terça-feira, janeiro 28, 2020
Janeiras 2020
Eis aí uma das versões mais bonitas das Janeiras.
A interpretação é do Orfeão de Castelo Branco (27/01/2020), com arranjo especial do Maestro Rui Barata.
Na partitura aparece "Janeiras Aldeia do Bispo" apenas porque a recolha foi feita na terra dos xendros.
Na verdade a versão é, se se quiser, da Beira Baixa.
sábado, setembro 21, 2019
MMXIX VINDEMIA
QUINTA DO LÍRIO
21
SETEMBRO
SUCEDÂNEO
DE PALITO MÉTRICO
INTRANTE, IN CAELUM ASPICE ET ROGAT DEUM
UT PLUVIA NON TURBET
LABORES ACTUROS
ME SALUTA, SICUT ALIOS,
TE INDUCE IN MENSAM
SELECTA OPIPARAM ESCAM
ET CONSOLA STOMACHUM
DESENTUPINDO TUAM
ANGUSTAM GOELAM
CUM ALBO AUT RUBRUM
VINUM, ET ALIAS POTIONES
DEGUSTA CHICHAM PRIMA
QUALITATE, PRESUNTUM
COCINATUM, ENTRECOSTUM
, LARDAM ENTREMEATAM
HABEBIS ETIAM EXCELSAS
IGUARIAS, JEROPIGAM
DEINDE CAPE
BALDEUM ET TE ADIT COMPARSAS ALIOS
SELECTA UVAS, ASSIM
MESMO COMÉDADO, ET JACE EAS
IN MACHINAM QUAM
ELISEUS, PICA A TECLA, SUPERBE
SUPERINTENDE. NECESSE
NON EST ESTUGARES TE
QUIA MAXIMUS DUX TEMPUS
VULT UT FORNUS CALLIDUS
ASSE, OPTIMIS
CONDITIONIBUS, IGUARIAS TALES QUAS
NUNQUAM, PRETERITA
AETATE, PROVADO HOUVERAS.
QESTIONAS NUNC QUAM
MAGNIFICENTIAM BANDULHUM
TE REPLEAT. TIBI
PROMITTO ESMERUM MAXIMUM
ET CREDO NON ELLUDERE
NEMINEM, MEA CULLINARIA ARTE, TOTTA EMPENHADA IN
CONFECCIONE PERNILIS PORCINI, BENE PUXATO IN SUCO
MATURO NECTARE DIVINO ET VINO INVICTAE CIVITATIS
AROMATIZADO MAXIME.
PRIMUM, CALDUM
TRADITIONALEM TIBI OFERREM, BASTUM QUANTUM SATIS HORTELANA
ODORATUM.
ETIAM HABEBIS TOMATINAM
HORTICOLAM BENE MIGATAM
ET TEMPERATAM, PIMENTOS
IN RUBRO CARBONE ASSATOS,
CASEOS VARIATOS ET, JÁ
SE ME OLVIDAVA, PULCHRAM OLIVAM, CARAPAUM PARVULUM CUM
FEIJONE FRATRE, CEBOLLAM PICCATTAM NON DEERIT, TIBI
GARANTO, ULTRAM FAMOSAM SARAPILHEIRAM.
NUNC,
MIHI PLACET TIBI
INTRODUCERE CONVIVAS:
MANUELEM ROMEIRUM, VETUSTUS DUX CORREORUM,
HANNIBALEM, METALURGICUM IN ALIIS TEMPORIBUS,
JOSUEM MORANUM, ELECTRICISTAM PRAECLARUM,
FERNANDUM LELEM, RETAURANTEM CODOMINUM ,
JOSUEM EUSEBIUM, EXPONENCIALEM ACCOLITUM,
AMABILIS, VENATOREM QUI FUIT IN CASTANHEIRA,
ANTONIUM CERDEIRAM, AGRICOLAM INGENERIUM,
BRASEM BARATAM, DUX MAXIMUS CIVITATIS OPERUM
ANTONIUM PHILIPUM, INGENERIUM CIVILEM PROENCALIS
HIPOLITUM MANUELEM, DUCEM VETERANORUM,
RODRIGUM, MAGNUM PRECEPTOREM PRESIDIORUM,
JOACHINEM, NOMINATUM CLAUDICANTEM,VICINUM,
HELDEREM, AMICUM LONGAE ERAE, CLARUM ADJUVANTEM
ANDREEM, PRAESIDENTEM JUNTAE ALMACEDENSIS.
JOHANNEM DAVIDEM, SEMPER DISPONIBILEM ADJUVANTEM
JOHANNEM NABALES, GEOGRAFUM PRAECLARUM,
CARLUM AMARALEM, FRUGIUM RUBRUM PRODUCTOREM
CARLUM MATUSUM, POTENTIATOREM CRIATIVITATIS,
ANSELMUM, FRATREM MEI, RURALEM SOCIOLOGUM
ALIOS POTERUNT APPARUERE, OMNES BENE ACCEPTOS.
UT PRAEMIUM FINALEM SEMPER HABEBITIS GELLIDAM
CEVATAM, NIGRUM CAFEUM, POTIONES SPIRITUOSAS
USQUE AD ANNUM PROXIMUM VENTURUM.
SALVE!
Traditio noster:
sábado, agosto 03, 2019
CCLVII - A NOSSA FALADURA - ESPARJAS / ESPARGAS / ESPÁRIAS
O acto de nascer não é o que se possa chamar um momento de grande beleza. Um parto, para além de doloroso para a parturiente, não prima pela estética do momento... As mães, mal os filhos nascem, lambem-nos, limpando-os e comem as esparjas para não deixar vestígios e, está bem de ver, evitar que o cheiro se propague e atraia predadores indesejáveis. São, em regra, também muito cuidadosas na escolha de um local o mais reservado possível com a mesma finalidade.
O nascimento leva-nos à questão, desde longa data, de qual será a origem do próprio universo. No mundo ocidental, mormente a partir do momento em que a Igreja se tornou preponderante no domínio cultural, e não só, a solução remetia para um criacionismo indiscutível. À medida que a ciência evoluiu e o saber saiu da quase exclusiva alçada dos mosteiros e conventos, reforçada com a invenção da imprensa que permitiu a difusão de livros discordantes da matriz eclesial.
Fique claro que as causas das divergências não são assim tão simplistas ...Muitas outras variáveis contribuíram para a progressiva alteração das mentalidades.
Fique claro que as causas das divergências não são assim tão simplistas ...Muitas outras variáveis contribuíram para a progressiva alteração das mentalidades.
