quarta-feira, dezembro 31, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXX - (ES)CARAMOUÇO

Os Menas eram mais que muitos. A mãe de todos eles - e eram oito vivos quando eu comecei a ser gente- era vizinha de minha bisavó paterna, Isabel de seu nome, a quem eu ainda fiz a vida negra. Nunca lhe vi uns sapatos. Os pés, se caminhassem na areia, não precisariam de plataforma larga, pois, a bem dizer, tinham tanto de comprido como de largo. Vi-a várias vezes calcar lacraus e pisar silvas e outras plantas com carapetos. Por vezes levava-me com ela à lenha para o lume e já garotelho trazia quase tanta lenha como ela. Insisti com meu pai para lhe oferecermos um fogão a gás que substituísse a velhinha panela de ferro que lhe servia para tudo confeccionar. Invariavelmente tinha miga de batata que nunca mais comi igual. Fedelho como era, lembro-me de me sentar num tropesso de cortiça, perto do lume, junto a uma mesa esconça, coberta por uma toalha de estopa, bordada à mão, e mais encardida que tapete de seira à entrada de lagar de varas. É aqui que volvemos aos Menas. A mãe, Maria - pois que outro nome poderia ter? - morava contígua  à minha bisavó, cofiava o linho sentada num banco de pedra, ali na curva da lagariça, com tal arte e rapidez que me deixava encandeado a olhar para a sua destreza, na sábia habilidade da articulação da roca e do fuso. Era a companheira predilecta de minha bisavó. O pai, Mnel, junto com Chico e João eram os lagareiros do lagar da lameira. Que saudades tenho desse lagar!Diga-se, de passagem, que já aqui no basa fizemos força para que este espaço, que ainda se mantém de pé e em estado razoável de conservação, fosse adquirido pela autarquia e sobrevivesse como escola viva da arte de bem laborar a azeitona . É, de facto, uma lástima que uma relíquia destas se deteriore sem recuperação condigna.
O lagar é fácil de descrever: duas salas. Numa estava o pio onde se moía a azeitona (600kg de cada vez - uma moedura -) a poder de tracção de uma junta de vacas do Alberto Vaz, que, jungidas, puxavam três enormes pedras de granito excêntricas entre si para  apanhar todo o lastro do pio. Em média cada moagem durava duas horas ininterruptas até a massa estar em condições de ir para as seiras. Eram estas em número de quatro o que, como facilmente se entende, implicava que cada uma levasse 150kg de massa. Para tal, tinham que ficar todas de alto (es)caramouço. Muitas vezes, quando a massa era mais esbarroteirada  era necessário um prodígio de equilíbrio, conseguido através de quatro estacas que se interpunham entre as seiras de forma a que o prumo não sofresse alteração significativa, já que, quando do aperto pelo peso das varas, podia esbarrondar para um dos lados e lá se ia tudo perdido. É que além das varas - enormes troncos de sobreiro - a prensa era acrescida pelo peso de pedras monumentais que se suspendiam da ponta dessas varas através de um fuso com uma chave - tudo em madeira - que era uma verdadeira obra de arte.O levantamento dessas pedras era feito pela força de dois homens que, simetricamente tocavam um barrote que, encastrado no eixo do fuso, o içava ou descia, conforme se quisesse maior ou menos pressão. Toquei-o muita vez. A massa era transportada do pio para as seiras mediante o uso de grandes gamelas que muitas vezes ajudei a transportar e que iam sempre de caramouço.
A outra sala era propriamente o sacrário do lagar: um espaço térreo que comunicava à direita com a sala do pio e à esquerda tinha a meio a caldeira, permanentemente quente por uma fogueira sempre acesa. Ligeiramente desnivelado, estava o patamar das seiras donde o oiro de oliva escorria para a tarefa  - talha de barro embutida na rocha - com torneira  de escape para aliviar o azinagre que ia directamente para o inferno - poço onde era retida a água ruça -   antes de ser descarregado para a ribeira que corria contígua. O azeite corria para outra tarefa paralela já decantado, donde depois seria medido para o respectivo dono. As seiras eram sempre espremidas duas vezes: após uma primeira espremedela, a massa era depois toda desfeita, tal como se faz com os queijos à ovelheira, e de novo enseirada, depois de escaldada pela água fervente, tirada da caldeira com uma gamela de cabo comprido. O bagaço resultante era depois amontoado num canto, donde finalmente seria posteriormente carregado para fábricas mais refinadas.
Os Menas dormiam pouco, tal como Alberto, já que, para conseguirem fazer três moeduras por dia, tinham que começar por volta das 5 da manhã e esgalhar até às 23. Ainda os acordei algumas vezes já que meu pai era um dos três a quem incumbia a tarefa de encher a caldeira. Nas férias de Natal, invariavelmente calhava-me a mim esse trabalho. Havia um pocinho à entrada do lagar, do lado esquerdo, donde eu tirava a água com um caldeiro preso a uma corda . Estava completamente às escuras pelo que tinha primeiro que tentear a altura da água para depois atirar o caldeiro de borco e encher outro maior que era transportado pela ti Rosa Mota ou pela ti Maria Augusta, que entre si se revezavam, ora na acarreja ora no despejo para a caldeira. Eu ficava sempre no pocinho. Apesar do frio das cinco da manhã num instante ficava a suar. O enchimento da caldeira demorava cerca de três quartos de hora, pelo que, como era noite de todo eu ficava ao lume da caldeira, sentado num banquinho de três patas e, não raro, dormia um sono assado para completar o sono interrompido àquela hora da manhã.
Assisti também a muitas medições do azeite pelo ti Mnel Menas, o mestre: a primeira deca (medida de dois litros) ia para a casa, a segunda de um litro ia para a lenha e outra ia para a água. Era desta que eu partilhava num terço. Significava isto que, por dia, ganhava um litro de azeite resultante do terço de cada uma das três moeduras. Nada mau. Depois o ti Mnel media dez decas para o dono.A décima primeira voltava a ser para a casa, a que se seguiam mais dez para o dono e assim sucessivamente. Não raro, comia o pequeno almoço com os Menas : uma plangana de couve cozida, ora com bacalhau, ora toucinho assado, atum, alguma febra ou chouriça, morcela ou o que os donos iam ofertando ou eu mesmo levava, sempre bem temperada com azeite do novo. Bebíamos um tinto do novo por um copo de lata que mais parecia um caldeiro e voltava a dormir até ser dia. Outros tempos!
Vem aí 2015: que aquilo que desejardes vos seja servido de escaramouço.
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNDDDEEEEE!

quarta-feira, novembro 12, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXIX - ARGANEL

Para muitos o sistema é a segurança, para outros o sistema é o perigo escondido. O sistema é, queiramos ou não, um poder oculto. Só que essa ocultez não impede que ele seja um poder objectivo. Digamos que o sistema é a faceta executiva do poder absoluto dominante. Vem-me Hegel à memória e de algum modo a minha não compreensão do seu sistema quando por ele passei pela primeira vez. Achava-o um precursor de Hitler, um ideólogo pedante, fora da realidade, um idealista, que para além de absoluto, era o que se podia chamar de abstracto. Dizia de mim para mim que do que ele precisava era de um arganel no focinho que lhe provocasse tamanha dor quando deambulasse pelas suas divagações filosóficas, que nunca as pudesse tornar públicas. Com o tempo aprendi a lê-lo e a verificar a sua sagacidade e que foi bom não lhe ter posto o arganel. Foi assim benéfico que ele tivesse fossado até ao mais imo da consciência humana e tivesse partilhado connosco o resultado da sua fossagem.
Seja de que modo for, nós estamos pré preparados para que sobre nós se exerça um poder. Nem que seja o de nós mesmos sobre nós mesmos. É aqui que reside o poder do espírito objectivo - o tal executor do espírito absoluto, que muda a cada eleição, contra o qual nós passamos a vida a recalcitrar, mas sem o qual não podemos passar, sob pena de nos sentirmos sem bússola a navegar sózinhos em mar alterado e longe de referências terrestres. Mais importante do que quem exerça o poder é que nós precisamos de sentir que ele lá está e que vigia a cada instante, por um lado garantindo a nossa segurança e por outro retirando-nos a nossa liberdade. E o esquisito é que é nesta alienação da nossa liberdade para o tal sistema estatal que nos sentimos protegidos.
Até parece que não nos sentimos bem sem o arganel que nos impeça de investigar, de ir para o ignoto, de ousar romper com o stablishment. A questão é que podemos não nos importar com o Estado dominante mas nunca podemos viver sem Estado.
Sentimo-nos bem se soubermos que há uma força que providencie para que nada nos falte. Se sentirmos que essa força não superintende sobre nós ficamos acagaçados.
Tonho Modas era considerado o mais valente na escola. Era o Tonho que escolhia as equipas para o jogo de futebol, quem decidia quem era o guarda redes e por aí fora. Nada acontecia na escola sem o Tonho avalizar.
Naquele dia o  Tonho entendia que eu devia ir para a baliza. Foi uma tourada pegada, porque me entesei e não houve quem fosse capaz de me pôr um arganel. De vez em quando é preciso outro poder e recusarmos o arganel.
Mnel de Sousa era coveiro. Sempre o conheci como coveiro. Vivia com Maria Verónica. Verónica tinha uma língua que nem um braço, falava alto em todo o lado; já Mnel era a mudez personificada. Raramente se lhe ouvia a voz. Talvez fosse por causa daqueles com quem lidava a maior parte do tempo. Chegava a ter cinco ou seis campas abertas. Até parecia que adivinhava que havia muitos para morrer. Verónica dizia que ele era teimoso que nem uma bota da tropa sem atacadores. Manel nem ouvia. Baldava-se. Lá ruminava de quando em vez: Não houvera quem lhe pusera um arganel no focinho». Verónica, uma vez decidiu desaparecer num inverno em que a ribeira bateu nas guardas da ponte. Apesar das zangas Mnel decidiu ir procurá-la porque não queria que ela ocupasse tão cedo uma das campas que já tinha aberto. Encontrei-o debaixo de chuva perto da tapada do Robalo: " Oh ti Mnel então que anda aqui a fazer com tanta chuva.?» e ele " Ando à procura da Varónica não tenha caído à ribeira.", mas, disse eu, está a vir pela ribeira acima, havia de ir mas era para baixo» e ele" teimosa como ela é nunca ia à ribeira abaixo». Fiquei de cara à banda e lá o demovi da busca metendo-o debaixo do guarda chuva e meti conversa:« Oh ti Mnel, qual o animal que não come ao Domingo?» Ele , moita carrasco, fez de conta que não ouviu.  Vinhamos chegando à entrada da rua das Aranhas e começamos a ver a Verónica aos berros. Mnel: "Rais a partam, não há quem lhe ponha um arganel no focinho. Olha, rapaz, o animal que não come ao Domingo é o que morre ao Sábado.".
Fiquei tosquiado quando ia por lã.
XXXXXXXXXXXXXiiiiiiiii GRAAAAAAANNDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEE

