento não nascem reticências?
Não se dê, então, ponto mas sele-se com uma laçada.
Pode ser que um dia deslacemos o laço e que o ponto sem nó venha até nós com novos pontos …
A isto chamo eu Pontaria. ....
Queria finalmente pegar no ponto que o nosso amigo Chanesco nos deixou : Salamanca , salamanca, uns sara outros desanca.
O poeta latino Marcial, já tardio na literatura latina,sendo mesmo já por muitos considerado como um escritor do que se convencionou apelidar de baibo latim, que viveu em Sagunto ( hoje mais ou menos Barcelona) relata mesmo os poderes da salamanca=salamandra: se queres mal a alguém passa-lhe uma salamanca pelo chapéu e verás como de repente fica careca. Com cedrteza que dama que fosse alvo de uma vingança destas nunca poderia ser a vedeta do poema de Nicolau Tolentino que Almeida que lembra a esquisita circunstância de, por tanto querer andar na moda, a uma senhora da alta, um dia num banquete, perante o espanto geral, lhe sai um colchão de dentro do toucado.
Os répteis(neste caso um batráquio) curam se deles fizermos canja ou podem matar se nos deixarmos morder por eles.
Atenção que não falam nem metem barulho mas vão a todo o lado. Há por aí muita salamanca: andai com o olho aberto, não vos desanque por estardes distraídos.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiiiiii GRANDE!
domingo, maio 10, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXIII - SALAMANCA
XXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII.
sábado, abril 18, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXII - LAMBARÃO
segunda-feira, abril 06, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXXI - CABRUNCO ou CARBUNCO
Quantos de nós não damos por nós a protestar com o tempo do nosso nascimento. Ora quereríamos ter nascido antes e podia ter acontecido que muito do que hoje nos acontece estivesse lixiviado: pessoas, objectos situações, reacções, .... Ou ao contrário: queríamos ter nascido depois, ser mais novos, porque foi com tristeza que encontramos alguém ou alguma coisa que desejaríamos ter como nossa, mas é agora impossível ou até desaconselhável. Quantas vezes damos por nós a amaldiçoar o NOSSO tempo e a berrar para as paredes: Mal empregada! fora eu uns trinta anos mais novo e depressa me ajeitava com ela. Não me escapava, era limpinho...
Criamos mesmo ideais de fantasia, mundos de convivência impossíveis, sistema de relações irresponsáveis. Enfim, consideramo-nos uns azarentos.
Verdade insofismável é que essa pessoa que tanto nos diz, deixou marca indelével na nossa mente. São circunstâncias, objectos, outras pessoas, conversas, que sei eu, que esporadicamente nos acicatam a memória e nos deixam a sangrar.
A história dos amores frustrados é rica de exemplos...
Foi assim que no fim de semana passado se me depararam pessoas e acasos circunstanciais que me avivaram outras pessoas, outros tempos,...
Pessoa inesquecível das gentes de aldeia do meu tempo foi o senhor Joaquim Vicente. Barbeiro por baixo da casa do clube, veterinário, enfermeiro, curandeiro, sabichão, consultor das mais variadas necessidades. A ele se recorria por quase tudo e para quase tudo. A mim me lembro eu que me curou um nascido que tinha muito perto das partes fracas . Foi um castigo porque eu não queria nada daquilo: tinha que aguentar umas papas de linhaça bem quentes, metidas numa bolsa de enxofre Flor, alva quanto podia ser, ou não fora lavada por minha mãe que as guardava para embrulhar os presuntos, quando em Maio, os tirava da salgadeira e os levava para o forro a secar antes de os barrar com o colorau por mor da mosca vareja.
Era respeitado como poucos e a sua nomeada esticava-se quase como a da Sra da Póvoa. Homem de andar lento, nem gordo nem magro, cuidadoso no arrear, impecável na sua bata branca, mais parecia professora debutante, ou médico em hospital público, especialista no afio da navalha, artista no corte do cabelo, ponderado na sentença, avisado nos conhecimentos, respeitado na competência. Morreu cedo. Custodinha, a viúva, e Carlos o filho único, grande repórter da R.T.P., assassinado por ciúmes injustificados, eram benquistos enquanto por cá andaram e ainda hoje referenciados. Três netos prolongam a sua imortalidade, para além, é claro, deste trecho do Baságueda.
