terça-feira, maio 24, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLIII - TRAMPASSO


Começa a ficar cada vez mais raro que a profissão escolhida e exercida por quem quer que seja, se mantenha a mesma por toda a vida. Antigamente era-se alfaiate toda a vida, ou pedreiro, ou albardeiro, ou talhante, ou professor,...Hoje por hoje, esse tipo de estratificação profissional social vai ficando cada vez mais esbatido. Não é por acaso que cada vez mais ouvimos um já quase aforismo:"já nada é como dantes". Na verdade, tenho mais que saudades daqueles serões em que a família se reunia à espera que o jantar (ceia, muitas vezes) fosse despejado da panela de ferro, pela mãe, e para um barranhão de onde todos partilhavam, ora com colher ora com garfo a ementa que era muitas vezes a mesma do dia ou dias anteriores. Comia-se o que a terra dava na altura em que dava. Por exemplo, nesta altura do ano, havia muito pouco que meter na panela: já se acabaram os grelos de couve e nabo, sobram algumas acelgas para o caldo e o resto torna-se complicado conseguir variar. Sobram ainda algumas batatas encarquilhadas, já destaladas no mínimo duas, senão três, vezes, umas cebolinhas já com grelo crescido, um dentinho de alho, uma pinga de azeite e uns feijões ou grãos, alguma carne da salgadeira e viva o velho! Aos domingos ou dia de festa, de vez em quando, lá jurava bandeira um coelho, uma galinha da capoeira, um bocado de carne de quadrúpede ruminante. Mantinha-se o naco do queijo, a tora do toucinho, pão que bastasse, a malga de azeitonas e havia que aguardar pelas novidades que agora ainda germinavam na terra e hão-de redundar numa abundância, sempre contida, lá para o fim do mês, princípios de junho: alface com fartura, algum repolho, cebola nova, batata temporã, ervilha, fava, cereja nalgumas zonas, morangos (poucos) e os viajantes já iam aparecendo com tomate, melão de sequeiro,...  O certo  é que ninguém falava de glufosato e afins: caldeava-se com bordalesa, mondava-se à mão, picava-se e sachava-se, escavachava-se, esborralhava-se, desmamava-se ou desladroava-se... Vai lá vai...Isto sim que era agricultura biológica. Nada do que passa hoje em dia, em que há de tudo o ano inteiro e passamos a vida a consumir produtos cheios de infestantes e muito mais. É caso de dizer como o velho Comandante: "ah! tempo... .
Nem sei mesmo quantos trampassos me aconteceram quando por caminhos velhos, veredas e córregos, às vezes meio ensonado, lá ia eu de sachola ou enxada ao ombro, a caminho do chão e começava logo a sério a esgalhar... Não era preciso aquecimento. Depressa se ficava a suar...
Muita outras tradições, costumes, festas e até hábitos e práticas ainda me deixam marcas e, embora siga Sofia Andresen: "tenho é saudades do futuro"...de vez em quando olho para trás e ainda recupero algumas das vivências daqueles tempos de antanho. Outros trarei noutras alturas se se proporcionar, aqui no basa... Quem sabe lá um dia vos conte o maior trampasso da minha vida quando, montado numa bicicleta empanquei numa corda esticada na estrada porque um cabrito preso a um borrego se lembrou de atravessar para o outro lado da valeta e eu fiquei estatelado na estrada com os dentes partidos a verem-se-me... Quem sabe.
Foi a lembrar-me  de que tudo vai mudando e da "inexorável sucessão do tempo" que fui rebuscar  um outro texto que um dia escrevi a propósito de um dos mais candentes temas da actualidade. Trata-se dos novos deuses. Se é verdade que as velhas religiões se mantêm e algumas até estão em expansão, não é menos verdade que surgem, a cada hora, novas formas de religiosidade que assentando, na sua maioria, nos princípios e mitos das religiões tradicionais, propõem novas formas de relacionamento com as divindades e não há dúvida que elas vão atraindo fiéis.
Deixo-vos o texto que vale pelo que vale... Se me quiserdes deixar eco, sabeis como fazê-lo.


O SER, O TER E OS NOVOS DEUSES


SE EU PUDESSE NÃO TER O SER QUE TENHO
SERIA FELIZ AQUI…
QUE GRANDE SONHO
SER QUEM NÃO SABE QUEM É E SORRI!

MAS EU ME ESTRANHO
SE EM SONHO ME VI…
TAL QUAL NO TAMANHO
O QUE NUNCA VI…

Fernando Pessoa  18/6/1930


SER
TER
1- ESSÊNCIA – (AQUILO QUE O HOMEM É  INDEPENDENTEMENTE DAQUILO A QUE POSSA  ADERIR)
1 - EXISTÊNCIA  ( A REALIDADE É ONDE O HOMEM ORGANIZA A SUA VIDA)

2 – INTERESSA-SE PELA VIDA ÍNTIMA DO HOMEM (AQUILO QUE LHE É SUBSTANTIVO)
2 – INTERESSA-SE PELO HOMEM ACTIVO /PROFISSIONAL E SOCIALMENTE (VAI DO PAPEL AO ESTATUTO)

3- PERGUNTA FUNDAMENTAL: QUAL O MEU MODO DE VIDA?
3 – PERGUNTA FUNDAMENTAL: QUAL DEVE SER O MEU MODO DE VIDA?

4 – O IMPORTANTE É FORMAR PERSONALIDADES
4 – O IMPORTANTE É FORMAR O HOMEM PARA A VIDA

5 – ALGUNS EXEMPLOS HISTÓRICOS:
5 – ALGUNS EXEMPLOS HISTÓRICOS :

A – SÓCRATES
A – PLATÃO
   LIBERDADE
TAREFAS OBJECTIVAS DO HOMEM
   INDEPENDÊNCIA
BUSCA DO MUNDO PERFEITO
   COERÊNCIA


B - CRISTO
B - RENASCIMETO
 DAR A VIDA PELO OUTRO
ÊXITOS PESSOAIS / MATERIAIS / SOCIAIS

C – COMENIUS
C – POSITIVISMO
 FORMAÇÃO DO HOMEM TOTAL
O QUE NÃO FOR DEMONSTRÁVEL NÃO TEM VALOR CIENTÍFICO.

D – ROUSSEAU
D – BEHAVIORISMO
A CRIANÇA É DE SUA ESSÊNCIA BOA, A SOCIEDADE É QUE A PERVERTE
O SUCESSO DO INDIVÍDUO ACARRETA O SUCESSO DA SOCIEDADE

E – PSICANÁLISE
E – MAQUIAVEL
EQUILÍBRIO INTERIOR
 VISA A RENTABILIDADE/SUCESSO MESMO QUE A CUSTO
MATURIDADE SENTIMENTAL

QUALIDADE DE EXISTÊNCIA INDIVIDUAL


F- O DECISIVO É QUE O HOMEM SEJA ALGUÉM.
F – O DECISIVO É O QUE O HOMEM FAZ.

G - O HOMEM É UM SER VIVO PARA SER FORMADO HARMONIOSAMENTE
G – O ALUNO /HOMEM É UM SER MOLDÁVEL

H – SATISFAZ AS APETÊNCIAS INDIVIDUAIS
H – O QUE DEVE SATISFAZER SÃO AS NECESSIDADES UTILITÁRIAS DA SOCIEDADE

I – PROCURA A REALIZAÇÃO PLENA  DO INDIVÍDUO QUE SENTIRÁ PRAZER NO FAZER BEM E COM AMOR.
I – VISA DOTAR A SOCIEDADE DE INDIVÍ  -DUOS COMPETENTES E ALTAMENTE QUALI -FICADOS

J – ENSINA A VIVER BEM CONNOSCO PRÓPRIOS MAS NEM SEMPRE FORNECE OS EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS
J - FORNECE CONHECIMENTOS MAS NÃO OS BONS MODOS DE UMA SÃ CONVIVÊNCIA SOCIAL.

