sábado, janeiro 17, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIV - ESCARAMOUÇO

Dou por mim muitas vezes a pensar no porquê de o nosso cérebro, sobretudo o do ser humano latino, estar formatado à maneira francesa, e, mais ainda, à moda cartesiana. Renatus Cartesius foi muito bem vendido pelos franceses e os outros povos romanizados mamaram nesse leite e ainda hoje sofrem dos efeitos.
Gabarola quanto baste, plagiou Sto Agostinho e, mais despudoradamente, o nosso Francisco Sanches, quase transcrevendo páginas do QUOD NIHIL SCITUR ( porque nada se sabe), pertencente a esse bracarense, injustiçadamente despromovido no mundo do saber. Portugal nunca soube aproveitar nem vender os seus vultos. Foi assim com Camões, com Pedro Nunes, com Garcia da Horta, com Amato Lusitano, com Ribeiro Sanches, com....; salva-se Pessoa e agora Saramago e Eduardo Lourenço. Mas andam lá por fora...
Quando George Washington se enfrentou com o lugar comum "o hábito é uma segunda natureza" tem esta tirada que ficou histórica: "MAS ELE VALE DEZ VEZES A NATUREZA!" Não há dúvida de que somos animais de hábitos. Digo hábitos e não vícios ou sequer instintos. Criamos rotinas, estigmatizamos, fixamo-nos e depois dizemos que o destino estava traçado e que tinha que ser assim, etc. e outras desculpas esfarrapadas sem sentido e que têm valor porque fazem parte do lugar comum e se é comum é geral e,logo, é universal. Transformamos o subjectivo em objectivo, o geral em universal, o comum em igual para todos. Claramente cartesianos. Partimos de evidências e como são evidências entendemos que não precisamos de as demonstrar. Na verdade, o evidente impõe-se por si mesmo, mas o perigo é que assumimos, à partida, como evidente, aquilo que é discutível e, sendo assim, damos razão a S. Tomás: "UM PEQUENO ERRO AO PRINCÍPIO, TORNA-SE GRANDE NO FIM".
Auto convencemo-nos de que a verdade é nossa e transformamos uma opinião, muitas vezes a carecer de fundamento seguro, numa verdade dogmática, indubitável, e sacralizamo-la defendendo-a até ao limite. Depois digam que não somos irracionais!
Vigura era assim. Quando bebia uns copos era do piorio. Se se lhe metia uma na cabeça não havia quem o demovesse.
Agostinho Cagarela, também conhecido por Cabo Vermelho, num Domingo à tarde, nas traseiras do café da Rosa, discutia com Vigura sobre quem tinha a melhor junta de Aldeia.
Não eram muitos os ganhões, sobretudo aqueles que trabalhavam com junta de vacas: Mné Guerra, o Geba, Domingos Guerra (irmão do anterior), o Caga de Alto, Alberto Vaz, o Borrachica, e o nosso Vigura, Zé Malagueta. Outros havia que ganhavam à jeira, mas com junta mista (burro e vaca).
Retomando o fio, Cagarela defendia que o Geba tinha uma parelha valente e que as vacas de Vigura tinham muito canelo para gastar até chegarem às de Mné Guerra.
Vigura estava já meio tonho e agarra Cagarela pelos ombros,espeta-lhe uma cabeçada, ao mesmo tempo que que lhe ferroa uma dentada que lhe arrancou parte do lábio inferior. Cabo Vermelho começa a sangrar, os dentes viam-se-lhe, o lábio jorrava sangue, os gritos atordoavam, o Vigura ficou taranta, Melro aventa-lhe um soco que o sentou e Fatela arranca a toda a brida com Cagarela para a vila com um recado que eu lhe dei: "Ó Tonho olha que o Agostinho leva o lábio dentro do bolso;eu apanhei-o do chão e meti-lho lá".
Fosse ou não amigo de dinheiro, facto é que o Dr Moutinho, quando se apurava, era competente: coseu o lábio ao Cagarela a sangue frio, fez-lhe um penso e recambiou-o para a Aldeia.
Cagarela arranca directo para a quinta do Ramalhão e só voltou ao povo quando a ferida já estava sarada e, quem não soubesse da história não notava a costura.
Mas não foi esta pior de Vigura.
Sério, era homem pacífico e bem tratante, salvo para a mulher e filhos que andavam sempre a toque de caixa e até tremiam quando ele entrava em casa. Ainda assim, entregava sempre o dinheiro da jorna e a ti Rosa nunca ficava a dever.
Era o que se podia chamar de artista a carregar o carro e fazia o que queria da junta. Muitas vezes o ajudei a carregar e admirava a sua arte a meter os molhos nos fueiros sempre certinhos, nunca de ESCARAMOUÇO. Era um gosto ver uma carrada do Vigura. Os sessenta molhos do moio vinham na perfeição e tinha o cuidado de tapar os molhos da frente para nque as vacas não se picassem na palha. Nunca caíu uma carrada ao Vigura. Já Júlio Aspirante, e Beto borrachica carregavam de ESCARAMOUÇO e eram alvo de gozo nas conversas do Adro.
Um dia bebeu demais e - lá está a ideia fixa cartesiana - cismou que havia de ajustar as contas com o Zé Carradas.
Chovia a cântaros.
Vigura agarra na gadanha da erva, entra na propriedade de Carradas a aldeagar e a pedir meças por causa de uma passagem que Carradas lhe tinha trancado dizendo que aquilo era dele. Por via disso, Vigura tinha que dar uma grande volta para entrar aquilo que era seu. Cismou que havia de fazer a folha ao Carradas e, pronto, partiu da evidência - que o não foi - de que eram favas contadas: limpava o sarampo ao velho.
Carradas acordou com os brados e viu logo que era o Vigura. Passa do tugúrio ao palheiro, agarra na machada do cepo, esperou que o vigura se aproximasse e, quando este o viu, deixou de ver mais nada: a machada enterrou-se-lhe cabeça adentro, os miolos espalharam-se, o sangue era lavado pela água da chuva.
Carradas vem à Aldeia, acorda o Fatela e vai-se entregar à guarda. O Vigura já estava teso quando a patrulha lá chegou.
Lá está: morreu por estar convencido de uma verdade. Não a pôs em questão.
Pela mesma razão palestinianos e israelitas combatem e se matam: cada um agarra-se à sua verdade, esquecendo que estão ambos errados.
Mais airosamente me saí eu, fez agora anos. Mandei embrulhar um bolo rei julgando que tinha levado dinheiro. Quando ia para pagar constato que nem um avo trazia:" oh diabo! então agora esqueci-me do dinheiro... olhe, embrulhe-me só o buraco!"
Foi o que trouxe para casa.
XXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDEEEEEEE

8 comentários:

Anónimo disse...

Fico contente, por achares que ambos estão errados. Sempre achei que eras um gajo coerente!
Um abraço grande e Basagueda para sempre.

Anónimo disse...

Na verdade, nós os ocidentais, nomeadamente os mediteranicos,r temos uma relação sui generes? no que respeita aos mosquitos! Há até aquela famosa musica daquele rapaz francês, anos 70 joe ou xo d' ássâ, &4&$/%55&&&$$$), na verdade se pudermos matar os mosquitos matamos, ás vezes incomodam, outras vezes, até fazem doi doi, outras até aquela vontade doida de coçar! Na verdade a nossa vontade é não os ter por perto, mosquitos longe!
Agora emaginem, escrevo eu, mosquitos que matam, ou deixam "marselas" p´ra vida. Tipo malária ou pior, dengue!
São mosquitos iguais, zumbem zumbem, dão comichão, NÃO ELES MATAM! VIVEM PRA NOS ELeMINAR! Então matamos os que nos fazem comichão e fingimos que fugimos pra marte, um sitio algures no planeta terra, secreto, algures entre a consciência maravilhosa da nosssa infancia e o momento em que decidimos passar a ser politicamente correctos até ao final das nossas vidas, com ou sem Quinino, que é uma treta! Épa somos mesmo uns convencidos, neste momento como sempre estou a OUVIR RFM A MUSICA neste caso da minha Mulher,deus a tenha em descanso por umas horas, agora vou ter com ela e sinto que somos honestos a ver o mundo, não vamos em grupos, e entre os dois, tem que haver muita distração fingida pois lá em Timor, sobretudo o mosquito do dengue, acertava nos atentos! Sempre fingimos que a comichão nA ZONA DO CORAÇão, era mosquito, não tinha dengue, tinha Amor e isso mora longe da razão, não serve pra minha CONVERSA? sÓ DIZER VIVA A PAIXÃO,TIPO como a ALdeia do bispo gosta, agora não dá! pra viver lá... Tenho sAUDADES DO MEU pAI, qUERIA DAR UM ABRAÇO AO MEU PAI!MUITO GRANDE! qUERIA que ele conhece-se a minha Mulher, A MINHA, LINDA MULHER!

António Serrano disse...

Está lido, "de fio a pavio". Uma história que acaba mal - com uma extensa e fabulosa "introdução", falando de coisas com que lidei, de pequeno, incluindo uma linda e meiga junta de vacas e de "o bem carregar" um carro... - rematando com um epílogo tipo "tirar um coelho da cartola", bem metendo no assunto Israel e a Palestina. Falando quase para que ninguém perceba nada do que eu digo - a propósito, sem querer ser censor, o autor do comentário anterior não quererá fazer de revisor??? - ena tanto OR, senhor Professor!!! Texto excelente, o original - eu não sou "unha negra" como a Ministra com as suas "quotas"... Vou acabar. Hoje não saíu nada de jeito, mas acontece "ao mais pintado". Pelo menos ninguém fica com os miolos à chuva... Ou fica???

Anónimo disse...

Tu queres é escaramouçar-nos a cabeça ó changoto.

nabisk disse...

Caro amigo changoto, grande história esta. A comparação? Será que se podem comparar mentalidades (de pessoas tão simplers)que são tão diferentes?
Eu não diria cartesianas, mas...
E na minha terra os afueiros, chamavam-lhe afogueiros.

Um abraço
anabisk

João L Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João L Oliveira disse...

Tens nas palavras um jeito muito especial de nos fazer recuar no tempo .
É estranho como estas pessoas pareceram de repente ficar tão próximas e...já lá "estão " há tantooos anos .
Com estes textos , eles renasceram na memória de cada um de nós - Obrigado Changoto

Anónimo disse...

Estes textos remetem-nos para uma grande viagem à nossa memória mais remota. E eu continuo a dizer que deviam ficar registados/publicados em livro. Para além de nos transportarem aos tempos dos nossos avós, mostram um saber muito diverso quer a nível liguístico e literário quer cultural. Não se podem perder!!!
Fico à espera do próximo!
Um abraço