quinta-feira, março 06, 2008
A NOSSA FALA - CV - BÔ(T)CHA / 0
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
A NOSSA FALA CIV - CHORADELA DE ENTRUDO
Uma, remete para a era AC, durante a qual, fosse entre os Celtas, os Celtiberos, os Gregos ou os Romanos, as festividades representariam a celebração do (re)início da vida, o fim do Inverno e a “ressureição” da Mãe Natureza. Em termos simples, o anúncio de que a Primavera estaria próxima. Uma antecipação às andorinhas e ao “dácáocú” do cuco, pois.
A outra “entrada” foi aberta pelos sábios teólogos apostólicos romanos – na era DC, evidentemente - na sequência dos ditos e feitos do Cristo, os quais determinaram que o Entrudo passasse a marcar o início (a entrada) de outra coisa. Chamaram-lhe os sábios teólogos, Quaresma, um período abstinencial que culminaria não já na “ressureição” da Mãe Natureza mas do próprio JC.
Em qualquer dos casos, aceitava-se que a “entrada” devia estar associada a liberdade e ser comemorada em festa, e que a festa devia ser de arromba, sendo socialmente tolerado o abuso. O povo aproveitava a trégua para satirizar o clero e a nobreza, para troçar dos costumes e da moral vigente, para dar largas a pulsões primárias. À cautela, fazia tudo isso sem mostrar a cara, escondida por uma máscara, não fossem os poderosos ficar melindrados com a mordacidade da crítica e mostrarem ao povo que continuavam poderosos no dia seguinte. A ideia evoluiu para variados formatos e alvos: os poderosos foram substituídos pelos pares da comunidade, o que, convenhamos, era muito menos perigoso e reconhecidamente mais cómico. Também era mais purificador por via da purga que conseguia operar através da denúncia e exposição pública de certas situações que ocorreram ao longo do ano e respectivos protagonistas.
Um desses formatos, antigamente utilizado na terra dos Xendros adoptou a designação de Choradela de Entrudo, e funcionava como catarse da própria comunidade. Por estes dias, João Frêtas, Miguelito e companhia, percorriam as ruas da Aldeia a exibir ostensivamente exemplares da revista Gina e acabavam no Adro ou na Lameira a dramatizar as situações caricatas e a satirizar os protagonistas, para gáudio dos conterrâneos, excepto, claro, dos visados.
Muitas das histórias contadas aqui no Baságueda são dignas de choradelas de Entrudo, como as que se relataram aqui e aqui . Acrescentam-se mais duas ao rol, para eventual encenação:
1. O ano era de seca e Ti Fcisco Cocharra viu esgotar-se a água do poço, ainda os tomates e os pimentos estavam verdes. Ele bem procurou gerir o precioso líquido, regando quase de noite, e adoptando a técnica localizada com o regador em vez do encaminhamento nos regos. Determinado a fazer horta farta como nos demais anos, decidiu-se por recorrer à água da rede, mesmo que tivesse de a transportar desde a sua casa no povo. Davam as 4 no relógio da torre da Igreja, ajeitou o cabresto e a rédea no burro, assentou-lhe o bornil e a canga e colocou-o entre os varais da carroça. Atou bem os dois bidões de latão aos fogueiros, encheu-os com água a partir da torneira, e iniciou a primeira de muitas viagens entre a aldeia e a sua horta. Pouco se importou que os vizinhos, estremunhados, tivessem vindo à janela a recriminá-lo por causa do barulho que as rodas de ferro faziam a rolar na calçada.
Ao fim do dia, já ele tinha meio metro de água no poço.
2. O jeito para o negócio estava no sangue ao Ti Zé Labouxa. Negociava em tudo, desde porcos a batatas, de ferro-velho a cortiça. Sempre atento às oportunidades, fazia questão de não perder uma. Estava ele a beber o alboroque da venda de uma mula quando se sentiu atraído pela conversa que, ao lado, mantinham Zé Luís Barata e Mnel Frêtas, dois exímios da aldrabice, uma arte que haviam de apurar com o tempo. Confidenciava o primeiro ao segundo que um espanhol lhe tinha oferecido 5 contos por cada quilo de cascas de alho que lhe arranjasse. Parece que o espanhol as queria para remédios, mas tinha de ser depressa e ele, rais parta a sorte, não podia alinhar no negócio porque tinha de ir a Lisboa a casar um sobrinho. 5 contos era dinheiro, naqueles anos 60, e o Labouxa não hesitou em ficar com o negócio do outro. Consta que andou dias a arrebanhar forros onde havia alhos armazenados, chegou até a comprá-los só para lhes tirar a casca.
Bons entrudos.
terça-feira, janeiro 15, 2008
A NOSSA FALA CIII - MO(T)CHA
domingo, janeiro 13, 2008
MATANÇA
ACTA
Almoço farto, com meloreja, osso da suã, caldo com muito entulho, azeitonas retalhadas, queijo fresco e curado, inté pudim.
Ouviram-se as falas do costume na circunstância: banca, carchanolas, chambaril, faceira, morcela da banca, passarinha, seventre, sovina de esteva, xica...
quinta-feira, janeiro 03, 2008
Fumar ou não fumar
Eis o tempo em que fumar afecta a virilidade masculina.