L – O HOMEM VALE PELO QUE É E NÃO PELO QUE TEM.
L – O HOMEM VALE POR AQUILO QUE POSSUI.

M – O RESULTADO SERÁ UM HOMEM DESINTERESSADO E COMUNITÁRIO
M – O RESULTADO É UM HOMEM UNIDIMENSIONAL QUE SE FICA PELO LUCRO E PELO PODER.


"Ser" é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação com o outro...


 "Ter" é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O "ter" não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais "ter"!

Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma, querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade?

Com Erich Fromm, vemo-nos na contingência de chegar à dolorosa conclusão de que na sociedade contemporânea prevalecem valores (cada vez mais associados ao ´ter´) como o crescente desejo de posse de bens materiais, o consumismo e a sede de poder, o que coloca a humanidade no abissal caminho da destruição social, psicológica e ambiental o que mais agravará, inevitavelmente as desigualdades sociais.

Só o desvio dessa rota mortal, poderá posicionar o indivíduo no sentido construtivo do amor, da partilha e da actividade produtiva (valores associados ao ´ser´). Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos "ser" houver...) e alguma satisfação, sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.

A grande diferença  entre o “Ser” e “Ter”  é  que se estabelece uma sociedade centrada sobre as pessoas e não uma sociedade centrada sobre as coisas


OS NOVOS DEUSES

. Em termos de valoração a cultura ocidental é matriciada (entre outras influências) pelas culturas helena – judaica – romana – cristã - islamita. Vive-se um novo paganismo que mais não é que o renascer transfigurado de uma deificação de personalidades transcendentes clássicas (vg. Deuses).

. O próprio cristianismo é, no seu todo, a convergência resultante das influências gregas e judaicas, para além de outras anteriores, menos conhecidas, como sejam a mitologia egípcia e os apotegmas dos sábios da antiguidade e mesmo do Pitagorismo de Samos.

. Se até ao Sec. XVIII/XIX não se conhecem grandes obstáculos ao cristianismo e à tese do CRIACIONISMO, a partir de DARWIN, LAMARCK,… essa tese começa a ser contestada e, com o apoio das novidades científicas assentes, por vezes também, num POSITIVISMO DESENFREADO, emerge a nova coqueluche do mundo do saber – O EVOLUCIONISMO.

. Esta nova leitura do aparecimento do homem, que claramente desmonta a defesa de que Deus teria criado o homem à sua imagem e semelhança, arrasta a humanidade para uma nova perspectiva valorativa da existência.

. Abandona-se ou, pelo menos resfria-se o dogmatismo cego que, sem discutir, aceitava o que lhe era imposto pelos líderes religiosos e aventa-se uma nova hipótese que os tempos vieram demonstrar como credível.

. Em consequência, novos valores surgem e aos poucos vão ganhando terreno substituindo a religiosidade do senso comum pela crença bem justificada de valores materiais que desmontam do pedestal a mitofilia tradicional.

. Não mais a preocupação com a divindade, o pecado, a culpa, a ameaça do Além, o espírito de sacrifício, a subalternização à hierarquia, ao sofre e abstém-te; e em vez disso o consumismo desenfreado, apego ao bem estar terreno, ao prazer sensorial, ao gozo pleno.

. Se nos cingirmos apenas ao mundo europeu – o nosso – o que se passa é que dos anos sessenta para cá e, em definitivo, a partir da queda do mundo de Berlim, a Europa se alarga e se estende até à proibida Rússia e desconhecida Ucrânia.

. Com o advento e aperfeiçoamento diário das novas tecnologias deixa de haver fronteiras espaciais e passa a haver tão só fronteiras temporais, já nada é privado e tudo é publicitado. É a uniformização do vestuário, da música e de tudo o mais, superam e aniquilam, esvaziando-os, os ancestrais valores cristãos: é o nihilismo emergente.

. Os novos valores que deixam vazio o espaço ocupado pelos valores tradicionais, a começar por deus e por aí fora, conduzem a uma nova forma de paganismo e à INVENÇÃO DE NOVOS DEUSES.

. Estes novos deuses têm nova valoração, e proporcionam uma nova visão da realidade que se resolve em novas mentalidades. Há novos deuses com novos nomes, mas a fuga ao sagrado imposto conduz inexoravelmente a nova forma de paganismo.

. Assim, o primeiro deus do novo paganismo é o PODER, ressurreição do mais que antigo deus BAAL, materializado na posse do dinheiro. É a superioridade do TER e a descida de pedestal do SER.

. Os seus templos são as instituições financeiras e os sacerdotes são os corretores, os gestores financeiros, os economistas, os executivos.

. Em paralelo surge o deus SEXO e tudo o que à sua volta gira. É a ISHTAR da antiguidade. Já não se trata da fertilidade e da sua protecção, mas de toda a envolvência que entorna o poderoso negócio do sexo. Os templos estão por todo o lado - revistas, media, cinema, publicidade,… e os seus fiéis seguidores superabundam a cada esquina.

. Outro deus contemporâneo é a transfiguração de Calíope. A deusa da fama e da glória, dos feitos heroicos e grandiosos, A celebridade, e toda a iconografia do efémero transformado em produto de consumo avassalador.

Na maioria dos casos as pessoas conhecem estas celebridades, mas não sabem quem são e menos ainda o que fizeram para ser célebres. O grande templo, o Vaticano ou a Meca desta deusa é a TELEVISÃO. Todos para lá se viram e regem a sua vida em função da sua programação.

E o telemóvel? Gravitamos continuamente em torno dele …Podemos esquecer-nos das chaves de casa, dos óculos e até da carteira…mas do telemóvel? Desse nunca. A memória perdeu valor. Guardamos tudo no artefacto e é ele que nos desperta, nos lembra da agenda, nos põe em comunicação, nos ajuda a passar o tempo, nos informa acerca do tempo. Estamos, sem dúvida, na sua dependência e evidencia-se a sua cada vez maior importância…

Há mais novos deuses, mas para amostra ficam estes.

Deixo-vos a questão: será este paganismo melhor do que o anterior à missionação heleno/romana/judaica/cristã/islamita?
A resposta cabe-vos a vós.

Nota: não é preciso ficardes de cara à banda ou de queixo caído como se vos tivesse acontecido um trampasso como o meu da bicicleta abaixo.