A cena mais pungente a que assisti foi a da queima de um carbunco.
O velho Gramacho tinha a face direita em chaga viva e ferida a alastrar. Era um carbúnculo, ou carbunco.
Quando era garoto por causa de ter sempre os ferros do espeta bem aguçados, oferecia-me ao ti David, ferreiro, ferrador e curador de cobrões, para lhe tocar o fole, em marcha certa para atiçar a hulha que lhe permitia tratar o ferro na bigorna a poder de martelada certeira, calma e pausada com o martelão. Estava eu naquele movimento de vaivém dando vento ao carvão quando o senhor Joaquim Vicente, impecável na sua bata branca, chegou com o Gramacho. O velho sentou-se num banco quadrado, alto, mais escuro que o breu e um ferro inox com uma espécie de cubo na ponta é posto ao rubro na forja. O Gramacho é preparado: põem-lhe uma venda nos olhos, um meio cobertor em volta do pescoço a cair para as pernas, desinfectam-lhe a ferida com gaze e benzina, e de repente o cheiro a carne queimada invadiu o espaço. Gramacho deu um urro monumental, mas mão fortes impediram que se mexesse.
A cicatriz ficaria para sempre.
Assim as pessoas de quem gostamos mesmo. Estejam perto ou longe, contactemos ou não com elas, quando elas são para nós significativas, não há tempo que as apague da nossa memória.
Eu tenho gente assim. Pessoas que não esquecerei . Pessoas que vivem comigo.Portanto estão ao pé de mim e eu gosto de as sentir. Peço-lhes conselhos, confesso-lhes segredos, relembro situações em comum, rio-me de situações, e invoco-as amiúde. São outros eus e eu sou outro eles ou elas. E como a cicatriz do carbunco nunca vão desaparecer a não ser quando eu as levar comigo para onde nos levam a todos por muito que gostem de nós.
Não são muitas essas pessoas, mas há-as que são determinantes , que me deixam marcas como o ferro esbrazeado da queima do carbunco.
Lembrai as vossas que eu não esqueço as minhas.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRAAAANNNDEEEEEEEEEEEEEEE
domingo, abril 05, 2009
segunda-feira, março 23, 2009
A NOSSA FALADURA - CXXX - ATIDO
Nesses anos
O mundo vai dando as suas voltas e parece que quer as representações do espaço rural quer dos seus habitantes têm vindo a actualizar-se em articulação com a própria dinâmica da sociedade contemporânea. Ao espaço rural parecem competir agora novas funções, novos usos e mais diversificados, na medida em que tendencialmente ele parece estar a ser alvo de novas procuras que vão para além das tradicionais (fornecimento de produtos alimentares ou de mão de obra), como sejam as de espaço de lazer, segunda residência, descentralização produtiva, reserva ecológica, etc.
É claro que ao longo desse processo, o espaço rural viu decompor-se toda a sua estrutura social e económica bem como sofreu uma forte descaracterização na diversidade das suas culturas e tradições, subordinado à afirmação dominante do espaço urbano-industrial. Paradoxalmente (ou não), foi esta influência urbana que mais terá contribuído para invalidar em absoluto aquela imagem estereotipada, o que, no limite, suscita a questão se ainda existe rural.
As relações de sociabilidade entre os vizinhos que acompanhavam a vida uns dos outros foram boicotadas pelas telenovelas e reality shows (como é que isto se diz em português?) da TVI, a solidariedade intergeracional ficou irremediavelmente comprometida com o surto migratório e com a invenção dos lares de terceira idade, até a agricultura já não é a grande aliada do espaço rural, enfraquecida pelas regras de mercado ditadas pelas grandes superfícies, pelo abandono, e até pelo clima.
Quanto às “tradições” do mundo rural, são cada vez menos participadas pelos verdadeiros actores e mais por mirones infectados com o vírus urbano da perspectiva folclórica. A grande maioria das que são participadas e adquirem visibilidade, pouco ou nada têm a ver com o ritual original – veja-se o exemplo do madeiro de Penamacor, o “maior” do país. Os nostálgicos do bom velho mundo rural esforçam-se por continuar a alimentar a velha representação estereotipada de algo que já não existe.
