sábado, junho 28, 2008

A NOSSA FALA - CVIII - CHARRONCO/A

O nosso já muitas vezes referenciado coiote pete era um especialista na "catalogação" das figuras de aldeia, sobretudo das VIP, para a época, que mais não eram que os comerciantes e outras personagens que, por atitudes circunstanciais, as mais incríveis e, às vezes, irrepetíveis ficavam com o estigma da alcunha para todo o sempre. A ele se devem muitas das mais famosas e que já aqui foram ecoadas. Dispenso-me de as identificar.
Ainda assim, porque o homem não é só o que quer, é também o que pode e nunca se solucionará se querer é poder ou se poder é querer, vejo-me constrangido a deixar-vos aqui alguma história. Também não é por acaso que um livro, bem pobre em termos de discurso, é best seller mundial. Claro que não cito o título para não contribuir para mais uma eventual venda.
Marketing é também isto, e também não é por acaso que a televisão que piores programas transmite é a mais vista. Mais vale cair em graça do que ser engraçado.
Um dia, ali no largo do Batoco, ainda por lá estavam dois bancos de pedra onde eu ferrei umas boas sestas, debaixo daquele frondoso plátano que, com as suas raízes, rebentou com tudo à volta, canalização incluída, bem, num certo dia, melhor, numa noite cálida de Verão por ali estavam, já a Rosa tinha fechado há muito, uma cambada de se lhe tirar o chapéu: Coiote Pete, Toco Jabão, Abraço de Basuca, Nosso Sargento,Teixeirinha, Cabeças, e eu, está bem de ver - não sei se me passou algum -.
No seu SIMCA 1100 em segunda a fundo passa acelerado, num cagaçal medonho CHINCHAS REFILÂO que acumulou logo o de CHARRONCO por causa do estrilho que fazia. Era verdade: onde ele estava, mais ninguém falava. Sozinho era uma rua a falar. Tinha a mania que só ele é que sabia e, vai daí, Coiote não perdou: CHARRONCO. E atira: Vamos baptizar aqui os comerciantes... E foi: João Robalo Elvas- O CAGÃO, Domingos Cunha - O AVARENTO , António Robalo Elvas - O PANASCA- Chico Vaz (Miguel) O BASÓFIAS, António Centúrio - manteve O FATELA, Zé do Café -PANELEIRO, Joaquim Faustino, O ESCRAVO, Zé Júlio, O TROCA-TINTAS, Zé Rolo, O FARELOS. E, tal como diz o padrão implantado a meio do adro, tirando de Camões:" se mais mundos houvera, lá chegara.
Já agora: paroquiava a aldeia o inefável padre Zé Pedro, que convivia com seu pai o velho Jerónimo e a mãe, D. Júlia, cozinheira de excepção, o irmão Tonho Maluco, e mais tarde o Dr Augusto e seus sobrinhos. Uma confraria, a bem dizer.
O Presidente da Junta era o sr. Domingos Campos e o regedor, esse guardião da ordem, que era Chico Sarapião. Servia na casa de Domingos de Campos a filha mais velha de Manuel Freitas, hoje mulher de Manquinho que, aos Domingos à tarde, lhe mandava uns olhos de derreter, a partir do batoco, quando ela assomava à janela das traseiras. Um dia destes trago-vos aqui alguns namoros famosos...
Bem, mas volvamos ao adro, ao padrão, ao Manuel Freitas e ao padre Zé Pedro. Homem de muita vida, movia-se relativamente bem em quadrantes não muito acessíveis e consegue trazer à aldeia, para inaugurar o dito padrão, o Secretário de Estado do Interior (hoje administração interna).
Nunca Penamacor tinha visto um membro do governo e a inveja até queimava.
Não foi por acaso que Zé Labouxa quis trazer o castelo para a aldeia porque "a vila sem o castelo era uma merda" e a nossa aldeia com o castelo até "arrebentava com Castelo Branco ".
A inauguração do padrão deu-se aí pelo meio dia e meia hora. Cedo, muito cedo, Manuel Freitas, que também, tal como a filha, a bem dizer, só trabalhava para o sr. Domingos Campos, amassava serradura, que o Rui marceneiro tinha juntado para o efeito, com água e anilinas de diferentes cores, para fazer um tapete que fosse da curva, em frente à antiga tasca do Fatela, depois, do Licas, por onde o supradito secretário de estado do ministro Gonçalves Rapazote, passaria até ao também já citado padrão.
Os carros reluzentes chegaram, canalha da escola com bandeira nacional, tal como agora nos carros e varandas por causa da bola, a canalha, dizia, convocada para o efeito, Tonho Bondito no tambor a marcar o passo e os professores, à ordem de Zé Tanganho, cada um com seu rebanho, quais maestros marcavam o compasso do hino nacional. Toda a gente o sabia de cor e salteado. Olarilolela!
A marcha, de cada um dos lados da estrada iniciou-se na chamada estrada nova - vulgo, estrada das Águas, e veio até ao adro com o secretário de estado no meio todo babado e mais os respectivos acompanhantes e os senhores da civilidade lá de aldeia com o padre Zé Pedro como coriféu.
Manuel Freitas tinha já concluído a sua tarefa e, qual galo em capoeira, guardava a sua galinha, não permitindo que alguém pisasse o tapete de serradura que ele tinha estendido no chão e que ia regando com um regador, por mor de não secar e as cores ficarem sempre vivas. Lá chegou toda a comitiva, dizem-se palavras de circunstância e, ala que se faz tarde!
Digo eu para Manuel Freitas.«Ó ti Mnel, que lhe pareceu isto?» e ele:" O gajo é mesmo um CHARRONCO, chegou e disse, tirou o chapéu e foi-se". e continuou: "peneirento de merda! nem bom dia, nem bo tarde! nada, CHARRONCO DUM F.D.P."
Este vernáculo linguístico de Mnauel Freitas acompanhá-lo-ia até ao resto dos seus dias, que terminaram ainda não há muito e, pior ainda, ou melhor se quiserdes, quando se juntava com o seu companheiro dilecto Zé Luís Barata. Até as pedras coravam com a verborreia e língua afiada destes comparsas.
Foi nessa noite dos baptizos com que Coiote Pete galardoou todos os comerciantes de aldeia que Toco Jabão se alterou porque lhe chamaram também de CHARRONCO: contou que na tropa, tinha feito activar, à hora exacta, um detonador à distância, sem telecomando, por meio de uma lata com feijão grande de molho que, ao inchar, estabeleceu o contacto entre os fios fazendo explodir a bomba. Logo Coiote: "arregaça a calça! és mesmo CHARRONCO!". Toco Jabão não gostou da mangação e as coisas iam-se estragando. Não fora eu e abraço de basuca e, naquela noite, Coiote tinha levado uns apalpões nas ventas.
Aqui vos deixei mais umas historietas da mais bela aldeia do mundo, só comparável à dos indomáveis gauleses no norte da Gália que sempre resistiu aos Romanos.
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sexta-feira, maio 09, 2008

A NOSSA FALA - CVII - ESCADABULHAR

Quando iniciei a participação neste espaço, pensei não chegar aos cem vocábulos. Por cautela, fui guardando sempre um para uma emergência. Ainda não é hoje que o esgoto. Os tempos têm sido muito atarefados e a disputa pela posse da net, arreda-me sempre para lugar traseiro e, pronto, foi-se sempre adiando o que há já muito devia ter sido publicado.
Trago-vos hoje a ti Esp'rança do ti Chquim Área, moradora ali, paredes meias com Chico Sarapião, ou Aranhiço, ou Regedor, ou oitenta mil e quinhentos, ou artigo vinte. Uma caterva de nomes tinha este guarda fiscal reformado, que foi quem, pela primeira vez, viu, em sua própria casa, televisão. Eu era assim a modos que um menino bonito, bem educado, ajudante de missa, que não dizia palavrões nem praguejava, obediente e trabalhador sem resmungar, bem, estais a ver: um bom rapaz; por isso, Sarapião concedia-me o privilégio de, sentadinho no canapé, ver o Rim-tim-tim e a Lassie, o Laredo, a Flecha Quebrada, o filme da Mabor, o Santo, e os bonecos animados, enquanto os da minha idade, no largo do Zé Rolo, em frente da casa do clube que ficava por cima da barbearia do Chquim Vicente, mais tarde, do Domingos Molhano e do Zé Maroco, os outros, vos dizia, esperavam ansiosos que Chico Grande, Secretário zeloso - ou não fora ele também Guarda Fiscal reformado- secretário, do Clube Fernão Lopes, de boa memória, o clube e o escrivão mor do reino, cronista ímpar da nossa história, ... bem, todos esperavam a ordem de subir as escadas do clube para, caladinhos, verem o Zé Colmeia e o Catatau. Eu era bafejado: tinha a televisão só para mim, D. Manuela, Chico Sarapião e, às vezes, a nossa Ti Esperança, que depressa desandava que tinha sempre muito que fazer.
Ti Esperança era uma mulher com comportamentos desviantes; não fazia mal a uma mosca, mas, doença do foro neuropsiquiátrico condicionava o seu modo de reagir. Sempre sozinha, em solilóquio permanente, entrava e saía de casas com a porta aberta, não mexia em nada, via, e continuava. Fazia todas as lides domésticas desde o tratamento da roupa à feitura da comida e até tratava esmeradamente da horta, tendo o cuidado de alinhar com baracinho, à moda dos cantoneiros, as leiras para os diferentes produtos hortícolas. Escadabulhava tudo e nunca usava quaisquer tipos de pesticidas , antes, logo pela manhã, esquadrinhava por debaixo das novidades a ver se por lá havia algum bicho malino que lhe desse cabo da hortaliça. Lagarta, escaravelho, pulgão e demais ácaros, tudo vindimava e era um consolo olhar para aquelas terras.
Quando ia às mercas, fosse ao João ou ao Tó Robalo, à Conceição do Trem, ou a outra qualquer loja, antes de se decidir, mais que uma vez, escadabulhava e só depois mandava embrulhar se fosse o caso, ou metia no bolso se o volume o permitisse.
Era assim que quando comprava uma caixa de fósforos - que ela chamava de palitos - perguntava invariavelmente quantos palitos tinha. Mirava e remirava a caixa a ver se havia risco na lixa e, por mor das dúvidas, despejava o conteúdo em cima do balcão e conferia a contagem. Agia com sentido de justiça como as crianças: se faltasse um queria-o, se sobrasse, que não era dela e não o levava.
Era assim a ti Esperança do Chquim Área: muitos dos nossos ministros haviam de a ter conhecido. Talvez assim não andassem todos os dias a escadabulhar mais uma forma de entalarem os mais pequenos e favorecerem os grandes.
Haja esperança!
Deixo-vos com um XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII
Não volto a demorar tanto tempo a trazer-vos outros xendros.