É um masculino fumador (embora pouco) que vo-lo lembra.

Imagem rapinada do Jumento
sábado, dezembro 22, 2007
PRENDA PARA O MENINO JESUS
Agora, é o Pai Natal, velhote moderno, endinheirado e mãos largas que fez uma reengenharia no sistema de entregas de prendas - e também no armazém, substituindo o stock de meias e chocolates por telemóveis, gameboy's ou PSP's - e que, apesar de continuar a descer pela chaminé, passou a deixar as prendinhas devidamente embrulhadas em papel colorido e fitinha a condizer, junto a um piscante(!) pinheiro artificial com uma estrela no cruito.
Apesar das sessões de esclarecimento que o Karraiozito tem vindo, provocadoramente, a fazer junto da Karraiazinha, ela mantém-se inabalável na sua crença no velhinho das barbas brancas e fato vermelho. De tal modo que até manifestou uma sincera vontade de lhe oferecer uma prenda, por achar injusto que ele venha de tão longe encher os sapatinhos de todos os meninos e que nenhum menino lhe retribua a simpatia.
Nunca me tinha lembrado desta!
Comprometi-me a tratar do assunto e, como o que conta é a intenção, escolhi oferecer-lhe uma música. De Natal, claro, seguramente, uma das mais bonitas músicas de Natal que já se escreveram:
domingo, dezembro 09, 2007
A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
quarta-feira, novembro 28, 2007
A NOSSA FALA - CI - CANALHA

Em recente visita ao vizinho distrito da Guarda, o nosso PR manifestou-se preocupado com o despovoamento do interior tendo proferido autênticas pérolas de senso comum misturado com politicamente correcto. Eis algumas que retirei dos jornais:
(Eu acho que devemos orgulhar-nos deste brilhantismo dedutivo do nosso Presidente)
"(…)muito preocupado por Portugal ser um dos países da Europa onde cada mulher tem menos filhos".
(Andam a falhar as mulheres portuguesas…)
“Por que é que nascem tão poucas crianças?
(Bolas! A essa não sei responder)
O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?”
(Só perguntas difíceis, hoje. Hesito entre espreitar e copiar…Lá vou ter de admitir que sei menos do que um miúdo de 10 anos…)
"Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo".
(Pelos outros portugueses não posso falar, cada um que se manifeste. Para que conste, declaro solenemente que eu, português, mantenho o meu entusiasmo).
"É preciso alterar esta situação (…) não é apenas uma responsabilidade do Governo, da Assembleia da República, é de todos".
(O Senhor Presidente, por acaso, não está a sugerir aquilo que eu estou a pensar, pois não?, É que essa do todos, sinceramente, acho um bocado debochada…)
Agora (um pouquinho mais) a sério:
Fica bem ao Senhor Presidente manifestar-se ralado com a falta de canalha nas nossas aldeias ou, como ele lhe chama, com o despovoamento do interior. Eu entendo que ele devia até manifestar-se mais vezes incomodado com esse problema. Aliás, eu até acho que ele se deveria ter preocupado com a questão, e muito a sério, na década que foi de
É claro que o mesmo é válido para os que lhe antecederam como PM e os que se lhe seguiram, porque esses também entram no rol dos responsáveis. Não foi agora que os homens e as mulheres do interior começaram a padecer de uma disfunção sexual colectiva. (A propósito, ou talvez não tenha nada a ver, o Mário Zambujal, em "À noite logo se vê" já glosava com o tema: "No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu nenhuma criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral". Estou capaz de o reler.) A raiz do problema está funda, nas sucessivas políticas concebidas em Lisboa e tomando como referência apenas Lisboa, para onde se reservaram sempre os melhores investimentos públicos. Foi à conta deles que sucessivas vagas da melhor mão de obra e da melhor força reprodutora do interior se transferiu do interior para a capital da Nação. Ainda está por fazer o estudo que calcule quanto é que Lisboa deve ao resto do país, sobretudo ao interior.
O grave da situação é que aquilo que parece ser sinónimo de progresso tem um reverso, do ponto de vista económico, e também social e ambiental. Pense-se nos efeitos do crescimento desmesurado e caótico da capital e nos efeitos que isso acarretou, e continuará, em termos de qualidade de vida (trânsito, insegurança, poluição, etc.) Mas a elite governante insiste. Provavelmente porque é na capital que estão os interesses maiores.
Ah! e os eleitores. Também é lá que se concentram os eleitores.
A canalha, essa vai escasseando nas aldeias. E que belas eram as aldeias coloridas com o riso autêntico da canalha...
