domingo, agosto 28, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLV - CARDOMO -

Não há nada como realmente, antes assim do que infelizmente. Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara. Quando assim não seja quatro na mesa e uma cerveja e se assim não for quatro ginjas e um licor....
As ondas do mar trazem peixe, as primeiras principalmente e assim sucessivamente...
Hoje deu-me para aqui... e ainda vai haver mais .
Este verão tem escaldado bem o povo e  campo. É sabido que fruta de caroço se foi, e a de grainha também está pelas ruas da amargura, não falando da de pevide, que para além de ser pouca esta toda "desmazelada", picada ou enodoada... Os bissextos têm lá porras, como dizia o meu amigo
Lameiras...
Já agora, lembro-me de uma história que esse bom amigo várias vezes me narrou. Não sei se serei ,em absoluto, fiel ao contado, mas, com toda a certeza fica aproximado.
Contava o Lameiras que uma cachopa xêndrica, meia taralhoca, que trocava os R pelos L, quado falava se queixou um dia para a ti Ana Arplano da desventura de um dia, no rebusco da espiga e recolha de lenticão se encontrou, sem fazer por isso, com  um tal de Passaloulas... ( O texto que se se segue é transcrição minimamente fidedigna da narrativa ,mas, não vos esqueçais que a cachopa trocava os R e pronunciava L.
Contava o Lameiras : "Eh tiAna, atão vomecêi já viu que aquele ladlão (ladrão) do Passaloulas (=Passaroulas), um dia que eu andava ao lebusco da espiga e ele andava a lavlal (lavrar)com uns bulitos (burritos) me apalece de lepente com um olho de esteva pla eu cheilel (cheirar) e diz-me  assim: cheila aqui, anda cheila aqui. como se já algum dia se viu um home del (dar) a cheilel (cheirar) um olho de esteva  a uma mulhel... E mal me plecatei, aventou comigo pra os lêgos (rego) dos bulitos e apresenta-me assim a modos que um pé de cabla,(cabra) meio esfoledo (esfolado), meio por esfolel (esfolar) e enfia-mo mesmo no meio do buleco (buraco) das olinas (urinas) Eu inda lhe disse:"deixa-me tilel (tirar) os golões (torrões) das costas... mas ele dixe-me que estava bem assim e começa a dal ao cu pla baixo e pla cima, assim com quem amassa o taleigo do centeio e eu comecei  a sentil uns aldoles(ardores) pla espinha abaixo quinté palecia o fim do mundo... e ele começa a pulguel, a pulguel, a pulguel (purgar) quaté parecia que havia mai dum ano que num era esplemmido ..." «Rais ta palissem cachopa. Tu num contes a mai ninguém, disse a ti Ana do Arplano. 
Era com estas  e muitas como esta estórias  que o povo se entretinha nos poucos e raros momentos   de lazer. Anda que não havia stresse não... Vai lá vai... é assim como a modos que os garotos hoje são hiperactivos e têm que ir ao psicólogo e às consultas de desenvolvimento... No meu tempo de garoto esses hiperactivos eram malcriados e o problema resolvia-se com duas chapadas na cara ou umas cinturadas pelo lado da fivela nas bochechudas nalgas e a coisa ia logo ao carril. Ai não que não ia. Vai lá vai!
Volvamos ao princípio: Não há nada como realmente...
E agora para vos desafiar a mona, deixo-vos mais um texto sobre stresse que produzi faz já una anos. Sempre vos entretenho e escusais de fazer asneiras armados em hiperactivos, digo, malcriados. Então aí vai. Dai notícias, se vos aprouver...


STRESSE



De notar:
          Emoções, ansiedade, tristeza.... Têm também efeitos tóxicos sobre o indivíduo.
          O indivíduo, hoje, tem que se preparar para as novas vicissitudes dos tempos que correm: instabilidade/mobilidade de trabalho, novos relacionamentos sociais e profissionais.

Stresse significa:
          Tensão
          Pressão
          Coacção
           
Selye definiu-o como sendo: uma resposta do organismo frente a qualquer exigência que lhe é feita.
    A O.M.S., por sua vez: “é o conjunto de reacções fisiológicas que prepara o organismo para a acção”.

Assim stresse é:

1 – É a força ou o estímulo que actua sobre o indivíduo e que dá lugar a uma resposta de tensão.

2 – É a resposta fisiológica ou psicológica que o indivíduo manifesta perante um agente stressante ambiental.

3 – Stresse é uma consequência da interacção entre os estímulos ambientais e a resposta idiossincrática do indivíduo.

Significa isto que o indivíduo tende naturalmente a responder da mesma maneira a situações idênticas desde que delas tire resultados positivos. O homem retém das suas experiências o que lhe é vantajoso e despreza o que não o favorece. Em regra, este tipo de reacção é passageiro, mas a sua continuidade e/ou prolongamento pode acarretar uma grande variedade

 De sintomas e até mesmo toxinas, agressões físicas, fadiga e outras situações emocionais.
No limite advém o Síndroma geral de adaptação que não raro leva ao esgotamento.