sábado, abril 05, 2008

A NOSSA FALA CVI - RANCOLHO

Parece que anda tudo rancolho.
O mundo, ou melhor, a economia mundial anda rancolha desde que o Jorge, sobrinho do Tio Sam, se atirou a bombardear o património histórico da Mesopotâmia, só para fazer disparar o preço do barril de crude e nos desequilibrar o orçamento caseiro; o país anda rancolho até na oposição; o tempo anda bera e faz com que as batatas do cedo fiquem rancolhas e não medrem, que as barrocas não corram e não se possa ceifar uma saladinha maruja.

Para ajugar à festa, o Karraio e o Changoto andam rancolhos de ideias (eles defendem-se com a falta de tempo, os gajos…). Rais parta tanta rancolhisse.

Isto, só para lembrar que o Baságueda faz hoje 3 anitos.

quinta-feira, março 06, 2008

A NOSSA FALA - CV - BÔ(T)CHA / 0

Ao princípio homem e animal não tinham estabelecido relações muito cordiais.
A ideia da domesticação e, mais tarde, a sua consecução surgiu quando o homem e alguns animais do topo na hierarquia dos predadores - o lobo, por exemplo - se encontravam a disputar uma mesma presa. Repare-se que tanto o lobo como o homem conviviam em sociedades hierárquicas com tarefas definidas e ordens comportamentais sempre obedecidas, sob pena de castigos pesados. Veja-se o lobo alfa e o chefe da tribo...
O que valeu ao homem foi a sua inteligência superior que, ao mesmo tempo que lhe permitia resolver problemas novos e adaptar-se mais rapidamente a novas situações, lhe proporcionou a ideia de aproveitar as capacidades do lobo em seu próprio proveito... Sem nunca ter estudado psicologia animal o macaco já cada vez menos peludo de quem nós descendemos, depressa aprendeu que a cativação do animal só se poderia fazer através da simpatia e do afecto. Breve, o decisivo era comprar a capacidade do outro e pô-la ao seu serviço: decidiu alimentar o lobo dando-lhe carne sempre que com ele se encontrava ganhando assim a sua confiança. Aos poucos, o lobo deixou de ver naquela figura algo de ameaçador e passou a ver um amigo. Lentamente o homem foi criando os filhos dos lobos, foi-lhes dando guarida, alimento e carícias. O lobo passou a cão e, logo, a companheiro do homem nas tarefas de caça. Ainda hoje assim é.
Não é raro ouvirmos caçadores a dizer que antes queriam perder uma pipa de massa do que um cachorro e sabemos da utilidade dos cães na descoberta de sobreviventes a catástrofes e no acompanhamento de cegos e de pessoas solitárias, ou na guarda do gado junto de pastores, e por aí fora. Há também aqueles outros que mantêm as suas primitivas características de agressividade e que chegam a matar nas suas investidas. Aí a culpa não pode ser imputada ao cão mas ao seu dono que não tomou as devidas precauções para evitar acontecimentos de que todos temos notícia.
Toco Jabão tinha um cão - o Toniche- e uma cachorrinha - a Loc - de quem gostava mais que da família, podia dizer-se sem receio de errar. Caçador como era, odiava gatos. Passou essa sua aversão aos felinos aos dois bôtchos. Loc era, a bem falar, uma amostra de cachorro. Não sei se pesaria dois quilos e a sua agilidade a saltar para o colo de toco jabão era impressionante: bastava ver ou cheirar um gato e, de imediato, dava sinal com um latir especial. Toco entendia a mensagem, logo descobria o gato, chamava Toniche, poisava Loc na bifurcação da árvore, se fosse o caso, a cachorra subia, o gato era acossado, Toco ajudava à pedrada, o gato via-se na emergência de saltar e aí arrancava Toniche que lhe agarrava pela espinha e vindimava o gato num instante, regressando para as festas. Como se vê nada de comportamento exemplar. Havia de ser hoje...
Sem dúvida o cão mais famoso que percorreu as ruas de aldeia foi o NERO: resultado de cruzamento de uma cadela Serra de Estrela com outro qualquer cão, ele era a paz em pessoa, digo, em cão. Qualquer garoto lhe fazia festas e até alguns iam às cavalitas do Nero que parecia entender e andava mais devagarinho. Está bem de ver que nada faltava ao Nero. Sendo ele pertença da casa mais rica, ao tempo, a casa Campos, não era necessário preocuparem-se com a alimentação do cão porque nós, os garotos, lhe arranjávamos a comida que ele precisasse. De Verão, era vê-lo espojado à sombra da casa do Pirolas onde a ti Esperança tinha uma espécie de goteira que humedecia o solo. Era aí que o Nero dormia as sestas. Vida de cão, era o que era: comer e dormir...
Foi este cão durante anos guarda do rebanho da casa Campos ali para os lados das portela, batcharel, frade e minas mas a idade tudo traz de mau e o cão para além de custar a alimentar ao Chquim da Senhora, já não via o que devia e então veio para a aldeia.
Contava o filho do Chquim da senhora que o via engolir sem quase mastigar quando a comida não exigisse moagem dentária. Espantado dizia para o pai:«Ó senhor, meu pai, porra, o Nero nem mastiga, parece que só engole!» e o Chquim:« tu num vês, mê tonto que o cão só mastiga até que olhe para o olho do cu... ele só escarcha os ossos porque arrepara no tamanho do osso e na roda do olho cego e pensa assim: se engulo o osso de uma vez, apoi, ao sair, num me cabe no bureco e pior é se lá chega de travesso. É só por isso que o Nero quase num mastiga. Se pudesse engolia tudo inteiro com aquela bocarra.»
Para que conste: aqui fica a razão de os cães terem que mastigar um pouco os ossos.
Já estava com saudades vossas. Não sejais como o Nero: bebei a comida e mastigai a bebida. Tudo devagarinho que o estômago não tem dentes e o intestino não é nenhuma malhadeira.
AH! E, DE CAMINHO, NÃO SEDE VELHACOS PARA COM OS ANIMAIS. JÁ BASTA QUE OS CRIEIS EM CAPOEIRAS E COELHEIRAS E FURDAS E BARDOS E ESTREBARIAS E CAVALIÇAS E... PARA DEPOIS OS COMERDES. a PÁSCOA VEM JÁ PERTO E ALGUNS GALOS E OUTROS TANTOS COELHOS, BORREGOS E CABRITOS TÊM O DIA DE JURAMENTO DE BANDEIRA MARCADO. BOM PROVEITO!
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segunda-feira, fevereiro 04, 2008

A NOSSA FALA CIV - CHORADELA DE ENTRUDO

Não sendo versado em Latim (para isso está aí o changoto), quer-me parecer que Entrudo há-de derivar de alguma palavra dessa antiga língua e que haveria de ter um significado próximo de “entrada”. Estaremos então num tempo que marca o início de algo. A curta pesquisa que fiz bastou-me para chegar a 2 “entradas”.

Uma, remete para a era AC, durante a qual, fosse entre os Celtas, os Celtiberos, os Gregos ou os Romanos, as festividades representariam a celebração do (re)início da vida, o fim do Inverno e a “ressureição” da Mãe Natureza. Em termos simples, o anúncio de que a Primavera estaria próxima. Uma antecipação às andorinhas e ao “dácáocú” do cuco, pois.

A outra “entrada” foi aberta pelos sábios teólogos apostólicos romanos – na era DC, evidentemente - na sequência dos ditos e feitos do Cristo, os quais determinaram que o Entrudo passasse a marcar o início (a entrada) de outra coisa. Chamaram-lhe os sábios teólogos, Quaresma, um período abstinencial que culminaria não já na “ressureição” da Mãe Natureza mas do próprio JC.

