sábado, setembro 24, 2016

VINDIMA MMXVI


SE HÁ COISAS QUE NÃO SE PODEM PERDER
A VINDIMA DA QUINTA DO LÍRIO NÃO TEM NADA A TEMER
JUNTA-SE LOGO PELA MANHÃ A MELHOR RAPAZIADA
PORQUE JÁ SABE QUE ALI NÃO VAI FALTAR NADA…
O QUE MENOS HÁVERÁ ALI SERÁ TRABALHO
QUE AS UVAS ESTE ANO FORAM PARA O BALHO…
MAS…INDIFERENTE A TUDO ISSO
NÃO VAI FALTAR O BOM CHOURIÇO
QUE COMO É POR DEMAIS EVIDENTE
VAI TER ÓPTIMOS ACÓLITOS PARA DAR AO DENTE
E NÃO ESTOU SÓ A FALAR DE PÃO E VINHO
MAS POR EXEMPLO DE UMA EXCELSA SARAPILHEIRA
ALBARDADA EM OVO CASEIRO ASSIM À MANEIRA
COM BELO NACO DE LOMO DE CERDO  BEM ASSADO
COMO SE HABLA NA ESPANHA VIZINHA, AQUI AO LADO
AO QUE NINGUÉM PODE ESCAPAR, AI ISSO NÃO
É A UM BELO PRATO DE CALDO, MACIÇO, DE GRÃO
ONDE FLUTUAM FOLHAS DO VERNÁCULO AGRIÃO
NAS ÁGUAS LÍMPIDAS APANHADO E BEM LAVADO
NÃO FOSSE ALGUMA SANGUESSUGA A ELE AGARRADA…
PIMPÃO RECHONCHUDO HABILMENTE PESCADO
POR MAIM, AMIGO FIXE E MUITO ENGRAÇADO,
BEM FRITO E EM SOFÁ DE PIMENTO ACAMADO…
LOGO APARECERÁ  BEM POEJADO E ALHADO…
SEMPRE DISPONÍVEIS LÁ ESTARÃO OS ACHINCHADOS
PICANTES, CURTIDOS, JOVENS, VELHOS MACIOS OU DUROS
E, CLARO, NÃO PODIA ESCAPAR O REDONDO DE NALGUDO
PRONTO A SER CORTADO COM FACA MOCHA
QUE ALI NÃO SE QUER GENTE CHOCHA.
O CASQUEIRO SERÁ QUASE DE CERTEZA DE TERRA RAIANA
FATIADO POIS ENTÃO E DE ESPESSURA MEDIANA
PORQUE ALGUNS SÓ QUEREM CÔDEA, GULOSOS
E DEIXAM O MIOLO, CORTANDO DE RODA, OS MAFIOSOS…
SURPREENDENTE SERÁ A SALADA DO TOMATE VERDADEIRO
COLHIDO À HORA, DESCASCADO SEM PEVIDE POR INTEIRO
E LOGO MIGADO E COM INGREDIENTES DE PRIMEIRA
LOGO ALI SERÁ TEMPERADO PARA SER DEGUSTADO
UMA VERDE SALSA, COENTRO, ALHO E CEBOLA NOVA
EM DOSE MISTURADOS SERÃO CONVITE À PROVA
DE TAPA OLHOS BACOREIRO, GROSSEIRAMENTE CORTADO
E EM TRAVESSAS DE RARA BELEZA APRESENTADO
FALTA, CLARO ESTÁ , O QUE SERÁ O PRATO PRINCIPAL
EM TACHO FUMEGANTE, QUE SE DEVE COMER A FERVER
SAIRÁ DOS BICOS  QUE SE MANTIVERAM A ARDER
UNS SENSACIONAIS SUPORTES DE BESTA UNGULADA
QUE NOUTROS TEMPOS DE CANELO ERA CALÇADA
POR FERREIRO HABILIDOSO QUE LHE RASPAVA O CASCO
E LOGO, COM CRAVOS, AJUSTAVA O ARTEFACTO AO RASTO
OS ACOMPANHANTES SERÃO DO MELHOR QUE SE PRODUZ
NADA DE ENLATADOS, QUE ISSO EM NADA ME SEDUZ
GRAVANÇO RATINHO, DEMOLHADO E BEM COZIDO
EM CEBOLA FARTA, CHOURIÇA  E AZEITE BEM FERVIDO
MAIS TIRAS DE ENTREMADA BEM PUXADA PARA DAR SABOR
QUE ISTO É TUDO FEITO COM MUITO AMOR.
E AINDA O TUBÉRCULO BIOLÓGICO ALARANJADO
BEM RECHEADO DE NACOS DE TOUCINHO FEBRUDO FATIADO
LEVEMENTE PICANTE COMO MANDA A BOA COZINHA
PELO QUE NÃO HAVERÁ GRAVANZADA COMO ESTA MINHA
FALTA PARA COMPLETAR TODO ESTE ARSENAL
AQUELE TÃO VARIADO E SABOREADO CEREAL
ENVOLVIDO EM ROXA VERDURA FINAMENTE MIGADA
COLHIDA ALI MESMO EM HORTA RAZOAVELMENTE TRATADA.
QUEM QUISER MAIS QUE APAREÇA PARA O ANO