Uma das argumentações mais clássicas e conhecidas para justificar a existência de um criador é a conhecida tese da regressão ao infinito: antes do que quer que seja, não havia nada. Então, o que é que tornou possível essa qualquer coisa? Somos levados a pensar que necessariamente devia haver uma outra qualquer coisa, antes dessa coisa. E claro, uma antepenúltima e...assim até ao infinito, porque se houvesse uma finitude, esbarraríamos inevitavelmente numa causa encausada, num primeiro motor imóvel.
Surge o recurso à divindade...
A questão que parecia solucionada, afinal não o fica porque se volta a legitimar que a existência de Deus (seja ele qual for) também há-de ser justificada por uma causa que o possibilitou... Não vem aqui ao caso as tentativas de demonstração da existência de Deus, nem sequer a saída airosa de Pascal que, ao concluir que Deus não podia ser demonstrado como existente, também não podia ser demonstrado como não existente, pelo que o melhor era acreditar que ele, de facto existia... Kant de algum modo apontava este caminho. Deus é numénico e não fenoménico, logo, permanecerá incognoscível, portanto, é necessário «substituir a razão pela crença».
Surge o recurso à divindade...
A questão que parecia solucionada, afinal não o fica porque se volta a legitimar que a existência de Deus (seja ele qual for) também há-de ser justificada por uma causa que o possibilitou... Não vem aqui ao caso as tentativas de demonstração da existência de Deus, nem sequer a saída airosa de Pascal que, ao concluir que Deus não podia ser demonstrado como existente, também não podia ser demonstrado como não existente, pelo que o melhor era acreditar que ele, de facto existia... Kant de algum modo apontava este caminho. Deus é numénico e não fenoménico, logo, permanecerá incognoscível, portanto, é necessário «substituir a razão pela crença».
Claro que muitas outras teses foram surgindo...Limito-me a Feuerbach para quem Deus mais não é do que a projecção exterior do desejo de perfeição do homem. Em última análise não é o homem que é criado à imagem e semelhança de Deus, mas é este que é feito à imagem do homem, ou seja, só existe Deus porque existe o homem e não o contrário. Muito antes já Xenófanes alumiava este caminho: "Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que de pior têm os homens: roubar, matar, cometer adultério, vingança... Os Etíopes acreditam que os deuses têm o nariz achatado e são negros; já os Trácios acham que são loiros e têm olhos azuis ...e se os bois, os cavalos e os leõee tivessem mãos e soubessem desenhar... os cavalos fá-los iam iguais a eles e os bois semelhantes a bois..."
Hoje por hoje é conhecida a disputa entre o criacionismo (que pouco ou nada alterou na sua maneira de pensar, limitando-se a aceitar que Deus pode não ter criado directamente o homem, mas foi ele que possibilitou a vida e, portanto, que o homem exista...) e o evolucionismo com Darwin, Lamarck, Spencer e os mais contemporâneos que levaram à teoria do Big Bang inicial...
São muitas espárias para limpar e não deixar restos... Vai lá vai...
Passou há poucos dias o cinquentenário da chegada(?) do homem à lua. Meu avô nunca "comeu" essa: "isso é uma pantomina. Os americanos são uns pantomineiros...Aquilo tudo que apresentaram é como os bonecos animados...parecem reais mas não são." E rematava com esta máxima: "Atão tu não vês que se fossem à lua, caíam de lá?!" Mainada.
Há muita gente, que tal como do aparecimento do mundo, põe em dúvida que o homem tenha chegado à lua, tal como duvidam da existência de qualquer divindade. A questão complexifica-se pois que os próprios crentes não são unânimes na tentativa de explicação, seja da sua existência, seja da sua função e relação com a (hipotética) obra criada. Uns defendem o Teísmo, acreditando na providência divina, coisa que os Deístas já não aceitam, os Fideístas acham incrível que deus alguma vez possa caber no âmbito de uma justificação racional, já que isso levaria ao absurdo de a ideia de deus ser maior que o próprio deus porque o continente é sempre maior que o conteúdo, pelo que nem devemos tentar provar a sua existência, limitando-nos à Fé...,os ateístas negam em definitivo a sua existência e os agnósticos ficam-se na indefinição...
Efectivamente é muita esparja para se poder fazer desaparecer de repente.
Hoje fico-me por aqui. Prometo voltar dentro de pouco tempo...Sem espargas...
XXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGRRRRRAAAAANNNNNNNNDDDEEE
terça-feira, abril 16, 2019
CCLVI - A NOSSA FALADURA - ATINTAR
Parece que antigamente,
dizem, a canalha guardava respeito ao Senhor Professor.
Parece que agora, dizem, o ambiente na sala de aula é mais, digamos, descontraído.
Vai o tempo em que os meninos se perfilavam militarmente ao lado da carteira, respondiam em uníssono à saudação “bom dia Senhor Professor” e sentavam-se à sua ordem. Durante décadas, e a mando do António de Oliveira, fez parte do mobiliário da sala de aula o crucifixo, ladeado pelos retratos emoldurados do Presidente do Conselho, ele próprio, e do Presidente da República Américo Thomaz. Também vai o tempo em que as Senhoras Professoras tinham de pedir autorização ministerial para contraírem matrimónio.
Parece que agora, dizem, o ambiente na sala de aula é mais, digamos, descontraído.
Vai o tempo em que os meninos se perfilavam militarmente ao lado da carteira, respondiam em uníssono à saudação “bom dia Senhor Professor” e sentavam-se à sua ordem. Durante décadas, e a mando do António de Oliveira, fez parte do mobiliário da sala de aula o crucifixo, ladeado pelos retratos emoldurados do Presidente do Conselho, ele próprio, e do Presidente da República Américo Thomaz. Também vai o tempo em que as Senhoras Professoras tinham de pedir autorização ministerial para contraírem matrimónio.
Parece que o António de
Oliveira não era de brincadeiras. Não havia cá desmandos ideológicos de gente a
clamar por liberdade e por democracia. O referencial maior era muito simples:
tudo pela Nação, nada contra a Nação, quer-se dizer, tudo pelo governo, nada contra o governo. A ajudar nesse superior desiderato, para além do Senhor Professor, agentes operacionais e autoridades
maiores em qualquer comunidade no antigo regime eram, não necessariamente por
esta ordem, o Regedor, o Senhor Presidente da Junta e o Senhor Prior.