Em qualquer dos casos, aceitava-se que a “entrada” devia estar associada a liberdade e ser comemorada em festa, e que a festa devia ser de arromba, sendo socialmente tolerado o abuso. O povo aproveitava a trégua para satirizar o clero e a nobreza, para troçar dos costumes e da moral vigente, para dar largas a pulsões primárias. À cautela, fazia tudo isso sem mostrar a cara, escondida por uma máscara, não fossem os poderosos ficar melindrados com a mordacidade da crítica e mostrarem ao povo que continuavam poderosos no dia seguinte. A ideia evoluiu para variados formatos e alvos: os poderosos foram substituídos pelos pares da comunidade, o que, convenhamos, era muito menos perigoso e reconhecidamente mais cómico. Também era mais purificador por via da purga que conseguia operar através da denúncia e exposição pública de certas situações que ocorreram ao longo do ano e respectivos protagonistas.

Um desses formatos, antigamente utilizado na terra dos Xendros adoptou a designação de Choradela de Entrudo, e funcionava como catarse da própria comunidade. Por estes dias, João Frêtas, Miguelito e companhia, percorriam as ruas da Aldeia a exibir ostensivamente exemplares da revista Gina e acabavam no Adro ou na Lameira a dramatizar as situações caricatas e a satirizar os protagonistas, para gáudio dos conterrâneos, excepto, claro, dos visados.

Muitas das histórias contadas aqui no Baságueda são dignas de choradelas de Entrudo, como as que se relataram aqui e aqui . Acrescentam-se mais duas ao rol, para eventual encenação:

1. O ano era de seca e Ti Fcisco Cocharra viu esgotar-se a água do poço, ainda os tomates e os pimentos estavam verdes. Ele bem procurou gerir o precioso líquido, regando quase de noite, e adoptando a técnica localizada com o regador em vez do encaminhamento nos regos. Determinado a fazer horta farta como nos demais anos, decidiu-se por recorrer à água da rede, mesmo que tivesse de a transportar desde a sua casa no povo. Davam as 4 no relógio da torre da Igreja, ajeitou o cabresto e a rédea no burro, assentou-lhe o bornil e a canga e colocou-o entre os varais da carroça. Atou bem os dois bidões de latão aos fogueiros, encheu-os com água a partir da torneira, e iniciou a primeira de muitas viagens entre a aldeia e a sua horta. Pouco se importou que os vizinhos, estremunhados, tivessem vindo à janela a recriminá-lo por causa do barulho que as rodas de ferro faziam a rolar na calçada.
Ao fim do dia, já ele tinha meio metro de água no poço.

2. O jeito para o negócio estava no sangue ao Ti Zé Labouxa. Negociava em tudo, desde porcos a batatas, de ferro-velho a cortiça. Sempre atento às oportunidades, fazia questão de não perder uma. Estava ele a beber o alboroque da venda de uma mula quando se sentiu atraído pela conversa que, ao lado, mantinham Zé Luís Barata e Mnel Frêtas, dois exímios da aldrabice, uma arte que haviam de apurar com o tempo. Confidenciava o primeiro ao segundo que um espanhol lhe tinha oferecido 5 contos por cada quilo de cascas de alho que lhe arranjasse. Parece que o espanhol as queria para remédios, mas tinha de ser depressa e ele, rais parta a sorte, não podia alinhar no negócio porque tinha de ir a Lisboa a casar um sobrinho. 5 contos era dinheiro, naqueles anos 60, e o Labouxa não hesitou em ficar com o negócio do outro. Consta que andou dias a arrebanhar forros onde havia alhos armazenados, chegou até a comprá-los só para lhes tirar a casca.

Bons entrudos.

terça-feira, janeiro 15, 2008

A NOSSA FALA CIII - MO(T)CHA

A época das matanças anda aí... Cada fim de semana, o número de cerdos que jura bandeira até meados de Fevereiro é incomensurável. Nunca tem paralelo com o ano anterior, como os paradigmas das revoluções científicas de Kuhn.
A perfectibilidade de um sistema não é, hoje por hoje, a caducidade do anterior. É antes o seu melhoramento. Já a política faz o mesmo: nunca um político diz, numa sessão de vários oradores, que o seu antecessor se esqueceu de dizer o que quer que fosse.... Simplesmente diz: "eu quero acrescentar ao que o meu colega disse antes,...." E assim se vai.
Voltando às matanças: Se o homem se preocupa em arranjar os amigos chegados para a festa da matança, a mulher, essa, preocupa-se com o colorau, com o algodão para atar a tripa, com esta mesma tripa, em escaldá-la, deixá-la de molho com muita laranja, em cortá-la a modos de ficar uma forma graciosa dependurada no varal do fumeiro, com os cominhos, e a salsa , e o alho sem grelo, e o sal grosso, e as batatas sem pó nem borboleta e os feijões para a sopa e as couves esfarrapadas para a dita, e os alguidares, e o areamento do vasilhão , mais ainda as enchedeiras e os funis e os chás e a cozedura do pão e o arroz para o osso da sevã, as trempes para o tacho da meloreja, que sei eu.... O porco é que não sabe nada disto... tem tempo amanhã de manhã...
«Ó Chquim, olha que as facas estão motchas... vê se as aguças comedado que amanhã fazem-me falta pra miguer a carne; tu num queres que eu peça a máquina da carne ao Bogalha, portanto trata de teres as facas em condições....» e o Chquim:« tu é que estás motcha; já ontem à noite agucei tudo: facas e tesoiras, ou pensas que num sei o que faz falta...? »atão tamém te digo que podes alimpar o cu ao aguço! esta que eu aqui agora tenho mal corta a manteiga ao lume...» »Ó fardo! onde é que está essa faca?!» Olha aqui.... tanto corta de frente como de costas...» «Catanos m’a chapem se eu não te trago essa bácora a cortar um guardanapo de papel...deixa cá ver...»
Estas erudições linguísticas prendem-se com aforismos populares que não deixam de ser o que sempre foram apesar da pseudo cultura que agora nos querem impingir...: «mata o porco e conhecerás o teu corpo.»
O que mais dá que pensar é que do que se come menos no dia da matança é o próprio porco. Esse dá a meloreja e o fígado com soventre numa fritada conjunta que há quem não dispense. Pelo meu lado deixo de parte tal pitéu que a meloreja e a sopinha da matança bem me sabe!
Em regra há sempre um galo que vai a ver o avô dele, ou um coelho bem anafado engordado que foi com umas quantas passas de figo e umas bolotas "por mor de alimpar das farinhas ca gente num sabe o que agora lá metem".
Duma vez ia eu e mais o Guilherme Chornico e o seu cão sempre com um pau na boca para não morder, velhaco como era - quase igual ao dono - , o meu pai e o velho Comandante , por essas sete da matina , num Dezembro molhado como um corno, tal as chuvadas que tinham caído, a caminho das Taliscas para a matança da minha ti Ana. Por altiras do Chquim Valente, ali ao alto da estrada de quem vai para a vila, tapada que agora é do Chinchas, ia eu e mais aqueles companheiros quando começamos a ouvir bradar: "Ai jasus! Ai Jasus! Rais parta a minha sorte, Ai Jasus!" Digo eu: «é a ti Ana» e meto fogo aos calcanhares a ver o que se passava... E era mesmo. Vinha preada com o lenço na cabeça, aos gritos e eu a querer que ela dissesse o que se passava e ela nada. Só gritava. Lá chegaram os outros e então: " Eh cachopos, já no há matança...desculpar-me mas já no há matança!" Logo o comandante:" rouberam-te o porco?" « Não; foi uma peste que o matou... parece um tição de carvão, mai negro có mal!...» " Mau, diz o Guilherme, uma peste matou-te o porco? atão é trabalho adiantado " Tu num gozes ca desgraça guilherme dum rai que ta parta...uma faísca caíu mesmo na cabeça do porco e deixou-o num carvão."
A verdade é que ninguém voltou para trás e fomos ver... Era mesmo verdade: durante a noite tinha trovejado e um raio deve ter caído na nuca do porco e fulminou-o. Na verdade era mesmo um monte inteiro de carvão. Nunca tal algum dos presentes tinha visto nem tinha notícia que tivesse acontecido em qualquer parte. O remédio foi fazer uma poça e enterrar o animal queimado.
Diz então a ti Ana:" Olher! o que vos posso servir é uma travessa de carne da cabra motcha que o mê Chquim matou ontem". O Ti Chquim ainda não sabia do desastre e chegou entretanto na sua bicicleta e ficou taranta de todo quando lhe dissemos o que se passara. Tinha ido ao povo a buscar o algodão para as ataduras que tinha ficado esquecido na pedra da lareira.
E eu:" O melhor é irmos a ver se damos uma malha na carne da cabra motcha que é para não se estragar e serem dois os prejuízos"...
Meu ti Chquim foi consolando a mulher e prometendo logo ali que ele já ia a ver dum porco e que a matança se havia de fazer na mesma e a salgadeira não havia de ficar sem presunto nem o escoureiro sem chouriços...
Calmo como era:" Vai por uma pichorra que havemos de sangrar a pipa já que não sangramos o porco."
Lá vem a minha tia com a pichorra e uns copos e não tardou uma malga de azeitona retalhada, um queijinho fresco ainda acinchado, e um barranhão de carne da cabra motcha.
As histórias foram-se sucedendo e a carne minguando, o vinho correndo, o dia clareando e a manhã ganhou-se assim.
Não vos deixo ir sem mais uma, tão verdade como a que acima contei: num dos tempos de natal para aí dos anos sessenta a minha mãe dizia para o meu pai:« olha que não tenho lenha para as filhós nem para secar o fumeiro depois da matança. Depois trazes-me lenha verde como um caçulho só faz fumo e chorar os olhos.» Perante tal descrição, num dia cedo depois de uma noite de trovoada parecida com a que antecedeu a não matança da ti Ana, lá vou eu e meu pai, à quinta do ramalhão com ideia de serrarmos um carvalho que estava mesmo chegado a outro que mais pareciam dois irmãos gémeos... Quando entramos na quinta junto à figueira bogalhal começamos a ver cavacos grandes de carvalho molhados mas secos... Então não é que uma peste caíu mesmo num dos carvalhos e o escarchou de alto a baixo espalhando achas por todo lado?!
O trabalho foi só acadajá-los, meter nas angarelas da burra, e ala para casa; enquanto eu vim trazer uma carga, o meu pai foi ajeitando outra carga e mais outra e a minha mãe nem queria acreditar: ficou com lenha seca e com abundância. Já se podiam fritar as filhós e secar o fumeiro sem chorar por causa do fumo.
Um bom ano para todos!
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

domingo, janeiro 13, 2008

MATANÇA

Fim de semana de matança. A cerimónia decorreu mais ou menos como descrito em pretérita
ACTA
Almoço farto, com meloreja, osso da suã, caldo com muito entulho, azeitonas retalhadas, queijo fresco e curado, inté pudim.