domingo, outubro 05, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXVIII - ESPAPASSADO

Estamos no tempo dos dióspiros. É mesmo a última fruta sazonal. As árvores vão ficar sem folhas e eles lá vão ficar dependurados nos ramos a reluzir naquela sua cor típica. Não sei se sabeis - passe de lado a minha presunção - o que significa dióspiro. Então é assim : DIÓS é o genitivo de ZEUS e PÚROS é também o genitivo de PUR. Ora bem se o significado de ZEUS nada tem a assinalar, é mesmo Zeus, o mais poderoso de todos os deuses do Olimpo, já PÚROS pode oferecer mais dificuldades. Mas não é difícil se olharmos para os étimos que o apresentam como raíz: sirva de exemplo pirotecnia. Fica então claro que dióspiro mais não é do que FOGO DE ZEUS. Isso mesmo: aquela cor de fogo acarretou-lhe o nome. 
O primeiro dióspiro que comi comprou-me meu pai na praça de Castelo Branco. Só que quando o estava a comer ele chamou-me para o ajudar no transporte de uma caixa e eu, inadvertidamente, meti-o no bolso do casaco. Ora é por demais consabido que esta fruta quando cai se espatifa toda esborrachando-se ou melhor ainda espapassando-se. Quando mal me precatei lá estava o dióspiro todo espapassado no bolso e uma nódoa no casaco. Foi uma arrelia, foi o que foi.
Espapassado, mas da cabeça  também fiquei quando comecei a ler o último livro que comprei, por tal sinal na pulquérrima Livraria Lello no Porto e que dá pelo título HISTÓRIA OCULTA DA IGREJA, da Editorial Estampa e cujos autores são Jorge Blaschke, José M.Ibañez e Pedro Palao.
Vou deixar-vos de seguida algumas afirmações constantes desse livro a ver se não ficais também de cara à banda com todos os fusíveis a entrarem curto circuito e a derreterem todos espapassados.
Comecemos então: "Os começos (do cristianismo) implicaram martírio e sacrifício; então os objectivos mudaram  e aquela religião da fé, do amor, da adoração, não tardou a transformar-se numa religião de perseguição, opressão e extermínio dos hereges ou dos pagãos. E também numa religião que não teve qualquer respeito  pelas outras crenças, relativamente às quais se tornou sanguinária, tendo acabado por lhes declarar uma crua e selvagem guerra religiosa." (pág.16) . Logo depois, os autores referem uma  afirmação de José Montserrat  : " A verdade é que o Vaticano não passa de um banco e de um museu e o papa  de um peão na actualidade política internacional, um peão importante que tem de jogar uma carta necessária. O Vaticano, para falar com clareza, é a negação pura do evangelho, tal como o catecismo é a degeneração da religião" (pág. 17)
Logo após cita a catedrática de Teologia Uta Rank- Heineman: « Com a sua mania da virgindade de Maria, o papa levou a cabo um programa de infantilização à escala mundial. É como se nos exigisse  que continuássemos a acreditar na cegonha. » ( pág 18)
Na página 41 : « De todos os Messias que existiram, Jesus Cristo foi o único que conseguiu introduzir com êxito a sua doutrina no Ocidente. Antes dele podíamos falar dos messias Essénios que também morreram crucificados. Depois de Jesus Cristo surgiram outros que tiveram menos sorte, como Teudas, que à frente de um exército numeroso se dirigiu ao Jordão , prometendo que o rio se abriria à sua passagem. Cúspio Fado cortou-lhe a cabeça  e levou-a para Jerusalém, evitando a expansão deste novo messias.  Outro messias veio do Egipto instalou-se no deserto com 30.000 homens instigando-os depois a entrar em Jerusalém, mas o procurador Félix (52-60) matou 400 desses homens... e o novo messias acabou por desaparecer. Surgiu mais outro sob o governo de Pôncio Festo ( 60-62), prometendo saúde e cura para todos os males  aos que o seguissem para o deserto. Também morreu. Ainda durante a guerra da independência que acabou com Jerusalém em ruínas (ano 70), vários chefes autoproclamaram-se messias. Poderíamos citar muitos outros: Eleazar, Simão Manahem, Simão Barcoquebas e outros. »
Mas não ficam por aqui os meus espantos que às vezes me põem a pensar... Não é por acaso que se diz que a Filosofia nasceu do espanto.
Bem... para não ficardes espapassados com muitas outras afirmações constantes no livro, hoje fico por aqui. 
Como se vê as religiões não têm apenas a leitura oficial, dogmática. Há muitas outras leituras possíveis. Nada como ler livros, mesmo que nos espapassem.
Até breve.
XXXXIIIIIIGGGGRRRRAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEE

sábado, setembro 27, 2014

CARTA CONVIVII, ANNUS 2014, SEPTEMBER 27 - VILA LIRII


MATINAS


© Abanicos recais a la moda de nuestros hermanos

© Compresso de temperado chicheiro, fumado

© Fruto de oliva em curtume assim comédado


LAUDES


© Caldo nobre de nabiçal verdura, bem recheada de entulho, convenientemente atafulhada e aromatizada com fémur de tó, tratado em salgadeira tradicional

© Gratinado de poppeyana verdura, enriquecido com espécie de insecto gafanhotal marítimo

© Ciclistas de cara verde, infantis, coadjuvantes de peixe azul de ómega 3, nacional. Enlatado

© Leguminosa amarela ratinha como companhia de abanos suínos em molho salsado, alhado, acolitado por bolbo choroso bem picadinho

© Quá-quá da quinta do lírio, criado ao natural, limpo de ossos e excelentemente acolitado por fumadinho entremeado e carolino cereal, tudo miscigenado e tostadinho em forno de lenha, à moda antiga, ligeiramente picante


POTIONES


© Branco verde e maduro arrefecidos até à temperatura adequada

© Tinto uveiro

© Latinhas de cevada e lúpulo, enregeladas

© Multivariedade de aperitivos e digestivos


© Negro aromático





Edições anteriores






terça-feira, agosto 19, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXVII - ESPAPADA