Na escola, o Senhor
Professor era o todo poderoso a quem era tacitamente concedida autorização
para, imagine-se, bater, magoando a sério, nos meninos. Sucedia até que a
admoestação violenta do Senhor Professor era muitas vezes complementada com
mais admoestação violenta – quase sempre, dizem, pela mãe. A educação dos
meninos e das meninas desses anos, no esquema do regime do António de Oliveira,
inspirou-se, primeiro na convicção de que saber ler, escrever e contar era
suficiente para a maioria da mocidade portuguesa, depois, na exaltação da matriz
moral resumida na trilogia “Deus, Pátria e Família” transformando a escola num
verdadeiro aparelho ideológico do Estado (AIE), como bem teorizou Althousser.
O regime criou um sistema
eficaz na divulgação e sedimentação da ideologia dominante através dos
principais AIE ao serviço do regime, com destaque para a escola, a par da
igreja ou da família. À sombra do “Deus Pátria e Família” o sistema de ensino
tratava de inculcar nas cabecinhas das moças e dos moços lusitanos os valores morais que interessava
à ratificação e manutenção da situação. Meninos numa sala, meninas noutra, todas sob o olhar dos omnipresentes Suas Excelências. As
meninas iam menos à escola porque elas precisavam era de aprender a serem boas
esposas para cuidarem bem da casinha e educarem bem os filhos e amarem e
respeitarem o marido. Pois, porque “na família o chefe é o Pai, na escola o
chefe é o mestre, no Estado o chefe é o Governo”.
Na escola, portanto, não havia
discussão quanto aos valores da ordem e da disciplina, facilitados pelo recurso
fácil à menina dos cinco olhos. Os meninos e as
meninas tinham de saber cantar a tabuada e tinham conhecer de cor todos os rios e todas as serras
do país sem nunca terem saído da sua aldeia, ainda que soubessem na ponta da
língua todas as linhas de caminho de ferro de Portugal. E liam nos livros da
instrução primária “obedece e saberás mandar”, ou “se soubesses o que custa
mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida”.
Em todo este sistema, o
Senhor Professor era peça central, a quem era guardado o máximo respeito.
Nenhum fedelho se atrevia a atintar o Senhor Professor, ou o Senhor Prior, ou o
Senhor Presidente da Junta ou o Senhor Regedor.
Num dia de primavera,
inteiro e limpo, as coisas começaram a cambiar.
No Externato de Nossa
Senhora do Incenso, o Colégio, como era habitualmente designado, naquele ano de final de abril de 76, já se ia esfumando o cheiro dos conturbados dias do PREC. Passaram a esporádicas as RGA nas quais os alunos mais velhos e carismáticos, de cabelo comprido e calças à boca de sino, debitavam inflamadamente novas palavras e expressões, conjuravam o fascismo, vociferavam contra as forças reacionárias e revisionistas, enalteciam a liberdade e a democracia, davam vivas à revolução, argumentavam com base em justas reivindicações da massa estudantil. Os tribunos mais eloquentes e informados represtinavam palavras de ordem de outras "revoluções" decretando que era proibido proibir, propondo ser realistas exigindo o impossível, enfim, querendo tudo e já.
O velho e disciplinador respeitinho pelo Senhor Professor esmoreceu bastante neste tempo.
O Senhor Professor Barbosa esforçava-se por ensinar ciências com a dedicação que lhe vinha de antes. Os seus alunos, alguns, poucos, nem sempre lhe reconheciam a postura seríssima e atintavam-no como a nenhum outro. Maldosamente. Sem valorizarem ou sequer se aperceberem do carácter científico do fenómeno, ganharam o hábito de bater vigorosamente a esponja de apagar o quadro, minutos antes de começar a aula de ciências com o Professor Barbosa. Podiam aproveitar para observar o comportamento das minúsculas partículas de pó de giz que ficavam suspensas no ar à luz das teorias da física. Mas não, eles queriam era atintar o Senhor Professor Barbosa porque sabiam que a sua asma o obrigaria a atrasar o início da aula até que as condições lhe permitissem respirar com normalidade. E assim, ganhavam-se mais 15 minutos de intervalo.
O velho e disciplinador respeitinho pelo Senhor Professor esmoreceu bastante neste tempo.
O Senhor Professor Barbosa esforçava-se por ensinar ciências com a dedicação que lhe vinha de antes. Os seus alunos, alguns, poucos, nem sempre lhe reconheciam a postura seríssima e atintavam-no como a nenhum outro. Maldosamente. Sem valorizarem ou sequer se aperceberem do carácter científico do fenómeno, ganharam o hábito de bater vigorosamente a esponja de apagar o quadro, minutos antes de começar a aula de ciências com o Professor Barbosa. Podiam aproveitar para observar o comportamento das minúsculas partículas de pó de giz que ficavam suspensas no ar à luz das teorias da física. Mas não, eles queriam era atintar o Senhor Professor Barbosa porque sabiam que a sua asma o obrigaria a atrasar o início da aula até que as condições lhe permitissem respirar com normalidade. E assim, ganhavam-se mais 15 minutos de intervalo.
A sua postura honesta e
espontânea, um dia, tramou-o. Naquele dia, chegara ao Colégio visivelmente consternado porque tinha recebido a
notícia do agravamento do estado de saúde da sua irmã octogenária a quem ele
estava muito ligado. Logo na primeira aula partilhou, ingenuamente, essa sua
grande ralação. Ao intervalo, a informação passou ao conhecimento de Abílio
Pardalim, xendro, e ZéTó Picanço, aranhiço, conhecidos javarinos nas suas
aldeias, daqueles que meia dúzia de anos antes eram mais foitos a escapulirem-se da escola
à cata de ninhos de cotovias, de espadachos e de felosas do que a aprender a
cantarolar a tabuada do nove e a debitar as principais montanhas do país. Quase
em simultâneo, anteviram logo ali que naquele dia haveria “furo” na aula de
ciências do Professor Barbosa. Rapidamente gizaram e operacionalizaram o plano:
correram rampa abaixo à cabine telefónica em frente à Câmara, discaram o número
do Colégio e, quando a D. Augusta atendeu, Abílio, com a voz mais grossa e
grave que conseguiu, falou:
- Está lá? Bom dia minha
senhora, estou a falar para o Externato de Nossa Senhora do Incenso de
Penamacor?
- Sim, está, faça favor de
dizer.
- Minha senhora, daqui
fala da parte do Senhor Presidente da Junta de Monsanto que me pediu para transmitir uma triste notícia ao Senhor Professor Adelino Galhardo Barbosa.
D. Augusta, era uma figura
histórica do colégio. Durante mais de 3 décadas assumiu as funções de chefe de
secretaria, cabendo-lhe tocar o sino colocado no átrio da escola mesmo por cima
da porta de entrada para a secretaria, para sinalizar o início e fim das aulas.