QUE NÃO PODEIS VIVER SEMPRE À CUSTA DO TOSCANO


Quinta do Lírio, 24 de Setembro de 2016



É sempre interessante revisitar:
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domingo, agosto 28, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLV - CARDOMO

Não há nada como realmente, antes assim do que infelizmente. Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara. Quando assim não seja quatro na mesa e uma cerveja e se assim não for quatro ginjas e um licor....
As ondas do mar trazem peixe, as primeiras principalmente e assim sucessivamente...
Hoje deu-me para aqui... e ainda vai haver mais .
Este verão tem escaldado bem o povo e o campo. É sabido que a fruta de caroço se foi, e a de grainha também está pelas ruas da amargura, não falando da de pevide, que para além de ser pouca está toda "desmazelada", picada ou enodoada... Os bissextos têm lá porras, como dizia o meu amigo
Lameiras...
Já agora, lembro-me de uma história que esse bom amigo várias vezes me narrou. Não sei se serei, em absoluto, fiel ao contado, mas, com toda a certeza fica aproximado.
Contava o Lameiras que uma cachopa xêndrica, meia taralhoca, que trocava os R pelos L quando falava se queixou um dia para a ti Ana Arplano da desventura de um dia, no rebusco da espiga e recolha de lenticão se encontrou, sem fazer por isso, com  um tal de Passaloulas... ( O texto que se se segue é transcrição minimamente fidedigna da narrativa mas, não vos esqueçais que a cachopa trocava os R e pronunciava L.
Contava o Lameiras : "Eh tiAna, atão vomecêi já viu que aquele ladlão (ladrão) do Passaloulas (Passaroulas), um dia que eu andava ao lebusco da espiga e ele andava a lavlal (lavrar)com uns bulitos (burritos) me apalece de lepente com um olho de esteva pla eu cheilel (cheirar) e diz-me  assim: cheila aqui, anda cheila aqui. como se já algum dia se viu um home del (dar) a cheilel (cheirar) um olho de esteva  a uma mulhel... E mal me plecatei, aventou comigo pra os lêgos (rego) dos bulitos e apresenta-me assim a modos que um pé de cabla,(cabra) meio esfoledo (esfolado), meio por esfolel (esfolar) e enfia-mo mesmo no meio do buleco (buraco) das olinas (urinas) Eu inda lhe disse:"deixa-me tilel (tirar) os golões (torrões) das costas... mas ele dixe-me que estava bem assim e começa a dal ao cu pla baixo e pla cima, assim com quem amassa o taleigo do centeio e eu comecei  a sentil uns aldoles (ardores) pla espinha abaixo quinté palecia o fim do mundo... e ele começa a pulguel, a pulguel, a pulguel (purgar) quaté parecia que havia mai dum ano que num era esplemido ..." «Rais ta palissem cachopa. Tu num contes a mai ninguém, disse a ti Ana do Arplano. 
Era com estas  e muitas como esta estórias  que o povo se entretinha nos poucos e raros momentos   de lazer. Anda que não havia stresse não... Vai lá vai... é assim como a modos que os garotos hoje são hiperactivos e têm que ir ao psicólogo e às consultas de desenvolvimento... No meu tempo de garoto esses hiperactivos eram malcriados e o problema resolvia-se com duas chapadas na cara ou umas cinturadas pelo lado da fivela nas bochechudas nalgas e a coisa ia logo ao carril. Ai não que não ia. Vai lá vai!
Volvamos ao princípio: Não há nada como realmente...
E agora para vos desafiar a mona, deixo-vos mais um texto sobre stresse que produzi faz já uns anos. Sempre vos entretenho e escusais de fazer asneiras armados em hiperactivos, digo, malcriados. Então aí vai. Dai notícias, se vos aprouver...


