Baságueda

Qu'a raio de porra é baságueda? Se me voltas a chamar isso, levas c'um changoto no costolado.

xendro(s) a buer(em) da fonte do Saber

Terça-feira, Dezembro 22, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLVII - ESCARAMOUÇO

O natural é o caos e não a ordem. Só há bem pouco tempo esta asserção começou a fazer sentido. Na verdade, na sua incontida ânsia de tudo prever e controlar, o ser humano esforçou-se por ter um conhecimento semelhante ao divino. O próprio Galileu disse que "quando temos dos fenómenos da natureza um conhecimento matemático, o nosso conhecimento desse fenómeno iguala o conhecimento divino". Estabeleceu no entanto diferença marcante: por muitos fenómenos que se conheçam, todos eles não passam de uma insignificância, face ao que há para conhecer e que Deus conhece desde todo o sempre e sem precisar de fazer cálculos.
À medida que a tecnologia foi avançando, as certezas de antanho foram sendo abaladas, caíu-se num indeterminismo ou incerteza em que a ciência gravita hoje refugiando-se num probabilismo que tudo justifica, mesmo os erros. Finalmente o erro ganhou importância e o seu aparecimento frequente não esmorece a investigação, antes a espevita e incendeia. O probável é o crível e o crível não é certo. A certeza é inimiga da verdade como o óptimo é inimigo do bom.
Foi o contributo dos novos pensadores das ciências sociais que chamou a atenção para este fenómeno e, claro, como quem faz ciência é o homem e este continua a ser"ESSE DESCONHECIDO", como bem disse Alexis Carrell, então, fácil é deduzir que se ele nem a si se conhece não lhe será possível conhecer o resto do Universo. Refugia-se então na probabilidade, não porque goste, mas devido ao reconhecimento das suas incompetências mentais e intelectuais, tecnológicas,... . Volvamos a Galileu: «o que para o homem é de dificílima inteligibilidade é para a natureza de facílima execução.»
Esta aceitação do indeterminismo não é pacífica porque a ciência, ela mesma, para progredir, tem que partir do princípio de que aquilo que sabe e em que assenta o seu saber, é seguro e lhe permite projectar para o futuro. Nós, vítimas desse saber, vamos usufruindo o que nos vão pondo à disposição. Facto é que, aos poucos a tal ordem científica com o seu método de rigor põe ao nosso serviço um sem número de benesses que nos são muito úteis se as soubermos usar bem. Sirva de exemplo o telemóvel, ou o automóvel ou um simples frigorífico...,vacinas, que sei eu!?
É nesta crença de que as coisas acontecerão como se previa que o progresso vai acontecendo e, seja de erro em erro, ou de verdade em verdade, do que não restam dúvidas é que a humanidade vai cada vez tendo mais comodidades e não vem aqui ao caso discutir se isso é vantajoso ou se é prejudicial.
Estamos prépreparados para a ordem, o método, o seguidismo. Basta experimentar dizer o alfabeto em sentido inverso e logo vemos quão vantajoso é termos connosco a ordem clássica das letras.
Vem isto tudo ao caso por causa do nosso termo de hoje: escaramouço.
A malta do meu tempo vivia na angústia permanente de ir à tropa e ser destacado para uma qualquer das ex-províncias. Se havia alguns ofícios que na tropa eram um luxo: padeiros, por ex, outros havia que eram uma convivência com o perigo e esses eram a grande maioria.
Tira Linhas foi como enfermeiro para Moçambique. Passava a maior parte do tempo no Hospital militar já que o seu trabalho era conceituado, apreciado e respeitado.
Um dia, porém, contou-me ele numa daquelas faenas gastronómicas, desta vez no quintal do Isidorico (já lá está...), em que eu fazia jus à fama de artista na culinária, foi convocado para ir num helicóptero socorrer alguns camaradas que tinham sido alvo de um emboscada.
Tira Linhas equipa-se e depressa estava no ar e passado pouco tempo já estava no local do acidente. O médico que o acompanhava logo ia decidindo o que fazer com cada um daqueles pobres soldados ali amontoados num recanto, enquanto muitos tiros se ouviam, resultado da perseguição entretanto movida aos "turras". O Helicóptero não parava, num vai vem contínuo a levar feridos para o hospital de campanha... Tira-Linhas e o médico continuavam a volta , enquanto uma máquina abria uma vala para enterrar os mortos sem nome num escaramouço de cadáveres em vala comum.
Decidiram confirmar os mortos para os enterrarem e não ficarem vestígios.
Vários outros soldados e um unimog seguiam-nos a ele e ao médico e conforme o médico dizia: "este está morto", logo dois ou três soldados o atiravam sem qualquer zelo para cima do unimog e assim se iam amontoando num escaramouço entrópico. Como calhasse é que ficavam... Numa das decisões do médico, porém, o "este está morto" teve resposta: «não tá siô, só tá muito ferido". Logo um dos soldados:´«oh preto dum cabrão sabes mai có médico? ( perdoe-se-me a violência da linguagem, mas foi assim mesmo) se ele diz que tás morto, tás morto e mainada» e já ia a pegar-lhe para o atirar para cima dos outros. Aí Tira Linhas, intervém: "que é lá isso?" Ajoelhou-se junto do ferido constatou da gravidade dos ferimentos e foi então que mostrou todas as suas competências, deixando todos de boca aberta. Era assim Tira Linhas.

