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Terça-feira, Março 13, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXVII - BURRANCANA

Se há animal em que a performance não condiz com o nome, sem dúvida, esse é o burro. Já vos trouxe aqui alguns dos mais famosos asininos da família xêndrica. Perdoareis, todavia, que "ressuscite" alguns - ou não estivéssemos nós perto da festa do anho pascal - !
Começo pela famosa burra do velho Freitas a quem só  faltava falar, pois, garantia ele, se fosse à escola e fosse dotada de mãos, escreveria como nenhum estudante; depois, o ultra burro do Zé Luís Barata, de nome o ESTUDANTE a quem não era preciso guiar na lavra, aguilhão para se acostar fosse ao tiro do carro em que fazia parelha com uma vitela turina - a BONECA -, fosse aos varais da carroça, fosse à tracção do arado ou charrua... Nunca precisava de guia e bastava que alguém estivesse na ponta da torna e lhe mudasse a aiveca que ele se encarregava de trazer o rego sempre a direito até à outra extrema; a um assobio parava, a dois arrancava, sempre em marha certa, sem esticões; a ti Lurdes só lhe dizia: ENCOSTA!  e ele ajustava ao baturel onde ela estava, bastando que se deixasse cair para cima da albarda para ficar montada e guiava-o sem esforço apenas com pequenos toques de rédea; não comia fora do pasto e nunca roeu nada para além dos cômoros das propriedades de Zé Luís; sabia de cor os caminhos  dos terrenos, bastando, tão só, que o "enregueirassem" como dizia Zé Luís que, muitas vezes, quer com a bácora no corpo, quer de noite e ele se dormisse, sempre o conduzia ao destino sem se enganar; manso como a terra, era o que se podia chamar um burrancana! Mas, havia mais: o burro inteiro da Ti Conceição Pires do João Rela, pequeno e verguio, com uma pujança de alto lá com o chouriço: cobria tudo quanto fosse burra saída! A este propósito perguntou-me um dia aquele que alguns chamavam de burrancana  -João Feijão - : "Sabes quando é que uma burra anda saída? " E eu « Não!» E vai o Feijão: " Olha que o burro sabe! "
A minha avó materna tinha uma burra que era qualquer coisa de invulgar: ia de aldeia ao Sabugal por montes e vales a passar ali ao Salgueirinho, pela serra da Malcata e a velhota ia atrás arreatada ao atafal da albarda e dormia a andar sempre ao ritmo da burra que a levava, a ela e aos figos secos, às barras de sabão, às dúzias de ovos e a uns quilos de toucinho februdo até ao mercado! um espanto!Conhecia-me na perfeição e fazia o que eu lhe ordenasse. Também ninguém a tratava como eu que a desaguava sempre com umas águas de farelo que ela sorvia até à última gota.
Enfim... paremos com a enumeração explicativa, mas muitos mais podiam vir aqui à liça,: o calmeirão do Alberto Rogante, a pachorrenta do Jaime Pexogo, o esquivo do Calça Defuntos, sei lá! tantos!
