quinta-feira, fevereiro 07, 2019
terça-feira, janeiro 01, 2019
CCLV - A NOSSA FALADURA - CARDOMO / CADORNO
Começou 2019. Até aqui chegámos. Haverá sempre um dia em que já não veremos o fogo de artifício nem ouviremos, participantes ou não, a missa do galo, nem assistiremos à chegada do madeiro. É a isto que se chama o ciclo da vida. Platão já ensinava que a "vida é um treino para a morte" e Hegel confirmava com "tudo o que nasce vivo já traz consigo o germe da morte". Podemos mesmo ir atrás e acompanhar Homero no canto XI da Ilíada, onde nos explica, como ninguém voltou a explicar, o mito do eterno retorno: a cada ano renasce a floresta e a cada ano ela morre. A morte da folha é o ressurgimento de uma nova planta. Sempre uma nova primavera, sempre a sua ultrapassagem pelo inverno.O homem do APEIRON, Anaximandro de seu nome, também falava da eterna luta entre o seco e quente versus o húmido e o frio. Progressivamente um ia tomando o lugar do outro mas a sua vigência enquanto dominante também ela era efémera... logo seria ultrapassado.
Grandes mneses estas...tudo porque ontem me deparei com um códão f.d.p.e os baldes onde tenho a azeitona retalhada ao relento com um cardomo que só visto. Andava por cima da relva e ela chiava, não se vergando ao peso. Uma geada assim mesmo comédado. Já tinha saudades.
Tudo isto me trouxe à memória uma antiga leitura a propósito de um outro famoso pensador Joahhn Gottlieb Fichte: a minha consciência é diferente daquilo de que estou consciente. Ou seja, o objecto da minha consciência não se confunde com essa mesma consciência. Se fora assim a consciência anular-se-ia. Isto tudo desemboca então numa grande complicação: eu e a minha consciência não somos o mesmo, já somos dois...sim, porque eu não sou só a minha consciência... Depois há aquilo que a minha consciência contém, que não é o mesmo do que eu estou consciente de que ela tem; há ainda aquilo que eu tenho consciência de que não tenho consciência. Escapa-se à minha consciência...A resumir: eu não sou só eu: sou eu e a minha consciência, o que ela contém, o que eu estou consciente que ela contém e mais aquilo que eu estou consciente de que eu não tenho consciência. Para eu não ser tantos eus, abreviamos isto dizendo que eu sou eu e não-eu. Não sou um, mas dois em um..Ou mais...dedicai-vos a entender isto e assim na vossa consciência não assenta o cardorno.
Tal como o exercício físico aquece o corpo, o exercício mental desperta-nos da letargia, do ram-ram,do continuamente igual, obrigando-nos a descobrir novos caminhos e a não seguirmos sempre os mesmos trilhos. É imperioso que não anquilosemos sempre na mesma posição e convencimento. Temos que nos desafiar a nós próprios. Mainada.
Se nesta época de invernia os nossos avós que não tinham máquinas para colher a azeitona, nem viaturas para as transportar, nem..., nem... se remetessem a ficar comodamente ao lume a queimar lenha e a criar chouriças nas pernas nunca teríamos azeite de qualidade. Cedo, bem cedo, bandoleira ao ombro, já com o feijão e um pouco de conduto e um naco de pão, obviamente uma cabaça com tinto do novo, aí iam eles, pisando cardomo em cada lapacheiro congelado, mãos a aquecer num rebolo embrulhado no lenço das mãos - que o frio cortava - às vezes de escada e toldos às costas, completamente às escuras, só que bem conhecedores daqueles caminhos tantas vezes calcorreados. A vida nunca foi fácil nem cómoda. O pão custava a ganhar e por isso sabia tão bem.
Quantas vezes isto se passou com este vosso escriba!
Agora, à distância, é que tomo consciência desses tempos do passado. Naquele tempo, nem tempo havia para me debruçar sobre estas questões da consciência. Era esgalhar e mainada. Não estou nada arrependido, podeis estar conscientes disso. Foi a melhor escola. Foi a escola da vida. Só mais tarde veio a vida de escola.
XXIIIIII GGGRANNDDDDDE
terça-feira, outubro 09, 2018
VINDIMA MMXVIII
VINDIMA 2018
ORA VAMOS LÁ SABER
SE SOFRES DE ALZHEIMER
OU NÃO QUERES APRENDER
TANTAS VEZES JÁ AQUI VIESTE
MAS PARECE QUE ESQUECESTE
O QUE TE TENHO ENSINADO
E DOU O TEMPO POR MAL EMPREGADO.
VAMOS LÁ REPETIR MAIS UMA VEZ
(E ESCREVO EM BOM PORTUGUÊS)
COMO DEVES PROCEDER
PARA TUDO BEM FAZER :
SAÚDA QUEM CHEGOU PRIMEIRO
NÃO SEJAS MALCRIADO
TENS MESA PARA O MATA-BICHO
MAS DEITA O DESPERDÍCIO PARA O LIXO
ESCOLHE POR ONDE MAIS TE APROUVER
CHIÇA VARIADA, ALGUNS PETISCOS PARA ENTRADA
BRANCO,TINTO, SUMO, JEROPIGA
PORTO, MARTINI, MOSCATEL , CERVEJA AMIGA
CAUTELA!NÃO TE ALAMBAZES
SENÃO DEPOIS NÃO SABES O QUE FAZES.
E DEPOIS NÃO TE PONHAS LOGO A COLHER.
INFORMA-TE DO QUE HÁ PARA FAZER.
PEGA NO BALDE, CESTA ,OU QUE APARECER
E DEPOIS QUE TE REFIZESTE
DIRIGE-TE À LINHA QUE ESCOLHESTE
PRESTA ATENÇÃO AO QUE VAIS COLHER
ISSO NÃO É PARA LEVAR TUDO A EITO
E REQUER MESMO ALGUM JEITO:
ESCOLHE SÓ UVAS EM BOM ESTADO
E DEITA FORA TODO E QUALQUER BAGO
VERDE, VERMELHO DE SECO, PODRE…
SENÃO INSPECTOR ELÍSIO METE-TO NO ODRE…
NÃO TENHAS PRESSA,QUE A COMIDA NÃO ACABA
E O GRANDE CHEF PRECISA DE TEMPO
PARA DEIXAR TUDO A CONTENTO.