XXXXXXXXXXIIIGGRANDDDDEE!


sábado, abril 09, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLII - LIN(T)CHEIRA

O saber popular expressa-se de múltiplos modos: aforismos, lenga-lengas, ditados, costumes, tradições, festividades, crendices, bruxarias,.., que sei eu?! Creio, todavia, que é nos provérbios que ele melhor se exprime e condensa. Sabendo nós que a sua cientificidade é reduzidíssima, dadas as suas constantes incoerências, nem por isso perdem validade  e regulam muitas das actividades quotidianas, desde o casamento à educação dos filhos, ao respeito pelos mais velhos às sementeiras e colheitas e por aí fora... Deixo-vos uma amostra, perfeitamente ao acaso e pode acontecer que nunca tenhais contactado com alguns deles: "se queres comprar, nunca compres a quem comprou, mas a quem herdou"; “quem muito dorme, pouco aprende”; “é como a lenha verde que mal se acende”; “o trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco”; “quem com menino se deitou, sempre borrado se achou”; “cerração baixa, sol que racha”,... O enraizamento destes saberes é tão profundo que mais parece um lin(t)cheira, que até mesmo uma retro escavadora demora a arrancar, e muitas vezes nem consegue, obrigando ao uso de pólvora barroqueira.
Não vale a pena armarmo-nos de argumentação bem fundamentada porque nada demoverá este saber sedimentado e transmitido de geração em geração. Aos poucos,  ele vai desaparecendo e uma das razões para tal será, sem sombra de dúvidas o facto de já não haver serões. A panelinha de ferro ao lume cozendo as espigas de couve ou de nabo, adubados com uma farinheira ou uma buchanha que logo se partilham num barranhão, davam oportunidade para se ir falando de tudo e, mesmo assim, não era muito, que as preocupações eram as caseiras e pouco mais. Era nestes momentos, sobretudo nas noites de invernia, todos juntos ao lume, olhando o crepitar da chama, sempre regrada que a lenha não caía do céu como a chuva, e acompanhando os espanhóis (faúlhas)  na sua agonia até se transformarem em fonas... Foi aí que eu contactei com muito do que sei em matéria do saber fazer. Só que, como já não há serões, olha!, deixo amostras aqui no basa...
Saramago dizia que o homem que conhecera e mais sabia, não sabia ler nem escrever e se eu não posso dizer isso, porque tive um Padre Manuel Antunes que me deixava de boca aberta o tempo todo, não me custa já defender que entre os que conheci e mais me ensinaram, no que toca à prática de vida e valores , ocupa lugar  de destaque o velho Comandante do Inferno, meu avô paterno. Também o professor Zé Paula, o Tanganho, que em matéria de astros e  muito mais era um entretainer incomparável; o Zé Borges, aldrabão por excelência, que sabia contar histórias como ninguém, enfim... tantos outros xendros que deixaram em mim marcas indeléveis, tal qual lintcheiras tão enterradas que o tempo não é capaz de as arredar.
Ao longo dos tempos, sem dúvida, o homem foi sempre evoluindo mas o presente só é o que é, porque atrás está um passado que o suporta.
Deixo-vos hoje um outro texto que escrevi há já uns anos e que nas lintcheiras do sótão fui encontrar. Resolvi ressuscitá-lo. Chama-se “O Homem Revisitado”:
Se é verdade, como diz James: - que a nossa mente é contínua - , então, estamos sempre activos em pensamento. Só que de alguns nos damos conta e de outros nem tanto… Mesmo assim continuamos sempre a pensar.
        A nossa atenção ao meio próximo circundante, mesmo se a tarefa que desempenhamos é do nosso inteiro agrado e a motivação é forte, mesmo aí, dificilmente estamos mais de oito segundos concentrados. Esta é a saúde do nosso espírito: uma dispersão selectiva ou orientada. Nem obsessão concentracional ou monoideísmo obsessivo nem poliideísmo difuso.
Fazeis então bem quando saís e vos perguntais pela saúde do vosso filho ou sobre o que irá ser o vosso almoço, hoje. A nossa mente é uma vadia, até porque, como diz o poeta, “não há machado que corte a raíz ao pensamento”. Vadiemos, pois. Mas, …, de vez em quando passemos por nós e por aqueles que nos enviam a sua mensagem. Foi assim que num daqueles  momentos de hipnogagia, já quase a descambar para Morfeu me pus a pensar de mim para mim e relembrei que eu, afinal, era um sujeito objectado. Eu era o outro de mim mesmo. Uma espécie de não-eu como queria Fichte. A minha consciência de mim implica que sejamos dois num: um eu e um não-eu. A identidade funde-se com a alteridade, mas não em tempos diferentes como o filósofo do absoluto defendia. E a questão emergiu: então o sujeito é um objecto. Vai daí, propus-me um projecto que não me fosse, nem, muito menos para vós, abjecto… Decidi: tens um problema injecto…. Agora procura o melhor trajecto para que ele tenha algum afecto e não o considerem um dejecto. E foi assim que o feto começou a crescer no mais íntimo do meu imo.
Foi esta lucubração que me trouxe à ideia deter-me um pouco e pensar. Nesta época de velocidade onde tudo e todos voam à velocidade de um simples click, esta atitude até parece ter o seu quê de bizarro! Pensar! que desperdício....
        Ainda assim, sempre fui contra o que sói dizer-se FAST: contra a fast food, e mais ainda contra o FAST THINKING. Pensar depressa para quê. Já o velho Cartesius aconselhava que nos precatássemos contra a precipitação... nanja que eu seja muito seguidista deste racionalista metodista, mas, se se souber olhar, sempre se descortina algo de positivo onde se pensa que tudo é déjà vu!
        Assim decidi divagar, mas devagar, m u i t o    d    e   v   a   g   a   r  i-  n  h  o.!
        As ideias, ao princípio, atafulhavam-se, e como gladiadores em arena de Coliseu, umas com retis e outras com Gladium, à porfia lutavam para ver qual veria o polegar de César apontando para cima.... Olha, agora veio-me uma que calcou as outras todas! Já reparastes vós que os nossos jovens, nos dias de hoje estão a dar uma ocupação nova ao nosso velhinho polegar?! De facto, este velho oponente aos outros prolongamentos da mão, é agora senhor de uma destreza excepcional... olhai para eles, quando mexem nos telemóveis, vede a que velocidade emitem mensagens ou digitam um número de telefone. Se quereis saber o número digitado só se tiverdes à mão uma câmara lenta…
        Já aferistes que voltamos a dar razão àquilo que sempre foi defendido? A verdade é que é a mão que desenvolve o cérebro e não este aquela. A necessidade de segurar liberta mais uma vez o polegar, e, ainda mais, se reforça a sua importância decisiva. Se a oponência do polegar permitiu a preensão, agora a sua libertação das funções de contra força, deixam lugar para a destreza, a habilidade. Finalmente, já não é o gordo que vai para a baliza.... Ele agora corre como os outros e mais: corre com os outros! É lindo!
        Esta marca humana decisiva para a sua evolução fez-me lembrar o título dos nossos encontros: o homem revisitado... e se voltássemos a olhar o homem tal como me revi e me revisito todos os dias? Sempre igual e sempre diferente.
        Nunca sou ou somos completamente velhos conhecidos, mas também não somos clones de nós mesmos. Como é agradável cada manhã vermos a nossa narcisidade e saudarmo-nos logo com um humor cáustico: bom dia, carga de ossos com carne! Tens à frente mais um dia, encarrega-te dele senão ele encarrega-se de ti...
        Vamos então revisitar o homem.
        A perspectiva que vos quero apresentar não pretende ser exaustiva, - haverá alguma coisa que o seja? - mas visa ser uma visão diferente , pessoal e com toda a certeza  é original.
        Enquanto sujeito do mundo ele mais não é que um objecto desse mesmo mundo. É um entre os demais. Ao princípio viveu numa fusão perfeita enquadrando-se no seu habitat jogando o seu papel, lutando pela sobrevivência. É um sujeito idiossincrético e como tal mesmo sem a racionalidade que depois lhe vai dar a marca distintiva durante séculos ainda hoje perdurável, - o homem como animal racional -  idiossincrásico, numa harmonia que de selvagem tem o título infeliz que muitos lhe deram e que Lévy Stauss em boa hora corrigiu. Tinha uma lógica vivencial, pré-científica, é verdade, mas nem por isso menos lógica. O tempo era o tempo presente. O seu tempo, aquele mesmo que o obrigava a buscar sustentação, gregação e reprodução nos termos do chinês de Konigsberg. Este sujeito indistinto, imiscuído na perfeição do universo fazia parte da vida no mesmo patamar que muitos outros. Este sujeito deixava-se ficar sujeito à roda do devir e, aos poucos, começando a ler o que o rodeia, inicia uma nova narrativa que lhe possibilita uma nova gramática relacional na geometria espacial que o envolvia. É simultaneamente hiperactivado pela necessidade natural de se manter vivo e passivo, no sentido de sofredor, como tudo o que traz à mistura paixão. Este sujeito físico a breve trecho se torna metafísico, quer ordenar o que em si mesmo é caos. Como Ovídio in principio moles imensa indigestaque erat. O desejo de ordem afasta-o de si. Pendura-se num ordenador. Como não se fizera a si mesmo, a sua lógica levava-o a que alguém o tivesse feito. Os outros como ele, também não teriam tido essa capacidade, pelo que ele derivaria de um estranho a si mesmo. Não só ele, também o que o rodeava e lhe oferecia tanta diferenciação. Se ele não fazia o que o rodeava nem a si mesmo, mistério era e a exigência de um ser metahumano se tornasse emergente. A divindade, quando não as múltiplas divindades, respondiam às questões que o apoquentavam. E ele sossegou.