Já muita vez aqui no basa fizemos referência à chamada "lei do menor esforço" no que concerne à linguagem popular e à sua, em tempos!, decisiva contribuição para o aumento do vocabulário português. A palavra que hoje vos trago beneficia exactamente dessa lei: espapada é uma deturpação fonética de sopapada. Experimentai vós mesmos a dizer cada uma das palavras e depressa notareis que espapada é muito mais fácil e até bonito de dizer do que sopapada.
Joaquim Rebelo era mecânico na firma Petronilho. Era homem para perto de 2 metros de altura, espadaúdo quanto baste, pachorrento, calmo, muito ponderado. Era senhor de uma força hercúlea: chegou a levantar uma carrinha de caixa aberta enquanto Zé Jaque lhe montava o pneu de trás que tinha tido um furo. Creio que foram poucos os que o viram irritado. Apanhava todos os dias a carreira das 9 para a vila. Eu era miúdo e como morava mesmo em frente da paragem da camioneta, muitas vezes, nos tempos de férias, andava por ali a jogar ao pião. Joaquim Rebelo pedia-me o pião e do alto da sua estatura atirava com ele com tal força que marcava o alcatrão e zunia de forma que mais ninguém conseguia fazer. Muitas vezes o pião não resistia ao impacto no alcatrão e o ferrão entrava por ele dentro, escaqueirando-o. Acto contínuo , metia a mão ao bolso e do porta moedas saíam cinco mil réis que vinham parar à minha mão. Lá ia eu, todo contente, ao Ti Chico Miguel a comprar outro novinho em folha. Era preciso tentear bem o pião para que estivesse sempre bem equilibrado, sem defeitos de torno, cossenão ficava esgravuna e ao deitá-lo na roda , tanto podia vir para fora como ficar lá dentro e depois ficava na poça sujeito às nicas até que amigo o tirasse do sal. Muito piãozinho novo estreei eu às abas do senhor Joaquim Rebelo. Morreu novo ao cair de uma escada cujo degrau não aguentou os seus 130Kg.
Num Domingo à tarde, depois de missa, no adro, o Melro pegou-se com Cagarela. Os copos ajudavam à luta e ora caía um ora o outro, não se definindo o vencedor da contenda. Melro, porém, acabou por dar uma espapada em Cagarela que o ardulhou no pó do terreiro. Começou ao pontapé e o caso estava a ficar feio porque Melro já não se continha e Cagarela estava desmaiado, sem reacção. Joaquim Rebelo apressou-se agarrou Melro pelo bibe, levantou no ar e disse-lhe que já chegava. Melro quando se sentiu no chão ia voltar à carga com ideia de continuar a malhar no Cagarela. Rebelo aí não foi de modas: assentou-lhe uma espapada que o pobre do Melro ficou a ver estrelas por uns minutos. Acabaram por acordar os dois a poder de uns caldeiros de água pela cabeça abaixo e a ouvir as ordens de Joaquim Rebelo: "Cuca daqui para fora. Não vos quero voltar a ver aqui hoje. Rodo!". Cagarela meteu caminho das Águas abaixo direito à casa queimada e à quinta do ramalhão e Melro abre caminho às endireituras do Cavacal até à cruz e espojou-se o resto do dia a apalpar a cara onde lhe tinha assente a espapada de Rebelo.
Também eu às vezes levo com cada espapada que até fico atordoado. Mas não são espapadas físicas, são outras.
Dei por mim a confirmar o que já por mais de uma vez tinha constatado, mas que agora com a guerra no Iraque volta a actualizar-se. Até mais, porque se desconfia que o responsável por um ataque suicida à bomba teria sido perpetrado por um português, entretanto convertido ao Islão mais radical.
Foi mesmo como se tivesse levado uma espapada.
Lembrei-me de um debate entre quatro representantes das três religiões monoteístas mais tradicionais: Judaísmo, cristianismo, (catolicismo e protestantismo) e islamismo.
O que agora vos vou apresentar é a transcrição "ipsis verbis"  de um artigo publicado por um famoso advogado francês de nome Gilbert Collard. O conhecimento do artigo em português deve-se a Fernando Tavares e data de 30/3/2014.
«O que é um "infiel" para um muçulmano.
Como demonstram as linhas que se seguem, fui obrigado a tomar consciência da extrema dificuldade em escolher entre Alah ou o Cristo, até porque o islamismo é a religião que mais progride no nosso país (França).
O mês passado participava num estágio necessário  para a actualização da minha habilitação de segurança nas prisões. Havia nesse curso uma apresentação por quatro intervenientes, representando respectivamente as religiões católica, judaica, protestante e muçulmana explicando os fundamentos das suas doutrinas. Foi com grande interesse que esperei a intervenção do Imam.
Terminadas as intervenções chegou-e ao tempo de perguntas e respostas e, quando chegou a minha vez, perguntei: «Agradeço que me corrija se estou enganado, mas creio ter compreendido que a maioria dos Imams e autoridades religiosas, decretaram a Jihad (guerra santa), contra os infiéis do mundo inteiro, e que matando um infiel (o que é uma obrigação feita a todos os muçulmanos) estes teriam assegurado o seu lugar no Paraíso. Neste caso poderá dar-me uma definição do que é um' infiel'.? Sem nada objectar à minha interpretação e sem a menor hesitação, o Imam respondeu : um não muçulmano. Eu retorqui: permita de me assegurar que compreendi bem: o conjunto dos adoradores de Alah devem obedecer à ordem de matar qualquer pessoa, não pertencente à vossa religião, a fim de ganhar o paraíso, não é verdade?
A sua cara, que até aqui tinha revelado uma coerência cheia de segurança e autoridade transformou-se de repente na de um puto apanhado em flagrante com a mão dentro do açucareiro. É exacto, respondeu ele num murmúrio. Eu retorqui: Então eu tenho bastante dificuldade em entender que o Papa diga a todos os católicos para massacrarem todos os vossos correligionários, ou o pastor Stanley dizer o mesmo para assim garantirem um lugar no Paraíso. O Imam ficou sem voz. Continuei: Tenho ainda sérias dificuldades em ser seu amigo pois que o senhor e seus confrades incitam os vossos correligioários para me cortarem a garganta. Permaneceu silencioso. Só mais uma questão: o senhor escolheria Alah que vos ordena matar-me para alcançarem o Paraíso, ou o Cristo que me incita a amar-vos para obter o mesmo paraíso? Podia ouvir-se uma mosca na sala. O Imam permanecia silencioso»..
Para a semana trago-vos outras curiosidades, mas agora do cristianismo. 
Já agora e para despedida : qual é a palavra no plural , com 7 letras e que tanto se lê de diante para trás. como para a frente (capicua)? Ela já consta do texto acima só que está no singular .
XXIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGRAAAAAAANNNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDEEEEEEEE

quarta-feira, julho 16, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXVI - ESCADABULHAR