PARA COMEÇAR COMO FOSTE EDUCADO
SABOREARÁS UM CALDO DIVINAL
QUE NUNCA O DEIXOU FICAR MAL
COM ENTULHO SELECCIONADO
DO VERDADEIRO, POIS ENTÃO
COMO É TIMBRE DESTE CHEFÃO.
E NÃO PENSES QUE VAIS SER PASSADO
QUE A VARINHA TEM O EIXO AVARIADO
E TU TENS O DENTE BEM AFIADO.
DEPOIS ,SERÁS PRESENTEADO
COM MARHUA MARHUA DESFIADO,
MUITO BEM ACOLITADO
POR TOMATE DO VERDADEIRO
ALI BEM PERTO CRIADO
E POR TUBÉRCULO COZIDO , BOLBO CHOROSO,
LOIRA GORDURA E BARBUDO DENTADO,
QUE TE DEIXARÃO TODO GOSTOSO.
NEM PENSES QUE ME ESQUECI
(PRINCIPALMENTE PORQUE É PARA TI)
DA MAIS QUE FAMOSA SARAPILHEIRA,
ALBARDADA EM MOAGEM FINA
DE CEREAL FAMOSO DE GRÃO AMARELO
ENVOLVIDA EM PRODUTO GALINÁCEO,
BATIDA EM MALTE E CEVADA LEVEDADA,
QUE TE DEIXARÁ UM PEITO CURIÁCEO
PARA ACAMARES O ESCAMUDO FLUMINENSE,
AO ANZOL PESCADO PELO GRANDE MAIM,
ESPECIALMENTE PARA TI E PARA MIM.
PARA NÃO IRES A DIZER COMO NO ANO PASSADO
QUE FOSTE MAL ALIMENTADO
DÁ TRÊS SALTOS PARA ACALCAR
O QUE JÁ METESTE DEBAIXO DA CAMISA,
ACREDITA EM QUEM ASSIM TE AVISA
E ARREGALA O OLHO PARA O QUE ESTÁ A CHEGAR:
FUMEGANTE NA CAÇAROLA BARRENTA
EIS A SABOROSA PANELA ÀMODA DA CIDADE NEVE
COM MATERIAL TAL QUE ARREBENTA
ATÉ AQUELE QUE JUROU ALMOÇO LEVE.
TUDO AO NATURAL , MATERIAL DE PRIMEIRA
SEM CONSERVAS, ENLATADOS OU CONCENTRADOS
QUE EU QUERO TODOS BEM TRATADOS.
E FICAM PARA O ANO JÁ CONVIDADOS.
O RESTO SERÁ O QUE DEPOIS SE VERÁ
E SE MAIS NÃO HOUVER, ASSIM JÁ DÁ.
QUINTA DO LÍRIO
OUTUBRO DE 2018
domingo, agosto 26, 2018
A NOSSA FALADURA - CCLIV - RAMBÓIA
A terra xêndrica está, por esta altura, em festa. Celebra-se o sr. S. Bartlameu, em tempos idos, também chamada Festas da Desfolhada, mais por causa dos atritos profano / sagrado do que por outra razão. Na verdade, foi o professor Leitão que criou esta denominação, porque a mordomia do santo, liderada pelo pároco de então, exigia que se o nome das festividades fosse associado ao santo patrono, os lucros da festa reverteriam para a fábrica da igreja. Aí é que batia a questão e, por mor disso, o professor Leitão festejava as festas populares antes da data de 24 de agosto e chamou-lhe de Festas da Desfolhada. A festa religiosa, propriamente dita, sempre se celebrou a 24, raramente passava de uma jornada e reduzia-se às iniciativas religiosas: alvorada curta, missa e procissão, quermesse, ramo de oferendas - afinal era a festa dos galos- e, à noite uma musiquinha de trazer por casa com um balcão de taberna sem grandes comezainas.
Com o tempo as quezílias foram-se esbatendo e as contas acertadas, voltando as festas à data da comemoração do dia do patrono, o sr. São Bartlameu. Mainada.
O nome de Desfolhada derivou de, por esta altura, no lajedo de alguns balcões de pedra, ao cimo das escadas que davam acesso ao primeiro andar das casas, se procedia à descamisa do milho, à noite, após a ceia. Reunia-se a vizinhança e procedia-se à separação da maçaroca da cana do milho, a que se chamava descamisa, entretanto já desbandeirado. Depois, a maçaroca ficava a secar e era malhada com uma rasoira em pequena eira ou até mesmo esfregando umas contra as outras. Os cascabulhos guardavam-se e serviam para cama de gado ou até para mecha de acender o lume no inverno. As barbas das maçarocas eram também secas e havia até quem depois as moesse e amortalhasse em papel de cigarro e as fumasse. Serviam também para chá. As camisas e as canas serviam para forragem durante a invernia. Nada se desperdiçava e tudo era aproveitado ao limite. A descamisa era feita com uma pequena navalha ou, a maior parte das vezes, com um pau aguçado que afastava as folha e depois permitia que a maçaroca se esnocasse do pé e se deitasse para o cesto que as levaria até uma melhor secagem em eira ou lage.
Volvamos, então, de novo, ao sr. São Bartlameu.
Já muito sabeis acerca deste Natanael , mas talvez não seja do vosso conhecimento que Miguel Ângelo o escolheu para gravar a sua própria imagem na capela Sistina, quando Bartolomeu"cuja arrepiante tradição o distingue como o mais hediondamente atormentado de todos os apóstolos", e que aparece retratado como "um Bartolomeu calvo, musculoso e quase nu que...fita um Jesus imberbe". (Sirvo-me nas citações que aqui apresento dum livro excelente para quem queira saber algo de fundamentado sobre a expansão da religião cristã: APÓSTOLOS de Tom Bissell, Clube do Autor Editora, Novembro,2017, Lisboa).
Mas não penseis que é este o único retrato do nosso patrono. Aqui tendes outro (Obra citada pág.87): "possui cabelo preto e encaracolado, pele clara, olhos grandes, nariz direito, as orelhas cobertas pelo cabelo, barba comprida e grisalha, altura mediana. Enverga uma túnica branca com uma faixa púrpura e uma capa branca com quatro pedras preciosas nos cantos. Usou essas roupas ao longo de vinte e seis anos, mas elas nunca se gastam. Os sapatos duraram-lhe vinte e seis anos. Faz as suas orações cem vezes por dia e cem vezes por noite. A sua voz soa como uma trombeta; os anjos estão às suas ordens; está sempre bem disposto e conhece todas as línguas."