        Mas... oh sortilégio, a idade de ouro, não podia durar por muito tempo e o abandono do paraíso não tarda... Ainda se volta para si a ver se encontrava respostas, mas aqueles que a procuram são iníquos e morrem às mãos dos seus iguais. Aí temos o sujeito social e enquanto social o sujeito político, o que ao não saber governar-se apoia que outros o governem... O político enquanto sujeito aliena a sua vontade, anonimiza-se, confunde-se no seio dos seus iguais e a sua virgindade inicial é conspurcada pelo ódio, inveja, escravização... A racionalidade afinal deixa-se vencer pelo sensorialismo. É bem verdade que o político é muitas vezes bem pouco polido…
        O desmoronamento dos valores essenciais humanos inevitavelmente conduz a uma época do salve-se quem puder em que o sujeito é personificado, teocrático…. Impunha-se um novo sujeito que na convergência da valoração apresentasse pontos de vista divergentes. O sujeito do rompimento, da ruptura com os status quo, um sujeito dividido, um sujeito cristão, que, aos poucos se apossa de meio mundo e tentacularmente também ele aniquila quem é contra ele. Sujeito que realça a futilidade dos bens materiais e promete para além túmulo um mundo de bem aventuranças. O mundo deixou de ser humano, passou a ser ecuménico. É o sujeito catecúmeno possuído por uma catequese escatológica em que a razão cede lugar à crença, em que o dogma se confunde com a verdade, e a dúvida despertadora é esmagada ao peso da imposição inquisitorial. Só que este sujeito, de si, é insatisfeito, avesso a continuuns estagnantes que favorecem a putrefacção, e quer novas fontes, novos rios de verdade e, embora a custo e após penumbra quase eclíptica, reassume o seu lugar górdio, renasce e das cinzas de Fénix as sementes, tanto tempo hermeticamente enclausuradas num vórtice de mistérios, abrem-se agora para um novo dia e um nova postura. O homem humaniza-se. É o sujeito humanista, centro dos centros. Abre-se ao mundo e abre os mundos. Rompe com o establishment e com a nomenklatur. Conhece e conhece-se, a doutrina cede o passo à prática e o saber deixa o trono para o conhecer. A investigação arreda o magister dixit, e os adivinhos, videntes e bruxos caducam ante a universalização das leis entretanto conquistadas à força de verificações experimentais. As sacralizações profanizam-se, a razão vai aos píncaros da sua capacidade e, tribunalícia, estabelece limites à sua própria extensão e compreensão.
     Vem já aí a caminho o sujeito individual, o que rejeita a lógica dos sistema e rebelde entende que a sua liberdade se exerce no seio dos outros. Alguns velhos do Restelo bem vociferam a força da ordem, da constância do método, do rigor da mathesis universalis. Mas o sujeito tinha aprendido a andar e quer agora caminhar e devolver de novo à natura aquilo que nunca dela deveria ter sido desapossado. Aí está o sujeito experimentalista, laboratorial, positivo. Fundamentalista na sua convicção que nada podia escapar à verificação factual, ufano nos poderes da previsibilidade e do controle, veste fato de gala e pretende de novo sujeitar-se a si mesmo a uns contornos de predefinição. Nem já a imaginação tinha lugar neste sujeito tirano que, à margem do que as circunstâncias aconselhavam, recusava a revisibilidade dos conceitos e queria o emparedamento das convenções. A poesia não cabia, tinha que tudo ficar ao nível de uma prosa fria, carrilada, dedutiva, sempre de navegação à vista…
        Sempre a presunção umbilical, libidinosa do mandarinato científico!
        Mas se há sujeitos que tudo querem sujeitar outros há que rejeitam o metodismo, a repetição o “amén…“ Afinal a teoria que nunca tinha sido e ainda continua por ser provada, a teoria da evolução, segue sendo isso mesmo: uma teoria. Como tal hipotética, provável, polémica, descarrilada…Mais uma vez o sacralizado, o intocável, rui e até mesmo o átomo se desintegra, o que era elemento ínfimo, é agora múltiplo composto, o que estava em repouso agita-se, e com que força! O sujeito atómico ‘ cria um poder sobre o qual deixa de ter poder ‘ como nos ajuda Morin, e, o que era visto como isolado, é entendido como inserido num campo, como muitos nos ensinaram desde Maxwell, a Lewin e Bourdieu. E para mais o sujeito guerreiro revive nos movimentos independentistas e as fronteiras deixam de ser espaciais para passarem apenas a ser temporais, como futuramente nos vai avisar Toffler. Com a guerra somos obrigados a recordar Vieira: «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela, e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.»
        Como eu gostava de escrever como este sujeito escritor. Antes como agora o sujeito belicoso acarreta para a humanidade sempre este rol de desgraças. E nesta nossa revisita ao homem pergunta que se impõe será a saber quantos dias de paz conheceu a humanidade….
        Mas… é forçoso que continuemos a nossa viagem por algumas das facetas que o homem enquanto sujeito nos foi deixando no tempo.
        Já não bastava a destruição de alguns dos paradigmas, quando o mundo é acordado pelo escândalo menos esperado: chegou o sujeito sexual. O último tabu, aquele que se velava, fosse de tanga ou com as mais sofisticadas roupas, é agora deixado às claras e considerado como o responsável mor pelo comportamento humano. Vasculha-se até ao mais fundo do segredo pessoal, descodificam-se os sonhos, põe-se ao léu o que fortalezas consideradas inexpugnáveis pelo sujeito ciosamente guardavam. O importante não é o que se vê ou o que se diz, mas antes o que se oculta.
Afinal a verdade está escondida e o que é preciso é encontrar as armas adequadas para a desvendar.
Parecia adivinhar-se o sujeito fiscal… Era preciso guardar as verdades; afinal já nada está seguro? Os guardiões dos templos, qual horda organizada, poderosa no seu STATUS a breve trecho cria o sujeito epistemológico, hidra de sete cabeças e boca voraz, ressurreição inquisitorial, microscópinvestiga e acerrimamente critica quem extravasa das margens. Mais uma vez este sujeito inquisitorial se esquece que o rio é livre e que a culpa nunca é dele, mas exactamente das margens que o apertam na soberba imagem de Brecht.
O novo sujeito agora possesso pela energia liberta e, simultaneamente, controlada, a breve trecho, vai espezinhar este sujeito epistemológico, indivíduo de escola, servil e obediente, que apenas arriscava pôr os pés nas poldras que sobressaíssem seguras da torrente das águas. De pouco lhe valeu. O sujeito epistemológico esqueceu-se do sujeito epistémico, inovador, investigador, curioso, indomável, agressivo, rebelde, cada dia novo. Como bola de neve rolando o volume do seu tamanho aumenta e arrasa o que se opõe. Liberta-se de peias e assume uma nova postura, ávido de saber, não pára na sua indagação e olhando para trás aproveita o que de bom pelo tempo fora conseguindo e melhora significativamente as suas potencialidades.
É assim que chegamos ao sujeito cibernético, à era da tecla à fusão entre virtual e real. O tempo e o espaço deixam de pertencer à esfera do sujeito, que, estulto na sua comodidade, abre as portas aos invasores que, especialistas na arte do engodo lhe impingem de novo verdades que se convence serem insofismáveis. O sujeito cibernético, traz o sujeito marketing, o sujeito publicidade, o sujeito global…, fica tudo sujeito ao simples gesto de premir um botão.
Que homem é este que agora nos acompanha? Fecha as portas aos seus vizinhos próximos e escancara a sua sala, a privacidade do seu quarto, vilipendia a sua mesa, renega o diálogo familiar, abocanha a velocidade, corre mais depressa para a sua própria destruição…
Será este o homem apocalíptico?
Será desta que os tentáculos da mais ganância, a valoração da materialidade, do egoísmo e da competitividade dizimarão o nosso homem?
Não deixaremos nós também uma marca que permita aos vindouros revisitarem-nos?
Quero terminar com o sujeito esperançoso. O mundo e o homem não são feitos à imagem de George W. Bush.
Há outras leituras, outras narrativas e, como em todas as mitologias, o Bem sempre venceu o Mal.
Disse ou tenho dito que é o que se diz quando se disse o que se queria dizer. Disse!