Há uma máxima, cujo autor ignoro, nem mesmo sei se é aforismo popular, portanto, pertencente ao nível de conhecimento do senso comum, que, eu próprio, já muitas vezes confirmei: "quando se encontra sem se procurar é porque já muito se procurou sem se encontrar".
À medida que a nossa faladura vai crescendo, começam a escassear novos termos e novos heróis. Este que hoje vos trago saiu-me em conversa com Karraio. Vai daí pus-me a escadabulhar que temática vos traria hoje. Passaram-me várias temáticas, mas acabei por me decidir sobre uma que há já muito tempo não era motivo das minhas lucubrações meditativas naqueles momentos pré hipnagógicos até mergulhar nos braços fofos de Morfeu.
Se há mundo que me fascina, o da mitologia grega e das suas implicações na cultura ocidental, o da mitologia greco - romana é um deles.
Hoje trago-vos Hermes (Mercúrio, para os romanos). Em tempos tinha brincado com este carteiro divino (afinal ele era o mensageiro dos deuses), ou seja, desempenhava o papel que os anjos cumprem na mitologia cristã: encarregados de transmitir avisos divinos. Quando essas missões são especiais, aí já não são os anjos, tout-court, mas os seus superiores hierárquicos - os arcanjos-. Foi assim com a expulsão de Lúcifer, pelo arcanjo S. Miguel (que curiosamente significa que ninguém é como Deus), depois com Rafael (que significa CURA DE DEUS) e a cura da cegueira de Tobias ao passar o fel do fígado de um peixe pelos olhos dele e finalmente Gabriel (que significa Deus é meu protector) que foi encarregado de anunciar a Maria a sua imaculada concepção.
Volvamos, pois,  a Hermes (ou Mercúrio). Além de mensageiro fiel dos deuses, era também deus dos ladrões, dos comerciantes, viajantes, diplomatas, pastores e seus rebanhos, da eloquência, para além de ser ele também o encarregado de guiar as almas dos mortos para o mundo do Hades.
Ora, o nosso Hermes - que, recordo, era deus dos ladrões - originou uma ciência interpretativa de importância mais que muita nos tempos que correm, sobretudo para quem se dedica à interpretação das mensagens.
O que se diz, a partir do momento em que é dito, deixa de ser da posse exclusiva de quem o disse. Faz-me lembrar um ensinamento de uma velha raposa do direito, que, não sendo advogado, sabia de leis como poucos: "se o pensas, não o digas, se o disseres, não o escrevas, se o escreveres, não o assines, se o assinares, não te queixes".
Para não perdermos o fio à meada e não nos percamos no meio deste escadabulho, sempre vos digo que encontrei umas larachas que em tempos me entretiveram nas tais meditações. Reaqueci-o  e sirvo-lo agora quentinho. Não o roubei a ninguém. Mas depois que vo-lo dou a conhecer, ele deixa de ser meu e passa a ser mais vosso. Entretei-vos e senão entenderdes tudo logo à primeira, escadabulhai até vos aparecer a luz de Mercúrio (Hermes).
Hermes, o mensageiro fiel e fidedigno dos deuses era também o grande mestre dos disfarces. 
Ser fiel e ladra, este o terrível paradoxo da hermenêutica. O que ficou dito, mostrou-se e ao mostrar-se sujeitou-se a interpretações. Pois, lá temos Hermes outra vez: negoceia, regateia, discute, viola, assassina, aperfeiçoa...Com que autoridade?
Cada observador rouba o lugar ao autor e agora é ele o autor e este a pobre da vítima, quando devia ser o senhor. Oh! Ingrata missão de revelar o que estava oculto! Se não for manifesto, não vive e se o declaram, matam-no.
Afinal o texto, ou não importa o quê, que se explore hermeneuticamente, é sempre uma arma de dois gumes.
Tal como o cientista ao produzir um invento para o poder instituído deixa de ter poder sobre a sua própria obra, também aqui se passa de modo análogo, seja qual for  a “escola” hermenêutica em que se gravite.
A hermenêutica clássica e a hermenêutica moderna diferem nos seus posicionamentos frente ao objecto, na sua forma e função. A hermenêutica clássica, tradicionalmente aplica-se à exegesis bíblica e à interpretação de documentos revelados. A hermenêutica moderna, pelo contrário avaliza a sua actividade em caracteres, textos e discursos de diferente categoria (classe, qualidade) e isentos de “a priori”.
A hermenêutica clássica é analítica, semântica, e a moderna é sintética e sintáctica.
A hermenêutica moderna  deriva da psicanálise, enquanto decifração do texto inconsciente e seus produtos e procura incorporar significados novos, (desconhecidos) no âmbito do conhecido, familiar e relativo (perspectivismo subjectivista do eu).
 Tudo leva a crer que foi devido ao contacto com os seus primeiros pacientes que falavam, não raro, uma linguagem desconcertante, que Freud se sentiu motivado para tentar descobrir as raízes profundas dessa mesma linguagem. Quantas vezes, sendo a palavra de uso comum, se aplicava a mundos até então ignotos.
      Deste modo a psicanálise tem que abandonar o campo da teoria e dedicar-se em pleno à prática. Muitos vêem aqui exactamente o ponto de arranque epistemológico de algumas áreas do saber humano, mormente quando se dedicam à investigação linguística e, logo , à própria hermenêutica.
      Tentemos clarificar.
      O psicanalista não se preocupa muito com o que se percebe logo à primeira.  Podemos mesmo dizer que, para um psicanalista, o sentido do que aparece está oculto, numa falha.
  Para além de lhe interessar quem está ali a falar deitado num divã ele está atento e irá interferir, não para fazer uma interpretação, mas para se certificar do enunciado primitivo.
 Segundo Freud, “o sujeito não sabe o que diz quando fala, isto é, o sujeito não pode ao mesmo tempo significar-se e significar  eficazmente a própria acção de significação”.
Quer isto dizer que o falante ( sujeito ) não tem poder sobre a articulação da linguagem, mas esta falta de poder não lhe é imposta de fora, bem ao contrário, vem-lhe de dentro. Dito de outro modo: `Não existe inconsciente porque existe desejo, mas sim  existe desejo porque existe inconsciente. Existe sempre algo para além da linguagem ... .
O texto, seja ele dito ou escrito, uma vez lido ou ouvido, deixou de ser propriedade do emissor. A questão da Psicanálise e , porque não, da hermenêutica começa agora.
O sentido pode ser adulterado e o que se queria dizer foi parar tão longe que o autor pode nem se ver naquilo que outro autor afirma que ele disse. O autor foi des - autorizado. O Hermes violou-o, denegriu-o, mesmo até quando o vangloria e o cita.
Pergunta-se, então :
Até que ponto o subjectivismo-objectivo  que  um sujeito  dá a um determinado significado (vale aqui a definição de F. Saussurre ) lhe é determinante? A língua será em si mesma uma objectividade baseada em significados pré-existentes ao autor e de que ele se serve de acordo com o sentido unívoco e julgado como sempiterno  - se me pré existe há-de seguir-me  -  ou , ao invés, estará totalmente sujeita às modificações ,”aos neologismos”  de circunstância - e assim , consequentemente - a novas significações que o tempo sempre se encarrega de lhes colar. Podemos falar de uma Post- língua? Talvez que Heidegger não rejeitasse esta possibilidade. O Des - sentido não está metido já no sentido? O desvelo, o cuidado, a busca do originário não se completará com a síntese da semanticidade? A Hermenêutica contemporânea  - e se levarmos ao extremo esta contemporaneidade - ela será sempre um constante presente sob pena de não ser contemporânea, a hermenêutica contemporânea, dizíamos, a da facticidade, com a “sua” mundaneidade, esse medium  contínuo, que sempre me permite relacionar-me com o outro, ela mesma, poderá ser mais pura do que o próprio autor? Por muito “honesta “ que seja, ou mesmo procure ser, há-de ser sempre um Hermes. Há-de sempre passar a mensagem. Damos- -lhe o crédito da fidelidade. Mas não esqueçamos que pode ser sempre um sósia aquele que defendemos como sendo o original.
É ou não verdade que que nos servimos de palavras já existentes para expressar uma  ideia, um sentimento,  ..., mas que não deixa de ser verdade que o contexto as pode completamente subverter? Ainda que o significado possa não ser muito alterado, já não se pode dizer o mesmo do sentido.
Exemplo disto mesmo é o próprio Freud. . O seu código só após a sua morte começou a ser entendido e reconhecido. Como dirá Lacan: « O escândalo intolerável em que a sexualidade freudiana ainda não era santa, era que ela fosse tão “intelectual”.
Safouan  diz resumidamente: “O sujeito que fala é outro” . E quem é esse  outro? Responde Freud: «È aquele que no plano das representações não existe, mas que todos os processos psíquicos tendem a encontrar».  Então quando o encontramos já não é um encontro´, é um reencomtro. Se o atinjo é porque já o conheço. ( É o famoso círculo da hermenêutica, resumido à questão tantas vezes recordada  acção: Como estudar filosofia sem saber filosofar e como este sem aquela?)
Facto é que quando falamos nunca pressupomos o real, apenas a linguagem. Estará aqui uma das limitações do pressuposto de Gadamer?
O real que emerge é sempre um real fictício. Nunca é o real, real. A linguagem é ou «seria esse instrumento sem o qual nada podia ser dito e quase nada podia ser feito, embora em si mesmo ela não seja nada.» (Sempè. Op. Cit. ).
“ O desejo é a verdade” , eis a máxima que fecharia esta já longa meditação. Mas, ainda aqui temos que nos deter perante Saussurre: “A língua é intangível , mas não inalterável, ela modifica-se sem que os falantes a possam modificar. (...) A língua foge ao domínio da vontade.
Outra questão então se nos impõe: estaremos nós pré-determinados a escolher um signo e não outro. Parafraseando Monod ( Le Hasard e la Necessité ) haverá uma teleonomia da fala?
È indesmentível que carregamos connosco uma série de inconscientes colectivos (económico, social, religioso, moral,... ) e assim porque a vontade não tem poder sobre a língua,  o meu inconsciente impõe-me um signo e eu uso-o. E digo que assim falo livremente. O desejo é então a sua interpretação. Se lermos com Freud, podemos até ser mais radicais: auto-castramo-nos, matamos o pai para ficarmos com a mãe mas mostramo-nos potentes e assim fingimos que somos senhores do  falo, quando afinal já o tínhamos deitado fora.  Sado - masoquismo do mais principiante. E já agora cabe perguntar :  o que temos vindo a fazer não é uma fuga ao original freudiano. Não estamos a ser Hermes?
A verdade afinal nunca é nossa  Ela está sempre personalizada no outro. Ela não é o dito. É o interdito. Leia-se que o interdito é o entre - dito. Expliquemo-nos:
Nunca somos só dois: eu que emito e o outro que me ouve mediamo-nos por um outro que é comum aos dois : O Mundo. Mas antes do mundo, a Voz, seja ela a fala, o gesto, o livro , o texto, ... . Seja o que for é sempre um medium. A relação assim já não é diádica , mas triádica.
Cremos ser isso que Lacan quer significar: “ Tu não me podes falar do sítio donde eu te escuto “.
Que solução: a cómoda seria “ aspar “ todas as palavras, mas isto era substituir o que estava pelo que não estava, e , logo, o que se queria tão puro, é afinal, de início deturpado.
Que sobra: Temos que continuar a ser Hermes. Este é o nosso sortilégio. Pelo menos vivemos. E se Hermes se juntar a Afrodite então temos reprodução . Que assim seja.
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNDDEEEEE

                                                          




sexta-feira, junho 13, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXV - I (N)DENBANÃO