Muitas outras novidades aqui vos poderia aportar, mas deixo-vos apenas mais duas ou três: os seus restos mortais, crê-se que recolhidos por um monge numa noite em que os ossos espalhados se distinguiriam por surgirem fosforescentes, colocados numa bacia e depois levados para a capela, que ainda hoje tem o seu nome, numa ilha no meio do Tibre, mesmo às vistas de Roma, chamada ilha Tiberina, que são quatro as vezes que aparece citado no Novo Testamento, que o seu nome «bar Talmai» significa «filho de Talmai», que por sua vez significa em hebraico «rico em sulcos», que indicaria a sua humilde origem de filho de um pobre lavrador que sulcava a terra e não, como queria São Jerónimo, que seria oriundo de família nobre, como vem referido no segundo livro de Samuel (2 Samuel 3:3); finalmente que andou pelas índias, onde teria sido esfolado vivo por pagãos Arménios.
Fiquemo-nos por aqui. Se quiserdes saber mais é ler o livro supra citado. Mainada.
Nos meus tempos de cachopo, raras foram as festas do santo patrono em que não ajudei a papar uma galinha ou galo, gamados na noite anterior de uma capoeira mais a jeito. O local da rambóia era invariavelmente o mesmo: o chão do ti João Toscano onde havia uma mina, com uma nascente de água sempre fresquinha, ali a descer da aldeia dos cucos pertinho do depósito da água. A trupe também variava pouco e se algum entrasse de novo, obrigava-se ao dever de sigilo mais que confessionário e a contribuir com algum produto que fizesse falta. Em regra consistia em oferecer 5 litros para a dita rambóia. A galinha(galo) não era depenada. Esfolava-se. Assim cozia mais depressa e tinha menos nata de gordura. Depois da procissão a rapaziada ia almoçar com a família, mas pelas 5 da tarde, hora morta da festa, cada um na sua bicicleta lá ia ter com os ingredientes previamente acertados na véspera. Claro que raramente comparecíamos ao jantar em casa. A desculpa era que o almoço tinha sido farto e os festeiros também tinham que fazer algum dinheiro e por lá comeríamos uma febra ou uma salsicha dentro do paposseco...tretas. Algumas vezes toco Jabão e Coiote Pete arranjavam umas rolas e aí a rambóia tinha outras exigências em termos de acompanhamentos, chegando a meter champanhe francês, refrescado na mina. Qualidade de vida, era o que era. A mim calhava-me sempre a confecção e só vos digo que nunca ouvi protestos. Outros tempos, outras vidas .
Ora atão que viva o sr S.Bartlameu, que ele vos proteja e vos livre das tentações do mafarrico que traz sempre preso e só solta no dia da sua festa...
XXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDEEEEEEEEE.
segunda-feira, julho 02, 2018
quarta-feira, setembro 27, 2017
VINDIMA MMXVII
AO
CHEGAR
PARA
COMEÇAR
HÁ
QUE CUMPRIMENTAR
QUEM
JÁ POR LÁ ANDAR.
POR
MAIORIA DE RAZÃO
FAZER
VÉNIA AO PATRÃO
QUE
TE GARANTE O PÃO
NESTE
DIA DE CONVÍVIO SÃO.
SÓ,
DEPOIS, ENTÃO
VAI
EM BOA DIRECÇÃO
E
DIRIGE-TE À MESA
PODE
HAVER ALGUMA SURPRESA…
SERVE-TE
DO QUE MAIS TE APETECER
MAS
NÃO TE PODES ESQUECER
DO
QUE TENS QUE IR A COLHER
MUNE-TE
DO NECESSÁRIO
E
METE-TE AO CARREIRO
SELECCIONA
BEM O CACHO
E
DEIXA DE PENSAR SÓ NO TACHO.
REJEITA
O BAGO AZEDO
E
TAMBÉM O QUE SECOU CEDO
NÃO
ESTRAGUES COM QUANTIDADE
O
QUE SE QUER DE QUALIDADE,
ACAUTELA
SEMPRE O DEDO
QUE
NÃO VALE TER PRESSA
PARA
TUDO ACABAR CEDO
ATÉ
PORQUE SE TE APRESSAS
NÃO
DÁS TEMPO AO GRANDE CHEFE
DE
TE PREPARAR O BUFETE.
PARA
ENTRADA TERÁS CERDO EMBUTIDO
TRASEIRO
DE SUÍNO CURTIDO
ACHINCHADO
DE OVINO E CAPRINO
MAS
NÃO SEJAS LAMBINO
QUE
AINDA TENS SARAPILHEIRA
EM
POLMO MAIS QUE DIVINO
FRITADA
OVEIRA DE RARA MESTRIA
BIFE
DE CAROÇO ASSIM À MANEIRA
TEMPERADO
COMO DANTES SE FAZIA.
E
VAIS TER CALDO, POIS ENTÃO,
APROVEITA-SE
A ÁGUA DO FEIJÃO
E
JUNTAM-SE-LHE INGREDIENTES TAIS
QUE
ATÉ DESCONFIO QUE VAIS
REPETIR
SE NÃO TRISAR ESSA BELA SOPA
QUE
TÃO DEPRESSA NÃO SE TE VAI DA BOCA!
SE
QUERES ÁGUA, VAI À TORNEIRA
NÃO
É IGUAL À DA CIDADE
VEM
AO TRATAMENTO E VOLTA PARA TRÁS
METADE
PISCO METADE ÁGUEDA
SE
PROVARES LOGO CONFIRMARÁS.
BRANCO
E TINTO DE UVA TAMBÉM TERÁS
PARA
ALÉM DE FRISANTE E SUMO COM GÁS
PARA
TE MATAR ESSA MALVADA
AINDA
PARA TE CONSOLAR TERÁS
O
AMIGO CAROLINO DO MONDEGO
BEM
RECHEADO DE AVE PALMÍPEDE
QUE
COMO TU TAMBÉM É BÍPEDE
CRIADO
ASSIM MESMO COMÉDADO
EM
MOLHO DE BULBOSA CONFECCIONADO
MAIS
CAPSICUM ANNUUM E FRUTO DE REFÊGO
PARA
ALÉM DE SABOROSAS AROMÁTICAS
ALI
MESMO COLHIDAS E BEM LAVADAS
DESDE
O LOURO AO SERPÃO E MANJERONA
QUE
GUERREOU COM O VELHO ALECRIM
COMO
BEM CONTA EM OBRA DRAMÁTICA
“O
JUDEU”, OU ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA
QUE
A INQUISIÇÃO LEVOU EM MORTE TRÁGICA.