Conhecedora da situação, deduziu imediatamente o que, supostamente, sucedera.
- Ai valha-me Nossa
Senhora do Incenso, o senhor vem dizer que morreu a irmã do Senhor Professor
Barbosa?
- Correcto e afirmativo
minha senhora. É com profunda consternação que informo que faleceu esta manhã a
irmã do Senhor Professor Adelino Galhardo Barbosa, residente que era em
Monsanto, solicitando o obséquio de o comunicar ao Senhor Professor.
D. Augusta
foi de imediato transmitir a “má” notícia ao docente que, naturalmente, se apressou a
dirigir-se para Monsanto.
Orgulhosos da façanha,
Abílio pardalim e ZéTó picanço foram-se colocar estrategicamente para poderem ver
passar o Professor Barbosa que agarrava com ar aflito o volante do seu Ford
Taunus creme. Abílio ainda suavizou a malandrice dos dois bardinas:
terça-feira, abril 02, 2019
O Baságueda no José Candeias - ANTENA 1, 02/04/2019
Só para curiosos:
1. Seguir ligação:
https://www.rtp.pt/play/p661/e398443/jose-candeias
2. Seleccionar 02 Abr.2019 José Candeias 2/2
3. Ir até ao minuto 40 (mas todo o programa é bom).
1. Seguir ligação:
https://www.rtp.pt/play/p661/e398443/jose-candeias
2. Seleccionar 02 Abr.2019 José Candeias 2/2
3. Ir até ao minuto 40 (mas todo o programa é bom).
quinta-feira, fevereiro 07, 2019
terça-feira, janeiro 01, 2019
CCLV - A NOSSA FALADURA - CARDOMO / CADORNO
Começou 2019. Até aqui chegámos. Haverá sempre um dia em que já não veremos o fogo de artifício nem ouviremos, participantes ou não, a missa do galo, nem assistiremos à chegada do madeiro. É a isto que se chama o ciclo da vida. Platão já ensinava que a "vida é um treino para a morte" e Hegel confirmava com "tudo o que nasce vivo já traz consigo o germe da morte". Podemos mesmo ir atrás e acompanhar Homero no canto XI da Ilíada, onde nos explica, como ninguém voltou a explicar, o mito do eterno retorno: a cada ano renasce a floresta e a cada ano ela morre. A morte da folha é o ressurgimento de uma nova planta. Sempre uma nova primavera, sempre a sua ultrapassagem pelo inverno.O homem do APEIRON, Anaximandro de seu nome, também falava da eterna luta entre o seco e quente versus o húmido e o frio. Progressivamente um ia tomando o lugar do outro mas a sua vigência enquanto dominante também ela era efémera... logo seria ultrapassado.
Grandes mneses estas...tudo porque ontem me deparei com um códão f.d.p.e os baldes onde tenho a azeitona retalhada ao relento com um cardomo que só visto. Andava por cima da relva e ela chiava, não se vergando ao peso. Uma geada assim mesmo comédado. Já tinha saudades.
Tudo isto me trouxe à memória uma antiga leitura a propósito de um outro famoso pensador Joahhn Gottlieb Fichte: a minha consciência é diferente daquilo de que estou consciente. Ou seja, o objecto da minha consciência não se confunde com essa mesma consciência. Se fora assim a consciência anular-se-ia. Isto tudo desemboca então numa grande complicação: eu e a minha consciência não somos o mesmo, já somos dois...sim, porque eu não sou só a minha consciência... Depois há aquilo que a minha consciência contém, que não é o mesmo do que eu estou consciente de que ela tem; há ainda aquilo que eu tenho consciência de que não tenho consciência. Escapa-se à minha consciência...A resumir: eu não sou só eu: sou eu e a minha consciência, o que ela contém, o que eu estou consciente que ela contém e mais aquilo que eu estou consciente de que eu não tenho consciência. Para eu não ser tantos eus, abreviamos isto dizendo que eu sou eu e não-eu. Não sou um, mas dois em um..Ou mais...dedicai-vos a entender isto e assim na vossa consciência não assenta o cardorno.
Tal como o exercício físico aquece o corpo, o exercício mental desperta-nos da letargia, do ram-ram,do continuamente igual, obrigando-nos a descobrir novos caminhos e a não seguirmos sempre os mesmos trilhos. É imperioso que não anquilosemos sempre na mesma posição e convencimento. Temos que nos desafiar a nós próprios. Mainada.
Se nesta época de invernia os nossos avós que não tinham máquinas para colher a azeitona, nem viaturas para as transportar, nem..., nem... se remetessem a ficar comodamente ao lume a queimar lenha e a criar chouriças nas pernas nunca teríamos azeite de qualidade. Cedo, bem cedo, bandoleira ao ombro, já com o feijão e um pouco de conduto e um naco de pão, obviamente uma cabaça com tinto do novo, aí iam eles, pisando cardomo em cada lapacheiro congelado, mãos a aquecer num rebolo embrulhado no lenço das mãos - que o frio cortava - às vezes de escada e toldos às costas, completamente às escuras, só que bem conhecedores daqueles caminhos tantas vezes calcorreados. A vida nunca foi fácil nem cómoda. O pão custava a ganhar e por isso sabia tão bem.
Quantas vezes isto se passou com este vosso escriba!
Agora, à distância, é que tomo consciência desses tempos do passado. Naquele tempo, nem tempo havia para me debruçar sobre estas questões da consciência. Era esgalhar e mainada. Não estou nada arrependido, podeis estar conscientes disso. Foi a melhor escola. Foi a escola da vida. Só mais tarde veio a vida de escola.
XXIIIIII GGGRANNDDDDDE
terça-feira, outubro 09, 2018
VINDIMA MMXVIII
VINDIMA 2018
ORA VAMOS LÁ SABER
SE SOFRES DE ALZHEIMER
OU NÃO QUERES APRENDER
TANTAS VEZES JÁ AQUI VIESTE
MAS PARECE QUE ESQUECESTE
O QUE TE TENHO ENSINADO
E DOU O TEMPO POR MAL EMPREGADO.