Ouviram-se as falas do costume na circunstância: banca, carchanolas, chambaril, faceira, morcela da banca, passarinha, seventre, sovina de esteva, xica...

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Fumar ou não fumar

Já houve um tempo em que fumar era sinónimo de virilidade masculina.
Eis o tempo em que fumar afecta a virilidade masculina.
É um masculino fumador (embora pouco) que vo-lo lembra.



Imagem rapinada do Jumento

sábado, dezembro 22, 2007

PRENDA PARA O MENINO JESUS

Antigamente era o Menino Jesus que trazia as prendas. A canalha deixava o sapatinho estrategicamente junto da lareira na esperança que para além do habitual par de meias embrulhado numa folha da lista telefónica, ele lá deixasse também um chocolate. Raramente tal acontecia, naquele tempo. O Menino Jesus, se calhar, era a Eterna Criança Pessoana: um pobretanas como todos os outros meninos da aldeia, que limpava o nariz com o braço, que atirava pedras aos burros e que até gostava de ir à marouva.

Agora, é o Pai Natal, velhote moderno, endinheirado e mãos largas que fez uma reengenharia no sistema de entregas de prendas - e também no armazém, substituindo o stock de meias e chocolates por telemóveis, gameboy's ou PSP's - e que, apesar de continuar a descer pela chaminé, passou a deixar as prendinhas devidamente embrulhadas em papel colorido e fitinha a condizer, junto a um piscante(!) pinheiro artificial com uma estrela no cruito.

Apesar das sessões de esclarecimento que o Karraiozito tem vindo, provocadoramente, a fazer junto da Karraiazinha, ela mantém-se inabalável na sua crença no velhinho das barbas brancas e fato vermelho. De tal modo que até manifestou uma sincera vontade de lhe oferecer uma prenda, por achar injusto que ele venha de tão longe encher os sapatinhos de todos os meninos e que nenhum menino lhe retribua a simpatia.
Nunca me tinha lembrado desta!
Comprometi-me a tratar do assunto e, como o que conta é a intenção, escolhi oferecer-lhe uma música. De Natal, claro, seguramente, uma das mais bonitas músicas de Natal que já se escreveram:

domingo, dezembro 09, 2007

A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA

A mobília das tradicionais casas de aldeia resumia-se a pouco: três ou quatro tropessos de cortiça, umas trempes, umas cadeias suspensas do tecto, na qual se pendurava, tanto o caldeiro para a vianda do porco, como a indispensável panela de ferro, quando o lume com ala a fazia ferver mais depressa, já que lhe apanhava o fundo do bojo na totalidade e que ,depois de estar a ferver, era posta dum dos lados do lume na pedra do lar para manter a fervura; do outro lado, estava sempre outra panela- esta podia já não ser de ferro - onde havia sempre água quente que tanto dava para botar no caldo se estivesse basto, como no caldeiro da vianda, como no alguidar para lavar o barranhão e o talher usado ; ainda uma mesinha baixa, com uma gavetinha, onde se guardava o conduto para o pão, geralmente pendurado numa bolsa de pano cru dum prego da tabique (taipas) de ripa, forrado a papel de jornal, colado com massa de farinha ou farelo e, claro, o cântaro de barro - o asado - com a sua tampinha e o copo de alumínio, de borco na pia da tampa; algumas casas tinham um fogão a petróleo e muito poucas apresentavam um fogão eléctrico ou a gás de dois bicos sem forno. Raríssimas as que tinham fogão a lenha, em ferro fundido, e ainda menos as que dispunham de fogão alto de quatro bocas e forno. Na parede lateral à pedra do lar, num suporte de madeira com uma "étagère", uma candeia a petróleo- poucas vi já a azeite - com um registo que deixava sempre a torcida rente ao bocal e, claro, o canto da lenha -a PIORNEIRA - e a pieira para deitar a cinza e os dentes de leite dos garotos quando caíam, que, para além de manter ambiente quente, depois do lume apagado, era fertilizante indispensável nas leiras dos alhos e das favas. Era também da cozinha que, não raro, começavam as escadas que davam acesso ao forro onde se conservavam as batatas, as restes das cebolas, os cabos dos alhos, alguma bolsa com feijão grande e pequeno e mais uns alguidares de barro ou esmalte só usados em dia de matança e pouco mais. Era por baixo destas escadas que estava a cantareira com os pratos de alumínio ou esmalte e alguns tachos e panelas, pouco usados, uns e outras, já que o prato era colectivo - o barranhão.
O quarto tinha uma camita, quase sempre estreita para dois, com uma enxerga de palha de colmo ou milho. Lençóis eram pouco usados: antes se usavam uns cobertores finos que, depois eram completados por cobertores de papa e encimados por manta de ourelos ou de trapos ou de fita como também eram chamadas. No inverno, cama que se prezasse, havia de ter para aí uns cinco Kilos de roupa nas frias invernadas em que o vento perpassava a telha vã e encarquilhava as orelhas a descoberto fora das mantas.
A sala, quando existia, limitava-se a uma mesa e seis cadeiras a condizer, um aparador com cristaleira, onde estava a loiça dos dias de festa, chegando-se a passar anos sem ser usada. Nas paredes, uns quadros do Sagrado Coração de Jesus e/ou de Maria, a última ceia e o orago ou outro santo ou santa, trazido de alguma excursão. E assim se vivia. Lá se nascia e morria.
No pós guerra civil de Espanha -1936/39- o contrabando teve um incremento incrível e havia quem vivesse dessa economia paralela. Não era raro que os contrabandistas de aldeia fossem convidados a ir a Espanha à festa do S. Brás, padroeiro de Valverde del Fresno, e que os compradores e vendedores espanhóis, de alpergatas, meias grossas, gorras, pana, isqueiros, colchas e camillas,..., viessem também à aldeia quer pelas matanças, nesta altura do ano, quer no sr. S. Bartlameu , a 24 de Agosto...
Ora aconteceu que um espanhol veio para uma matança no Zé Aranhiço, ali ao cimo da lagariça e chegou no dia anterior, que a matança é cedo e a meloreja é coisa que não se pode perder. Dormiria na loja numa tarimba arranjada ad hoc mas já jantou com a família à roda da lareira a comer do barranhão como se impunha. Calhou a ficar do lado da lenha que era também o lado do cântaro da água - o asado -. Na casa do Aranhiço já havia petromax - luxo raro - mas a noite estava fria e o lume precisava de lenha para atear o toco que estava de cabeceira e servia de encosto aos paus mais pequenos que aqueciam o ambiente com a labareda: "mete lenha, espanhol dum corno", dizia o Aranhiço, "mete lenha, corno negro, tu num vês o lume a apagar-se"?... o espanhol tardou a entender que era a ele, que estava mais perto da lenha, que competia manter o ambiente quente e, as vezes que lhe chamaram de CORNO, passaram sem conto. Para cúmulo, a ti Alice tinha cozido feijão grande para a ceia, por mor de fazer o caldo da matança no outro dia de manhã com umas folhas de couve esfarrapadas, uns bagotes de massa manga de capote da grossa, onde, para adubo, se cozeriam também, a bexiga do porco do ano anterior e mais uns nacos de toucinho do alto. Os feijões estavam a saber a sal e a carne que os acompanhava tinha o mesmo forro de sal, pelo que o espanhol teve sede.
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
Levantou-se então o espanhol para beber e:"oh, filho dum corno, dá-me água tamém a mim", "eu tamém quero" «e eu»... entretanto, os feijões iam descendo no barranhão enquanto o espanhol enchia o copo e servia a família de água... Quando se sentou, apanhou já o fundo alguidar e contentou-se com a cebola picada.
Quando regressou a Espanha, depois, aí sim, de ter comido à tromba estendida na matança, dizia para os de Valverde e de Eljas:« Mira! se fores a Portugal, nunca te pongas del lado del agua ni del piorno, sino te llamaran hijo dum corno».
Nunca o espanhol também tinha comido broa e dessa gostou: «pero se te deren broa, prueva-la que es boa.»
Outro tipo de contrabando este, da comezaina e da cultura típicas portuguesas.
Ficai-vos com um XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII
P.S. - Se por aí houver alguma matança, deixai recado.

quarta-feira, novembro 28, 2007

A NOSSA FALA - CI - CANALHA


Em recente visita ao vizinho distrito da Guarda, o nosso PR manifestou-se preocupado com o despovoamento do interior tendo proferido autênticas pérolas de senso comum misturado com politicamente correcto. Eis algumas que retirei dos jornais:

"O número das crianças que nascem em cada ano é inferior ao número de portugueses que morre em cada ano. E, porque morrem mais do que nascem, em cada ano, há cada vez menos portugueses".
(Eu acho que devemos orgulhar-nos deste brilhantismo dedutivo do nosso Presidente)

"(…)muito preocupado por Portugal ser um dos países da Europa onde cada mulher tem menos filhos".
(Andam a falhar as mulheres portuguesas…)

“Por que é que nascem tão poucas crianças?
(Bolas! A essa não sei responder)

O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?”
(Só perguntas difíceis, hoje. Hesito entre espreitar e copiar…Lá vou ter de admitir que sei menos do que um miúdo de 10 anos…)

"Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo".
(Pelos outros portugueses não posso falar, cada um que se manifeste. Para que conste, declaro solenemente que eu, português, mantenho o meu entusiasmo).