STRESSE



De notar:
          Emoções, ansiedade, tristeza.... Têm também efeitos tóxicos sobre o indivíduo.
     O indivíduo, hoje, tem que se preparar para as novas vicissitudes dos tempos que correm: instabilidade/mobilidade de trabalho, novos relacionamentos sociais e profissionais.

Stresse significa:
          Tensão
          Pressão
          Coacção

Selye definiu-o como sendo: uma resposta do organismo frente a qualquer exigência que lhe é feita.
    A O.M.S., por sua vez: “é o conjunto de reacções fisiológicas que prepara o organismo para a acção”.

Assim stresse é:

1 – É a força ou o estímulo que actua sobre o indivíduo e que dá lugar a uma resposta de tensão.

2 – É a resposta fisiológica ou psicológica que o indivíduo manifesta perante um agente stressante ambiental.

3 – Stresse é uma consequência da interacção entre os estímulos ambientais e a resposta idiossincrática do indivíduo.

Significa isto que o indivíduo tende naturalmente a responder da mesma maneira a situações idênticas desde que delas tire resultados positivos. O homem retém das suas experiências o que lhe é vantajoso e despreza o que não o favorece. Em regra, este tipo de reacção é passageiro, mas a sua continuidade e/ou prolongamento pode acarretar uma grande variedade

De sintomas e até mesmo toxinas, agressões físicas, fadiga e outras situações emocionais.
No limite advém o Síndroma geral de adaptação que não raro leva ao esgotamento.


Vejamos como Selye lê este síndroma:

1 – Reacção de alarme – o indivíduo ameaçado pelas circunstâncias altera-se fisiologicamente pela activação de uma série de hormonas, que obrigam o cérebro a intervir fazendo agir o centro regulador do hipotálamo produzindo factores libertadores, como por exemplo a adrenalina das supra-renais.

2 – Estado de resistência – Uma submissão contínua a factores agressivos de agentes físicos, químicos, biológicos ou sociais, apesar do organismo procurar a adaptação progressiva conduz a um cansaço das glândulas hormonais libertadoras. E ou o indivíduo consegue resistir ou entramos na fase seguinte.

3 – Fase do esgotamento – diminuição progressiva da resistência do organismo face a uma situação de stresse prolongada levando a uma incapacidade de adaptação e interrelação com o meio.

Há dois tipos de stresse


O Eustresse é agradável e construtivo levando a emoções positivas devido a bons feitos.

O distresse acontece quando nos referimos a consequências prejudiciais de uma excessiva activação psicofisiológica e é portanto, desagradável, prejudicial e causador de doenças relacionadas com stresse.
Preocupações com:
  • o horário de trabalho
  • a saúde dos filhos
  • ataraxia
  • competências profissionais
  • metodologia de gestão de tempo
  • ….
O mau stresse pode originar erupções cutâneas, hipertensão, doenças cardiovasculares, úlceras gastroduodenais, distúrbios vários do aparelho digestivo e disfunções de ordem sexual. As pessoas dominadas pelo mau stresse são mais débeis nas suas resistências e nas reacções imunológicas.
- A surpresa de um acontecimento não abate um indivíduo saudável fisio-psico-socialmente
O STRESSE AGUDO PODE ORIGINAR ÚLCERA, ESTADOS DE CHOQUE, NEUROSES... mas o crónico pode mesmo levar à redução de glóbulos brancos vitais
. São estas as patologias mais comuns: gastrite, ansiedade, frustração, depressão, agressividade, disfunção familiar, enfarte, trombose, psicose...