VAMOS LÁ REPETIR MAIS UMA VEZ
(E ESCREVO EM BOM PORTUGUÊS)
COMO DEVES PROCEDER
PARA TUDO BEM FAZER :
SAÚDA QUEM CHEGOU PRIMEIRO
NÃO SEJAS MALCRIADO
TENS MESA PARA O MATA-BICHO
MAS DEITA O DESPERDÍCIO PARA O LIXO
ESCOLHE POR ONDE MAIS TE APROUVER
CHIÇA VARIADA, ALGUNS PETISCOS PARA ENTRADA
BRANCO,TINTO, SUMO, JEROPIGA
PORTO, MARTINI, MOSCATEL , CERVEJA AMIGA
CAUTELA!NÃO TE ALAMBAZES
SENÃO DEPOIS NÃO SABES O QUE FAZES.
E DEPOIS NÃO TE PONHAS LOGO A COLHER.
INFORMA-TE DO QUE HÁ PARA FAZER.
PEGA NO BALDE, CESTA ,OU QUE APARECER
E DEPOIS QUE TE REFIZESTE
DIRIGE-TE À LINHA QUE ESCOLHESTE
PRESTA ATENÇÃO AO QUE VAIS COLHER
ISSO NÃO É PARA LEVAR TUDO A EITO
E REQUER MESMO ALGUM JEITO:
ESCOLHE SÓ UVAS EM BOM ESTADO
E DEITA FORA TODO E QUALQUER BAGO
VERDE, VERMELHO DE SECO, PODRE…
SENÃO INSPECTOR ELÍSIO METE-TO NO ODRE…
NÃO TENHAS PRESSA,QUE A COMIDA NÃO ACABA
E O GRANDE CHEF PRECISA DE TEMPO
PARA DEIXAR TUDO A CONTENTO.
PARA COMEÇAR COMO FOSTE EDUCADO
SABOREARÁS UM CALDO DIVINAL
QUE NUNCA O DEIXOU FICAR MAL
COM ENTULHO SELECCIONADO
DO VERDADEIRO, POIS ENTÃO
COMO É TIMBRE DESTE CHEFÃO.
E NÃO PENSES QUE VAIS SER PASSADO
QUE A VARINHA TEM O EIXO AVARIADO
E TU TENS O DENTE BEM AFIADO.
DEPOIS ,SERÁS PRESENTEADO
COM MARHUA MARHUA DESFIADO,
MUITO BEM ACOLITADO
POR TOMATE DO VERDADEIRO
ALI BEM PERTO CRIADO
E POR TUBÉRCULO COZIDO , BOLBO CHOROSO,
LOIRA GORDURA E BARBUDO DENTADO,
QUE TE DEIXARÃO TODO GOSTOSO.
NEM PENSES QUE ME ESQUECI
(PRINCIPALMENTE PORQUE É PARA TI)
DA MAIS QUE FAMOSA SARAPILHEIRA,
ALBARDADA EM MOAGEM FINA
DE CEREAL FAMOSO DE GRÃO AMARELO
ENVOLVIDA EM PRODUTO GALINÁCEO,
BATIDA EM MALTE E CEVADA LEVEDADA,
QUE TE DEIXARÁ UM PEITO CURIÁCEO
PARA ACAMARES O ESCAMUDO FLUMINENSE,
AO ANZOL PESCADO PELO GRANDE MAIM,
ESPECIALMENTE PARA TI E PARA MIM.
PARA NÃO IRES A DIZER COMO NO ANO PASSADO
QUE FOSTE MAL ALIMENTADO
DÁ TRÊS SALTOS PARA ACALCAR
O QUE JÁ METESTE DEBAIXO DA CAMISA,
ACREDITA EM QUEM ASSIM TE AVISA
E ARREGALA O OLHO PARA O QUE ESTÁ A CHEGAR:
FUMEGANTE NA CAÇAROLA BARRENTA
EIS A SABOROSA PANELA ÀMODA DA CIDADE NEVE
COM MATERIAL TAL QUE ARREBENTA
ATÉ AQUELE QUE JUROU ALMOÇO LEVE.
TUDO AO NATURAL , MATERIAL DE PRIMEIRA
SEM CONSERVAS, ENLATADOS OU CONCENTRADOS
QUE EU QUERO TODOS BEM TRATADOS.
E FICAM PARA O ANO JÁ CONVIDADOS.
O RESTO SERÁ O QUE DEPOIS SE VERÁ
E SE MAIS NÃO HOUVER, ASSIM JÁ DÁ.
QUINTA DO LÍRIO
OUTUBRO DE 2018
domingo, agosto 26, 2018
A NOSSA FALADURA - CCLIV - RAMBÓIA
A terra xêndrica está, por esta altura, em festa. Celebra-se o sr. S. Bartlameu, em tempos idos, também chamada Festas da Desfolhada, mais por causa dos atritos profano / sagrado do que por outra razão. Na verdade, foi o professor Leitão que criou esta denominação, porque a mordomia do santo, liderada pelo pároco de então, exigia que se o nome das festividades fosse associado ao santo patrono, os lucros da festa reverteriam para a fábrica da igreja. Aí é que batia a questão e, por mor disso, o professor Leitão festejava as festas populares antes da data de 24 de agosto e chamou-lhe de Festas da Desfolhada. A festa religiosa, propriamente dita, sempre se celebrou a 24, raramente passava de uma jornada e reduzia-se às iniciativas religiosas: alvorada curta, missa e procissão, quermesse, ramo de oferendas - afinal era a festa dos galos- e, à noite uma musiquinha de trazer por casa com um balcão de taberna sem grandes comezainas.
Com o tempo as quezílias foram-se esbatendo e as contas acertadas, voltando as festas à data da comemoração do dia do patrono, o sr. São Bartlameu. Mainada.
O nome de Desfolhada derivou de, por esta altura, no lajedo de alguns balcões de pedra, ao cimo das escadas que davam acesso ao primeiro andar das casas, se procedia à descamisa do milho, à noite, após a ceia. Reunia-se a vizinhança e procedia-se à separação da maçaroca da cana do milho, a que se chamava descamisa, entretanto já desbandeirado. Depois, a maçaroca ficava a secar e era malhada com uma rasoira em pequena eira ou até mesmo esfregando umas contra as outras. Os cascabulhos guardavam-se e serviam para cama de gado ou até para mecha de acender o lume no inverno. As barbas das maçarocas eram também secas e havia até quem depois as moesse e amortalhasse em papel de cigarro e as fumasse. Serviam também para chá. As camisas e as canas serviam para forragem durante a invernia. Nada se desperdiçava e tudo era aproveitado ao limite. A descamisa era feita com uma pequena navalha ou, a maior parte das vezes, com um pau aguçado que afastava as folha e depois permitia que a maçaroca se esnocasse do pé e se deitasse para o cesto que as levaria até uma melhor secagem em eira ou lage.
Volvamos, então, de novo, ao sr. São Bartlameu.