"É preciso alterar esta situação (…) não é apenas uma responsabilidade do Governo, da Assembleia da República, é de todos".
(O Senhor Presidente, por acaso, não está a sugerir aquilo que eu estou a pensar, pois não?, É que essa do todos, sinceramente, acho um bocado debochada…)

Agora (um pouquinho mais) a sério:

Fica bem ao Senhor Presidente manifestar-se ralado com a falta de canalha nas nossas aldeias ou, como ele lhe chama, com o despovoamento do interior. Eu entendo que ele devia até manifestar-se mais vezes incomodado com esse problema. Aliás, eu até acho que ele se deveria ter preocupado com a questão, e muito a sério, na década que foi de 1985 a 1995.

É claro que o mesmo é válido para os que lhe antecederam como PM e os que se lhe seguiram, porque esses também entram no rol dos responsáveis. Não foi agora que os homens e as mulheres do interior começaram a padecer de uma disfunção sexual colectiva. (A propósito, ou talvez não tenha nada a ver, o Mário Zambujal, em "À noite logo se vê" já glosava com o tema: "No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu nenhuma criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral". Estou capaz de o reler.) A raiz do problema está funda, nas sucessivas políticas concebidas em Lisboa e tomando como referência apenas Lisboa, para onde se reservaram sempre os melhores investimentos públicos. Foi à conta deles que sucessivas vagas da melhor mão de obra e da melhor força reprodutora do interior se transferiu do interior para a capital da Nação. Ainda está por fazer o estudo que calcule quanto é que Lisboa deve ao resto do país, sobretudo ao interior.

O grave da situação é que aquilo que parece ser sinónimo de progresso tem um reverso, do ponto de vista económico, e também social e ambiental. Pense-se nos efeitos do crescimento desmesurado e caótico da capital e nos efeitos que isso acarretou, e continuará, em termos de qualidade de vida (trânsito, insegurança, poluição, etc.) Mas a elite governante insiste. Provavelmente porque é na capital que estão os interesses maiores.

Ah! e os eleitores. Também é lá que se concentram os eleitores.

A canalha, essa vai escasseando nas aldeias. E que belas eram as aldeias coloridas com o riso autêntico da canalha...

sexta-feira, novembro 16, 2007

A NOSSA FALA - C - AVESSEIRO

Ou eu leio mal a realidade ou isto anda mesmo às avessas.

Todos os dias ouvimos que fábricas faliram, mais uns quantos desempregados e os comandantes a dizer que criaram 60.000 postos de trabalho! organizações internacionais deixam claro que é em Portugal que o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e os chefes dizem conceder um subsídio de fralda aos casais com mais de três filhos mediante o preenchimento de um sem número de papéis ... representa um grande esforço económico mas é assim que se reduz o fosso! dizem que querem fixar as pessoas no interior, cada vez mais desertificado, quer em gente, quer em florestas e cultivos e que vemos? fecham escolas, centros de saúde, reduzem-se os meios de comunicação...; os bancos apresentam lucros chorudos e os juros nunca descem nem tão pouco se mantêm; as petrolíferas mal se fala no aumento do crude já estão a aumentar o preço do combustível e as mais valias são as sabidas; as empresas de Telecomunicações comem-se umas às outras em publicidade caríssima mas não reduzem o preço das nossas chamadinhas; as finanças autorizam a justiça a adquirir nem sei quantas viaturas topo de gama; as Estradas de Portugal em rota de falência são premiadas com um contrato de 75 anos para composturas de vias.... Fazem-me lembrar um texto de Guerra Junqueiro a propósito do Marquês de Pombal que aqui vou citar de cor, admitindo alguma impropriedade que o Guerra me desculpará: «O próprio Pombal é o desejado? Não. Dum deserto quis fazer um jardim... Como? Plantando traves: regou-as com sangue e adubou-as com mortos»;
Num país em que quase só vemos agricultores de alcatrão em grandes jeeps pagos com a subsídiocultura que é uma vergonha descarada: compensa-se a extensão que é dos que já têm muito e despreza-se a produção e bom tratamento dos terrenos para além de dificultarem o acesso deslocando os serviços para locais distantes dos centros urbanos...; vemos os técnicos nos gabinetes e o mais a esmorecer... enfim...isto anda às avessas ou sou eu que vejo mal a realidade.
Quando era pequeno fui mandado a guardar um único borrego:"vais para o chão do caminho das águas e guardas o borrego no avesseiro a ver se ainda rapa algum verde". E pronto, lá fui e deixei corda larga ao animal na baixa contra o sol (portanto avesseiro), à sombra, onde algumas poucas ervas ainda tentavam a viçosidade, resistindo aos calores que começavam a apertar. O borrego era um merino, cabelo (lã) encaracolado, manso como a terra, e ainda algumas vezes me montei nele e ia às corrichas; ia comigo para onde eu fosse e quando o deixava na casa da Leitoa os MÉS ouviam-se longe protestando contra a falta de companhia.
Foi às avessas também que levei uma solha, estampilha, espapada, lamparina ou bolachada, porque logo à primeira vez quando o borrego se deitou a acarrar, ao pé do barroco onde eu estava sentado à sombra da velha azinheira, eu, lembrando-me que coiote pete, varinha de arado, filho do chico mainovo, jolim da pata branca, contramestre, moisés pitincouro, velho jonja, nosso cabo, tonho cagarela e outros se divertiam na Lameira ao pontapé NA MINHA BOLA, eu, disse cá para mim, mas alto para o borrego ouvir:" oh! mê cabrão, atão já no queres comer mais? Já rapaste o avesseiro todo? Eu bem que achei que o animal tinha comido depressa demais mas sempre o puxei outra vez para a baixa e ele nada! E pensei: "se não queres comer vais para o palheiro e é já"!
Agarrei em mim e no borrego pela corda e numa corrida cheguei ao povo, ia a meter o borrego quando o meu pai me brada: "olha a pressa que tens! atão o borrego nem teve tempo de comer comédado e tu já vens de volta?" E eu: «ele deitou-se à sombra...» A lamparina caiu-me nas bitráculas:" atão tu no sabes que estes animais acarram?" Fiquei a olhar como um basbaque... "Poi, estes animais comem e remoem e depois tornam a comer... Toca pró avesseiro outra vez!" Lá se me foi a bola. Às avessas também eu fiquei a saber que o borrego era um pequeno ruminante. Era assim muita da aprendizagem antigamente. Aquilo a que muitos chamam o curso de pontapé no cu. Às avessas também vos digo que este curso se sobrepõe a muitos formais... em muitas circunstâncias.
Ao ritmo a que isto anda estou em crer que qualquer dia estamos como aquela mãe vaidosa que num dia de Juramento de bandeira só tinha olhos para o seu Mnel, ali aprumado no centro da parada... Quando é dada a ordem para marchar: "olher além, mulheres, o mê Mnel, no meio destes todos é o único que leva o passo certo." Mainada.

ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais.
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

domingo, novembro 11, 2007

A NOSSA FALA - XCIX - P'CHORRA



A Mangedoura é o nome de uma adega de tecto baixo atravessado por caibros de pinho e chão de gravilha que alberga um velho pipo de carvalho que acode pelo nome de Patriarca. Com capacidade para engolir 5oo litros, o Patriarca é obra de tanoeiro experiente que se esmerou na preparação e montagem das aduelas firmemente ligadas por arcos de metal. O Patriarca é a testemunha estática de uma fadistice anual que o pretexto da vindima ou da sua confirmação pelo S. Martinho, proporciona. Habitualmente, o vinho escorre do Patriarca de uma grossa torneira de pau que se tem de abrir obrigatoriamente sempre no sentido dos ponteiros do relógio, para uma p(i)(t)chorra de barro e depois distribuído por pequenos copos de vidro. Há sempre algo de cerimonioso na hora de levar o copinho aos lábios: mira-se a cor do líquido em contra-luz, cheira-se longamente, tecem-se comentários sobre as suas características e qualidades, elencam-se os acompanhamentos ideais, enfim, faz-se do acto de beber vinho, um momento muito especial.