O velho comandante, por mais de uma vez me disse:« olha que tu tens duas orelhas e só uma língua, portanto, isso quer dizer que deves ouvir o dobro e falar metade». E continuava (com toda a carga de machismo que isto possa ter):« num sejas como as mulheres que, mesmo que lhe cortem metade da língua, inda falam o dobro do que devem».
Foi por um acaso que justifiquei esta aglutinação popular. Dito de outro modo: soube ouvir. Afinal este fonema que parece não ter sentido, resulta da aglutinação de três palavras: ainda bem não. Agora já fica claro o seu significado.
Talvez que a figura mais misteriosa que pisou solo xêndrico  tivesse sido Tonha Freira. Muito se ouvia a seu propósito, mas tudo era tão controverso que nada fazia sentido e fundo de verdade não se vislumbrava nas diferentes versões do que teria sido a vida daquela mulher. Certo era que não era muito benquista por ninguém, nem mesmo por aquelas que andavam sempre a bater com a mão no peito e a defender que nos devemos "amar uns aos outros como irmãos". Não a aceitavam nos enfeites da igreja nos dias festivos, não lhe permitiram que fosse catequista, nuca foi ela que deu início aos cânticos litúrgicos. Todavia, nunca se ouviu daquela boca um resquício de desejos de vingança.
Muitas vezes me pus a questão do que viveria aquela mulher. É verdade que, de vez em quando, me aparecia com uma cesta de queijos curados e me pedia para lhos pesar um a um e lhe fazer a conta individualmente. Mas, mesmo assim, algum dinheiro que ganhasse na venda de queijos, que ela própria já tinha comprado e apenas tratava, nunca daria para a sua sobrevivência. Eu que era invasor de grande maioria das casas nunca entrei na dela. Mesmo na visita pascal, circunstância em que eu, como portador da cruz para o beijo comum, era sempre o primeiro a entrar, alguma vez passei o limiar da porta daquela casa.
O que se dizia é que ela teria feito o noviciado e os votos de uma qualquer ordem de freiras, teria pertencido à congregação, mas a sua velhacaria era tal que foi expulsa do convento com uma pequena reforma. Nunca a vi receber uma carta sequer, nem nunca soube o seu verdadeiro nome. A verdade é que apenas tinha o trajecto de casa para a igreja - não faltava a um único acto litúrgico - e da igreja para casa. Só ia por outros lados quando andava na venda dos queijos. Nem família , alguma vez alguém lhe conheceu. Apareceu por lá e por lá ficou até morrer.Nessa altura já eu andava por outras paragens e ainda não foi dessa que entrei com a caldeira da água benta e respectivo hissope.
Quando a Menina Irene ou a Clara Violas iniciavam os cantos logo o trinado da voz de Tonha Freira se fazia ouvir. Distinguia-se perfeitamente já que tremia a voz como nunca ouvi fazer a ninguém. O mais parecido com aquela forma de cantar era o assobio de Mnel Cara Velha. Indenbanão, Mnel  arrancava a assobiar e tudo se calava para ouvir. Aquilo não era um homem a assobiar, eram três: ninguém sabe como fazia mas o assobio vinha harmónico: parecia três. Era mesmo um encanto de ouvir. Nunca ninguém me encantou tanto com um simples assobio . Faz lembrar o saudoso Dr. Luís Goes: quem tiver mãos livres ou  um assobio, nem é preciso que saiba cantar»
Tonha Freira ensaiava-se em casa. Ia eu a levar uma bilha de gás no já mais que famoso carrinho quadrado de duas rodas ao professor Tanganho quando dembanão, ao passar à porta da casa de Tonha Freira, oiço a sua voz tremelicada. Espequei e fiquei a ouvir enquanto durou.
O mundo é mesmo assim: tem sempre segredos por e para desvendar..
Hoje a crónica fica curtinha senão dabanão fico sem leitores.
XXIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGRRRAAAAAAANNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEE!

sábado, maio 17, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXIV - BARBILHO/BRABILHO