AINDA
SABOREARÁS O CHEIROSO TOMILHO
E
MAIS A INDISPENSÁVEL SALSA -PETROSELINUM
SEM
ESQUECER TRÊS FOLHAS DE MANJERICÃO
QUE
JUNTO COM ESTIMULANTE CAPSICUM
TE
FARÃO LAMBER E COM TODA A RAZÃO
POIS
MELHOR NÃO HÁ EM LUGAR ALGUM.
QUEM
TO GARANTE SOU EU, VESTIDO A PRECEITO
COM
GORRO E AVENTAL DE BELO EFEITO.
PENSAVAS
QUE JÁ ESTAVA TUDO DITO
MAS
VARRE DA IDEIA TAL CONCEITO
PORQUE
PAR CULMINAR ESTE BELO REPASTO
TE
FALTA O BELO FEIJÃO COM REPOLHO
QUE
ACOLITADO POR APÊNDICES PORCINAS
DAS
QUE ENCHEM A BOCA E O OLHO
TE
PORÃO FINALMENTE DE RASTO
SEM
QUASE TE PODERES LEVANTAR
POR
QUE TANTO ENCHESTE O PARRANÇO
COM
BOM PRODUTO TÃO VASTO
QUE
DE NOVO VOU VERIFICAR
QUE
A LOIÇA E O ESFREGANÇO
PARA
MIM DE CERTEZA VÃO SOBRAR.
TENS
AINDA PARA MATARES ALGUMA SEDE
A
CEVADA COM MALTE E LÚPULO FERMENTADA
FRESQUINHA
COMO REZA A LEI ESTIPULADA.
NÃO
SEM ANTES, BEM FILTRADO PELA REDE
TE
PODERES REFASTELAR COM NABEIRO SABOR
QUE
TERÁ COMPANHIA MAIS QUE VARIADA
E
TUDO OFERECIDO COM TODO O AMOR.
SE
QUERES MAIS E MELHOR,VOLTA PARA O ANO
À
VINDIMA DO VELHO AMIGO TOSCANO.
QUINTA DO LÍRIO, 16 DE SETEMBRO DE 2017
segunda-feira, setembro 04, 2017
A NOSSA FALADURA - CCLIII - REFÊGO
Num ano seco como este não é difícil encontrar muitos produtos hortícolas cheios de refêgos. Mais visíveis são, sem dúvida nos tomates que, apesar de diariamente regados, para além de apresentarem manchas esbranquiçadas do calor do sol, ainda ficam mais estragados com uns sulcos, que mais parecem rugas, junto ao pedúnculo. Aí estão os refegos. Metade do tomate vai-se embora. Vá lá que têm tamanho bastante para se aproveitar ainda parte razoável da polpa. O paladar, esse, não fica minimamente afectado. Valha-nos isso. São imensas as variedades de tomate, desde o chucha, ao cacho, ao tipo Ladoeiro, grande e pequeno, ao cereja, ao negro, ao ananás, ao bicudo, que sei eu..., mas, de longe, os melhores são os cor de rosa: grandes, sumarentos, nada acidulados, quase sem pevide - uma maravilha. Pois, mas haviam logo de ser estes os mais atreitos aos refegos. Para minha pena também, são os que têm menos tempo de conserva, depois de colhidos. Ao fim de dois dias já estão todos desmazelados.
Os maiores que vi foi na horta da ti Maria Rainha, lá para as portelas, mesmo em frente da já quase desaparecida fonte de melão, onde uma burra, que mais parecia uma mula, tirava água à nora. O poço devia ter bem aí uns quinze metros de fundo por cinco a seis de diâmetro. Belos tempos esses em que aquela baixa era toda explorada com tudo o que havia de melhor. De vez em quando a ti Maria, essa inolvidável cozinheira de bodas e baptizados trazia-me uns quantos. O primeiro era logo papado retalhado com umas areias de sal. Uma delícia. Pesei um com seiscentos e cinquenta gramas. Essa famosa cozinheira não precisava de livro de receitas... Tinha tudo de cabeça. Se tinha uma barruma na testa não tinha refêgos na arte de culinária. Aquela memória não tinha sulcos nem rugas, tudo saía na perfeição e era tudo a olho. Não usava colher de pau a bater a massa dos ovos e farinha e açúcar e... para os bolos. Batia tudo à mão. Dizia que "assim nunca ficam garanhotos na massa: esborraço-os todos ." Mainada!
Eu ainda hoje mantenho essa semente, mas nunca consegui cultivar tomates daquela grandeza. O maior teve duzentos e quarenta gramas. Nada mal.
O que a mim me faz refêgo é ver grande parte da nossa malta a deliciar-se com pizzas, hamburgers e outras purgas que tais, a encherem-se de gorduras insalubres quando, mormente neste tempo, podiam e deviam preferir umas boas saladas e umas frutas que é do melhor que esse país produz. Mas não...vão para a Itália e para a América. Mas não é só na alimentação: na música passa-se o mesmo. Há estações de rádio que mal ou nada cheiram de música portuguesa... É só anglo saxões e americanos.
Refêgo me faz ainda esta corrida de algumas vedetas às autarquias, que se arvoram nos melhores dos melhores, voltando a reavivar aquilo que afinal nunca desapareceu deste rectângulo: o sebastianismo.
Tenho para mim que pode haver inesquecíveis, mas não há insubstituíveis.
Por aqui me fico, hoje. Prometo não demorar tanto tempo a voltar ao vosso contacto, senão ainda vos crio algum refêgo na testa com a preocupação de que algo me tenha acontecido...