Bem... do que não restam dúvidas é que o mais burro de todos os animais somos nós mesmos: os seres humanos. Ufanamo-nos de ser o Rei dos animais, de estarmos no topo da pirâmide hierárquica, mas basta ver  as  burrices que vamos cometendo. Deixo-vos a mor delas todas: é muito mais barato um milénio de paz do que um dia de guerra! E que fazemos nós?! andamos sempre aos tiros uns aos outros. Não que fale apenas das guerras inter ou intra povos, não!  É o marido e a mulher, o aluno e o professor, estes, uns com os outros, aqueles, idem, o peão contra o condutor e este contra todos num buzinar desenfreado, até aqueles que deviam dar o exemplo, os que pregam o bem contra o mal, vestem-se de fundamentalismos inqualificáveis e em NOME DE DEUS autorizam-se a tudo! Isto sim que é burrice!
Não é possível, menos ainda no âmbito do BASA esgotar as definições que ao longo dos tempos foram sendo dadas de HOMEM! A mais clássica e quiçá mais expandida é a de Aristóteles: o homem é um animal racional! Já antes Platão tinha dito que era um bípede sem plumas e apanhou com o cínico Diógenes que lhe apresentou uma galinha depenada e gritou: eis o bípede sem plumas! - o homem! Mais contemporaneamente  Roland Barthes acentua a mitomania do homem, como já antes a história o tinha definido como faber, erectus, sapiens, ou Goldeman corroborado por Damásio destruindo o dualismo antropológico Pitagórico/ Platónico e depois cristão e mais ainda cartesiano, quando se detêm: o homem é um ser eminentemente emocional!
Daí a sua falibilidade: reage ao instante!  É mesmo burro! Sem ofensa para os referidos!
Aqueles que mais eco fizeram dos chamados impulsos vitais, Nietzsche primeiro e depois Freud, foram proscritos, escorraçados, castrados, expulsos, dados como loucos... A verdade às vezes é dura de ouvir!
Só que eles não foram burrancanas: ousaram propagar aos sete ventos que o que nos rege são os mais primários impulsos, pulsões, forças primárias - alguns chamam-lhes mesmo instintos! -  e que o nosso prazer e a nossa salvação não está num sofrer neste mundo para alcançarmos a beatitude num outro mundo prometido por aqueles que sempre tiveram o mandarinto do poder e habilmente foram moldando as mentes para aceitarem com coragem o sofrimento, confundindo o que é cobardia com capacidade de sofrer estoicamente as agruras da vida. Quão fácil é confundir humildade com subserviência e rebeldia com atavismo cobarde! Burrancanas!
Acompanho João de Sousa Monteiro  em " Tire a Mãe da Boca" e no segundo volume "Tabu, Príncipe dos Cágados de Fraldas ao Vento Ladra às Portas do Futuro" ( publicados na Assírio e Alvim) quando diz que somos pouco mais que uma bola de sebo, de unto e de ranho: vemos os males dos outros e não vemos os hitleres, os mussolinis, os átilas, os bush, e afins que estão dentro de nós mesmos!
O que mais queremos é que os outros sejam mesmo uns burrancanas para nos montarmos neles e, de esporas no estribo colado ao calcanhar, os aferroarmos e obrigarmos a ir para onde nós decidirmos que eles devem ir!
Somos mesmo muito lindos não somos? Umas bestas é o que somos! Mainada1
Vamos lá ver se não nos deixamos montar como os burrancanas e se nos revestimos da metamorfose de Nietzsche que nos aconselha a alijar os valores caducos de uma ideologia dominante e avivamos os valores da vida, aqueles que nos fazem ser nós, sem termos que nos sujeitar apenas ao ter.
Um dia destes volto aqui. Por hoje chega.
XXXXXXIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAANNNNNNNNNDDDDDDDEEEEEEE