Genericamente podemos dizer que podemos encarar o stresse de três pontos de vista diferentes:

1 – O Clássico ou de Selye que consiste numa leitura simples do fenómeno, a saber: agente stressor – stresse – stresse psicológico ou stresse fisiológico.

2 – Outra leitura preocupa-se com o que o homem faz reagindo a um estímulo stressante, logo preocupa-se com o que acontece ao homem e não com o que acontece no homem. O homem tem aqui um papel activo na dialéctica com o meio ambiente em que se insere.

3 – Finalmente uma leitura mais exigente em que se dá simultaneamente atenção ao que é pedido ao homem e a sua capacidade de resposta.

Foi feita uma escala de 1 a 100 em que se fez o levantamento das causas de stresse mais significantes. Concluiu-se ainda, durante esse estudo em que um indivíduo pode viver mais do que uma situação stressante ao mesmo tempo.
      Alguns exemplos e por ordem decrescente: Holmes and Era

              Morte do cônjuge (100)
              Divórcio (73)
              Separação matrimonial (65)
              Prisão (63)
              Casamento (50)
              Despedimento do emprego (47)
              Reforma (45)
              Férias (13)

Outros factores de stresse são ainda pressões no local de trabalho e até a nossa auto exigência, para além de situações que derivam de uma comunicação mal entendida, situações de doença e relações interpessoais: sensações de ameaça, isolamento, repressão, pressão de um grupo, falta de controlo sobre os acontecimentos, frustrações nas expectativas pessoais e/ou profissionais...
Podemos ainda ter outros agentes stressantes na psicossociologia quando interpretamos mal uma situação atribuindo-lhe significado errado e gravoso, mudanças de estado ou emprego, insegurança....

Resumindo, stressam-nos:

1 – Acontecimentos vitais intensos e extraordinários (mudanças decisivas no decurso da nossa vida).

2 – Acontecimentos stressores do dia a dia: um engarrafamento ou uma discussão.

3 – Situações de tensão crónica prolongada: doença prolongada, desemprego tardio e duradouro...


Factores outros ainda podemos invocar como os resultantes de cataclismos (terramotos/maremotos, tornados, desastres...) os quais deixam de ser pessoais para serem colectivos quando não nacionais e até mundiais.
É aqui que surge por vezes o stresse pós-traumático em que os acontecimentos são revividos em sonho ou mneses recordantes, que levam a uma apatia, incompatibilidade relacional com os outros, abuso de fármacos...
Os agentes stressores pessoais (morte de familiar chegado, p. ex.) são intensos mas vão-se esbatendo com o tempo, salvo situações decisivamente marcantes como a violação, por exemplo.
Num outro grupo incluímos os aborrecimentos do dia a dia e que podemos denominar de ambientais: pneu em baixo, avaria de electrodoméstico, filas em instituições públicas ou não,...
Aqui se podem ainda incluir as dores de cabeça ou de costas, garganta... Bem como a insatisfação com e no trabalho, falta de privacidade, etc.
Notemos todavia que no nosso dia a dia também podem ocorrer situações de eustresse sejam com o aplauso ao nosso trabalho, sejam a conclusão de um empreendimento, uma boa classificação, etc...

Como moderamos o stresse?

          Desde logo através da nossa relação com os outros: o apoio social e emocional que umas pessoas dão às outras alivia a situação stressante. Até mesmo animais de estimação possibilitam o efeito de relaxo, ah! Pois...o dinheiro...

      Sem dúvida que uma boa leitura por parte de um indivíduo de uma situação potencialmente geradora de stresse é meia vitória sobre essa mesma situação.

          Auxílios externos (médicos,familiares, medicamentos...)

Padrões de conduta:

     Ritmo de vida apressado, achando que os outros trabalham sempre devagar, vivendo num constante aperto o que pode conduzir a problemas de ordem coronário-cardíacos. As pessoas com este tipo e comportamento são geralmente muito impulsivas e impacientes.