Indiscutivelmente, deixou de fazer qualquer sentido falar do mundo rural em tom depreciativo conotando-o com subdesenvolvimento, atraso ou pobreza, o que indicia que provavelmente, ou estaremos perante uma nova noção de ruralidade ou, estaremos perante uma nova realidade para a qual será preciso inventar um novo conceito. Os geógrafos já lhes chamam, apropriadamente, “territórios de baixa densidade”, e não é apenas à dimensão demográfica que eles se referem. Os sociólogos vão argumentando que a nova “ruralidade” integrou uma dimensão simbólica que anteriormente era marginalizada, motivando assim novas práticas sociais, as quais, presume-se, se estão traduzir num acréscimo de procura da ruralidade, quer no sentido físico quer simbólico. Há uma socióloga que já fala em McRural, querendo com isto significar que essa procura se dirige a um mundo mais ou menos estilizado que ofereça, a um tempo, ambiente não poluído, paisagem colorida, natureza florida, campos pouco intervencionados, produtos típicos, e, se possível, algumas manifestações tradicionais e autóctones ostentatórios da sua identidade e da sua diferença. Não importa muito se estamos na Baságueda, nos montes Cantábricos, na Aquitânia ou na Toscânia, importa é que os requisitos se verifiquem, daí o McRural. O caminho lógico para combater a homogeneidade desta procura só pode residir na diferença da oferta. E aqui, a questão que se coloca é se essa diferença deverá assentar no mundo rural que parece, ou no mundo rural que é (ou quer ser). A problemática do mundo rural está prenha.
Seja como for, os tempos ajudaram a gastar a sobranceria dos urbanos, agora a lutar para ensinar os seus filhos que as couves e os tomates não nascem nas prateleiras do hipermercado. Ou que as azeitonas não se colhem doces.
A propósito, já que estais atidos à história, cá vai ela. Mário Caravelha aproveitou o fim de semana prolongado dos Santos para vir à terra e colher umas oliveiras carrasquenhas e vermelhal. Trouxe com ele o filho Luís Miguel, mancebo adolescente nado e criado no bairro da Serafina. O rapaz achou fixe ir colher azeitonas, apesar de não saber muito bem identificar a árvore que as dava. O grupo de trabalhadores contratados incluía Chquim Moca, nosso Farnando e nosso Zéi, conhecidos exímios na arte de enrolar incautos citadinos e não só. Entre outros ensinamentos, Luís Miguel aprendeu a aguentar a comichão das urtigas convencido das suas propriedades afrodisíacas, e que o sabor do fruto azeitona, ali colhido directamente da árvore, não era o mesmo que aqueles que a sua mãe comprava no hipermercado.
Quando ele informou que gostava muito de azeitonas, Chquim moca ouviu-se a sugerir de imediato:
- Ó rapaz, atão vai comendo, aproveita agora!
Até o pai se aguentou calado ao ver o esgar que o seu herdeiro fez quando roubou uma azeitona à árvore e a meteu na boca.
- Estas azeitonas sabem bué da mal.
- És tu que não as sabes colher. Tens que escolher as mai madurinhas – continuou o Moca.
Enquanto a cena se repetia, nosso Zéi agarra uma mão cheia na sacola do almoço e mete no bolso.
- Anda cá ao pé de mim qu’as há boas aqui.
Abana um ramo a fazer ver que a tinha colhido no momento e oferece ao pobre Luís uma azeitona carrasquenha retalhada. Perante a aprovação, nosso Zéi incentivou-o a continuar a colher e a comer directamente da árvore. Nosso Farnando também não quis perder o seu quinhão. Só à quinta cuspidela é que o pai se resolveu a intervir.
- És a minha vergonha. Estás atido a que te ponham tudo à frente, pronto a comer. A culpa é da tua mãe.
A inventora do conceito é a minha cara amiga Elisabete Figueiredo, da Universidade de Aveiro.