XXXXXXXXXXXXXIIIIGRRAAAAAAAAAAAAAAANNNDDDDDDDEEEEEEEEE!
sexta-feira, junho 30, 2017
A NOSSA FALADURA - CCLII - DESAJUDA/DESAJUDAR
Como já por várias vezes aqui foi referido, o meu amigo Lameiras, de vez em quando saía-se sempre com a sua proverbial sentença:"tem lá porras". Pois é: a língua portuguesa tem lá porras. O prefixo (eu acho que ainda é assim que se chama) DES, em regra, significa disseminação, distribuição, intensificação como em des vario, e também a negação /oposição da palavra primitiva, como em des vio, des tacar, des aparecer,... Ora, a nossa faladura de hoje não verifica nem uma nem outra das possibilidades, a não ser que, com muito boa vontade aceitemos que ajudar significa auxílio para cima e desajudar quer dizer auxílio para baixo.
Expliquemo-nos: com toda a certeza, alguns
dos que têm a coragem de me ler vivenciaram a árdua tarefa cometida às mulheres
de ir buscar água à fonte/chafariz/poço. Não raro, traziam um cântaro assente
numa molídia (rodilha, sogra) à
cabeça, um caldeiro numa das mãos e um flho/a puxado pela outra mão. Uma
verdadeira proeza de equilíbrio, Nas terras xêndricas, que eu conhecesse, só um
homem ia ao chafariz e transportava o cântaro à cabeça, e, mesmo assim, amparava-o
sempre com uma das mãos: era o Tonho Félix, filho de velha Lorpa, uma das patas galhanas não há muito
referenciadas aqui no basa. Nanja as
mulheres que não precisavam de qualquer amparo para transportarem o cântaro.
Era costume que nessas fontes colectivas
existisse um baturel onde as
mulheres pousavam o cântaro já cheio e, depois de ajustarem a molídia
baixavam-se ligeiramente e, com um impulso elevavam-no para cima da cabeça e
toca a andar. Mas se por ali houvesse outras mulheres, elas ajudavam-se umas às
outras e era mais fácil a colocação do cântaro à cabeça.
Ora aqui está: para elevar o cântaro até à
cabeça era uma ajuda, a questão põe-se agora quando, chegada a casa, era
preciso tirar o cântaro para a cantareira ou outro pedestal que ficasse à mão
de todos e relativamente baixo para que até as crianças lhe chegassem para se
dessedentarem. Aí, a mulher carregada pedia a quem estivesse por perto;
"desajuda-me aqui, se fazes favor". Não penseis, todavia, que é esta
a única palavra que verifica esta "anomalia". Sirva de exemplo
DESINFELIZ.
Vem este fraseado para poder questionar-(me/vos)
sobre se a religião ajuda ou desajuda seja qual for o sentido que queirais dar a
estes termos.
Do que não restam dúvidas é que a religião
(seja ela qual for) é senhora de um poder cujos limites ninguém consegue
descortinar. Enquanto mitómano e mitófilo o ser humano faz do melhor e do pior
em nome da mesma divindade. Para mim tenho também que as práticas religiosas, sejam
os ritos convencionais, sejam as crenças instantâneas e esporádicas, são uma
espécie de negócio de troca: promete-se qualquer coisa à divindade ou a um dos
seus mais próximos: a Virgem, anjos, santos,...) mas com o intuito de receber
uma benesse qualquer, que, para os que crêem não está ao alcance de outros
seres humanos. E tanto se pede para o bem como para o mal. Neste caso leva muitas
vezes o nome de bruxaria. Mas lá vêm os quebra quebrantos e as ladainhas e
jaculatórias, sempre com intervenção divinizada, para desfazer os enguiços. O
mesmo para os chamados possessos...Por isso é que :"Mais vale quem Deus
ajuda do que quem muito madruga."
A questão complexifica-se se formos
avaliar a «cultura» religiosa de grande parte dos crentes. O próprio Kant acaba
por secundar a razão à Fé: " é preciso substituir a razão pela
crença"! Valha-nos, ao menos, Fernando Pessoa: «crer é morrer; pensar é
duvidar».
Se perguntardes, atrevo-me a dizer, à
maioria dos que se dizem cristãos, ou mesmo católicos se leram a Bíblia, ou
parte significativa dela, a resposta irá ser um rotundo NÃO.
Se os confrontardes com os paradoxos da
Fé, ou com o absurdo da Fé, como lhe chamou Kierkegaard, a resposta,
invariavelmente será que foi assim que aprenderam e que sempre foi assim e eles
acreditam que assim seja. Mainada.
Para não pensardes que falo por falar
ficai-vos estes dados:
Uma sondagem feita em Gallup, E.U.A., por
Robert Hinde e depois referida no livro dele mesmo sob o título Why
Gods Persist, a ignorância revelada em matéria bíblica por gente
educada em décadas recentes era tal que espanta qualquer um:75% dos católicos e
protestantes não sabiam o nome de um único profeta do Antigo Testamento; mais
de dois terços não sabiam quem tinha proferido o sermão da montanha; a grande
maioria julgava que Moisés fora um dos doze apóstolos... e por aí fora.
A Bíblia não é, com toda a certeza um
livro que se aconselhe a uma criança no intuito de uma boa formação moral. Repare-se
que no Levítico 20 são merecedoras de pena de morte as seguintes ofensas:
amaldiçoar os pais, cometer adultério, ter relações com a madrasta ou com a
nora, a homossexualidade, desposar a mulher mais a filha, a bestialidade (aqui
com o pormenor de matar também o pobre do bicho).
No Livro dos Números,15, os filhos de
Israel encontram um homem no deserto a apanhar lenha no dia proibído. Levam-no
e perguntam a Deus o que fazer com ele ...«Então o Senhor disse a Moisés: esse
homem será morto. Toda a assembleia o apedrejará fora do acampamento. Assim se
fez.
Afinal Deus ajuda ou desajuda? ambos ou
nenhuma?
Deixai-me terminar com Blaise
Pascal:"Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando
o fazem por convicção religiosa".
Já me alonguei bastante. Logo cá
voltaremos.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE
Desenho: Carlos Matos
Desenho: Carlos Matos
domingo, maio 14, 2017
A NOSSA FALADURA - CCLI - PINCHAVELHO
A necessidade de actualmente fecharmos
todas as portas a quantas chaves for possível é hábito relativamente recente. Na
verdade muitas das portas nos tempos idos, ou estavam apenas encostadas, ou
fechadas ao trinco, facilmente acessíveis a quem quisesse entrar. Outras,
sobretudo no campo, ou se fechavam com um baraço enrolado num prego espetado no
batente e ligeiramente encurvado ou, às vezes era um arame em forma de argola
fixo na porta e que depois se ajustava a uma presilha qualquer existente também
no batente ou mesmo numa fresta lateral à ombreira da porta. Decididamente
o importante era que algum animal que estivesse dentro não conseguisse sair...