Ementa daquela noite: Polvo à Algarvia que Tira Linhas tinha trazido de Lisboa

1- Coza-se o polvo - quanto maior e rosa claro for, tanto melhor -sem sal e apenas com uma cebola grande em tacho com pouca água - o polvo solta quase a água para a sua cozedura -; Demora cerca de 40 a 50 min de fervura viva.

2-Tire-se para um crivo e deixe-se arrefecer; reserve-se a água da cozedura

3- Miguem-se às rodelas umas boas 4 cebolas para um tacho largo com o azeite considerado necessário: puxem-se bem até alourarem tendo o cuidado de não deixar queimar,

4- Juntem-se tomate sem pele e uma camada de batatas também às rodelas largas, uma primeira camada de polvo e um bom ramo de salsa espalhado por cima a toda a largura do tacho

5- Acamem-se alternadamente tomate batatas e polvo, de forma a que acabe com batatas.

5.1 - Se houver, junte-se miolo de camarão

6- Reduza-s o lume e deixe-se apurar

7- Quando as batatas estiverem quase cozidas (engroladas) cortem-se dois pimentos às rodelas , rectifiquem-se temperos: sal, picante ... deite-se um copo de vinho branco e abafe-se.

8- Deixe-se acabar de apurar

9- Pique-se um ramo de coentros que se atirará por cima quando estiver a ser servido

10 - Come-se com prazer e com algumas bocas à mistura.


BOAS FESTAS: O MELHOR DOS NATAIS PARA TODOS OS BASAGUEDEIROS!

xxxiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiGGGGGGGGGGGGGRAAAAAANNNNDDDEEEEE!

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Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLVI - ABOQUILHA ou Abequilha