Vejamos como Selye lê este síndroma:

1 – Reacção de alarme – o indivíduo ameaçado pelas circunstâncias altera-se fisiologicamente pela activação de uma série de hormonas, que obrigam o cérebro a intervir fazendo agir o centro regulador do hipotálamo produzindo factores libertadores, como por exemplo a adrenalina das supra-renais.

2 – Estado de resistência – Uma submissão contínua a factores agressivos de agentes físicos, químicos, biológicos ou sociais, apesar do organismo procurar a adaptação progressiva conduz a um cansaço das glândulas hormonais libertadoras. E ou o indivíduo consegue resistir ou entramos na fase seguinte.

3 – Fase do esgotamento – diminuição progressiva da resistência do organismo face a uma situação de stresse prolongada levando a uma incapacidade de adaptação e interrelação com o meio.

Há dois tipos de stresse









O Eustresse é agradável e construtivo levando a emoções positivas devido a bons feitos.

O distresse acontece quando nos referimos a consequências prejudiciais de uma excessiva activação psicofisiológica e é portanto, desagradável, prejudicial e causador de doenças relacionadas com stresse.
Preocupações com:
  • o horário de trabalho
  • a saúde dos filhos
  • ataraxia
  • competências profissionais
  • metodologia de gestão de tempo
  • ….
O mau stresse pode originar erupções cutâneas, hipertensão, doenças cardiovasculares, úlceras gastroduodenais, distúrbios vários do aparelho digestivo e disfunções de ordem sexual. As pessoas dominadas pelo mau stresse são mais débeis nas suas resistências e nas reacções imunológicas.
- A surpresa de um acontecimento não abate um indivíduo saudável fisio-psico-socialmente
O STRESSE AGUDO PODE ORIGINAR ÚLCERA, ESTADOS DE CHOQUE, NEUROSES... mas o crónico pode mesmo levar à redução de glóbulos brancos vitais
. São estas as patologias mais comuns: gastrite, ansiedade, frustração, depressão, agressividade, disfunção familiar, enfarte, trombose, psicose...

Genericamente podemos dizer que podemos encarar o stresse de três pontos de vista diferentes:

1 – O Clássico ou de Selye que consiste numa leitura simples do fenómeno, a saber: agente stressor – stresse – stresse psicológico ou stresse fisiológico.

2 – Outra leitura preocupa-se com o que o homem faz reagindo a um estímulo stressante, logo preocupa-se com o que acontece ao homem e não com o que acontece no homem. O homem tem aqui um papel activo na dialéctica com o meio ambiente em que se insere.

3 – Finalmente uma leitura mais exigente em que se dá simultaneamente atenção ao que é pedido ao homem e a sua capacidade de resposta.

Foi feita uma escala de 1 a 100 em que se fez o levantamento das causas de stresse mais significantes. Concluiu-se ainda, durante esse estudo em que um indivíduo pode viver mais do que uma situação stressante ao mesmo tempo.
      Alguns exemplos e por ordem decrescente: Holmes and Era

              Morte do cônjuge (100)
              Divórcio (73)
              Separação matrimonial (65)
              Prisão (63)
              Casamento (50)
              Despedimento do emprego (47)
              Reforma (45)
              Férias (13)

Outros factores de stresse são ainda pressões no local de trabalho e até a nossa auto exigência, para além de situações que derivam de uma comunicação mal entendida, situações de doença e relações interpessoais: sensações de ameaça, isolamento, repressão, pressão de um grupo, falta de controlo sobre os acontecimentos, frustrações nas expectativas pessoais e/ou profissionais...
Podemos ainda ter outros agentes stressantes na psicossociologia quando interpretamos mal uma situação atribuindo-lhe significado errado e gravoso, mudanças de estado ou emprego, insegurança....

Resumindo, stressam-nos:

1 – Acontecimentos vitais intensos e extraordinários (mudanças decisivas no decurso da nossa vida).

2 – Acontecimentos stressores do dia a dia: um engarrafamento ou uma discussão.

3 – Situações de tensão crónica prolongada: doença prolongada, desemprego tardio e duradouro...


Factores outros ainda podemos invocar como os resultantes de cataclismos (terramotos/maremotos, tornados, desastres...) os quais deixam de ser pessoais para serem colectivos quando não nacionais e até mundiais.
É aqui que surge por vezes o stresse pós-traumático em que os acontecimentos são revividos em sonho ou mneses recordantes, que levam a uma apatia, incompatibilidade relacional com os outros, abuso de fármacos...
Os agentes stressores pessoais (morte de familiar chegado, p. ex.) são intensos mas vão-se esbatendo com o tempo, salvo situações decisivamente marcantes como a violação, por exemplo.
Num outro grupo incluímos os aborrecimentos do dia a dia e que podemos denominar de ambientais: pneu em baixo, avaria de electrodoméstico, filas em instituições públicas ou não,...
Aqui se podem ainda incluir as dores de cabeça ou de costas, garganta... Bem como a insatisfação com e no trabalho, falta de privacidade, etc.
Notemos todavia que no nosso dia a dia também podem ocorrer situações de eustresse sejam com o aplauso ao nosso trabalho, sejam a conclusão de um empreendimento, uma boa classificação, etc...

Como moderamos o stresse?

          Desde logo através da nossa relação com os outros: o apoio social e emocional que umas pessoas dão às outras alivia a situação stressante. Até mesmo animais de estimação possibilitam o efeito de relaxo, ah! Pois...o dinheiro...