Nalgumas utilizava-se outro artefacto: o pinchavelho.
Em regra era um pequeno pau, aguçado dum lado e que entrava justo numa argola
onde metia um arame que assim não desandava do sítio mesmo que o vento abanasse
a porta. A alternativa era um pequeno ferrolho em cuja extremidade estava um
penduricalho que entrava na dita argola e lá ficava.
Não existia então o medo do roubo e nunca
acontecia ter que voltar a casa buscar a chave que se esquecera. Ainda algumas
vezes me abriguei em casebres destes quando alguma trovoada me apanhava
desprevenido.
Mesmo nas povoações era raro que se
esbarrasse numa porta fechada à chave. Premia-se o trinco ou puxava-se um
baraço que arrastava a língua da fechadura, abria-se a porta e só depois é que
se perguntava: Oh Rosa estás
cá?
Mas o mais interessante era que as pessoas
quando estavam em casa conversavam umas com as outras, sobre tudo e sobre nada.
Simplesmente conversavam. Os novos iam aprendendo as histórias que os mais
velhos vezes sem conta contavam, como por exemplo a do peidinho da senhora, que
quando o avô dizia que desde o peidinho à peidorra que venho atrás do cu da
senhora, provocava sempre cristalinas gargalhadas, ou aquela outra do conto das
calcinhas vermelhas, ou a da morte da burranca,... O decisivo era que
conversavam. Ide lá ver hoje! já não basta a porta da rua trancada, como ainda cada
um com o seu telemóvel ou computador, entretém-se a jogar ou a partilhar
nas diferentes plataformas sociais, mas ninguém conversa com quem está com eles
na sala. Mesmo quando riem, cada um ri de coisa diferente e em momento
diferente à medida que encontra algo engraçado no desenrolar da sua busca.
E se queremos entrar no mundo deles, não
penseis que basta desenculatrar o pinchavelho
que aliás não existe. É preciso que ele se disponha a rodar a chave com
que se fechou no seu mundo.
Se se pretende, então, fazer algum debate
sobre um tema que esteja na berra e que de algum modo podia animar uma boa
conversação, ou desandam para o quarto, colocam auscultadores nas orelhas
(agora chamam-se fones) e isolam-se de novo no seu mundo privado.
Por exemplo, algum dia vos perguntastes se
em vez de termos os mandamentos em forma de imperativo negativo (não matar, não
mentir, não levantar falso testemunho, não invejar...), os tivéssemos de forma
afirmativa e, se em vez de serem aqueles que todos conhecemos fossem outros
como (sirvo-me de Richard Dawkins em A Desilusão de Deus, casa das letras, pag
316): esforça-te por não fazeres o mal; vive a vida com alegria e
admiração; procura sempre aprender algo novo; trata os teus semelhantes, os
seres vivos e o mundo em geral com amor, lealdade, honestidade e respeito;
interroga-te sobre tudo; forma opiniões independentes com base na tua própria
razão e experiência.
A ideia dogmática da inalterabilidade é a
morte da criatividade, da inovação. É preciso, se não ser subversivo, ser pelo
menos ousado e provocador (aquele que PROVOCA DOR) ou seja, é proibido estagnar
e ousar...
Seja-me ainda permitido trazer à baila um
assunto candente: o dos direitos dos animais. De facto este assunto deixou de
estar trancado e passou a estar acessível por um pinchavelho acerca do qual qualquer um opina. Deixando de lado esta
questão sublime que é a de todos e cada um se julgar autoridade em assuntos
acerca dos quais nada sabe e mandar para o ar uns bitaites de forma
aberradamente aleatória. Já uma vez aqui tratei da famosa doença contemporânea:
a opinionite…Diferentemente do que se
julga, a opinião não pode ser emitida a eito. A opinião deve ser apenas
dada por quem saiba de um assunto e não por um basbaque qualquer que se arvora
em especialista fazendo "figura de crocodilo na classe dos mamíferos"
na sublime leitura de Joaquim de Carvalho.
Volvamos, pois, ao assunto que aqui nos
conduziu: o dos direitos dos animais. Talvez ninguém melhor que Peter Singer – este
sim, pode falar do que sabe ...- E que defende o nosso especialista? Olhai só: «devemos
avançar para uma condição 'pós especialista' em que o tratamento humano é
alargado a todas as espécies que disponham de um cérebro suficientemente
poderoso para dele desfrutar. Talvez isto aponte já na direcção que
o ZEITGEIST moral
deverá tomar nos próximos tempos. Tal não seria mais do que o prolongamento
natural de reformas anteriores, como a abolição da escravatura e a emancipação
das mulheres.. (esta problemática do Zeitgeist vai ter tratamento especial num
dos próximos basas.).
Mas, já agora deixo-vos uma questão linear
que não vamos, por agora, desenvolver: será que quem não tem deveres tem
direito a ter direitos...?
O problema é agora o de saber: quem
dialectiza estes problemas comigo? Não tenho parceiro e por isso penso sozinho
e, olha!, partilho convosco. Pode ser que algum de vós me desafie! O meu pinchavelho não tem segredo: é abrir e
entrar.
XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAANNDDDDDDEEEEEEE.
quarta-feira, março 22, 2017
A NOSSA FALADURA - CCL - ESPARNICAR / ESPERNICAR
Até parece que foi há muito tempo... Mas
não foi há tanto assim. A não ser que eu também já tenha muito tempo e isso eu
não quero crer. Afinal ainda não entrei na chamada terceira idade, ainda pago
bilhete inteiro em transportes públicos e não tenho qualquer documento
vitalício e renovo a carta só daqui a seis anos...
A velocidade a que hoje as novidades
acontecem é tal que o que agora é moda, amanhã é já pré-história. Alguns
chamar-lhe-ão sociedade da informação, mas eu acho que mais importante será uma
sociedade bem IN(Formada).