O velho Talha Burricos era fino como um alho... Eu que o diga. Nunca queria o gás depois das seis. Ia sempre pelo lado de trás a bater à porta, deixava a bilha e depois ia à frente e bradava: "Eh! cachopo, fica-te ali a garrafa do gás, amanhein de manhein leva-me uma." Já sabíamos o que era de manhein. E o pior era que me calhava sempre a mim.... Era a vida.
Quem fornecia quer o vinho para a missa quer o pão ázimo para a hóstia consagrada era a Casa Campos. que, não sendo por aí além, nenhum potentado, tinha a vantagem da ser governada por três irmãs, qual delas a mais religiosa e a mais poupada. Assim se manteve até que a velha da gadanha as foi ceifando e pronto: acabou-se o vinho branco arinto exclusivo para o sr prior e o pão lascado para o corpo de deus. Posso dizer-vos que quer um quer outro eram deliciosos. .. Por altura da desobriga, até porque na aldeia, naquele tempo, ainda havia xendro com fartura, era necessário fazer muita hóstia... Por ali vinham o padre Lobo das Águas, o padre Robalo das Aranhas, o padre Tarcísio do Pedrógão, o padre Manel de Penamacor, o padre Fatela da Meimoa, o padre Baptista da Benquerença, o padre Agostinho, já sem paróquia, o padre Carreto, também já jubilado,..., era mesmo uma confraria, e todos confessavam a rapaziada de aldeia que se perfilava a cada um dos confessionários. De vez em quando os padres faziam intervalo, por via das regras e da bucha que nisso, primeiro o padre Zé Pedro e depois o padre Pinto não se poupavam: era à tripa forra.
Sempre vos digo que os petiscos eram de lamber ou não fosse eu quem compartilhava essas aras de bem comer e até, às vezes, a confecção com a ti Mari Rainha. Outros tempos. Mais ainda: nenhum de vós alguma vez comeu pão ázimo com fiambre e vinho branco de missa... é o cúmulo. Se um dia vos calhar essa oportunidade, provai e depois contai-me. A pena é que já não há fiambre como antigamente e menos ainda vinho branco arinto. Vai lá vai...
Bom, a Casa Campos não faliu, mas os tempos mudaram e o padre Pinto - de boa memória - encomendou o vinho ao Talha Burricos, esse mesmo que queria o gás logo às seis da matina.
A casa dela não era longe e nem precisava de levar o mais que famoso carro quadrado. Ajudava-me à bilha do gás, punha-a ao ombro e ALA!, batia ao portão, Talha Burricos aparecia prestes, entrava pelo quintalinho, sempre pejado de mato por mor dos agueiros não atolarem, subia quatro degraus e entrava na cozinha. Já a panelinha de ferro cozia o feijão pequeno das Taliscas e o ambiente estava amornado pela lenha de carvalho arrecadada em tempo e agora a dar um jeitão. Lá ajustava eu a bilha ao redutor, experimentava a ver se tudo estava nos conformes e: "pronto, já está, bom dia e até logo". Logo O Talha burricos atalhava: «onde vais com tanta pressa...? espera aí um pouco» e para a ti Strudes (Gertrudes): « Eh mocita, arranja aí um aboquilho e leva-nos à loja.» Não tardava lá vinha o belo casqueiro embrulhado em bragal de primeira em cesto de vime e uma bandeja com uma tora de presunto, uma malga de azeitona retalhada, um queijo cabreiro num prato de esmalte e, uma vez até me calhou que havia castanhas assadas, já descascadas.
Sai-se o Talha:« Toma tento no que digo! se o queres tornar a provar tens que manter o bico fechado...» eu fiquei a olhar e ele: « vamos a provar o vinho de missa , mas no te esqueças, bico calado». O pipo não tinha torneira, deitou aguardente para desinfectar a borracha, como lhe chamava, sorveu para um pucheiro e vasou para uns copos de alumínio que até reluziam de tão areados. « Vá, bebe!» meti uma azeitona, tirei o caroço e vou-me ao néctar. Aquilo ainda não estava consagrado mas já era sacro. Que pinga de estalo! «Anda lá corta aí uma fatia de pão e um naco de abequilho que hás-de beber um copo assim comédado!» A hora era boa, a fome melhor, o branco convidava e o aboquilho era de ginjas: ataquei... Mais um alumínio e um estalo: " oh ti Tonho, este inda é melhor do que o da Casa Campos! " « É pra que vejas que eu num faço batota... isto é o sumo da uva puro, nem uma gota de água. É assim que querem é assim que têm.» Lá lhe expliquei a razão de ser daquela exigência e bebemos ainda mais uma cartolinha.
Passado não muito tempo voltei à loja e já o pipo tinha torneira. Havia mais gente que sabia que o vinho de missa lhe tinha sido encomendado e desafiaram o Talha Burricos: 'Ó ti Tonho. dê-nos lá a provar o vinho do padre!' «Eh cachopos, eu até vos dava um provo, mas o vinho é tão bom qinté coalhou com'ó azeite: experimenta a ver se já corre alguma coisa...» Lá ia um mais lampeiro a ver se tinha sorte, mas nada. « Vês!? coalhou!» Eu caladinho como um rato, saí com eles mas depressa voltei: "como é essa do vinho coalhar"? « Aprende que eu não duro sempre: o vinho já está ali em barricas, tirei-o todo por cima e meti a torneira a fazer ver. Se não fosse assim, só com os provos já se me tinha ido. » Vai lá vai! porque é que o diabo sabe muito? porque é velho, respondem os entendidos.
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Terça-feira, Dezembro 01, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLV - MORRINHA