sexta-feira, novembro 16, 2007
A NOSSA FALA - C - AVESSEIRO
Todos os dias ouvimos que fábricas faliram, mais uns quantos desempregados e os comandantes a dizer que criaram 60.000 postos de trabalho! organizações internacionais deixam claro que é em Portugal que o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e os chefes dizem conceder um subsídio de fralda aos casais com mais de três filhos mediante o preenchimento de um sem número de papéis ... representa um grande esforço económico mas é assim que se reduz o fosso! dizem que querem fixar as pessoas no interior, cada vez mais desertificado, quer em gente, quer em florestas e cultivos e que vemos? fecham escolas, centros de saúde, reduzem-se os meios de comunicação...; os bancos apresentam lucros chorudos e os juros nunca descem nem tão pouco se mantêm; as petrolíferas mal se fala no aumento do crude já estão a aumentar o preço do combustível e as mais valias são as sabidas; as empresas de Telecomunicações comem-se umas às outras em publicidade caríssima mas não reduzem o preço das nossas chamadinhas; as finanças autorizam a justiça a adquirir nem sei quantas viaturas topo de gama; as Estradas de Portugal em rota de falência são premiadas com um contrato de 75 anos para composturas de vias.... Fazem-me lembrar um texto de Guerra Junqueiro a propósito do Marquês de Pombal que aqui vou citar de cor, admitindo alguma impropriedade que o Guerra me desculpará: «O próprio Pombal é o desejado? Não. Dum deserto quis fazer um jardim... Como? Plantando traves: regou-as com sangue e adubou-as com mortos»;
ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
DEPOIS DA POSSE
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA
domingo, novembro 11, 2007
A NOSSA FALA - XCIX - P'CHORRA

A Mangedoura é o nome de uma adega de tecto baixo atravessado por caibros de pinho e chão de gravilha que alberga um velho pipo de carvalho que acode pelo nome de Patriarca. Com capacidade para engolir 5oo litros, o Patriarca é obra de tanoeiro experiente que se esmerou na preparação e montagem das aduelas firmemente ligadas por arcos de metal. O Patriarca é a testemunha estática de uma fadistice anual que o pretexto da vindima ou da sua confirmação pelo S. Martinho, proporciona. Habitualmente, o vinho escorre do Patriarca de uma grossa torneira de pau que se tem de abrir obrigatoriamente sempre no sentido dos ponteiros do relógio, para uma p(i)(t)chorra de barro e depois distribuído por pequenos copos de vidro. Há sempre algo de cerimonioso na hora de levar o copinho aos lábios: mira-se a cor do líquido em contra-luz, cheira-se longamente, tecem-se comentários sobre as suas características e qualidades, elencam-se os acompanhamentos ideais, enfim, faz-se do acto de beber vinho, um momento muito especial.
Neste contexto, os temas habitualmente recorrentes são relegados para secundários, como a política, o futebol ou a religião. A mangedoura é feudo do fado e do vinho, ali, o fado é qu'induca, o vinho é qu'instroi. Há que estar à altura. Daí a minha preocupação nalguma preparação prévia e, como todos sabemos, para tal desiderato, a net é um universo. Procurava eu umas coisitas sobre vinhos e vou dar com uns números interessantes sobre o consumo do dionisíaco nectar no mundo. Sem me deter em detalhes e explicações de conceitos e números, apenas para que vós tenhais uma ideia, sempre vos mostro alguns quadros construídos a partir de outros, constantes de um documento da Food and Agriculture Organization of the United Nations - 2003 (fonte fidedigna, pois):
Consumo de vinho:
1. Luxemburgo
2. França
3. Portugal
4. Itália
5. Croácia
Não posso deixar de salientar o honroso 3º lugar. Mas, não posso deixar de salientar igualmente que na França vive um milhão de Portugueses, e que uns bons milhares vivem no pequeno Luxemburgo. Ou seja, os primeiros dois lugares têm a nossa ajudinha.
Já agora, também vos mostro o podium dos países bebedores de cerveja:
1. República Checa
2. Irlanda
3. Suazilândia
Sim, Suazilândia, era o que lá estava, só depois é que vinham Alemães, Austríacos, Ingleses, Australianos e outros que têm a mania que bebem muita cerveja. Portugal? O nosso campeonato é o do vinho, não é este. Digamos que, nos que nos diz respeito, o vinho está para o futebol, como a cerveja para o rugby.
Sem grande interesse para nós, eis o podium dos bebedores de bebidas espirituosas:
1. Moldávia
2. Reunião
3. Rússia
Claro que a nossa melhor expressão facial de admiração vai para os reunioneses...
Também gostaria de pedir o vosso esgar levemente sorridente para o Irão. Parece que neste país o consumo de álcool é ZERO. Pois! Se a esta estatística juntarmos a que assegura - pelo menos na análise do senhor presidente -, que tão pouco lá existem homosexuais, temos que a antiga Pérsia continua a ser um país cuja evolução convém seguir com muita atenção.
Bom, mas voltemos ao vinho. Aproveitando a maré, naveguei até ao nosso INE para ficar a saber como vai o consumo de produto da uva e do trabalho do homem, em Portugal. Eis os números oficiais do consumo humano de vinho per capita (litros/habitante):
1992 / 1993 - 60,9
1993 / 1994 - 58,8
1994 / 1995 - 58
1995 / 1996 - 57,3
1996 / 1997 - 54,8
1997 / 1998 - 50,8
1998 / 1999 - 50,6
1999 / 2000 - 46
2000 / 2001 - 47
2001 / 2002 - 46,4
2002 / 2003 - 52,9
2003 / 2004 - 48,9
2004 / 2005 - 48,7
2005 / 2006 - 47,7
Consumo humano de vinho per capita (l/ hab.) - Anual; INE, Balanços de Aprovisionamento de Produtos Vegetais
Ano Campanha (1 de Setembro do ano n a 31 de Agosto do ano n+1)
É notória a quebra. Ela reflecte a tendência associada às modificações estruturais nos estilos de vida, ao comportamento dos consumidores, ao papel do vinho na alimentação, etc. Ainda assim, convém salientar que o vinho continua a ser, defendem conceituados entendidos, a mais benéfica das bebidas alcoólicas. Bem como continua a ser o melhor parceiro para o fado. Ora, como o fado é qu'induca e o vinho é qu'instrói, já se está a ver que dificilmente sairemos do podium. Agarrai então na p'tchorra, enchei, distribuí pelos amigos, sentai-vos num ”môtcho” e, ”buêi” e ”aldeagai” a gosto.