Já muito sabeis acerca deste Natanael , mas talvez não seja do vosso conhecimento que Miguel Ângelo o escolheu para gravar a sua própria imagem na capela Sistina, quando Bartolomeu"cuja arrepiante tradição o distingue como o mais hediondamente atormentado de todos os apóstolos", e que aparece retratado como "um Bartolomeu calvo, musculoso e quase nu que...fita um Jesus imberbe". (Sirvo-me nas citações que aqui apresento dum livro excelente para quem queira saber algo de fundamentado sobre a expansão da religião cristã: APÓSTOLOS de Tom Bissell, Clube do Autor Editora, Novembro,2017, Lisboa).
Mas não penseis que é este o único retrato do nosso patrono. Aqui tendes outro (Obra citada pág.87): "possui cabelo preto e encaracolado, pele clara, olhos grandes, nariz direito, as orelhas cobertas pelo cabelo, barba comprida e grisalha, altura mediana. Enverga uma túnica branca com uma faixa púrpura e uma capa branca com quatro pedras preciosas nos cantos. Usou essas roupas ao longo de vinte e seis anos, mas elas nunca se gastam. Os sapatos duraram-lhe vinte e seis anos. Faz as suas orações cem vezes por dia e cem vezes por noite. A sua voz soa como uma trombeta; os anjos estão às suas ordens; está sempre bem disposto e conhece todas as línguas."
Muitas outras novidades aqui vos poderia aportar, mas deixo-vos apenas mais duas ou três: os seus restos mortais, crê-se que recolhidos por um monge numa noite em que os ossos espalhados se distinguiriam por surgirem fosforescentes, colocados numa bacia e depois levados para a capela, que ainda hoje tem o seu nome, numa ilha no meio do Tibre, mesmo às vistas de Roma, chamada ilha Tiberina, que são quatro as vezes que aparece citado no Novo Testamento, que o seu nome «bar Talmai» significa «filho de Talmai», que por sua vez significa em hebraico «rico em sulcos», que indicaria a sua humilde origem de filho de um pobre lavrador que sulcava a terra e não, como queria São Jerónimo, que seria oriundo de família nobre, como vem referido no segundo livro de Samuel (2 Samuel 3:3); finalmente que andou pelas índias, onde teria sido esfolado vivo por pagãos Arménios.
Fiquemo-nos por aqui. Se quiserdes saber mais é ler o livro supra citado. Mainada.
Nos meus tempos de cachopo, raras foram as festas do santo patrono em que não ajudei a papar uma galinha ou galo, gamados na noite anterior de uma capoeira mais a jeito. O local da rambóia era invariavelmente o mesmo: o chão do ti João Toscano onde havia uma mina, com uma nascente de água sempre fresquinha, ali a descer da aldeia dos cucos pertinho do depósito da água. A trupe também variava pouco e se algum entrasse de novo, obrigava-se ao dever de sigilo mais que confessionário e a contribuir com algum produto que fizesse falta. Em regra consistia em oferecer 5 litros para a dita rambóia. A galinha(galo) não era depenada. Esfolava-se. Assim cozia mais depressa e tinha menos nata de gordura. Depois da procissão a rapaziada ia almoçar com a família, mas pelas 5 da tarde, hora morta da festa, cada um na sua bicicleta lá ia ter com os ingredientes previamente acertados na véspera. Claro que raramente comparecíamos ao jantar em casa. A desculpa era que o almoço tinha sido farto e os festeiros também tinham que fazer algum dinheiro e por lá comeríamos uma febra ou uma salsicha dentro do paposseco...tretas. Algumas vezes toco Jabão e Coiote Pete arranjavam umas rolas e aí a rambóia tinha outras exigências em termos de acompanhamentos, chegando a meter champanhe francês, refrescado na mina. Qualidade de vida, era o que era. A mim calhava-me sempre a confecção e só vos digo que nunca ouvi protestos. Outros tempos, outras vidas .
Ora atão que viva o sr S.Bartlameu, que ele vos proteja e vos livre das tentações do mafarrico que traz sempre preso e só solta no dia da sua festa...
XXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDEEEEEEEEE.
segunda-feira, julho 02, 2018
quarta-feira, setembro 27, 2017
VINDIMA MMXVII
AO
CHEGAR
PARA
COMEÇAR
HÁ
QUE CUMPRIMENTAR
QUEM
JÁ POR LÁ ANDAR.
POR
MAIORIA DE RAZÃO
FAZER
VÉNIA AO PATRÃO
QUE
TE GARANTE O PÃO
NESTE
DIA DE CONVÍVIO SÃO.
SÓ,
DEPOIS, ENTÃO
VAI
EM BOA DIRECÇÃO
E
DIRIGE-TE À MESA
PODE
HAVER ALGUMA SURPRESA…
SERVE-TE
DO QUE MAIS TE APETECER
MAS
NÃO TE PODES ESQUECER
DO
QUE TENS QUE IR A COLHER
MUNE-TE
DO NECESSÁRIO
E
METE-TE AO CARREIRO
SELECCIONA
BEM O CACHO
E
DEIXA DE PENSAR SÓ NO TACHO.
REJEITA
O BAGO AZEDO
E
TAMBÉM O QUE SECOU CEDO
NÃO
ESTRAGUES COM QUANTIDADE
O
QUE SE QUER DE QUALIDADE,
ACAUTELA
SEMPRE O DEDO
QUE
NÃO VALE TER PRESSA
PARA
TUDO ACABAR CEDO
ATÉ
PORQUE SE TE APRESSAS
NÃO
DÁS TEMPO AO GRANDE CHEFE
DE
TE PREPARAR O BUFETE.
PARA
ENTRADA TERÁS CERDO EMBUTIDO
TRASEIRO
DE SUÍNO CURTIDO
ACHINCHADO
DE OVINO E CAPRINO
MAS
NÃO SEJAS LAMBINO
QUE
AINDA TENS SARAPILHEIRA
EM
POLMO MAIS QUE DIVINO
FRITADA
OVEIRA DE RARA MESTRIA
BIFE
DE CAROÇO ASSIM À MANEIRA
TEMPERADO
COMO DANTES SE FAZIA.
E
VAIS TER CALDO, POIS ENTÃO,
APROVEITA-SE
A ÁGUA DO FEIJÃO
E
JUNTAM-SE-LHE INGREDIENTES TAIS
QUE
ATÉ DESCONFIO QUE VAIS
REPETIR
SE NÃO TRISAR ESSA BELA SOPA
QUE
TÃO DEPRESSA NÃO SE TE VAI DA BOCA!