Água de cuco só molha quem está enxuto, já dizia o velho comandante, que, mesmo com morrinha não deixava de colher azeitona. Era velho dum raio: nada o vergava, nem frio nem calor, nem fome, nem sede, nem doença, nem pão rijo, nem morcela já rançosa. O queijo, seu conduto preferido, deixava-o embrulhado em folha de botelha, no meio do arcaz da semente e, como não lhe punha indicativo, sempre que precisava dum, praguejava por céu e terra, a ponto da velha Pássara (era a parteira oficial de toda a aldeia - foi ela que me foi buscar ao Fundão) vir ao balcão da casa contígua a barafustar: "num viesse um raio que queimasse a língua, comandante do inferno! Já lá tens o lugar guardado" « Vá pra quem a lambeu, velha dum corno» O azedume era notório, mas mal ela precisasse dum chirrichichi de azeite, ou uma brasinha pra atear o lume de manhã, ou um golo de aguardente para matar a bicheza e desinfectar um dente que escarafunchava com um pau de travisco aguçado e lhe doía,..., logo a Pássara batia à porta do velho Comandante.
Não longe morava a velha Nazaréi, mãe de Zé Lopes, enxertador de nomeada, lagareiro afamado e angariador de povo para excursões a tudo quanto fosse visitável: Srª de Fátima, santa de Alenquer, capela dos ossos, Viana do Castelo, Gerês, Nazaré ... e mais caseirinho, a Srª do Incenso, do Bom Sucesso, do Almortão e da Póvoa, que sei eu, Santa Luzia do Castelejo, Serra da Estrela, barragem Castelo do Bode,..., nada lhe escapava.
Aos Domingos, depois de missa, lá andava ele de tasca em tasca, da Rosa ao Zé Rolo, do Chico ao Fatela, deste ao Cavalheiro, vinha ao adro, especava-se na estrada, sempre de livreta na mão, pronto a assentar o nome e a indicar o lugar na camioneta. A meio da tarde já não dizia coisa com coisa e não se cansava de apregoar as suas competências, que não havia na área enxertador como ele e que se às vezes lhe falhava uma enxertia, a culpa era do cobridor que não tinha cuidado e lhe desandava a pua que ele ajustara com a sua própria saliva depois de aguçada com um só corte da sua navalha enxertadeira, de tachas em freixo que ele próprio fizera, e que até fazia a barba aos pêlos das pernas de uma cachopa.
Já que se fala em enxertadores, é dever de xendro nomear o velho Cucharra, homem pesado, que já mal conheci, mas que a partir de meados de Fevereiro não descansava um dia a espalhar arintos, rufetes, rabos de ovelha, baldrões, ferrais, dedo de dama, uva formosa, moscatel e outras castas. Uma bomba, este Cucharra. Era capaz de andar, um dia a cavalo noutro, sem nunca se endireitar, sempre curvado a fazer finco nas cruzes, sem se queixar. Comia uma quarta de feijão frade com cebola e muito azeite, e um galo dos grandes, daqueles das bodas, não lhe fazia papo. Valente Cucharra: o nome advinha-lhe do facto de ter a mão encurranchada por mor de uma cortadela feita pela enxertadeira. Ia até aos Três Povos a sua fama, para Norte, e Alcafozes e Idanha-a-Velha ainda hoje têm vinha de enxerto do velho Cucharra.
Voltemos ao Zé Lopes e às suas excursões...
Duma vez tem uma ideia genial: queria comprar mais uma tapada limítrofe da sua na fonte salgueira e o dinheiro era curto.
Vai daí, andou dois meses a guardar garrafões de plástico vazios- inda eu lhe levei muitos -.
A excursão era à Nazaré. Encheu o fundo da camioneta com os garrafões e, a meio da viagem, começa a cair uma morrinha chata, miudinha, basta quanto bastasse.
Zé Lopes tinha-a fisgada e desde cedo começa a dizer que ninguém podia ir ao mar porque a água estava a ser analisada porque era do melhor que havia para o reumatismo. Ele tinha acautelado o caso e tinha escrito um postal ao Presidente da Junta da Nazaré que o autorizou a encher 100 garrafões de água do mar , mas cada um custaria 5$00.
Quem sofresse de reumatismo tinha que largar os tais 5$00, mas só ele é que podia ir encher os garrafões.
Assim foi. Os garrafões tiveram venda garantida e Zé Lopes lá angariou mais 500$00 de lucro, às abas da água salgada do Atlântico, que eram uma boa ajuda para a compra da Tapada.
E o caso ficou ainda mais sério e a veracidade do diagnóstico reumatismal foi exponenciado quando Manta-Rota, seu sucessor nestas andanças excursionistas, que entretanto tinha espetado uma sorna, devido aos etílicos, lança os olhos ao mar e exclama:« A água há-de ser mesmo boa para o reumatismo... Olhar além... inda há bocadinho a água chegava ao cimo do paredão e agora já vai ao fundo. Os gajos têm-se fartado de vender água» Todos olharam e confirmaram.
Zé Lopes asseverou: "Só lá apanha água quem tiver ordem, mainada". A morrinha recomeçou e até à aldeia ninguém falava doutra coisa senão do jeito do Zé Lopes para aquelas lides.
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Quarta-feira, Novembro 11, 2009

UMA ESCRITA QUE DÁ GOSTO

Aqui no Baságueda gostamos de uma boa história embrulhada numa boa escrita.