Pronto ! Aqui tendes. Nunca sois obrigados a chegar ao fim do que não gostais.
Mas se aqui chegastes, espero que não vos sintais frustrados e, menos ainda que penseis que vos quis deixar uma  lintcheira.
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domingo, março 27, 2016

SENHORA DO INCENSO




Em 1997, o Jornal de Notícias distribuía uma colecção de 6 cd’s com recolhas musicais de todas as províncias e ilhas, numa antologia chamada “Portugal, raízes musicais”, sob a coordenação de José Alberto Sardinha, um investigador de música tradicional portuguesa que, na esteira do pioneiro Michel Giacometti, percorreu as aldeias do país a registar as tradições musicais mais genuínas.

Um desses cd’s é dedicado à música tradicional da Beira Baixa e Beira Transmontana. A faixa nº 7 foi gravada em Aldeia do Bispo, na Lagariça.

Não se sabe bem como é que as coisas aconteceram, mas há-de ter sido algo parecido com isto: José Alberto e o seu técnico arribam à terra dos xendros, vão à casa do pároco e perguntam-lhe o que existe de genuíno e autêntico naquela terra em matéria de música tradicional. O Pe Pinto ter-se-á lembrado, imediatamente, da tocadora mor de adufe que havia na aldeia: a Ti Júlia Toca.

Estabelecido o contacto, provavelmente ali no cantinho dos tocos entre o Cavacal e o ribeiro cimeiro, onde a Ti Júlia morava, não deve ter sido difícil ao investigador aperceber-se rapidamente que estava perante uma jóia. Bastou convencer a Ti Julia que se encarregou de convocar um grupo de vozes afinadas. Compareceram a Nazaré Maregas, a Emília Estopa, a Natália Simão e a Clodete Menas que ofereceu o seu sótão para a gravação.

Ouvidas algumas cantigas do cancioneiro local, é escolhida a “Senhora do Incenso”.

Aí fica a gravação. Para quem conhece, será muito fácil reconhecer as vozes e o bater certo do adufe nas mãos da Ti Júlia Toca.



segunda-feira, fevereiro 15, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLI - ARTIMPENCHA / ARTEMPENCHA



A faladura do povo sempre me surpreendeu. É essa a razão de ser do próprio basa.Foram muitas as circunstâncias que me despertaram para esta temática. Sirva de exemplo o significante ' dembanão'. Foi por acaso que, um dia, a ti Tecla, carregada com o cesto que trazia da sorte da ribeira à cabeça, em conversa com a ti Conceição Pires, mulher das portelas sempre cheia de que fazer ... com a ti Tecla, porém, todas as pressas davam em vagares porque ela nunca tinha pressa, mesmo carregada com o cesto, tarefa, a bem dizer diária. Entre a sorte da ribeira e a casa, no cimo de aldeia, perto das escolas novas, o intervalo de tempo rondaria as duas horas, tudo para cima. Dizia eu, então, que foi com ela que naquele dia me deixou clara a evolução até ao dembanão e até ao dabanão. Ora vejamos: Tecla dizia que 'indembanão' uma pessoa estava viva e, logo, estava morta. Apurei o som e li: afinal, aquilo que me parece ser dabanão, mais não é que a aglutinação  de AINDA BEM NÃO.Daqui derivou para indembanão, depressa para dembanão e de caminho para dabanão. O que se passa é que eu pensava que o povo dizia dabanão com o sentido de repentinamente, quando, afinal, a raíz dessa semântica era anterior: vinha mesmo de Ainda bem não. Tudo claro, tudo justificado
Foi também por acaso que fui despertado para este artimpencha. Rosa Espeta Figos, de telemóvel na mão, a querer ligar para a filha, cujo nome não encontrava na listagem nominal constante no aparelho, sai-se com esta: "rais parta esta artimpencha que num intendo nada disto. Num incontro aqui o nome da mnha Celestre. Intigamente a gente ia ali à rosa, levava o númaro num papel e a chamada lá ia a ter. Agora com esta artimpencha, fica uma pessoa baralhada". Fui ter com ela e lá lhe liguei para a Celestre.
Pus-me, depois, a analisar  donde raio teria vindo este ARTIMPENCHA.E concluí: artimpencha só pode ser resultado de ARTE(facto) + EMPECILHO. Isto é: temos na mão um aparelho (artefacto) que em vez de facilitar o que nos propomos, só atrasa o nosso desiderato...logo, é um e(i)mpecilho. A nasalação é facílima de explicar e não é o basa que se vai entreter com aulas de fonética científica.
Serve este prefácio para vos deixar um texto que me vi na contingência de escrever porque também este tema me preocupava. Porque é que as igrejas clássicas, desde as prémedievais tinham aquela configuração e aquela simbologia. Claro que falo da simbologia cristã, já que as outras não são do meu conhecimento suficiente e não quero cometer abusos interpretativos sem fundamento. Então aqui fica esse texto e espero que não mais, ao entrardes numa igreja tradicional fiqueis estupefactos e não entendais o que tudo o que vos envolve significa. A intenção é ajudar... Se algum termo vos ultrapassa, só há que ir ao dicionário que estava na prateleira com bastante pó, devido a tanto tempo de descanso.

Aqui vai então:

Há quem diga que a história do cristianismo é a história mais bem contada de todos os tempos.

A figura de Cristo é um marco indelével na civilização, tanto mais que a própria história e o calendário se refere ao seu nascimento e se fala em dois grandes períodos : a. C. e d.C.