Neste contexto, os temas habitualmente recorrentes são relegados para secundários, como a política, o futebol ou a religião. A mangedoura é feudo do fado e do vinho, ali, o fado é qu'induca, o vinho é qu'instroi. Há que estar à altura. Daí a minha preocupação nalguma preparação prévia e, como todos sabemos, para tal desiderato, a net é um universo. Procurava eu umas coisitas sobre vinhos e vou dar com uns números interessantes sobre o consumo do dionisíaco nectar no mundo. Sem me deter em detalhes e explicações de conceitos e números, apenas para que vós tenhais uma ideia, sempre vos mostro alguns quadros construídos a partir de outros, constantes de um documento da Food and Agriculture Organization of the United Nations - 2003 (fonte fidedigna, pois):

Consumo de vinho:
1. Luxemburgo
2. França
3. Portugal
4. Itália
5. Croácia

Não posso deixar de salientar o honroso 3º lugar. Mas, não posso deixar de salientar igualmente que na França vive um milhão de Portugueses, e que uns bons milhares vivem no pequeno Luxemburgo. Ou seja, os primeiros dois lugares têm a nossa ajudinha.

Já agora, também vos mostro o podium dos países bebedores de cerveja:
1. República Checa
2. Irlanda
3. Suazilândia

Sim, Suazilândia, era o que lá estava, só depois é que vinham Alemães, Austríacos, Ingleses, Australianos e outros que têm a mania que bebem muita cerveja. Portugal? O nosso campeonato é o do vinho, não é este. Digamos que, nos que nos diz respeito, o vinho está para o futebol, como a cerveja para o rugby.

Sem grande interesse para nós, eis o podium dos bebedores de bebidas espirituosas:
1. Moldávia
2. Reunião
3. Rússia

Claro que a nossa melhor expressão facial de admiração vai para os reunioneses...
Também gostaria de pedir o vosso esgar levemente sorridente para o Irão. Parece que neste país o consumo de álcool é ZERO. Pois! Se a esta estatística juntarmos a que assegura - pelo menos na análise do senhor presidente -, que tão pouco lá existem homosexuais, temos que a antiga Pérsia continua a ser um país cuja evolução convém seguir com muita atenção.

Bom, mas voltemos ao vinho. Aproveitando a maré, naveguei até ao nosso INE para ficar a saber como vai o consumo de produto da uva e do trabalho do homem, em Portugal. Eis os números oficiais do consumo humano de vinho per capita (litros/habitante):

1992 / 1993 - 60,9
1993 / 1994 - 58,8
1994 / 1995 - 58
1995 / 1996 - 57,3
1996 / 1997 - 54,8
1997 / 1998 - 50,8
1998 / 1999 - 50,6
1999 / 2000 - 46
2000 / 2001 - 47
2001 / 2002 - 46,4
2002 / 2003 - 52,9
2003 / 2004 - 48,9
2004 / 2005 - 48,7
2005 / 2006 - 47,7

Consumo humano de vinho per capita (l/ hab.) - Anual; INE, Balanços de Aprovisionamento de Produtos Vegetais
Ano Campanha (1 de Setembro do ano n a 31 de Agosto do ano n+1)

É notória a quebra. Ela reflecte a tendência associada às modificações estruturais nos estilos de vida, ao comportamento dos consumidores, ao papel do vinho na alimentação, etc. Ainda assim, convém salientar que o vinho continua a ser, defendem conceituados entendidos, a mais benéfica das bebidas alcoólicas. Bem como continua a ser o melhor parceiro para o fado. Ora, como o fado é qu'induca e o vinho é qu'instrói, já se está a ver que dificilmente sairemos do podium. Agarrai então na p'tchorra, enchei, distribuí pelos amigos, sentai-vos num ”môtcho” e, ”buêi” e ”aldeagai” a gosto.

quarta-feira, outubro 31, 2007

A NOSSA FALA - XCVIII - MÔTCHO



Nesta altura, a agenda da nossa cultura marca que devemos lembrar-nos dos mortos – o Sr Prior será mais polido e preferirá sempre dizer: “os que já partiram” ou “ aqueles que já foram chamados”. Seja como for, estamos a falar desse inelutável e irreversível fenómeno que é a morte. Parece que foi Bento, o Santo, não o XVI, que se lembrou de “catolicizar” uma prática ancestral pagã crente na imortalidade da alma.

Aqui se presta homenagem “in memoriam”. À nossa maneira, mas sempre “in memoriam”.

Por toda a aldeia, da Portela à Lameira da Pinta, do Carregal à Saramaga, se ouviu o sino entoar 4 vezes a mesma batida sincopada: tinha morrido um homem da aldeia. Se fossem 3, era sinal que tinha sido uma mulher. Um código simples, uma espécie de requiem, conhecido de todos. A notícia espalhou-se com o vento, como era habitual: tinha morrido o Ti Tonho Zéi mataburros – assim alcunhado por via de episódio em que ele teria dado cabo de um jerico com uma machada na testa, por o animal insistir em cheirar o cú da burranca do velho João Dez Réis, com quem ele não se dava. Depois de lavado, vestido e preparado pelas filhas, o corpo foi velado na Igreja, durante toda a noite, pela comunidade, que acompanhava as rezas com fé e o choro carpideiro da família. Toda a gente anuía que Tonho Zéi tinha sido bom homem, nunca fizera mal a ninguém – o episódio do jerico, naturalmente, não contava. No dia seguinte, reuniu-se a aldeia para a cerimónia religiosa fúnebre e acompanhamento do defunto à sua última morada.

Naquele tempo, ainda se não usavam os caixões de madeira rendilhados com fios de metal dourado para cada falecido. O defunto era enrolado numa manta de felpa e assim depositado na sepultura. No transporte desde a Igreja até ao cemitério era utilizada uma caixa de pinho, adornada apenas com um crucifixo e 4 pegas de ferro pintado a negro, onde outros tantos homens pegavam. Ao lado, ia sempre um garoto com um môtcho que servia para suportar a caixa enquanto os homens descansavam. O acompanhamento religioso incluía, para além, evidentemente, do Senhor Prior, do sacristão que transportava a caldeirinha da água benta e dos andores da Confraria – com as lanternas, bandeira e estandarte -, a campainha que trinava ao longo do percurso. Havia sempre uma catrefada de garotos a disputá-la, sendo o bafejado designado pelo sacristão. O pequeno Alberto Faznada sentia-se injustiçado porque os outros nunca o deixavam tocar a sineta. No funeral do Ti Tonho Zéi lá ia ele no meio de 20 garotos empenhado em ter o direito, ao menos um bocadinho, de abanar os 3 barulhentos badalitos. Nada! Os matulões do costume atiravam-lhe olhares agressivos e negavam-lhe tamanha glória. Já à entrada do cemitério, furioso, havia de lançar aos outros a terrível ameaça:

- No me dêxandeis tocar a sineta? Andar filhos do diabo que q’ando morrer o mê pai hei-de a tocar eu sozinho o tempo todo.

Foi sobretudo a partir da década de 60 que a nossa cultura começou a matar a morte. De algo que era vivido em público, principalmente no meio rural – e Portugal era quase todo meio rural - em que a dor era comungada e sentida pela comunidade, o fenómeno passou a ocultar-se, a privatizar-se, a modernizar-se no sentido urbano. Observe-se um funeral numa cidade, ainda que de média dimensão, nos dias que correm. A cerimónia pode passar perfeitamente despercebida na confusão do trânsito ao pacato transeunte que se passeia na avenida entretido a contemplar as numerosas e coloridas montras comerciais. Ninguém sabe se naquela carrinha funerária de vidros fumados vai homem ou mulher, qual o seu nome, a que família pertencia, de que morreu. O sino não tocou nem 3, nem 4 vezes o requiem, e mesmo que tivesse tocado, ninguém o teria ouvido porque na cidade o sino não é referência, nem para as horas. E mesmo que o tivessem ouvido, não saberiam descodificar qu’arraio era aquilo. A comunidade não velou o corpo, não carpiu a mágoa da perda com a família. Não se via nem padre nem sacristão, nem lanterna, nem bandeira. Atrás do veículo não iam garotos a disputar uma campainha.

Sobretudo no contexto urbano, o quadro das práticas e das representações da morte foi retocado pelo progresso. As transformações são visíveis em todos os domínios: na dessacralização das exéquias; na crescente “desresponsabilização” da família, compensada pela hospitalização da morte; na profissionalização e comercialização dos rituais fúnebres; na substancial redução do período de luto, das suas manifestações e vivências; na adopção de novos métodos de evacuação como a cremação; na crescente privatização da dor, também por ausência de comunidade. A morte está mais discreta, afastada do nosso espaço quotidiano, porque mais banalizada. Seja na nossa comunidade, seja na dos Iraquianos, dos Curdos, dos Chineses ou dos Uzbeques, já nos habituámos a olhar para ela ao longe, recostados no sofá e chinelinho no pé.

O inglês Geoffrey Gorer antecipou na década de 50 que o assunto viria a tornar-se no tabu do sec. XX, destronando o sexo. Viu bem. Afinal, qual é o homem que se pode gabar de ter morrido, aos seus amigos?

Sentai-vos num môtcho e recordai os vossos que já partiram e reflecti sobre as vossas práticas e representações sobre o assunto. É tempo disso.

sexta-feira, outubro 19, 2007

A NOSSA FALA - XCVII - GA(T)CHO

Tão linear quanto injustificável: um GATCHO é uma uva, ou, se preferirmos um cacho. A sonorização gutural profunda do G predomina sobre o C como acontece em Espanha... E como estamos na Raia, o resto é fácil: tudo o que se escreva com CH em vez de X tem obrigatoriamente de ser pronunciado de forma aspirada dando o nosso típico TCH. É assim em CHAVE=tchave; em CACHEIRA =catcheira; em BUCHO=butcho; em CHÁ=tchá e por aí fora.