          Sem dúvida que uma boa leitura por parte de um indivíduo de uma situação potencialmente geradora de stresse é meia vitória sobre essa mesma situação.

          Auxílios externos (médicos,familiares, medicamentos...)

Padrões de conduta:

          Ritmo de vida apressado, achando que os outros trabalham sempre devagar, vivendo num constante aperto o que pode conduzir a problemas de ordem coronário-cardíacos. As pessoas com este tipo e comportamento são geralmente muito impulsivas e impacientes.

          Ao contrário, pessoas mais calmas com leitura razoável das situações são mais inibidas e acomodam-se com mais facilidade e acabam por resolver as situações de forma positiva sem se deixarem abater.

É este posicionamento positivo que não é de modo algum impossível para os mais coléricos e emotivos que fortalece psicologicamente o indivíduo e o torna equilibrado e descontraído, com interesses variados, fomentando amizades, integrado no grupo de que faz parte.
O cérebro humano e isto porque o homem pensa com o corpo todo e põe quanto é no mínimo que faz acaba por com maior ou menor incidência tentar
resolver as situações stressantes e restabelecer um qualquer equilíbrio perdido, nu, desejo intenso de homeostasia e/ou ataraxia.
      Assim é legítimo que falemos de MECANISMOS DE DEFESA que são estratégias inconscientes que um indivíduo utiliza para reduzir a ansiedade. A arma mais comum é a ocultação da causa.
Outra forma é a apatia emocional mantendo-se um indivíduo indiferente e insensível face a uma situação negativa, (e se um médico desmaiasse ao ver um acidentado?).
Forma salutar de resolver a situação stressante é olhar para o lado positivo das questões, educando-se assim as emoções em vez de se descontrolar.

Outra forma salutar é a chamada robustez nas três componentes:

          Compromisso – dedicarmo-nos intensamente ao que estamos a fazer.
          Desafio – entendendo que a mudança é mais natural que a estagnação e que se agora está em baixo, logo estará em cima.
          Controlo – a convicção de somos capazes de dominar as situações.
Um indivíduo ROBUSTO encara o stresse com optimismo e é capaz de procurar as suas causas dando a volta por cima.

Uma coisa é certa: «apenas a morte nos separa do stresse.»

          Outras alternativas:
          Transformar uma ameaça num desafio.
          Alterar os próprios objectivos.
          Fazer exercício físico.
          Alterar alguns hábitos alimentares.
          Preparação prévia para a situação stressante.

Lembro-me bem de uma grande mão cheia de palavras, perfeitamente vulgares, mas que para mim eram tão estranhas como a estória da Judite: Não contvava com elas nem lhe conhecia o significado... É o caso desta : Cardomo...
Mas nunca entrei em stresse.... Com a minha proverbial calma esoerei até descobrir o que eram. 
Com a brasa que tem estado em termos de temperatura até apetece ter saudades dum inverno, daqueles bem rigorosos em que se ouviam estas e outras estórias ao serão junto do borralho depois de comidas as belas couves cozidas na panela de ferro com algum naco de toucinho e algum tanoco de pão, bem longe do cardomo que se apresentava na rua em cada poça ou lapacheiro com a água bem caramelizada, vidrada, cardomada, como depois aprendi.
É a vida...

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAANNNDDDDEEEEEEEEE














quinta-feira, julho 07, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLIV - GALHANA

Desenho: Carlos Matos


Três eram as mulheres de pata galhana na terra xêndrica: Pieres, Nacha e Lorpa. 

Nenhuma era mais alta que 1,50 mas apresentavam um pé que, a bem dizer, se podia chamar de redondo. Mais pareciam uma raquete de ping-pong, tão espalmados eram. Faziam-me lembrar a minha bisavó Isabel que pisava carapetos de silva e esborrachava  até lacraus com a sola do pé. O calo era tal que quase - perdoe-se-me a ousadia - podiam levar cravos com ferraduras nos cascos em vez de sapatos. Sempre descalças - uma e as outras - nem o alcatrão a escaldar no pino do verão ou o gelo nos rigores do caramelo de algum modo as preocupavam. Podia dizer-se sem receio de errar  que eram absolutamente insensíveis na planta dos pés.

Se as três calhassem a pisar um alfobre, não nasceria uma única couve...

Pieres limpava ruas e estrada de tudo quanto fosse gravato. Andava sempre de molídia na cabeça e não sei como é que ela segurava verdadeiros ninhos de cegonha escarapuçados sem qualquer nagalho: uma verdadeira equilibrista...

Nacha julgava-se cantora: a sua voz estridente de cana rachada arrepiava e deixava meio mundo com pele de galinha. Zé Luís Barata, essa vedeta, especialista em aldrabices conjuntamente com Mnel Freitas, iludiram Nacha um dia dizendo-lhe que o António Sala e a Olga Cardoso a queriam ouvir ao vivo na Rádio Renascença e não fora o seu filho João Manel - o Salazar - de tantos roubos que fazia, a telefonar para o irmão Chico que era bombeiro em Lisboa, e Nacha apareceria na Rua Ivens, no programa da manhã, pronta para cantar a Senhora do Almortão, a Senhora da Póvoa e a moda de Castelo Branco da Eugénia Lima...