quarta-feira, outubro 31, 2007
A NOSSA FALA - XCVIII - MÔTCHO

Nesta altura, a agenda da nossa cultura marca que devemos lembrar-nos dos mortos – o Sr Prior será mais polido e preferirá sempre dizer: “os que já partiram” ou “ aqueles que já foram chamados”. Seja como for, estamos a falar desse inelutável e irreversível fenómeno que é a morte. Parece que foi Bento, o Santo, não o XVI, que se lembrou de “catolicizar” uma prática ancestral pagã crente na imortalidade da alma.
Aqui se presta homenagem “in memoriam”. À nossa maneira, mas sempre “in memoriam”.
Por toda a aldeia, da Portela à Lameira da Pinta, do Carregal à Saramaga, se ouviu o sino entoar 4 vezes a mesma batida sincopada: tinha morrido um homem da aldeia. Se fossem 3, era sinal que tinha sido uma mulher. Um código simples, uma espécie de requiem, conhecido de todos. A notícia espalhou-se com o vento, como era habitual: tinha morrido o Ti Tonho Zéi mataburros – assim alcunhado por via de episódio em que ele teria dado cabo de um jerico com uma machada na testa, por o animal insistir em cheirar o cú da burranca do velho João Dez Réis, com quem ele não se dava. Depois de lavado, vestido e preparado pelas filhas, o corpo foi velado na Igreja, durante toda a noite, pela comunidade, que acompanhava as rezas com fé e o choro carpideiro da família. Toda a gente anuía que Tonho Zéi tinha sido bom homem, nunca fizera mal a ninguém – o episódio do jerico, naturalmente, não contava. No dia seguinte, reuniu-se a aldeia para a cerimónia religiosa fúnebre e acompanhamento do defunto à sua última morada.
Naquele tempo, ainda se não usavam os caixões de madeira rendilhados com fios de metal dourado para cada falecido. O defunto era enrolado numa manta de felpa e assim depositado na sepultura. No transporte desde a Igreja até ao cemitério era utilizada uma caixa de pinho, adornada apenas com um crucifixo e 4 pegas de ferro pintado a negro, onde outros tantos homens pegavam. Ao lado, ia sempre um garoto com um môtcho que servia para suportar a caixa enquanto os homens descansavam. O acompanhamento religioso incluía, para além, evidentemente, do Senhor Prior, do sacristão que transportava a caldeirinha da água benta e dos andores da Confraria – com as lanternas, bandeira e estandarte -, a campainha que trinava ao longo do percurso. Havia sempre uma catrefada de garotos a disputá-la, sendo o bafejado designado pelo sacristão. O pequeno Alberto Faznada sentia-se injustiçado porque os outros nunca o deixavam tocar a sineta. No funeral do Ti Tonho Zéi lá ia ele no meio de 20 garotos empenhado em ter o direito, ao menos um bocadinho, de abanar os 3 barulhentos badalitos. Nada! Os matulões do costume atiravam-lhe olhares agressivos e negavam-lhe tamanha glória. Já à entrada do cemitério, furioso, havia de lançar aos outros a terrível ameaça:
- No me dêxandeis tocar a sineta? Andar filhos do diabo que q’ando morrer o mê pai hei-de a tocar eu sozinho o tempo todo.
Foi sobretudo a partir da década de 60 que a nossa cultura começou a matar a morte. De algo que era vivido em público, principalmente no meio rural – e Portugal era quase todo meio rural - em que a dor era comungada e sentida pela comunidade, o fenómeno passou a ocultar-se, a privatizar-se, a modernizar-se no sentido urbano. Observe-se um funeral numa cidade, ainda que de média dimensão, nos dias que correm. A cerimónia pode passar perfeitamente despercebida na confusão do trânsito ao pacato transeunte que se passeia na avenida entretido a contemplar as numerosas e coloridas montras comerciais. Ninguém sabe se naquela carrinha funerária de vidros fumados vai homem ou mulher, qual o seu nome, a que família pertencia, de que morreu. O sino não tocou nem 3, nem 4 vezes o requiem, e mesmo que tivesse tocado, ninguém o teria ouvido porque na cidade o sino não é referência, nem para as horas. E mesmo que o tivessem ouvido, não saberiam descodificar qu’arraio era aquilo. A comunidade não velou o corpo, não carpiu a mágoa da perda com a família. Não se via nem padre nem sacristão, nem lanterna, nem bandeira. Atrás do veículo não iam garotos a disputar uma campainha.