A prova de que tudo é efémero, ou descartável,
se quiserdes, está aqui mesmo no basa. Quantos do que nos lêem seriam
conhecedores deste vernaculismo que deixamos aqui registado? Só que eu usei
todos estes termos e muitos mais que, aos poucos hão-de aflorar à memória e,
claro, aqui projectados.
Para quem conhece a terra xêndrica será
difícil corroborar que contíguas à taberna do ti Chico Miguel, havia duas
furdas onde ele criava os porcos de matança? Que as galinhas depenicavam na rua
e espernicavam restos de algum tanoco de pão que lhes surgisse ao bico? Que
uma vez por outra, um carro batia numa delas e era um consolo ver todas aquelas
penas a esvoaçar pelo ar? Até recos de médio tamanho patrulhavam as ruas à
procura de restos de comida! Olhai que não foi há tanto assim!
Sou ainda do tempo em que os lagares eram
de varas e se usavam ceiras em vez de capachos. Não havia água canalizada e
muitas vezes me levantei às cinco para ir dar água ao lagar...
Lembro-me bem de não haver electricidade e
de haver uns poucos de candeeiros de bronze, poucas vezes acesos para dar luz à
estrada... Um deles estava mesmo no ângulo esquinado da casa onde morei grande
parte da minha vida. Vi-o cortar com uma serra de metal,
O sal, o açúcar, o arroz, a massa, tudo
era vendido a retalho e ao peso dentro de uns cartuchos de um papel pardo... os
pacotes de manteiga guardavam-se em sal para não se derreterem no verão, o
petróleo, o azeite , tudo era vendido à medida e de forma avulsa...
Sou do tempo do centil, do salamim, da quarta, do quartilho, da panela, da deca, do alqueire, da fanega, do moio, do quartão, do almude, do côvado...
Sou do tempo da infusa, do arrátel, do pucheiro, da cântara, da braçada, da arroba, da grosa,
do milheiro...
Sou ainda do tempo do pé, do passo, da
passada, da chanca...
Vendia-se a chita da tabela e roupa de
marca na ourela, camisas
de terylene que era só lavar e secar e ficava pronta para voltar a usar;
vestia-se surrobeco,
pana=bombazina, popelina,
do cotim, tudo enrolado em
peças e cortado com arte pelo merceeiro.
Quem se lembra da brocha espanhola e da carda, para além
dos protectores para proteger a sola dos botins vergados à mão, batida em pedra
seixo redonda chamada a rebola,
depois de bem demolhada em celhas que mais pareciam dornas pequenas ?
Quem conheceu a sola verde, a sola
maranhão, a barriga de sola, o corpon, o calfe, a capicua, a borracha de
ceilão, a sintelite? Quem se lembra da anilina para fazer graxa para os
sapatos?
Quem sabe o que era a semilha, o prego de
pregar à forma? quem distingue o prego de ripa, de fasquia,de meio solho,
de solho, de caibro? Quem, ainda, pregou uma cavilha?
Quanta gente há por aí que já nem sabe o
que sejam umas ceroulas ou uma simples fita de nastro, sequer uma naveta de
tear ou a canela de uma máquina de costura tocada a pedal?
Tanta coisa, tudo há tão pouco tempo e a
parecer tanto...
Pois é, meus caros: assim se passa com os
valores.
Se hoje perguntarmos a um dos nossos
jovens o que mais gostava de ter na vida lá vem um carro potente, uma vivenda
luxuosa, o desejo de conhecer meio mundo e o resto da outra metade em viagem, e
serão poucos os que falam de saúde, paz, amizade, família, trabalho,...Vai lá
vai...
Até parece que vos estou a dar um
bailinho... Nunca foi minha intenção e confesso que quando comecei a escrever
esta crónica não tinha minimamente na cabeça derivar para estes campos.
Mas lá está: a nossa mente não é linear e,
porque é contínua e não contígua, nunca se sabe para onde o pensamento nos pode
conduzir e damos por nós em imprevisíveis situações. Dito assim de repente: a
nossa mente também espernica,
isto é, nunca se sabe onde vai parar a ideia inicial...Tal como não sabemos
para onde vai parar a migalha de pão que a galinha da ti Surreição, que teimava
em continuar a usar pedras como pesos, iria parar quando ela abanava o
pescoço.
Poi é! Também não sabeis quem é a ti
Surreição (Maria da Ressurreição). Mas eu digo-vos: morava na primeira casa da
rua do Outeiro, mesmo antes da barreira e confrontava atrás com o quintal dos
Póvoa, à esquerda com o largo do batoco e á direita com O Chquim
Calça-Defuntos, à frente, está claro, com a via pública. A casa tinha uma loja
onde ela guardava o que colhia da horta e outros produtos para consumo ao longo
do ano: cebolas, alhos,piri-piri, batatas, azeite, azeitonas, a salgadeira,
feijão, grão, queijo, sei lá ...e as pedras. Era mais surda que um calhau
e desconfiada até mais não...
Muitas vezes a atendi na pequena
loja de meus pais e quando queria qualquer coisa a peso teimava que o que valia
era a sua pedra e não o peso aferido pelo aferidor camarário. Além disso levava
sempre uns cambos para servirem de balança pois não confiava nas balanças do
comerciante. O problema não era quando comprava pois as pedras iam sempre
perdendo um bocado, mas quando queria vender. Aí, tinha que por sempre mais
peso do que o real. Era precisa muita arte e paciência para a convencer da sua
ilusão.
Só para imaginardes quão desconfiada era
só vos digo que contava sempre os fósforos de cada caixa quando tinha que
comprar alguma. Tinha mesmo que ter quarenta...
O acesso à casa propriamente dita fazia-se
através de uma escadaria exterior que dava para um pequeno patamar sem qualquer
guarda. No vão das escadas estava um buraco que servia de capoeira às três
galinhas que criva com esmero. De manhã colocava uma escada feita ad hoc em que umas velhas ripas eram
pregadas em dois pequenos varais mais parecidos com empas de feijoeiro. As
galinhas andavam todo o dia na rua, esparnicavam o que encontravam e à tardinha Ti
Surreição chamava-as, tomava-lhes o ovo, subiam as escadinhas, entravam para o
buraco até ao outro dia. Ficavam baratas estas galinhas que em dia de festa lá
provavam uns farelos mexidos com couve galega !
E por hoje chega.