Lorpa dava conta de tudo e calcorreava desde o bairro à Lagariça e do cemitério ao Ribeiro cimeiro. Nada se passava nas terras xêndricas que Lorpa não desse conta e em primeira mão desse notícia na zona do Tribunal, quer dizer, no Batoco. Foi ela que anunciou o julgamento em tribunal de dois primos, porque ela (a prima) engravidara do tal primo e o relato era mais ou menos assim: " Tu não o negues, primo Chico...duas vezes mo pediste e três vezes o tiveste: uma vez a cavalo na carroça a caminho da Lameira da Pinta, outra na quelha funda, ali prós lados da tapada do bargão e a terceira na adega do meu pai, um dia que ele tinha ido à lenha para a minha mãe fazer as filhós... Tu não o negues, primo Chico” ...As minhas desculpas por alguma infidelidade na transcrição, mas  isto já se passou, vão para aí cinco mãos cheias de anos... Adiante...

Posso, todavia, afiançar-vos que a elas não as afectava, pelo menos pelo lado dos pés o reflexo ou reflexos do texto que convosco a seguir partilho. Chama-se o homem físico-químico-eléctrico:

1-Antes de ser indivíduo o homem é um ser social.
Antes de ser racional é emocional.

2-  As emoções impelem a uma acção: ou fuga, enfrentamento ou indiferença.
Todas elas são reguladas por processos físicos/químicos/eléctricos.

3- Damos, então, razão a Feuerbach:

«Nós não pensamos, quem pensa é o fósforo».

4- Se repararmos, em absoluto, somos um processo químico:
4/5 do nosso corpo é água (H2O) e o resto é um pouco de cálcio nos
ossos, mais ferro, magnésio, sódio, potássio, zinco,…Química, enfim.

5 – e físico, pois claro, obedecendo como tudo às leis da gravidade e do
movimento, à temperatura do corpo, ao ritmo cardíaco, aos ciclos
circadianos,…

6- Eléctrico: quem não bateu já como cotovelo numa esquina e não disse que apanhou um choque?! Os influxos nervosos são eléctricos. A nossa relação com o mundo está dependente das informações que vão chegando ao cérebro. A mensagem vai e vem como a energia eléctrica nos condutores. Até as avarias são semelhantes: interrompem o circuito.

7-As emoções alteram o nosso bem-estar, proporcionando-lhe desde a euforia à depressão, até às psicoses e à loucura.
A causa de tudo isto são as nossas componentes hormonais.
As hormonas são as vedetas destes fenómenos. O nosso organismo fabrica essas hormonas através de glândulas específicas.

8 – Se estamos quentes em excesso as glândulas sudoríferas cumprem a função de nos arrefecer, se mastigamos, as salivares liquefazem os alimentos, se se nos irritam os olhos, as lacrimais irrigam o globo ocular, … mas há outras glândulas ocultas que lançam no organismo outro tipo de hormonas que são decisivas no nosso comportamento.

9- Do bom funcionamento hormonal depende muito o nosso sentir.
As químicas que elas segregam de forma autónoma – por isso o cérebro nem se preocupa muito dada a sua eficácia na resolução competente dos problemas que vão surgindo - são indispensáveis ao bem estar bio-fisio-psico- sócio-eco-religio-geo… do ser humano.

10- Se o pâncreas não fabricar insulina o excesso de açúcar pode causar a diabetes com tudo o que isso implica, se a tiróide não for regular a carência ou excesso da tiroxina altera gravemente o relacionamento com o mundo e com os outros, se as supra renais não produzirem adrenalina pareceremos umas lesmas, se as gónadas não cumprirem as suas diferentes funções seremos uns indistintos sexualizados, …

11 - Mas é a nível do cérebro – esse órgão superior do nosso organismo - que o mais decisivo de passa.
Não é por acaso que juntinhas, mesmo no centro do córtex (acreditando no mapa cerebral) se situam as funções determinantes e as glândulas respectivas: o hipotálamo, a hipófise, a amígdala, o hipocampo,… e cada uma dela segrega uma ou mais químicas.

12- Nem nos damos conta mas até quando adormecemos são essas vedetas que nos regulam, e quando comemos também, e se sentimos sede ou apetites sexuais são ainda essas glândulas que nos estimulam ou inibem.

13 – Um pensador contemporâneo, húngaro, disse que o homem é o produto melhorado da evolução da matéria. É como que a sua refinação.

14 -Contas redondas: o ser humano é uma máquina com uma engrenagem muito complicada e o sistema relacional entre as diferentes peças está muito longe de ser conhecido. Do ser humano sabe-se tanto como do oceano: quase nada.

15- Apreciemos sumariamente o papel de algumas hormonas e, concretamente daquelas que interferem directamente no nosso comportamento diário e têm implicações no relacionamento com os outros.

As hormonas são neurotransmissores e actuam directamente sem precisarem de “ordem” do sistema nervoso central, que só depois se dá conta do que resultou dessa interferência autónoma.