Domingo, Fevereiro 26, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXVI - EMBALDE/IMBALDE

Claramente, os tempos que correm são tempos em que o domínio do TER sobre o SER é avassalador. Os novos deuses  - o poder, o dinheiro, o sexo, o lucro fácil, a mentira, - substituiram os valores de não há ainda muito tempo.
Faz já uns bons anos participei na elaboração de um inquérito aplicado a púberes (11-13 anos) em que uma das questões exigia que enumerassem as 3 preferênias valorativas na vida futura.
Creio não me enganar na ordem, mas, ainda que me engane, não vem mal ao mundo por isso: Vivenda com piscina, carro desportivo, muito dinheiro para viajar. Quando, depois, foram confrontados com os outros valores: saúde, paz, amizade, trabalho, solidariedade, fim da miséria no mundo,... , alguns lá foram respondendo : pois, também, é verdade,... .
Não há dúvidas que o descartável, o consumismo, o efémero, .. invadiram o globo e a pessoa humana, esse que devia ser o primeiro e maior valor, foi relegada para trás das costas e quando alguém morre é que se recordam alguns dos seus valores humanitários, mas, a breve trecho, logo se esquece.
O humanismo - e logo a humanidade - estão a perder vitalidade e capacidade de mobilizar. Vive-se um individualismo fechado, em que nem os vizinhos do mesmo patamar se conhecem, as portas se trancam , as partilhas e convívio desapareceram, salvo naturalmente honrosas exepções.
Quando muitos dos que nos lêem foram pela primeira vez para a escola, ouviram  a mãe - em regra o pai não se intrometia nestas tarefas - dizer para o senhor professor:" Se ele se portar mal ou não aprender, puxe-lhe as orelhas, a este malandro. Só se perdem as que cairem no chão!"
Entretanto, em casa, o pai já tinha provavelmente dado o seu conselho máximo: vê lá se não me envergonhas a cara... Não te metas com ninguém, mas se algum se meter contigo, não sejas embalde e arreia-lhe logo que é para ele não se tornar a meter contigo..."
Vivia-se, então, neste transe de não nos portarmos mal, senão o senhor professor arrancava-nos as orelhas, dum lado e do outro com a máxima paterna: nunca deixes que te ponham as botas no cachaço, para não sermos imbaldes.
Dum lado a obediência, o respeito, a consideração pelo senhor professor, do outro o auto conceito, o amor próprio e a defesa do nome da família.
Vem a talho de foice que nas aldeias havia seis autoridades cuja importância não se discutia: o senhor prior, o senhor regedor, o senhor professor, o senhor presidente da junta, o senhor patrão e o senhor pai. Ninguém tratava um pai por tu.
Basta reparar, para corroborar o que atrás disse, quem eram as pessoas que pegavam no pálio nas procissões festivas e quem levava as lanternas e os estandartes...
Sabão era um dos bombos da escola. Todos lhe malhavam e ele tudo tolerava. A mãe vociferava com ele quando o inspeccionava e lhe via todos os dias novas nódoas negras. Ralhava com ele, filho único e chamava o pai à pedra dizendo que também ele era um imbalde um bananinha mole que não era capaz de incutir no filho a fibra que ela tinha.
O maior perseguidor de Sabão era o Modas, que lhe fazia a vida negra.
Era costume, quando fazíamos o exame da 4ª classe e íamos à Vila , muitos pela primeira vez com fato e gravata, era costume, dizia, levarmos sumos de litro ao senhor profesor como prova de agradecimento e reconhecimento pelo seu trabalho connosco.
O Modas era maluco por pirolito.
O Sabão levava uma garrafa de pirolito das grandes e o Modas diz para o Sabão: "passa para cá a garrafa que eu tenho sede" .O Sabão tinha sido ensaiado por mim, Coiote Pete e Contra Mestre: "Se o Modas se meter contigo, tu dizes que a garrafa é de nós os quatro e que a tua parte é a do fundo e portanto não lhe podes dar a garrafa para ele beber." O previsto aconteceu. O Modas quer a garrafa e o Sabão: " Eu dava-ta mas isto é de quatro e a minha parte é a do fundo e os outros não te dão e eu não te posso dar a minha parte que é a do fundo"
O Modas ficou a olhar para ele sem entender, mas não se atreveu a gamar a garrafa ao Sabão, com medo de que depois nós lhe chegássemos a roupa ao pêlo.
O Sabão nesse dia deixou de ser embalde e quem vinha por lã acabou por ser tosquiado.
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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

PORQUE HOJE É DIA DE ZECA



O ambiente musical é dos Luar na Lubre (galegos), a voz é da Sara Vidal (portuguesa), a música...é do ZECA.

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

A NOSSA FALADURA CLXXV - (A)MER(E)CER

O fator crítico para o sucesso do ser humano parece estar na sua capacidade criativa. Inadaptado ao meio ambiente, desenvolveu a arte de criar artifícios para que a vida lhe fosse mais fácil. Pena que essa arte carregue o paradoxo de não ser usada exclusivamente em seu próprio benefício. É caso para suspeitar que o Homem não (a)mer(e)cia tal dom.