A que se segue foi importada, mas preenche os requisitos.




Carta dirigida pelo Dr Frederico de Moura, Médico e Historiador de Vagos, ao Dr Nogueira Lemos, Médico Cirurgião de Aveiro


Meu caro Lemos

É coisa axiomática que o pénis não obedece a freio; e é coisa de esperar que a natureza o tenha dado a animal que lhe não obedece. Mas como a esta estuporada profissão que exercemos só aparecem anormalidades, aberrações e coisas em desacordo com a natureza, surgiu-me hoje no consultório esse rapazinho que lhe envio, com um freio de tal dureza e de tal conformação que o insubmisso pénis tradicionalmente indomável, não teve outro remédio senão ceder. Calcule os mistérios e os paradoxos desta ladina natureza! Esse moço, na casa dos vinte anos com uns corpos cavernosos que devem estar isentos de qualquer obstrução, e concerteza dispondo de uma libido afinada capaz de lhe fazer sair, erecto, o próprio umbigo, resolve ir para o casamento com os seus (dele) três vinténs e confirma, então a suspeita que já tinha, de que no auge da metálica erecção, o pénis fica em crossa como o báculo de um bispo, por incapacidade de vencer a brevidade e a dureza do freio que lho verga para a terra. Calculará o meu prezado Lemos, as acrobacias de alcova que este desgraçado terá de realizar para conseguir a penetração de um membro viril, quase tão torto como uma ferradura, na vagina suplicante da consorte.

De modo que o rapazinho veio pedir-me socorro, e eu condoído peço-lhe a sua colaboração em favor da harmonia conjugal, com a certeza de que por isso ninguém nos irá acoimar de chegadores. Condoa-se a cirurgia de braço dado com a medicina que, por intermédio deste fraco servidor que eu sou, já se condoeu e endireitemos o pénis torto (e nada de confusões, que não é mole pelo que me afirma o proprietário). Lembremo-nos, sobretudo, ao praticarmos esta obra, que vem aí um tempo em que um pénis destes, mesmo em arco ou em forma de saca-rolhas, nos fariam um jeitão, e ajudemos o pobre rapaz que se compromete comigo a fazer bom uso dele, emprenhando a mulher da primeira vez que o usar, depois da operação ortomórfica que o meu amigo lhe vai fazer sem sombra de dúvida.

Desculpe mandar-lhe desta vez uma tarefa fálica! Ouvi uma mulher um dia dizer que um Phallus é um excelente amuleto e que dá sorte verdadeira. Se quiser tirar a prova não tem mais que endireitá-lo… e jogar a seguir na lotaria. Desculpe, pois, a remessa de bicho tão metediço que eu por mim prometo, logo que possa, e em compensação, mandar-lhe uma vulva virgem inacarada como uma concha de madrepérola.

Um abraço do seu amigo certo

Frederico de Moura



PS: Como a minha letra é muito má segundo a sua opinião, e como o assunto desta carta é muito importante para duas pessoas, uma das quais do sexo fraco, entendi do meu dever dactilografá-la. Assim, não haverá nenhuma razão para o meu amigo dizer que não entendeu o que eu queria e, por partida, deixar o aparelho na mesma ou pior, ao rapaz.

Quero ainda dizer-lhe que para sua compensação, tenciono depois do êxito que o seu ferro cirúrgico vai alcançar comunicar o seu nome à mulher beneficiada que, por certo, lhe ficará eternamente grata, ficando sempre com a sua pessoa presente na memória nos momentos – e oxalá que sejam muitos! – em que se sentir penetrada por um pénis que só o meu amigo conseguiu endireitar. E nem sei se o Estado virá louvar a sua acção, se lhe for dado conhecimento que os filhos que saírem daquele casal são devidos em grande parte não ao seu pénis mas, sem dúvida, à sua mão.

E filhos com a mão nem toda a gente se poderá gabar de os fazer!