16 – Serotonina: reponsável pelo bem estar, pelo estado de calma e tranquilidade, lassidão;
Dopamina: actua directamente sobre a nossa disponibilidade para a acção, liberta energia para enfrentar situações não habituais;
Norepinefrina: facilita a apreciação de situações e ilumina na selecção da alternativa correcta;
Tiroxina: decisiva na homeostasia comportamental: o seu excesso dá irritabilidade constante e a sua carência uma incapacidade reactiva e sonolência continuada levando à abulia;
Insulina: reguladora da quantidade se açúcar no sangue e, portanto, se ela for em excesso conduz ao aumento inevitável do stress;
Noreadrelina: capacita para uma sobreatenção em situações mais complicadas.

17 – Há alimentos que facilitam a sua produção e outros que a impedem ou reduzem.  Por isso, às vezes, temos apetites específicos.
Esses  alimentos não são exclusivamente comestíveis: podem ser tácteis (uma carícia, ou um estalo), visuais, (uma paisagem encantadora ou uma serpente), auditivos (uma música relaxante ou uma discussão arreliadora)…

18 -  Mas melhor que todas esta potencialidades organísmicas somos nós e a nossa personalidade os responsáveis maiores pela aquilatação e  modus operandi  face a uma situação concreta. Mais ainda se for resultado de uma relação entre pessoas.

19 –Foi talvez Vygotsky quem pela primeira vez e de forma fundamentada chamou a atenção para a importância do nosso ambiente social nos primeiros tempos de vida.
Foi ele que provou que todos os nossos comportamentos superiores radicam na nossa socialização e enculturação.

20 – É assim que leitura, escrita, comunicação, linguagem, abstracção, criatividade,…, assentam nas bases sócio económicas em que vivemos.
Enquanto indivíduos estamos no ponto de encontro entre o orgânico e o social e não há dúvida que uma alteração cognitiva influencia os estados emocionais e que estes contribuem decisivamente para as flutuações cognitivas.

21 – Os estados emocionais são filtros sempre presentes na nossa tomada de consciência do mundo envolvente.
Ora a interpretação do mundo é feita pelo cérebro e se este está bem irrigado por um coração calmo e alegre, faz uma leitura diferente daquela que faz quando o sangue que lhe chega vem dum coração triste e agitado.

22- É aqui que voltam à baila as nossas hormonas já que não podemos parar para dar ordem para elas actuarem. O nosso cérebro substitui-nos e o sistema nervoso actua por nós. Se ele estiver saudável a resposta é a melhor e se estiver doente a resposta pode não ser a mais adequada. O simpático e o parassimpático agem por nós.

23- Num mundo como de hoje onde tudo é efémero, onde não temos tempo para ter tempo, um sistema nervoso saudável resiste melhor às vicissitudes, ocorram elas onde ocorrerem: casa, família, trabalho, instituição,… É consabido que hoje por hoje se instalou o individualismo e,…,

24 – Se vivermos numa situação de stress crónico o nossos sistema imunológico fica depauperado e, em consequência, as nossas resistências são diminuídas e acabamos por nos deixar vencer pelas situações em vez de lhes conseguir resistir de forma inteligente e criativa.

25- Sempre que há relações interpessoais há atritos: desde o lar, à instituição, à sociedade. Nada há que satisfaça a todos com satisficiência como queria Herzberg.
Afinal foi o Caim que matou o Abel e não ao invés: o mal e a inveja é que ficaram: a honradez e a honestidade morreram.

26 – Basta que numa instituição haja um perverso para, tal como no cesto das maçãs basta uma podre para contaminar todas as outras, para, dizia, todas as relações interpessoais viverem num ambiente de desconfiança, frio, azedo e intratável.

27 – De sua natureza, o perverso bate e foge, mente, camufla, morde por trás, achincalha, desqualifica, atenta contra a dignidade das pessoas, não tem princípios éticos e a sua consciência não o remorde.

28- Há sempre que desconfiar se alguém nos incumbe de uma tarefa e não nos fornece os meios para a cumprir. Pode muito bem ser que se inicie aí uma perseguição muda mas contínua…é o que se chama mobbing ou acosso profissional.

29 – Quando nos perguntamos a nós mesmos «porquê eu, porquê a mim, que mal fiz eu para merecer isto», algo vai mal porque já nos estamos a sentir injustiçados e isso mexe connosco… Mais a mais se pusemos no trabalho que cumprimos o máximo da nossa competência e afinco.

30 – Daí ao stress é um passo e as consequências podem ser muito complicadas: já não restam dúvidas da relação directa entre os distúrbios emocionais e as perturbações cardio-vasculares, digestivas e imunológicas; problemas de integração social, irritabilidade constante, insónias, agressividade desajustada, dificuldade de concentração, esgotamento, AVC, enfarte, úlceras, colites…

31- O Poder e o anseio por ele e consequente desejo de manutenção é muitas vezes a causa de toda esta perversidade. É um maquiavelismo renascido. Mais a mais num mundo como de hoje onde os grandes valores da ética clássica se perderam e o humanismo perde para um materialismo e consumismo desenfreados.

32 – A ideologia neo-liberal, hoje reinante, conduz inevitavelmente a uma voracidade de pessoas e bens que se repercute no seio de pequenas instituições como uma escola por exemplo.
A liberdade quando exagerada leva ao descalabro e à desavença permanente, ao desejo de vingança e à ausência de compreensão e inter ajuda.