A primeira grande criação foi o domínio do fogo (aproveita-se o ensejo para recomendar, para quem nunca viu, o fabuloso filme “A guerra do fogo” de Jean Jacques Annaud, 1981). A segunda grande criação, aquela que é habitualmente classificada como a maior, foi a invenção da roda. Mas foi sobretudo nos últimos 200 anos que a capacidade criativa do ser humano mais resultados produziu. Bons e maus. Com prejuízo de outro juízo, destaco, não necessariamente por ordem de importância: o livro impresso, a rádio, o telefone, a eletricidade, o preservativo, os óculos, o automóvel, está bem, o computador, bom, a televisão também, etc, etc.

Uma das criações que raras vezes é referenciada mas de igual importância é a do figorífo e da arca congeladora. A nossa vida seria um pouco diferente, para pior, se não tivéssemos um livrinho para ler – com óculos ou não -, um telefone/telemóvel para estar sempre contactável, um computador com internet para visitar o Baságueda, um automóvel para levar os meninos à escola, uma televisão com telenovelas da TVI... Estou convicto, todavia, que seria seguramente muitíssimo pior se não tivéssemos frigorífico ou arca congeladora.

Diferente de outros inventos, estes eletrodomésticos não vieram apenas conferir mais qualidade à nossa vida, eles vieram efetivamente facilitá-la. Sobretudo porque o conseguem numa área que nos é muito sensível: o sistema digestivo. Somos bem capazes de viver com um frigorífico (ou arca) e sem computador, duvido que tivéssemos qualquer interesse em seguir a telenovela ou espreitar a blogosfera se o mesmo eletrodoméstico não estivesse disponível (e carregado).

Mas a arca congeladora não trouxe apenas benefícios: produziu efeitos terríveis no sistema sócio-económico das pequenas comunidades rurais. Explicito. Antes de ser possível a conservação dos alimentos na arca, os pais dos nossos pais e seus avós tiveram de desenvolver, utilizando sabiamente o seu dom criativo, esquemas mais rudimentares, mais trabalhosos, mas não menos eficazes, para conservarem alguns produtos alimentares, pelo azeite, pelo sal, pelo fumo… Não eram consumidos em fresco, mas não era por isso que sabiam menos bem. E os frescos? Como consumiam eles carne fresca sem irem à grande superfície, simplesmente, comprar? Para resolver o problema, os nossos avós e seus progenitores só precisaram de ser “sociais”, que é aquilo que o ser humano sabe fazer da melhor e da pior maneira, com os melhores e com os piores resultados. O ser humano é um eminentemente social, um ser que precisa de se relacionar com os outros, de ser solidário, de (a)mer(e)cer afetos, de os receber, de os dar...

DAR! Para (a)mer(e)cer!

Imagine-se um mundo em que o DAR era um valor supremo: quanto mais déssemos, mais (a)mer(e)ciamos, mais subíamos na escala social, mais elevado era o nosso estatuto. A riqueza e a fama não resultavam da posse mas da dádiva. E imagine-se que todos os elementos da sociedade assumiam esse valor. E que o praticavam! com o mesmo empenho que se aplica à acumulação egoística da riqueza dos nossos tempos. Um mundo (quase) ao contrário. Um mundo em que o prestigio do dador aumentaria na proporção da sua dádiva. A vantagem estava no dar, no receber, no retribuir, não no ter ou possuir.

Como bem diagnosticou Marcel Mauss na sua obra mais marcante intitulada “Ensaio sobre a dádiva”, dar, receber e retribuir são elementos essenciais à constituição e manutenção das relações sociais nos povos “primitivos”, regulando a amizade e o conflito, a proteção e a assistência mútua. A reciprocidade e o intercâmbio funcionariam como fator de estabilização da comunidade. O espírito calculista e interesseiro orientado primordialmente para a vantagem material que actualmente subjaz à dádiva seria dirigido para a conquista de prestígio social. A competição não estaria em conseguir riqueza e guardá-la egoisticamente, antes, estaria em produzi-la para a redistribuir. Mas isso era nos povos “primitivos”.

Numa escala e num tempo específico, esse mundo foi experimentado. Numa tribo do Canadá, o antropólogo Franz Boas foi encontrar uma sociedade cuja organização social assentava no potlach, um sistema de trocas em que a dádiva era socialmente valorizada. Havia uma espécie de campeonato entre as aldeias e o título era conquistado pelo chefe da comunidade que dava mais.