       Ao contrário, pessoas mais calmas com leitura razoável das situações são mais inibidas e acomodam-se com mais facilidade e acabam por resolver as situações de forma positiva sem se deixarem abater.

É este posicionamento positivo que não é de modo algum impossível para os mais coléricos e emotivos que fortalece psicologicamente o indivíduo e o torna equilibrado e descontraído, com interesses variados, fomentando amizades, integrado no grupo de que faz parte.
O cérebro humano e isto porque o homem pensa com o corpo todo e põe quanto é no mínimo que faz acaba por com maior ou menor incidência tentar
resolver as situações stressantes e restabelecer um qualquer equilíbrio perdido, nu, desejo intenso de homeostasia e/ou ataraxia.
      Assim é legítimo que falemos de MECANISMOS DE DEFESA que são estratégias inconscientes que um indivíduo utiliza para reduzir a ansiedade. A arma mais comum é a ocultação da causa.
Outra forma é a apatia emocional mantendo-se um indivíduo indiferente e insensível face a uma situação negativa, (e se um médico desmaiasse ao ver um acidentado?).
Forma salutar de resolver a situação stressante é olhar para o lado positivo das questões, educando-se assim as emoções em vez de se descontrolar.

Outra forma salutar é a chamada robustez nas três componentes:

          Compromisso – dedicarmo-nos intensamente ao que estamos a fazer.
          Desafio – entendendo que a mudança é mais natural que a estagnação e que se agora está em baixo, logo estará em cima.
          Controlo – a convicção de somos capazes de dominar as situações.
Um indivíduo ROBUSTO encara o stresse com optimismo e é capaz de procurar as suas causas dando a volta por cima.

Uma coisa é certa: «apenas a morte nos separa do stresse.»

          Outras alternativas:
          Transformar uma ameaça num desafio.
          Alterar os próprios objectivos.
          Fazer exercício físico.
          Alterar alguns hábitos alimentares.
          Preparação prévia para a situação stressante.

Lembro-me bem de uma grande mão cheia de palavras, perfeitamente vulgares, mas que para mim eram tão estranhas como a estória da Judite: Não contvava com elas nem lhe conhecia o significado... É o caso desta : Cardomo...
Mas nunca entrei em stresse.... Com a minha proverbial calma esperei até descobrir o que eram.

Com a brasa que tem estado em termos de temperatura até apetece ter saudades dum inverno, daqueles bem rigorosos em que se ouviam estas e outras estórias ao serão junto do borralho depois de comidas as belas couves cozidas na panela de ferro com algum naco de toucinho e algum tanoco de pão, bem longe do cardomo que se apresentava na rua em cada poça ou lapacheiro com a água bem caramelizada, vidrada, cardomada, como depois aprendi.
É a vida... 


XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAANNNDDDDEEEEEEEE

quinta-feira, julho 07, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLIV - GALHANA

Desenho: Carlos Matos


Três eram as mulheres de pata galhana na terra xêndrica: Pieres, Nacha e Lorpa. 

Nenhuma era mais alta que 1,50 mas apresentavam um pé que, a bem dizer, se podia chamar de redondo. Mais pareciam uma raquete de ping-pong, tão espalmados eram. Faziam-me lembrar a minha bisavó Isabel que pisava carapetos de silva e esborrachava  até lacraus com a sola do pé. O calo era tal que quase - perdoe-se-me a ousadia - podiam levar cravos com ferraduras nos cascos em vez de sapatos. Sempre descalças - uma e as outras - nem o alcatrão a escaldar no pino do verão ou o gelo nos rigores do caramelo de algum modo as preocupavam. Podia dizer-se sem receio de errar  que eram absolutamente insensíveis na planta dos pés.

Se as três calhassem a pisar um alfobre, não nasceria uma única couve...

Pieres limpava ruas e estrada de tudo quanto fosse gravato. Andava sempre de molídia na cabeça e não sei como é que ela segurava verdadeiros ninhos de cegonha escarapuçados sem qualquer nagalho: uma verdadeira equilibrista...