Creia-me seu afeiçoado, Frederico
27/03/1958


Quinta-feira, Outubro 29, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLIV - DESANDADOR

Quando ouvi pela primeira vez A CARTA, com letra do João Monge, cantada pelos Resistência, lembrei-me de quantas vezes, também eu, ao fundo das escadas, sob as quais meu pai fizera uma tarimba para eu dormir, escrevi, aos Domingos, depois de missa e almoço, cartas muito semelhantes àquela.
O analfabetismo era um facto indesmentível, em elevada percentagem, o telefone era caro e lento e a carta era mais barata e os correios nem por isso eram muito demorados.
Poucos mais, na aldeia, cumpriam graciosamente com este mister de mandar e pedir novas dos entes queridos. Mais ainda dos famosos aerogramas que a guerra do ex ultramar também levou muitos xendros; até para Índia com o brigadeiro Leitão e Timor.
Um desses era o ti Emídio, cuja caligrafia , quando não estava borrachinho de todo, era um regalo; a outra era a ti Ermelinda, ali em frente da Lameira, mulher seca e espevitada, mexida que nem bicho da madeira, rija até mais não e de um asseio mais que sacro. O seu tinteiro de tinta, de cerâmica, branquinho, completo como só em museu voltei a ver, brilhava quase às escuras, tal a alvura com que sempre o mantinha. O aparo da caneta era lavadinho ao fim de cada desempenho e o pau que o sustinha era envolto num paninho, também ele branco de neve e repousavam todos, até próxima chamada, numa mesinha rectangular pintada de castanho e com uma toalha bordada, onde também, quando lhe calhava a vez, ficava o tríptico da Sagrada Família com a impecável lamparina de azeite sobre água, em gamela de vidro trabalhado, e sobre o qual flutuavam uma latinha triangular com as pontas espetadas em bóias de cortiça e a flor geminada, sempre acesa.
A casinha onde morava tinha uma loja que durante o Verão era bastante usada, primeiro porque vinham os cunhados de Lisboa e depois porque era muito mais fresca. Durante todo o ano, pelo menos uma vez por semana, lhe fazia uma barrela geral. Não raro, quando lhe ia a levar gás cheirava a lixívia purificante.
Foi numa dessas vezes em que lhe levei gás que ouvi pela primeira vez dois termos : estampilha (referindo-se a um selo de carta e não a uma bofetada que era o significado que eu lhe atribuía) e DESANDADOR.
Depois de ter retirado a bilha vazia e de ter submetido ao famoso click das garrafas Mobil, notei que cheirava a gás. Perguntei-lhe se não tinha já cheirado a gás, respondeu que sim, tirei o redutor e percorri o tubo: estava gretado e havia uma fuga. Comecei a tentar desenroscar a abraçadeira com uma faca, ela viu:"ESPERA AÍ QUE JÁ VOU POR UM DESANDADOR QUE É MELHOR DO QUE A FACA, NÃO TE CORTES!" E foi e veio com o desandador: uma chave de fendas. Ora aí está. A palavra não é onomatopaica, a função é: aquilo serve mesmo para fazer desandar. Registei e aqui vos fica.
Por esta altura do ano, sozinha ia colher a azeitona para a talha e, quando a colheita era muita vendia alguma. Ainda lhe comprei. Foi numa dessas vezes que eu, a brincar apostei com ela como num cesto eu era capaz de identificar dez azeitonas da mesma oliveira. Ela olhou para mim, e riu: és mai engraçado có teu pai". E eu:´« é verdade, pode acreditar» "pesa lá mas é a azeitona que eu não tenho vida para ouvir tontarias".
Acontece que eu, ao mudar a azeitona do cesto onde as tinha para uma caixa de plástico, vi um ramo de azeitonas para aí com umas dez...
«O Ti Ermelinda, vomecê não acredita que eu sou capaz de saber que dez azeitonas desta caixa são de certezinha da mesma oliveira, mas eu provo-lhe que é verdade» . Aí ela especou: "atão mostra lá" . Meti a mão agarrei o raminho e mostrei: «são ou não são da mesma oliveira?» " um raio ta palira, cachopo!" Meteu a mão ao bolso e: "Toma lá pela lição" Vinte e cinco tostões: uma fortuna. Fui direitinho ao Cavalheiro e papei um chocolate da Regina com uma Laranjina C.
Outros tempos, outras vivências, outros termos, outras marcas, outras histórias.
E a vós sempre vos digo que aquelas azeitonas só estavam seguras de um lado....
XXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGRRRRRAAANNNNNDDDDDDDDDEE

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Quinta-feira, Outubro 15, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLIII - CARRI(T)CHO