Acontece que o tempo das vindimas já foi. Mas ..., Em tempos idos quem marcava as vindimas era a festa de Sta Luzia no Castelejo (Fundão) que se festeja exactamente a 14 de Setembro junto com Sta Eufêmia a 15. O pessoal já tinha muito figo seco, o cereal tinha sido malhado e arrecadado, as couves já cobriam a terra, as frutas já enfeitavam as salas e sentia-se aquele perfume a maçã BRAVO-MOFO (= bravo de esmolfe), que não raro servia de mata borrão para beber um tinto do ano passado já em limpo naqueles fabulosos garrafões de vidro revestidos a verga e encastrados em sustentáculos de ferro forrados a palha. O vinho tirava-se por cima com uma borraha e nunca se deixava retroverter por mor de não eludrar. Havia muitos e bons vinhos na aldeia. Ainda há. Eu, com era o distribuidor (quase oficial) do gás conhecia o provo de quase todas as adegas e havia algumas de que não perdoava o provo. Muitas vezes cedinho, logo às seis, pois então. Valia que a lasca do presunto, a cunca do queijo, a malga das azeitonas e o naco do pão vinham sempre para baixo e não havia nada como escorropichar pela goela abaixo um valente copo daquele néctar que fez com que Noé amaldiçoasse os seus próprios filhos: "sereis os escravos dos escravos dos vossos filhos". Vede o poder do tinto!

Os bons costumes vão morrendo com os seus praticantes... Ora, era costume, aos Domingos depois de missa, almoço já meio desfeito, grupos de homens juntarem-se e, em vez de ficarem no largo do Zé Rolo, no Adro ou na Lameira, no Batoco, a jogar ao fito, em vez disso, a malta juntava-se e ia de adega em adega, bebendo do bom, sempre com bu(t)cha, até horas de jantar. Assim, mesmo que houvesse algum peso na cabeça, a coisa não preocupava demais, enquanto que se se metessem no vinho da tasca e a apanhassem, era certo e sabido que no outro dia andavam VARIADOS. Ainda fiz algumas destas procissões. Não era raro que ainda permanecessem dependurados, por uma guita, alguns gatchos, quase sempre brancos, Uva Formosa, Arinto, Moscatel, de volta com algum Ferral que o oídio tivera perdoado. Os gatchos de "pendura" eram sempre cobertos por uma folha de papel, algumas mesmo bordadas com tesoira de costura. Era uma honra chegar com uvas comestíveis à vindima do ano seguinte.

Foi num desses Domingos - aquele era soalheiro - que eu, meu pai e o velho Comandante, mais o Tonho Alfácea, o Mné Furdas, sr. Jaquim Bargão (repare-se na diferença do trato) e Tonho Modas iniciámos a ronda pelo Alfácea, passamos ao Furdas e chegamos ao Sr. Joaquim Bargão. Entrámos na adega, a menina Isabelinha não tardou com uma travessa com comestíveis ao toque de um pau no sobrado, e enquanto se lavavam os copos - naquela adega havia excepcionalmente um copo para cada convidado - foi-se conversando da vida e de aventuras dispersas, desde a picadela dum alacrário até uma fo(u)nisca que se desencaminhou para o forro do Furdas e ia pegando fogo à casa...

Copos lavados, o senhor Joaquim Bargão convida a deglutir os opíparos acepipes e faz chiar a torneira da pipa (as torneiras rodam-se sempre no sentido dos ponteiros e é proibido que para se fechar se utilize o movimento retrógado, por mor de não estragar o calejo da madeira e possa ficar a pingar), rodou então a torneira, encheu o copo e oferece-o ao Modas: " beba o sr. primeiro, ofereceu-me a mim" eu sou o mais novo", passou ao Comandante "primeiro o dono da casa" chega-se ao Modas "Ná, a mim não me engana", estica a oferta a meu pai "cse nenhum pegou, eu tamém não" e escusado será dizer que nem Alfácea nem Furdas aceitaram a ser os primeiros a beber...
Senhor Joaquim Bargão insistiu:« ninguém quer beber este copo?» Nada...«Então bebo-o eu». E foi assim... Bebeu, foi à bacia, lavou-o e deborcou-o no tampo da pipa: «Vamos embora». Ficaram todos a olhar... «Em minha casa não preciso que mandem beber».
E o facto é que não bebemos. Acabamos por achar graça, fomos ao Modas, ao Comandante e ao meu pai e no fim o senhor Joaquim Bargão: «agora voltamos à minha». E fomos. Já ninguém recusou o copo à primeira e também já nenhum precisava de jantar tal a quantidade, variedade e qualidade do que se comeu... E digo-vos: apesar de já ninguém ter sede, nenhum se embebedou e podeis crer, que de todos os vinhos aquele era de longe o melhor.
Deixo-vos um XXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. e prometo não voltar a andar tanto tempo arredado desta saborosa página.

terça-feira, outubro 16, 2007

A NOSSA FALA - XCVI - APULAR

Chegou-me recentemente às mãos o nº 6 da Revista Estudos de Castelo Branco, de Julho de 2007 (nova série). A revista original foi fundada em 1961 pelo quase patrício do Vale da Senhora da Póvoa, José Lopes Dias, e por João Caetano de Abrunhosa. Actualmente, a revista é dirigida por António Salvado, poeta, e altruísta e filantropo, (estes dois adjectivos são da minha inteira responsabilidade). Fundamento: recebo regularmente a revista em casa sem pagar um cêntimo. No dia da apresentação desta nova série, ocorrida faz este Outono 4 anos, à qual em boa hora fui assistir, e em que rápida e facilmente me apercebi da elevada qualidade da revista, entendi como justo, dar a minha modesta contribuição, ao menos como assinante e leitor pagante. Já não me recordo bem das palavras do Dr António Salvado quando lhe manifestei o gosto, sincero, em deixar logo ali o valor correspondente à assinatura anual, mas lembro-me que fiquei com a sensação de ter levado um raspanete. É que esta revista não visa qualquer lucro material para o seu director e proprietário, para o sub-director, para o administrador, ou, creio, mesmo para os autores dos textos. Esta revista assume como ideário “uma atenção persistente aos valores da cultura, que o mesmo é dizer aos valores intrínsecos do Homem”. “Apenas” isto.

De entre os textos que compõem este nº 6 – todos excelentes, como é timbre - não posso deixar de destacar um que surge na órbita de interesses aqui do Baságueda, da autoria de José Teodoro Prata, intitulado “Instantes saborosos”.

Com a devida vénia, passo um cheirinho:

“O mundo em que me fiz gente já não existe. (…) Não foi na cama que a minha mãe me teve. Ela agachou-se e fez força para eu sair, enquanto a irmã dela, a minha tia Estela, a segurava pelos braços e a senhora Celeste Dias, a parteira, me apulava com as mãos. Mas o meu pai contava doutra maneira. Eu fui deixado por um lobo atrás de umas giestas, por cima das Lameiras, na serra, onde ele andava a cortar pedra. Ainda viu o lobo a escapar. Ouviu-me a chorar e trouxe-me para a minha mãe me criar. Não sei qual destas histórias é verdadeira, mas acredito nas duas.”

O autor faz uma breve passagem por todas as datas, social e religiosamente relevantes para a sua comunidade (S. Vicente da Beira), descrevendo sucintamente alguns dos costumes, tradições, cantigas, ladainhas associados. Em anexo, resume as receitas de alguns dos manjares típicos da sua aldeia - praticamente em tudo iguais aos que conhecemos aqui à beirinha da Baságueda - e acaba com um pequeno glossário de vocábulos da "fala" de S. Vicente - quase todos conhecidos e com o mesmo significado. Foi a consultá-lo que fiquei a saber que na “fala” do autor, apular significa: apanhar algo que vem de cima, que cai. Não sei se o termo faz parte da "fala" aqui na bacia da Baságueda, mas faz parte da ruralidade um pouco mais de volta, por isso, creio que pode legitimamente juntar-se à "nossa fala" e torná-la ainda mais rica.