Nacha julgava-se cantora: a sua voz estridente de cana rachada arrepiava e deixava meio mundo com pele de galinha. Zé Luís Barata, essa vedeta, especialista em aldrabices conjuntamente com Mnel Freitas, iludiram Nacha um dia dizendo-lhe que o António Sala e a Olga Cardoso a queriam ouvir ao vivo na Rádio Renascença e não fora o seu filho João Manel - o Salazar - de tantos roubos que fazia, a telefonar para o irmão Chico que era bombeiro em Lisboa, e Nacha apareceria na Rua Ivens, no programa da manhã, pronta para cantar a Senhora do Almortão, a Senhora da Póvoa e a moda de Castelo Branco da Eugénia Lima...

Lorpa dava conta de tudo e calcorreava desde o bairro à Lagariça e do cemitério ao Ribeiro cimeiro. Nada se passava nas terras xêndricas que Lorpa não desse conta e em primeira mão desse notícia na zona do Tribunal, quer dizer, no Batoco. Foi ela que anunciou o julgamento em tribunal de dois primos, porque ela (a prima) engravidara do tal primo e o relato era mais ou menos assim: " Tu não o negues, primo Chico...duas vezes mo pediste e três vezes o tiveste: uma vez a cavalo na carroça a caminho da Lameira da Pinta, outra na quelha funda, ali prós lados da tapada do bargão e a terceira na adega do meu pai, um dia que ele tinha ido à lenha para a minha mãe fazer as filhós... Tu não o negues, primo Chico” ...As minhas desculpas por alguma infidelidade na transcrição, mas  isto já se passou, vão para aí cinco mãos cheias de anos... Adiante...

Posso, todavia, afiançar-vos que a elas não as afectava, pelo menos pelo lado dos pés o reflexo ou reflexos do texto que convosco a seguir partilho. Chama-se o homem físico-químico-eléctrico:

1-Antes de ser indivíduo o homem é um ser social.
Antes de ser racional é emocional.

2-  As emoções impelem a uma acção: ou fuga, enfrentamento ou indiferença.
Todas elas são reguladas por processos físicos/químicos/eléctricos.

3- Damos, então, razão a Feuerbach:

«Nós não pensamos, quem pensa é o fósforo».

4- Se repararmos, em absoluto, somos um processo químico:
4/5 do nosso corpo é água (H2O) e o resto é um pouco de cálcio nos
ossos, mais ferro, magnésio, sódio, potássio, zinco,…Química, enfim.

5 – e físico, pois claro, obedecendo como tudo às leis da gravidade e do
movimento, à temperatura do corpo, ao ritmo cardíaco, aos ciclos
circadianos,…

6- Eléctrico: quem não bateu já como cotovelo numa esquina e não disse que apanhou um choque?! Os influxos nervosos são eléctricos. A nossa relação com o mundo está dependente das informações que vão chegando ao cérebro. A mensagem vai e vem como a energia eléctrica nos condutores. Até as avarias são semelhantes: interrompem o circuito.

7-As emoções alteram o nosso bem-estar, proporcionando-lhe desde a euforia à depressão, até às psicoses e à loucura.
A causa de tudo isto são as nossas componentes hormonais.
As hormonas são as vedetas destes fenómenos. O nosso organismo fabrica essas hormonas através de glândulas específicas.

8 – Se estamos quentes em excesso as glândulas sudoríferas cumprem a função de nos arrefecer, se mastigamos, as salivares liquefazem os alimentos, se se nos irritam os olhos, as lacrimais irrigam o globo ocular, … mas há outras glândulas ocultas que lançam no organismo outro tipo de hormonas que são decisivas no nosso comportamento.

9- Do bom funcionamento hormonal depende muito o nosso sentir.
As químicas que elas segregam de forma autónoma – por isso o cérebro nem se preocupa muito dada a sua eficácia na resolução competente dos problemas que vão surgindo - são indispensáveis ao bem estar bio-fisio-psico- sócio-eco-religio-geo… do ser humano.