Como diria o meu amigo Zé Lameiras - que descanse - " A língua tem lá porras". E digo eu à maneira dos parodiantes: lá isso tem".
Isto não dá emprego a ninguém como no reclame invocado, mas dá gozo, e isso ninguém nos tira.
Para quem não está habituado a este linguajar, estranhará a quase impossibilidade fonética aqui ocorrida. Para quem convive com a xendrada e outros que tais, a explicação é facílima.
Linearmente, é assim: carricho vem de pequerrucho. Nem mais. É por demais vulgar que as sílabas tónicas, acentuadas graficamente ou não, sejam elementos absorventes e, a bem dizer, as sílabas circunvizinhas acabem por ficar mudas. Não falam e, como não falam, não se ouvem.
O grande linguista português, Professor Doutor Luís Filipe Lindley Cintra experimentou, com um conjunto largo de alunos seus, na Faculdade de Letras de Lisboa, gravar entrevistas a pessoas de diferente nível cultural e de diferentes regiões do país. As gravações recolhidas eram depois tratadas em laboratório e uma máquina, altamente sensível às variações sonoras, construída para o efeito, passava a escrito a faladura dos entrevistados. O resultado foi de tal modo inconclusivo que Lindley Cintra desistiu da sua pretensão e dizia que a língua portuguesa, ao contrário da italiana, por exemplo, é muito fechada e os sons não são audíveis.
Como tal a máquina, ao transpor para escrito o falado, deixava um texto de tal modo ininteligível que nem o próprio entrevistador era capaz de aí ler o original.
É mesmo. Nós falamos em nevoeiro, os italianos, esse falam ao sol. Por isso, é mesmo a língua do belo canto...
Quem alguma vez passou, ainda que ligeiramente por alguns pormenores fonéticos entende perfeitamente esta lei do menor esforço, tão frequente ela é em português.
As influências do grego são mais fortes do que se pensa e o famoso Y (que muitos aprenderam, e bem, a chamar de i grego), embora só há poucos anos tenha tido entrada oficial no alfabeto português, na verdade, há já muito que a sua influência e até utilização, eram frequentes e sentidas. Mais ainda como resultado da emigração já que a França, pode dizer-se, é uma espécie de segundo portugal na Europa e os franceses ao traduzirem-no por u, condicionam o som de pronunciação e obrigam a que se pronuncie, como se quase se assobiasse, para o distinguirem do som u, que resulta da ditongação (portuguesa, é claro) de ou. Exemplifiquemos: o som do u no fonema tu é diferente do som em ouvres.
Em português, e para abreviarmos, dizemos que o U e o I são vogais médias e que é frequente a alternância entre uma e outra.
Vamos agora ao nosso carri(t)cho: é fácil de ver que a primeira sílaba foi absorvida : o PE desapareceu porque o E é mudo e foi progressivamente absorvido pelo som forte da tónica RU. Está bem de ver que QUERRUCHO é mais difícil de dizer do que carrucho e, como o U alterna com o I, aí temos como, de repente, em vez de pequerrucho, acabamos em CARRICHO.
Tinha razão o amigo Lameiras de boa memória:"o português tem lá porras". Aí está a lei do menor esforço.
Talvez os mais famosos carrichos da xendrice, tivessem sido O Zé pequeno e o João planeta. Já nenhum deles está entre nós.
Qualquer deles era verguio e eram o exemplo vivo de que os homens não se medem aos palmos...
Vão já longe os tempos do escutismo entre os xendros. ~~
Tonho Brigadeiro conseguiu uma dinâmica muito interessante com este saudável movimento mobilizador da juventude para actividade de respeito pelo ambiente e valores sãos que nunca morrem. Zé pequeno era vizinho de brigadeiro quase ao alto da lagariça e, embora não pudesse participar nas actividades por requisições familiares, sempre que podia assistia às sessões de preparação.
Brigadeiro era um chefe exemplar e queria a rapaziada afinada:« Um escoteiro, dizia, nunca recua.» Zé pequeno tem das maiores saídas que eu algum dia ouvi: " Pois não, dá meia volta e continua sempre em frente!"
Eu tive que vir para a rua a rir e Brigadeiro, sempre sério, quis manter a malta "firme e hirta", mas a saída de Zé pequeno ecoava nos ouvidos de todos e foi obrigado a dar por concluída a sessão até ao dia seguinte, Domingo, antes de missa.

XI Grande.