Na nossa beira rural, no tempo dos nossos avós e dos pais deles também se praticava uma espécie de potlach à moda da beira, e era com ele que ficava resolvido o tal problema de consumir carne fresca sem grandes superfícies comercias: bastava-lhes dar, receber e retribuir. Porque faziam por (a)mer(e)cer a dádiva…retribuindo.

Tacitamente repartidas pelo calendário do tempo mais fresco, e descontadas as partes destinadas à conservação no fumeiro ou na salgadeira, as famílias da comunidade iam matando o seu porco e distribuindo pelas outras, as partes consumíveis em fresco, num fenómeno que ia muito para além da dimensão estritamente economicista, baseada apenas no cálculo racional, porquanto carregava uma matriz de componentes simbólicos associados ao reconhecimento, à solidariedade, ao reforço dos laços, à integração na comunidade, à identidade colectiva.

A casa da Ti Mari Rancheira era a última, dos 8 irmãos dela, a matar o reco e a quarta dos 5 irmãos do Ti Manel Rancheiro, seu homem. Desde Outubro que andava a receber chicha fresca todos os fins de semana. Agora, na entrada de Fevereiro, tinha sido a vez dela. O que restava do animal depois de retiradas todas as carnes para o fumeiro e da pata traseira para o presunto da salgadeira, jazia alinhado na banca escura de castanho. Ti Manel já tinha feito uma primeira divisão das carnes, separando o chispe, o lombo, a pá, a barriga, o entrecosto, o toucinho. Ti Maria começou por escolher as partes que ia mandar para a sua irmã Natércia, que era quem (a)mer(e)cia mais, por via dos 4 garotos pequenos que lá tinha em casa; e também porque ela tinha tido pouca sorte com o homem, coitada, o borracholas do Porfírio Néné, que não tinha artes para trabalhar. E sem se lembrar sequer que a irmã lhe mandou apenas a prova da farinheira quando matou o porquinho, Maria fez questão de ser generosa: escolheu um bom naco do lombo, e outro de toucinho da barriga e acondicionou tudo cuidadosamente no fundo da cestinha de verga comprada ao Ti Ambrósio cesteiro no último mercado.

A compreensão deste tipo de impulso para a dádiva, ensina Pierre Bourdieu, precisa que se abandone o paradigma que junta a filosofia que reduz toda a ação ao princípio da intenção consciente, com a teoria economicista que dogmatiza o cálculo racional e o interesse económico. Se existe uma intenção consciente na Ti Maria Rancheira, não é seguramente a busca de proveito material. No vocabulário característico de Bourdieu, ela renega a dimensão económica a favor da dimensão simbólica, o que ela busca é a acumulação de capital simbólico, conquistado precisamente pelo ato de dar. Nenhuma sociedade sobreviviria com este paradigma como dominante.

Voltemos à casa da Ti Maria:

- Ó Mnel, anda cá. Vá! Vai lá à nossa Natércia a levar isto, mas no te demores porque inda tens de ir hoje ó nosso Farnando, ó nosso Zéi, ó nosso Tó e à nossa Glória.

Mnel Rancheiro, como qualquer homem daquele tempo, não se metia nos meandros e pormenores daquele potlach, a sua função tinha terminado com a desmancha do porco, agora era com a patroa, e saiu de casa sem sequer ver o que levava. O caminho até à casa da cunhada Natércia passava pela rua da taberna do Fatela. O convite do compadre Fcisco Cávai para um copito de tinto impôs-se à recomendação da mulher. A moda da rodada ditou que bebesse 3 e pagasse o quarto, enquanto se entusiasmava com o debate sobre a poda da vinha, arte em que ele se assumia exímio. Só se deu conta do relaxe quando o cunhado Porfírio Néné entra para a sua sexta visita ao Fatela e pergunta:

- Ó Fatela, andas a tratar os cães com´a reis, ah!?

- Eu?, Ná! Atão proquêi?