33- A competência dá lugar apenas à competitividade e todos os meios são legítimos desde que favoreçam os desígnios de quem detém o poder.
É o cumprimento do reino do instinto mais primário, de um niilismo arrasador, de uma transformação radical do homem.

34 –É aqui que entra a resiliência, essa capacidade que um homem de bem, de personalidade íntegra e de força de  vontade indomável ( sem ferir os outros) senhor das suas capacidades e rendibilizando-as ao limite, se levanta face às maiores desventuras, atrocidades, injustiças,…

35 – A resiliência é a não desistência face a contrariedades, é a capacidade mais que física, antes psíquica e social de, ao longo do ciclo de vida, saber viver com a idade que tem e adaptar-se a todas as circunstâncias não se deixando abater por nenhuma. A resiliência implica uma visão positiva de tudo o que nos acontece. Mais que resistência é ultrapassagem.

36 – Muitas vezes a superação de dificuldade é difícil se não impossível por parte de uma pessoa sozinha: é aqui que a saúde do próprio, dos amigos, dos companheiros de profissão, da entidade hierarquicamente superior e até dos familiares, médicos e outros agentes se torna necessária porque,

37 - Nenhum de nós é melhor do que nós todos juntos.

terça-feira, maio 24, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLIII - TRAMPASSO


Começa a ficar cada vez mais raro que a profissão escolhida e exercida por quem quer que seja, se mantenha a mesma por toda a vida. Antigamente era-se alfaiate toda a vida, ou pedreiro, ou albardeiro, ou talhante, ou professor,...Hoje por hoje, esse tipo de estratificação profissional social vai ficando cada vez mais esbatido. Não é por acaso que cada vez mais ouvimos um já quase aforismo:"já nada é como dantes". Na verdade, tenho mais que saudades daqueles serões em que a família se reunia à espera que o jantar (ceia, muitas vezes) fosse despejado da panela de ferro, pela mãe, e para um barranhão de onde todos partilhavam, ora com colher ora com garfo a ementa que era muitas vezes a mesma do dia ou dias anteriores. Comia-se o que a terra dava na altura em que dava. Por exemplo, nesta altura do ano, havia muito pouco que meter na panela: já se acabaram os grelos de couve e nabo, sobram algumas acelgas para o caldo e o resto torna-se complicado conseguir variar. Sobram ainda algumas batatas encarquilhadas, já destaladas no mínimo duas, senão três, vezes, umas cebolinhas já com grelo crescido, um dentinho de alho, uma pinga de azeite e uns feijões ou grãos, alguma carne da salgadeira e viva o velho! Aos domingos ou dia de festa, de vez em quando, lá jurava bandeira um coelho, uma galinha da capoeira, um bocado de carne de quadrúpede ruminante. Mantinha-se o naco do queijo, a tora do toucinho, pão que bastasse, a malga de azeitonas e havia que aguardar pelas novidades que agora ainda germinavam na terra e hão-de redundar numa abundância, sempre contida, lá para o fim do mês, princípios de junho: alface com fartura, algum repolho, cebola nova, batata temporã, ervilha, fava, cereja nalgumas zonas, morangos (poucos) e os viajantes já iam aparecendo com tomate, melão de sequeiro,...  O certo  é que ninguém falava de glufosato e afins: caldeava-se com bordalesa, mondava-se à mão, picava-se e sachava-se, escavachava-se, esborralhava-se, desmamava-se ou desladroava-se... Vai lá vai...Isto sim que era agricultura biológica. Nada do que passa hoje em dia, em que há de tudo o ano inteiro e passamos a vida a consumir produtos cheios de infestantes e muito mais. É caso de dizer como o velho Comandante: "ah! tempo... .
Nem sei mesmo quantos trampassos me aconteceram quando por caminhos velhos, veredas e córregos, às vezes meio ensonado, lá ia eu de sachola ou enxada ao ombro, a caminho do chão e começava logo a sério a esgalhar... Não era preciso aquecimento. Depressa se ficava a suar...
Muita outras tradições, costumes, festas e até hábitos e práticas ainda me deixam marcas e, embora siga Sofia Andresen: "tenho é saudades do futuro"...de vez em quando olho para trás e ainda recupero algumas das vivências daqueles tempos de antanho. Outros trarei noutras alturas se se proporcionar, aqui no basa... Quem sabe lá um dia vos conte o maior trampasso da minha vida quando, montado numa bicicleta empanquei numa corda esticada na estrada porque um cabrito preso a um borrego se lembrou de atravessar para o outro lado da valeta e eu fiquei estatelado na estrada com os dentes partidos a verem-se-me... Quem sabe.
Foi a lembrar-me  de que tudo vai mudando e da "inexorável sucessão do tempo" que fui rebuscar  um outro texto que um dia escrevi a propósito de um dos mais candentes temas da actualidade. Trata-se dos novos deuses. Se é verdade que as velhas religiões se mantêm e algumas até estão em expansão, não é menos verdade que surgem, a cada hora, novas formas de religiosidade que assentando, na sua maioria, nos princípios e mitos das religiões tradicionais, propõem novas formas de relacionamento com as divindades e não há dúvida que elas vão atraindo fiéis.
Deixo-vos o texto que vale pelo que vale... Se me quiserdes deixar eco, sabeis como fazê-lo.