10- Se o pâncreas não fabricar insulina o excesso de açúcar pode causar a diabetes com tudo o que isso implica, se a tiróide não for regular a carência ou excesso da tiroxina altera gravemente o relacionamento com o mundo e com os outros, se as supra renais não produzirem adrenalina pareceremos umas lesmas, se as gónadas não cumprirem as suas diferentes funções seremos uns indistintos sexualizados, …

11 - Mas é a nível do cérebro – esse órgão superior do nosso organismo - que o mais decisivo de passa.
Não é por acaso que juntinhas, mesmo no centro do córtex (acreditando no mapa cerebral) se situam as funções determinantes e as glândulas respectivas: o hipotálamo, a hipófise, a amígdala, o hipocampo,… e cada uma dela segrega uma ou mais químicas.

12- Nem nos damos conta mas até quando adormecemos são essas vedetas que nos regulam, e quando comemos também, e se sentimos sede ou apetites sexuais são ainda essas glândulas que nos estimulam ou inibem.

13 – Um pensador contemporâneo, húngaro, disse que o homem é o produto melhorado da evolução da matéria. É como que a sua refinação.

14 -Contas redondas: o ser humano é uma máquina com uma engrenagem muito complicada e o sistema relacional entre as diferentes peças está muito longe de ser conhecido. Do ser humano sabe-se tanto como do oceano: quase nada.

15- Apreciemos sumariamente o papel de algumas hormonas e, concretamente daquelas que interferem directamente no nosso comportamento diário e têm implicações no relacionamento com os outros.

As hormonas são neurotransmissores e actuam directamente sem precisarem de “ordem” do sistema nervoso central, que só depois se dá conta do que resultou dessa interferência autónoma.


16 – Serotonina: reponsável pelo bem estar, pelo estado de calma e tranquilidade, lassidão;
Dopamina: actua directamente sobre a nossa disponibilidade para a acção, liberta energia para enfrentar situações não habituais;
Norepinefrina: facilita a apreciação de situações e ilumina na selecção da alternativa correcta;
Tiroxina: decisiva na homeostasia comportamental: o seu excesso dá irritabilidade constante e a sua carência uma incapacidade reactiva e sonolência continuada levando à abulia;
Insulina: reguladora da quantidade se açúcar no sangue e, portanto, se ela for em excesso conduz ao aumento inevitável do stress;
Noreadrelina: capacita para uma sobreatenção em situações mais complicadas.

17 – Há alimentos que facilitam a sua produção e outros que a impedem ou reduzem.  Por isso, às vezes, temos apetites específicos.
Esses  alimentos não são exclusivamente comestíveis: podem ser tácteis (uma carícia, ou um estalo), visuais, (uma paisagem encantadora ou uma serpente), auditivos (uma música relaxante ou uma discussão arreliadora)…

18 -  Mas melhor que todas esta potencialidades organísmicas somos nós e a nossa personalidade os responsáveis maiores pela aquilatação e  modus operandi  face a uma situação concreta. Mais ainda se for resultado de uma relação entre pessoas.

19 –Foi talvez Vygotsky quem pela primeira vez e de forma fundamentada chamou a atenção para a importância do nosso ambiente social nos primeiros tempos de vida.
Foi ele que provou que todos os nossos comportamentos superiores radicam na nossa socialização e enculturação.

20 – É assim que leitura, escrita, comunicação, linguagem, abstracção, criatividade,…, assentam nas bases sócio económicas em que vivemos.
Enquanto indivíduos estamos no ponto de encontro entre o orgânico e o social e não há dúvida que uma alteração cognitiva influencia os estados emocionais e que estes contribuem decisivamente para as flutuações cognitivas.

21 – Os estados emocionais são filtros sempre presentes na nossa tomada de consciência do mundo envolvente.
Ora a interpretação do mundo é feita pelo cérebro e se este está bem irrigado por um coração calmo e alegre, faz uma leitura diferente daquela que faz quando o sangue que lhe chega vem dum coração triste e agitado.

22- É aqui que voltam à baila as nossas hormonas já que não podemos parar para dar ordem para elas actuarem. O nosso cérebro substitui-nos e o sistema nervoso actua por nós. Se ele estiver saudável a resposta é a melhor e se estiver doente a resposta pode não ser a mais adequada. O simpático e o parassimpático agem por nós.