SE
QUERES ÁGUA, VAI À TORNEIRA
NÃO
É IGUAL À DA CIDADE
VEM
AO TRATAMENTO E VOLTA PARA TRÁS
METADE
PISCO METADE ÁGUEDA
SE
PROVARES LOGO CONFIRMARÁS.
BRANCO
E TINTO DE UVA TAMBÉM TERÁS
PARA
ALÉM DE FRISANTE E SUMO COM GÁS
PARA
TE MATAR ESSA MALVADA
AINDA
PARA TE CONSOLAR TERÁS
O
AMIGO CAROLINO DO MONDEGO
BEM
RECHEADO DE AVE PALMÍPEDE
QUE
COMO TU TAMBÉM É BÍPEDE
CRIADO
ASSIM MESMO COMÉDADO
EM
MOLHO DE BULBOSA CONFECCIONADO
MAIS
CAPSICUM ANNUUM E FRUTO DE REFÊGO
PARA
ALÉM DE SABOROSAS AROMÁTICAS
ALI
MESMO COLHIDAS E BEM LAVADAS
DESDE
O LOURO AO SERPÃO E MANJERONA
QUE
GUERREOU COM O VELHO ALECRIM
COMO
BEM CONTA EM OBRA DRAMÁTICA
“O
JUDEU”, OU ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA
QUE
A INQUISIÇÃO LEVOU EM MORTE TRÁGICA.
AINDA
SABOREARÁS O CHEIROSO TOMILHO
E
MAIS A INDISPENSÁVEL SALSA -PETROSELINUM
SEM
ESQUECER TRÊS FOLHAS DE MANJERICÃO
QUE
JUNTO COM ESTIMULANTE CAPSICUM
TE
FARÃO LAMBER E COM TODA A RAZÃO
POIS
MELHOR NÃO HÁ EM LUGAR ALGUM.
QUEM
TO GARANTE SOU EU, VESTIDO A PRECEITO
COM
GORRO E AVENTAL DE BELO EFEITO.
PENSAVAS
QUE JÁ ESTAVA TUDO DITO
MAS
VARRE DA IDEIA TAL CONCEITO
PORQUE
PAR CULMINAR ESTE BELO REPASTO
TE
FALTA O BELO FEIJÃO COM REPOLHO
QUE
ACOLITADO POR APÊNDICES PORCINAS
DAS
QUE ENCHEM A BOCA E O OLHO
TE
PORÃO FINALMENTE DE RASTO
SEM
QUASE TE PODERES LEVANTAR
POR
QUE TANTO ENCHESTE O PARRANÇO
COM
BOM PRODUTO TÃO VASTO
QUE
DE NOVO VOU VERIFICAR
QUE
A LOIÇA E O ESFREGANÇO
PARA
MIM DE CERTEZA VÃO SOBRAR.
TENS
AINDA PARA MATARES ALGUMA SEDE
A
CEVADA COM MALTE E LÚPULO FERMENTADA
FRESQUINHA
COMO REZA A LEI ESTIPULADA.
NÃO
SEM ANTES, BEM FILTRADO PELA REDE
TE
PODERES REFASTELAR COM NABEIRO SABOR
QUE
TERÁ COMPANHIA MAIS QUE VARIADA
E
TUDO OFERECIDO COM TODO O AMOR.
SE
QUERES MAIS E MELHOR,VOLTA PARA O ANO
À
VINDIMA DO VELHO AMIGO TOSCANO.
QUINTA DO LÍRIO, 16 DE SETEMBRO DE 2017
segunda-feira, setembro 04, 2017
A NOSSA FALADURA - CCLIII - REFÊGO
Num ano seco como este não é difícil encontrar muitos produtos hortícolas cheios de refêgos. Mais visíveis são, sem dúvida nos tomates que, apesar de diariamente regados, para além de apresentarem manchas esbranquiçadas do calor do sol, ainda ficam mais estragados com uns sulcos, que mais parecem rugas, junto ao pedúnculo. Aí estão os refegos. Metade do tomate vai-se embora. Vá lá que têm tamanho bastante para se aproveitar ainda parte razoável da polpa. O paladar, esse, não fica minimamente afectado. Valha-nos isso. São imensas as variedades de tomate, desde o chucha, ao cacho, ao tipo Ladoeiro, grande e pequeno, ao cereja, ao negro, ao ananás, ao bicudo, que sei eu..., mas, de longe, os melhores são os cor de rosa: grandes, sumarentos, nada acidulados, quase sem pevide - uma maravilha. Pois, mas haviam logo de ser estes os mais atreitos aos refegos. Para minha pena também, são os que têm menos tempo de conserva, depois de colhidos. Ao fim de dois dias já estão todos desmazelados.
Os maiores que vi foi na horta da ti Maria Rainha, lá para as portelas, mesmo em frente da já quase desaparecida fonte de melão, onde uma burra, que mais parecia uma mula, tirava água à nora. O poço devia ter bem aí uns quinze metros de fundo por cinco a seis de diâmetro. Belos tempos esses em que aquela baixa era toda explorada com tudo o que havia de melhor. De vez em quando a ti Maria, essa inolvidável cozinheira de bodas e baptizados trazia-me uns quantos. O primeiro era logo papado retalhado com umas areias de sal. Uma delícia. Pesei um com seiscentos e cinquenta gramas. Essa famosa cozinheira não precisava de livro de receitas... Tinha tudo de cabeça. Se tinha uma barruma na testa não tinha refêgos na arte de culinária. Aquela memória não tinha sulcos nem rugas, tudo saía na perfeição e era tudo a olho. Não usava colher de pau a bater a massa dos ovos e farinha e açúcar e... para os bolos. Batia tudo à mão. Dizia que "assim nunca ficam garanhotos na massa: esborraço-os todos ." Mainada!
Eu ainda hoje mantenho essa semente, mas nunca consegui cultivar tomates daquela grandeza. O maior teve duzentos e quarenta gramas. Nada mal.
O que a mim me faz refêgo é ver grande parte da nossa malta a deliciar-se com pizzas, hamburgers e outras purgas que tais, a encherem-se de gorduras insalubres quando, mormente neste tempo, podiam e deviam preferir umas boas saladas e umas frutas que é do melhor que esse país produz. Mas não...vão para a Itália e para a América. Mas não é só na alimentação: na música passa-se o mesmo. Há estações de rádio que mal ou nada cheiram de música portuguesa... É só anglo saxões e americanos.