O SER, O TER E OS NOVOS DEUSES


SE EU PUDESSE NÃO TER O SER QUE TENHO
SERIA FELIZ AQUI…
QUE GRANDE SONHO
SER QUEM NÃO SABE QUEM É E SORRI!

MAS EU ME ESTRANHO
SE EM SONHO ME VI…
TAL QUAL NO TAMANHO
O QUE NUNCA VI…

Fernando Pessoa  18/6/1930


SER
TER
1- ESSÊNCIA – (AQUILO QUE O HOMEM É  INDEPENDENTEMENTE DAQUILO A QUE POSSA  ADERIR)
1 - EXISTÊNCIA  ( A REALIDADE É ONDE O HOMEM ORGANIZA A SUA VIDA)

2 – INTERESSA-SE PELA VIDA ÍNTIMA DO HOMEM (AQUILO QUE LHE É SUBSTANTIVO)
2 – INTERESSA-SE PELO HOMEM ACTIVO /PROFISSIONAL E SOCIALMENTE (VAI DO PAPEL AO ESTATUTO)

3- PERGUNTA FUNDAMENTAL: QUAL O MEU MODO DE VIDA?
3 – PERGUNTA FUNDAMENTAL: QUAL DEVE SER O MEU MODO DE VIDA?

4 – O IMPORTANTE É FORMAR PERSONALIDADES
4 – O IMPORTANTE É FORMAR O HOMEM PARA A VIDA

5 – ALGUNS EXEMPLOS HISTÓRICOS:
5 – ALGUNS EXEMPLOS HISTÓRICOS :

A – SÓCRATES
A – PLATÃO
   LIBERDADE
TAREFAS OBJECTIVAS DO HOMEM
   INDEPENDÊNCIA
BUSCA DO MUNDO PERFEITO
   COERÊNCIA


B - CRISTO
B - RENASCIMETO
 DAR A VIDA PELO OUTRO
ÊXITOS PESSOAIS / MATERIAIS / SOCIAIS

C – COMENIUS
C – POSITIVISMO
 FORMAÇÃO DO HOMEM TOTAL
O QUE NÃO FOR DEMONSTRÁVEL NÃO TEM VALOR CIENTÍFICO.

D – ROUSSEAU
D – BEHAVIORISMO
A CRIANÇA É DE SUA ESSÊNCIA BOA, A SOCIEDADE É QUE A PERVERTE
O SUCESSO DO INDIVÍDUO ACARRETA O SUCESSO DA SOCIEDADE

E – PSICANÁLISE
E – MAQUIAVEL
EQUILÍBRIO INTERIOR
 VISA A RENTABILIDADE/SUCESSO MESMO QUE A CUSTO
MATURIDADE SENTIMENTAL

QUALIDADE DE EXISTÊNCIA INDIVIDUAL


F- O DECISIVO É QUE O HOMEM SEJA ALGUÉM.
F – O DECISIVO É O QUE O HOMEM FAZ.

G - O HOMEM É UM SER VIVO PARA SER FORMADO HARMONIOSAMENTE
G – O ALUNO /HOMEM É UM SER MOLDÁVEL

H – SATISFAZ AS APETÊNCIAS INDIVIDUAIS
H – O QUE DEVE SATISFAZER SÃO AS NECESSIDADES UTILITÁRIAS DA SOCIEDADE

I – PROCURA A REALIZAÇÃO PLENA  DO INDIVÍDUO QUE SENTIRÁ PRAZER NO FAZER BEM E COM AMOR.
I – VISA DOTAR A SOCIEDADE DE INDIVÍ  -DUOS COMPETENTES E ALTAMENTE QUALI -FICADOS

J – ENSINA A VIVER BEM CONNOSCO PRÓPRIOS MAS NEM SEMPRE FORNECE OS EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS
J - FORNECE CONHECIMENTOS MAS NÃO OS BONS MODOS DE UMA SÃ CONVIVÊNCIA SOCIAL.

L – O HOMEM VALE PELO QUE É E NÃO PELO QUE TEM.
L – O HOMEM VALE POR AQUILO QUE POSSUI.

M – O RESULTADO SERÁ UM HOMEM DESINTERESSADO E COMUNITÁRIO
M – O RESULTADO É UM HOMEM UNIDIMENSIONAL QUE SE FICA PELO LUCRO E PELO PODER.


"Ser" é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação com o outro...


 "Ter" é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O "ter" não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais "ter"!

Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma, querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade?

Com Erich Fromm, vemo-nos na contingência de chegar à dolorosa conclusão de que na sociedade contemporânea prevalecem valores (cada vez mais associados ao ´ter´) como o crescente desejo de posse de bens materiais, o consumismo e a sede de poder, o que coloca a humanidade no abissal caminho da destruição social, psicológica e ambiental o que mais agravará, inevitavelmente as desigualdades sociais.

Só o desvio dessa rota mortal, poderá posicionar o indivíduo no sentido construtivo do amor, da partilha e da actividade produtiva (valores associados ao ´ser´). Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos "ser" houver...) e alguma satisfação, sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.