23- Num mundo como de hoje onde tudo é efémero, onde não temos tempo para ter tempo, um sistema nervoso saudável resiste melhor às vicissitudes, ocorram elas onde ocorrerem: casa, família, trabalho, instituição,… É consabido que hoje por hoje se instalou o individualismo e,…,

24 – Se vivermos numa situação de stress crónico o nossos sistema imunológico fica depauperado e, em consequência, as nossas resistências são diminuídas e acabamos por nos deixar vencer pelas situações em vez de lhes conseguir resistir de forma inteligente e criativa.

25- Sempre que há relações interpessoais há atritos: desde o lar, à instituição, à sociedade. Nada há que satisfaça a todos com satisficiência como queria Herzberg.
Afinal foi o Caim que matou o Abel e não ao invés: o mal e a inveja é que ficaram: a honradez e a honestidade morreram.

26 – Basta que numa instituição haja um perverso para, tal como no cesto das maçãs basta uma podre para contaminar todas as outras, para, dizia, todas as relações interpessoais viverem num ambiente de desconfiança, frio, azedo e intratável.

27 – De sua natureza, o perverso bate e foge, mente, camufla, morde por trás, achincalha, desqualifica, atenta contra a dignidade das pessoas, não tem princípios éticos e a sua consciência não o remorde.

28- Há sempre que desconfiar se alguém nos incumbe de uma tarefa e não nos fornece os meios para a cumprir. Pode muito bem ser que se inicie aí uma perseguição muda mas contínua…é o que se chama mobbing ou acosso profissional.

29 – Quando nos perguntamos a nós mesmos «porquê eu, porquê a mim, que mal fiz eu para merecer isto», algo vai mal porque já nos estamos a sentir injustiçados e isso mexe connosco… Mais a mais se pusemos no trabalho que cumprimos o máximo da nossa competência e afinco.

30 – Daí ao stress é um passo e as consequências podem ser muito complicadas: já não restam dúvidas da relação directa entre os distúrbios emocionais e as perturbações cardio-vasculares, digestivas e imunológicas; problemas de integração social, irritabilidade constante, insónias, agressividade desajustada, dificuldade de concentração, esgotamento, AVC, enfarte, úlceras, colites…

31- O Poder e o anseio por ele e consequente desejo de manutenção é muitas vezes a causa de toda esta perversidade. É um maquiavelismo renascido. Mais a mais num mundo como de hoje onde os grandes valores da ética clássica se perderam e o humanismo perde para um materialismo e consumismo desenfreados.

32 – A ideologia neo-liberal, hoje reinante, conduz inevitavelmente a uma voracidade de pessoas e bens que se repercute no seio de pequenas instituições como uma escola por exemplo.
A liberdade quando exagerada leva ao descalabro e à desavença permanente, ao desejo de vingança e à ausência de compreensão e inter ajuda.

33- A competência dá lugar apenas à competitividade e todos os meios são legítimos desde que favoreçam os desígnios de quem detém o poder.
É o cumprimento do reino do instinto mais primário, de um niilismo arrasador, de uma transformação radical do homem.

34 –É aqui que entra a resiliência, essa capacidade que um homem de bem, de personalidade íntegra e de força de  vontade indomável ( sem ferir os outros) senhor das suas capacidades e rendibilizando-as ao limite, se levanta face às maiores desventuras, atrocidades, injustiças,…

35 – A resiliência é a não desistência face a contrariedades, é a capacidade mais que física, antes psíquica e social de, ao longo do ciclo de vida, saber viver com a idade que tem e adaptar-se a todas as circunstâncias não se deixando abater por nenhuma. A resiliência implica uma visão positiva de tudo o que nos acontece. Mais que resistência é ultrapassagem.

36 – Muitas vezes a superação de dificuldade é difícil se não impossível por parte de uma pessoa sozinha: é aqui que a saúde do próprio, dos amigos, dos companheiros de profissão, da entidade hierarquicamente superior e até dos familiares, médicos e outros agentes se torna necessária porque,

37 - Nenhum de nós é melhor do que nós todos juntos.