Há pastores e até, mais ainda, grandes proprietários do ramo agro-pecuário que têm gado, (no caso vertente - cabras) com a finalidade mista de produzirem leite de que depois fazem queijo e para carne, ou seja, a missão principal das fêmeas é apenas produzirem cabritos. Neste caso, o desmame do cabrito acontece mais cedo para assim conseguirem que a cabra se saia mais cedo e o bode, sempre atento, encarrega-se do resto. Para impedirem que os cabritos continuem a mamar metem-lhe na boca um barbilho que os impede de chegar à teta da cabra, que, como não é puxada, logo seca e fica pronta para a função desejada. Em ar de gozo os pastores provocam-nos : querias mama, querias? Mas não a mamas!
Também há por aí muito boa gente que o que quer é mama, anda sempre à babuge(m) e não se importa nada de virar a casaca desde que o rio corra para a sua barragem. Os exemplos são tão bastos que me dispenso de citar um único que seja...não fossem os outros ficar melindrados. Vai lá vai...
Hoje trago-vos outro texto, já escrito há algum tempo, mas que cabe perfeitamente nos tempos que correm. É bastante longo e não sois obrigados a lê-lo todo de uma vez. Não tenho brabilho e portanto podeis sempre refasteladamente voltar a ele sempre que vos apraza.
Se é verdade, como diz James: - que a nossa mente é contínua - , então, estamos sempre activos em pensamento. Só que de alguns nos damos conta e de outros nem tanto… Mesmo assim continuamos sempre a pensar.
A nossa atenção ao meio próximo circundante, mesmo se a tarefa que desempenhamos é do nosso inteiro agrado e a motivação é forte, mesmo aí, dificilmente estamos mais de oito segundos concentrados. Esta é a saúde do nosso espírito: uma dispersão selectiva ou orientada. Nem obsessão concentracional ou monoideísmo obsessivo nem poliideísmo difuso.
Fazeis então bem quando saís e vos perguntais pela saúde do vosso filho ou sobre o que irá ser o vosso almoço, hoje. A nossa mente é uma vadia, até porque, como diz o poeta, “não há machado que corte a raíz ao pensamento. Vadiemos, pois. Mas, …, de vez em quando passemos por nós e por aqueles que nos enviam a sua mensagem. Foi assim que num daqueles momentos de hipnogagia, já quase a descambar para Morfeu me pus a pensar de mim para mim e relembrei que eu, afinal, era um sujeito objectado. Eu era o outro de mim mesmo. Uma espécie de não-eu como queria Fichte. A minha consciência de mim implica que sejamos dois num: um eu e um não-eu. A identidade funde-se com a alteridade, mas não em tempos diferentes como o filósofo do absoluto defendia. E a questão emergiu: então o sujeito é um objecto. Vai daí, propus-me um projecto que não me fosse, nem, muito menos para vós, abjecto… Decidi: tens um problema injecto…. Agora procura o melhor trajecto para que ele tenha algum afecto e não o considerem um dejecto.        
E foi assim que o feto começou a crescer no mais íntimo do meu imo.
Foi esta lucubração que me trouxe à ideia deter-me um pouco e pensar. Nesta época de velocidade onde tudo e todos voam à velocidade de um simples click, esta atitude até parece ter o seu quê de bizarro! Pensar! que desperdício....
Ainda assim, sempre fui contra o que sói dizer-se FAST: contra a Fast food, e mais ainda contra o FAST THINKING. Pensar depressa para quê. Já o velho Cartesius aconselhava que nos precatássemos contra a precipitação... nanja que eu seja muito seguidista deste racionalista metodista, mas, se se souber olhar, sempre se descortina algo de positivo onde se pensa que tudo é déjà vu!
Assim decidi divagar, mas devagar, m u i t o    d    e   v   a   g   a   r  i-  n  h  o.!
As ideias, ao princípio, atafulhavam-se, e como gladiadores em arena de Coliseu, umas com retis e outras com Gladium, à porfia lutavam para ver qual veria o polegar de César apontando para cima.... Olha, agora veio-me uma que calcou as outras todas! Já reparastes vós que os nossos jovens, nos dias de hoje estão a dar uma ocupação nova ao nosso velhinho polegar?! De facto, este velho oponente aos outros prolongamentos da mão, é agora senhor de uma destreza excepcional... olhai para eles, quando mexem nos telemóveis, vede a que velocidade emitem mensagens ou digitam um número de telefone. Se quereis saber o número digitado só se tiverdes à mão uma câmara lenta…
Já aferistes que voltamos a dar razão àquilo que sempre foi defendido? A verdade é que é a mão que desenvolve o cérebro e não este aquela. A necessidade de segurar liberta mais uma vez o polegar, e, ainda mais, se reforça a sua importância decisiva. Se a oponência do polegar permitiu a preensão, agora a sua libertação das funções de contra força, deixam lugar para a destreza, a habilidade. Finalmente, já não é o gordo que vai para a baliza.... Ele agora corre como os outros e mais: corre com os outros! É lindo!
Esta marca humana decisiva para a sua evolução fez-me lembrar o título dos nossos encontros: o homem revisitado... e se voltássemos a olhar o homem tal como me revi e me revisito todos os dias? Sempre igual e sempre diferente.
Nunca sou ou somos completamente velhos conhecidos, mas também não somos clones de nós mesmos. Como é agradável cada manhã vermos a nossa narcisidade e saudarmo-nos logo com um humor cáustico: bom dia, carga de ossos com carne! Tens à frente mais um dia, encarrega-te dele senão ele encarrega-se de ti...
Vamos então revisitar o homem.
A perspectiva que vos quero apresentar não pretende ser exaustiva, - haverá alguma coisa que o seja? - mas visa ser uma visão diferente , pessoal e com toda a certeza  é original.
Enquanto sujeito do mundo ele mais não é que um objecto desse mesmo mundo. É um entre os demais. Ao princípio viveu numa fusão perfeita enquadrando-se no seu habitat jogando o seu papel, lutando pela sobrevivência. É um sujeito idiossincrético e como tal mesmo sem a racionalidade que depois lhe vai dar a marca distintiva durante séculos ainda hoje perdurável, - o homem como animal racional -  idiossincrásico, numa harmonia que de selvagem tem o título infeliz que muitos lhe deram e que Lévy Stauss em boa hora corrigiu. Tinha uma lógica vivencial, pré-científica, é verdade, mas nem por isso menos lógica. O tempo era o tempo presente. O seu tempo, aquele mesmo que o obrigava a buscar sustentação, gregação e reprodução nos termos do chinês de Konigsberg. Este sujeito indistinto, imiscuído na perfeição do universo fazia parte da vida no mesmo patamar que muitos outros. Este sujeito deixava-se ficar sujeito à roda do devir e, aos poucos, começando a ler o que o rodeia, inicia uma nova narrativa que lhe possibilita uma nova gramática relacional na geometria espacial que o envolvia. É simultaneamente hiperactivado pela necessidade natural de se manter vivo e passivo, no sentido de sofredor, como tudo o que traz à mistura paixão. Este sujeito físico a breve trecho se torna metafísico, quer ordenar o que em si mesmo é caos. Como Ovídio in principio moles imensa indigestaque erat. O desejo de ordem afasta-o de si. Pendura-se num ordenador. Como não se fizera a si mesmo, a sua lógica levava-o a que alguém o tivesse feito. Os outros como ele, também não teriam tido essa capacidade, pelo que ele derivaria de um estranho a si mesmo. Não só ele, também o que o rodeava e lhe oferecia tanta diferenciação. Se ele não fazia o que o rodeava nem a si mesmo, mistério era e a exigência de um ser metahumano se tornasse emergente. A divindade, quando não as múltiplas divindades, respondiam às questões que o apoquentavam. E ele sossegou.
Mas... oh sortilégio, a idade de ouro, não podia durar por muito tempo e o abandono do paraíso não tarda... Ainda se volta para si a ver se encontrava respostas, mas aqueles que a procuram são iníquos e morrem às mãos dos seus iguais. Aí temos o sujeito social e enquanto social o sujeito político, o que ao não saber governar-se apoia que outros o governem... O político enquanto sujeito aliena a sua vontade, anonimiza-se, confunde-se no seio dos seus iguais e a sua virgindade inicial é conspurcada pelo ódio, inveja, escravização... A racionalidade afinal deixa-se vencer pelo sensorialismo. É bem verdade que o político é muitas vezes bem pouco polido.
O desmoronamento dos valores essenciais humanos inevitavelmente conduz a uma época do salve-se quem puder em que o sujeito é personificado, teocrático…. Impunha-se um novo sujeito que na convergência da valoração apresentasse pontos de vista divergentes. O sujeito do rompimento, da ruptura com os status quo, um sujeito dividido, um sujeito cristão, que, aos poucos se apossa de meio mundo e tentacularmente também ele aniquila quem é contra ele. Sujeito que realça a futilidade dos bens materiais e promete para além túmulo um mundo de bem aventuranças. O mundo deixou de ser humano, passou a ser ecuménico. É o sujeito catecúmeno possuído por uma catequese escatológica em que a razão cede lugar à crença, em que o dogma se confunde com a verdade, e a dúvida despertadora é esmagada ao peso da imposição inquisitorial. Só que este sujeito, de si, é insatisfeito, avesso a continuuns estagnantes que favorecem a putrefacção, e quer novas fontes, novos rios de verdade e, embora a custo e após penumbra quase eclíptica, reassume o seu lugar górdio, renasce e das cinzas de Fénix as sementes, tanto tempo hermeticamente enclausuradas num vórtice de mistérios, abrem-se agora para um novo dia e um nova postura. O homem humaniza-se. É o sujeito humanista, centro dos centros. Abre-se ao mundo e abre os mundos. Rompe com establishment e com a nomenklatur. Conhece e conhece-se, a doutrina cede o passo à prática e o saber deixa o trono para o conhecer. A investigação arreda o magister dixit, e os adivinhos, videntes e bruxos caducam ante a universalização das leis entretanto conquistadas à força de verificações experimentais. As sacralizações profanizam-se, a razão vai aos píncaros da sua capacidade e, tribunalícia, estabelece limites à sua própria extensão e compreensão. Vem já aí a caminho o sujeito individual, o que rejeita a lógica dos sistema e rebelde entende que a sua liberdade se exerce no seio dos outros. Alguns velhos do Restelo bem vociferam a força da ordem, da constância do método, do rigor da mathesis universalis. Mas o sujeito tinha aprendido a andar e quer agora caminhar e devolver de novo à natura aquilo que nunca dela deveria ter sido desapossado. Aí está o sujeito experimentalista, laboratorial, positivo. Fundamentalista na sua convicção que nada podia escapar à verificação factual, ufano nos poderes da previsibilidade e do controle, veste fato de gala e pretende de novo sujeitar-se a si mesmo a uns contornos de predefinição. Nem já a imaginação tinha lugar neste sujeito tirano que, à margem do que as circunstâncias aconselhavam, recusava a revisibilidade dos conceitos e queria o emparedamento das convenções. A poesia não cabia, tinha que tudo ficar ao nível de uma prosa fria, carrilada, dedutiva, sempre de navegação à vista…
Sempre a presunção umbilical, libidinosa do mandarinato científico!
Mas se há sujeitos que tudo querem sujeitar outros há que rejeitam o metodismo, a repetição o “amén…“ Afinal a teoria que nunca tinha sido e ainda continua por ser provada, a teoria da evolução, segue sendo isso mesmo: uma teoria. Como tal hipotética, provável, polémica, descarrilada…Mais uma vez o sacralizado, o intocável, rui e até mesmo o átomo se desintegra, o que era elemento ínfimo, é agora múltiplo composto, o que estava em repouso agita-se, e com que força! O sujeito atómico ‘ cria um poder sobre o qual deixa de ter poder ‘ como nos ajuda Morin, e, o que era visto como isolado, é entendido como inserido num campo, como muitos nos ensinaram desde Maxwell, a Lewin e Bourdieu. E para mais o sujeito guerreiro revive nos movimentos independentistas e as fronteiras deixam de ser espaciais para passarem apenas a ser temporais, como futuramente nos vai avisar Tofler. Com a guerra somos obrigados a recordar Vieira: «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela, e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.»
Como eu gostava de escrever como este sujeito escritor. Antes como agora o sujeito belicoso acarreta para a humanidade sempre este rol de desgraças. E nesta nossa revisita ao homem pergunta que se impõe será a saber quantos dias de paz conheceu a humanidade….
Mas… é forçoso que continuemos a nossa viagem por algumas das facetas que o homem enquanto sujeito nos foi deixando no tempo.
Já não bastava a destruição de alguns dos paradigmas, quando o mundo é acordado pelo escândalo menos esperado: chegou o sujeito sexual. O último tabu, aquele que se velava, fosse de tanga ou com as mais sofisticadas roupas, é agora deixado às claras e considerado como o responsável mor pelo comportamento humano. Vasculha-se até ao mais fundo do segredo pessoal, descodificam-se os sonhos, põe-se ao léu o que fortalezas consideradas inexpugnáveis pelo sujeito ciosamente guardavam. O importante não é o que se vê ou o que se diz, mas antes o que se oculta.
Afinal a verdade está escondida e o que é preciso é encontrar as armas adequadas para a desvendar.
Parecia adivinhar-se o sujeito fiscal… Era preciso guardar as verdades; afinal já nada está seguro? Os guardiões dos templos, qual horda organizada, poderosa no seu STATUS a breve trecho cria o sujeito epistemológico, hidra de sete cabeças e boca voraz, ressurreição inquisitorial, microscopinvestiga e acerrimamente critica quem extravasa das margens. Mais uma vez este sujeito inquisitorial se esquece que o rio é livre e que a culpa nunca é dele, mas exactamente das margens que o apertam na soberba imagem de Brecht.
O novo sujeito agora possesso pela energia liberta e, simultaneamente, controlada, a breve trecho, vai espezinhar este sujeito epistemológico, indivíduo de escola, servil e obediente, que apenas arriscava pôr os pés nas poldras que sobressaíssem seguras da torrente das águas. De pouco lhe valeu. O sujeito epistemológico esqueceu-se do sujeito epistémico, inovador, investigador, curioso, indomável, agressivo, rebelde, cada dia novo. Como bola de neve rolando o volume do seu tamanho aumenta e arrasa o que se opõe. Liberta-se de peias e assume uma nova postura, ávido de saber, não pára na sua indagação e olhando para trás aproveita o que de bom pelo tempo fora conseguindo e melhora significativamente as suas potencialidades.
É assim que chegamos ao sujeito cibernético, à era da tecla à fusão entre virtual e real. O tempo e o espaço deixam de pertencer à esfera do sujeito, que, estulto na sua comodidade, abre as portas aos invasores que, especialistas na arte do engodo lhe impingem de novo verdades que se convence serem insofismáveis. O sujeito cibernético, traz o sujeito marketing, o sujeito publicidade, o sujeito global…, fica tudo sujeito ao simples gesto de premir um botão.
Que homem é este que agora nos acompanha? Fecha as portas aos seus vizinhos próximos e escancara a sua sala, a privacidade do seu quarto, vilipendia a sua mesa, renega o diálogo familiar, abocanha a velocidade, corre mais depressa para a sua própria destruição…
Será este o homem apocalíptico?
Será desta que os tentáculos da mais ganância, a valoração da materialidade, do egoísmo e da competitividade dizimarão o nosso homem?
Não deixaremos nós também uma marca que permita aos vindouros revisitarem-nos?
Quero terminar com o sujeito esperançoso. O mundo e o homem não são feitos à imagem de Hitler ou outro qualquer ditador.
Há outras leituras, outras narrativas e, como em todas as mitologias, o Bem sempre venceu o Mal.
Disse ou tenho dito que é o que se diz quando se disse o que se queria dizer. Disse!
XIIIIIGGGGGRRRRAANNNNDDDDEEEEE

segunda-feira, abril 21, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXIII - SAMARRO