sábado, setembro 01, 2007

A NOSSA FALA - XCV- CO(U)RRI(t)CHAS/CARRICHAS

Contra a corrente empirista que se limita a asseverar que o hábito mais não é do que a repetição continuada de uma mesma experiência, já o velho(!) Georges Washington, rebatia ao afirmar que "o hábito não é uma segunda natureza, ... ,ele vale mais que dez vezes a natureza! "
Vem isto a propósito de que, muitas vezes,nos ”avezamos” a pronunciar, não importa o quê, de determinada maneira e, se ouvimos esse termo de modo diferente, depressa acusamos o emissor, dizendo que não se deixe embarcar nas formas de dizer comuns e diga as coisas comédado. Por exemplo: na nossa aldeia todos chamam ao Domingos, filho do Lavra Miúdo, fai nica, mas a verdade é, que, quando ele andava com os Tiagos, ali para as portelas, já a dar vistas para as minas do Pinheiro, nas traseiras do João Rela e do Tonho Sarrabeco, o cachopo, irmão do actual coveiro - O Tonho Zéi - quando, miúdo ainda, vizinho que era dos Tiagos, malinos dum corno, estes lhe atiravam lascas a zunir às orelhas para o atentarem de grande. O fai nica não sabia de onde vinha o zaranzum, e, acagaçado com o medo - afinal era um petiz - começava a gritar :«PAI A MICA,PAI A MICA..., o que, pura e simplesmente, apenas queria dizer «ó pai vem aqui ao pé de mim!».
Joaquim, lavra miúdo,com quem reparti muitas manhãs de dar água ao lagar, ouvia o bramir do MINGA e lá ia a ver o que se passava...: FAINICA, OU, PAI A MICA, pedia então corrichas, currichas ou carrichas ao LAVRA MIÚDO e ele lá acedia ao pedido, montando o filho às costas (às cavalitas) até sítio onde as pedradas dos filhos dos Tiagos ou do Sarrabeco já não alcançassem...
Outros tempos... em que as crenças no diabo e seus apaniguados era outra...
A mãe logo dizia que "aquilo era a diabólica" e acendia o toco de uma vela à imagem da SS. Sagrada Família, que recebia cada três semanas e à qual, obrigatoriamente, mantinha aceso um pavio feito de encastramento de ervas que se colocava num triângulo de lata, cujos bicos, espetados em nacos de cortiça, permitiam a flutuação em azeite virgem, que servia de combustível.
É meu crer que muitos dos que me lêem tenham tido em casa o pequeno tabernáculo da Sagrada Família, que, como é sabido, transitava de casa em casa, sabendo nós de quem o recebíamos e a quem o passaríamos... Muitas vezes fiz essa transição ...
A vez em que na aldeia, que eu me lembre, vi mais garotos às currichas dos pais foi nas festas da Desfolhada (por questões com o prior já aqui narradas) por alturas do ”Sr S. Bartolomeu” - faz agora anos - quando o velho professor Leitão, em combinação com o saudoso Tarzan Taborda, traz à terra dos Xendros, Francisco Xavier (mister músculo do ano - já não sei qual) para fazerem uma demonstração de CATCH AS CATH CAN, em tradução livre: AGARRA COMO PUDERES, E O QUE PUDERES, não importa como, ou numa tradução mais inteligível: LUTA LIVRE, especialidade onde o nosso Albano Taborda Curto, ou Albano Taborda Curtis, ou simplesmente TARZAN, era especialista, tendo sido por mais que uma vez Campeão mundial.
Famosas ficaram as lutas com o algarvio Zé Luís de quem se dizia que tinha uma marrada, digo, uma cabeçada, mais forte que um carneiro. Conta- se até que de tanto marrar, digo, cabecear, contra um sobreiro este, dorido com tanta marrada, deixou de se vestir de cortiça e secou.
Bem..., naquele ano então houve espectáculo de luta livre: Tarzan contra Xico Xavier!
Talvez a maioria dos que me lêem, Xendros que sejam, não saiba o porquê daquele quadrado de cimento existente a meio da lameira... Ora, aqui fica a explicação: aquele "ringue" foi propositadamente feito para a luta entre Tarzan e Xavier...
Depois foi aproveitado para pista de dança, nas festas.
Foi então dessa vez que a canalha exigiu corrichas aos pais para conseguir ver o famoso golpe de tesoura que Tarzan aplicava, fazendo uma espécie de mortal à rectaguarga, apoiando as mãos no chão e engarranchando os pés cruzados (daí o nome de tesoura) no pescoço do adversário.
Lembro-me do Domingos Patanisca que estava comigo na linha da frente:"o filho da puta, mal lhe botou as patas ao cachaço, ardulhou-o logo". E foi mesmo assim: Xico Xavier caíu redondo chão, entalado entre as pernas de Albano Curtis. Foi o delírio na aldeia. Toda a canalha às corrichas batia palmas freneticamente, os PsYcadelic Set, com Tó Nô, Pedro Veiga, Xico Milheiro e o velho Cisne arrancam com Rolling Stones e camarada Licas, sozinho, entoava no seu inconfundível estilo aicanaguetanou. Inesquecível! Só mesmo quem viveu...
Agora nem que vos ponha às corritchas... Tarzan já partiu e do Xico Xavier nada sei. Do Licas todos sabemos e dos Psycadelic Set sei de alguns.
Se há coisa onde a nossa aldeia não tem grande nomeada é em matéria de artistas musicais... Aldeia de João Pires tem banda, Aranhas tem Rancho, Penamacor tem o Telmo e Rancho, Pedrógão tem banda, ... a aldeia não tem coisa de jeito a não ser agora o coro da igreja, mas só para esse efeito.
Àparte o Chquim Ventaneira e o seu pífaro, o Domingos Poças com a sua concertina, o Tonho Bondito com o seu Armonho, que o Tonho Fatela também arranhava numa desgarrada, não há memória de grandes executantes do que quer que fosse.
Foi numa destas desgarradas em que Manel Manata, o bisga, também apareceu com o seu acordeão, que apareceu um visitante do Meimão que desafiou o Manata:" Cala-te aí, ó boca aberta,/Meu goelas de peru/Os teus dentes são navalhas/Faz-me aqui a barba ao cu... O Manata afinou logo: "Tu num estás a ver bem/ o barbeiro com quem te metes/tenho cinquenta navalhas/ e duzentos canivetes/.... A coisa foi crescendo, mas, ao fim, tudo acabava em bem. Pergunta o bisga do velho Manata ao cantador do Meimão:«Como é a sua graça?» -" Porfírio Branco... e o Manata: pois eu profírio tinto.
Ah tempo! como diria o velho Comandante às corrichas de quem me passeei muitas vezes....
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sexta-feira, agosto 17, 2007

A NOSSA FALA XCIV - BUÊR

Era dia de matança e eu assumira o controlo do palhinhas com a missão de manter o vasilhame individual com uma pinguinha no cimo. Ti Julho Sardones acabara de emborcar o 2º, apenas à conta de uma azeitona carrasquenha retalhada e ficara a mirar, compenetrado, para o copo vazio que continuava a segurar à altura dos olhos.
- Vai mai um Ti Julho?
Ele deu um estalido de língua e com ar muito sério informou:
- Ó Inserme, olha qu’ê gosto do filha da puta do vinho. Tem bom BUÊR. Bota lá outro.

Veio-me este episódio à lembrança há dias num corredor de uma grande superfície onde jaziam expostas uma catrefada de garrafas de vinho de múltiplas proveniências, qualidades e preços. E eu precisava apenas de um tintinho para acompanhar um besugo grelhado ao almoço. Hesitante, perante tanta oferta, fui criteriando entre o preço médio e a região vitivinícola. Num Alentejano descubro:

“Vinho tinto macio, de cor vermelha intensa, com reflexos violáceos. Levemente abaunilhados, os aromas e o sabor são bem marcados a fruta, lembrando compotas de frutos vermelhos. Apresenta um final de prova prolongado e muito suave.”

Fiquei tentado. Continuei para um Bairrada, cuja literatura proclamava:

“Vinho de cor granada profunda, de aroma rico e complexo dominado por notas de frutos vermelhos, frutos secos e caruma, envolvidos por muito ténues notas de madeira. O sabor é agradável, encorpado, com taninos redondos e excelente persistência gustativa.”

Tudo à minha volta emudeceu para me facilitar a viagem pelos aromas a caruma e abaunilhados, pelos sabores encorpados e a frutos vermelhos, pelos taninos suaves e redondos…A viagem prosseguiu inadvertidamente para uma reflexão sobre o código linguístico em que assenta esta deliciosa literatura. Socorro-me de Basil Bernstein e da sua teoria sócio-linguística concebida no âmbito da problemática do processo educativo. Esta teoria inscreve-se no que se poderá chamar “paradigma determinista” que pretende explicar o (in)sucesso escolar. Muito telegraficamente, a teoria postula a existência de 2 códigos que no processo educativo reflectem uma correspondência entre modos de expressão cognitiva e estrutura de classes, fazendo sentir os seus efeitos ao nível do (in)sucesso escolar (e também nos comportamentos sociais). Chama-lhes o autor código restrito e código elaborado. O primeiro caracteriza-se por uma estrutura semântica particularista, fraca complexidade léxica e gramatical, construção sintáctica pobre, tudo traduzido numa linguagem concreta e descritiva, muitas metáforas, recurso a uma gama limitada de adjectivos e advérbios. O código elaborado, para abreviar, caracteriza-se pelo oposto. Salto já para o corolário: o código elaborado é mais frequente à medida que se sobe na estrutura de classes sociais, o código restrito é partilhado nas classes mais baixas. A escola privilegia o código elaborado, logo, à partida, as probabilidades de sucesso escolar tenderão a ser mais elevadas nos alunos mais familiarizados com ele, ou seja, os alunos das classes mais altas, fenómeno que, denunciaram Bourdieu e outros, contribui para a reprodução das desigualdades sociais. Mas isso não é conversa para aqui.

Forçando uma importação (bem martelada, diga-se), da teoria dos códigos para a descrição dos vinhos, considerando-me eu um indivíduo da classe alta (em termos de provo, entenda-se), compreender-se-á que não tenha resistido ao Douro de 2003 que exibia esta pérola:

“Os aromas emergem extravagantes, misteriosos e quase exóticos, juntando-se a um estilo perfumado que acompanha notas de café e frutos negros. Um toque de carvalho veio acrescentar uma deliciosa fragrância fumada que intensifica a já existente e suave nota de cereja. Este vinho apresenta-se encorpado, com alguma estrutura firme e um final de prova invulgarmente longo.”

Eu seja ceguinho se não me esforcei por detectar a extravagância do aroma e a fragrância fumada do carvalho. Admito que não fui capaz. O que posso dizer é que gostei do filha da puta do vinho. Tinha bom BUÊR.