A grande diferença  entre o “Ser” e “Ter”  é  que se estabelece uma sociedade centrada sobre as pessoas e não uma sociedade centrada sobre as coisas


OS NOVOS DEUSES

. Em termos de valoração a cultura ocidental é matriciada (entre outras influências) pelas culturas helena – judaica – romana – cristã - islamita. Vive-se um novo paganismo que mais não é que o renascer transfigurado de uma deificação de personalidades transcendentes clássicas (vg. Deuses).

. O próprio cristianismo é, no seu todo, a convergência resultante das influências gregas e judaicas, para além de outras anteriores, menos conhecidas, como sejam a mitologia egípcia e os apotegmas dos sábios da antiguidade e mesmo do Pitagorismo de Samos.

. Se até ao Sec. XVIII/XIX não se conhecem grandes obstáculos ao cristianismo e à tese do CRIACIONISMO, a partir de DARWIN, LAMARCK,… essa tese começa a ser contestada e, com o apoio das novidades científicas assentes, por vezes também, num POSITIVISMO DESENFREADO, emerge a nova coqueluche do mundo do saber – O EVOLUCIONISMO.

. Esta nova leitura do aparecimento do homem, que claramente desmonta a defesa de que Deus teria criado o homem à sua imagem e semelhança, arrasta a humanidade para uma nova perspectiva valorativa da existência.

. Abandona-se ou, pelo menos resfria-se o dogmatismo cego que, sem discutir, aceitava o que lhe era imposto pelos líderes religiosos e aventa-se uma nova hipótese que os tempos vieram demonstrar como credível.

. Em consequência, novos valores surgem e aos poucos vão ganhando terreno substituindo a religiosidade do senso comum pela crença bem justificada de valores materiais que desmontam do pedestal a mitofilia tradicional.

. Não mais a preocupação com a divindade, o pecado, a culpa, a ameaça do Além, o espírito de sacrifício, a subalternização à hierarquia, ao sofre e abstém-te; e em vez disso o consumismo desenfreado, apego ao bem estar terreno, ao prazer sensorial, ao gozo pleno.

. Se nos cingirmos apenas ao mundo europeu – o nosso – o que se passa é que dos anos sessenta para cá e, em definitivo, a partir da queda do mundo de Berlim, a Europa se alarga e se estende até à proibida Rússia e desconhecida Ucrânia.

. Com o advento e aperfeiçoamento diário das novas tecnologias deixa de haver fronteiras espaciais e passa a haver tão só fronteiras temporais, já nada é privado e tudo é publicitado. É a uniformização do vestuário, da música e de tudo o mais, superam e aniquilam, esvaziando-os, os ancestrais valores cristãos: é o nihilismo emergente.

. Os novos valores que deixam vazio o espaço ocupado pelos valores tradicionais, a começar por deus e por aí fora, conduzem a uma nova forma de paganismo e à INVENÇÃO DE NOVOS DEUSES.

. Estes novos deuses têm nova valoração, e proporcionam uma nova visão da realidade que se resolve em novas mentalidades. Há novos deuses com novos nomes, mas a fuga ao sagrado imposto conduz inexoravelmente a nova forma de paganismo.

. Assim, o primeiro deus do novo paganismo é o PODER, ressurreição do mais que antigo deus BAAL, materializado na posse do dinheiro. É a superioridade do TER e a descida de pedestal do SER.

. Os seus templos são as instituições financeiras e os sacerdotes são os corretores, os gestores financeiros, os economistas, os executivos.

. Em paralelo surge o deus SEXO e tudo o que à sua volta gira. É a ISHTAR da antiguidade. Já não se trata da fertilidade e da sua protecção, mas de toda a envolvência que entorna o poderoso negócio do sexo. Os templos estão por todo o lado - revistas, media, cinema, publicidade,… e os seus fiéis seguidores superabundam a cada esquina.

. Outro deus contemporâneo é a transfiguração de Calíope. A deusa da fama e da glória, dos feitos heroicos e grandiosos, A celebridade, e toda a iconografia do efémero transformado em produto de consumo avassalador.

Na maioria dos casos as pessoas conhecem estas celebridades, mas não sabem quem são e menos ainda o que fizeram para ser célebres. O grande templo, o Vaticano ou a Meca desta deusa é a TELEVISÃO. Todos para lá se viram e regem a sua vida em função da sua programação.

E o telemóvel? Gravitamos continuamente em torno dele …Podemos esquecer-nos das chaves de casa, dos óculos e até da carteira…mas do telemóvel? Desse nunca. A memória perdeu valor. Guardamos tudo no artefacto e é ele que nos desperta, nos lembra da agenda, nos põe em comunicação, nos ajuda a passar o tempo, nos informa acerca do tempo. Estamos, sem dúvida, na sua dependência e evidencia-se a sua cada vez maior importância…

Há mais novos deuses, mas para amostra ficam estes.

Deixo-vos a questão: será este paganismo melhor do que o anterior à missionação heleno/romana/judaica/cristã/islamita?
A resposta cabe-vos a vós.

Nota: não é preciso ficardes de cara à banda ou de queixo caído como se vos tivesse acontecido um trampasso como o meu da bicicleta abaixo.


XXXXXXXXXXIIIGGRANDDDDEE!