Podemos comunicar de muita maneira e não é aqui lugar para um aprofundamento do tema. Ainda assim deixemos claro que uma das formas a que menos ligamos é a roupa. Facto é que identificamos um polícia pelo uniforme, ou um bombeiro, um médico em serviço...É muito difícil identificar, por exemplo, um professor pela roupa que traz vestida. Há mesmo pessoas que se disfarçam para parecer o que não são e, muitas vezes, conseguem iludir os outros. Basta ver os constantes contos do vigário. Há mesmo os lobos com pele de cordeiro. Julho Grilo também enganaria qualquer que o não conhecesse.
Quem visse Julho (= Júlio) Grilo e, mais ainda,  o ouvisse no seu puritanismo falante, todo garboso, numa fala quase cantada, seria levado a pensar que se tratava de algum universitário a quem a vida tivesse corrido mal. Não admitia palavras nem com aférese, nem síncopes nem apócopes. Menos ainda com próteses, epênteses ou paragoges. Teimava que as palavras deviam ser pronunciadas correctamente, obrigando o falante a pronunciar silabicamente cada palavra . Nunca dizia "tamém", mas insistia sempre que a palavra era "também" e era assim que devia ser pronunciada. Não havia para ele "amandar" mas só e apenas "mandar". Também não autorizava permutas como, por exemplo, "cravão" por "carvão", ou " assobier" por "assobiar, ou "traguer" por "trazer". Às vezes ficava a falar sozinho porque os circunstantes o mandavam à fonte limpa e se borrifavam para as suas tentativas de correcção. Chamavam-lhe o maniento, apelido que era reforçado pela sua maneira de vestir. Nunca aparecia no "povo" que não fosse com o seu chapéu bem burnido, camisa bem apertada, gravata com alfinete ajustado, calça vincada e sapato engraxado. Tinha pose este Julho Grilo! No Inverno, fazia questão de trazer  a sua samarra, com gola de raposa e relógio de bolso preso por corrente de prata. Já Popeda (=Poupada), sua mulher, andava vestida com chita da tabela, a maior parte das vezes descalça e quando vinha "às mercas" (=compras) trazia os trocos embrulhados num lenço das mãos mais ensebado que botas de pele de lavrador abastado em missa de festa ou Domingo. Podia pôr-se de pavio numa candeia que não consumiria combustível durante uma hora ou mais. Apesar de ter o mestre da pronúncia em casa Popeda tudo atamancava e havia alturas em que até era difícil 'cortar' a linguagem dela. Pior que ela só mesmo Chquim Camião ou  Zé Mêlgo quando carregado com uns tintos jeitosos.
Não havia dúvidas de que tínhamos aqui o que se pode chamar de "casal perfeito": um completava o outro.
Julho era também, por vezes, um tanto gabarola das suas aventuras amorosas extra conjugais.
Lembro-me de uma vez ele contar que roubara uma rosa no Jardim de Penamacor e a foi levar a uma pretendida, todo lampeirinho, com uma frase bem estudada para conseguir ver se ela lhe dava troco. A porta estava aberta e ela estava sentada no segundo degrau das escadas a passajar umas meias do marido e Julho, cego pelo desejo cupidinoso, nem mediu a atitude e de chofre: "Toma lá esta rosa em botão como prova do meu amor por ti no meu coração". O marido estava na trasfega do vinho e quando tal ouviu vem de lá com um barrote nas mão e ainda assestou uma valente bordoada em Julho que arrancou rua abaixo a fugir do imprevisto. Contava então " O samarro do meu casaquinho é que as papou! ai papou, papou!"
Muito mais prosaicos os que tal gabarolice ouviram  não estavam com tais ensaios poéticos e diziam que o marido lhe tinha mas é " tosado o samarro assim comédado".
Procurai cuidar bem do vosso samarro.
XXXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAANNNNNDDDDDDEEE

terça-feira, março 25, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXII - ÀS AT(E)(I)NÊNCIAS

Às atinências de que não me esqueço onde ponho as  chaves, confio na fidelidade da minha memória... O facto é que, como dizia o velho Comandante do meu avô: « a memória drome»! assim mesmo drome e não dorme. Dizia esse avô inesquecível, apesar de ser o Comandante do Inferno, velhaco como as cobras, que a memória tinha horas, como a água correr: « hades arreparar, uma noite calma que andes pelo campo, perto duma queda de água, que, de vez em quando, deixas de ouvir a cachoeira da água... ela continua a correr mas como corre a dormir num se ouve... Podes crer que a água drome...» Tal qual como a nossa memória. Ela sabe o que se passou, mas não é capaz de to pôr à frente dos olhos. Drome! E quanto mais te esforçares por te alembrar, menos t'alembra.»
 A verdade é que o velho Comandante tinha razão.
Vem isto a propósito de um texto que, faz tempo, escrevi, e que há muito procurava. Cumprindo um velho aforismo : «Quando encontras sem procurar é porque já procuraste muito sem encontrar». Encontrei-o finalmente. Como ainda gosto dele, ofereço-vo-lo, às atenências que também o aprecieis. Se não gostardes, pronto, tenho que me convencer que não se pode continuar a viver às atnências. Por exemplo, de que quem governa cumpra o diz que irá fazer... Mas aí já não me fio ...
O ponto tudo inicia e tudo acaba. Para tudo, ou quase tudo, há um ponto de partida e um ponto de chegada.
Ao longo da nossa vida andamos sempre à procura do nosso ponto:
A criança aproxima o livro o idoso afasta o texto…
O ponto é o elemento da recta, que mais não é que a sua infinitude e se fecharmos a recta, e juntarmos ao ponto outros dois, o ponto transforma-se em plano, já com superfície definida; não se esgota aqui o ponto, afinal, o volume é ainda a tridimensionalidade do ponto. Do plano passamos ao objecto.
Ocupamos, depois, um ponto no espaço, e o espaço está cheio de pontos: uns vazios, outros cheios, uns próximos outros longínquos: que é a Terra, afinal senão um minúsculo ponto no seio do Universo?
Este mesmo Universo começou por ser um ponto grande que, grávido de energia, explodiu e preencheu o que vemos e o que não vemos, dispersando-se por infinitos pontos.
É ainda o ponto que procuramos quando pretendemos a perfeição: a comida está óptima, quando estão no ponto, a confecção, o sal, a apresentação…
Quando entendemos que qualquer coisa está mesmo como nós queremos e até desejávamos dizemos que está em ponto rebuçado.
A verdade e a mentira são pontos de vista e a afinação dos instrumentos tem um ponto exacto; acertamos a nossa vida pelo ponto certo e quando queremos argumentar e contra-argumentar asseveramos que é aí mesmo, ou não, que bate o ponto.
A meta é um ponto de mira como o alvo e até os nossos desejos mais íntimos almejam alcançar um qualquer ponto. O nosso ponto.
É assim o artista: tudo começa num ponto, seja a primeira nota de uma sinfonia ou o primeiro risco de uma pintura, a primeira cinzelada na pedra da escultura, o primeiro corte na madeira da imagem, a primeira letra de um romance e é porque algo toca ao nosso ponto sensível que se torna significativo para nós. A adesão ou a repulsa e o afastamento do que sentimos mais não são que pontos da nossa sensibilidade.
Mais que sensação, que é bruta, a estética é sensibilidade, é percepção, porque inteligente.Tem outro ponto de interesse.
A arte gravita no mundo da emoção e portanto não tem ponto fixo, não tem regra, não precisa de ponto geométrico.
Arte é imaginação, criatividade, ponto fora do plano e por esse ponto tudo pode passar.
O ponto é, assim, a encruzilhada do infinito. O infinito reduz-se a um ponto.
O ponto é a perfeição, por isso o colocamos apenas no fim.
 O ponto não ocupa qualquer lugar.
O ponto para estar no ponto tem que estar no ponto certo.
Só quando tudo está acabado é que dizemos: ponto final!
Quando temos lacunas mnésicas é que mais apreciamos o valor do ponto: como no teatro, quem safa o actor é o ponto.
Até há pessoas que são mesmo um ponto.
Parece então que não há só um ponto, tantos são os pontos.
Chegamos a um ponto em que já não se tornava aconselhável continuar a bater no ponto … 
O estudante clama: vêm aí os pontos! e esses pontos não são para brincadeiras. São pontos que têm nós, que são pontos mais grossos e que muitas vezes decidem até que ponto podemos chegar.
Apesar de não pretendermos ter dado um nó neste ponto, apenas pretendíamos uma laçada, o facto é que é nesse ponto que bate o ponto.
Esperamos que ainda possamos deslaçar o laço e que o ponto sem nó venha até nós com novos pontos de vista,  nova vida, quem sabe num outro ponto.
Temos pessoas que, para nós, marcam pontos e por isso as colocamos no ponto mais alto.
É nesse ponto, o mais alto, que eu vos tenho. 
Sou mesmo um ponto, não sou?
XXXIIIIIIIIGGGGRRRRRAAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEE!

segunda-feira, março 03, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXI - CHARRINCA