XXXXXXXXXXXIIIIIIIGGGGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNNDDDDEEE
Desenho de Carlos Matos
Desenho de Carlos Matos
terça-feira, janeiro 31, 2017
A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA
Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela
manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo.
Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava,
sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe
apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe
rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava
e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez
não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A
adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para
além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí
à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria
aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam
o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a
loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra
batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino
do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de
tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No
balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia
um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem
e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha
uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando
ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja
utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que
andava sempre com as angarelas ou para servir de trampolim para a ti
Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não
lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre
pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a
pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus
toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam
nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando
alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as
gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha
e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de
quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que
tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não
pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma
escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda
diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que
havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as
formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar
eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o
colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta
o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e
era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».
A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:
Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América
Aceite
V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.
Muito provavelmente esta carta
nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do
tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar.
Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado
não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os
navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não
tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe
deixo aqui algumas:
- É
sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma)
considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o
país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero
dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu
obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e
sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem
observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também
eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão;
já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da
vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua
força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é
mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo
para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é
tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro,
alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que
alguém veja...
Não admira que as suas acções
sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de
tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à
sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem
mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções.
Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e
estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se
mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele - já a sua
ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os
mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos
competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e
apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de
qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não
imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor
Presidente de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do
mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito,
amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na
sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada
dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores,
ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza.
...
V.Excia, Senhor Presidente é
também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o
meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu
poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e
orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera
que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e
pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas
que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de
reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando
afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os
olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi
estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que
tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que
tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um
homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o
próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal,
pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a
paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é
tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem
qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname,
também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a
guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me
confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o
ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São.
E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque
simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou
Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia
acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo
por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o
sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade
efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo
da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar
de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza.
Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma
sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como
o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um
selvagem que não compreende nada.”
XXXXXXXXXXXIIIIIIGGGGGRRRRAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEE
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sexta-feira, dezembro 30, 2016
A NOSSA FALADURA - CCXLVIII - GALISTO
Se estamos em tempo de festejo pelo Natal e, consequentemente, pelo nascimento do menino, e depois o ano novo, também não é menos verdade que esta é, por excelência, a época das matanças. E não se pense que é só a do porco. Morrem galos, capões, coelhos, cabritos e cabras, cordeiros e borregos, leitões, vitelos e por aí fora. O macaco pelado ou nu como lhe chamou Desmond Morris é mesmo um predador desnaturado.
Embora cada vez mais haja menos daquelas matanças tradicionais, ainda tenho oportunidade de cumprir o velho cerimonial em matanças de porcos de bons amigos que, além disso, ainda fazem os tradicionais enchidos e curam o belo presunto para ser depois enxertado em maio depois de bem barrado com colorau por via da mosca e pendurado na trave mestra dentro de um saco de linho bem lavadinho até secar o bastante para se lhe poder enterrar a faca e dar fatia...Ainda se vai provando material de primeira, mas pouca vez.
Vítimas garantidas desta chachina epocal são as reses galistas. Expliquemo-nos; dá-se o nome de galisto a um animal de qualquer espécie que nasce com uma anomalia congénita, impossível de corrigir. Como se sabe, um erro inicial no desdobramento das células germinais é sempre irreversível. A genética segue sempre o seu caminho até ao nascimento e mantém essas características por bastante tempo, às vezes, como se pode ver na trissomia do cromossoma 21, ou apenas durante um curto período que desemboca fatalmente numa morte prematura, sempre precedida de algum sofrimento por parte do animal que dela sofra. É o que se passa com o gado galisto: o animal nasce sem uma das vias de excreção e faz todas as necessidades por uma única via, normalmente o ânus e, às vezes o umbigo. Quando tal acontece, o criador já sabe que o animal vai morrer e, então, o melhor que pode fazer é aliviar o animal do sofrimento e conseguir algum rendimento, abatendo-o para consumo próprio, ou vendendo-o bastante mais barato. Cheguei várias vezes a comprar dois leitões pelo preço de um. Não advém qualquer perigo para o consumidor e um leitãozito assado no forno a lenha, nesta altura do campeonato, até que embarca na ponta da unha.
Não eram muitos os criadores de porcas parideiras nas terras xêndricas e, não raro, apareciam por lá vendedores que forneciam o bacorinho para a furda e posterior matança um ano depois, mais coisa, menos coisa. Claro que estamos a falar de épocas que já lá vão em que não se falava de língua azul ou peste suína e não eram necessárias guias especiais para transporte, venda e abate de gado das mais diversas espécies. O maior criador era o Dr Leitão, ilustríssimo filho da aldeia xêndrica, oftalmologista de renome. Bem... não era o dr. Amândio Leitão que tratava da criação mas o seu feitor, Domingos Menas, primeiro, e depois o ti Augusto que veio de Unhais para dirigir a casa. Já na vizinha aldeia dos cucos o sargento Jaimeca, primeiro, e depois uma exploração de dimensão razoável garantiam bacoragem que chegasse para a área de circunscrição. Eram muitos mais os criadores de gado caprino e ovino. Lembro-me bem da musicalidade do som emitido pelas cabradas que se distinguiam pelo diferente som que picadeiros, reboleiros, chocalhos e campainhas produziam. Sabia-se a quem pertencia o rebanho que se ouvia por causa dessa tonalidade sonora.
Se se quisesse um galisto não era preciso dar muita volta e de um dia para o outro havia bicho para se meter na panela de ferro e proporcionar uma rambóia das valentes, já com vinho novo a escorrer das pichorras e acompanhado por alguma morcela ou chouriça, surripiada à sucapa do varal do fumeiro que abanava ao calor de lume controlado para não ficar a saber a fumo, mas também não proporcionasse secura bastante que não evitasse o abolorecimento das diferentes peças. Bons tempos esses em que havia rapaziada com fartura e não era difícil arranjar comparsas para uma petiscada daquelas assim comédado.
O madeiro ardente foi muitas vezes o local seleccionado para uns convívios que ficaram registados. Ao fim havia sempre o grito de guerra: porrada no madeiro que inda está inteiro e Natal ,Natal, filhós com vinho não fazem mal, filhós no caldeirão e vinho no garrafão.
Assim seja.
Aproveito para vos desejar umas boas festas e se for a apreciar um galisto, melhor.
XIIIGGRRRRRASNNNNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEE.
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