As Igrejas, locais sagrados por excelência, nem sempre existiram. A princípio os cristãos reuniam-se em catacumbas e em casas de grandes senhores onde se reuniam e debatiam a palavra divina.

As Igrejas não são exclusivamente lugares de culto; foram durante muito tempo casas de abrigo. Até mesmo foragidos, enquanto estivessem sob o tecto das igrejas, estavam protegidos e não podiam ser presos.

Repare-se ainda que a Igreja é um referencial de importância incalculável, durante muitos séculos: ficava situada no centro das povoações, o casario começava a construir-se à sua volta, e a torre sineira, indicava as horas, tocava  as Ave-Marias e marcava a todos os ritmos de vida.

Habilmente o cristianismo aproveitou-se das festividades pagãs em honra da natureza e transformou-as em datas sagradas. O calendário litúrgico é determinante sob muitos pontos de vista.

A ornamentação e a própria arquitectura das igrejas não são obras do acaso ou fruto da criatividade dos artistas. Obedecem a determinadas regras e acarretam consigo uma simbologia que convém deslindar para que quando entremos num templo saibamos ler o que está por detrás do que se vê.

É por demais consabido que as religiões vivem de mistérios, de dogmas, de preceitos, têm por base um livro sacro,  são representadas por pontífices, sacerdotes, monges, adivinhos, videntes, magos, até bruxos,…

Sendo o cristianismo uma religião da Revelação, é muito pouco o que está revelado. Por isso há os teólogos que esclarecem o que deve ser entendido, por detrás do que está escrito, ou vem da tradição oral. Interpretações outras que divirjam da oficial caem, inevitavelmente, no anátema, no apóstata, no iconoclasta, no herege, no protestante, no excomungado, no condenado…

A Igreja, no seu todo e cada uma em particular, representa o corpo místico de Deus, as pedras da construção são os fiéis que a suportam, alimentam e garantem a sua robustez e segurança.

As janelas significam a abertura ao exterior, nos vitrais representam-se figuras eméritas ou cenas bíblicas, o pavimento é o fundamento da fé e as colunas e vigas são representações dos grandes alicerces da doutrina da Fé.

Impõem-se algumas questões, que visam esclarecer o fiel que entra num templo e ignora o significado de cada um dos elementos que fazem parte da estrutura de uma eclésia.

Qual a orientação geral que deve ter uma igreja? Porquê?
Que representam a pedra do altar e a toalha branca que a cobre?
Qual a forma da pia baptismal?
A que se referem o fogo e o incenso?

Que motivos se encontram nas portas de entrada, nas jambas, nas arquivoltas, nos tímpanos?
Quais as três funções principais do sino?
Qual a colocação correcta do vitral?

Convém desde já estabelecer uma diferença entre o que é arte religiosa e arte sacra ou sagrada, já que são dois campos distintos.

Arte religiosa tem a ver com o artista e a sua liberdade criativa. Tanto pode fazer uma obra de arte religiosa como profana. Depende da sua inspiração executa-a em plena liberdade.
A arte sacra por sua vez não é de natureza sentimental, mas antes de ordem metafísica e cosmológica. Aqui o artista tem pouca margem para a sua liberdade criativa.

A arte sacra propõe-se tornar visível o invisível de forma tal que a divindade se torne acessível a qualquer crente.
Um templo não serve apenas para reunir os crentes mas também criar um ambiente de recolhimento e de comunhão de ideais que permitam uma relação mais próxima com o divino.

Deve notar-se que cada vez mais se verifica uma cada vez menor criatividade sacra. O mundo contemporâneo é cada vez mais materialista.

Só nos finais do  sec. III e princípios do sec. IV durante o império de Valério Diocleciano (284-305) os cristãos adoptaram a prática de adorarem deus em templos. Foi assim que surgiu o rito da missa (de Messiah, o Messias, o ungido).

O ritual da missa era, ao princípio, muito simples: consistia numa refeição – a ágape - e de leitura de escritos sagrados. Durante a ÁGAPE repartia-se o pão, rezava-se a oração de graças, repartia-se o pão e partilhava-se o vinho. Aos poucos a ágape desapareceu devido aos excessos.

De notar ainda que os primeiros cristãos não tinham manifestações públicas, tais como procissões, peregrinações ou cerimónias equivalentes.
Significativo é o facto de tanto a hierarquia como os fiéis não utilizarem vestes distintivas.

A doutrina de Cristo impunha serviço e não patronato. Assim, os discípulos das comunidades cristãs deviam estar disponíveis para servir e não para impor.

Ninitius Félix (convertido do sec. II d.C. ) afirmava. « Imaginais que nós, cristãos, escondemos aquele que adoramos porque não possuímos templos ou altares?
Que templo poderia ser erigido a deus se o universo é a sua maior obra. Como fechar o omnipotente dentro de um edifício? Não é melhor consagrarmos um templo à divindade em nosso coração e nosso espírito?»

Após a morte de Cristo começaram a formar-se pequenas comunidades que iam, elas próprias interpretando as escrituras. Aos poucos começou a ver-se que havia diferenças significativas. Por isso, uma vez que “todos os caminhos vão dar a Roma” estabeleceu-se que a doutrina oficial o cristianismo seria a ditada pela congregação de Roma.

Como já acima se referiu só a partir do sec. III se começaram a construir templos e não deixa de ser curiosa a determinação do papa Gregório Magno, já nos fins do sec VI:«podeis destruir os ídolos mas nunca os templos. Borrifai-os com água benta colocai as nossas relíquias e deixai que o povo continue  a prestar culto nos locais onde sempre o prestou».

O Cristianismo, de início, não tinha símbolos e vai enraizá-los em duas proveniências: as religiões cósmicas e na cultura hebraica.


O templo primitivo  era um templo natural que aproveitava colinas, grutas, árvores, pedras, nascentes,… Pode até fazer-se uma comparação entre esses templos e os actuais:

Templo primitivo (paisagem natural)
Templo cristão (paisagem petrificada)

Colina ou montanha sagrada

Gruta

Árvores ou pedras verticais

Pedra sagrada

Nascente

Fogos e fumos

Cerca

Céu

Colunas solares

Percussão em metal

Degraus do altar

Nichos ou ábsides

Colunas interiores

Altar

Pia baptismal

Candelabros e incenso

Edifício

Abóbada

Torres

Toque de sino


A orientação geral dos templos foi, inicialmente, com a porta de entrada virada a oeste e o altar mor para leste ( o nascer do sol), arquitectura que se perdeu quase por completo, devido a uma multiplicidade de factores.

Em sentido lato a igreja é o povo de deus. Em Niceia o credo definiu que a igreja seria una, santa, católica, apostólica, romana.
Depois da divisão do império romano por Diocleciano em 285, designa-se por igreja do Ocidente, ou Latina (porque a língua adoptada foi essa) os que dependiam de Roma e do papa e por Igreja Bizantina os que obedeciam à igreja de Constantinopla e seu patriarca.
A ruptura entre as duas igrejas deu-se oficialmente em 1054.

Existem outras nomenclaturas : igreja celeste ou triunfante e a terrestre, igreja visível e invisível. A mesma palavra serve para designar  a assembleia de cristãos e o edifício onde se reúnem os fiéis.

Principais partes de uma igreja:

Porta de entrada – uma das partes mais importantes do edifício pela simbologia que lhe é atribuída: passagem de um espaço profano para um espaço sagrado.

Ábside – Parte semicircular oposta à porta de entrada.