- Ia ali o fadista e o leão à bulha por um bocado de tócinho

- Ai valha-me nossa senhora! – grita Mnel Rancheiro – tu queres ver que era o tocinho estava ali na cesta qu’a minha me mandou ir a levar à tua!

- Ó porra!, atão aquilo é meu? Cabrões dos cães, espera aí qu’ê já os coço.

Sábado, Janeiro 07, 2012

ENUMERATIO DELITIARUM JENTACULI

DE CONVIVIO  AMICORUM,  HIC ET NUNC, VOS CERTIORES FACIO


I  - ANAS PLATYRHYNCHOS

II - ORYCTOLAGUS CUNICULUS

III - LEPUS GRANATENSIS

IV - CERVUS ELAPHUS

V - GALLUS GALLUS



ACCOLLITI:

BRASSICA NAPUS
OLEA EUROPAEA SATIVUS
ALLIU CEPA
VITIS VINEFERA
ORYZA PUNCTATA
BRASSICA OLERACICA SABANDA SYLVESTRIS
CUCURBITA
SOLANUM TUBEROSUM
SEMIRAMIS
ARBUSTUS ONADO DESTILATUS
CAPRA HIRCUS
OVIES ARIES
ALLIUM SATIVUM
CARYOPHILUS AROMATICUS
LAUROS NOBILIS
FRUCTUS OLIVAE


ET COETERA ...


 Aqui vos fica o desafio da descoberta...


Prometo deixar aqui também as diferentes receitas para a confecção capaz destas verdadeiras iguarias.
Entretanto ide-vos roendo de inveja, vós outros que não pudestes degustar destes verdadeiros manjares.
Mais ainda: não pudestes partilhar do convívio destes bons amigos que uma vez por ano, por esta altura, se juntam na já lendária quinta do lírio  ... quando se proceder à solene abertura dos frutos vinícolas lá criados, fermentados, acondicionados, destilados, ...  novos prazeres nos aguardam.
Tendes todo o direito de vos roer de inveja...


Pronto, deixo-vos uma receita: sopa de lebre à moda do changoto


Supondo que conseguis arranjar uma orelhuda veloz, daquelas mesmo verdadeiras, começai por ter cuidado na esfoladela. Há que ter atenção para não deixar qualquer pêlo e conferir se o tiro a não rebentou e esteja conspurcada por algumas fezes. 
A técnica consiste em convidar um amigo, fazer um corte ao meio do lombo e cada um puxar para seu lado. Aquele que ficar com a parte das patas segura a lepurina e todo o ouro trabalho compete ao artista que, com faca afiada, deixa o animal ao léu, bem limpinho, sem bofe, nem queixais, vestígios de rabo ou diafragma. Nada.... O animal deve ficar assim mesmo comédado.
Em panela de pressão com duas belas cebolas, duas folhas de louro sem veio, um ramo de mangerona e uma chisca de vinagre de vinho, coze-se durante 25 minutos, dependendo do tamanho e idade.
Quando cozida, retira-se e desfia-se. A água da cozedura, a que se retiraram as cebolas, e as ervas, é coada e reserva-se.
Numa panela juntam-se obra de um quilo de feijão branco,previamente cozido, e do qual se coou a água, feito em puré através de PASSE_VITE, para evitar que as cascas se misturem com o puré, meio quilo de abóbora amarela ou porqueira, um bom ramo de salsa, 5 cabeças de nabo, 5 batatas, 3 cebolas , 6 cenouras, a água da cozedura da lebre e do feijão, já coadas, a que se junta a considerada necessária para a sopa ficar bastinha . Estando tudo cozido, tritura-se grosseiramente com varinha ou, melhor, colher de pau e garfo à moda antiga, rectificam-se os temperos, adiciona-se a lebre, três boas couves lombardas, esfarrapadas à mão, deixa-se levantar fervura e completa-se com massa cotovelo, canudo, ou mesmo cuscus e aromatiza-se com um valente ramo de hortelã, não esquecendo de temperar com o belo azeite de oliva. Deixa-se cozer em lume brando e serve-se quase a ferver.
Experimentai e contai-me o resultado.


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