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Sexta-feira, Outubro 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLII - FOGUEIRO

São muitas as teses acerca da linguagem e da linguística, bem como das funções da linguagem e mais ainda da sua utilização e finalidade. Não cabe, obviamente, no contexto deste encantador passatempo, o exercício de deambulações retóricas comparando, ou mesmo contrapondo teses a propósito desta variedade de leituras das funções da linguagem.
A verdade é que nem sempre aquilo que dizemos é entendido como gostaríamos que tivesse sido e não podemos levar a mal que o OUTRO, sempre O GRANDE OUTRO, não nos entenda com a clareza que nós pensamos ter-nos expresso. Esta presunção da clareza quase cartesiana de que partimos ao dizer que "É EVIDENTE" é, de si, uma petição de princípio, já que jamais posso pressupor que algo que eu diga seja, prima facie, evidente. A evidência é algo que o outro decide e não o que eu pressuponho. Defender que há indubitabilidades iniciais é querermos reduzir os outros a nós e impedi-los de pensar. Ora isso é o que aqui não vai acontecer. O que mais se aprecia é quem nos lê, pense por si e , se entender, disso nos dê eco, mesmo que, e ainda bem, não concorde connosco.
Sirva de exemplo a palavra que hoje aqui trazemos. O normal - o evidente - parece ser que tem a ver com fogo e até mais rigorosamente tem a ver com uma profissão - a daquele homem que alimentava a caldeira do comboio a vapor como se vê ainda nalguns filmes ou nos que ainda hoje, já não a carvão, mas, na maioria dos casos a nafta, ou outro combustível mantêm altos fornos sempre na temperatura ideal.
Nada de mais distante: no vocabulário xêndrico o fogueiro é o FUEIRO. Isso mesmo: aquele varapau, em regra de eucalipto, mimosa ou carvalho que ladeava, encalhado em buracos quadrados nas laterais dos carros de bois e que tanto serviam para amparar molho de erva ou palha, como até os taipais provisórios a fim de a mercadoria não ser apanhada pelas rodas e mesmo cair (estrume, por ex.). Quando se tratava de grandes transportes, como com os moios do cereal, aí ,os fogueiros mudavam de nome e chamavam-se estadulhos.
Montar sessenta molhos de semente em cima do estrado dum carro de vacas, era tarefa que nem todos eram capazes de levar a cabo. Se a carga caísse naqueles córregos dos caminhos velhos era certo e sabido que dava direito a choradela de entrudo e a vergonhas contínuas nas tardes maledicentes dos domingos, depois de missa enquanto se jogava o fito. Isso era limpinho.
Os Tiagos moravam num arrendamento ali para os lados do Frade a dar cômoro com as taliscas. Trabalhavam como moiros e as terras andavam sempre rodadas, semeando e alternando as colheitas para a terra não se cansar. A fona era de sol a sol e desde cedo, como aliás era costume,os garotos começavam a aprender, a bem ou a mal, o que custava a vida... O mais velho dos Tiagos estava a dar os molhos do pão ao pai com uma forca, quando, de repente, sente umas dores agudas, começa a vomitar e aos berros: " Ca raio tens, que bicho te mordeu, rais ta parta, olha agora". O velho Tiago desce do cimo do carro ainda a praguejar, mas quando viu o filho naquele estertor viu que o caso não era mangação e arrancou à pressa na burrica para a vila a ver do dr. Landeiro. O cachopo berrava que nem um capado mas lá chegou, o dr. landeiro viu logo o que passava e ala : internado imediatamente para ser operado à apêndice... Bons tempos aqueles em que se operava em Penamacor no velho hospital de st António...
Já se sabe que o asseio do homem campesino não era famoso e o tarro de suor e até de fezes agarrava-se tanto ao corpo como às ceroulas... Como a operação era mesmo premente lá foi o Tiago para a barrela. Vestem-lhe uma espécie de bata e vai para a sala a arrastar-se. Está bem de ver que a operação é inimiga de pêlos púbicos e que a enfermeira de serviço tinha que proceder à raspagem dos ditos. Ora para evitar cortes desnecessários e escusados era preciso arredar o pistolo como lhe chamava o Tiago. Diligente, a enfermeira agarrou no falo do tiago para o manter em posição que permitisse o barbeamento. Só que o tiago nunca tinha tido uma mulher que lhe tivesse mexido no ponteiro e sai-se como esta:" Já o pode deixar que ele não cai". A enfermeira riu-se e o Tiago gabava-se do tamanho que o fogueiro tinha atingido.
Xi Grande

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