Refêgo me faz ainda esta corrida de algumas vedetas às autarquias, que se arvoram nos melhores dos melhores, voltando a reavivar aquilo que afinal nunca desapareceu deste rectângulo: o sebastianismo.
Tenho para mim que pode haver inesquecíveis, mas não há insubstituíveis.
Por aqui me fico, hoje. Prometo não demorar tanto tempo a voltar ao vosso contacto, senão ainda vos crio algum refêgo na testa com a preocupação de que algo me tenha acontecido...
XXXXXXXXXXXXXIIIIGRRAAAAAAAAAAAAAAANNNDDDDDDDEEEEEEEEE!
sexta-feira, junho 30, 2017
A NOSSA FALADURA - CCLII - DESAJUDA/DESAJUDAR
Como já por várias vezes aqui foi referido, o meu amigo Lameiras, de vez em quando saía-se sempre com a sua proverbial sentença:"tem lá porras". Pois é: a língua portuguesa tem lá porras. O prefixo (eu acho que ainda é assim que se chama) DES, em regra, significa disseminação, distribuição, intensificação como em des vario, e também a negação /oposição da palavra primitiva, como em des vio, des tacar, des aparecer,... Ora, a nossa faladura de hoje não verifica nem uma nem outra das possibilidades, a não ser que, com muito boa vontade aceitemos que ajudar significa auxílio para cima e desajudar quer dizer auxílio para baixo.
Expliquemo-nos: com toda a certeza, alguns
dos que têm a coragem de me ler vivenciaram a árdua tarefa cometida às mulheres
de ir buscar água à fonte/chafariz/poço. Não raro, traziam um cântaro assente
numa molídia (rodilha, sogra) à
cabeça, um caldeiro numa das mãos e um flho/a puxado pela outra mão. Uma
verdadeira proeza de equilíbrio, Nas terras xêndricas, que eu conhecesse, só um
homem ia ao chafariz e transportava o cântaro à cabeça, e, mesmo assim, amparava-o
sempre com uma das mãos: era o Tonho Félix, filho de velha Lorpa, uma das patas galhanas não há muito
referenciadas aqui no basa. Nanja as
mulheres que não precisavam de qualquer amparo para transportarem o cântaro.
Era costume que nessas fontes colectivas
existisse um baturel onde as
mulheres pousavam o cântaro já cheio e, depois de ajustarem a molídia
baixavam-se ligeiramente e, com um impulso elevavam-no para cima da cabeça e
toca a andar. Mas se por ali houvesse outras mulheres, elas ajudavam-se umas às
outras e era mais fácil a colocação do cântaro à cabeça.
Ora aqui está: para elevar o cântaro até à
cabeça era uma ajuda, a questão põe-se agora quando, chegada a casa, era
preciso tirar o cântaro para a cantareira ou outro pedestal que ficasse à mão
de todos e relativamente baixo para que até as crianças lhe chegassem para se
dessedentarem. Aí, a mulher carregada pedia a quem estivesse por perto;
"desajuda-me aqui, se fazes favor". Não penseis, todavia, que é esta
a única palavra que verifica esta "anomalia". Sirva de exemplo
DESINFELIZ.
Vem este fraseado para poder questionar-(me/vos)
sobre se a religião ajuda ou desajuda seja qual for o sentido que queirais dar a
estes termos.
Do que não restam dúvidas é que a religião
(seja ela qual for) é senhora de um poder cujos limites ninguém consegue
descortinar. Enquanto mitómano e mitófilo o ser humano faz do melhor e do pior
em nome da mesma divindade. Para mim tenho também que as práticas religiosas, sejam
os ritos convencionais, sejam as crenças instantâneas e esporádicas, são uma
espécie de negócio de troca: promete-se qualquer coisa à divindade ou a um dos
seus mais próximos: a Virgem, anjos, santos,...) mas com o intuito de receber
uma benesse qualquer, que, para os que crêem não está ao alcance de outros
seres humanos. E tanto se pede para o bem como para o mal. Neste caso leva muitas
vezes o nome de bruxaria. Mas lá vêm os quebra quebrantos e as ladainhas e
jaculatórias, sempre com intervenção divinizada, para desfazer os enguiços. O
mesmo para os chamados possessos...Por isso é que :"Mais vale quem Deus
ajuda do que quem muito madruga."
A questão complexifica-se se formos
avaliar a «cultura» religiosa de grande parte dos crentes. O próprio Kant acaba
por secundar a razão à Fé: " é preciso substituir a razão pela
crença"! Valha-nos, ao menos, Fernando Pessoa: «crer é morrer; pensar é
duvidar».
Se perguntardes, atrevo-me a dizer, à
maioria dos que se dizem cristãos, ou mesmo católicos se leram a Bíblia, ou
parte significativa dela, a resposta irá ser um rotundo NÃO.
Se os confrontardes com os paradoxos da
Fé, ou com o absurdo da Fé, como lhe chamou Kierkegaard, a resposta,
invariavelmente será que foi assim que aprenderam e que sempre foi assim e eles
acreditam que assim seja. Mainada.
Para não pensardes que falo por falar
ficai-vos estes dados:
Uma sondagem feita em Gallup, E.U.A., por
Robert Hinde e depois referida no livro dele mesmo sob o título Why
Gods Persist, a ignorância revelada em matéria bíblica por gente
educada em décadas recentes era tal que espanta qualquer um:75% dos católicos e
protestantes não sabiam o nome de um único profeta do Antigo Testamento; mais
de dois terços não sabiam quem tinha proferido o sermão da montanha; a grande
maioria julgava que Moisés fora um dos doze apóstolos... e por aí fora.
A Bíblia não é, com toda a certeza um
livro que se aconselhe a uma criança no intuito de uma boa formação moral. Repare-se
que no Levítico 20 são merecedoras de pena de morte as seguintes ofensas:
amaldiçoar os pais, cometer adultério, ter relações com a madrasta ou com a
nora, a homossexualidade, desposar a mulher mais a filha, a bestialidade (aqui
com o pormenor de matar também o pobre do bicho).
No Livro dos Números,15, os filhos de
Israel encontram um homem no deserto a apanhar lenha no dia proibído. Levam-no
e perguntam a Deus o que fazer com ele ...«Então o Senhor disse a Moisés: esse
homem será morto. Toda a assembleia o apedrejará fora do acampamento. Assim se
fez.
Afinal Deus ajuda ou desajuda? ambos ou
nenhuma?
Deixai-me terminar com Blaise
Pascal:"Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando
o fazem por convicção religiosa".
Já me alonguei bastante. Logo cá
voltaremos.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE
Desenho: Carlos Matos
Desenho: Carlos Matos
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