Sobretudo no contexto urbano, o quadro das práticas e das representações da morte foi retocado pelo progresso. As transformações são visíveis em todos os domínios: na dessacralização das exéquias; na crescente “desresponsabilização” da família, compensada pela hospitalização da morte; na profissionalização e comercialização dos rituais fúnebres; na substancial redução do período de luto, das suas manifestações e vivências; na adopção de novos métodos de evacuação como a cremação; na crescente privatização da dor, também por ausência de comunidade. A morte está mais discreta, afastada do nosso espaço quotidiano, porque mais banalizada. Seja na nossa comunidade, seja na dos Iraquianos, dos Curdos, dos Chineses ou dos Uzbeques, já nos habituámos a olhar para ela ao longe, recostados no sofá e chinelinho no pé.
O inglês Geoffrey Gorer antecipou na década de 50 que o assunto viria a tornar-se no tabu do sec. XX, destronando o sexo. Viu bem. Afinal, qual é o homem que se pode gabar de ter morrido, aos seus amigos?
Sentai-vos num môtcho e recordai os vossos que já partiram e reflecti sobre as vossas práticas e representações sobre o assunto. É tempo disso.
sexta-feira, outubro 19, 2007
A NOSSA FALA - XCVII - GA(T)CHO
Acontece que o tempo das vindimas já foi. Mas ..., Em tempos idos quem marcava as vindimas era a festa de Sta Luzia no Castelejo (Fundão) que se festeja exactamente a 14 de Setembro junto com Sta Eufêmia a 15. O pessoal já tinha muito figo seco, o cereal tinha sido malhado e arrecadado, as couves já cobriam a terra, as frutas já enfeitavam as salas e sentia-se aquele perfume a maçã BRAVO-MOFO (= bravo de esmolfe), que não raro servia de mata borrão para beber um tinto do ano passado já em limpo naqueles fabulosos garrafões de vidro revestidos a verga e encastrados em sustentáculos de ferro forrados a palha. O vinho tirava-se por cima com uma borraha e nunca se deixava retroverter por mor de não eludrar. Havia muitos e bons vinhos na aldeia. Ainda há. Eu, com era o distribuidor (quase oficial) do gás conhecia o provo de quase todas as adegas e havia algumas de que não perdoava o provo. Muitas vezes cedinho, logo às seis, pois então. Valia que a lasca do presunto, a cunca do queijo, a malga das azeitonas e o naco do pão vinham sempre para baixo e não havia nada como escorropichar pela goela abaixo um valente copo daquele néctar que fez com que Noé amaldiçoasse os seus próprios filhos: "sereis os escravos dos escravos dos vossos filhos". Vede o poder do tinto!
Os bons costumes vão morrendo com os seus praticantes... Ora, era costume, aos Domingos depois de missa, almoço já meio desfeito, grupos de homens juntarem-se e, em vez de ficarem no largo do Zé Rolo, no Adro ou na Lameira, no Batoco, a jogar ao fito, em vez disso, a malta juntava-se e ia de adega em adega, bebendo do bom, sempre com bu(t)cha, até horas de jantar. Assim, mesmo que houvesse algum peso na cabeça, a coisa não preocupava demais, enquanto que se se metessem no vinho da tasca e a apanhassem, era certo e sabido que no outro dia andavam VARIADOS. Ainda fiz algumas destas procissões. Não era raro que ainda permanecessem dependurados, por uma guita, alguns gatchos, quase sempre brancos, Uva Formosa, Arinto, Moscatel, de volta com algum Ferral que o oídio tivera perdoado. Os gatchos de "pendura" eram sempre cobertos por uma folha de papel, algumas mesmo bordadas com tesoira de costura. Era uma honra chegar com uvas comestíveis à vindima do ano seguinte.
terça-feira, outubro 16, 2007
A NOSSA FALA - XCVI - APULAR
Com a devida vénia, passo um cheirinho:
“O mundo em que me fiz gente já não existe. (…) Não foi na cama que a minha mãe me teve. Ela agachou-se e fez força para eu sair, enquanto a irmã dela, a minha tia Estela, a segurava pelos braços e a senhora Celeste Dias, a parteira, me apulava com as mãos. Mas o meu pai contava doutra maneira. Eu fui deixado por um lobo atrás de umas giestas, por cima das Lameiras, na serra, onde ele andava a cortar pedra. Ainda viu o lobo a escapar. Ouviu-me a chorar e trouxe-me para a minha mãe me criar. Não sei qual destas histórias é verdadeira, mas acredito nas duas.”
O autor faz uma breve passagem por todas as datas, social e religiosamente relevantes para a sua comunidade (S. Vicente da Beira), descrevendo sucintamente alguns dos costumes, tradições, cantigas, ladainhas associados. Em anexo, resume as receitas de alguns dos manjares típicos da sua aldeia - praticamente em tudo iguais aos que conhecemos aqui à beirinha da Baságueda - e acaba com um pequeno glossário de vocábulos da "fala" de S. Vicente - quase todos conhecidos e com o mesmo significado. Foi a consultá-lo que fiquei a saber que na “fala” do autor, apular significa: apanhar algo que vem de cima, que cai. Não sei se o termo faz parte da "fala" aqui na bacia da Baságueda, mas faz parte da ruralidade um pouco mais de volta, por isso, creio que pode legitimamente juntar-se à "nossa fala" e torná-la ainda mais rica.