Absidíola- capela lateral que abre para o deambulatório.

Cabeceira – parte exterior da abside, em regra virada para leste.

Coro -  parte mais próxima do altar mor, acessível apenas a clérigos e raramente a crianças separado por um gradeamento -a coxia- limite a que os fiéis podiam chegar.

Cripta - Parte baixa destinada a receber a relíquia de um santo ou um corpo.

Nártex - preâmbulo da entrada antes do cata-vento e destinada aos catecúmenos.

Nave – parte reservada aos fiéis entre a entrada e a capela mor.

Transepto – Extensão ou corpo transversal que separa o corpo da igreja da capela mor e que torna a  planta da igreja cruciforme.

Zimbório - parte alta na vertical do centro do transepto e que significava o alto onde morava o Senhor. É para o alto que viramos o olhar quando oramos.

Há que notar que as igrejas eram espaços respeitados:”Não invadirei uma igreja de nenhuma maneira em virtude da salvaguarda que a protege. Também não invadirei os celeiros que estão no recinto da igreja. Não atacarei o clérigo ou o monge; não levarei boi ou burro, vaca, porco, ovelha ou carneiro, nem o molho de lenha, nem a égua e seu potro. Não apreenderei camponês, camponesa ou mercador. Não lhes tomarei o dinheiro nem os forçarei a resgate….”

A construção de um templo começa pela definição exacta do local onde ficará o altar encarado como o centro do mundo. Depois vem a orientação.
Em todas as igrejas as formas geométricas são a bem dizer o quadrado e o círculo. O círculo ou as suas divisões representam o céu e por isso se sobrepõe o quadrado/cubo.

A porta é por excelência, juntamente com o altar um dos locais onde a simbologia mais se representa. Normalmente as grandes igrejas oferecem-nos na porta os seguintes elementos:

TÍMPANO – a parte mais importante, grande parte das vezes preenchido com o Cristo em glória, sentado no trono com uma mão levantada e a outra segurando o Livro da  vida e ladeado pelos tetramorfo: homem,touro,águia e leão.
Pode ter também representado o Juízo Final, a Virgem Maria,ou a transfiguração de Cristo.

ARQUIVOLTAS – Por cima do tímpano, em regra representando a hierarquia celeste.

JAMBAS – colunas verticais ao lado da entrada representando profetas, reis bíblicos, santos,..

MAINEL – parte do fechamento das duas folhas da porta onde é vulgar encontrar-se o monograma de Cristo: o X e o P. ( De notar que estas letras são do alfabeto grego e  a primeira é o QUI e a segunda é o RÓ , ou seja XP é equivalente a CR, que mais não são no léxico latino as primeiras letras do nome CRisto).
O cimo das portas era normalmente semicircular aparentando ser o Arco do Triunfo, símbolo da vitória do Bem sobre o Mal.

Outros símbolos:

A TORRE e o CAMPANÁRIO – indicando o céu e convidando à oração, marcando o ritmo de vida dos fiéis ao som do sino, que simbolizava também o afastamento do mal. Por vezes as torres são encimadas por um GALO que faz lembrar a traição de Pedro. Além disso, o Galo é o despertador da manhã rompendo portanto com as trevas e anunciando a luz do novo dia. Santo Ambrósio apelida mesmo Cristo de GALLUS MYSTICUS.

PIA DA ÁGUA BENTA – ao entrar convém a purificação pela água.

BATISTÉRIO / PIA BATISMAL - símbolo da ruptura com Satanás e admissão no corpo da eclésia, recordando as nascentes de água pura. Muitas vezes de forma octogonal simbolizando a passagem do mundo terreno ao celeste.

ALTAR- mesa de pedra ou madeira, normalmente esculpida, onde antigamente os sacerdotes imolavam as vítimas e ofereciam incenso e agora se celebra a missa.
A toalha branca que o cobre mais não é que a mortalha de Cristo.
O altar é o coração da igreja por isso local central por eminência.
É também o local onde se reparte o pão e recorda o sonho de Jacob.

FOGO E INCENSO- como elementos regeneradores e purificadores.

A LUZ E OS VITRAIS – Os vitrais eram uma forma de explicar cenas bíblicas a quem não sabia ler.

Labirintos e cruz -  os espíritos malignos entrariam no labirinto e de lá não saíam.
Simboliza também o nascimento – a entrada - e a morte – a saída-.

 A cruz é o distintivo dos cristãos e só no sec XV aparece Cristo na cruz.

Já estou como a Rosa Espeta Figos.Só espero que isto vos tenha servido para lerdes melhor o que vos surge na frente quando entrardes numa igreja. 


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Desenhos: Carlos Matos




sexta-feira, dezembro 18, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXL - (T)CHINHO / (T)CHINHA


desenho: Carlos Matos

Eram dois os alfaiates na terra xêndrica: José Sarrabeco e Tonho Pedro. Sarrabeco, tirante a água que a colher da sopa lhe levava à boca só bebia tinto, mas nunca em tascas, apenas em adegas. Mesmo assim não era fácil que ele bebesse outro vinho que não o que ele mesmo produzia. Já Tonho Pedro só bebia ginja.Todos os dias, a qualquer hora e sempre pelo mesmo copo, que tinha lugar reservado no café da Rosa. Sempre (t)chinho. Raramente se ficava por um, quase sempre iam dois, quando não mais e muita vezes encostava-se ao balcão do café e mandava às urtigas a agulha, dedal, ferro e demais apetrechos de alfaiate. Era bebedeira certa. A Sarrabeco nunca o vi torto, mas também não gostava de copos carecas. Como morava no beco do meu avô Comandante ainda despejei uns tintos com ele. Era espadaúdo, mas um tanto atarracado e tinha uma voz grossa, de baixo, em qualquer coro, enquanto Pedro era alto e tinha uma voz que mal se ouvia. Era preciso atentar bem senão tinha que repetir umas poucas de vezes e afinava com isso.
Já sapateiros, havia bastante mais: só Guerrilhas eram três (Mnel, Zé e Chquim). Tão depressa andavam aos abraços como ralhavam por tudo e por nada - daí o nome comum de Guerrilhas. Depois tínhamos o Fernandinho Lucho, o Mnel Viagre, o Chquim calça defuntos, o Chquim Camião, o Tonho Lobo. Outros tempos em que as artes e ofícios davam de comer a muita gente. Tudo desapareceu e já ninguém deita sequer uma tomba na biqueira de uma bota...O mundo do descartável invadiu tudo e vai daí foi preciso arranjar outros modos de sobrevivência.
Antigamente era tudo feito por medida e à medida, agora bastam pequenos retoques e já está. Até mesmo já se encontram companheiros e companheiras através de agências. Já não há tradição do velho namoro: vai-se à agência e encarrega-se de arranjar o parceiro ideal para dois que nunca se cruzaram. Para não falar já da Net...Bem, adiante!
Já vos deveis ter dado conta que o termo de hoje é uma adaptação popular de CHEINHO/A. O que se passa é que, vá-se lá saber porquê, não sendo regra, as palavras escritas com "ch" têm pronúncia de "Tch": tchave por chave, por exemplo, enquanto as têm a grafia de "X" mantêm essa mesma pronúncia sem qualquer aspiração. É claramente visível em buxo (planta de sebe) e bu(t)cho  (estômago de pequenos ruminantes.). Não deixa de ser curioso também algumas palavras de grafia com "ch" não verificam o tal "tch" quando mantêm a vogal primitiva, mas já o verificam quando sofrem apofonia: sirva de exemplo "o reumatismo faz inchar a mão" e "o reumatismo faz in(t)cher a mão". Já por mais de uma vez aqui tratamos deste fenómeno fonético, da substituição do "a" pelo "e", pelo que se recomenda leitura de outras páginas do basa.
Jolim da pata branca era malino quanto bastasse. Tirava provocações da cabeça, ao instante, e deixava os visados sem resposta quando o entalavam e ele se saía com resposta de pitonisa. Um artista era o que ele era. Depois virava as costa com aquele sorriso de cão Mutley, irónico e cínico a um tempo.
Nas terras xêndricas não havia autoridade regimental. Nos tempos a que nos referimos a autoridade civil era desempenhada pelo regedor, figura entretanto extinta, e também pelo senhor presidente da junta  e pelo senhor professor e, claro, noutro  âmbito, pelo senhor prior. Depois, bem, depois eram os pais, os avós, os mais velhos,... Por tal motivo a G.N.R. do posto de Penamacor, em patrulha, umas vezes a pé, outras a cavalo, visitava amiúde a aldeia e ia controlando desmandos com que se topasse. Não eram bem vistos porque obrigavam ao capacete nas motos, a trazer a documentação da bicicletas, a ter luzes reflectoras nas carroças, a licença de obras,... Jolim foi multado porque andava de bicicleta sem carta.. Ganhou um ódio tal à GNR ainda por cima porque levou uma malha valente do pai que teve que arrotar com o pagamento da multa.
Vai daí, cada vez que passava pela GNR gritava a plenos pulmões: A Guarda é uma grande merda!...Até que um dia um agente a cavalo o perseguiu, agarrou e interrogou: «porque é que a Guarda é uma merda, hein?» e Jolim:" A Guarda é uma merda, porque a Covilhã, que não é capital de distrito, tem muito mais indústria do que a Guarda !" O agente ficou a olhar para ele e teve que o largar sem lhe poder fazer nada.
Jolim, em pose de quase toureiro que capeia um touro, sai calmamente com o peito tchinho.
Também eu, de boca tchinha vos desejo o melhor Natal que vos seja possível na companhia de quem mais desejardes e puderdes.
Já só voltarei em 2016.