Hoje deu-me para aqui. Quero a vossa cabeça a aquecer.  A ver se não charrinca quando for preciso pensar na vida a sério. E já faltou mais! Há que preparar. Senão depois, enferrujados como estamos charrincamos por todo o lado e não damos carreira direita. A ver se gostais desta prosa:
Vivemos num tempo em que quase não há tempo para ter tempo. Apesar das velocidades que a tecnologia nos possibilita a verdade é que passamos grande parte da nossa vida a protestar que não temos tempo.
Por isso vivemos num tempo sem tempo. A característica mor deste tempo é a efemeridade. Tudo é efémero e descartável: pessoas, situações, objectos, … Já nada é como era e a própria memória, essa nobre faculdade humana, está hoje tão empobrecida e esquecida que já não é estimulada.
Trocamos a memorização e a recordação pelo registo em artefactos.
O futuro será de Alzheimer a não ser que se arrepie caminho e voltemos a accionar a nossa faculdade de evocar e reconhecer.
Até parece – perdoe-se a delação - que  o novo acordo ortográfico também alinha por este diapasão: tiram tanta letra que desconfiguram o português e a nossa língua deixa de ser novilatina para ser novimulticultural. Perde a sua identidade e a sua vernaculidade. Penso que isto é também consequência deste tempo sem tempo: quantos menos letras escrevermos, mais depressa escrevemos e assim ganhamos o tempo que não temos e nos falta. Triste solução.
Por isso, aparecer neste tempo quem recuse o fast thinking, com a mesma veemência que eu recuso o fast food, alguém que parou para pensar, que não se afligiu em parecer fora de tempo, em ser desalinhado face à grande maioria, que come em pé e não saboreia calmamente a refeição, é tão estranho que até destoa.
É mesmo necessário parar para pensar! Exercitar aquela que é a dimensão mais elevada do ser humano: a sua capacidade de criar, de romper com o estabelecido, de desobedecer ao status quo, de subverter o dogma, de propor ousadias e de nos convidar a nós próprios também a exercitar o nosso pensamento.
O tempo hoje nem é local nem global: é glocal, e o facto de as coisas que não sabemos serem muitas mais do que as que sabemos, não nos deve preocupar sobremaneira. Afinal estamos, hoje por hoje, sempre mais perto do erro, da falibilidade, do que da segurança e da estabilidade. Já nada está certo a não ser a insegurança, ela mesma. Mais que nunca o velho efésio tinha razão: panta rei. Tudo flui, tudo passa naquela fugacidade do instante eterno. Estamos muito num agora e pouco num aqui.
A indefinição do espaço e a ausência de fronteira obriga-nos a um nova concepção do limite. Afinal vivemos no limite sem contornos, no ilimitado.
É assim que se entende que cada vez que dou uma volta e volto ao ponto de origem, já não volto como saí. O não-eu fichteano desnorteia o eu e a inconsciência sobrepõe-se ao consciente, nesta efemeridade permanente, em que o que é, é o que não é. 
O que é, é apenas o que é nosso:  a subjectividade de cada momento é que revitaliza a objectividade do que acontece.
Estamos longe das coordenadas cartesianas em que tudo tinha um quadrante e o ponto era entendível nesse espaço; «Já nada sói como soía», pregava, faz tempo, o nosso zarolho.
A educação, ela própria, esse motor que impulsiona o progresso, vive o dilema de ficar para trás a empurrar para a frente. Esta nova realidade surge tão relampejante que ofusca o simples observador e, imperioso é que tenhamos a necessária competência para releituras desta realidade que nos ultrapassa e à educação.
O passo é maior que a perna.
Já nada é paradigmático, único, fechado, sistémico. Temos que aprender a aprender e limparmos as nossas leituras, pejadas de viciações, que já não se enquadram nas padronizações em que enraizamos o nosso saber.
O mundo, hoje por hoje, é da mobilidade, da alterabilidade, do movediço, do polémico. Não mais uma razão arquitectónica , alicerçada em fundamentos tidos como inabaláveis.
Os dogmas são rebatidos e já nada é sagrado, tudo é, a cada momento, profanado.
É aqui que entra, impante, a necessidade de uma ética mínima.
Na nova educação não pode haver pretensões ao “no meu tempo é que era”.
Os valores mais tradicionais entraram também em decadência e é indispensável uma nova escatologia axiológica.
Estamos numa nova dimensão da ética: não já a fixa deontologia do chinês de Konigsberg, menos ainda o oportunismo utilitarista de Mill, que não dava carreira direita no que à felicidade dizia respeito, mas numa ética de outra dimensão, virada para os tempos hodiernos, com fulcro no homem e no seu tempo, numa idiossincrasia com o ambiente e percorrendo todos os campos da sua actividade, acentuando o enfoque numa educação ética, que proponha uma educação para os valores e para a cidadania, pois só esta, enfim, possibilitará a almejada felicidade ao homem, perante as mudanças produzidas pela sociedade actual.
Tempos outros foram aqueles que proporcionaram as éticas do equilíbrio, da ponderação, da temperança, da aurea mediocritas… Os de hoje têm inimigos muitos, desde o egoísmo, muitas vezes camuflado num altruísmo reversível, em que o gene egoísta nunca desaparece, ao relativismo cultural que, hipocritamente, diz que cada cultura deve ser respeitada nos seus valores, mas quer sempre impor os seus, renegando-se a si próprio e aos outros, caindo num individualismo que pode levar a uma total perversão do que deve ser a compostura humana e humanitária.
Vamos então situar o homem perante uma charneira onde nada está fechado e tudo está em aberto.
A contemporaneidade é acidental relativamente ao tempo, mas é essencial para a assumpção da condição humana no tempo.
A necessidade educativa e/ou ética parte das exigências de compromisso do sujeito responsável e activo em estar presente no presente, que, no fundo, é um tempo caracterizado pelas ideias e crises, pela globalização, pela informatização, pela ruptura e avanços das tecnologias nas diferentes áreas do saber.
Num tempo em que o homem tem dificuldade em segurar o presente a dimensão ética adquire foros de necessidade premente, não com pressupostos valorativos impostos, mas antes, como propostas que sejam vivenciais e atractivas, visando a obtenção da felicidade que se busca.
A epistemologia desvia-se para a ética e os cientistas quase emergem como novos deuses e o saber arrisca-se a arrastar-se para uma crise axiológica que mais não é do que uma crise antropológica.
A questão agrava-se se confirmarmos que vivemos numa sociedade de informação, quando a questão mais premente é se essa informação é boa e, mais ainda se os cidadãos estão e são bem informados.
É que, tanta informação torna-se em desinformação e o que se transmite pode resvalar para os não valores e o homem acaba por desaparecer no meio da massa, no interior do sistema.
É por isso que mais ressalta e emerge a importância do papel da escola para que o homem não desapareça.
Entramos numa nova era que abriu os campos do desespero como diz Toffler e não há alternativa senão que
“ é obrigatório falar de uma ética mínima, entendendo por ética o espaço de procura e articulação de formas válidas de convivências, e, por mínima, o conjunto de valores comuns a todos os homens e culturas.”
Volvamos ao começo para que o norte não nos fuja! Neste tempo de mudanças contínuas, não cabe já falar de uma profissão mas de profissões e a ética das profissões acarreta a responsabilidade de arcar com a missão de ser o pontífice entre a tradição do constante com a alterabilidade do contemporâneo, satisfazendo as cada vez mais sucessivas especialidades formativas que a sociedade exige.
Basta ver que, paradoxalmente, a sociedade da comunicação convida a que se trabalhe em casa, que cada um “case” com a sua máquina, que produza no isolamento.
Singular paradoxo!
Morin tem vindo a recuperar para a ribalta as ciências humanas e sociais e, mais radicalmente ainda, Bourdieu assinala o decisivo papel do homem, já que é dele que tudo parte e a ele tudo retorna – o inultrapassável mito do eterno retorno, -  mas agora numa dialéctica fermentada num campus de forças, que acrescenta sempre novidades, como Husserl exigia na alteração da posição radical.
Talvez não seja asneira colocarmo-nos off-side e metermos muito do que temos crido até agora entre parêntesis, para que lixiviados de crenças que reputamos de bem fundamentadas, não nos confrontemos com a simples constatação de Gettier: afinal o relógio do tempo que sempre bateu as horas certas e me servia de fuso para as minhas tarefas, naquele dia, avariou e eu cheguei tarde ao trabalho…
Cartesius queria a ordem, mas, ao que parece, mais vale a entropia. A boa ordem, não é a ordem do racionalismo, mas a do humanismo e esta nunca é igual e, mais importante que seguir um método que não se renova, melhor será uma aparente ausência de metodismo, jogando numa abertura a novidades que permitam transformar o método em plano e assim admitir, e até aconselhar, alterações ao momento, enfrentando as realidades com novas epistemologias e novas diálises.
Os jovens de hoje gravitam na era da tecla, do click, do instante, do eficaz, do empréstimo, do importa e do exporta, do actualizar e reformular, do formatar, não estão muito para se encharcar com informação despicienda, desde os sistemas das serras até às linhas de comboio e afluentes das duas margens dos rios.
Eles sabem -  e quanto eles sabem que os outros não sabem! -, eles sabem tirar do caos a ordem de que necessitam. Não é preciso forçar! Está-lhes na massa do sangue: a inteligência racional casada com a inteligência artificial dá campo vasto de manobra para as novas ciências cognitivas.
Não queiram, pois os velhos do Restelo querer andar para a frente a olhar para o retrovisor.