quinta-feira, outubro 04, 2007
segunda-feira, outubro 01, 2007
sábado, setembro 01, 2007
A NOSSA FALA - XCV- CO(U)RRI(t)CHAS/CARRICHAS
Vem isto a propósito de que, muitas vezes,nos ”avezamos” a pronunciar, não importa o quê, de determinada maneira e, se ouvimos esse termo de modo diferente, depressa acusamos o emissor, dizendo que não se deixe embarcar nas formas de dizer comuns e diga as coisas comédado. Por exemplo: na nossa aldeia todos chamam ao Domingos, filho do Lavra Miúdo, fai nica, mas a verdade é, que, quando ele andava com os Tiagos, ali para as portelas, já a dar vistas para as minas do Pinheiro, nas traseiras do João Rela e do Tonho Sarrabeco, o cachopo, irmão do actual coveiro - O Tonho Zéi - quando, miúdo ainda, vizinho que era dos Tiagos, malinos dum corno, estes lhe atiravam lascas a zunir às orelhas para o atentarem de grande. O fai nica não sabia de onde vinha o zaranzum, e, acagaçado com o medo - afinal era um petiz - começava a gritar :«PAI A MICA,PAI A MICA..., o que, pura e simplesmente, apenas queria dizer «ó pai vem aqui ao pé de mim!».
sexta-feira, agosto 17, 2007
A NOSSA FALA XCIV - BUÊR
- Vai mai um Ti Julho?
Ele deu um estalido de língua e com ar muito sério informou:
- Ó Inserme, olha qu’ê gosto do filha da puta do vinho. Tem bom BUÊR. Bota lá outro.
Veio-me este episódio à lembrança há dias num corredor de uma grande superfície onde jaziam expostas uma catrefada de garrafas de vinho de múltiplas proveniências, qualidades e preços. E eu precisava apenas de um tintinho para acompanhar um besugo grelhado ao almoço. Hesitante, perante tanta oferta, fui criteriando entre o preço médio e a região vitivinícola. Num Alentejano descubro:
“Vinho tinto macio, de cor vermelha intensa, com reflexos violáceos. Levemente abaunilhados, os aromas e o sabor são bem marcados a fruta, lembrando compotas de frutos vermelhos. Apresenta um final de prova prolongado e muito suave.”
Fiquei tentado. Continuei para um Bairrada, cuja literatura proclamava:
“Vinho de cor granada profunda, de aroma rico e complexo dominado por notas de frutos vermelhos, frutos secos e caruma, envolvidos por muito ténues notas de madeira. O sabor é agradável, encorpado, com taninos redondos e excelente persistência gustativa.”
Tudo à minha volta emudeceu para me facilitar a viagem pelos aromas a caruma e abaunilhados, pelos sabores encorpados e a frutos vermelhos, pelos taninos suaves e redondos…A viagem prosseguiu inadvertidamente para uma reflexão sobre o código linguístico em que assenta esta deliciosa literatura. Socorro-me de Basil Bernstein e da sua teoria sócio-linguística concebida no âmbito da problemática do processo educativo. Esta teoria inscreve-se no que se poderá chamar “paradigma determinista” que pretende explicar o (in)sucesso escolar. Muito telegraficamente, a teoria postula a existência de 2 códigos que no processo educativo reflectem uma correspondência entre modos de expressão cognitiva e estrutura de classes, fazendo sentir os seus efeitos ao nível do (in)sucesso escolar (e também nos comportamentos sociais). Chama-lhes o autor código restrito e código elaborado. O primeiro caracteriza-se por uma estrutura semântica particularista, fraca complexidade léxica e gramatical, construção sintáctica pobre, tudo traduzido numa linguagem concreta e descritiva, muitas metáforas, recurso a uma gama limitada de adjectivos e advérbios. O código elaborado, para abreviar, caracteriza-se pelo oposto. Salto já para o corolário: o código elaborado é mais frequente à medida que se sobe na estrutura de classes sociais, o código restrito é partilhado nas classes mais baixas. A escola privilegia o código elaborado, logo, à partida, as probabilidades de sucesso escolar tenderão a ser mais elevadas nos alunos mais familiarizados com ele, ou seja, os alunos das classes mais altas, fenómeno que, denunciaram Bourdieu e outros, contribui para a reprodução das desigualdades sociais. Mas isso não é conversa para aqui.
Forçando uma importação (bem martelada, diga-se), da teoria dos códigos para a descrição dos vinhos, considerando-me eu um indivíduo da classe alta (em termos de provo, entenda-se), compreender-se-á que não tenha resistido ao Douro de 2003 que exibia esta pérola:
“Os aromas emergem extravagantes, misteriosos e quase exóticos, juntando-se a um estilo perfumado que acompanha notas de café e frutos negros. Um toque de carvalho veio acrescentar uma deliciosa fragrância fumada que intensifica a já existente e suave nota de cereja. Este vinho apresenta-se encorpado, com alguma estrutura firme e um final de prova invulgarmente longo.”