domingo, novembro 01, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXIX - SARAFANA


Há questões que, de vez em quando, me ocupam o espírito e me desafiam  no sentido de lhes procurar dar resposta. Uma delas é a de saber se o nosso cérebro tem alguma predisposição natural para crer em seres transcendentes, ou, o que dá na mesma, se há alguns neurónios que activam a necessidade de crer em entidades superiores a nós mesmos, tal como o hipotálamo, por exemplo nos indica a necessidade de comer, beber,... . Pode parecer uma questão peregrina ou mesmo bizantina, mas o que é facto é que ela me inquieta. É assim uma espécie de sarafana irritante que não nos deixa parar quietos. Não se sabe bem como é que elas entram pela manga da camisa acima ou se espetam na roupa, o que se sente é uma permanente comichão e não adianta tentar esquecer porque simplesmente não é possível. Quanto mais nos mexemos mais ela se entranha. A alternativa é só uma: tirar toda a roupa até que se encontre a maldita da sarafana  ou pragana se vos dá mais jeito, ou seta como também lhe chamam. O nome é indiferente, o efeito é sempre o mesmo: enquanto a não sacarmos do corpo, não conseguimos fazer nada. 
O problema das localizações cerebrais sempre foi polémico nas ciências humanas que se dedicam, no todo ou em parte, ao estudo do cérebro humano. Não é do âmbito despretencioso do basa aprofundar a temática, Deixemos isso para quem sabe da folha ou então acabo por vos pespegar uma sarafana que nunca mais vos safais dela. O basa gosta de divertir, não de massacrar.
Ainda assim seja permitido datar a problemática: o neurocirurgião Pierre Paul Broca em 1861 ao efectuar uma autópsia num conhecido taranta de Paris que ficou conhecido por Tan-Tan, já que era o único som que emitia, verificou que ele apresentava uma lesão profunda na base da terceira circunvolução frontal esquerda. Vai daí, atribuiu a afasia de Tan-Tan a essa lesão cerebral, situando nessa zona o centro nervoso da fala. Outros se seguiram com novas investigações (Wernick, Fritch, Hitzig,...) e a apetência pelo estudo das localizações cerebrais desenvolveu-se, não sem que houvesse quem a tal se opusesse, defendendo que "o homem pensa com o corpo todo", como foi o caso de Kretschmer e Anna Damásio, ou Lashley que se recusava a admitir que o cérebro fosse uma prateleira compartimentada, influenciado pela corrente gestáltica de Kohler, Kofka e Wertheimer. Bem...,adiante, senão já não descobris onde está a maldita da sarafana.
Não sei se estais a ver onde eu quero chegar com a minha questão inicial: há ou não uma localização cerebral para a prática de práticas religiosas, sejam elas quais forem, assentes em crenças e mitologias que como dizia o nosso Pessoa:" a Fé não pensa; pensar é duvidar; crer é morrer."
Inelutável é que desde os próstinos mais prístinos da sociedade humana sempre crenças em seres sobrenaturais marcaram presença. As religiões monoteístas são já formas tardias na história da religiosidade humana, que se iniciou muito antes. A explicação para este fenómeno, a um tempo individual e colectivo, também não é pacífica, como não é a das localizações cerebrais: uns dizem que resultou das tentativas de explicação da origem do universo e das incapacidades que os homens reconheceram em não o conseguirem fazer satisfatoriamente, enquanto outros atribuem essas crenças a predisposições naturais situadas no nosso cérebro. Esta última tese data de 1970 com o antropólogo francês Dan Sperber que chegou a essa conclusão enquanto estudava uma tribo do sul da Etiópia (Os Dorzé). Esclareçamos  que o cérebro não está préprogramado para crer, mas que existem reacções cerebrais diferentes quando se vivencia uma qualquer religião através de um ritual, disso já não restam dúvidas porque investigações de neurologistas em voluntários a que se ligaram eléctrodos o confirmaram. Pascal Boyer, professor na Universidade de Washington, nesta linha afirma no seu livro "E o homem criou os deuses" (2001), que o cérebro tem muito mais apetência para determinadas informações que tem natural tendência para fixar, e outras para desprezar e nas primeiras encontram-se as religiosas.
Deixo-vos a vós a opção pela tese que entenderdes, sendo que a outra vos há-de arreliar  como a sarafana.
Padre Zé ou Zé Padre, tanto dá, homem baixinho mas espadaúdo, careca, castiço no trajar, sempre com o seu chapéu preto de aba larga, lenço vermelho ao xadrez  no pescoço, por causa mesmo das sarafanas, era o mandador nas malhas ao mangoal na eira da ti Natividade. Aos Domingos Padre Zé deixava a Raivosa onde morava com Tonho Troncho como vizinho mais próximo e descia ao povo. Gostava muito de jogar ao fito e logo cedo marcava vez na taberna do Fatela. Grande parte das vezes tinha dificuldade em arranjar parceiro e até adversário porque era demasiado rezingão e não sabia perder, azucrinando as orelhas a todos. Era mesmo o que se podia chamar de uma sarafana a rezingar: os outros tinham sorte e ele tinha classe. Acabou mal o nosso Padre Zé, pendurado de uma trave com uma corda no pescoço.
Deixo-vos por aqui  para não me chamardes sarafana, tantos foram os nomes que hoje aqui vos deixei. Voltarei em breve.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGRRRAAAAAAAAAAAANNNNNNNDDDEEEE.

Desenhos de Carlos Matos