Eu seja ceguinho se não me esforcei por detectar a extravagância do aroma e a fragrância fumada do carvalho. Admito que não fui capaz. O que posso dizer é que gostei do filha da puta do vinho. Tinha bom BUÊR.
quinta-feira, agosto 02, 2007
A NOSSA FALA - XCIII - ESCARRANCHAR ou ESCANCHADO
Era normal virem a pé com o caldeirinho à cabeça em cima de uma molídia, mas quando as encomendas eram mais a Zagaia trazia o seu burrinho, o JOVIAL, e aproveitava para vir a cavalo.
Naquele tempo não se via mulheres de calças. Só de saias e compridinhas quanto bastasse por mor dos olhos gulosos... Por isso o modo de as mulheres montarem nos burros era diferente da dos homens: estes iam ESCARRANCHADOS em cima da albarda, uma perna para cada lado e, alguns até tinham estribos, como o Zé Borges, aldrabão mor que já foi aqui vedeta, elas, porque não se podiam ESCARRANCHAR sentavam-se no dorso da albarda e deixavam cair as pernas para o mesmo lado. Era por isso que noutros tempos, a maioria das casas tinha um batorel (ou baturel) junto à porta das lojas, ao lado do qual inevitavelmente estava cravada na parede da casa uma ferradura que servia para prender o burrico. As mulheres subiam para o baturel (ou batorel) e deixavam-se cair para a albarda, aproximavam-se da ferradura, soltavam o burro, e com a rédea lá o guiavam para onde queriam.
Eu era um ás a cavalgar na burrinha da minha avó Maria... Tinha o cuidado de, sempre que me servia dela, a desaguar com, a pouca de água com farelo, coisa que ela adorava. Depois era só pedir que ela dava. Um burro a passo é cómodo, mas a trote é horroroso, faz doer, porque o corpo é empurrado para cima e cai de chapa na albarda ; então, o melhor é ir a galope. Aí é um prazer cavalgar, bem escarranchado, rédea numa mão e a outra a servir de contrapeso equilibrador. Era aqui que eu era campeão. Bons tempos!
Nunca fiz a sevícia de Teixeirinha (que é feito de ti, meu bom amigo?) que, para a burra mais esperta que havia na aldeia, a do avô dele, a burra do velho Freitas, andar sempre a galope, lhe metia uma silva seca cheia de carapetos por debaixo da albarda. Esta burra ficou famosa: sabia contar até dez batendo com a ferradura no chão ao som do algarismo e nunca o velho Freitas teve que lhe ensinar o caminho nem para as oliveiras de melão, nem para a quelha funda nem para a lameira da pinta. Montava-se nela e só dizia: lameira da pinta! e a burra desandava certinha. O velho Freitas até garantia que ela lia os jornais colados com massa de farinha que a ti Beatriz tinha nas ripas do tabique que separava o palheiro da burra da cozinha dos velhos. Ao velho Gonito ouvi eu dizer que, uma vez, de noite, a ouviu a sonhar de alto, amaldiçoar a sua má sina de ter calhado naquela família, porque se fosse noutra, havia de ir à escola e estudar para engenheira. Se é verdade não sei e o velho Gonito já cá não está.
Outro burro mais que célebre era o ESTUDANTE de Zé Luís Barata: lavrava sozinho. Ele punha-se na ponta de uma torna e o filho na outra; era só virar a aiveca, apontar o rego e dar ordem de marcha ao ESTUDANTE e ele aí vinha até à outra torna sem ser preciso guiá-lo...
O mais desordeiro foi sempre o burro inteiro da ti Conceição Rela, o MOURISCO, que, apesar de pequeno, quando lhe cheirava a burra com cio, ali por altura de Março, arreganhava a beiça, zurrava que nem um perdido, deixava pender a sua valente arma e nada nem ninguém o segurava... Não lhe importava se a fêmea ia carregada ou não, se trazia atafais, se era no centro da estrada...nada. Aquilo não se podia perder e o burro metia medo. Foi morto à machadada pelo ti João que se viu quente com ele um dia no palheiro... Dizia o velhote: o que mais me custou foi abrir a bureca pró enterrar e arrastá-lo até lá... vi-me nas horas del conho!
Era tempo de os burros serem vedetas aqui no baságueda até porque a festa da Ribeira, da Baságueda, das Aranhas ou da Sra do Bom Sucesso, não se fazia sem burros no tempo em que as festas eram genuinamente populares... Agora são feiras!
sexta-feira, julho 27, 2007
A NOSSA FALA XCII - AVEZADO
Por via das tais circunstâncias, e porque sou cavalheiro (de género, não só mas também), o tema que me despertou interesse, e de que vos venho falar hoje, é dos sérios. Foi suscitado por uma história que adiante vos contarei e que me levou a revisitar alguns escritos arrumadinhos nas estantes da minha biblioteca, sobre a religiosidade (ora aí está: é ou não é um assunto sério?).
Parece que a religiosidade é incontornável em qualquer sociedade, seja ela simples ou complexa, constituindo a fonte original das normas em que assenta a ordem social, ou seja, retira-se dos estudos do francês Emile Durkheim, sem religião não haveria moral (normas), sem normas não haveria ordem, e isto seria um regabofe maior do que o que é. Se assim é, a sociedade, para conseguir a coesão e a ordem, precisa que os seus membros sejam religiosos e comunguem dos mesmos valores. Se assim é, a desordem é culpa dos não religiosos. Hum! Cheguei aqui sem querer, e não queria chegar.
Outro clássico, o nosso “camarada” proto-comunista Karl Marx, escreve que “a religião é o ópio do povo”, esclarecendo que é uma forma de alienação, porque as crenças religiosas levam à atribuição a entidades místicas, das capacidades e poderes que, na verdade, são dos homens. Esta, e outras ideias tão ou mais subversivas foram-lhe inspiradas pelos compatriotas Feuerbach e Hegel. Mas o Karl vai mais longe e tenta convencer que as crenças religiosas só servem para legitimar a posição de subordinação das classes dominadas, na medida em que pregam a aceitação resignada das condições de existência. As classes dominantes instrumentalizam a religião, a religião instrumentaliza as classes dominantes. Que as classes dominantes padeciam de uma perigosa falta de ética já nós sabiamos, agora a religião... Compreende-se que o Karl tenha avançado com a proposta de as classes dominadas se unirem para acabar com tanto pecado.
Outro prussiano, Max Weber, (re)encontrou outra “utilidade” no fenómeno religioso: factor de mudança da sociedade. Nos seus estudos sobre a influência da religião na vida social e económica, chegou à conclusão que ela não era necessariamente uma força conservadora, algumas - caso do protestantismo -, tiveram mesmo um impacto decisivo no desenvolvimento do capitalismo no Ocidente. Foi à conta da ânsia de serem ricos que alguns crentes fervorosos inventaram o capitalismo, todavia, o interessante é que o verdadeiro objectivo deles não era a posse de bens materiais mas a busca de um sinal do criador de que faziam parte do gupo de escolhidos com lugar reservado na lotação limitada do paraíso. Aqui sim, a religião como caminho para a felicidade dos homens.
Todos os citados concordam no papel dos rituais enquanto alimento espiritual e reforço da coesão comunitária, seja qual for a religião em questão. São conhecidos rituais vários, alguns deles manhosos e até macabros. Há um outro pormenor, curioso por sinal, que eles partilham: não eram crentes, nenhum deles. Mandam as leis universais do equilíbrio que a seguir, eu deveria visitar também o S. Tomás de Aquino, ou o S. Anselmo (Deus é o ser do qual não se pode pensar nada maior), o Ayatolah Khomeiny e, claro, Joseph Ratzinguer. Falhas graves na minha biblioteca.
Ah! Mas falta a história que suscitou o interesse por assunto tão sério. Já estais avezados, não é? Ei-la:
Zé Valquentem, morador em Monsanto, fizera uma promessa à Srª da Póvoa: ir a pé até ao santuário do Vale de Lobo com as mãos postas. O compromisso nascera numa noite de temporal, quando um raio lhe assou instantâneamente o porco que chafurdava na furda, paredes meias com o cubículo onde ele dormia. Na falta de santuário de Santa Bárbara, transferiu para a colega Srª da Póvoa o agradecimento por ter sobrevivido. A explicação do pormenor das mãos postas desconhece-se, mas deverá ter o mesmo significado de outros rituais manhosos como aquele do percurso de joelhos em Fátima.
Meteu-se Valquentem ao caminho bem cedo, com ideia de almoçar uma patanisca de bacalhau no sopé da serra d’Opa, todavia, passada que estava a Meimoa, já com vistas para o arraial sobreveio-lhe uma irritante cólica que o levou a optar pelo alívio das tripas, em detrimento do cumprimento da promessa. Vociferou impropérios ao caldo de feijão que tinha emborcado às 5 da manhã. No ano seguinte, partiu em jejum, para não dar argumentos a boicotes do corpo. O problema é que o nosso organismo não acompanha o fervor religioso do espírito. A bexiga pôs-se a recolher os líquidos todos do corpo e, ia ele a passar ao largo da terra dos Xendros, na Saramaga, parecia-lhe que ia rebentar. Prazeres Batórelhas ia de regador enfiado no antebraço a regar o alfobre quando se deparou com o Valquentem a maldizer a sua sorte com palavras nada consentâneas com a postura das mãos, a pontos de Prazeres ter de lhe chamar a atenção:
- Atão mas qu’arraio de reza é essa? Foi assim qu’o inxenéram a rezar?
A simplicidade aflitiva com que o Valquentem contou a sua história fez com que Prazeres compreendesse rapidamente o drama e logo ali se prontificou a ajudar o monsantino a não quebrar a promessa. Destemida, abre a portinhola das calças do Valquentem, encontra a abertura das ceroulas e as águas verteram abundantemente. Antes dos agradecimentos, o Valquentem ainda sentiu à vontade para pedir:
- Já agora, dê-lhe lá uma abanadela que também está avezado a ela.
Em jeito de bónus, ainda vos informo que dali nasceu namoro e casório e ambos são velhotes felizes, residentes ali mesmo por detrás da Matriz de Aldeia do Bispo.
Na circunstância, parece que o Max Weber era o que estava mais certo.
Aviso à navegação:
Eis-me rumo ao sul a iodar as nalgas. Torno antes do senhor S. Bartlameu.
sábado, julho 21, 2007
A NOSSA FALA - XCI - (t) CHINCA
O ser humano é mesmo um artolas. É o ser mais maligno à superfície da Terra.